Encontro Literário Celebra os 70 Anos de Fernando Canto, neste sábado (25) – @fernando__canto

Por Silvio Carneiro

Em uma noite repleta de emoção e cultura, o clube de leitura Café com Letras, em parceria com Bruno Muniz, Tiago Quingosta e a Revista Literária O Zezeu, realizará um evento extraordinário em comemoração aos setenta anos de Fernando Canto, presidente da Academia Amapaense de Letras. Este encontro especial acontecerá no SEBRAE/AP, às 18h, e promete reunir leitores, escritores, representantes do setor literário, a comunidade artística e a população em geral para homenagear um dos maiores ícones da cultura amapaense.

Fernando Pimentel Canto, nascido em Óbidos-PA, em 29 de maio de 1954, é um multifacetado sociólogo, professor doutor, poeta, cronista, contista e músico. Ao longo de sua vida, dedicou-se incansavelmente à valorização e divulgação da arte e cultura amapaenses, especialmente através de seus estudos e entusiasmo pela tradição do Marabaixo. Retratista fiel da realidade ribeirinha e propagador da identidade amazônica, Fernando Canto é uma figura indispensável na construção do patrimônio cultural do Amapá.

Com o tema central no livro “Mama Guga”, uma das obras mais emblemáticas do autor, o evento proporcionará uma imersão no universo literário e cultural de Fernando Canto. No entanto, a homenagem se estenderá a todo o conjunto de sua obra, destacando sua inestimável contribuição para a literatura e cultura regional.

A programação começará às 18h com a abertura por Soraia Brito (Clube de Leitura Café com Letras), seguida pelas boas-vindas e uma apresentação musical de Osmar Júnior e Zé Miguel, músicos com quem Fernando Canto tem várias composições em parceria. Às 18h30, Soraia Brito conduzirá a apresentação do autor e sua obra, iniciando uma conversa rica sobre “Mama Guga”. Durante a discussão, haverá intervenções artísticas e poéticas de Pat Andrade, Mathias de Alencar, Márcio Paixão, Poetas Azuis e Lara Utzig, tornando o evento dinâmico e envolvente.

Às 20h, Carla Nobre encerrará a conversa e as intervenções sobre “Mama Guga” com seus comentários sobre a obra. Em seguida, às 20h15, Hayam Chandra trará mais uma intervenção especial. Os depoimentos de amigos próximos, como Jorge Herberth, Elton Tavares, Paulo Tarso e Yurgel Caldas, começarão às 20h30, oferecendo um toque pessoal e íntimo à celebração.

A noite culminará com a entrega de uma placa honrosa a Fernando Canto pelos membros da Academia Amapaense de Letras às 21h, um reconhecimento formal e solene à sua trajetória e às suas contribuições culturais.

Este encontro literário, além de uma merecida homenagem a Fernando Canto, é também um testemunho da rica tapeçaria cultural do Amapá, tecida por aqueles que, como ele, dedicam suas vidas à arte e à identidade da nossa terra. O evento promete ser um marco na celebração da cultura amapaense, unindo corações e mentes em torno do legado de um verdadeiro mestre.

Serviço:

– Data: 25 de maio de 2024
– Horário: 18h
– Local: SEBRAE/AP – Av. Ernestino Borges, 740, Julião Ramos, Macapá-AP
– Entrada: Gratuita

Para todos que desejam mergulhar na cultura amazônica e celebrar a vida e obra de Fernando Canto, este evento é imperdível. Venha participar desta grande homenagem e vivenciar a riqueza cultural do Amapá em sua mais pura essência.

Fonte: Revista O Zezeu.

O antigo Bar Xodó e o velho Albino Marçal (do livro “Crônicas De Rocha – Sobre Bênçãos e Canalhices Diárias”)

Meu amigo Fernando Canto escreveu uma vez: “Lembrar também é celebrar. E quando se celebra se rememora, ou seja, se re-memora num tudojunto inebriante, pois o coração aguenta. E ao coração, como sabes, era atribuído o lugar da memória – Re-cordis“.

Portanto, quem tem mais de 40 anos, bebe desde os anos 90 e estudou no Colégio Amapaense gostava do antigo Bar Xodó e de seu proprietário, Albino Marçal Nogueira da Silva, o velho Albino.

Albino era uma figura querida por mim e pelos meus amigos. Principalmente pelo Edmar Campos Santos, o nosso ilustre “Zeca”.

Eu e o Zeca “gazetávamos” aula e íamos beber no Xodó. Escutávamos todas as histórias que Albino contava, ouvíamos suas músicas antigas, ríamos quando ele cortejava as garotas e fingíamos surpresa a cada vez que nos mostrava seu diploma em couro de carneiro. Era divertido.

O Xodó era um botecão no estilo antigo. Tinha um banheiro apertado, com cheiro forte de desinfetante (creolina) e frases sacanas na parede. Ah, lá tinha de tudo: fotos, velas acesas, objetos inusitados para o lugar (como um boneco do Pelezinho). Acho que dentro do Xodó tinha até bainha de foice.

Para todos aqueles que matavam aula na década de 90 só para reunir com a galera, beber, falar besteira, aquele boteco no canto da Rua General Rondon com a Avenida Iracema Carvão Nunes era o local perfeito. Os biriteiros da velha Macapá se reuniam lá para “molhar a palavra” e botar os papos em dia. Bons tempos…

O saudoso Albino Marçal

Albino faleceu há alguns anos e o Xodó fechou logo em seguida, duas grandes perdas. Quem não viveu aquela época não entende tal saudosismo, pois o nome do bar era apropriado.

Vez ou outra tenho necessidade de escrever sobre aquela época. Tempos felizes e, entre tantas ótimas lembranças, Albino e o seu Xodó foram vivências marcantes na minha memória afetiva, pois o antigo bar e seu proprietário eram nossos xodós. É isso.

*Texto do livro “Crônicas De Rocha – Sobre Bênçãos e Canalhices Diárias”, de minha autoria, lançado em 2020.

A chegada do Banana no céu – Crônica muito porreta de João Lamarão (contribuição paid’égua de Fernando Canto)

Banana – O chato mais querido do Amapá – Foto: Chico Terra

Por João Lamarão

Um mês já havia se passado daquela noite fatídica, tempo mais do que suficiente para que os tramites burocráticos do Purgatório se processassem normalmente, contando é claro, com o jeitinho brasileiro, instrumento fundamental para que qualquer processo corra rapidamente em qualquer lugar e o Banana foi autorizado a ingressar no átrio que dá acesso a porta do Céu. O ambiente normalmente tranqüilo, nesta hora estava altamente congestionado. Filas intermináveis, parecia mais com o pronto socorro durante os finais de semana do que a ante-sala do Paraíso.

Como era de se esperar, a situação mexeu com os brios do Banana que esbravejou aos quatro cantos que aquilo era uma esculhambação geral e que até ali, não havia respeito com as almas que aguardam a redenção eterna, por isso, iria se queixar diretamente a Ele. Deus, seu amigo intimo, que já o salvara de poucas e boas, de forma que a BACOL não deixaria aquilo barato.

Antigo Bar Xodó – Fotos: arquivo de Fernando Canto

Em um cantinho apertado, tipo 3×4, pois o preço do aluguel no Céu está pela hora da morte e onde foram implantadas as modernas instalações do Xodó Celestial, várias almas disputavam uma vaga no exíguo espaço a fim de conseguirem tomar uma cerveja geladinha enquanto aguardavam a vez de serem chamados pelo assessor especial de São Pedro, um negro alto e forte, ar de bonachão, que pela sua estatura sobressaia a turba, impondo respeito ao ambiente. Era nada mais, nada menos que o Pururuca.

Numa área reservada àqueles do regime semi-aberto que podem sair e entrar no Céu a qualquer hora, ao redor de uma mesa estrategicamente colocada, Paulão, Waldir Carrera, Marlindo Serrano e Bode, jogavam conversa fora. Faziam conjecturas de como estava a vida pelas bandas daqui de baixo, se haveria ou não carnaval, se a micareta na orla seria liberada, entre outras coisas.

O saudoso Albino Marçal, dono do Xodó – Foto: arquivo de Cláudio Pinho

Pela parte interna do balcão de mármore branco italiano, entre santinhos, velas e terços postos a venda, o Albino muito p… da vida meio a confusão peculiar, reconheceu nosso amigo ao longe, perdido meio a multidão e esbravejou:

– P.Q.P., taí o motivo da minha cuíra. Acabou o nosso sossego. Vejam quem acaba de chegar prá me aporrinhar.

Todos se viraram rapidamente na direção indicada. A alegria foi geral e imediatamente uma festa foi armada para receber o novo hóspede, gerando grande confusão, todos ávidos por notícias da terra, uma vez que por aquelas bandas não tem televisão e nem pega celular. Sabedores de que o Banana era onipresente, conseguia a proeza estar em vários lugares praticamente ao mesmo tempo, teria portanto, muita informação a dar.

Passada a euforia inicial, as coisas foram acalmando, mas ao largo, um grupo de almas francesas xingava até em patuá, a falta de organização do ambiente, exigindo providencias urgentes. Ao fundo, uma voz em fluente francês tentava acalmar o agitado grupo dizendo:

Franky de Lámour – Arquivo de Fernando Canto.

Monsiers et mademoiselles, calma, calma… aqui as coisas são assim mesmo. Não se preocupem que vou ajeitar tudo pra vocês. Se há necessidade de dar um jeitinho, daremos; para isso, sou a alma certa, conheço todo mundo aqui no pedaço; tenho até autorização do Todo Poderoso para trabalhar como lobista e, mais rápido do que o pensam, vocês estarão rezando um terço com Senhor. Mas antes, preciso de um adiantamentozinho prá molhar a mão do porteiro.

Ouvindo isso e intrigado com a presença de tantos franceses, o Banana virou-se rapidamente e deu de cara com nada mais nada menos que o Franky de Lámour que tentava resolver a questão:

– Franky, que bagunça é essa, cara? Aqui não é o Céu, onde tudo é mil maravilhas?

– Não Banana! Aqui não é o Céu, aqui é Caiena.

– Valha-me Deus! Dancei.

João Lamarão – Arquivo Sônia Canto

*”Essa crônica sobre o Banana é antológica. Foi escrita pelo nosso parceiro João Lamarão, engenheiro e escritor que também já foi pra Caiena, infelizmente. Ele é o autor do livro “No tempo do Ronca,- Dicionário do falar Tucuju”. Essa é uma singela homenagem àqueles que fazem parte da vida macapaense e que partiram deixando saudades e para não esquecer o quanto ele também fez parte de nossa história. Sua simplicidade, bom-humor (às vezes mau-humor, mas sem ser grosseiro) e profundo amor por esta terra” – Fernando Canto.

**Fotos encontradas nos blogs “O Canto da Amazônia”, do Chico Terra e da Sônia Canto.

22ª SEMANA NACIONAL DOS MUSEUS: Museu da Fortaleza de São José recebe programação da Unifap

Em sua 22ª edição, a Semana Nacional de Museus é uma temporada cultural coordenada pelo Ibram que tem como principais objetivos promover, divulgar e valorizar os museus brasileiros, aumentar o público visitante e intensificar a relação dos museus com a sociedade.

A cada ano, o Icom (Conselho Internacional de Museus) lança um tema diferente para a celebração dessa data, que é, também, o mote norteador das atividades da Semana Nacional de Museus. Este ano, o tema é “Museus, Educação e Pesquisa”.

O Centro de Estudos e Pesquisas Arqueológicas e Patrimoniais (Cepap/Unifap) também realiza uma programação integrada ao evento nacional nos dias 16 e 17 de maio, no campus Marco Zero do Equador, em Macapá (AP), que pode ser conferida no site da Unifap.

Serviço:

Programação do Centro de Memória, Documentação Histórica e Arquivo (Cemedharq) na 22ª Semana Nacional dos Museus
De 16 a 18 de maio de 2024, no Museu da Fortaleza de São José de Macapá. Entrada franca. Mais informações no perfil do Instagram do Cemedharq (@cemedharq).

Jacqueline Araújo (Jornalista – DRT/PA 2633)
Assessoria Especial da Reitoria – Assesp/Unifap
[email protected]
Contato: (96) 98138-9124

Cabralzinho, o Herói Desconhecido – Texto do Fernando Canto (maravilhoso relato/resgate sobre a história do Amapá)

Por Fernando Canto

O 15 de Maio sempre foi um dia importante para os habitantes do Amapá pelo famoso combate entre franceses e brasileiros, comandado por Francisco Xavier da Veiga Cabral, no ano de 1895. Era uma data comemorada por todas as escolas que reverenciavam o triúnviro como o “Herói do Amapá”, pelo seu ato de defender a Pátria dos invasores inimigos.

Passados 129 anos do episódio e 123 da vitória de Rio Branco em tribunais internacionais, quando as terras então litigiosas da fronteira foram definitivamente incorporadas ao território brasileiro, pouco se vê de reverência a essas datas magnas da História do Amapá. Passei ao largo da Praça Veiga Cabral e contemplei a estátua ali colocada em sua homenagem em 2001, após ter sido removida da frente da cidade pela Prefeitura de Macapá, atendendo a vários pedidos de munícipes que “achavam uma apologia à violência ela estar erguida na Beira Rio, onde passam crianças”.

O monumento mede uns cinco metros de altura e representa Cabralzinho atirando com uma pistola, trazendo uma espada na cintura. Se os monumentos construídos com o propósito de representar heróis ou atos de heroísmo forem olhados por esse lado moralista será necessário derrubar quase todos, até porque, segundo se sabe, o herói é aquele que foi capaz de realizar atos guerreiros extraordinários, magnânimos, antes de ser simplesmente um personagem de romance ou de histórias em quadrinhos. Na hora chovia sobre a estátua e as pessoas se abrigavam em sombrinhas coloridas ou sob as mangueiras da praça. Foi então que resolvi perguntar a elas se conheciam a pessoa representada na estátua.

Das doze pessoas com quem conversei na praça, dez eram nordestinas ou paraenses e não conheciam a nossa História. As outras duas eram macapaenses, que quando perguntadas, respondiam se não foi “aquele que não sabia se corria pro mato ou pro morro”. Mais tarde visitei um importante órgão público e indaguei sobre a História de Cabralzinho e o que ele representava para o Amapá. Amapaenses que conheço há muito tempo também fizeram pilhérias sobre o fato e acham a história muito controversa. São cidadãos de classe média e de alguma maneira considerados formadores de opinião.

Não sei exatamente como começou a distorção dessa história, mas lembro que a frase “O Amapá não tem História, tem piada” era atribuída, supostamente, ao governador Arthur Henning em função de anedotas produzidas por gozadores descomprometidos com a as coisas do nosso lugar. Na própria cidade de Amapá, no início dos anos 80, um comerciante de nome Siáudio e seus companheiros mostravam aos visitantes a “Arma de Cabralzinho”. Era uma brincadeira na qual ele pedia que abrissem um estojo onde estava um falo de madeira. Caiam na gargalhada.

As especulações que se seguiram à época do episódio deixaram a figura de Cabralzinho bastante controversa. As baixas francesas foram seis mortos e 20 feridos enquanto 38 brasileiros, na maioria velhos, crianças e mulheres, perderam a vida de forma macabra e cruel. O próprio Emílio Goeldi, cientista emérito do Museu do Pará, em relatório de novembro de 1895 ataca Veiga Cabral, embora dizendo que não quer acusá-lo diretamente da culpabilidade dos abusos cometidos, “mas que seus companheiros são gente da pior espécie, que não lhe inspiram confiança”.

Sobre esses aspectos, e levando em conta que a ciência histórica hoje considera que “as atitudes mentais, a relação com o corpo, com o espaço, com a paisagem, a cultura política, as relações socioeconômicas, a festa, a cultura material, etc, se constituem objetos do conhecimento em história”, (Coelho: 2003), não seria interessante se a academia local fizesse mais estudos para tentar solucionar o problema? Consideremos que não é apenas o heroísmo de Cabralzinho que está em jogo, mas a própria História do nosso Estado.

O professor Jonas Marçal de Queiroz, no seu estudo “História, Mito e Memória: o Cunani e outras Repúblicas”, diz que Veiga Cabral foi esquecido assim que o litígio com a França foi resolvido. Ele questiona também a atitude de Trajano, que teria sido escravo em Cametá e que vira o significado de liberdade na bandeira francesa. Deste modo é inegável a necessidade de surgirem novos e esclarecedores estudos na área. Com a palavra os historiadores.

* Texto que publicado no jornal A Gazeta em 2010.

Dia de Cabralzinho: Seção de Memória Institucional do TJAP revela achado histórico

Neste dia em que o estado do Amapá celebra o “Dia de Cabralzinho” a Seção de Memória Institucional do TJAP traz um importante achado relacionado ao controverso herói. Trata-se de um processo criminal, do ano de 1890, no qual Francisco Xavier da Veiga Cabral, mais conhecido como Cabralzinho, é citado como parte.

Sobre o processo:

O processo judicial faz parte do acervo de guarda permanente do TJAP (em catalogação) e foi recentemente identificado e catalogado pelo pesquisador Raimundo Gomes dos Santos Neto – aluno do curso de História da UNIFAP e voluntário na Seção de Memória Institucional do Tribunal – que nos apresenta um resumo de seu conteúdo:

No dia 27 de outubro de 1890, especificamente durante a tarde, atracou na cidade de Macapá uma canoa vinda da cidade de Vigia-PA, de onde desembarcaram Lourenço Barbosa, Cipriano Ramos dos Santos, Genésio Castro Sodré e Honório Lopes. O objetivo dos tripulantes na saudosa Macapá era vender farinha, mas também estavam incumbidos de fazer a entrega de algumas missivas. Lourenço Barbosa trazia consigo cartas destinadas aos encarcerados recém-transferidos da capital da província (Belém) para Macapá. O remetente, um certo Francisco Xavier da Veiga Cabral, também conhecido pela memorável alcunha de “Cabralzinho”.

Ao chegar às portas da Fortaleza de São José de Macapá, à época funcionando como cadeia pública, Lourenço tratou de entregar ao soldado destacado as correspondências. Entretanto, este assegurou-se e preferiu entregá-las ao comandante da Fortaleza. Identificando o conteúdo das cartas (assinadas pelo próprio Cabralzinho), o comandante compreendeu tratar-se de um plano oculto organizado e executado a mando de Francisco Xavier da Veiga Cabral para libertar os encarcerados.

Conforme consta nos autos, Cabral havia enviado uma comissão diretamente de Vigia para transportar os presos em segurança de volta para Belém, orientando-os a empregar todos os esforços possíveis para escaparem daquelas jaulas.

No dia seguinte, o comandante foi até o delegado de polícia da cidade de Macapá e o comunicou sobre as intenções criminosas dos tripulantes da canoa que chegara à cidade no dia anterior. Assim, dirigiu-se o delegado até o local onde estava atracada a dita embarcação, prendendo em flagrante os suspeitos. Procedendo a denúncia dos acusados, arrolou-se Francisco Xavier da Veiga Cabral como um dos mandantes e os demais como cúmplices. O promotor público prevê a pena máxima prevista nos artigos 124, 34 e 2, §2, do Código Criminal. Testemunhas foram prontamente convocadas para prestarem depoimentos sobre o ocorrido, entre elas, a saber: Leão Zagury, Fileto Borges Fonseca, Francisco de Paula, o soldado Petromilo de Brito Bahia, etc. Igualmente, os acusados foram ouvidos pelo Juiz e Tribunal do Júri da Comarca de Macapá, à exceção de Francisco Xavier, haja vista que este encontrava-se na capital Belém, não havendo qualquer conhecimento de sua residência ou esconderijo.

O Juiz Alberto Júlio de Góes Telles, no dia 26 de dezembro de 1890, sentenciou culpados Francisco Xavier da Veiga Cabral e demais sequazes, estando incursos nos referidos artigos mencionados acima. Portanto, “dever-se-á prosseguir em imediato com a prisão dos culpados que se encontram sob jugo nesta cidade; Quanto a Cabralzinho, verdadeiro mandante do crime julgado no processo, estando este oculto, prosseguir-se-á com a tentativa de captura e prisão do foragido”. Os réus tiveram fiança arbitrada em um conto de Réis.

Algum tempo depois, o Juiz de Direito de Macapá, Dr. Fulgêncio da Rocha Viana, pede que o processo seja reaberto por irregularidade na inquirição de testemunhas e pena desmedida sob certos réus. Assim, deu-se seguimento ao libellos crime, ficando provado que os enviados de Francisco Xavier não tinham conhecimento de seus intentos e, portanto, não eram culpados. Condenado à revelia, Cabralzinho seguiu em liberdade sem aparecer para defender-se ou cumprir pena.

Sobre o achado histórico

Raimundo Neto, Acadêmico de História e bolsista CNPq/PIBIC, avalia: “O processo criminal em que Francisco Xavier da Veiga Cabral é réu pode ser expressamente dito como um achado valioso! Não digo somente enquanto estudante e pesquisador no Centro de Memória do TJAP, mas considerando também a contribuição para o conhecimento histórico, em relação ao personagem de Cabralzinho e a História de nosso Estado. O achado é especial porque não tivemos indício de que pesquisadores interessados na figura de Francisco Xavier tenham acessado antes o documento. Acreditamos que seja uma fonte inédita. Sendo assim, fica evidente a contribuição que este processo pode trazer para a História e para a Historiografia Amapaense. O achado é simbólico também para a Seção de Memória Institucional do TJAP, já que evidencia a importância do tratamento técnico e da preservação do acervo documental para possibilitar que os pesquisadores continuem tendo acesso às fontes.”

Para o Historiador Marcelo Jaques (TJAP):

“Documentos como esse nos trazem uma melhor compreensão sobre acontecimentos e personagens de nosso passado. Neles podemos acompanhar parte da trajetória de vida de personagens históricos – como no caso, nossos heróis – que quase sempre conhecemos através de ações e fatos isolados no tempo e espaço. Por meio dessas fontes podemos refazer suas ações como pessoas reais, dentro do contexto social, cultural, político e econômico em que viviam, indo além daquilo que conhecemos nos tradicionais livros de história. Para além disso, para um leitor atento, o caso em pauta desperta diversas curiosidade. Podemos perguntar: quais foram os crimes cometidos pelos presos na Fortaleza de São José? Qual o grau de envolvimento de Cabralzinho nesses delitos? tratava-se de crimes políticos? Cabralzinho já exercia algum tipo de atividade política/econômica na região do Contestado Franco-brasileiro no período? E são justamente essas e outras questões que movem a história como disciplina”.

Na avaliação do Museólogo Michel Ferraz (TJAP) “Trata-se de um achado valioso por ser um registro documental local que traz mais elementos para o conhecimento desses episódios de disputa política e territorial que marcaram a região Norte e as fronteiras brasileiras. Como nosso acervo arquivístico de interesse histórico está em fase inicial de catalogação, é possível que encontremos outras preciosidades como essa, que ajudarão a contar e recontar a história do povo amapaense, destacando a participação do Judiciário nessa construção coletiva.”

Sobre Cabralzinho

Francisco Xavier da Veiga Cabral (Cabralzinho) nasceu em Belém, em 1861, filho de Rodrigo da Veiga Cabral e Maria Cândida Costa Cabral. Foi jornalista, comerciante, militar e ativista político, tendo se envolvido nas disputas territoriais travadas entre França e Brasil, episódio que ficou conhecido como “Contestado Franco-brasileiro” e “Questão do Amapá”. Um dos momentos mais marcantes desse embate ocorreu na manhã do dia 15 de maio de 1895, momento em que uma tropa da Legião Estrangeira, de Caiena, invadiu a Vila do Espírito Santo do Amapá. Cabralzinho, reagiu à ordem de prisão do Capitão Lunier, feriu-lhe de morte, e teve início um intenso combate, que resultou na morte de diversos brasileiros e de alguns franceses. A partir deste episódio a fama de Cabralzinho cresceu, apesar do revisionismo histórico contestar seu heroísmo. O certo é que, apesar das controvérsias envolvendo sua atuação no episódio de 15 de maio de 1895, sua participação na defesa das fronteiras brasileiras é reconhecida e, desde de 2021, o estado do Amapá reverencia sua memória com a instituição do “Dia de Cabralzinho”.

Texto: Seção de Memória Institucional do TJAP

Referência:

PAZ, Adalberto Junior Ferreira. Repúblicas contestadas: liberdade, trabalho e disputas políticas na Amazônia do século XIX. Tese de doutorado apresentada ao Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da Universidade Estadual de Campinas, SP: (s,n), 2017.

Imagem:

Francisco da Veiga Cabral. Desenho de Angelo Agostini. Don Quixote – Jornal Illustrado, Anno 2º, N. 51. Rio de Janeiro. Disponível em: https://www2.senado.leg.br/bdsf/bitstream/handle/id/507618/Don_Quixote_v.02_n.051_15_fev_1896.pdf?sequence=1&isAllowed=y Acesso em: 27 nov. 2023.

Arte: Carol Chaves

Dia de Cabralzinho: Governo do Estado apoia programação festiva no município de Amapá

Com o apoio do Governo do Estado, o município de Amapá, distante 226 quilômetros da capital, celebra nesta quarta-feira, 15, o Dia de Cabralzinho, em homenagem à figura histórica amapaense, que completa 129 anos. A programação é realizada pela Prefeitura do município e contará com desfile cívico, inaugurações, competições esportivas e shows musicais.

A Secretaria de Estado de Cultura (Secult) e Secretaria de Estado do Trabalho e Empreendedorismo (Sete) disponibilizaram banheiros químicos, tendas e estrutura para a realização da programação. A data é considerada feriado estadual no Amapá.

A programação traz competições esportivas, falas históricas sobre Cabralzinho e show da aparelhagem amapaense Trepidante, que promete animar o público.

Feito histórico

Cabralzinho entrou para a história como o herói do Amapá no conflito do Contestado franco-brasileiro, em 1895, contra invasores franceses à Vila de Espírito Santo, onde atualmente está localizado o município de Amapá.

À época, o Amapá formava uma região de Contestado Franco-Brasileiro. Após a Batalha, a República reconheceu o heroísmo de Cabralzinho e seus comandados. O Laudo Suíço, em 1900, ratificou o Rio Oiapoque como fronteira franco-brasileira e pôs fim ao litígio. No ano seguinte, em 22 de outubro de 1901, a lei nº 798 criou a cidade de Montenegro, que em 1903, voltou a receber a denominação de Amapá até os dias atuais.

Confira a programação:

Quarta-feira, 15

6h – Alvorada festiva
8h – Hasteamento do Pavilhão Nacional
8h30 – Explanação histórica e fala das autoridades
9h – Desfile Cívico e Militar
11h – Inauguração de escola municipal
15h30 – Final da Copa Cabralzinho de Futebol
16h – Passeio ciclístico de Cabralzinho
20h – Shows locais e apresentação da aparelhagem Trepidante

Texto: Kelison Neves
Foto: Arquivo/GEA
Secretaria de Estado da Comunicação

Querida Fran! – Por Jorge Herberth

Por Jorge Herberth

Eu não poderia imaginar que aquele aroma de amor me acompanharia eternamente. Quando criança, aprendi todos os dias com minha mãe a me alimentar de sonhos. O mingau morno na mamadeira carregava um amor imensurável, pra toda a vida. Nele, o sabor do tempo e da sua ternura. Os sabores dos seus sonhos eram servidos de manhã, à tarde e à noite, junto com canções e histórias no seu olhar sorridente da alegria de viver.

Podia ser no verão de sol brilhante ou em dias de chuvas contínuas com os caruanas, quando tambores ecoavam madrugadas adentro para saudar os Deuses, Orixás e caboclos. Ou quando o Marabaixo expressava seus cantos, vozes, corpos e caixas de amor, dor, alegrias, gengibirra e essa cultura ímpar da gente negra linda do Amapá. E ficavam lindos também quando o samba dos Boêmios desfilava no Laguinho querido, pra onde trabalhaste costurando sonhos e belezas. Como sabias costurar sonhos e sorrir feliz.

Sabias plantar como ninguém. Rosas, papoulas e frutíferas. Eram tua fertilidade em pessoa. Eras da terra do amor. Como minhas doces lembranças são do tempo e dessa trilha que me ajudas a seguir. Por isso és e somos do teu coração singular, cheio de sonhos e sempre fértil.

Junto com o mingau, vinham sempre outros aromas e sabores de todos os sentimentos que transformam criança em pessoa, em gente. Minha mãe sabia fazer essa costura com rendas ou retalhos. Ela sempre deixava no meu berço, na minha rede ou na minha cama uma camisa de meu pai. Porque eu precisava estar com o cheiro dele encostado em meu rosto para saborear esse amor indelével do mingau da mãe e do aroma de meu pai. Era perfumado e às vezes tinha até marcas e cheiro de graxa, do seu árduo trabalho como um grande mecânico. Era preciso lavar suas mãos com bastante sabão grosso nos fins de tarde. Era meu prazer. Assim como enfiar a linha nas agulhas de mão ou das máquinas dela. Assim, eu rebobinava meus sonhos e meu amor por eles dois.

Um dia serei mais filho terno a ti, a vocês dois. Eternamente louco de amor por ti, pelos ensinamentos em um rosário infinito de sonhos, que carregaste como Iara em canoas desde Peixe Boi, no lindo nordeste do Pará, até essas margens do grandioso rio Amazonas, e despejaste com todo amor em Macapá, no Laguinho e por onde desfilaste tua aura brilhante.

Ah seu Abel, ah dona Chica. Feliz dia das mães, das bruxas lindas como tu, querida Fran.

*É uma homenagem às mães, em nome de Francisca de Souza Ferreira, mãe de quatro filhos. Foi costureira, formou técnica em secretariado no CCA. Depois tornou-se técnica em enfermagem e serviu no Hospital Geral de Macapá (Alberto Lima?). Em nome dela e de sua vida de amor esta é uma singela homenagem às mães e mulheres que se tornam estrelas e luz de sua e de nossa vida.

Lançamento do Projeto Front-Guianas e Seminários sobre Desenvolvimento Regional na Região das Guianas

Por Gutemberg de Vilhena Silva

De 6 a 8 de maio de 2024, junte-se a nós para o lançamento oficial do Projeto Front-Guianas e para participar de uma série de palestras que exploram o desenvolvimento regional e as dinâmicas transfronteiriças da Região das Guianas. Este evento é uma colaboração entre instituições acadêmicas, financiado pelo CNPq e apoiado pelo Governo do Amapá.

Programação:

• 06 de Maio: Abertura no Museu Sacaca às 15h com a cerimônia de lançamento do Projeto Front-Guianas.
• 07 e 08 de Maio: Continuação com seminários e apresentações de trabalhos no auditório do bloco de engenharia civil e arquitetura da UNIFAP, durante todo o dia.

O Projeto:

O Projeto Front-Guianas, liderado por pesquisadores da UNIFAP e IFAP, visa explorar e compreender as complexas questões fronteiriças e ambientais em uma das regiões menos conhecidas da Amazônia. Temas como exploração de petróleo, disputas fronteiriças, economia local, transmissão de doenças e manejo florestal estão no centro das discussões.

Participação Internacional:

O evento contará com a presença de especialistas internacionais como Jack Menke (Suriname), Thomas Singh (República da Guiana), e Ruben Gonzalez (Espanha).

Inscrições e Mais Informações:
Para mais detalhes sobre o evento e inscrições, visite Sin-Trasfronteiras.

Contato:
• Bruno Cavalcante: +55 96 98125-0762
• Gutemberg Silva: +55 96 98143-0473

Esperamos sua participação para debater e moldar o futuro da pesquisa e desenvolvimento na região das Guianas.

Quando: 06 a 08 de maio de 2024
Onde: Museu Sacaca e UNIFAP, Amapá

O Poder do Tambor – (crônica demais porreta de Fernando Canto) – @fernando__canto

Foto: blog do Márcio Batista

Crônica de Fernando Canto

Não é de hoje que vejo – e ouço – algumas associações de sincretismo entre o catolicismo e os ritos de origem africanos no Amapá como o Candomblé e o Tambor de Mina.

Nunes Pereira, uma das raras referências etnográficas do folclore amapaense, disse em seu livro “O Sahiré e o Marabaixo” (Fundação Joaquim Nabuco, Recife, 1989, pág. 101/115), que quando esteve no Laguinho e no Curiaú em 1949, observou que os tambores utilizados não exerciam claramente sobre os negros o poder transfigurador que os instrumentos de percussão têm na África ou do tipo usado nos terreiros Mina-Gêge de São Luís do Maranhão. Mesmo assim registrou os mais estranhos e emocionantes movimentos de dançarinos no Marabaixo.

Observou que (aos negros) “Nem lhes faltaram, nas máscaras luzidias de suor, o fulgor das pupilas e nos ritus dos lábios carnudos, a expressão dramática, que a posse do Guia, Santo ou Vodum, lhe transmite, e a expressão sensual, que nasce dos sentidos, açulados pelas libações e pelos contactos dos corpos em festa”… Mais adiante ele viu “saltos elásticos de alguns jovens, tais os dos bailarinos acrobatas, ou negaças fulminantes de capoeiras” que lhe reafirmavam um justo conceito, não de antropólogo, mas “de um viajante fascinado”.

Nunes Pereira ficou mesmo encantado com a dança dos negros e mestiços que aos poucos se avolumava no salão sob o comando do Mestre Julião Ramos. E informa que se “nos lembramos das atitudes místicas dos Voduns Mina-Gêge, erguendo os braços para o alto ou baixando-os para abrir mãos que se diriam afagar a terra, também nos lembramos dos passos do frevo pernambucano e das marchinhas do carnaval carioca”. Sua descrição da dança arremata que “Mestre Julião, de súbito, como se fosse envolvido pela fascinação daquele ritmo e daquelas atitudes, entrou a substituir um dos tocadores das ‘caixas’, arrebatando-lhe o instrumento. E, então, pela expressão de sua voz e pela segurança de seus toques, a dança atingiu o seu Pathos. E nela fomos envolvidos também”.

Dizendo isso, suponho que ele tenha mergulhado na “mucura”, a bebida alcoólica muito utilizada no Marabaixo, pois nenhum antropólogo é de ferro.

Tradição: garoto toca caixa de marabaixo em Mazagão, Amapá – Foto: Julio Maria

Ele ainda tentou atrair as negras velhas para conversas sobre terreiros, sobre Mães de Santo e Vodus, mas elas se esquivaram discretamente, entretanto sem poder negar que tudo isso lhes era familiar.

Certa vez eu presenciei uma incorporação sob os tambores do Marabaixo, porém imediatamente retiraram o “cavalo” (uma mulher) do recinto, não dando chance para perguntas.

Sobre esse assunto fui informado de outro caso, provocado por uma bebida possivelmente alucinógena preparada com cachaça e a casca macerada do caimbé branco, árvore abundante no cerrado das cercanias de Macapá.

No Haiti, sincreticamente São Tiago é associado a Ogum, o deus daomeano, com seu ar feroz, barba hirsuta e espada erguida. Em Cuba Ogum se equipara a São Pedro por levar em suas mãos as chaves do céu que são de ferro e a Santiago dos castelhanos, que, a cavalo, os ajudava na guerra matando mouros. No Brasil durante as cerimônias, os “adosu” por eles possuídos assumem uma expressão feroz e durante as danças empunham uma espada e executam a mímica da guerra e dos combates. Segundo Pierre Verger, a assistência grita, saudando: “Ogum ye”. Seus adeptos, muito numerosos, usam colares de cores azuis-escuras e braceletes de ferro. Na Bahia ele é assimilado a Santo Antônio e no Rio de Janeiro a São Jorge, que é outra personagem, ou figura da Festa de São Tiago de Mazagão Velho

Não é de hoje, repito, que essas coisas estão ligadas ao Marabaixo. Mesmo que se diga que seus principais ritos sejam de origem católica, a ancestralidade comanda o inconsciente coletivo. E o toque do tambor é muito poderoso. Inderê, Olô!

O discurso discriminador do Marabaixo – Texto/Resgate histórico paid’égua de Fernando Canto – @fernando__canto

Foto: Márcia do Carmo

Por Fernando Canto

Não é de hoje que o Marabaixo é discriminado. Aliás, as manifestações culturais de origem africana sempre foram vistas como ilegais ao longo da história do Brasil. Do samba à religião, seus promotores foram vítimas de denúncias que os boletins de ocorrências policiais e os processos judiciais relatam como vadiagem, prática de falsa medicina, curandeirismo e charlatanismo, entre outras acusações, muitas vezes com prisões e invasões de terreiros.

Essa discriminação ocorreu – e ainda ocorre – em contextos históricos e sociais diferenciados, e veio produzida por instituições que tinham o objetivo de combater o que lhes fosse ameaçador ou que achassem associadas às práticas diabólicas, ao crime e à contravenção.

Foto: Max Renê

No caso do Marabaixo, há anos venho relatando episódios de confronto entre a igreja católica (e seus prepostos eclesiásticos e seculares), e os agentes populares do sagrado, estes que, por serem afrodescendentes, mestiços e principalmente por serem pobres, foram e são discriminados, visto o ranço estereotipado de que são “gente ignorante” e supersticiosa.

Foto: Gabriel Penha

É do século XIX a influência do evolucionismo que tomava como modelo de religião “superior” o monoteísmo cristão e via as religiões de transe como formas “primitivas“ ou “atrasadas” de culto. Para Vagner Gonçalves da Silva (Revista Grandes Religiões nº 6), nesse tempo “religião” opunha-se a “magia” da mesma forma que as igrejas (instituições organizadas de religião) opunham-se às “seitas” (dissidências não institucionalizadas ou organizadas de culto).

É do século XIX também os primeiros escritos sobre o marabaixo. Em um deles um anônimo articulista o ataca, dizendo-se aliviado porque “afinal desaparece o o infernal folguedo, a dança diabola do Mar-Abaixo”.

Foto: Márcia do Carmo

Ele afirma que “será uma felicidade, uma ventura, uma medida salutar aos órgãos acústicos se tal troamento não soar mais…”. Na sua narrativa preconceituosa vai mais além ao dizer que “Graças ao Divino Espírito-Santo, symbolo de nossa santa religião, que só exige a prática de boas ações, não ouviremos os silvos das víboras que dansam ao som medonho dos gritos dos maracajás (…), que é suficiente a provocar doudice a qualquer indivíduo”. Assevera adiante “Que o Mar-Abaixo é indecente, é o foco das misérias, o centro da libertinagem, a causa segura da prostituição”. E finaliza conclamando “Que os paes de famílias, não devem consentir as suas filhas e esposas frequentarem tão inconveniente e assustador espetáculo dessa dansa, oriunda dos Cafres”. (Jornal Pinsonia, 25 de junho de 1898).


Discursos de difamação do Marabaixo como este e a posição em favor de sua extinção ocorreram seguidamente. O próprio padre Júlio Maria de Lombaerd quebrou a coroa de prata do Espírito Santo que estava na igreja de São José e mandou entregar os pedaços aos festeiros. O povo se revoltou e só não invadiu a casa padre para matá-lo graças à intervenção do intendente Teodoro Mendes.

Com a chegada do PIME – Pontifício Instituto das Missões Estrangeiras – em Macapá (1948) o Marabaixo sofreu um período de queda, mas suportado com tenacidade por Julião Ramos, que não o deixou morrer. Tiraram-lhe inclusive a fita da irmandade do Sagrado Coração de Jesus, da qual era sócio fiel.

Colheita da Murta – Foto: Arquivo pessoal de Fernando Canto

Nesse período os padres diziam que o Marabaixo era macumba, que era coisa ruim, e combatiam seus hábitos e crenças, tidos como hediondos e pecaminosos, do mesmo jeito que seus antecessores o fizeram no tempo da catequização dos índios. Mas o bispo dessa época, D. Aristides Piróvano, considerava Mestre Julião “um amigo” (Ver Canto, Fernando in “A Água Benta e o Diabo”. Fundecap, 1998).

O preconceito dos padres italianos com o Marabaixo tem apoio num lastimável “achismo”. Os participantes são católicos e creem nos santos do catolicismo, tanto que a festa é dedicada ao Divino Espírito Santo e à Santíssima Trindade e não a entidades e voduns como pensam. Nem ao menos há sincretismo nele.


E se assim fosse? Qual o problema? Antes de emitirem um julgamento subjetivo sobre um fato cultural é preciso conhecê-lo. É preciso ter ética. Ora, sabe-se que todos os sistemas religiosos baseiam-se em categorias do pensamento mágico. Uma missa ”comporta uma série de atos simbólicos ou operações mágicas” (Vagner Silva op. cit.). Observem-se as bênçãos, a transubstanciação da hóstia em corpo de Cristo, por exemplo. Um ritual de umbanda comporta a mesma coisa. O Marabaixo tem rituais próprios, ainda que um tanto diferentes. Por isso e apesar do preconceito ainda sobrevive. Valei-nos, Santo Negro Benedito!

(*) Do livro “Adoradores do Sol – Novo Textuário do Meio do Mundo”. Scortecci, São Paulo, 2010.

Hoje é o Dia Mundial de Star Wars – Que a Força esteja conosco! #MayThe4thBeWithYou

Hoje, 4 de maio, é o Dia mundial de Star Wars! A data foi escolhida devido a um trocadilho com a célebre expressão “May the Force be with you”. May (maio) the Fourth (dia 4) be with you.

A primeira alusão ao termo “May the 4th” aconteceu em maio de 1979 quando o partido conservador parabenizou a eleição de Margaret Thatcher como a primeira mulher ministra da Inglaterra, com um anúncio no jornal The London Evening News que dizia: “May the Fourth Be with You, Maggie. Congratulations.”

Durante uma entrevista em 2005, para o canal N24 de notícias da TV alemã, pediram ao criador de Star Wars, George Lucas, que ele falasse a famosa frase “Que a Força esteja com você.”

O intérprete simultaneamente interpretou a frase em alemão como Am 4. Mai sind wir bei Ihnen (“We shall be with you on May 4”, em português, “Vamos estar com você em 4 de maio”). Isso foi captado pela TV Total e foi ao ar em 18 de maio de 2005. [Wikipédia]

Em 2011, a primeira celebração organizada do Dia de Star Wars aconteceu em Toronto, Ontário, Canadá no Cinema Subterrâneo de Toronto.

As festividades incluíram um Game Show de Trivia sobre a Trilogia Original; um concurso de fantasias com os júri composto por celebridades; e a exibição em tela grande dos melhores filmes, mash-ups, paródias, e remixes da web. A segunda edição anual aconteceu na sexta-feira, 4 maio de 2012.

De fato, é uma data em que a Força está presente nos fãs de Star Wars. Neste dia costuma-se rever os filmes, falar as frases mais famosas dos personagens, ou cantarolar Imperial March.

Coisas simples, mas que fazem o 4 de maio uma data memorável para todos os fãs, pois são mais de 40 anos de fascínio pela série de filmes fantásticos. Eu sempre fui fascinado pelo fictício universo dessa saga. E que a Força esteja conosco!

Elton Tavares

Belchior e a Música das Esferas – Por Fernando Canto (sete anos sem o poeta)

Musico Belchior em 1977. FOTO DIVULGAÇÃO.

O cantor e compositor Belchior morreu há sete anos (quando soubemos, pois na verdade ele foi para as estrelas no dia 29 de abril de 2017), em Santa Cruz do Rio Grande do Sul, aos 70 anos. Naquela manhã, acordei com a triste notícia de seu desencanto.

Poeta brilhante, artista louco, compositor fantástico, entre tantas outras coisas sensacionais que Belchior foi e é, dificilmente eu conseguiria descrever a importância dele para a música e cultura brasileira. Mas o Fernando conseguiu. Fica aqui nossa homenagem com essa crônica do Canto:

Belchior e a Música das Esferas – Por Fernando Canto

Por Fernando Canto

“Deixando a profundidade de lado” eu sempre fui fã desse cara cearense, que hoje faz 70 anos. Assisti pela primeira vez a um show dele no Projeto Pixinguinha, no Centro de Convenções João de Azevedo Picanço, em 1984. Ele cantou seus sucessos “Como Nossos Pais” e “As Paralelas” ao lado de Zizi Possi, outra cantora que também admiro muito. O que me chamou atenção no seu visual eram as meias coloridas, a cabeleira e o vasto bigode, que parecia ter vindo de uma nave da Tropicália. Aliás, a “roupa colorida” era tida como elemento constituinte da corporalidade do ethos tropicalista.

Passaram-se alguns anos, ainda na mesma década, ele tocou no final de um festival universitário da canção no ginásio de esportes Avertino Ramos. Cantava no palco. Eu estava lá na arquibancada. Um sujeito que estava do meu lado gritava para ele, pedindo atenção. De repente jogou uma lata de cerveja na direção do palco que atingiu o cantor. Antes dos seguranças chegarem para expulsá-lo perguntei-lhe por que fizera aquilo. O cara chorava e dizia: – Eu sou fã dele, queria apenas que ele me ouvisse. Queria que ele tocasse “A Palo Seco” ou “Rapaz Latino Americano” e, mas ele não me ouviu. E gritava: – Desculpa, desculpa. Eu não queria fazer isso…, enquanto era arrastado para fora. Logo a seguir o cantor ilustrava o ambiente reverberador do ginásio com a música solicitada pelo fã compulsivo – quase um psicopata – e cruel:

“Eu sou apenas um rapaz latino-americano/ sem dinheiro no banco/ sem parentes importantes/e vindo do interior/ POR FAVOR NÃO SAQUE A ARMA/ NO SALOON, EU SOU APENAS O CANTOR. / MAS DEPOIS DE CANTAR/ VOCÊ AINDA QUISER ME ATIRAR/ MATE-ME LOGO, À TARDE, ÀS TRÊS/ Que à noite eu tenho um compromisso e não posso faltar/ Por causa de vocês”.

Depois do seu episódico desaparecimento há quase três anos, quando especulações sobre sua vida emergiram de forma negativa, só podemos perguntar “Onde está Wally?”, no meio dessa multidão insensível. Onde está Belchior? O cara que sabia sobre a descoberta pitagórica da Música das Esferas, da harmonia dos planetas no cosmo, tanto que fez questão de usar trecho do poema “Via Láctea” do parnasiano Olavo Bilac (“Ouvir estrelas? Ora direis, Certo”). O cara-cabeça do “Pessoal do Ceará” que compunha com Fagner e revolucionou a MPB.

Sete décadas. Cabalísticamente sete para um cara que tinha “25 (2+5=7) anos de sonho e de sangue/ E de América do Sul”. Que trazia sua identificação nordestina presa ao dorso do seu cavalo que eram as embarcações pesqueiras de velas do Mucuripe, canção dele e de Fagner. Esse mesmo cara que transitava entre o sonho e a realidade de uma forma surpreendente, pois essa trajetória não tem suas âncoras presas ao real, tal como pensamos. Ele que escreveu “Se você vier me perguntar por onde andei/ No tempo que você sonhava”, e sua realidade respondia: “De olhos abertos lhe direi/ Amigo eu me desesperava” (A palo seco); ele que falava num sonho que “viver é melhor que sonhar” e respondia no mesmo verso sua realidade que “Viver é melhor que sonhar” (Como nossos pais). Todo indica um paradoxo, em que o dono do discurso parece estar perturbado e que quer fazer saber que “sons, palavras são navalhas”.

Não sei por onde anda esse rapaz de 70 anos. Queria vê-lo agora aqui, em um palco montado na praia de Iracema, desafiando o tradicional, para me encantar com o seu diferenciado e inédito canto nordestino, mostrando novamente ao Brasil o resultado positivo de seu desafio, que se constituiu em fazer algo mais significante para a beleza da música popular brasileira. E sem o preconceito regional que carregava.

O artista mirava seu próprio devir, pois “era alegre como um rio […] MAS VEIO O TEMPO NEGRO E, À FORÇA, FEZ COMIGO/ O MAL QUE A FORÇA SEMPRE FAZ. / Não sou feliz, mas não sou mudo:/ Hoje eu canto muito mais” (Galos, noites e quintais). A ele me refiro pelo seu percurso de anunciador de um discurso nostálgico, que louvo por dizer assim, coisas que ficaram na memória: “GENTE DE MINHA RUA/ COMO EU ANDEI DISTANTE/ QUANDO EU DESAPARECI/ Ela arranjou um amante/ Minha normalista linda/ Ainda sou estudante/ Da vida que eu quero dar…” (Tudo outra vez).

Não sei por ande anda esse rapaz de 70 anos, “Mas parece que foi ontem/ Minha mocidade/ Com diploma de sofrer/ De outra Universidade…”. Parabéns, Belchior, estou ouvindo mais uma vez a tua música das esferas. Não faria igual ao jovem fã do ginásio de esportes de Macapá. Eu te jogaria flores e não uma lata de cerveja, pois cerveja a gente bebe com prazer só para escutar teu som inesquecível.

*Escrito por Fernando Canto em outubro de 2016, quando o amigo e também poeta, fazia seu Doutorado em Fortaleza (CE).

**Muito obrigado por suas alucinações. Você exercitou bem o lance de “paixão morando na filosofia”, amou e mudou as coisas em muitos de nós, seus fãs. Valeu, Belchior! (Elton Tavares)

PERTO DA COBAL, O ABREU – Crônica de Fernando Canto

Crônica de Fernando Canto

– “Perto da Cobal”. Era a indicação, código, informação, referência. Assim a gente se comunicava naquela época, no início dos anos 80, para se encontrar e bater um bom papo nos finais de tarde do gostoso bairro do Laguinho, atrás da sede dos escoteiros. O bar do Abreu ficava na esquina da Odilardo Silva com a Ernestino Borges.

Creio que o Zé Ronaldo nem imaginava a importância que tinha o bar, naquele momento gerenciado só por ele, terminada a sociedade Rodrigo & Ronaldo na antiga lanchonete e açougue RR. Rodrigo foi para o Pacoval e Ronaldo ficou no Laguinho ajudado pelo seu dentuço irmão, um adolescente muito legal chamado Marquinhos.

Pode-se dizer que o bar tinha um “chama”, que atraía boêmios, artistas e intelectuais, políticos e malandros, como qualquer bom bar. Era uma espécie de casa da mãe, útero, boate, palco e tribuna. Algo meio surrealista: enquanto o Hélio lançava o seu livro os fregueses das redondezas compravam cupim ou alcatra entre um pronunciamento emocionado do Pedro Silveira e um riso tímido do Alcy. E assim escutavam o Grupo Pilão e os toques mágicos das violas do Nonato e do Sebastião.

Foto: Blog Direto da Redação

Bêbados contumazes, como dizem os jornalistas, costumavam encher o saco dos fregueses contumazes e comportados, acostumados a beberem após as 11 horas de sábado. Vinham do Jussarão, dum tal bar de chorinho do Noé (quando ele ainda era boêmio), duma tal Dama de Macapá e de outros bares com nome de Quebra-Mar ou coisa que valesse. E falavam, e exigiam bebidas, e vomitavam e dormiam. Só a paciência do Ronaldo era a mesma de Jó. Um guardanapo de pano atravessado no ombro, um sorriso e o gesto de limpar a mesa amainavam as tentativas de exasperação de fregueses chatos, e principalmente daqueles que adoravam se exibir falando inglês mas espalhavam perdigoto.

O bar era sério como qualquer bar sério. Porém só veio a ter o nome atual quando um velhinho simpático e meio atrapalhado, pai do Ronaldo e do Marquinhos ficou por trás do balcão, dando descanso aos dois. Era o seu Abreu, que logo se tornou amigo de todos. Dos homens e das mulheres, dos bêbados e dos inconformados, dos santos e dos capetas. Um homem que muitas vezes era importunado às quatro horas da manhã por alcoólatras para a primeira dose do dia, mas que fazia da sua profissão de dono de bar um sacerdócio, como dizem os assistentes sociais e os políticos agnósticos.

Caricatura do artista plástico Wagner Ribeiro

E como todos sabem o bar do Abreu era um bar itinerante, como diziam os advogados e os vagabundos líricos. Já rodou meio mundo macapaense, fazendo histórias e presenciando casos de amor e de morte, juntando paixões e separando olhares, refazendo vidas e acompanhando vitórias e derrotas de times e de jogadores. Viu amores entre militares e garçonetes, entre pintores e enfermeiras, observou transeuntes eventualmente entrando no bar para matar sua sede ou engolir uma moela guisada, antiga especialidade da casa.

Depois de mudar de lugar o bar tinha nas paredes televisores enormes; quadros impressionantemente horríveis, como diria o esteta, e uns fregueses que achavam bonito tudo o que o Bolachinha imitava nas madrugadas em que se refugiava para não imitar a si próprio.

Este era o bar do Abreu que conheci desde sua inauguração em 1981. Um bar feito com categoria e estilo que proporcionava união, contradição e o ato de beliscar a lua, montado no sonho dos fregueses, ouvindo “a música das moedas deslizando nas máquinas caça-níqueis do Eduardo”, como poderia dizer o Max Darlindo cantando um samba bem alegre. Um local onde o freguês tinha o rei na barriga e o imperador na boca, onde quem bebia sem brindar ficava três anos sem transar, onde quem brindava sem beber ficava três anos também sem. Onde um “murmúrio ofegante” do celular do Bira Burro era escutado a 100 metros de distância. “Ali há uma ilusão para continuar jogando”, dizia o Tavares ao observar o prefeito atravessando a rua para “tomar uma” no bar.

O rodízio citadino do bar do Abreu infelizmente cansou, ficou sem fôlego na pandemia e fechou suas portas. Mas bar é um fênix. Certamente um dia volta com outro estilo. E o velho balcão de inúmeras conversas e grandes alegrias estará lá como imã atraindo os velhos fregueses.

– “Égua”! Eu exclamo agora ao lembrar que o “perto da Cobal” confunde e troca o espaço pelo tempo em quase 40 anos que o mundo rodou dentro e fora de mim, para que pusesse referência nos passos que dei pela vida e nas construções que a lida diária, as reflexões e os bons amigos me proporcionaram realizar.