No Círio da Naza com o Anjo Galahell – Crônica de Ronaldo Rodrigues

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Crônica de Ronaldo Rodrigues
 
“Quando eu for morrer / Vou pedir pra ser outubro / No meio daqueles anjos / Do Círio de Nazaré” (Edyr Proença / Emanuel Mattos)
 
Pois bem. Belém caminhou pelas ruas de Macapá de mãos dadas comigo e com o domingo. Era o Círio de Nazaré, santa protetora dos paraenses, macapaenses, marambaienses, laguinenses, gregos, troianos, baianos e tupis. Todos os peregrinos agarrados à tradição/contradição, desgarrados pelo mundo em cotidiana diáspora.
 
Belém estava tão aqui em Macapá que até choveu. Um pouquinho só, mas que choveu, choveu! E foi na companhia do Anjo Galahell que Maria de Nazaré me abrigou em sua linda berlinda.
 
Depois da procissão propriamente dita/bendita, uma outra procissão se fez, em busca do pato que (paciência. Alguém tem que ser sacrificado…) deveria estar boiando num oceano de tucupi, exalando aquele cheiro que… Bem. Quem sabe, sabe… 
 

E quantas surpresas nos fizeram presas do imponderável, do milagre, da graça da Naza. O pato no tucupi não foi encontrado, estava enfeitando outras mesas. Mas ele não fez falta, já que em seu lugar (milagre da Naza) apareceu uma galinha caipira servida pelas mãos generosas da Zozó, tia do Galahell (sim! Anjos também têm família!) e agora para sempre já incorporada à minha árvore genealógica, é lógico! A galinha de quintal matou nossa fome de justiça e a sabedoria do coração da Zozó é o que a própria Naza teria me ensinado.
 
Belém, de hoje e de outrora, Belém da minha infância aportou definitivamente quando eu e o pastor alemão do rock caminhávamos pelas ruas de Macapá em busca novamente de comida, bebida (caramba! Será que a gente nunca se farta?) e, se não fosse pedir demais, atenção e carinho. Pois foi o que conseguimos, na figura de um astro do passado, o ex-jogador de futebol Mareco, que reconheceu Galahell, elogiou sua verve jornalística e montou a banca para que eu e o anjo nos servíssemos de geladíssima cerveja, o café da manhã dos campeões.
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Fiquei emocionado ao conhecer pessoalmente Mareco, depois de tanto tempo, depois de tê-lo visto em Belém, no final da década de 1970 e começo da década de 1980, nos gramados futebolísticos, eu como espectador, ele como integrante de uma geração que fez a Cidade das Mangueiras ouvir maravilhada o rugido do glorioso Leão Azul, o Clube do Remo.
Uma geração brilhante de jogadores azulinos, como Dico, Edson Cimento, Marinho, Dutra, Darinta, Cuca, Aderson e seu irmão Mêgo (autor dos dois gols inaugurais do Mangueirão), Elias, Mesquita, Bira, Júlio César, o gigante Alcino… E por aí vai. E para ninguém dizer que estou puxando a brasa só pra minha sardinha, já que eu torcia pelo Remo, relembro alguns nomes da galeria de grandes craques que o rival Paysandu também ostentou naquela época: Aldo (irmão do Bira, ambos macapaenses), Patrulheiro, Lupercínio, Heider, Paulo Robson, Careca, Wilfredo, Evandro, Roberto Bacuri, Nilson Diabo, Tuíca, Edésio, Leônidas, Chico Spina e até o Dario – Dadá Maravilha…
 
Égua! Belém da minha infância entrou em campo de novo e o mais legal disso foi constatar que Mareco não tem nem sombra da arrogância que se vê hoje em alguns jogadores. O cara veste a camisa da humildade, o verdadeiro manto dos vencedores.
 
11209527_867490903319378_2704273878952246707_nE para encerrar esta crônica ciriana nazarena, o fim da tarde e o começo da noite foram embalados pelo ritmo irmão do marabaixo, o carimbó. Pinduca, Verequete e outros mestres baixaram no terreiro e deram show, me transportando novamente para Belém e Curuçá, banhando minha alma de açaí.
 
Então diga aí: Belém estava ou não presente no domingo do Círio da Naza, aqui em Macapá? Milagres da Naza e do Anjo Galahell!
 
“Naza / Nazarézinha / Nazaré Rainha / Nazaré Mãe da terra / Mãezinha / Me ajuda a cuidar” (Almirzinho Gabriel).
*Contribuição de 2013 republicada. 

As que se chamam Flávia… – Conto porreta de Ronaldo Rodrigues sobre a chegada de outubro

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Conto de Ronaldo Rodrigues

– Outubro é muito perigoso!

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É preciso segui-la. Sinto isso logo que a vejo na livraria. Está folheando uma revista, sem muita atenção, fixando-se apenas nas fotografias. Parece estar ali com o mesmo propósito que eu, matando o tempo até voltar ao trabalho.

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– Outubro é muito, muito perigoso!

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Ficamos lado a lado, embora a mulher permaneça como se só ela existisse. Tenho a visão no livro que folheio sem qualquer interesse e a atenção totalmente voltada para a mulher. Ela fecha a revista decididamente, olha para o relógio e o percebe parado:

– Sabe as horas, moço? – Pergunta, altivamente.

– Nã… Não! Não… sei… – Gaguejo, respondendo.

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Quem sempre me dizia isso era o Capitão Nemo:

– Tenha muito cuidado, menino! Outubro é muito perigoso!

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Ela deixa a revista na estante e dirige-se à portaria. Confere a hora e acerta o relógio. Sai da livraria e eu continuo olhando aquela mulher, agora através do vidro da vitrine. Ou será que não existe vidro algum? Meu olhar é que fez a parede tornar-se transparente?

Pergunto o motivo do perigo de outubro e ele responde, depois de longo silêncio, os olhos em transe, na direção do mar:
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– É em outubro que começamos a enlouquecer! É em outubro que costumam surgir as sereias!

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Ela atravessa a rua. Saio da livraria, disposto a segui-la, e paro na esquina. Contemplo, então, o espetáculo da rua silenciar-se para a passagem daquela mulher. A paisagem urbana torna-se repentinamente quieta, mas com uma acelerada pulsação interior que começa no asfalto e termina/continua no meu peito.

Ela entra num edifício e eu continuo seguindo seus passos. Ainda não me percebeu e acho que isso não acontecerá nunca. Ela aguarda a chegada do elevador junto a mais três pessoas. Incorporo-me ao grupo e passo a esperar também.

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Todos dizem que não devo dar atenção às palavras do Capitão Nemo. Dizem ser louco tanto o Capitão Nemo quanto quem o escuta. Mas eu digo que não. É preciso buscar o sentido das palavras, principalmente das que nos parecem mais delirantes.

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O elevador chega, nos recolhe e inicia sua lenta subida. As pessoas vão ficando em seus respectivos andares até restar apenas eu e a mulher. Como música de fundo, meus batimentos cardíacos ecoam nas paredes do elevador confundindo-se com a palavra outubro.

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Outubro. Agora compreendo claramente seu perigo. O Capitão Nemo ficou aprisionado em sua louca lucidez, nos destroços do seu navio, enfeitiçado por uma sereia. Eu estou preso neste elevador atraído por uma sereia. Aqui ficarei para sempre, aguardando todos os dias aquela mulher maravilhosamente perturbadora cujo nome conheço apenas a letra inicial (F), que vi uma vez em que ela abriu rapidamente a agenda.
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Todos os dias, quando ela sai do elevador, ainda sem notar minha presença, recordo as palavras do Capitão Nemo, que todos acreditavam serem palavras de um louco:

– É preciso ter muito cuidado com as sereias de outubro. Elas são cruéis e nos enfeitiçam com desejos intocáveis. Principalmente, meu filho, as que se chamam Flávia…

* Este conto foi publicado em 1995, na coletânea Novos Contistas da Amazônia, em Belém, resultado de um concurso promovido pela Universidade Federal do Pará. Tempos depois, o conto inspirou a HQ Outubro, do cartunista Paulo Emmanuel, premiada em dois salões de humor. Isso mostra o quanto este conto é quente.

Macapá já se anunciava para mim, pois o livro trazia contistas que só fui descobrir aqui, como Archibaldo Antunes e Ray Cunha, e apresentação do grande Fernando Canto.
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Gosto muito deste texto, creio que seja um ponto alto da minha carreira de contista, que ofereço agora como homenagem, digamos assim, ao mês de outubro.

Ronaldo Rodrigues

Vingancinha marota – Crônica de Ronaldo Rodrigues

Crônica de Ronaldo Rodrigues

Eu sei que toda atividade honesta é digna de respeito etc., mas confesso que tenho vontade de esquecer esse ensinamento dos meus pais quando certa atividade entra em rota de colisão com a minha atividade. Me refiro aos operadores de telemarketing. E creio que eu não seja o único vivente desta era abarrotada de operadores de telemarketing que querem te vender tudo quanto é porra (estão vendo/lendo? Já perdi a porra da paciência! rsrsrs).

Ultimamente, esses caras têm abusado muito da minha zenitude (atitude de quem é zen, segundo meu dicionário) e me enchem tanto o saco que resolvi, para alívio meu e para não tentar algo mais drástico, escrever esta crônica em desagravo, lembrando que, sim, é o trabalho deles e todo mundo tem que arranjar um meio de sobrevivência e tal.

Pois bem. Decidi parar de ignorar a maioria das ligações de números de outros estados, mas faço uma ou outra concessão e topo levar um papo com esse profissional que só tem duas coisas a fazer na vida: perguntar por alguém que eu não faço a menor ideia de quem seja ou tentar me empurrar bolso adentro um pacote hiper-mega-ultra-supervantajoso, que vai me permitir falar com o pessoal de Marte, caso eu tenha algum conhecido lá.

A última ligação que recebi (espero, mas não creio, que seja realmente a última) o cara, pela milésima vez, me perguntou se o meu número pertencia ao seu João Everaldo. Já me perguntaram tanto por esse sujeito que quase chego a me perguntar se não o conheço mesmo. Respondi, respirando fundo e indo buscar, lá no mais íntimo do meu ser, o último fio de gentileza e da minha já citada zenitude:

– Já disse que não conheço ninguém com a porra desse nome, caraaaaaaalhooooo!

Claro que exagerei um pouco aqui e jamais respondi a alguém dessa forma, é mais para dar a medida do que me provocam essas ligações. Ontem eu fingi que sou um homem extremamente ocupado e fiz ao operador da vez um relato do que essas ligações provocam no meu dia a dia:

– Moço, é o seguinte. Por favor, me escute! Eu trabalho no setor de criação de uma agência de publicidade e esse meu trabalho consiste justamente em ter ideias. Tenho que parir ideias a todo momento. Mesmo que não sejam geniais, precisam ser ideias pelo menos razoáveis, aquelas que, na pior das hipóteses, possam ser bem embaladas e resolvam/atendam/satisfaçam os clientes e seus públicos. Aí, no exato momento em que estou tendo a tal da ideia, tu, ou alguém da tua laia, me liga, interrompendo meu já surrado raciocínio e mandando pelo ralo qualquer ideia que qualquer cristão, mesmo que não trabalhe com ideias, possa ter. Tu apagas, com uma ligação que eu não pedi sobre algo que não me interessa, qualquer vislumbre/lampejo/centelha que possa ser uma chama, uma faísca, algo que eu possa agarrar e puxar e lapidar e burilar até que se torne uma bendita boa ideia que me faça resolver o job em questão. E aí? Quem paga esse prejuízo?

Aí o cara responde, numa calma exasperante, quem sabe lendo o Sagrado Manual do Operador de Telemarketing, edição revista e ampliada:

– Calma. O senhor vai estar me desculpando, mas estou apenas fazendo o meu trabalho.

– Ah, tá! – respondo eu – Então o TEU trabalho é atrapalhar o MEU trabalho! É isso? É isso, canalha? – Esse canalha é exagero meu também. Não chamei o cara de canalha.

– Desculpe, senhor, mas o senhor está muito nervoso. Vou estar desligando. Bom dia, senhor.

– Bom dia é o caralho! – Desta vez eu disse assim mesmo, mas antes me certifiquei de que ele já havia desligado.

Me senti vingado, uma vingancinha marota, que não vai impedir que os operadores de telemarketing continuem sua saga de perturbar os pobres seres que possuem uma linha telefônica. Epa! Meu celular tá tocando! Deixa eu ver de onde me chamam. De São Paulo. Só pode ser um operador de telemarketing. Desta vez, vou mudar de tática:

– Puxa! Ainda bem que tu ligaste, meu amigo seja quem for! Eu preciso falar com alguém! Preciso desabafar! Minha vida tá uma merda! Me escuta! Me escuta!

Bora ver no que vai dar. Queres que eu te vingue também, minha cara leitora, meu digníssimo leitor? Pode ser divertido. rsrsrsrs

É isso – Crônica de Ronaldo Rodrigues

Crônica de Ronaldo Rodrigues

Tenho tudo para ser feliz, mas acontece que eu sou triste. Acordei com esse pensamento, que nem é meu. Creio que seja do Vinicius de Moraes. Não vou procurar no Google. Vou resistir. Posso viver sem Google e até sem memória.

Enquanto manuscrevo, uma mulher massageia minha vasta cabeleira e pensamentos imperfeitos. Isso faz com que as ideias fluam. Pelo menos, deveria ser assim. Tento me deixar levar por isso e devo ter um poder de persuasão muito forte, já que, realmente, me convenço, mesmo sem qualquer ideia fluindo na minha mente.

Deixo cair a caneta, num gesto involuntário. A mulher que massageia meus cabelos diz que eu ainda vou quebrar a caneta, jogando-a sempre no chão. Nem tento dizer que, desta vez, não é de propósito.

Eu sei que é chato para você, leitor, ficar esperando que algo de interessante aconteça na vida de um escritor para que ele possa relatar numa crônica, num conto, num texto, enfim. Mesmo num recado ao pé da página. Pior é saber que nem precisa acontecer nada. Basta que o escritor imagine, fantasie, delire.

Será que o escritor tem mesmo essa missão de distrair sua plateia? Sei que o gênero crônica nasceu assim nos jornais. Ficava encravada na seção que continha horóscopo, receita de bolo, palavras cruzadas, quadrinhos. Itens que os editores de jornais acreditavam (erroneamente) serem amenidades ou passatempos. A qualidade dos cronistas brasileiros, como o papa do gênero Rubem Braga, alçou a crônica a um posto de destaque em nossas letras.

Pronto. Passei uma informação legal. Posso me dar por satisfeito? Claro que não. Os cientistas nunca se contentam com a resolução de um dilema. Eles sempre estão procurando adiante, além da resposta que pode parecer definitiva. É preciso desconfiar sempre do que se apresenta como verdade. Eu não sou um cientista, mas passei outra informação legal.

Agora estou na rua. Olho para o sinal de trânsito, que impede minha passagem. Contemplo a paisagem ao longe, um luar sobre a ponte. Volto meus olhos para o sinal de trânsito, que agora libera minha passagem. Acontece que não estou mais a fim de atravessar a rua.

Faço todo o caminho de volta, como um filme correndo ao contrário, e chego até o início deste escrito. Lembro o pensamento com o qual acordei. Será que é mesmo do Vinicius de Moraes? Fico espremendo os neurônios até me render à falta de memória e vou recorrer ao Google.

É claro que a vida é boa
E a alegria, a única indizível emoção
É claro que te acho linda
Em ti bendigo o amor das coisas simples
É claro que te amo
E tenho tudo para ser feliz
Mas acontece que eu sou triste…

É um belo poema, se chama Dialética. E é mesmo do Vinicius. Ponto para o Google.

Na Baleia (crônica do meu amigo Ronaldo Rodrigues)

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Crônica de Ronaldo Rodrigues

Acordei naquele dia ainda bêbado. Demorei a perceber que estava dentro da baleia. Estômago de baleia, vocês sabem, é muito pequeno, parece um apartamento japonês. Então eu estava meio espremido no meio do monte de plâncton que tinha sido a última refeição da baleia. Pensei por alguns momentos sobre como sair dali. Mas depois, como a preguiça pós-bebedeira era quase maior que a baleia, me deixei ficar naquele remanso.

Aí pensei nas figuras que já estiveram dentro de uma baleia. Pinóquio e Gepetto estiveram dentro da baleia Monstro. Jonas esteve por três dias dentro de um peixe imenso que a Bíblia não diz que é baleia, mas eu digo. Se bem que baleia não é peixe, é mamífero.

Sou teimoso nessas coisas: se baleia vive no mar então é peixe. Aí vocês podem dizer: esponja vive no marjonah1-e1261949633796 e não é peixe. Eu respondo que esponja vive é no supermercado antes de parar na pia de alguma dona de casa. Mas isso é bobagem de minha parte.

Devo estar perturbado pelo fato de me encontrar dentro de uma baleia. Tento lembrar de como, bêbado, vim parar aqui. Aos poucos vou montando o cenário. Agora já consigo colocar alguns personagens neste cenário.

São meus amigos, que bebiam comigo na noite anterior. Onde será que eles estão agora? No estômago de outra baleia? Devem estar se divertindo, os safados! Agora me lembro. Estávamos num navio celebrando a primeira viagem desse navio. Lembro perfeitamente agora de alguém discursando sobre a impossibilidade de aquele navio naufragar. O que acabou de entrar pela boca da baleia? Uma folha de jornal. Vejamos o que diz esse jornal.Titanic-BBC

Ah! Agora tudo faz sentido. É isso mesmo! Vejam, senhores, a manchete do jornal: “Hic! Hic! Hic! Titanic vai a pique”. Bingo! Lembrei de tudo! Estávamos na viagem inaugural do Titanic. Sentimos o impacto de uma colisão, pessoas correndo desesperadas e nós só bebendo.

Vejo que sobrevivi, talvez graças ao meu estado de embriaguez, que atraiu esta baleia alcoólatra, que me engoliu como uma dose de uísque e me livrou de morrer afogado. Dos males, o melhor. Vou ficar por aqui mesmo dentro desta baleia. Quem sabe daqui a pouco ela engole a Kate Winslet. Saúde! Ui minha cabeça!

Galahell vive! – Crônica mordida de Ronaldo Rony

Crônica mordida de Ronaldo Rony

Não! Ele não morreu! Ainda que o descaso, o desprezo e a falta de respeito o agridam diariamente, Régis Sanches continua sua vida encarnando Dom Quixote, cavaleiro andante a lutar, não contra os moinhos-de-vento, mas contra os cabeças-de-vento.

Num país que elegeu um presidente da República a peso de boatos, não seria de estranhar que uma porção da população da nossa terrinha matasse um de nossos maiores jornalistas, um dos poucos jornalistas de verdade que temos, como se fosse algo banal.

Lord Gallahel paira sobre todas as pessoas que criam e propagam esse tipo de notícia macabra, pretensamente engraçada, mas que esconde uma intenção malévola de ver um irmão na sarjeta, na vala comum das notícias sem fundamento que proliferam nas redes sociais.

Pois eu digo que ele vai viver muito além dos fofoqueiros que adoram explorar a dor alheia e espalhar irresponsavelmente a possibilidade de perdermos uma figura ímpar, com suas doses necessárias de escândalo a chacoalhar o conformismo, a pasmaceira, a desinteligência que assolam nosso espaço/tempo.

Elton Tavares e Régis Sanches – 2012

Galahell morrerá, sim, como cada um de nós, mas não agora e não para satisfazer a curiosidade mórbida dos que ocupam as arenas internáuticas a julgar, condenar e executar aqueles que lhe são incômodos. E ficará para sempre na memória de seus amigos, que são muitos, entre os quais eu me incluo, mas haveremos de tê-lo como um ser brilhante, que ofusca todos esses que se comprazem em fazer boato com a vida de alguém.

Galahell ainda será pauta para muitos deformadores de opinião da internet, mas contará sempre com a minha quase indefesa capacidade de estar do seu lado.

Régis Sanches, Lord Galahell! Aceite meu abraço, que jamais será de pêsames. Obrigado!

Imaginário? – Crônica de Ronaldo Rodrigues

Crônica de Ronaldo Rodrigues

Diz que José Saramago dirigia seu carro pelas ruas da velha Lisboa quando passou por uma banca de revista e viu, com total clareza de sua intensa miopia, o título de um livro exposto na banca, entre tantos outros livros e revistas e cartazes. Aquele título o intrigou tanto que o fez contornar o quarteirão e estacionar em frente à banca, logo descendo do carro para ter o livro em mãos. Perguntou ao dono da banca, revirou freneticamente todo o material que estava ali e, enfim, desistiu. O livro que pensou ter visto (que ele viu, segundo declarava enfaticamente) tinha o título de “O Evangelho Segundo Jesus Cristo”. Intrigante mesmo, convenhamos. Saramago não se deu por vencido: “Bem. Já que não existe esse livro, terei que escrevê-lo!”.

Lembrei dessa história – que pode muito bem ser mais uma história desse contador de histórias – porque conheço pessoas que também veem coisas que não existem. Pelo menos não existem do lado de cá da nossa realidade (ou do nosso sonho). Um amigo meu, também dirigindo seu carro, nas altas da madrugada, voltando de seu trabalho, jura ter visto um bar, desses bem pé-sujo, num quarteirão em que costuma passar todos os dias. Jura também que não estava bêbado. Como o cansaço era muito, resolveu checar a existência do bar no dia seguinte. Mas até hoje ele faz o caminho de ida e volta do trabalho e nada de encontrar o bar: “Será que o bar abriu somente naquela noite?”, pensou meu amigo e prosseguiu sua vida, tendo que se contentar com os bares existentes, alguns mais sofisticados e menos interessantes.

Um bom tempo se passou e, ao conversar com uma amiga sobre o tal bar, ouviu a mesma história. Ela se mostrou até aliviada por saber que outra pessoa tinha visto um bar que todos dizem (inclusive os fatos) não existir. Lá vinha ela pelo mesmo caminho do meu amigo quando viu (jura que viu!) um bar que chamou a atenção por ser um estabelecimento bem precário encravado entre vários prédios modernosos. Também retornou no dia seguinte, e em vários outros dias, e não conseguiu encontrar o bar.

Falei aos dois que os ajudaria a procurar o bar, apostaria no fato de ele existir e, se não o encontrássemos, faríamos como Saramago: se não tem o livro que procuro, escrevo o livro. Se não tem o bar…

Foi assim que nossa amizade virou também uma sociedade e o nosso bar é um sucesso, frequentado pelas pessoas mais bizarras da cidade, gente que me faz pensar, de vez em quando, se este bar existe mesmo. Se é que alguma coisa existe…

A Moça do Tempo (Crônica firmeza de Ronaldo Rodrigues)

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Crônica de Ronaldo Rodrigues

Aos 19 anos, Mariana completou 30.

Sempre à frente de seu tempo, Mariana menstruou aos 70 e perdeu a virgindade aos três.

O tempo era seu passatempo. Seus banhos demoravam duas semanas, mas para comer cinco pizzas e três refrigerantes, dois segundos e meio bastavam.

Mariana se casou com seu avô, este com sete anos. Seu filho mais velho nasceu depois dos trigêmeos, que vieram ao mundo separadamente, em Estocolmo, Kingston e Bruxelas.

Seus netos a conheceram na festa de seu 15º aniversário, quando ela, já completamente senil, ainda não havia nascido.

Sempre que perguntada pelas horas, Mariana respondia que faltavam quinze dias para dois minutos, tempo em que viriam o calor infernal do inverno, as flores no outono, a primavera hostil e o verão glacial.tempo3 (1)

Mariana começou a escrever suas memórias antes dos 150 anos e as concluiu com apenas dois dias de nascida.

Seus pais começaram a namorar 20 anos antes de se conhecerem.

Depois do mestrado e doutorado, Mariana ingressou na alfabetização, onde aprendeu a ler todos os livros que ainda não haviam sido escritos. Foi quando Mariana pediu um tempo ao tempo……………………………………………………………


Então, todos os relógios do mundo marcaram a mesma hora. Quando seu primeiro ancestral iniciou sua proliferação, bem no começo de toda a existência, o tempo fechou para Mariana. As ampulhetas explodiram e os relógios, com seus ponteiros apontados para ela, gritaram numa só voz:

– Seu tempo acabou! Seu tempo acabou! Seu tempo acabou! Seu tempo acabou! Seu tempo acabou! Seu tempo acabou! Seu tempo acabou! Seu tempo acabou!

Paranoias de quem sente o tempo passar – Crônica de Ronaldo Rodrigues

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Crônica de Ronaldo Rodrigues

De vez em quando, batem algumas paranoias, tipo o medo de perder o movimento do braço direito. Para quem é destro, ficar com esse braço fora de combate é um pesadelo. Dia desses, bateu esse medo, que era mais do que medo, era a absoluta certeza de que eu amanheceria sem conseguir desenhar ou escrever.

Alguém pode sugerir que eu passe a escrever com a mão esquerda. Isso não é tarefa difícil no teclado do computador, só é mais demorado. Acontece que eu só começo a escrever no computador depois de ter rabiscado no papel grande parte do texto.

Mas a preocupação de não poder usar a mão direita está relacionada mais à prática do desenho do que da escrita. Pois é. Quando bateu a certeza, no meio da madrugada, de que eu amanheceria com o braço direito inerte, passei a desenhar freneticamente. Na minha cabeça, eu tinha que produzir tudo o que me restava para desenhar e concluir a minha carreira de cartunista.

Ao acordar, conferi de imediato minha habilidade com a mão direita e respirei aliviado. Ainda teria mais algum tempo para produzir os meus cartuns. Minha carreira não estava encerrada. O que bom disso é que, forçado a criar e depois de passar o crivo, vi que muito desenho legal tinha surgido dessa paranoia.

Na madrugada seguinte, a cisma foi outra. Achei que poderia acordar cego. E toca a ler, escrever e desenhar tudo o que podia, aproveitando os últimos clarões de uma visão que já não é lá essas coisas.

No dia seguinte, para meu consolo e júbilo, meus olhos ainda estavam aqui, me servindo, precisando ainda da muleta dos óculos, mas intactos.

Que paranoias são essas que o passar do tempo vai colocando em nossa existência, como numa corrida com barreiras que precisamos saltar? Ops! Neste momento, bateu mais uma dessas: tenho a firme convicção de que vou perder completamente a memória, que já há algum tempo vem dando sinais de pane.

Licença aí que eu vou fazer tudo o que consigo lembrar. Se for só paranoia, a gente se fala depois, em outra crônica. Ok? Tchau!

(O que é que eu vou fazer mesmo?)

O homem demolido – Crônica de Ronaldo Rodrigues

Crônica de Ronaldo Rodrigues

Ele não tinha se ligado no lance até o momento em que, num espirro, lá se foi seu nariz.

Ele não acreditou naquilo, assim como eu não acreditei quando soube do fato, assim como tu não estás acreditando agora. Mas como estou relativamente afeito a narrar coisas insólitas, continuo a narrativa.

Ele estranhou o seu nariz ali, no meio da rua, longe da sua cara, envolto em secreções, um pouco de sangue e as pessoas passando, quase pisando no nariz, sem sequer perceber o que estava acontecendo.

O espirro que arremessou o nariz causou coceira no olho e lá se foi nosso personagem esfregar. O olho caiu no chão, perto do nariz, deixando o buraco vazio olhando pro nada.

Teve vontade de falar com quem passava, nem tanto pra pedir ajuda, mas pra fazer com que mais alguém se desse conta do absurdo que era aquela cena. Quando foi falar alguma coisa, sentiu algo saindo de sua boca. Era sua língua, e alguns dentes, se esparramando boca afora, rebolando entre os pelos da barba, passando pela barriga e se aninhando no chão, entre seus pés.

Passando o carro de um amigo na esquina, o homem tentou acenar levantando o braço, que saiu do ombro e caiu no chão, se juntando aos outros órgãos e membros.

Quando ele tentou dar um passo pra sair daquele local, procurar ajuda, foi a vez de sua perna sair do encaixe do tronco e rolar pelo chão. Caramba! Aquilo já estava indo longe demais! Ou melhor: agora, sem pernas, não poderia ir a lugar algum, nem longe nem perto.

Foi quando se deu a demolição total, com todos os seus órgãos, membros, células, partículas, tecidos se derretendo pelo chão, se transformando numa massa putrefata, um líquido verde e purulento que foi escoando, escoando, escoando… até sumir na sarjeta.

Realmente este fato é muito insólito e, se não acreditas, tudo bem. Eu também não acreditaria se alguém chegasse me contando uma história absurda dessa. Só acreditei mesmo porque isso tudo foi relatado pelo Bilasca, o cachorro de rua que fica na esquina só observando o que acontece. Ele disse que todo dia alguém se esvai pela sarjeta sem que os passantes notem. Eu duvidei do Bilasca naquele momento, mas ele jurou que era a mais pura verdade. E nas palavras do Bilasca eu boto a maior fé. Tenho dito!

O evangelho segundo eu – Conto de Ronaldo Rodrigues

 

Conto de Ronaldo Rodrigues

Quando Jesus reuniu os apóstolos para a Santa Ceia, a proposta já estava firme em sua mente. Para espanto geral dos apóstolos, Jesus falou muito diferente, sua voz soou num tom bem acima do que costumava ser:

– Pois bem, senhores. Esta reunião é bem mais que uma ceia. É neste momento que começa a grande revolução.

Pedro sentiu o assombro nos olhos dos outros apóstolos e falou:

– Mas, mestre… O que o senhor está dizendo? A grande revolução já começou há muito tempo, quando o senhor passou a falar do amor que deve existir entre os seres humanos.

Com os olhos resplandecentes, com um fulgor muito mais forte do que o de costume, Jesus ordenou que retirassem os pães e o vinho que seriam consumidos na ceia e desenrolou um pergaminho sobre a mesa:

– Eis o plano. Tudo foi meticulosamente arranjado. A tarefa de cada um de nós, os horários e os locais de cada ação. Tomaremos o poder e libertaremos nosso povo da servidão que o Império Romano vem nos submetendo há tanto tempo.

Tomé, que estava um pouco apartado do grupo, se aproximou do pergaminho:

– Perdão, mestre, mas o senhor sabe: só acredito vendo.

E passou a examinar o pergaminho. A cada ponto que se aprofundava na estratégia ali determinada, sua perplexidade aumentava.

Os demais apóstolos também reagiram dessa forma, exceto Judas, que tomou a palavra:

– Então, mestre, o senhor chegou à conclusão de que a nossa vitória se dará através da espada e não da palavra, aquilo que o senhor sempre defendeu? Eu não precisarei entregá-lo ao exército romano e à sanha da elite judaica, para que o senhor, se sentindo pressionado, tome a rédea da situação? Meu nome na história não será sinônimo de traição?

– Isso mesmo, Judas. Seu nome será coberto de glória. Você será lembrado como um dos maiores comandantes desta guerra.

E distribuindo as espadas entre os apóstolos, falou com a autoridade de quem tem Deus ao seu lado:

– Vamos à rebelião, senhores! E podem acreditar: ainda hoje entraremos triunfais no paraíso!

Poema de agora: Pedalando no Domingo de Páscoa – Ronaldo Rodrigues

Pedalando no Domingo de Páscoa – Ronaldo Rodrigues

Recentes estudos afirmam que a utilização
de bicicleta concentra o maior número
de energia positiva ao seu redor.
As bicicletas são responsáveis
pela emissão de eflúvios
de agradável aroma,
excelente fragrância,
que adornam, confortam
e embelezam a tarde.
Vamos fazer um pedal
neste Domingo de Páscoa.
Eu já estou ao léu
e sei que estou no céu.
De bicicleta eu vou.
De bicicleta eu voo.
Cada um
na sua nave,
na sua arte
que é parte
da nave-mãe.
Até amanhã.
De manhã
pela manhãe.

Malhando os malhadores (Crônica porreta de Ronaldo Rodrigues)

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Semana Santa. Sempre que chega esta data fico pensando no sentido de justiça de certas pessoas. Elas pegam Judas e fazem o diabo com ele. Malham o cara de todo jeito. Dizem que é a única forma de fazê-lo pagar pelo crime de ter traído Jesus. Isso é o que mais me preocupa. Se tudo já estava escrito, segundo a própria Bíblia, qual é a culpa de Judas? Se há culpa, é de quem escreveu.

Prefiro acreditar que Judas foi um elemento para que a história se cumprisse da forma que se cumpriu. Judas foi um aliado de Jesus e agiu daquela forma para que tudo saísse segundo o roteiro do Todo (Todo é como chamo o Todo-Poderoso na intimidade). Ora! Parem com esse negócio de associar o nome de Judas à traição. E parem de fazer essa justiça esquisita que comporta todo tipo de torpeza que vocês veem no cara, que condenam nos outros, mas que em vocês é aceitável.JUDAS (1) (1)

Traidores são vocês! Traidores da palavra de Deus! (vocês são quem vestir a carapuça). Na verdade, sou a favor da reabilitação de todas as figuras malditas da Bíblia, pelo mesmo motivo: não foram elas responsáveis por seus destinos. Como dizem os árabes: maktub! (estava escrito!).

Portanto, Judas, Caim, Lúcifer, Barrabás, Pilatos, Herodes etc. devem ser vistos como personagens desempenhando seus papéis. Aí algumas pessoas dizem que há o livre-arbítrio, que esses personagens poderiam ter tomado outro caminho. E como ficaria a palavra do Todo?

religiãoIINa verdade, os cristãos (a maior parte deles) confundem tudo. Esse papo de dizer que Jesus morreu para nos salvar acho exagero e injusto com o cara. Cada um tem que fazer por si, pela sua salvação, e não achar que está tudo bem, bastando ir à igreja rezar que – abracadabra – estamos salvos. Muito confortável, não acham?

Agora vou me despedir porque tem uma multidão de fanáticos correndo atrás de mim querendo me linchar. E olha que eles nem leram esta linhas. É que estou com barba e cabelo grandinhos e estão me confundido, claro, com Judas. Por que não me confundem com Jesus Cristo? Ah, daria no mesmo! Só que, em vez de me linchar, eles me colocariam na cruz. Ó my God!

Ronaldo Rodrigues

De Nazaré (conto de Ronaldo Rodrigues)

De Nazaré estava passando em frente ao bar e os outros estivadores assoviaram alegremente, chamando-o para um trago.

Bom de copo como de trabalho, De Nazaré pensou um pouco e concluiu que um convite feito com tanta sinceridade e alegria não poderia ser recusado.

Deixou a pesada cruz encostada ao lado do bar e abriu os braços para os amigos.

Todos gostavam de ouvir De Nazaré cantar, mas ele só fazia isso quando estava bastante embriagado. Então bebeu, de uma só vez, meia garrafa de pinga.

A bebida explodiu quente nas engrenagens cerebrais e despertou o cantor apaixonado que De Nazaré sonhou ser em sua juventude. Abriu a garganta, libertando o pássaro da voz, e fez com que todos ali esquecessem, por alguns instantes, a miséria quotidiana e a coroa de espinhos que eram obrigados a suportar.

Mais do que uma simples distração, as músicas eram um alívio, acentuado pelo entorpecimento da cachaça. Uma trégua para quem tem que colocar a carga do mundo nas costas e encher os porões dos navios.

Depois de algum tempo de cantoria, De Nazaré resolveu ir embora, continuar seu amargo ofício. Era quatro horas da madrugada e ele tinha que carregar mais algumas dezenas de cruzes antes do amanhecer. Homem de palavra, De Nazaré honra os compromissos e nunca deixou uma entrega por fazer.

Os outros estivadores bem que queriam que De Nazaré continuasse a cantoria, mas sabiam que eles mesmos teriam que se retirar para enfrentar o batente. Voltaram à realidade e se foram, deixando os restos de peixe frito para os cachorros do cais.

Sozinho novamente, De Nazaré sentiu os pingos da chuva que começava a cair. Tomou o último gole e, sob a precária iluminação do poste, recolocou a cruz no ombro e caminhou em direção à ponte de tabuinhas irregulares que levava aos navios ancorados na escuridão.

Ronaldo Rodrigues