Viver e respirar – Crônica de Ronaldo Rodrigues

Crônica de Ronaldo Rodrigues

Foi o que pensou Neurinha, adentrando os 19 anos e achando que, naquela idade, seria bom começar a pensar nessas coisas. Seria bom pensar em alguma coisa. Qualquer coisa.

Mas o pensamento mais louco mesmo ela teve depois:

– Será que consigo morrer SEM parar de respirar?

Seu cachorro respondeu que não, ao que o ursinho de pelúcia disse que sim:

– Viver e respirar são coisas completamente díspares, conflitantes. Uma coisa não tem nada a ver com a outra. Tenho dito!

O cachorro de Neurinha ponderou que aquela maneira de falar do ursinho de pelúcia deixaria Neurinha ainda mais sem entender nada.

Neurinha, por sua vez, continuou sem nada entender. Paciência. Era sua natureza. Não entender qualquer coisa era a única coisa ao alcance de qualquer coisa que Neurinha pudesse entender. Entendeu? Nem eu!

Neurinha procurou os sábios conselhos de seu antílope de estimação, Clodoaldo, que entendia muito bem dessas questões, quando não estava ocupado em beber, fumar e levar mulheres para o apartamento.

Clodoaldo passou a contar a história de um tatu que fez greve de respiração em protesto contra a proliferação de armas nucleares e morreu em poucos minutos, ainda a tempo de ordenar a seus seguidores que invadissem a Casa Branca e incendiassem a provisão de amendoim.

Claro que Neurinha não entendeu e parou de se questionar. Resolveu passar à ação e cometer o ato de parar de respirar.

Segundo o método dos ninjas, Neurinha girou o nariz como se fosse uma torneira e parou de respirar.

Você, caríssimo leitor, já sacou que Neurinha era bem tontinha. Pois é. Até hoje ela não sabe se morreu.

Cordilheira – Crônica de Ronaldo Rodrigues

Crônica de Ronaldo Rodrigues

De todas as palavras, esta era a mais exata, definitiva, avassaladora do meu pobre vocabulário: cordilheira. Sempre que a usava, mesmo antes de saber seu significado, sentia uma força de montanha crescendo, após um repouso de três milênios, do fundo do peito e ocupando meu pequeno mundo, que nesses momentos ficava imenso.

Olhava as pessoas e elas, aos meus olhos, eram grupos de montanhas. Os edifícios, no ângulo do meu olhar, se transformavam, também, em cadeias de montanhas. Observando o frêmito do tráfego causado pelos automóveis, estes eram montanhas, mas se moviam tão rápido que não havia tempo hábil para que eu os retivesse na memória, que já dava sinais de falha desde o último outono.

Quando estive diante do pelotão de fuzilamento, condenado por ver coisas que não existiam aos olhos da maioria das pessoas, senti no fundo do peito que ainda não seria o meu fim. O comandante ordenou que eu dissesse alguma coisa, como o último ato a que teria direito. Nem foi preciso pensar muito, já que a palavra final, que também era a inicial, já estava lá, pulsando, aquela palavra que esteve sempre presente, me salvando nos momentos mais cruciais da minha existência.

Impaciente com a demora, o comandante berrou para que eu pronunciasse minhas últimas palavras. Mas não eram palavras, era uma apenas e, antes mesmo de eu abrir a boca para liberá-la, ela se fez ouvir no ar tempestuoso daquela tarde:

– Cordilheira!

A palavra, que para mim sempre representou doçura, veio investida de toda a fúria e derrubou o comandante, o pelotão de fuzilamento, as muralhas da prisão, o medo, a angústia, a falta de emoção…

Como sempre acontecia, a minha palavra favorita me libertou, com o poder devastador que as palavras têm. Creio que existe uma palavra que ocupa de forma decisiva a vida de outras pessoas. Penso nas palavras como uma cadeia de montanhas, uma cordilheira de palavras que inquietam, que apaixonam, que estão prontas a abraçar, abrigar e afagar aqueles que são capazes de ouvi-las.

Uma crônica baseada em baseados reais – Crônica de Ronaldo Rodrigues

GinoflexForever

Crônica de Ronaldo Rodrigues

Mais uma história verídica quase ficção do meu amigossauro Ginoflex Vinil.

Tocou o celular, eu atendi:

– Alô.
– Fala, Ronaldo!
– Fala, Gino. Qual é o papo?
– Tá rolando uma festinha aí na tua casa?
– Não é bem uma festa, só uns amigos reunidos. Fizemos aquela coleta básica e compramos umas latinhas.
– Eu posso ir praí?
– É… Pode! Mas olha lá, hein! Tu vais trazer algum amigo contigo?
– Vou. O senhor sabe que eu sempre levo alguém.
– Mas quantos tu vais trazer?
– Calma, Gabiru! Relaxa! Vou levar dois.
– Dois? Tá legal. Pode vir.

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Desliguei o celular e me reuni aos três amigos que conversavam e bebiam no pátio de casa, lá no bairro do Trem. Fiquei um pouco apreensivo porque eu sabia que o Ginoflex costumava SE convidar para as reuniões de farra e aproveitava para convidar muita gente. Eu estava pensando nisso quando o Ginoflex apareceu dentro de um carro com mais cinco pessoas. Ao lado, parou outro carro, este com seis pessoas dentro.

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Ginoflex e Ronaldo Rodrigues

O Ginoflex, com aquele jeito todo à vontade, foi logo me apresentando a galera. Na discreta, chamei o Ginoflex para o lado:

– Porra, Gino! Eu falei que não era uma farra grande e tu disseste que só ia trazer dois amigos!
– Calma, Gabiru! Eu falei que ia trazer dois! Dois carros!

Eu compreendi e sorri com mais uma do Gino. Já ia me recolher ao meu canto quando ele, abrindo um pacote de uma erva (que eu não vou dizer aqui), falou com a cara mais sem-vergonha deste meio do mundo:

– Mas eu trouxe outras coisas também, Gabiru!

Aí demos início ao ritual de boas-vindas. Se é que me entendem.

Cemitério dos elefantes

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Crônica de Ronaldo Rodrigues

Sempre curti cemitérios. Gosto de passear pelos corredores, admirar a arquitetura de alguns túmulos, observar as datas de nascimento/falecimento. Quanto mais antigas as datas, tanto melhor.

Em Curuçá/PA, a casa da minha família era bem próxima ao cemitério. Eu tinha uns quatro anos e ia muito lá. Deve ter vindo daí minha predileção por cemitérios e um senso de humor que, vez por outra, tem muito de mórbido. Depois, na adolescência, já morando em Belém, sempre que passava férias em Curuçá, o cemitério era um de meus locais preferidos de passeio.

Em Belém, frequentava o cemitério da Soledade, que tinha/tem um ar de abandono, cenário para filmes góticos, e o de Santa Isabel, o último lar de figuras como Eneida de Moraes, escritora e militante política. Sempre à frente de seu tempo, Eneida desafiou os padrões de sua época, liderando greves e atuando no jornalismo das décadas de 1920/30, quando esta atividade era considerada exclusivamente masculina.

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No cemitério de Santa Isabel, encontramos também túmulos que são recordistas de visitação em dias como os de hoje, 2 de novembro. Alguns mortos dali são considerados santos pela tradição popular, como o cirurgião Camilo Salgado, que fez muita filantropia em vida; Severa Romana, uma moça de 19 anos assassinada grávida, em 1900, a quem muitos atribuem milagres; e Josephina Conte, morta em 1931, que se transformou numa lenda urbana da cidade das mangueiras: a Moça do Táxi.

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Se e quando for a Paris, minha primeira visita não será à Torre Eiffel nem ao Arco do Triunfo. Será ao cemitério do Père Lachaise, o mais famoso do mundo, pela sua beleza arquitetônica e pela lista de hóspedes. Veja apenas alguns: Delacroix, Balzac, Oscar Wilde, Marcel Proust, La Fontaine, Allan Kardec, Modigliani, Isadora Duncan, Albert Camus, Molière, Chopin, Maria Callas, Edith Piaf e Jim Morrison.

Aqui em Macapá, minhas visitas aos cemitérios se fizeram mais raras, mas ainda dou minhas voltas pelo cemitério de Nossa Senhora da Conceição, o mais antigo da cidade.

Enquanto não me transformo em morador de um lugar desses, vou curtindo sua tranquilidade e suas histórias, sempre com muito respeito pelos que ali estão. Até que eu morra e vá descobrir, finalmente, onde fica o tal cemitério dos elefantes.

Sociedade dos Boêmios Mortos – Crônica de Ronaldo Rodrigues

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Crônica de Ronaldo Rodrigues

Noite dessas, saí agarrado à intenção de rever pessoas e situações. Até aí tudo bem, se as pessoas e as situações não estivessem para além da fronteira da vida, aquilo a que se convencionou chamar de “morte”.

Fui, então, a uma reunião de uma confraria que há muito suspeitava de sua existência: a Sociedade dos Boêmios Mortos.

Cheguei ao Quiosque Norte & Nordeste, na Praça Floriano Peixoto, que atendia pelo simples nome de Bar da Floriano. O som que me recebeu vinha de uma vitrola e quem estava no comando era o Gino Flex, colocando as músicas mais descoladas da imensa coleção de discos de vinil.

Logo em seguida, um poeta louco subiu numa cadeira e passou a declamar poemas de Vinicius de Moraes. Era o Fred Lavoura, que conhecia tudo do Poetinha e nem esperava que batessem palmas. Ele mesmo liderava os aplausos depois da apresentação de mais um poema.

Enquanto isso, o Brô contava uma história em que ele se destacava como o grande herói, é claro. Ao seu lado estava o Banana, que, sejamos justos com esse momento único, não aprontou confusão alguma. O Pururuca e o Foa passaram por lá, mas ficaram pouco tempo, já que tinham compromissos em seus trabalhos de mototaxista.

Uma turma mais antiga deu o ar de sua graça. Os poetas Alcy Araújo e Isnard Lima e o artista plástico Estêvão Silva. Claro que o trio nunca esteve no Bar da Floriano, que não existia quando estes grandes personagens viviam no mesmo plano que nós. Mas puxo da minha cartola esta licença literária e os coloco no mesmo ambiente para que a minha homenagem se estenda a essa geração de loucos geniais, sonhadores e personalidades ímpares que Macapá produz.

Eu não sei se, devido à instabilidade de temperamento de artistas e boêmios, seria possível um encontro dessas pessoas. Pode ser que alguns dos citados fossem desafetos de outros e jamais admitissem estar na mesma mesa ou no mesmo bar. Mas corro esse risco, mesmo porque, se houvesse alguma briga, ninguém mataria ninguém, já que todos estão mortos.

Ah, sim. Já ia esquecendo. O Valério Campos, mais conhecido como Kadáver, estava lá também, mas, apesar do nome artístico, era, além de mim, o único ser vivo.

Um dia vou te convidar, caro leitor, para dar essa volta. Topas?

Amigos, não se percam! – Excelente crônica de Ronaldo Rodrigues

Crônica de Ronaldo Rodrigues

Na ditadura, podia-se perder um amigo de um momento para o outro. Perder significa perder mesmo. Esse amigo poderia ser assassinado, morrer em emboscadas ou sob tortura. Ou, o que é pior, poderia desaparecer para sempre. Bastaria para isso que ele dissesse abertamente tudo aquilo que pensava. Ou tivesse comportamento e pensamento livres demais. Ou tivesse ligação com artistas, intelectuais, jornalistas ou outras espécies de pessoas que pensam. Uma pessoa pensando livremente é a maior ameaça a uma tirania. Podia ser nada disso. Uma suspeita de um vizinho bastava. Uma denúncia, uma invasão de domicílio arbitrária, uma prisão ilegal… E lá se ia nosso amigo.

Hoje, na democracia, para perder um amigo basta manifestar opinião contrária a ele. Liberdade de expressão, duramente conquistada, é, por muita gente, confundida com liberdade de agredir, ferir, magoar. Fazer isso com pessoas estranhas já é deplorável. Quando, por muitas vezes, quem está do outro lado é o que sempre se imaginou ser um amigo, a coisa fica insustentável.

Pelas redes sociais, amigos deixam de ser amigos, para constatar o fato de que nunca foram amigos. E trocam grosserias e se machucam e se excluem, em todos os sentidos. Essa é a derrota de todo mundo, não do lado A, nem do lado B, muito menos de quem não tem lado, o que não quer dizer está em cima do muro.

Perder um amigo é horrível. E aquele amigo que morreu na ditadura morreu exatamente para que os amigos de hoje possam exercer plenamente a maravilha de se ter um amigo.

Eu não admito perder um amigo para esse conjunto de fatos que citei acima. Posso perder uma discussão política, se o argumento contrário for mais forte do que o meu, perder amigo, não! Por essa causa sou capaz de convocar manifestações, organizar passeatas, subir no carro-som e disparar discursos. Quem vem comigo levanta mão aí!

Um mergulho nesse rio de gente – Crônica de Ronaldo Rodrigues e ilustração de Ronaldo Rony

Crônica de Ronaldo Rodrigues e ilustração de Ronaldo Rony

Há algum tempo, deixei de ver o Círio passar e passei a mergulhar nesse rio de gente. Creio que há uns cinco anos, no segundo domingo de outubro, quando saio de casa para ir ao encontro dessa multidão, vou também ao encontro da memória da minha mãe, da lembrança de Belém, do cheiro do tucupi.

Também vou ao encontro de mim mesmo e, se você acha que estou usando demais a palavra ‘encontro’, saiba que é proposital. Encontro é o que o Círio, não só a procissão, mas tudo o que envolve esta época do ano, representa para mim. Penso nas pessoas que moram fora, em outras cidades, outros estados e mesmo em outros países, que viajam a Belém para se encontrar com a família, rever os amigos, respirar a cidade.

Mas nem sempre foi assim. No meu ateísmo juvenil, cheguei a renegar o Círio e tudo o que fosse ligado à religião. Com isso, feri muitas pessoas, inclusive minha mãe. Achava o máximo provocar, chocar, marcar minha rebeldia, desfiar minhas opiniões contra Deus, Jesus, Igreja, santos, cristãos, papa etc.

Ainda bem que o tempo vai nos ensinando e eu, tentando aprender com ele, sei que exagerei na dose, provoquei mágoas e, como advogado de minha própria causa, invoco a meu favor, como atenuante, os arroubos da juventude. Hoje penso com mais leveza sobre o conceito de Deus, mantenho minhas críticas ao que afronta o que entendo como religiosidade, mas o Círio está acima disso tudo, porque compreendi a tempo, minha mãe (saiba disso onde estiver), que Nossa Senhora de Nazaré é a síntese do amor de todas as mães, que o Círio inspira, irmana, reúne e congrega os mais diversos pensamentos e sentimentos referentes à força que desafia a lógica. Essa força é a fé.

Domingo estarei novamente entre os caminhantes nas ruas de Macapá, estarei com minha mãe e minha família, amigos daqui e de Belém, presencialmente ou na lembrança, na vontade de bem-querer. Nestes dias de extremos, radicalismos e intolerância, vou me juntar às orações por um Brasil e um mundo justos, fraternos e que façam valer a nossa vocação para a felicidade.

Feliz Círio de Nazaré!

As que se chamam Flávia… – Conto porreta de Ronaldo Rodrigues sobre a chegada de outubro

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Conto de Ronaldo Rodrigues

– Outubro é muito perigoso!

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É preciso segui-la. Sinto isso logo que a vejo na livraria. Está folheando uma revista, sem muita atenção, fixando-se apenas nas fotografias. Parece estar ali com o mesmo propósito que eu, matando o tempo até voltar ao trabalho.

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– Outubro é muito, muito perigoso!

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Ficamos lado a lado, embora a mulher permaneça como se só ela existisse. Tenho a visão no livro que folheio sem qualquer interesse e a atenção totalmente voltada para a mulher. Ela fecha a revista decididamente, olha para o relógio e o percebe parado:

– Sabe as horas, moço? – Pergunta, altivamente.

– Nã… Não! Não… sei… – Gaguejo, respondendo.

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Quem sempre me dizia isso era o Capitão Nemo:

– Tenha muito cuidado, menino! Outubro é muito perigoso!

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Ela deixa a revista na estante e dirige-se à portaria. Confere a hora e acerta o relógio. Sai da livraria e eu continuo olhando aquela mulher, agora através do vidro da vitrine. Ou será que não existe vidro algum? Meu olhar é que fez a parede tornar-se transparente?

Pergunto o motivo do perigo de outubro e ele responde, depois de longo silêncio, os olhos em transe, na direção do mar:
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– É em outubro que começamos a enlouquecer! É em outubro que costumam surgir as sereias!

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Ela atravessa a rua. Saio da livraria, disposto a segui-la, e paro na esquina. Contemplo, então, o espetáculo da rua silenciar-se para a passagem daquela mulher. A paisagem urbana torna-se repentinamente quieta, mas com uma acelerada pulsação interior que começa no asfalto e termina/continua no meu peito.

Ela entra num edifício e eu continuo seguindo seus passos. Ainda não me percebeu e acho que isso não acontecerá nunca. Ela aguarda a chegada do elevador junto a mais três pessoas. Incorporo-me ao grupo e passo a esperar também.

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Todos dizem que não devo dar atenção às palavras do Capitão Nemo. Dizem ser louco tanto o Capitão Nemo quanto quem o escuta. Mas eu digo que não. É preciso buscar o sentido das palavras, principalmente das que nos parecem mais delirantes.

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O elevador chega, nos recolhe e inicia sua lenta subida. As pessoas vão ficando em seus respectivos andares até restar apenas eu e a mulher. Como música de fundo, meus batimentos cardíacos ecoam nas paredes do elevador confundindo-se com a palavra outubro.

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Outubro. Agora compreendo claramente seu perigo. O Capitão Nemo ficou aprisionado em sua louca lucidez, nos destroços do seu navio, enfeitiçado por uma sereia. Eu estou preso neste elevador atraído por uma sereia. Aqui ficarei para sempre, aguardando todos os dias aquela mulher maravilhosamente perturbadora cujo nome conheço apenas a letra inicial (F), que vi uma vez em que ela abriu rapidamente a agenda.
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Todos os dias, quando ela sai do elevador, ainda sem notar minha presença, recordo as palavras do Capitão Nemo, que todos acreditavam serem palavras de um louco:

– É preciso ter muito cuidado com as sereias de outubro. Elas são cruéis e nos enfeitiçam com desejos intocáveis. Principalmente, meu filho, as que se chamam Flávia…

* Este conto foi publicado em 1995, na coletânea Novos Contistas da Amazônia, em Belém, resultado de um concurso promovido pela Universidade Federal do Pará. Tempos depois, o conto inspirou a HQ Outubro, do cartunista Paulo Emmanuel, premiada em dois salões de humor. Isso mostra o quanto este conto é quente.

Macapá já se anunciava para mim, pois o livro trazia contistas que só fui descobrir aqui, como Archibaldo Antunes e Ray Cunha, e apresentação do grande Fernando Canto.
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Gosto muito deste texto, creio que seja um ponto alto da minha carreira de contista, que ofereço agora como homenagem, digamos assim, ao mês de outubro.

Ronaldo Rodrigues

Nova Idade Média (crônica de Ronaldo Rodrigues)

 
Na canção Outros Românticos, de Caetano Veloso, há uma frase que sempre me chamou atenção: “outra Idade Média situada no futuro”. Isso me vem à cabeça quando leio/vejo/ouço notícias como a que tem Emerson como alvo. Esse jogador do glorioso Corinthians foi fotografado (flagrado, como dizem as revistas e blogs de fofoca) trocando um beijo com um amigo.
 
Esse fato deixou a torcida furiosa. Quando o mesmo jogador foi visto (flagrado) lendo um livro, a torcida chiou de novo. Para os torcedores mais fanáticos, ler um livro (ou ler qualquer coisa) é inadmissível para quem defende as cores do Timão, ou qualquer outro time.

Esses dois “flagras” ilustram bem a vigilância (e a cobrança) exercida sobre a vida das pessoas. Me lembram a Inquisição. Outros fatos se acumulam e confirmam a instalação de um Big Brother a esmiuçar, expor e interferir nas nossas vidas, como o fuçar dos Estados Unidos nas redes sociais, celulares e outros meios de comunicação. Uma manobra com a chancela do Obama, o mesmo que surgiu no cenário político mundial como um cavaleiro da esperança, de visão aberta, arejada, que iria sacudir a poeira do trono da Casa Branca. 

A Inquisição desta nova Idade Média situada no futuro (ou seja, aqui e agora) decreta que um homem não pode beijar outro homem (nem que os dois sejam pai e filho). Tudo bem que homens troquem xingamentos e socos, mas beijos ou qualquer outra demonstração de afeto, nem pensar. Eles serão banidos da sociedade, na melhor das hipóteses, ou queimados em praça pública.
 
A saudável filosofia do “cuide da sua vida que eu cuido da minha” deve cair em desuso. Todo mundo vai vigiar todo mundo, controlar as saídas e chegadas e fiscalizar quem frequenta a cama do vizinho. Afinal, quem padece de falta de assunto precisa desse tipo de remédio.

Quanto aos livros, é melhor destruí-los. Vai que uma criança desta nova Idade Média se interesse por eles e tenha sua cabeça entortada pela imaginação desvairada de autores devassos.
 

Ideias tacanhas, obscurantistas deveriam estar com data de validade vencida, neste início de terceiro milênio. Mas não é o que vemos no dia a dia. Todos os valores, ideologias e pensamentos tortos que um dia levaram a humanidade à guerra, estão presentes hoje, mais vivos do que nunca. Basta ligar a televisão, entrar na internet ou mesmo olhar para o lado. É intolerância, racismo, xenofobia, desrespeito à diferença, invasão de privacidade, todo tipo de preconceito. 
 
A Idade Média está instalada, senhores. Com aparelhos e equipamentos mais sofisticados e eficazes que a Idade Média propriamente dita. Os inquisidores estão à porta, espiando pelo olho mágico e pelas câmeras de vídeo ultramodernas, que podem captar imagens através das paredes e até monitorar os nossos sonhos.
 
Tudo isso me faz lembrar também o livro 1984, de George Orwell, e lamentar que a história contada nele corra o risco de não ser mera ficção.
 
Ronaldo Rodrigues

Frases de Ronando Rodrigues sobre as Eleições 2018 (ilustração de Ronaldo Rony)

-Palhaço Bozo pretende processar quem insiste em compará-lo a certo candidato.

-Alckmin pode cair pra série B.

-Candidato promete aprender a ler no teleprompter.

-Margem de erro deve vencer no primeiro turno.

-Eymael, Amoêdo e Daciolo lutam pra sair da zona de rebaixamento.

-Marina Silva pega um golpe de ar, mas já está se recuperando.

-Candidato farmacêutico afirma: Meu eleitor vai saber o que é bom pra tosse!

-Supercomputador da Nasa consegue localizar dois eleitores do Eymael.

-Eleitores indecisos não sabem que roupa usar no dia da eleição.

– Eleitor intolerante passa 20 segundos sem ofender ninguém e só não sofre parada cardíaca porque não tem coração.

– Historiadores afirmam: Henrique Meirelles já foi candidato a faraó no antigo Egito.

– Vidraça faz campanha para eleger baladeira.

– Cientistas não conseguem comprovar existência de eleitores do cabo Daciolo.

– Eleitores intolerantes sugerem que se instale a tecla EXCLUIR no painel da urna eletrônica.

– Burro já não suporta ser chamado de eleitor.

– Cidadão de bem pronto pra votação, com Deus no coração e revólver na mão.

-Na campanha eleitoral de Macapá, declaração de amor preocupa tanto quanto discurso de ódio.

Imaginário? – Crônica de Ronaldo Rodrigues

Crônica de Ronaldo Rodrigues

Diz que José Saramago dirigia seu carro pelas ruas da velha Lisboa quando passou por uma banca de revista e viu, com total clareza de sua intensa miopia, o título de um livro exposto na banca, entre tantos outros livros e revistas e cartazes. Aquele título o intrigou tanto que o fez contornar o quarteirão e estacionar em frente à banca, logo descendo do carro para ter o livro em mãos. Perguntou ao dono da banca, revirou freneticamente todo o material que estava ali e, enfim, desistiu. O livro que pensou ter visto (que ele viu, segundo declarava enfaticamente) tinha o título de “O Evangelho Segundo Jesus Cristo”. Intrigante mesmo, convenhamos. Saramago não se deu por vencido: “Bem. Já que não existe esse livro, terei que escrevê-lo!”.

Lembrei dessa história – que pode muito bem ser mais uma história desse contador de histórias – porque conheço pessoas que também veem coisas que não existem. Pelo menos não existem do lado de cá da nossa realidade (ou do nosso sonho). Um amigo meu, também dirigindo seu carro, nas altas da madrugada, voltando de seu trabalho, jura ter visto um bar, desses bem pé-sujo, num quarteirão em que costuma passar todos os dias. Jura também que não estava bêbado. Como o cansaço era muito, resolveu checar a existência do bar no dia seguinte. Mas até hoje ele faz o caminho de ida e volta do trabalho e nada de encontrar o bar: “Será que o bar abriu somente naquela noite?”, pensou meu amigo e prosseguiu sua vida, tendo que se contentar com os bares existentes, alguns mais sofisticados e menos interessantes.

Um bom tempo se passou e, ao conversar com uma amiga sobre o tal bar, ouviu a mesma história. Ela se mostrou até aliviada por saber que outra pessoa tinha visto um bar que todos dizem (inclusive os fatos) não existir. Lá vinha ela pelo mesmo caminho do meu amigo quando viu (jura que viu!) um bar que chamou a atenção por ser um estabelecimento bem precário encravado entre vários prédios modernosos. Também retornou no dia seguinte, e em vários outros dias, e não conseguiu encontrar o bar.

Falei aos dois que os ajudaria a procurar o bar, apostaria no fato de ele existir e, se não o encontrássemos, faríamos como Saramago: se não tem o livro que procuro, escrevo o livro. Se não tem o bar…

Foi assim que nossa amizade virou também uma sociedade e o nosso bar é um sucesso, frequentado pelas pessoas mais bizarras da cidade, gente que me faz pensar, de vez em quando, se este bar existe mesmo. Se é que alguma coisa existe…

Cada louco com sua coleção (crônica de Ronaldo Rodrigues)

Tem gente com cada mania! Uns, como George W. Bush, e outros presidentes dos Estados Unidos, como Ronald Reagan, tinham a mania clássica dos cientistas malucos de desenho animado: queriam, a todo custo, dominar o mundo (rá! rá! rá!).

Outros, mais normais (dentro de certos padrões), se contentam em colecionar coisas. O que leva um ser humano a tal prática é um dos enigmas da humanidade. Desde Imelda Marcos (que melda!), ex-primeira-dama das Filipinas, com seus milhares de sapatos, até o popstar inglês Elton John, contumaz colecionador de óculos, os malucos que colecionam não precisam de nenhum elemento motivador. Eles colecionam e pronto. Ponto.

Vejamos uma galeria desses tipos. Uma coleção deles:

Giz de bilhar

O cartunista Ronaldo Rony, péssimo jogador de bilhar, costuma levar para casa, depois de apanhar feio dos adversários mais desprezíveis, o giz que se usa para passar na ponta do taco. Como ele não consegue ganhar mesmo, sua vingança consiste em roubar (tem que ser roubado) uma grande quantidade de giz, que ele ostenta em sua estante, como se troféu fosse.

Nuas e cruas

O designer gráfico Joelson Dutra, às do bilhar, não quer saber desse jogo quando o assunto é coleção. O que ele guarda, com todo o carinho e tesão, são fotos e vídeos de mulheres nuas recolhidos da internet. Ele se gaba de possuir o maior acervo de seios de todos os tamanhos e genitálias nas posições mais perturbadoras. Ele afirma que essa mania se deve ao fato de sempre ter sido preterido pelas mulheres. Na tela do monitor, garotas sensuais sorriem para Joelson, que se regala no espaço virtual com aquilo que o mundo real sempre lhe negou.

Engolindo sapo

Paracildo Nogueiras coleciona sapos. São esculturas, pinturas e miniaturas. Os materiais variam: gesso, papel, madeira, pano, mármore… Uma estante inteira enfeitada com diversos espécimes desse (para alguns, repugnante) bicho. Paracildo justifica sua predileção por sapos: “Em minha profissão (ele não revela que raio de profissão é essa), preciso engolir sapo todo santo dia. Aí, quando isso acontece, recorro à minha coleção. Fico passando a mão na cabeça dos sapinhos e jurando, em vão, para mim mesmo: – Este é o último sapo que eu engulo… Este é o último sapo que eu engulo… Este é o último sapo que eu engulo…”. Depois disso, me acalmo e fico preparado para engolir mais sapos no decorrer do período”.

Colecionar é imperativo

O baixinho Romário colecionava gols e carros. Carlos Humberto coleciona selos, uma das coleções mais comuns. Mauro Mathias coleciona namoradas. Entre nossos entrevistados, descobrimos pessoas que colecionam lápis com ponta mordida, sabonetes de motel com pentelho, canecas de chopp das mais horrendas formas e até calcinhas manchadas com sangue de menstruação. Carlos Nero coleciona isqueiros alheios que, distraidamente, coloca no bolso e esquece. Para ele, foi criada uma nova classificação de criminoso: o pirocleptomaníaco.

E para finalizar esta crônica

Ficamos com a coleção de desafetos, construída caprichosamente pelo Homem-Rancor (um dia revelaremos sua identidade secreta) ao longo de mais de 50 anos. A outra é a coleção de amigos, cultivada pelos usuários de redes sociais, com seus mais de 300 amigos virtuais. Para eles, amizade dispensa envolvimento emocional, afetivo. O que importa é a quantidade.

Ronaldo Rodrigues

A última cruzada – Crônica de Ronaldo Rodrigues

Crônica de Ronaldo Rodrigues

Estou andando pelas ruas de Macapá quase em desespero. Na verdade, estou, sim, em desespero! Crise de abstinência, na certa! Revolta contra esse mundo que parece fechar suas portas pra mim! Bom, acho melhor explicar o que está ocorrendo na minha vida, se é que alguém se importa.

Eu tenho um vício muito forte: palavras cruzadas. Não tenho vergonha alguma de admitir isso e não é novidade pra ninguém. Não posso ficar muito tempo sem uma revistinha de palavras cruzadas que começo a me coçar, ficar vermelho, babar e desmaiar. É a dose de palavras cruzadas que falta na minha rotina. Ah, sim! Por falar em rotina, se eu relatar a minha, pode ser que meu querido leitor compreenda melhor. Não que seja uma coisa muito complicada, mas é inusitado, de qualquer forma, alguém que não consegue viver sem matar as questões das palavras cruzadas. Ou ser morto por elas.

As revistas de palavras cruzadas circulam regularmente pelas bancas de revistas. De tempos em tempos, eu passo na banca (dificilmente vario de banca; minha preferida é aquela ao lado da Secretaria de Educação). Pois bem, já faz quase três meses que faço essa peregrinação até essa banca e nada de as revistas chegarem. As que encontro por lá são aquelas fáceis demais e o meu nível preferido é o difícil. Chegavam três revistas inéditas desse nível e agora não acho uma sequer. Até existem algumas por lá, mas são republicações. Cheguei a perguntar ao dono da banca o que estava ocorrendo, por que estavam demorando tanto.

O dono da banca, depois de tirar minhas mãos do seu pescoço, me deu um copo d’água e pediu pra que eu me acalmasse. Segundo ele, os fornecedores alegam que a editora não está mandando mais revistas de palavras cruzadas. Eu, que já estava calmo, voltei a ter um surto psicótico e gritei a minha indignação:
– Será que pararam de produzir? Resolveram acabar com uma das poucas distrações que tenho na vida? Um dos poucos jogos (talvez o único) em que consigo me sair bem?

O dono da banca me deu mais um calmante, acendeu um incenso e cantou um mantra, até eu consegui relaxar. Ele explicou que existe uma crise no mercado editorial, concorrência com a internet, fim de publicações impressas, preferência do público por edições digitais, mudança nos hábitos dos leitores e… Buááááá!

Que foi isso? Foi a vez do dono da banca começar a chorar, diante do quadro que ele, talvez só naquele momento, começou a se dar conta. Eu o acalmei e disse algo como “isso passa e tal, enfim”, essas coisas. Mas fiquei muito preocupado. Com o impacto maior ainda que a tal da tecnologia trará ao negócio de bancas de revistas e preocupado comigo, remoendo o vazio que as palavras cruzadas estão deixando em minha vida. Fiquei pensando num complô do mundo moderno contra a minha pessoa. Como daquela vez que anunciaram o fim da fabricação de plástico-bolha. Estourar plástico-bolha é outro passatempo do qual não abro mão.

Amanhã vou sair novamente atrás das palavras cruzadas, com todo o entusiasmo de que sou capaz, como um esfomeado em busca de um prato de comida. E se você, meu caro leitor, vir uma pessoa descabelada, andando por aí a esmo, com o olhar desamparado, não tenha dúvida: as palavras cruzadas (e em breve, eu) não existem mais.