Rompi com o mundo SQN – Croniqueta meia-boca pós-Carnaval de Ronaldo Rodrigues


Croniqueta meia-boca pós-Carnaval de Ronaldo Rodrigues

Tentei romper com o mundo, mas parece que foi sem sucesso. Parece, não! FOI sem sucesso! Ser ermitão na Idade Média deve ter sido mais fácil. Agora, com esse monte de recursos, a solidão e o isolamento parecem mais distantes.

Mas o que digo aqui trata-se de uma ruptura simbólica, ou vontade apenas. O fim do Carnaval traz para mim essa coisa de fim/começo de ciclo. Logo, vem a tal da reflexão sobre isso. Foi-se a folia, que virou cinza, e outra urgências se apresentam.

Já que não sinto ressaca (a não ser que sono possa ser chamado de ressaca), para me ocupar com alguma coisa, me restou partir para esta reflexão que ora coloco diante de vossos olhos.

Para muitos, o ano só começa depois do Carnaval. Para mim, é assim também, mas tem uma certa coerência. Vejamos: logo depois das farras de Natal e fim de ano, vêm as celebrações do meu aniversário em janeiro, que faço questão de comemorar, já que sempre pode ser o último (um dia será). Depois, engato no Carnaval, que não deixo escapar de jeito algum.

Pois bem, o Carnaval passou e me deixou esta reflexão que sabe-se lá irá servir para alguma coisa, tipo entender que, se não rompi com o mundo, é porque ele não merece toda essa atenção.

Pelo menos, rendeu esta croniqueta meia-boca. O Carnaval foi ótimo, veremos o resto. Bom ano a todos.

Bloco do Eu Sozinho – Crônica de Ronaldo Rodrigues

Crônica de Ronaldo Rodrigues

Sigo eu, sozinho, seguindo a mim mesmo, neste bloco de amigos e inimigos invisíveis, alguns inexistentes, sobras de outros carnavais. Pálidas lembranças de confetes e serpentinas. Fantasmas de pierrôs e arlequins. Saudade de colombinas.

Sigo cego, a esmo, sempre o mesmo, sob a chuva. Não a chuva de papel picado. A chuva, essa que vem devagarinho e fica por muito tempo, a desmanchar a maquiagem, a se misturar às lágrimas que caem da máscara, as lágrimas formando outra chuva.

Meu samba atravessa a avenida e eu atravesso o samba. Sou desclassificado, é lógico. A corte marcial do Rei Momo é implacável. Se ano que vem ainda existir carnaval, se houver ano que vem, devo desfilar no segundo grupo. Mas, como sei que não posso deixar o samba morrer, que não posso deixar o samba acabar, o jeito é me acabar no samba.

Sigo esse bloco, sou esse bloco, despido de fantasias, em choque com a realidade, e espero me recuperar da ressaca nas cinzas de outro carnaval. Quarta-feira há de chegar, a me cobrar responsabilidades de quem sobreviveu ao folguedo, e eu estarei preparado (estarei preparado?) para ir ao seu encontro.

Alegria é lei – Crônica de Ronaldo Rodrigues

Crônica de Ronaldo Rodrigues

Noite de Carnaval, uma das Mil e Uma Noites de Carnaval, e eu diante da televisão. Em retiro espiritual? Nem tanto. Estava olhando as bundas rebolativas maravilhosas, reais e artificiais, que desfilavam nos sambódromos e passarelas deste carnavalesco Brasil.

Meu programa de folião se resumia a isso. Mas, depois que a exuberância bundística cansasse meu tarado, porém inofensivo, olhar, eu iria me entregar ao resto do programa: um bom livro e uma xícara de chá, embaixo do meu solitário edredom. O Rei Momo dominava o resto do Brasil e só eu me encontrava enclausurado nesta ilha que é o meu quarto. Que maravilha!

Mas ei que a campainha tocou. Quem estaria a estas horas longe da esbórnia cívica nacional? Abri a porta e me deparei com um pierrô, uma colombina, um arlequim, um pirata do Caribe, um sheik e cinco Fridas Khalo, que este ano estiveram em alta, disparadas na preferência de muitas pessoas. E tinha também um delegado de polícia. O delegado era delegado mesmo, não uma fantasia. E foi ele quem falou pelo grupo:

– Boa noite, cavalheiro! Viemos informar que o senhor está infringindo vários artigos do Código Civil. Onde já se viu uma coisa dessas?

– Mas o que foi que eu fiz?

– A questão não é o que o senhor fez e, sim, o que o senhor não fez!

– E o que foi que eu não fiz?

– O senhor, em pleno período de Carnaval, neste país, que é, nada mais nada menos, que o País do Carnaval, está recolhido aos seus aposentos. Os seus vizinhos, aqui representados por estes cidadãos, que prezam as tradições do lugar em que vivem, exigem que o senhor troque esse pijama por uma fantasia qualquer, o seu chá por uma bebida alcoólica e o seu livro por um adereço de mão. E venha para a rua pular, cantar, festejar a alegria e a liberdade de um país que decreta feriado nacional, universal e intergalático para que seus filhos possam se jogar, sem temor, nos braços da felicidade.

O grupo de foliões aplaudiu o delegado, que estufou o peito em resposta, muito satisfeito de seu discurso. Eu protestei:

– Já que o senhor falou em liberdade, será que uma pessoa não é livre para escolher se quer participar das festas? Assim como as pessoas que aqui estão têm o direito de dançar, eu tenho o direito de não dançar, de ficar no meu canto sossegado e….

O delegado, que procurava algo para me incriminar, me interrompeu:

– Aí é que está, cidadão! O senhor está sossegado no seu canto. Os seus vizinhos afirmam que o seu silêncio está atrapalhando o barulho que eles estão fazendo com tanta dedicação!

Aí foi que eu me confundi mesmo! Já sem força, nem raciocínio, para protestar contra aquele absurdo, me limitei a perguntar, já procurando minha carteira para uma providencial propina:

– E o que devo fazer para reparar esse dano?

– O senhor escolhe: pagar uma multa altíssima, ser recolhido ao xadrez ou cair na folia com seus semelhantes.

Escolhi a última opção. Vocês viram um folião todo desajeitado por aí? Era eu.

Setembro – Pequena crônica revista e ampliada de Ronaldo Rodrigues (republicada em homenagem à Macapá)

Pequena crônica revista e ampliada de Ronaldo Rodrigues

Quando entrou setembro e a boa nova andou nos campos, eu cheguei aos campos do Amapá, em Macapá. A boa nova foi/é Macapá.

Depois de um turbilhão de vendavais emocionais & tais, Macapá entrou pela última janela aberta no temporal e abriu para mim mais uma etapa, mais um suspiro de resistência, mais um fôôôôôôôôôôôôôôôôôôôôôôôôôôlego!

Meu primeiro dia em Macapá foi num primeiro de setembro. O ano era 1997 e ainda não havia para mim Gino Flex, a mais completa tradução de Macapá e de tudo o que há de intraduzível.

Respirei a brisa do rio Amazonas, Macapá entrou no meu sangue, o marabaixo abençoou e a linha do Equador assinalou meu lugar no meio do mundo. Me tornei um amaparaense. Ou um paramapaense.

Curuçá, Belém e Macapá completam o complexo anarquitetônico-suburbanístico-humano de três cidades no coração, na mente, nos atos do dia a dia.

Mais um ciclo se encerra hoje, outro começa, outros virão e se cumprirão a cada dia, a cada segundo.

Nesses 20 anos e nos muitos amigos que me deste, Macapá, ainda estou te descobrindo.

Obrigado pelo que rolou até agora, coloque mais algumas das tuas loucuras na minha vida e um pirão de açaí com tamuatá!

Valeu, tá valendo, vai valer sempre!

Citação das músicas Sol de Primavera (Beto Guedes/Ronaldo Bastos), Sampa (Caetano Veloso) e Vida Boa (Zé Miguel); e do poema Três Cidades no Coração (Francisco Weyl).

O poder do palavrão – Crônica de Ronaldo Rodrigues

Crônica de Ronaldo Rodrigues

Quem já deu uma topada daquelas, de arrancar a cabeça do dedão do pé, sabe do que vou falar. Se você não soltar um palavrão, também daqueles bem cabeludos (pra usar uma expressão do milênio passado), duvido que a dor passe logo. O palavrão tem esse poder curativo. Como num passe de mágica, você solta um CARAAAAAAAAAAALHO! e a dor não desaparece imediatamente, claro, mas vai dando um torpor, um anestesiamento e – abracadabra! – a dor sumiu, como diz o slogan de um certo remédio.

O que acho mais estranho nesse negócio de palavrão é denominarem de palavrão uma palavra com uma sílaba e duas letras: cu. Mesmo com muita gente devassando o cu com o acento agudo (o que deixa o pobre do cu assim: cú) a palavra não cresce um milímetro sequer, o que não justifica ser chamada de palavrão.

Com o advento do politicamente correto, que vai deixando tudo sem graça, fico a imaginar o banimento do palavrão, para salvar a honra das digníssimas famílias da nossa sociedade. Quando o seu dedão do pé encontrar uma pedra no caminho e a necessidade de um palavrão se fizer, o cidadão vai respirar fundo e deixar de gritar: PUTA QUE PARIU, CARALHOOOOOOO!, substituindo por um outro palavrão que, nesse caso, será apenas uma palavra grande, mais afeita aos novos tempos. Algo como: PINDAMONHANGAAAAABA! Ou AERODINÂMICA! Ou ainda: DESMAFAGAFIZADOR! Se a dor for algo insuportável, o único remédio será falar a maior palavra da Língua Portuguesa, um verdadeiro palavrão: INCONSTITUCIONALISSIMAMENTE!

Hoje se tem muito cuidado para não se falar palavrão na frente das crianças. Se bem que aqui em Macapá fala-se FODA-SE! em qualquer faixa etária. No meu tempo de criança, meu pai não poupava ninguém. Quem não quisesse ouvir que saísse de perto. E meu pai era um emérito falador de palavrão. Em cada frase, eram dois CARAAAAAALHO! a cada três POOOOOOORRA!

Já li em alguma postagem no Facebook que quem fala palavrão é mais feliz. Se assim for, já renovei o meu estoque de palavrão para sair por aí esbanjando felicidade. E para fechar esta crônica, que eu queria que fosse FODA!, mas acabou ficando ESCROTA!, um desabafo através de um palavrão que deve ocorrer a todos os que usam a web hoje em dia: Ô INTERNET FILHA DUMA PUUUUUTA! MEEEEERDAAAAAA!

O ostranauta – Crônica firmeza de Ronaldo Rodrigues

Crônica de Ronaldo Rodrigues

O ostranauta é um cara ensimesmado, circunspecto, sorumbático, meditabundo, que viaja sem rumo ao redor de seu umbigo.

O ostranauta é todo aquele que segue a vida dentro de sua carapaça de tartaruga. Ele ouve os sons ao seu redor, está conectado com o mundo, mas prefere o seu próprio planeta, a sua ostra. Por isso, ele é um ostranauta.

A bordo de sua ostra, ele se imagina dentro do útero, da caixa de fósforos, da gaveta, da concha… Há uma multidão de inadaptados, esquecidos, marginalizados, banidos. Mas o ostranauta, mais do que ser um exilado, é um exilado por opção, um autoexilado. Ele não quer mesmo papo com o mundo exterior. Só o que interessa é o seu grupinho das redes sociais. Ele tem milhões de horas de internet grátis à sua disposição. Tempo e assunto são coisas que não faltam. Não se sabe se os assuntos são interessantes. Na maioria das vezes, quantidade é uma inimiga terrível da qualidade. Alguns aproveitam a modernidade da internet para disseminar ideias racistas, homofóbicas, xenofóbicas, claustrofóbicas… Outros ostranautas ficam apenas se divertindo com piadas bobas, que não precisariam de toda essa tecnologia para existir. Ou postando / compartilhando / curtindo vídeos idiotas. Ou sacaneando saudavelmente seus amiguinhos (reais e virtuais). Ou…

Entre num ônibus e você verá vários ostranautas guardados no seu mundinho. Vá ao shopping e encontre o maior número de ostranautas por metro quadrado. Eu estou me esforçando para ser um ostranauta. Preciso acompanhar os tempos, senão vou acabar falando sozinho. Que nem os ostranautas.

Como dormir com esse barulho? – Crônica de Ronaldo Rodrigues

Crônica de Ronaldo Rodrigues

Como dormir com essa torneira pingando, pingando, pingando pela madrugada adentro, afora, além? Mesmo que essa torneira esteja a mais de oito quarteirões da minha casa, do meu quarto, da minha cama, sempre que estou pegando no sono o pingo pinga, a gota goteja e leva para bem longe a minha ilusão de conseguir dormir um pouco, um pouquinho só, quase nada.

Como dormir com essa criança chorando do outro lado mundo? Pode ser num lugar que esteja em guerra e essa criança chore de medo, de fome. Pode ser que essa criança chore apenas de dengo, só quer chamar a atenção dos pais e, de quebra, chamar a minha atenção me impedindo de dormir. Como saber se posso fazer alguma coisa para ajudar essa criança a parar de chorar? A minha vontade é que criança alguma em qualquer lugar do mundo tenha motivos para chorar, mas neste momento eu nada posso fazer, já que algo que poderia estar ao meu alcance, o sono, está tão longe de mim e me deixa assim, preocupado com as crianças que choram no mundo.

Como dormir com esses passos das pessoas insones? Indo e vindo pelos seus quartos, essas pessoas caminham e caminham e caminham em busca de um pouquinho de sono, um breve momento em que possam fechar seus olhos e gozar da dádiva de alguns minutos de sono tranquilo e profundo.

Como dormir com essas ameaças de explosões que ocorrem no mundo? As explosões, propriamente ditas, as que são reais, que chegam de todos os lados trazendo sobressalto, atropelo, ferimento e morte. E as ameaças de explosões de bombas atômicas e lançamentos de mísseis que os homens estúpidos e poderosos do mundo bradam na televisão e que podem dizimar grande parte da população?

Como dormir com essas maquinações de tantos grupos que lutam pelo poder? Poder que pode ser tomado à força ou por vias eleitorais fraudulentas. Poder que pode me calar e me fazer vagar sem conseguir dormir o restante dos meus dias.

Como dormir com esse perigo iminente do aquecimento global que há muito tempo deixou de ser possibilidade e passou a ser realidade? Realidade ignorada apenas por quem pode fazer alguma coisa para que as consequências sejam menos desastrosas.

Como dormir com a certeza de que o mal está na esquina mais próxima esperando alguém distraído para lhe cair em cima e roubar a bolsa, o celular, a vida?

Mas as horas avançam e tenho compromisso pela manhã. Preciso tomar uma decisão, então me entupo de comprimidos para dormir e deixo todas essas questões para a próxima noite. Boa noite para quem conseguir dormir.

Um gol inesquecível (crônica de Ronaldo Rodrigues)

Crônica de Ronaldo Rodrigues

Começo parafraseando Paulinho da Viola: tinha eu 12 anos de idade (e não 14, como no samba) quando meu pai me chamou para assistir, pela TV, a um jogo sem interesse para a torcida brasileira, que só admite disputa pelo primeiro lugar. A data: 24 de junho de 1978. O local: Estádio Monumental de Nuñez, Buenos Aires. O evento: decisão do terceiro lugar da Copa do Mundo, entre Brasil e Itália.

A conquista da Argentina foi embalada por muitas polêmicas. Sua classificação para a final veio através de uma suspeitíssima goleada de 6 a 0 sobre o Peru.

A seleção argentina, bastante forte, contava com craques como Fillol, Passarella, Ardilles e o artilheiro Kempes. A força da equipe ganhou um reforço de fora das quatro linhas: a pressão do governo argentino. O título mundial cairia como uma luva para a glorificação do regime do general Videla. E foi o que ocorreu.

Mas voltando ao jogo: a Itália abre o marcador com Causio, no primeiro tempo. O próximo gol da partida é uma obra-prima que ficará marcada para sempre na minha memória de torcedor.

Aos 19 minutos do segundo tempo, o lateral direito Nelinho pega uma bola pela direita, próxima ao bico da grande área, e chuta com sua potência característica. A bola descreve uma curva muito acentuada, sai do alcance do goleiro Zoff e estufa o canto direito da rede. Depois, com o gol de Dirceu aos 25 minutos, o Brasil conquistava o terceiro lugar daquela Copa do Mundo.

A minha revolta de garoto recusou o título de “campeão moral”, expressão cunhada pelo técnico Cláudio Coutinho e aceita por muita gente, mas o gol de Nelinho fez meu jovem coração vibrar como o de um campeão.

Quer ver o gol? Assistam o vídeo abaixo:

Menina Legal – Crônica de Ronaldo Rodrigues

Crônica de Ronaldo Rodrigues

Dentro do olho plantei um grão de areia, um cisco que deixei ficar no cantinho do olho, de propósito. De tanto regar esse grão de areia com lágrimas e gotas de chuva, ele foi se transformando em duna. Depois de alguns meses, já era uma praia completa, com coqueiros & conchinhas.

Passei a levar essa praia para todo lugar que ia. Quando me encontrava de folga, invocava o sol e convocava Menina Legal para curtir essa praia. Dava uma esfregadela no olho, muito lentamente, para não irritar a paisagem, e deixava cair uma cascata de areia branquinha, que ia se estendendo pelo chão, feito um tapete. Aí, eu deitava & rolava com Menina Legal, nos bronzeando nus do umbigo pra cima e completamente pelados do umbigo pra baixo.

Quando a tarde caía, colocava o outro lado da lua na vitrola, respirando música misturada ao som da blusa estendida no varal. Menina Legal olhava longamente/farolmente para o horizonte e deixava o barquinho de papel navegargalhar sobre a ponte do infinito, atravessando um puríssimo azul, resto do dia que ia e promessa da noite que chegava. O coração pegava carona no barquinho de papel e alçava voo de gaivota sobre os edifícios cinzentos da Avenida Crepuscular. Deixava cair uma clave de sol no mar. Mostrava ao trânsito engarrafado a saída do labirinto urbano. Devolvia à Cidadela do Carnaval o despertar da folia. A fauna & a flora dos bares & becos ecoavam na TV seu grito de fera.

Na manhã seguinte, o paraíso se dissipava. MeninaLegal colocava uma flor verdemelha no longo cabelo e ia embora, trabalhar de fada encantada de feira de artesanato. À noite, passava um batom lilás e assumia sua identidade secreta: esposa de executivo com golpe armado pra cima do marido.

Solitário, só me restava recolher ao olho minha praia portátil, distribuir meus últimos dólares entre os bêbados do boulevard e seguir para a Caverna Central, em busca de um drops de dicionário antigo. Só assim eu conseguiria entender o significado da minha dor e talvez falar a linguagem dos ratos da Biblioteca de Alexandria.

A noite dos peixes – Conto de Ronaldo Rodrigues

Conto de Ronaldo Rodrigues

A Assembleia Extraordinária convocada pela Grande Ordem dos Peixes não foi atravancada por discursos prolixos ou questões de ordem burocrática. Terminou em poucos minutos, com os Peixes optando por uma firme tomada de decisão frente aos atos praticados pelos Pescadores.

Foi elaborado um manifesto em que os Peixes reclamavam da violação de um antigo pacto firmado pelos ancestrais de Peixes e Pescadores. O pacto celebrava a harmonia entre ambos os lados e determinava a proibição da pesca de filhotes pequenos e de fêmeas grávidas.

Em seu manifesto, os Peixes sugeriam vários caminhos para a conciliação, mas deixavam clara a intenção de invadir a aldeia, caso os Pescadores não fizessem valer os itens do pacto.

Na tarde daquele mesmo dia, o mar levou até a praia o envelope timbrado da Grande Ordem dos Peixes. O Chefe dos Pescadores, obrigado a interromper a sesta para ler o manifesto, ficou com o humor ainda mais azedo.peixes2

O manifesto foi lido entre um bocejo e outro e logo o Chefe dos Pescadores desatou a rir estrepitosamente. As gargalhadas se multiplicavam à medida que os outros Pescadores tomavam conhecimento do teor do manifesto.

Em meio à onda de zombaria, sem conter as gargalhadas, o Chefe dos Pescadores enfiou o manifesto no envelope, escreveu displicentemente que Peixes não escrevem manifestos, e o devolveu ao mar.

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No dia seguinte, os Pescadores voltaram a violar o pacto. Ao retornarem da pescaria, trouxeram em suas redes, entre os Peixes adultos, que era lícito pescar, uma grande quantidade de filhotes pequenos e fêmeas grávidas.

Os Peixes ficaram convencidos de que não adiantaria qualquer esforço para evitar o confronto. Reuniram-se rapidamente, formando um numeroso exército, e conceberam um plchuva-de-peixeano de ataque para aquela noite.

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Na aldeia, os Pescadores faziam uma grande festa, comemorando o sucesso da pescaria, e não perceberam um estranho rumor se elevando pouco a pouco. Os Pescadores só puderam ouvir quando o rumor se transformou num barulho ensurdecedor, que ultrapassou as ondas sonoras lançadas pelos alto-falantes que animavam a festa.

Os Peixes vieram navegando pelos ares e o atrito de seus corpos com o vento era o que produzia aquele barulho, anunciando um trágico desfecho.

Os Peixes continuaram sua marcha, investindo contra tudo e todos, derrubando portas, destroçando paredes, derrubando casas.

Enredados pela violenta tempestade de Peixes, os Pescadores corriam de um lado a outro da aldeia, na vã tentativa de defender suas famílias e propriedades.

Após alguns minutos de ataque, que aos Pescadores pareceram horas, os Peixes voltaram ao mar, deixando na aldeia uma trilha de sangue e destruição, onde se retorciam corpos agonizantes.

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Ainda hoje, decorridos muitos anos, se escuta na aldeia-fantasma o lamento de dor que os Pescadores deixavam escapar, tentando salvar seus filhos pequenos e suas fêmeas grávidas.

Adeus ano velho, feliz ano novo – Crônica de Ronaldo Rodrigues

Crônica de Ronaldo Rodrigues

Quando criança, eu ficava encafifado com o fato de um ano demorar tão pouco. Só um ano… Passa um ano e o ano já está velho, troca-se por outro ano novinho em folha, que estará velho daqui a um ano. Depois de adulto (supondo remotamente que eu seja adulto), continuo com esse grilo na cuca (usei esta gíria só pra mostrar que já sou bem velho, apesar de nem tanto adulto).

Outra coisa é aquela música: “adeus, ano velho / feliz ano novo / que tudo se realize / no ano que vai nascer / muito dinheiro no bolso / saúde pra dar e vender”. Essa parte é que me deixa intrigado, achando que o ser humano, até nesses momentos mais sentimentais, continua sendo mesquinho. Se o cara já vai ficar o ano que começa com “muito dinheiro no bolso”, por que ele precisa vender alguma coisa (“saúde pra dar e vender”)? Égua, nããão! Mais ganancioso logo!

Pois bem, meu velho 2017. Ainda ontem, menino, brincavas no meu quintal. Lá pelos idos de junho, já eras um adolescente, não muito diferente da maioria dos nossos adolescentes. E agora, em dezembro, estás te despedindo de nós e nós de ti. Muita gente está dizendo que não foste um ano legal. Mas quantas dessas pessoas te trataram de forma legal? Eu sou partidário da ideia de que o ano não é bom nem ruim, as pessoas fazem do ano algo bom ou ruim. Em suma: o ano não tem culpa de nada. Mas vamos mudar o rumo dessa prosa porque já começa a parecer autoajuda.

Lá vai o ano dobrando a esquina pra nunca mais voltar. Dou tchauzinho a ele por achar a palavra adeus muito definitiva. Agradeço pelo que consegui fazer de bom no ano que se vai. Agradeço por ter passado por ele e ele por mim sem que tenha ocorrido um naufrágio de maior escala. Os furacões que vieram foram de magnitude suportável. Os vendavais não me fizeram cair da corda bamba. As atitudes grosseiras que vi o ano todo não serão, para mim, o retrato de 2017. Não vou execrar o ano por conta das pessoas execráveis que o marcaram negativamente. Eu penso que certas pessoas já estão condenadas. Condenadas a ser o que são, a pensar do jeito que pensam.

Adeus, 2017, meu velho! Chega aí, 2018! Vamos dar as mãos e brincar de infância, que permeia de alegria nossa estrada sob o sol, nossa caminhada sob as estrelas, trajetória abençoada pela chuva que cai na linha do Equador e segue com o rio Amazonas inundando de vida a vida deste planeta. Vamos em frente, galera! Feliz infinito!

O Século 21 atinge a maioridade – Crônica de Ronaldo Rodrigues

Crônica de Ronaldo Rodrigues

Em 2018, o Século 21 estará pronto para seguir vida de adulto. Vai ganhar as chaves de casa, vai poder ingerir drogas lícitas e vai conquistar o direito obrigatório de eleger presidentes do naipe de Donald Trump. Vai poder beber, dirigir e matar pessoas pelas ruas. Vai procurar emprego ou entrar nas estatísticas crescentes do desemprego. Vai poder ser preso por suas atitudes (ou não, dependendo do peso da carteirada).

O Século 21 vai poder confirmar que maioridade não tem nada a ver com maturidade e pedir a volta da ditadura militar e a oficialização do trabalho escravo.

Pelo enguiçar da carruagem, com 18 anos, o Século 21 estará mais careta do que as últimas décadas do Século 20, quando a cannabis e a música eram de verdade. Eu espero sempre que o atual século se toque em algum momento e nos faça acreditar em algo positivo desse rito de passagem. Mas a tendência é pensar que o Século 21 vai continuar ressuscitando questões que já estavam resolvidas, acalentando debates que já não fazem mais sentido e praticando, com mais truculência, preconceitos que achávamos já estarem sepultados.

O Século 21, agora dono de seu nariz empinado, pode se considerar o Rei do Mundo, com o seu arsenal de parafernálias eletrônicas para se comunicar e levar a julgamento e executar aqueles que não concordam com seus pontos de vista míopes. Pode denominar alguém de comunista sem que tenha qualquer ideia do que isso signifique. Pode dar sua opinião desastrosa sobre a crise do Oriente Médio, duvidar do aquecimento global, exigir o fechamento das fronteiras aos refugiados, boicotar manifestações artísticas e se perder no equívoco das discussões sobre direita e esquerda. Isso tudo o Século 21 já está fazendo, mas agora terá a chancela da Carteira de Identidade o capacitando para perpetrar todo tipo de tolice.

Você pode dizer que estou pintando um quadro tenebroso do jovem Século 21 e eu concordo. A maioridade do Século 21 coincide com o retrocesso do ser humano, a formação de exércitos nazistas, a volta dos tribunais da Inquisição, a arrogância e a violência atingindo índices estratosféricos, os mísseis prontos a serem lançados para destruir o pouco da paz que foi conquistada nos séculos anteriores.

Mas, como sou devoto da esperança, penso que as pessoas de boa vontade poderão resistir e mudar o rumo do que se apresenta hoje. Podemos fazer o décimo oitavo ano do Século 21 atingir a maioridade da consciência, do amor ao próximo e à natureza, do nosso compromisso com a continuação da caminhada do gênero humano sobre este planeta. Afinal, sonhar é o que nos mantém acordados.

Feliz aniversário, Século 21! Vamos nos esforçar para fazer um ano novo, e tudo o que virá depois, realmente feliz!

Não tire seu cavalinho da chuva

Crônica de Ronaldo Rodrigues

Leio na internet que vai cair chuva, mas não é aquela chuva que aguardamos há tanto tempo. É chuva de meteoro. Quê isso? Será que os deuses lá de cima estão entendendo errado as nossas preces? A chuva que queremos é a nossa mesmo, de água límpida e necessária.

12380496_10201075782214298_1092636648_nA chuva está se anunciando há alguns dias. Chegou até a cair umas gotas devidamente festejadas por quem espera, como eu, que ela caia em toda a sua magnitude. Agora mesmo, enquanto escrevo, algumas gotículas atravessam a janela e vêm pousar na mesa, bem ao lado do computador.

A chuva está vindo, aos poucos, meio tímida, mas não é assim que nós a queremos. Queremos que ela chegue farta e poderosa, escandalosa, espalhafatosa, gostosa. Que ela lance a sua magia e nos faça retornar aos quintais da nossa infância. Que ela venha, banhe as avenidas e afogue os 50 tons de cinza da fumaça que infesta a cidade. Que ela apague as queimadas que incendeiam Macapá e o mundo. Que dissipe a lama que afogou Mariana e ameaça outras cidades que têm mineradoras ao seu redor. Que ela lave aquela outra chuva: o dilúvio de escândalos de corrupção que inundam os meios de comunicação.

A chuva virá, impávida que nem Muhammad Ali, tranquila e infalível como Bruce Lee. E vamos inverter o ditado. Em vez de tirar o cavalinho da chuva, vamos colocar o cavalinho na chuva. Vamos deixá-lo livre, brincando, e12386518_10201075782414303_686816487_nsperando e torcendo. Eu sei que ele está louco pra tomar banho de chuva, junto com todos nós.

Sei também que estou repisando este assunto. Creio que isso se deve à vontade que estou de sentir a chuva. Tomara que ela venha, me faça mudar de assunto ou simplesmente me deixe continuar chovendo no molhado.

Neste final de ano, feliz chuva pra todo mundo.

Neste texto, fiz referência à canção Um Índio, de Caetano Veloso.

Viagem de volta – Conto de Ronaldo Rodrigues

Conto de Ronaldo Rodrigues
Deixei um livro em cima da mesa e fui dar uma volta. Claro que ninguém roubaria um livro ali, naquele ambiente. Só se aparecesse a menina que roubava livros. Qual a minha surpresa quando retornei, ao constatar que o livro não estava lá! Olhei em torno, exercitando meu olhar sherloqueano, mas ninguém em volta parecia interessado em livros. E ninguém parecia capaz de roubar o que quer que fosse. Resolvi dar mais uma volta pelo navio. Esqueci de dizer que estava a bordo de um navio? Perdão. Às vezes esqueço de citar partes importantes de meus relatos. Alguns escritores são assim e, como sou assim, me sinto também escritor.
 
Na volta ao ponto em que deixei o livro, eis que o encontro em cima da mesa, como se nunca tivesse se ausentado. Fiquei mais intrigado ainda. Abri o livro e encontrei um bilhete com a seguinte mensagem:

“Não leve a mal, mas gostaria de concluir a leitura do seu livro, que achei muito interessante e me deixou surpreso ao descobrir alguém com o hábito da leitura, coisa bastante improvável em pessoas que costumam viajar neste navio. Deixe o livro em cima da mesa e vá passear, contemplar a paisagem do rio e da mata. Prometo devolver a cada vez que eu o emprestar”.
Foi o que fiz durante toda a viagem, cheguei a conhecer todos os recantos do navio e estender meu olhar por toda a bela paisagem. Minha curiosidade não foi suficiente para deixar o livro na mesa, me afastar um pouco e voltar subitamente para ver quem estava dividindo comigo o prazer das aventuras contidas no livro. Deixei o mistério tomar conta. Me pareceu que eu estaria quebrando um pacto se voltasse para flagrar meu companheiro de leitura.
Navegamos por três dias e os meus passeios pelo navio foram aumentando à medida que nos aproximávamos do porto de chegada. Queria que o leitor misterioso tivesse tempo de concluir a leitura. No último dia de viagem, achei o livro na mesa e novo bilhete: “Obrigado pelos momentos deliciosos que seu livro me proporcionou. Sem dúvida, tornou a viagem mais interessante. Que tal discutirmos o enredo do livro? Meu endereço na cidade em que aportaremos dentro de alguns minutos é…”.
 
Depois que aportamos, dei umas voltas pela cidade, tentando não pensar em nada daquilo. Mas não suportei o mistério e fui ao endereço indicado no bilhete. Conheci, enfim, a pessoa que pegava o livro emprestado. Era uma leitora, uma belíssima leitora. Nos conhecemos, discutimos a história do livro e de muitos outros livros e autores e temas e… Claro que nos envolvemos. E o mistério persiste até hoje.