O velho Francisco – Crônica de Ronaldo Rodrigues

Arte de Ronaldo Rony

Crônica de Ronaldo Rodrigues

– Pro senhor ver como são as coisas, vizinho. É vivendo que a gente vai aprendendo. E nunca chega o tempo em que a gente já sabe tudo, né mesmo?

Veja só senhor: ontem eu era um recruta, tinha acabado de completar 18 anos e já tava servindo à pátria. Hoje tô aqui, veterano, aposentado, cheio de cicatriz de guerra, querendo porque querendo entrar em outras guerras, mas cadê disposição?

Eu tenho vontade, mas os músculos não acatam mais as ordens da cabeça. As pernas também. A cabeça diz “Vai!” e a perna quando que obedece? Mas pensa o senhor que é só o corpo que nega fogo? A cabeça também dá umas derrapadas que vou lhe contar. Hoje de manhã eu saí do quarto e esqueci se ia pra sala ou pra cozinha. Resolvi ir pra cozinha. Quando cheguei lá, me convenci: era pra lá mesmo que eu queria ir desde o começo. Menos mal. Agora só tinha que resolver uma coisa: o que era que eu queria fazer na cozinha?

Já até me proibiram de ficar zanzando pela casa. Agora me proíbem de andar na minha própria casa, a casa que eu construí, veja o senhor. Ninguém tem respeito mais. Os filhos já não tinham quando estavam crescendo. Cada um querendo fazer o que bem entendia. Conselho eu nunca fui de dar. Confio mesmo é no exemplo. Mas a maioria dos filhos não quis saber dos bons exemplos que eu dei. Cada um foi por si mesmo. Uns se deram bem, outros nem tanto.

Mas estão todos aí, se reunindo no Natal pra me encher de chateação e presente que já não me adiantam de nada. Deixei eles viverem a vida deles. Foi melhor assim, sabe, vizinho? No fim das contas, todo mundo se arranjou, são pessoas de posição na sociedade, são pessoas respeitadas. Os filhos deles, meus netos, é que não têm respeito nenhum. Nem por mim nem por nada. Não sei aonde isso vai parar. Mas eu acho que todo mundo na idade desses moleques é assim mesmo. Eu devo ter sido assim também. Mas quando! Naquele tempo, o senhor sabe disso, a gente pegava era pancada se faltasse com o respeito com os pais ou com os mais velhos. Hoje o velho é a gente e ninguém respeita mais. Inventaram até esse termo idiota de “melhor idade” pra tentarem tornar menos cruel o desprezo pelos mais velhos.

Mas é isso mesmo, vizinho. Como dizem os mais novos, a gente tem é que se tocar e deixar de onda. É, vizinho. A gente tem que agradecer as migalhas de atenção. Vizinho, vizinho? O senhor tá cochilando, vizinho? Ah, bolas! Nem a gente mesmo se dá atenção! Durma aí que eu vou embora! A babá que arrumaram pra mim já vem me buscar! Adeus!

Na Baleia (crônica do meu amigo Ronaldo Rodrigues)

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Crônica de Ronaldo Rodrigues

Acordei naquele dia ainda bêbado. Demorei a perceber que estava dentro da baleia. Estômago de baleia, vocês sabem, é muito pequeno, parece um apartamento japonês. Então eu estava meio espremido no meio do monte de plâncton que tinha sido a última refeição da baleia. Pensei por alguns momentos sobre como sair dali. Mas depois, como a preguiça pós-bebedeira era quase maior que a baleia, me deixei ficar naquele remanso.

Aí pensei nas figuras que já estiveram dentro de uma baleia. Pinóquio e Gepetto estiveram dentro da baleia Monstro. Jonas esteve por três dias dentro de um peixe imenso que a Bíblia não diz que é baleia, mas eu digo. Se bem que baleia não é peixe, é mamífero.

Sou teimoso nessas coisas: se baleia vive no mar então é peixe. Aí vocês podem dizer: esponja vive no marjonah1-e1261949633796 e não é peixe. Eu respondo que esponja vive é no supermercado antes de parar na pia de alguma dona de casa. Mas isso é bobagem de minha parte.

Devo estar perturbado pelo fato de me encontrar dentro de uma baleia. Tento lembrar de como, bêbado, vim parar aqui. Aos poucos vou montando o cenário. Agora já consigo colocar alguns personagens neste cenário.

São meus amigos, que bebiam comigo na noite anterior. Onde será que eles estão agora? No estômago de outra baleia? Devem estar se divertindo, os safados! Agora me lembro. Estávamos num navio celebrando a primeira viagem desse navio. Lembro perfeitamente agora de alguém discursando sobre a impossibilidade de aquele navio naufragar. O que acabou de entrar pela boca da baleia? Uma folha de jornal. Vejamos o que diz esse jornal.Titanic-BBC

Ah! Agora tudo faz sentido. É isso mesmo! Vejam, senhores, a manchete do jornal: “Hic! Hic! Hic! Titanic vai a pique”. Bingo! Lembrei de tudo! Estávamos na viagem inaugural do Titanic. Sentimos o impacto de uma colisão, pessoas correndo desesperadas e nós só bebendo.

Vejo que sobrevivi, talvez graças ao meu estado de embriaguez, que atraiu esta baleia alcoólatra, que me engoliu como uma dose de uísque e me livrou de morrer afogado. Dos males, o melhor. Vou ficar por aqui mesmo dentro desta baleia. Quem sabe daqui a pouco ela engole a Kate Winslet. Saúde! Ui minha cabeça!

Doente ao contrário – Crônica de Ronaldo Rodrigues

Crônica de Ronaldo Rodrigues

Minha última crônica aqui neste espaço (a última não! A mais recente, como diria um amigo supersticioso), tratava de médico e doença e tal. Esta aqui também. Deve ser a proximidade da morte (ou o prolongar da vida, como diria aquele amigo supersticioso que citei acima). Vamos à crônica então:

Vou ao consultório médico, me submeto aos exames de praxe e o médico saca logo o diagnóstico:

– O senhor tem uma doença muito séria!

– Sério, doutor? E qual seria essa doença?

– É um caso raríssimo, raríssimo!

– Mas é tão raro assim que o senhor não pode dizer?

– Vou dizer, mas é estranho admitir: o senhor está doente porque não tem doença alguma!

– Hein?

– Eu sei que é difícil acreditar, mas o senhor está resistindo bravamente ao assédio dessa doença que está se espalhando pelas redes sociais. Está se replicando, se multiplicando e complicando tudo! Poucas pessoas, e o senhor é um exemplo disso, estão resistindo a essa doença terrível!

Ele faz um breve suspense e dispara:

– O câncer!

Aí eu saio um pouco do meu estado de perplexidade:

– Peraí, doutor! Câncer não é uma doença nova!

O médico me olha como se já esperasse a minha reação e esclarece:

– Calma, meu amigo! Estou falando de um novo tipo de câncer!

E como se fosse o médico se transformando no monstro, ele conclui com uma voz gutural:

– O câncer da alma!

Acho que vai cair naquelas gargalhadas maníacas, esfregando as mãos. Mas isso não ocorre, o que não evita um arrepio que quase não me deixa fazer a pergunta:

– Cân… Câncer da… da… al… alma? Co… Como é… é… é isso, doutor?

– Preste atenção no bombardeio das redes sociais. Dê uma rápida olhada no Facebook. Fique somente dois minutos e verá as maiores manifestações de câncer da alma. Você vê, em tempo real, o câncer crescendo dentro da alma das pessoas.

Interfiro um pouco, só para entender que estou entendendo:

– Fale mais, doutor! Fale mais!

– Pois bem! Preste atenção, que parece loucura minha, mas é excesso de sanidade. Afinal, se há alguém certo no meio de tanta gente errada, o errado passa a ser esse que está certo. Certo?

Concordo com um movimento de cabeça. Ele prossegue:

– Veja bem: num espaço onde todos têm razão, ninguém tem razão. Onde todos estão certos, todos também estão errados. Na internet, estão cozinhando uma sopa de letras que, no final, vai dar indigestão em todo mundo.

– E tem cura?

– A longuíssimo prazo. Talvez dentro de cinco gerações, se a humanidade resistir a tanto. Talvez nunca tenha cura e pessoas como você podem ser extintas da face da Terra. Se isso ocorrer, o câncer da alma terá triunfado. Por que o câncer da alma só pode ser curado pela própria alma, que está se perdendo nas discussões rasas, nos argumentos equivocados, no aumento da futilidade, da frivolidade, da intolerância, da violência. Da falta de charme. Está entendendo?

– Estou entendendo tudo! Mas será que o câncer da alma não é o ódio?

Os olhos do médico brilham:

– Isso mesmo! Você está entendendo! E a cura é justamente essa: as pessoas precisam saber ouvir, entender, buscar o equilíbrio e encontrar o meio-termo entre suas posições!

Fico um tanto desolado porque sei da gravidade de tudo isso que o médico fala. Me sentindo um tanto bobo e, para dizer alguma coisa, arrisco um comentário que acho fora de hora:

– O quadro que o senhor pintou é muito ruim, mas sabe de uma coisa, doutor? Eu ainda tenho esperança!

Os olhos do médico voltam a brilhar, de forma mais intensa:

– Bravo! Viva! Esperança é o sintoma que confirma a sua total falta de capacidade de odiar! Isso prova que o senhor está imune ao câncer da alma, pois só quem está com a alma sã tem esperança! Se o senhor tem esperança, a humanidade ainda tem esperança, o planeta ainda tem esperança!

Concordo. Se existe um vírus benigno do qual jamais irei me curar é esse: esperança. Eu e o médico nos despedimos, vendo que a esperança de um contagiou o outro. Seria esperar muito que mais e mais e mais pessoas também se contagiem?

 

NO AVIÃO PARA BELÉM – Crônica de Ronaldo Rodrigues

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Crônica de Ronaldo Rodrigues

Estou a bordo do avião, indo para Belém. Nessa ocasião, sempre trago papel e caneta para anotar as impressões de viagem. Pois cá estão:

– O nome do comandante: Alexandre Braille. Claro que minha imaginação não perderia a chance de ver um piloto cego, tateando os controles.

– Sinto um sacolejar leve no avião. Turbulência, normal. Mas vejo que o avião ainda não decolou. Aí émaxresdefault preocupante.

– Zona de turbulência: uma aeromoça linda acaba de invadir meu espaço aéreo.

– As aeromoças, que hoje são chamadas de comissárias de bordo (perdeu a poesia), passam para lá e para cá, esbanjando aquela sensualidade indiferente à libido dos passageiros. Minha fantasia: me trancar no banheiro com uma dessas aeromoças e cair nas nuvens.

– Viajar de avião me faz descobrir superstições que ficam por muitos anos guardadas e só aparecem neste momento. Exemplo: descruzar as pernas quando o avião está decolando. Nesses momentos é preciso contar com todas as forças.

– Belém fica a pouco tempo de Macapá. Viagem curta. Não dá tempo nem de sentir medo.

– E lá vêm as instruções de como proceder em caso de acidente. Que acidente? Eu nem estava pensando em acidente! Socoooooooorro!

hqdefault– Hora do lanche: peço coca-cola, mas, bem enfaticamente, peço que não se coloque gelo. A coca-cola sem gelo diminui o poder devastador do meu arroto. Meu arroto, em sua potência máxima, seria prejudicial à pressurização do avião.

– Viajar de avião, um objeto mais pesado que o ar. Vejo as caras dos passageiros simulando tranquilidade e penso na banalidade do absurdo, a simplicidade de correr o risco. Sei lá.

Consegui pousar em paz. A distância de Macapá a Belém parece diminuir cada vez mais. Estou em Santa Maria das Mangueiras. Marambaia me espera. Cuité, Buscapé, Mauro Vaz, Universidade, Praça da República, Theatro da Paz, estou aqui. Vamos à farra. Em breve, mando outro relato. Boas férias pra mim.

O Dia da Travessia (crônica de Ronaldo Rodrigues)

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Crônica de Ronaldo Rodrigues

O canal se estendia à minha frente. Toda manhã, ao abrir a janela, lá estava ele, num permanente desafio.

Do outro lado do canal ficava a fonte da juventude, bem ao lado do castelo da mulher com mais de 300 anos que, segundo diziam, todo dia bebia da fonte e assim mantinha seus traços de 16 anos. Muitos homens tentavam atravessar o canal para vê-la. A maioria retornava depois de poucas braçadas. A correnteza era muito violenta. Muitos morreram na travessia. Todos os homens da cidade tentavam. E estava chegando a minha vez.FONTE-DA-JUVENTUDE

Sempre que se entrava na adolescência era o momento de se tentar a travessia. Antes disso, a vida se resumia em treinar. Meu cachorro Madrugada me acompanhava nos treinamentos e quando me senti preparado para realizar o feito, Madrugada se mostrou muito interessado em ir comigo:

– Você não precisa ir. Deixe que eu trago um pouco da água da fonte da juventude pra você. E à mulher do castelo eu digo que você mandou saudações.knuttz_ueba_17

Madrugada não entrou em acordo e, no dia da travessia, lá estava ele ao meu lado, recebendo os cumprimentos e as recomendações de toda a população.

Mergulhamos no canal e percorremos uma grande distância até Madrugada se afastar. Ele tomou a dianteira e eu o perdi de vista. Eu já estava exausto quando cheguei ao outro lado. Andei pela praia, em direção à fonte da juventude e a encontrei seca. Fui ao castelo e percebi que ele era de areia e se desmanchava com o sopro da minha respiração.castelos

Saí procurando Madrugada e a menina de 300 anos. Só os vi quando olhei para o outro lado do canal, de onde eu havia saído. Lá estavam os dois passeando pela tarde, acenando para mim. Ao retribuir o aceno foi que reparei em minhas mãos se tornando flácidas, a pele e a carne se desmanchando igual ao castelo de areia, igual ao sonho de encontrar a juventude, igual a este conto e a tantas coisas que chegam ao fim.

Nem morto! – Crônica de Ronaldo Rodrigues

Crônica de Ronaldo Rodrigues

Fui ao médico e ele me disse uma coisa que me deixou muito chocado:

– Seu Ronaldo, sinto informar que o senhor não está mais entre nós.

– Hein? Como assim?

– Estou dizendo que o senhor está morto.

Me apalpei, me olhei, me examinei e nada indicava que eu estivesse morto:

– Doutor, o senhor disse: morto?

– Sim. Mortinho da silva, como se falava antigamente.

E o médico foi logo me apresentando um documento que acabara de assinar:

– Aqui está o seu atestado de óbito.

– Ei, o senhor está falando sério mesmo?

– Nunca falei tão sério!

Saí do consultório sem entender nada, mas eu não sou um exemplo de alguém que entende muito bem as coisas que acontecem. Devia ser a minha já conhecida distração. Me distraí e nem percebi que estava morto.

Já passei antes pela sensação de estar morto, mas aquela confirmação me deixou perplexo. E agora? O que fazer da minha morte, eu que nunca soube o que fazer da minha vida? Devia ser por esse motivo, o fato de eu estar morto, que as pessoas passavam por mim sem demonstrar qualquer sinal de me avistar. Atribuí ao costume atual de ninguém mais prestar atenção em ninguém, todos abduzidos pelos aplicativos dos celulares.

Levei o atestado de óbito ao INSS para saber quais seriam os próximos procedimentos, mas ninguém percebeu a minha presença. Achei normal, já que nessas repartições públicas dificilmente os funcionários prestam atenção em que está vivo, imagine em quem já morreu. Eu, que precisava provar que estava morto, tinha uma senhora ao lado que, para receber certo benefício, precisava dar conta de uma papelada imensa para provar que estava viva.

Bom, eu precisava me tocar (até me toquei, mas não senti o meu toque) e assumir a minha morte. Assumi tão poucas coisas na vida que assumir a própria morte seria algo bem estranho. Aí a curiosidade me tomou (sim, as pessoas continuam curiosas após a morte) e olhei mais atentamente o atestado de óbito para saber a causa da minha morte. Descobri que não teve um motivo só, mas vários motivos. Morri de tédio, de solidão, de euforia, de farra, de melancolia, de bebida, de cigarro, de respirar, de ficar doente, de ficar são, de sair pela madrugada, de ficar horas em frente à TV, de submissão, de rebeldia, de ouvir música, de falar palavrão, de gritar, de pedir silêncio, de comer, de jejuar, de fazer sexo, de fazer abstinência… Enfim, morri de uma coisa chamada vida. Lembrei imediatamente do meu amigo Gino Flex, que teve a mesma causa mortis: excesso de vida. Portanto, obrigado à vida que me deu tantos motivos para vivê-la, às vezes muito afoito, às vezes com uma preguiça terrível; aqui tomando as rédeas da situação, ali deixando as coisas rolarem.

Agora vou me encontrar com o Gino, fazer um brinde e continuar pela morte com a mesma disposição com que enfrentamos a vida.

Adeus! E saúde!

As que se chamam Flávia… – Conto de Ronaldo Rodrigues

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Conto de Ronaldo Rodrigues

– Outubro é muito perigoso!

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É preciso segui-la. Sinto isso logo que a vejo na livraria. Está folheando uma revista, sem muita atenção, fixando-se apenas nas fotografias. Parece estar ali com o mesmo propósito que eu, matando o tempo até voltar ao trabalho.

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– Outubro é muito, muito perigoso!

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Ficamos lado a lado, embora a mulher permaneça como se só ela existisse. Tenho a visão no livro que folheio sem qualquer interesse e a atenção totalmente voltada para a mulher. Ela fecha a revista decididamente, olha para o relógio e o percebe parado:

– Sabe as horas, moço? – Pergunta, altivamente.

– Nã… Não! Não… sei… – Gaguejo, respondendo.

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Quem sempre me dizia isso era o Capitão Nemo:

– Tenha muito cuidado, menino! Outubro é muito perigoso!

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Ela deixa a revista na estante e dirige-se à portaria. Confere a hora e acerta o relógio. Sai da livraria e eu continuo olhando aquela mulher, agora através do vidro da vitrine. Ou será que não existe vidro algum? Meu olhar é que fez a parede tornar-se transparente?

Pergunto o motivo do perigo de outubro e ele responde, depois de longo silêncio, os olhos em transe, na direção do mar:
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– É em outubro que começamos a enlouquecer! É em outubro que costumam surgir as sereias!

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Ela atravessa a rua. Saio da livraria, disposto a segui-la, e paro na esquina. Contemplo, então, o espetáculo da rua silenciar-se para a passagem daquela mulher. A paisagem urbana torna-se repentinamente quieta, mas com uma acelerada pulsação interior que começa no asfalto e termina/continua no meu peito.

Ela entra num edifício e eu continuo seguindo seus passos. Ainda não me percebeu e acho que isso não acontecerá nunca. Ela aguarda a chegada do elevador junto a mais três pessoas. Incorporo-me ao grupo e passo a esperar também.

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Todos dizem que não devo dar atenção às palavras do Capitão Nemo. Dizem ser louco tanto o Capitão Nemo quanto quem o escuta. Mas eu digo que não. É preciso buscar o sentido das palavras, principalmente das que nos parecem mais delirantes.

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O elevador chega, nos recolhe e inicia sua lenta subida. As pessoas vão ficando em seus respectivos andares até restar apenas eu e a mulher. Como música de fundo, meus batimentos cardíacos ecoam nas paredes do elevador confundindo-se com a palavra outubro.

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Outubro. Agora compreendo claramente seu perigo. O Capitão Nemo ficou aprisionado em sua louca lucidez, nos destroços do seu navio, enfeitiçado por uma sereia. Eu estou preso neste elevador atraído por uma sereia. Aqui ficarei para sempre, aguardando todos os dias aquela mulher maravilhosamente perturbadora cujo nome conheço apenas a letra inicial (F), que vi uma vez em que ela abriu rapidamente a agenda.
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Todos os dias, quando ela sai do elevador, ainda sem notar minha presença, recordo as palavras do Capitão Nemo, que todos acreditavam serem palavras de um louco:

– É preciso ter muito cuidado com as sereias de outubro. Elas são cruéis e nos enfeitiçam com desejos intocáveis. Principalmente, meu filho, as que se chamam Flávia…

* Este conto foi publicado em 1995, na coletânea Novos Contistas da Amazônia, em Belém, resultado de um concurso promovido pela Universidade Federal do Pará. Tempos depois, o conto inspirou a HQ Outubro, do cartunista Paulo Emmanuel, premiada em dois salões de humor. Isso mostra o quanto este conto é quente.

Macapá já se anunciava para mim, pois o livro trazia contistas que só fui descobrir aqui, como Archibaldo Antunes e Ray Cunha, e apresentação do grande Fernando Canto.
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Gosto muito deste texto, creio que seja um ponto alto da minha carreira de contista, que ofereço agora como homenagem, digamos assim, ao mês de outubro.

Ronaldo Rodrigues

O ser analógico – Crônica de Ronaldo Rodrigues

Crônica de Ronaldo Rodrigues

O ser analógico é essa espécie em extinção, da qual eu faço parte.

Imprensado entre dois séculos, o ser analógico não sabe usar muito bem os aplicativos da nova era, mas sabe que é imprescindível domar esses animais para não ser devorado por eles. O problema é o exagero, isso que os seres tecnológicos chamam de dinamismo, agilidade, mas que não passa de pressa. Outras coisas que incomodam o ser analógico é a agressão cada vez maior à língua portuguesa nas postagens e mensagens e a ostentação de aparelhos e suportes e plataformas que servem mais para ser mostrados, na tentativa de causar inveja, do que comunicar efetivamente.

Eu sou um ser analógico, aquele que acha um absurdo ler textos longos em outra plataforma que não seja o livro, o bom e velho livro, impresso no papel, que vai ficando com um cheiro mais gostoso com o passar do tempo. Sou aquele ser que tem saudade do fax, do telex, da máquina de escrever, mas sabe que isso tudo não tem mais vez, a não ser na memória afetiva de quem viveu a maior parte de sua vida envolvido com esses equipamentos.

Sempre achei que chegaria o dia em que eu seria tratado como o avô do homem de Neanderthal e isso já está rolando. Sou considerado alguém muito atrasado no tempo e tudo o que aprendi pode ser desqualificado por qualquer idiota que não sabe nada, mas domina toda essa parafernália modernosa. Pensando bem, até que tenho me virado de forma satisfatória (para os meus padrões), com umas derrapagens mais feias, aqui e ali, quando é necessário baixar ou enviar um arquivo, por mais leve que seja.

Para meu consolo, vejo muitos seres analógicos por aí, existem muitos ainda, mais do que você imagina. Outro dia, vi um desses seres analógicos tentando ressuscitar um orelhão. Orelhões já não funcionavam quando só existiam eles, imagine agora, que estão caminhando (se é que já não chegaram lá) para o museu.

Uma vez, aqui em Macapá, antes da massificação do celular, tentei fazer uma ligação de um orelhão. Foram tantos orelhões que testei nesse dia que, quando vi, já tinha percorrido todo o caminho que me levava à casa do amigo com quem desejava falar. Foi mais fácil falar pessoalmente com ele do que encontrar um orelhão que funcionasse.

Hoje, vi um ser analógico numa lanchonete de um shopping, que é uma espécie de templo da galera tecnológica. Numa sequência de mesas cheias de seres tecnológicos com seus smartphones e notebooks e tablets, estava um ser analógico, como uma visão do passado, escrevendo com caneta esferográfica num caderno! Que coisa mais analógica!

Sei que este tipo de texto pode descambar para o saudosismo, como se a gente tivesse nadando contra a maré ou repudiando os avanços. Mas não é nada disso. Eu tenho consciência do quanto é importante ficar ligado, mas, sempre que posso, revivo momentos de um tempo em que havia tempo para tudo. Ouvir um disco de vinil acompanhando a letra no encarte, por exemplo.

Alguns parágrafos acima, falei da máquina de escrever. Volto a falar agora, já que sinto orgulho de ter iniciado minha carreira de redator publicitário batucando uma máquina dessas. Hoje, cercado de seres tecnológicos e computadores e outros aparelhos dessa modernidade, e dessa “agilidade” de meninos que dispõem de muita tecnologia e quase nenhuma imaginação, me reservo o direito de ficar retornando a um tempo em que as coisas eram feitas com menor velocidade e muito maior cuidado e competência.

 

Pela janela azul do manicômio – Crônica porreta de Ronaldo Rodrigues

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Crônica de Ronaldo Rodrigues

Um mundo ainda não corrompido se estende pelas ramificações da cidade, em alamedas de flores, que atravessam o grande oceano. É o mundo não corrompido que vejo pela janela azul do manicômio.

Um mundo desprovido de césares e eunucos, de tédio e de policiais. Onde foram abolidas todas as penas, de morte e de vida. Em cujas praças, esquinas e avenidas olhares se atrevem, se atravessam e se comunicam com os segredos da vida, sem colisão de pensamentos. Esse mundo quer existir para todas as pessoas através de mim. Esse mundo me quer como mensageiro de sua paz cotidiana, de respeito mútuo, de fraternidade.

Eu necessito urgentemente de uma caneta para descrever esse mundo, anotar sua fórmula. Corro em direção à escrivaninha em busca de caneta. Quero deixar registrado esse mundo fabuloso, que me acena na noite, pela janela azul do manicômio. Quero dizer que esse mundo existe e pode ser por nós alcançado.

Abro as gavetas, uma por uma. Reviro os papéis na escrivaninha e não encontro caanna-ancher-sol-no-quarto-azulneta, lápis, qualquer coisa com que se possa escrever. Não acredito! Não pode ser! Nunca fiquei sem caneta em toda a minha vida e justo agora que mais preciso…

Começo então uma busca frenética. Remexo pastas. Violo armários. Coloco pelo avesso os bolsos de todas as roupas. Atropelo objetos. Mas tudo é inútil! Não encontro uma caneta sequer e o mundo ainda não corrompido aguarda lá fora, navegando na noite.

Lembro que na esquina da rua do manicômio azul há um boteco onde poderei comprar uma caneta ou quantas eu quiser ou puder ou precisar. Abro a porta do quarto, desço as escadas, pulo a janela do andar térreo e saio correndo pela rua em direção ao boteco. Os enfermeiros de plantão logo são avisados e partem em meu encalço. Não há tempo para explicar a eles que não se trata de uma fuga. Eles não entenderiam a urgência de se comprar uma caneta em plena madrugada.

images (6)Continuo correndo em direção ao boteco, o último, o único aberto na noite, em todo o planeta. Acelero a marcha porque o sonolento dono do boteco, sem desconfiar da importância daquele ato, fecha va-ga-ro-sa-men-te a porta antes que eu consiga alcançá-la. Inutilmente, fico batendo desesperado na porta do boteco que abriga vários e vários pacotes de caneta.

Os enfermeiros chegam, trazendo uma camisa de força. Eu me rendo e sou conduzido de volta ao quarto. Me aplicam um tranquilizante e eu fico inerte na cama, observando pela janela azul do manicômio um mundo ainda não corrompido se dissipando na noite.

Autoexílio – Crônica de Ronaldo Rodrigues

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Ronaldo Rodrigues

Crônica de Ronaldo Rodrigues

Declaro, para os devidos fins e para quem interessar possa, mesmo para aqueles que vão ignorar ou mandar eu me foder, já que mandar alguém se foder se tornou a coisa mais natural do mundo.

Confesso que estou cansado, que entrego os pontos. Os cinquenta janeiros que coleciono com certo zelo já começam a pesar sobre meus combalidos ombros. Vou promover um autoexílio, um exílio dentro de mim mesmo.

Não consigo mais respirar o mesmo ar dos fascistas que afloraram neste últimos tempos. Estou cansado de ódios e equívocos. Este país está perdendo o charme, a cada dia que passa, a cada postagem nas redes antissociais.

Uma ditadura moral – na verdade, imoral – estende seus tentáculos em todas as direções. Pessoas que não sabem o que é esquerda se arvoram, sem a menor cerimônia, a falar de esquerda. Pessoas que não sabem o que é direita, que não sabem o que é comunismo, que não sabem o que é ditadura militar, que não sabem NADA se tornaram propagadoras de ideias que já eram caducas quando foram concebidas.

Quando um artista do nível de um Chico Buarque passa a ser condenado, sem a menor atenção e respeito à sua arte, o negócio vai mal. Quando um câncer como Jair Bolsonaro passa a ser aclamado e vira mito, o negócio vai mal. Mas os incomodados que se mudem. E eu estou me mudando para dentro de mim.

Declaro-me banido, com muita honra, dessa mentalidade escrota que está tomando conta do Brasil, e pode tomar o poder.

Eu, Ronaldo Rodrigues, sou um território independente dentro desta merda toda, dentro deste país que debate suas questões políticas na mesma arena em que são disputadas as partidas de futebol.

Aqui na minha redoma, estarei exilado das celebridades opacas que “brilham” na TV e nas paradas de sucesso. Que a manipulação da grande mídia continue. Ela não me atinge. Que os pastores continuem conduzindo suas ovelhas. Eu não sou uma delas. Que os corruptos continuem gritando contra a corrupção.

Estou cansado, mas devo dizer que ainda não desisti. Pode ser apenas um recuo estratégico. O Brasil é muito maior que isso tudo que estão fazendo a ele.

Por enquanto é só. E basta!

Se outro nome – Crônica de Ronaldo Rodrigues

Crônica de Ronaldo Rodrigues

E se um dia eu acordasse com meu nome sendo outro nome? Outro nome, outro codinome, outra vida, outras vidas, uma vida por dia, várias vidas ao mesmo tempo, no mesmo dia.

Se de repente eu percebesse que meu nome é Marco Polo, René Magritte, Clarice Lispector?

E se alguém perguntasse meu nome e, quando eu fosse dizer o nome que sempre me acompanhou, saísse outro nome: Arthur Antunes Coimbra, Theda Bara, José Mojica Marins.

E se eu acordasse Albert Sabin, Penélope, Humphrey Bogart? Se de manhã fosse Tim Maia, Pola Negri ou Pepe Mujica e, ao meio-dia, mudasse para Pancho Villa, Arthur Bispo do Rosário, Elvis Presley?

No café da manhã, seria Eden Pastora, James Cagney, Gerônimo. No almoço, Martha Medeiros, Shang-Chi, Suzana Flag. No jantar, Fernando Pessoa, Lex Luthor, Vladimir Maiakóvski.

Entraria no cinema e lá me transformaria em Fred Flintstone, Al Capone, Alec Guiness. Ao sair do cinema seria Mata Hari, Stuart Little, Wolfgang Amadeus Mozart.

Alguém entenderia se meu rosto fosse da Greta Garbo, na carteira de identidade aparecesse o nome Bono Vox e o nome que constasse na carteira de motorista fosse Eder Jofre?

Ser Bob Dylan, Kunta Kinte ou Charles Bukowski um pouco por dia, só de chinfra. Já pensou? Ser Chico Buarque por cinco minutos seria uma boa, hein?

Sempre que fosse dizer meu nome outro nome brotaria da minha boca: Mick Jagger, Bruce Lee, Roberto Rivellino.

Já na universidade seria Stephen Bantu Biko, Tex Willer, Jorge Luís Borges. Na vizinhança, meu nome seria Paulo Leminski, Vito Corleone, João do Pulo. Nos bares, emergeria o nome de Sônia Braga, Camilo Cienfuegos, Black Jack Tarr.

Há alguns nomes que acho de grande beleza: Florbela Espanca, Dalcídio Jurandir, Eneida de Moraes, Raimundo Fagner, Massimo Matioli, Álvaro Apocalypse, Pixinguinha, Carlos Drummond de Andrade.

Mas vou terminar esta crônica e esta vida com o nome que me foi dado lá no princípio de tudo. O nome que odiei, o nome que amei, o nome que me assinalou no meio de tantos nomes. Esse nome que é Ronaldo Rodrigues, que é Ronaldo Rony, que não é rima nem solução para o mundo, e que é também (por que não?) Djavan, Millôr Fernandes, Mauricio Babilonia, Berlim, Tom Zé, Doroteia Cabral, Lápis-Lazúli, Billy Podre, Sabino Navegante, Rita Lee Jones, Rasputin, Aureliano Buendía, Tereza Batista, Arnaldo Antunes, Virginia Woolf, Virgulino Ferreira, Capitão Nemo, Esmeralda Borges, Hermeto Pascoal, Lee Oswald, Bram Stoker, Muhammad Ali, Diego de la Vega, Jesse James, Charlie Chaplin, Bruce Benner, Jesus Cristo…

 

Sociedade dos Boêmios Mortos – Crônica de Ronaldo Rodrigues

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Crônica de Ronaldo Rodrigues

Noite dessas, saí agarrado à intenção de rever pessoas e situações. Até aí tudo bem, se as pessoas e as situações não estivessem para além da fronteira da vida, aquilo a que se convencionou chamar de “morte”.

Fui, então, a uma reunião de uma confraria que há muito suspeitava de sua existência: a Sociedade dos Boêmios Mortos.

Cheguei ao Quiosque Norte & Nordeste, na Praça Floriano Peixoto, que atendia pelo simples nome de Bar da Floriano. O som que me recebeu vinha de uma vitrola e quem estava no comando era o Gino Flex, colocando as músicas mais descoladas da imensa coleção de discos de vinil.

Logo em seguida, um poeta louco subiu numa cadeira e passou a declamar poemas de Vinicius de Moraes. Era o Fred Lavoura, que conhecia tudo do Poetinha e nem esperava que batessem palmas. Ele mesmo liderava os aplausos depois da apresentação de mais um poema.

Enquanto isso, o Brô contava uma história em que ele se destacava como o grande herói, é claro. Ao seu lado estava o Banana, que, sejamos justos com esse momento único, não aprontou confusão alguma. O Pururuca e o Foa passaram por lá, mas ficaram pouco tempo, já que tinham compromissos em seus trabalhos de mototaxista.

Uma turma mais antiga deu o ar de sua graça. Os poetas Alcy Araújo e Isnard Lima e o artista plástico Estêvão Silva. Claro que o trio nunca esteve no Bar da Floriano, que não existia quando estes grandes personagens viviam no mesmo plano que nós. Mas puxo da minha cartola esta licença literária e os coloco no mesmo ambiente para que a minha homenagem se estenda a essa geração de loucos geniais, sonhadores e personalidades ímpares que Macapá produz.

Eu não sei se, devido à instabilidade de temperamento de artistas e boêmios, seria possível um encontro dessas pessoas. Pode ser que alguns dos citados fossem desafetos de outros e jamais admitissem estar na mesma mesa ou no mesmo bar. Mas corro esse risco, mesmo porque, se houvesse alguma briga, ninguém mataria ninguém, já que todos estão mortos.

Ah, sim. Já ia esquecendo. O Valério Campos, mais conhecido como Kadáver, estava lá também, mas, apesar do nome artístico, era, além de mim, o único ser vivo.

Um dia vou te convidar, caro leitor, para dar essa volta. Topas?

Nova Idade Média (crônica de Ronaldo Rodrigues)

 
Na canção Outros Românticos, de Caetano Veloso, há uma frase que sempre me chamou atenção: “outra Idade Média situada no futuro”. Isso me vem à cabeça quando leio/vejo/ouço notícias como a que tem Emerson como alvo. Esse jogador do glorioso Corinthians foi fotografado (flagrado, como dizem as revistas e blogs de fofoca) trocando um beijo com um amigo.
 
Esse fato deixou a torcida furiosa. Quando o mesmo jogador foi visto (flagrado) lendo um livro, a torcida chiou de novo. Para os torcedores mais fanáticos, ler um livro (ou ler qualquer coisa) é inadmissível para quem defende as cores do Timão, ou qualquer outro time.

Esses dois “flagras” ilustram bem a vigilância (e a cobrança) exercida sobre a vida das pessoas. Me lembram a Inquisição. Outros fatos se acumulam e confirmam a instalação de um Big Brother a esmiuçar, expor e interferir nas nossas vidas, como o fuçar dos Estados Unidos nas redes sociais, celulares e outros meios de comunicação. Uma manobra com a chancela do Obama, o mesmo que surgiu no cenário político mundial como um cavaleiro da esperança, de visão aberta, arejada, que iria sacudir a poeira do trono da Casa Branca. 

A Inquisição desta nova Idade Média situada no futuro (ou seja, aqui e agora) decreta que um homem não pode beijar outro homem (nem que os dois sejam pai e filho). Tudo bem que homens troquem xingamentos e socos, mas beijos ou qualquer outra demonstração de afeto, nem pensar. Eles serão banidos da sociedade, na melhor das hipóteses, ou queimados em praça pública.
 
A saudável filosofia do “cuide da sua vida que eu cuido da minha” deve cair em desuso. Todo mundo vai vigiar todo mundo, controlar as saídas e chegadas e fiscalizar quem frequenta a cama do vizinho. Afinal, quem padece de falta de assunto precisa desse tipo de remédio.

Quanto aos livros, é melhor destruí-los. Vai que uma criança desta nova Idade Média se interesse por eles e tenha sua cabeça entortada pela imaginação desvairada de autores devassos.
 

Ideias tacanhas, obscurantistas deveriam estar com data de validade vencida, neste início de terceiro milênio. Mas não é o que vemos no dia a dia. Todos os valores, ideologias e pensamentos tortos que um dia levaram a humanidade à guerra, estão presentes hoje, mais vivos do que nunca. Basta ligar a televisão, entrar na internet ou mesmo olhar para o lado. É intolerância, racismo, xenofobia, desrespeito à diferença, invasão de privacidade, todo tipo de preconceito. 
 
A Idade Média está instalada, senhores. Com aparelhos e equipamentos mais sofisticados e eficazes que a Idade Média propriamente dita. Os inquisidores estão à porta, espiando pelo olho mágico e pelas câmeras de vídeo ultramodernas, que podem captar imagens através das paredes e até monitorar os nossos sonhos.
 
Tudo isso me faz lembrar também o livro 1984, de George Orwell, e lamentar que a história contada nele corra o risco de não ser mera ficção.
 
Ronaldo Rodrigues

Setembro – Pequena crônica revista e ampliada de Ronaldo Rodrigues

Pequena crônica revista e ampliada de Ronaldo Rodrigues

Quando entrou setembro e a boa nova andou nos campos, eu cheguei aos campos do Amapá, em Macapá. A boa nova foi/é Macapá.

Depois de um turbilhão de vendavais emocionais & tais, Macapá entrou pela última janela aberta no temporal e abriu para mim mais uma etapa, mais um suspiro de resistência, mais um fôôôôôôôôôôôôôôôôôôôôôôôôôôlego!

Meu primeiro dia em Macapá foi num primeiro de setembro. O ano era 1997 e ainda não havia para mim Gino Flex, a mais completa tradução de Macapá e de tudo o que há de intraduzível.

Respirei a brisa do rio Amazonas, Macapá entrou no meu sangue, o marabaixo abençoou e a linha do Equador assinalou meu lugar no meio do mundo. Me tornei um amaparaense. Ou um paramapaense.

Curuçá, Belém e Macapá completam o complexo anarquitetônico-suburbanístico-humano de três cidades no coração, na mente, nos atos do dia a dia.

Mais um ciclo se encerra hoje, outro começa, outros virão e se cumprirão a cada dia, a cada segundo.

Nesses 20 anos e nos muitos amigos que me deste, Macapá, ainda estou te descobrindo.

Obrigado pelo que rolou até agora, coloque mais algumas das tuas loucuras na minha vida e um pirão de açaí com tamuatá!

Valeu, tá valendo, vai valer sempre!

Citação das músicas Sol de Primavera (Beto Guedes/Ronaldo Bastos), Sampa (Caetano Veloso) e Vida Boa (Zé Miguel); e do poema Três Cidades no Coração (Francisco Weyl).