Cada louco com sua coleção (crônica de Ronaldo Rodrigues)

Tem gente com cada mania! Uns, como George W. Bush, e outros presidentes dos Estados Unidos, como Ronald Reagan, tinham a mania clássica dos cientistas malucos de desenho animado: queriam, a todo custo, dominar o mundo (rá! rá! rá!).

Outros, mais normais (dentro de certos padrões), se contentam em colecionar coisas. O que leva um ser humano a tal prática é um dos enigmas da humanidade. Desde Imelda Marcos (que melda!), ex-primeira-dama das Filipinas, com seus milhares de sapatos, até o popstar inglês Elton John, contumaz colecionador de óculos, os malucos que colecionam não precisam de nenhum elemento motivador. Eles colecionam e pronto. Ponto.

Vejamos uma galeria desses tipos. Uma coleção deles:

Giz de bilhar

O cartunista Ronaldo Rony, péssimo jogador de bilhar, costuma levar para casa, depois de apanhar feio dos adversários mais desprezíveis, o giz que se usa para passar na ponta do taco. Como ele não consegue ganhar mesmo, sua vingança consiste em roubar (tem que ser roubado) uma grande quantidade de giz, que ele ostenta em sua estante, como se troféu fosse.

Nuas e cruas

O designer gráfico Joelson Dutra, às do bilhar, não quer saber desse jogo quando o assunto é coleção. O que ele guarda, com todo o carinho e tesão, são fotos e vídeos de mulheres nuas recolhidos da internet. Ele se gaba de possuir o maior acervo de seios de todos os tamanhos e genitálias nas posições mais perturbadoras. Ele afirma que essa mania se deve ao fato de sempre ter sido preterido pelas mulheres. Na tela do monitor, garotas sensuais sorriem para Joelson, que se regala no espaço virtual com aquilo que o mundo real sempre lhe negou.

Engolindo sapo

Paracildo Nogueiras coleciona sapos. São esculturas, pinturas e miniaturas. Os materiais variam: gesso, papel, madeira, pano, mármore… Uma estante inteira enfeitada com diversos espécimes desse (para alguns, repugnante) bicho. Paracildo justifica sua predileção por sapos: “Em minha profissão (ele não revela que raio de profissão é essa), preciso engolir sapo todo santo dia. Aí, quando isso acontece, recorro à minha coleção. Fico passando a mão na cabeça dos sapinhos e jurando, em vão, para mim mesmo: – Este é o último sapo que eu engulo… Este é o último sapo que eu engulo… Este é o último sapo que eu engulo…”. Depois disso, me acalmo e fico preparado para engolir mais sapos no decorrer do período”.

Colecionar é imperativo

O baixinho Romário colecionava gols e carros. Carlos Humberto coleciona selos, uma das coleções mais comuns. Mauro Mathias coleciona namoradas. Entre nossos entrevistados, descobrimos pessoas que colecionam lápis com ponta mordida, sabonetes de motel com pentelho, canecas de chopp das mais horrendas formas e até calcinhas manchadas com sangue de menstruação. Carlos Nero coleciona isqueiros alheios que, distraidamente, coloca no bolso e esquece. Para ele, foi criada uma nova classificação de criminoso: o pirocleptomaníaco.

E para finalizar esta crônica

Ficamos com a coleção de desafetos, construída caprichosamente pelo Homem-Rancor (um dia revelaremos sua identidade secreta) ao longo de mais de 50 anos. A outra é a coleção de amigos, cultivada pelos usuários de redes sociais, com seus mais de 300 amigos virtuais. Para eles, amizade dispensa envolvimento emocional, afetivo. O que importa é a quantidade.

Ronaldo Rodrigues

A última cruzada – Crônica de Ronaldo Rodrigues

Crônica de Ronaldo Rodrigues

Estou andando pelas ruas de Macapá quase em desespero. Na verdade, estou, sim, em desespero! Crise de abstinência, na certa! Revolta contra esse mundo que parece fechar suas portas pra mim! Bom, acho melhor explicar o que está ocorrendo na minha vida, se é que alguém se importa.

Eu tenho um vício muito forte: palavras cruzadas. Não tenho vergonha alguma de admitir isso e não é novidade pra ninguém. Não posso ficar muito tempo sem uma revistinha de palavras cruzadas que começo a me coçar, ficar vermelho, babar e desmaiar. É a dose de palavras cruzadas que falta na minha rotina. Ah, sim! Por falar em rotina, se eu relatar a minha, pode ser que meu querido leitor compreenda melhor. Não que seja uma coisa muito complicada, mas é inusitado, de qualquer forma, alguém que não consegue viver sem matar as questões das palavras cruzadas. Ou ser morto por elas.

As revistas de palavras cruzadas circulam regularmente pelas bancas de revistas. De tempos em tempos, eu passo na banca (dificilmente vario de banca; minha preferida é aquela ao lado da Secretaria de Educação). Pois bem, já faz quase três meses que faço essa peregrinação até essa banca e nada de as revistas chegarem. As que encontro por lá são aquelas fáceis demais e o meu nível preferido é o difícil. Chegavam três revistas inéditas desse nível e agora não acho uma sequer. Até existem algumas por lá, mas são republicações. Cheguei a perguntar ao dono da banca o que estava ocorrendo, por que estavam demorando tanto.

O dono da banca, depois de tirar minhas mãos do seu pescoço, me deu um copo d’água e pediu pra que eu me acalmasse. Segundo ele, os fornecedores alegam que a editora não está mandando mais revistas de palavras cruzadas. Eu, que já estava calmo, voltei a ter um surto psicótico e gritei a minha indignação:
– Será que pararam de produzir? Resolveram acabar com uma das poucas distrações que tenho na vida? Um dos poucos jogos (talvez o único) em que consigo me sair bem?

O dono da banca me deu mais um calmante, acendeu um incenso e cantou um mantra, até eu consegui relaxar. Ele explicou que existe uma crise no mercado editorial, concorrência com a internet, fim de publicações impressas, preferência do público por edições digitais, mudança nos hábitos dos leitores e… Buááááá!

Que foi isso? Foi a vez do dono da banca começar a chorar, diante do quadro que ele, talvez só naquele momento, começou a se dar conta. Eu o acalmei e disse algo como “isso passa e tal, enfim”, essas coisas. Mas fiquei muito preocupado. Com o impacto maior ainda que a tal da tecnologia trará ao negócio de bancas de revistas e preocupado comigo, remoendo o vazio que as palavras cruzadas estão deixando em minha vida. Fiquei pensando num complô do mundo moderno contra a minha pessoa. Como daquela vez que anunciaram o fim da fabricação de plástico-bolha. Estourar plástico-bolha é outro passatempo do qual não abro mão.

Amanhã vou sair novamente atrás das palavras cruzadas, com todo o entusiasmo de que sou capaz, como um esfomeado em busca de um prato de comida. E se você, meu caro leitor, vir uma pessoa descabelada, andando por aí a esmo, com o olhar desamparado, não tenha dúvida: as palavras cruzadas (e em breve, eu) não existem mais.

Amigos, não se percam! – Excelente crônica de Ronaldo Rodrigues

Crônica de Ronaldo Rodrigues

Na ditadura, podia-se perder um amigo de um momento para o outro. Perder significa perder mesmo. Esse amigo poderia ser assassinado, morrer em emboscadas ou sob tortura. Ou, o que é pior, poderia desaparecer para sempre. Bastaria para isso que ele dissesse abertamente tudo aquilo que pensava. Ou tivesse comportamento e pensamento livres demais. Ou tivesse ligação com artistas, intelectuais, jornalistas ou outras espécies de pessoas que pensam. Uma pessoa pensando livremente é a maior ameaça a uma tirania. Podia ser nada disso. Uma suspeita de um vizinho bastava. Uma denúncia, uma invasão de domicílio arbitrária, uma prisão ilegal… E lá se ia nosso amigo.

Hoje, na democracia, para perder um amigo basta manifestar opinião contrária a ele. Liberdade de expressão, duramente conquistada, é, por muita gente, confundida com liberdade de agredir, ferir, magoar. Fazer isso com pessoas estranhas já é deplorável. Quando, por muitas vezes, quem está do outro lado é o que sempre se imaginou ser um amigo, a coisa fica insustentável.

Pelas redes sociais, amigos deixam de ser amigos, para constatar o fato de que nunca foram amigos. E trocam grosserias e se machucam e se excluem, em todos os sentidos. Essa é a derrota de todo mundo, não do lado A, nem do lado B, muito menos de quem não tem lado, o que não quer dizer está em cima do muro.

Perder um amigo é horrível. E aquele amigo que morreu na ditadura morreu exatamente para que os amigos de hoje possam exercer plenamente a maravilha de se ter um amigo.

Eu não admito perder um amigo para esse conjunto de fatos que citei acima. Posso perder uma discussão política, se o argumento contrário for mais forte do que o meu, perder amigo, não! Por essa causa sou capaz de convocar manifestações, organizar passeatas, subir no carro-som e disparar discursos. Quem vem comigo levanta mão aí!

Autoexílio – Crônica de Ronaldo Rodrigues

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Ronaldo Rodrigues

Crônica de Ronaldo Rodrigues

Declaro, para os devidos fins e para quem interessar possa, mesmo para aqueles que vão ignorar ou mandar eu me foder, já que mandar alguém se foder se tornou a coisa mais natural do mundo.

Confesso que estou cansado, que entrego os pontos. Os cinquenta janeiros que coleciono com certo zelo já começam a pesar sobre meus combalidos ombros. Vou promover um autoexílio, um exílio dentro de mim mesmo.

Não consigo mais respirar o mesmo ar dos fascistas que afloraram neste últimos tempos. Estou cansado de ódios e equívocos. Este país está perdendo o charme, a cada dia que passa, a cada postagem nas redes antissociais.

Uma ditadura moral – na verdade, imoral – estende seus tentáculos em todas as direções. Pessoas que não sabem o que é esquerda se arvoram, sem a menor cerimônia, a falar de esquerda. Pessoas que não sabem o que é direita, que não sabem o que é comunismo, que não sabem o que é ditadura militar, que não sabem NADA se tornaram propagadoras de ideias que já eram caducas quando foram concebidas.

Quando um artista do nível de um Chico Buarque passa a ser condenado, sem a menor atenção e respeito à sua arte, o negócio vai mal. Quando um câncer como Jair Bolsonaro passa a ser aclamado e vira mito, o negócio vai mal. Mas os incomodados que se mudem. E eu estou me mudando para dentro de mim.

Declaro-me banido, com muita honra, dessa mentalidade escrota que está tomando conta do Brasil, e pode tomar o poder.

Eu, Ronaldo Rodrigues, sou um território independente dentro desta merda toda, dentro deste país que debate suas questões políticas na mesma arena em que são disputadas as partidas de futebol.

Aqui na minha redoma, estarei exilado das celebridades opacas que “brilham” na TV e nas paradas de sucesso. Que a manipulação da grande mídia continue. Ela não me atinge. Que os pastores continuem conduzindo suas ovelhas. Eu não sou uma delas. Que os corruptos continuem gritando contra a corrupção.

Estou cansado, mas devo dizer que ainda não desisti. Pode ser apenas um recuo estratégico. O Brasil é muito maior que isso tudo que estão fazendo a ele.

Por enquanto é só. E basta!

Menina Legal – Crônica de Ronaldo Rodrigues

Crônica de Ronaldo Rodrigues

Dentro do olho plantei um grão de areia, um cisco que deixei ficar no cantinho do olho, de propósito. De tanto regar esse grão de areia com lágrimas e gotas de chuva, ele foi se transformando em duna. Depois de alguns meses, já era uma praia completa, com coqueiros & conchinhas.

Passei a levar essa praia para todo lugar que ia. Quando me encontrava de folga, invocava o sol e convocava Menina Legal para curtir essa praia. Dava uma esfregadela no olho, muito lentamente, para não irritar a paisagem, e deixava cair uma cascata de areia branquinha, que ia se estendendo pelo chão, feito um tapete. Aí, eu deitava & rolava com Menina Legal, nos bronzeando nus do umbigo pra cima e completamente pelados do umbigo pra baixo.

Quando a tarde caía, colocava o outro lado da lua na vitrola, respirando música misturada ao som da blusa estendida no varal. Menina Legal olhava longamente/farolmente para o horizonte e deixava o barquinho de papel navegargalhar sobre a ponte do infinito, atravessando um puríssimo azul, resto do dia que ia e promessa da noite que chegava. O coração pegava carona no barquinho de papel e alçava voo de gaivota sobre os edifícios cinzentos da Avenida Crepuscular. Deixava cair uma clave de sol no mar. Mostrava ao trânsito engarrafado a saída do labirinto urbano. Devolvia à Cidadela do Carnaval o despertar da folia. A fauna & a flora dos bares & becos ecoavam na TV seu grito de fera.

Na manhã seguinte, o paraíso se dissipava. MeninaLegal colocava uma flor verdemelha no longo cabelo e ia embora, trabalhar de fada encantada de feira de artesanato. À noite, passava um batom lilás e assumia sua identidade secreta: esposa de executivo com golpe armado pra cima do marido.

Solitário, só me restava recolher ao olho minha praia portátil, distribuir meus últimos dólares entre os bêbados do boulevard e seguir para a Caverna Central, em busca de um drops de dicionário antigo. Só assim eu conseguiria entender o significado da minha dor e talvez falar a linguagem dos ratos da Biblioteca de Alexandria.

Sexo, mentiras e videotapes – Crônica cinematográfica de Ronaldo Rodrigues

Crônica cinematográfica de Ronaldo Rodrigues

Diretamente de Paris, Texas, o repórter Borat relata uma trama macabra: O mágico de Oz matou a excêntrica família de Antonia e foi ao cinema. Tudo por um punhado de dólares, que teve o sol por testemunha.

Pegou o taxi driver que conduzia Miss Daisy, atravessou as vinhas da ira, além da linha vermelha. Entrou no cinema Paradiso e viu os Piratas do Caribe invadindo a Fortaleza. Convidou o exterminador do futuro pra tomar um drink no inferno. Sentindo-se um náufrago, saiu em direção ao aeroporto, de volta para o futuro, sonhando com a ilha do tesouro.

Entrou no Bagdá Café e comeu tomates verdes fritos, que estavam como água para chocolate. Do nada, surgiu King Kong deixando todo mundo em pânico. Ouviu alguém gritar: Corra, Lola, corra para os embalos de sábado à noite. Nisso, passou correndo uma multidão. Seriam as invasões bárbaras? Ou o grande motim?

Eram todos os homens do presidente e o povo contra Larry Flint. Cansado de tantos filmes, voltou à casa do lago, onde Harry Potter tinha instalado sua fantástica fábrica de chocolate. À beira do abismo e à queima-roupa, fez ao poderoso chefão a pergunta que não quer calar: Quem vai ficar com Mary?

Quando éramos reis – Crônica de Ronaldo Rodrigues

Crônica de Ronaldo Rodrigues

Começa assim: o cara não quer se envolver com esse negócio de Copa, que a situação atual do país não permite esse tipo de “alienação”, que tem medo de confiar, se empolgar e o Brasil ficar pelo meio do caminho. Que isso, que aquilo, que aquilo outro, blá, blá, blá…

Em todo caso, ninguém (pelo menos que eu conheça) fica imune ao vírus da Copa do Mundo. A pessoa que quisesse ficar fora disso teria que sair deste planeta ou contar com um poder de concentração e abstração muito forte.

Simplesmente, não dá! Hoje, depois de várias rodadas, vejo aquele cara do começo desta crônica, que só se liga em futebol de quatro em quatro anos, se tornar o mais entendido comentarista, o mais inflamado puxador de torcida.

Eu sempre torci pelo Brasil. Com mais gosto, é verdade, por ter vivido o suficiente para ver muito mais futebol do que o exibido pelo jovem escrete atual. Tempos em que México, Colômbia, Equador, por exemplo e para ficar só na América do Sul, não causavam a menor preocupação. Só precisávamos esperar o fim da partida para conferir o placar, geralmente com não menos do que três gols a nosso favor.

Tempos em que os jogadores exibiam, além do futebol em si, as mais diversas características: pensador (Tostão, Sócrates), esquentado (Renato Gaúcho, Edmundo), marrento (Romário, Marcelinho Carioca), político (Sócrates, Afonsinho), desengonçado (Casagrande, Rivaldo), bom moço (Zico, Bebeto), baladeiro (Ronaldinho Gaúcho), violento (Júnior Baiano), zangado (Dunga), chato (Neto, Túlio), canhoneiro (Rivellino, Roberto Carlos, Branco), folclórico (Dario Maravilha), eficiente (Ronaldo, Careca), elegante (Falcão), moleque (Garrincha), completo (Pelé)… e a lista não terminaria. O ponto em comum era que a maioria dos citados acima entrava em campo e resolvia a parada.

Hoje, o negócio tá meio igual, tudo nivelado por um comportamento que não exponha o jogador ou não o faça perder patrocinador, mas deixemos pra lá essa parte, senão vamos cair em assunto chato e chatice já temos de monte.

Esta crônica não é para chorar o tempo em que éramos reis, quando não existia 7 x 1 no nosso currículo, quando a confiança era total. É para emprestar nossa torcida a um time que sempre venceu dentro de campo e a nossa solidariedade a uma torcida que costuma perder feio do lado de cá da realidade, com a diferença entre os altos salários dos craques e a vida de salário mínimo da maioria dos torcedores. Lá vai a coisa ficar chata de novo. É melhor terminar por aqui, porque, além do mais, o jogo já vai começar.

O clima de desconfiança, de pé atrás, finalmente deixou de existir e vamos com toda a nossa coragem e força e talento arrancar esse hexa! E voltarmos a ser reis.

*Quando Éramos Reis é um documentário sobre o confronto histórico de 1974, no Zaire, entre Muhammad Ali e George Foreman. Pincei o título de um fato do boxe para batizar uma crônica sobre futebol. Tá valendo, porque a ideia é nocautear os adversários, como Ali fez com Foreman.

Onde Deus possa me ouvir – Escrito de insônia de Ronaldo Rodrigues

Escrito de insônia de Ronaldo Rodrigues

Quando encontramos uma música que fala o que precisamos escutar dá um alívio tremendo. Foi o que senti ao deparar com Onde Deus possa me ouvir. Quando se está de saco cheio de pessoas e situações e opiniões e falta de perspectivas, eis que vem pelas ondas da internet uma música para dizer que não estamos sozinhos contra a indiferença, a ignorância e a falta de refinamento no pensar, tão flagrantes em nossos dias.

Coisa boa deve ser compartilhada e foi o que fiz, lançando, no oceano da madrugada solitária, a minha garrafa de náufrago, cuja única mensagem era essa pérola. Uma mensagem de socorro, mas também de alento, de tentativa de compreensão do mundo, para quem possa necessitar de atenção e afago neste nosso labirinto de madrugadas insones, por vezes ásperas. Enviei para alguns companheiros de jornada com os quais compartilho aflições e compensações de viver na mesma época em que, a todo momento, palavras cruéis ferem nossos ouvidos e corações e mentes.

Há tempos que não me sentia tocado por uma música e dei graças ao fato de que minha sensibilidade ainda resista à tentação de seguir a manada e se tornar estéril ou mesmo inexistente. E quando gosto de uma música, gosto de pensar que outras pessoas também poderão gostar e me faço mensageiro dessa música, cuja força pode até salvar o mundo de alguém.

A música que me deixou em transe e que volto a compartilhar agora com vocês é de Vander Lee gravada na voz de Gal Costa. E como disse Jesus Cristo (e nas primeira vezes que li essas palavras achei que Jesus estava sendo redundante): – Quem tem ouvidos para ouvir, ouça.

Onde Deus possa me ouvir

Sabe o que eu queria agora, meu bem?
Sair, chegar lá fora e encontrar alguém
Que não me dissesse nada
Não me perguntasse nada também

Que me oferecesse um colo ou um ombro
Onde eu desaguasse todo o desengano
Mas a vida anda louca
As pessoas andam tristes
Meus amigos são amigos de ninguém

Sabe o que eu mais quero agora, meu amor?
Morar no interior do meu interior
Pra entender porque se agridem
Se empurram pro abismo
Se debatem, se combatem sem saber

Meu amor, deixa eu chorar até cansar
Me leve pra qualquer lugar
Aonde Deus possa me ouvir

Minha dor eu não consigo compreender
Eu quero algo pra beber
Me deixe aqui, pode sair
Adeus

Um gol inesquecível (crônica de Ronaldo Rodrigues)

Crônica de Ronaldo Rodrigues

Começo parafraseando Paulinho da Viola: tinha eu 12 anos de idade (e não 14, como no samba) quando meu pai me chamou para assistir, pela TV, a um jogo sem interesse para a torcida brasileira, que só admite disputa pelo primeiro lugar. A data: 24 de junho de 1978. O local: Estádio Monumental de Nuñez, Buenos Aires. O evento: decisão do terceiro lugar da Copa do Mundo, entre Brasil e Itália.

A conquista da Argentina foi embalada por muitas polêmicas. Sua classificação para a final veio através de uma suspeitíssima goleada de 6 a 0 sobre o Peru.

A seleção argentina, bastante forte, contava com craques como Fillol, Passarella, Ardilles e o artilheiro Kempes. A força da equipe ganhou um reforço de fora das quatro linhas: a pressão do governo argentino. O título mundial cairia como uma luva para a glorificação do regime do general Videla. E foi o que ocorreu.

Mas voltando ao jogo: a Itália abre o marcador com Causio, no primeiro tempo. O próximo gol da partida é uma obra-prima que ficará marcada para sempre na minha memória de torcedor.

Aos 19 minutos do segundo tempo, o lateral direito Nelinho pega uma bola pela direita, próxima ao bico da grande área, e chuta com sua potência característica. A bola descreve uma curva muito acentuada, sai do alcance do goleiro Zoff e estufa o canto direito da rede. Depois, com o gol de Dirceu aos 25 minutos, o Brasil conquistava o terceiro lugar daquela Copa do Mundo.

A minha revolta de garoto recusou o título de “campeão moral”, expressão cunhada pelo técnico Cláudio Coutinho e aceita por muita gente, mas o gol de Nelinho fez meu jovem coração vibrar como o de um campeão.

Quer ver o gol? Assistam o vídeo abaixo:

El Diablo! Pero no mucho… – Crônica de Ronaldo Rodrigues

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Crônica de Ronaldo Rodrigues

Para disputar a Copa do Mundo de 1994, a Bolívia montou um bom time, a melhor seleção de sua história, segundo alguns cronistas esportivos. E Marco Etcheverry era o seu comandante, jogando pelo meio de campo e indo ao ataque com frequência e muita eficiência.

Num dos jogos pelas eliminatórias, no dia 25 de julho de 1993, em La Paz, essa fulminante Bolívia bateu um apático Brasil por 2 x 0. Um dos gols foi marcado pelo nosso personagem e essa partida marcou a primeira derrota do Brasil em eliminatórias. Tudo bem que a seleção brasileira deu o troco, e com juros, vencendo a Bolívia pelo placar de 6 x 0 no jogo de volta. Mas isso não tirou o brilho da seleção boliviana, nem encerra o assunto desta crônica.

A atuação da Bolívia nos jogos eliminatórios conquistou os profissionais da imprensa, o líder Etcheverry ganhou o título de “El Diablo” e a Bolívia acalentou o sonho de ser um dos destaques daquele mundial.

Mesmo com uma lesão, Etcheverry chegou aos EUA com banca de herói, a grande esperança dos bolivianos, o goleador implacável que figurava entre os candidatos a astro da Copa.

Na estreia, a Bolívia enfrentou a Alemanha e o inferno de El Diablo começou. Ciente de que o craque não estava ainda no melhor de suas condições, o técnico da Bolívia o guardou para o segundo tempo. El Diablo entrou em campo aos 34 minutos e, aos 37, revidou uma entrada dura de Lothar Matthäus com um chute na canela do alemão. O juiz não livrou a cara do possível astro e aplicou o cartão vermelho sem piedade. El Diablo encerrava ali, de forma pífia, em três minutos, a sua participação na Copa na qual deveria brilhar.

Nos dois jogos seguintes, Etcheverry viu do banco de reservas, ou pela televisão do hotel, seu time ser eliminado na primeira fase. Foi a carreira em Copas do Mundo mais meteórica que se viu. Ou não se viu.

Em 2006, aos 35 anos, Marco Etcheverry saiu de campo como atleta, voltando em 2008, como técnico. Mesmo com aquela atuação (atuação?), é considerado o maior jogador boliviano de todos os tempos. E El Diablo ficou lá no passado, como uma promessa que jamais irá se cumprir.

Ronaldo na área – Crônica de Ronaldo Rodrigues e imagens de Ronaldo Rony

Crônica de Ronaldo Rodrigues

Atenção, galera! Ronaldo entra em campo aos 44 minutos do segundo tempo para virar esse jogo! Agora o time engrena!

Não, senhoras e senhores! O Ronaldo a que me refiro não é o gajo Cristiano Ronaldo, o maior jogador do mundo da atualidade (pra você ver como o mundo e a atualidade andam carentes). O Ronaldo portuga mais parece um vaidoso pavão do que um jogador de futebol (aliás, como a maioria dos jogadores de agora).

Mas deixa ele pra lá e passemos a falar do Ronaldo que interessa. Além dos Ronaldos que já tivemos, o Gaúcho e o Fenômeno, o nosso futebol conta com o Ronaldo Anônimo, que reivindica agora, através desta crônica, seu justo lugar na História das Copas.

O COMEÇO DE TUDO

Inglaterra 1966

O Brasil já tinha perdido o complexo de vira-lata e vencido duas copas (Suécia/1958 e Chile/1962). Mas a nossa seleção se apresentou de maneira pífia e não trouxe a taça. Tudo porque o nosso Ronaldo não tinha sido convocado.

México 1970

Brasil Tricampeão. Ronaldo foi novamente ignorado e o mundo deixou de presenciar seu jovem talento. Tudo bem que ele só tinha 4 anos de idade, mas custava o técnico Zagallo dar uma chance à nova geração?

A ASCENSÃO DE UM ASTRO

Ronaldo foi crescendo e o craque se revelando. O técnico insistia em deixá-lo no banco de reservas, mas a torcida já reconhecia seu talento precoce e exigia sua entrada em campo.

Aos 10 anos, Ronaldo declarou todo o seu amor ao futebol, em vários idiomas, pra deixar claro que sua intenção era ser astro internacional.

Era uma paixão não correspondida. Ronaldo amava o futebol e o futebol o desprezava totalmente.

Argentina 1978

Apesar de não contar com Ronaldo, que continuava sem sua merecida chance, o Brasil não teve uma derrota sequer e, mesmo assim, não trouxe a taça. A anfitriã venceu o torneio com um time bom, a violência de sempre e a decisiva ajuda da ditadura argentina.

Espanha 1982

Ronaldo tentava de tudo para se inserir no mundo do futebol, mas nem como torcedor se dava bem. O futebol-arte do Brasil caiu diante da pálida Itália, que fazia uma Copa muito da miada. Poderíamos até empatar que a classificação viria, mas o até então apagado Paolo Rossi resolveu desencantar justamente naquele dia e fez três gols. A seleção canarinho voou de volta pra casa e Ronaldo levou toda a culpa.

México 1986

Onde estava Ronaldo? Assistindo pela TV ao show de Maradona, fazendo, contra a Inglaterra, um gol de malandragem com la mano de Dios e outro de extrema habilidade, quando enfileirou metade do time bretão. O Brasil foi eliminado pela França nos pênaltis e Ronaldo continuou seu sonho de um dia disputar uma Copa.

Itália 1990

A era Dunga não decolou. O Brasil foi desclassificado pela Argentina, num gol de Caniggia, recebendo o único passe que Maradona conseguiu fazer em todo o jogo.

Estados Unidos 1994

Acaba o jejum de 24 anos e o time mediano do Brasil sagra-se campeão nas terras do Tio Sam. A torcida teve que se contentar com um xará do nosso craque, que não saiu do banco.

França 1998

O Brasil amarelou na final e Zidane comandou a vitória da anfitriã. Culpa de quem?

Japão e Coreia do Sul 2002

Desta vez, acontece um fenômeno. Ronaldo faz dois na Alemanha e o Brasil é penta.

Alemanha 2006

Ah! Deixa essa Copa pra lá! A única coisa legal foi a cabeçada do Zidane no Materazzi!

África do Sul 2010

Outra chatice! Essa foi tão meia-boca que até a Espanha ganhou…

Brasil 2014

Nesta Copa, Ronaldo foi mais um dos brasileiros que conseguiram transformar em piada o que teria sido uma tragédia.

Rússia 2018

Mesmo com 52 anos, Ronaldo não para de treinar e ainda acredita em uma convocação de última hora. A torcida do Brasil está meio desmotivada, mas vamos deixar a bola rolar e ver no que vai dar. Pior do que tá não fica, como disse aquele pensador contemporâneo. Ronaldo está aí e, caso seja convocado, ainda tem muito jogo pra mostrar.

* Imagens de Ronaldo Rony.

A Moça do Tempo (Crônica firmeza de Ronaldo Rodrigues)

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Crônica de Ronaldo Rodrigues

Aos 19 anos, Mariana completou 30.

Sempre à frente de seu tempo, Mariana menstruou aos 70 e perdeu a virgindade aos três.

O tempo era seu passatempo. Seus banhos demoravam duas semanas, mas para comer cinco pizzas e três refrigerantes, dois segundos e meio bastavam.

Mariana se casou com seu avô, este com sete anos. Seu filho mais velho nasceu depois dos trigêmeos, que vieram ao mundo separadamente, em Estocolmo, Kingston e Bruxelas.

Seus netos a conheceram na festa de seu 15º aniversário, quando ela, já completamente senil, ainda não havia nascido.

Sempre que perguntada pelas horas, Mariana respondia que faltavam quinze dias para dois minutos, tempo em que viriam o calor infernal do inverno, as flores no outono, a primavera hostil e o verão glacial.tempo3 (1)

Mariana começou a escrever suas memórias antes dos 150 anos e as concluiu com apenas dois dias de nascida.

Seus pais começaram a namorar 20 anos antes de se conhecerem.

Depois do mestrado e doutorado, Mariana ingressou na alfabetização, onde aprendeu a ler todos os livros que ainda não haviam sido escritos. Foi quando Mariana pediu um tempo ao tempo……………………………………………………………


Então, todos os relógios do mundo marcaram a mesma hora. Quando seu primeiro ancestral iniciou sua proliferação, bem no começo de toda a existência, o tempo fechou para Mariana. As ampulhetas explodiram e os relógios, com seus ponteiros apontados para ela, gritaram numa só voz:

– Seu tempo acabou! Seu tempo acabou! Seu tempo acabou! Seu tempo acabou! Seu tempo acabou! Seu tempo acabou! Seu tempo acabou! Seu tempo acabou!

Ronaldo Rony definitivo (pelo menos, por enquanto…) – Crônica de Ronaldo Rodrigues

Crônica de Ronaldo Rodrigues

Aconteceu uma coisa legal na carreira do Ronaldo Rony e ele achou que seria procurado para algumas entrevistas. Como isso não ocorreu, ele convocou o escritor Ronaldo Rodrigues, com quem tem uma certa (ou incerta) afinidade, e este levou um papo definitivo com o nosso cartunista. Vamos à entrevista!

Ronaldo Rodrigues: Olá! Estamos aqui com o cartunista Ronaldo Rony e vamos logo ao assunto: fala aí, Ronaldo Rony, o que é um cartunista?

Ronaldo Rony: Cartunista é o cara que desenha humor, faz graça com o cotidiano, extrai de fatos corriqueiros o tema para os seus desenhos. Gosto sempre de usar uma frase minha que acho muito legal: cartunista é o artista que fala sério brincando, enquanto a maioria das pessoas brinca de falar sério.

Ronaldo Rodrigues: Legal mesmo! Agora, a pergunta clássica que sempre está na pauta de quem entrevista cartunistas: qual a diferença entre charge e cartum?

Ronaldo Rony: A charge tem a ver com um fato jornalístico da atualidade, algum assunto que esteja em destaque no Brasil e no mundo. Ela tem data de validade porque, como a história e a vida são coisas dinâmicas, os assuntos vão sendo substituídos numa velocidade grande. A charge perde o impacto depois que o fato ou a pessoa deixa de ser notícia. Já o cartum é mais livre no sentido de tu teres uma ideia dentro de qualquer tema e fazer um desenho que pode ser entendido na maioria dos lugares do mundo e em qualquer época. O cartum é atemporal, ele retrata conceitos que não prescrevem e não perdem o impacto passe o tempo que passar. E pode ser algo que nem precisa provocar imediatamente o riso. Pode provocar estranheza, reflexão, dúvida… Pode ter uma pegada mais filosófica ou poética e tal.

Ronaldo Rodrigues: E a caricatura?

Ronaldo Rony: A caricatura é o retrato de uma pessoa com exagero nos traços, mas que não deixa de mostrar a semelhança entre o desenho e a pessoa desenhada.

Ronaldo Rodrigues: Tu fazes caricatura?

Ronaldo Rony: Essa é outra pergunta que sempre fazem. Mas eu não faço. Às vezes, eu consigo, mas não é algo que eu domine, portanto digo que não faço.

Ronaldo Rodrigues: Sei que tens vários personagens, mas eu gostaria de enforcar um em especial: o Capitão Açaí!

Ronaldo Rony: Pois é! O Capitão Açaí tem mais de 20 anos, surgiu quando eu morava ainda em Belém. Como o açaí é um produto bem característico de Belém, eu pensei num super-herói que obtivesse seus poderes tomando açaí. O açaí dá uma força imensa para o cara, mas vem acompanhado do sono, que é também imenso. E é com essa preguiça, mas com muito boa intenção, que o Capitão Açaí tenta resolver os problemas de quem precisa dele.

Ronaldo Rodrigues: E onde esse personagem aparece?

Ronaldo Rony: Ele foi publicado em tiras diárias em 1996 num jornal de Belém que já nem existe mais, A Província do Pará. Falar na Província é bom porque foi lá que publiquei meu primeiro desenho de humor, em 1986, quando eu tinha 20 anos. Esse jornal, através da página Xibé, deu espaço para cartunistas que começavam naquela época e hoje estão aí, como eu, Paulo Emmanuel, Junior Lopes, Atorres. Hoje, fazemos parte de um time muito bom de cartunistas do Pará, que conta com Biratan Porto, J. Bosco, Ropi, Luiz Pinto, Walter Pinto. Voltando ao Capitão Açaí, ele é o personagem que mais aparece. Olha ele aqui!

Ronaldo Rodrigues: Nós temos a notícia de que tiveste, muito recentemente, trabalhos selecionados em salões de humor! Fala aí pra gente sobre isso!

Ronaldo Rony: Pois é! Foi pra falar disso que vim aqui! Primeiro é bom falar o que é um salão de humor, que muita gente pensa que é festival de stand-up! Salão de humor é uma espécie de concurso de desenhos de humor. É lançada uma convocatória, o cartunista se inscreve, manda os trabalhos via Correio e, agora, pela internet. Aí tem a seleção, depois a exposição dos trabalhos, a premiação em dinheiro. Muitos salões publicam catálogos bem produzidos, com todos os trabalhos selecionados. O barato disso, pra mim, quando sou selecionado, é ver meu trabalho escolhido entre mais de 1.500, às vezes bem mais, de todas as partes do mundo.

Ronaldo Rodrigues: Diz aí alguns salões que já contaram com desenhos teus!

Ronaldo Rony: Fui premiado em dois: Salão Ri… Guamá, promovido pela Universidade Federal do Pará, em 1992. Em 2004, fui primeiro lugar no Salão de Humor de Bragança, Pará, com este desenho.

Ronaldo Rodrigues: Legal! E as outras participações?

Ronaldo Rony: Lá vai minha pequena galeria de títulos: Piracicaba, Campina Grande, Ceará, Pernambuco, Bahia, Volta Redonda. Fora do Brasil: Uruguai e Sérvia. Abaixo alguns catálogos de salões:

Ronaldo Rodrigues: E as mais recentes participações? Que é sobre isso que vieste falar aqui.

Ronaldo Rony: O 9º Salão Medplan de Humor, no Piauí, de 2017. E o mais recente: o 10º Festival de Humor da Amazônia, que vai rolar em Belém agora, de 1º a 10 de junho. O tema é Ecologia no Traço, o desenho que classifiquei foi este e ao lado tem a lista de selecionados:

Ronaldo Rony: O fato de enviar trabalhos para esses salões e ser classificado é uma maneira que tenho de me manter ativo dentro da cena, além de incentivar cartunistas de Macapá, que ainda estão engatinhando nessa área, a também enviarem seus trabalhos. Quando um desenho consegue varar, como se diz aqui, é motivo de comemoração e eu faço a maior onda! Por isso te convidei pra me entrevistar e falar disso. Abaixo, alguns desenhos selecionados em salões:

Ronaldo Rodrigues: Muito bom falar contigo! E esta é mesmo, como disseste nos bastidores, tua última entrevista, a definitiva?

Ronaldo Rony: Sim! É a definitiva! Ou quase…

A morte, a morte e a morte de Arthur Leandro – Crônica de Ronaldo Rodrigues

Crônica de Ronaldo Rodrigues

Não se trata de exagero no título desta crônica. Para tanta vida como ele tinha e esbanjava, só mesmo três mortes para encerrá-la (caso seja isso. Ainda acho que se trata de mais uma de suas obras).

Em 2001 e 2002, Arthur Leandro publicou o anúncio de sua morte no jornal de maior circulação de Belém. Isso muito antes do fake news ou do termo se tornar popular. Era mais uma gozação, uma piada, mostrando que sua verve não poupava nem a própria vida, muito menos a credibilidade do jornal e do tipo de jornalismo que o Arthur combatia. Melhor dizendo: não era uma piada. Era uma intervenção artística com todos os requintes de seu anarquismo cultural-guerrilheiro, feita para incomodar, sim, mas também para provocar a reflexão sobre a possibilidade de se usar todo e qualquer veículo para se fazer e discutir arte.

Desta vez, parece que sua morte é de verdade. Escrevo “parece” porque o Arthur Leandro é (não vou usar o termo foi) desses artistas que surpreendem a qualquer momento, em qualquer situação. Claro que, por sua rebeldia, Arthur Leandro jamais seria unanimidade entre os que conheciam o seu poder de invenção. Ele era o escracho diante de pessoas lineares; era o deboche para pessoas enquadradas; era um acinte aos medíocres. Mas, para quem o compreendeu em meio a esse turbilhão de irreverência, ele é uma mente criativa, de inquieta imaginação, de incansável disposição para a luta em todas as frentes em que esteve empenhado.

Tive o prazer e a honra de estar com o Arthur Leandro em intervenções artísticas que ele instigou e encontrou abrigo no grupo de malucos em que eu me inseria: o Urucum. Em 2001, numa tarde ensolarada de setembro e contrariando o desejo de quem queria se livrar das andorinhas que infestavam os fios elétricos da esquina Padre Júlio/Cândido Mendes, nós espalhamos mais de 500 penicos para recepcionar o batalhão de pássaros e decepcionar o bando de gente desprovida de sensibilidade. Depois, vieram várias intervenções.

Pois é. Terminado o tempo que estipulei para mim mesmo, achando que o Arthur ia aparecer para desfazer a brincadeira, já estou dando como certa sua morte. Já o vejo na barca de Caronte fazendo a festa até chegar ao paraíso ou ao inferno reservado para as mentes e os corações apaixonados pela vida. Chegou em algum lugar e esse lugar deve estar muito animado.

Este mundo tão carente de pessoas assim, fica ainda mais órfão, menos interessante. Mas, para quem conheceu o Arthur Leandro, fica a lição e a missão de jamais se conformar com o tédio, com a falta de opção e enfrentar a vida alternando o mais terrível palavrão com a doce generosidade de quem leva às últimas consequências o ato de viver.

Valeu, Arthur Leandro!