O poder do palavrão – Crônica de Ronaldo Rodrigues

Crônica de Ronaldo Rodrigues

Quem já deu uma topada daquelas, de arrancar a cabeça do dedão do pé, sabe do que vou falar. Se você não soltar um palavrão, também daqueles bem cabeludos (pra usar uma expressão do milênio passado), duvido que a dor passe logo. O palavrão tem esse poder curativo. Como num passe de mágica, você solta um CARAAAAAAAAAAALHO! e a dor não desaparece imediatamente, claro, mas vai dando um torpor, um anestesiamento e – abracadabra! – a dor sumiu, como diz o slogan de um certo remédio.

O que acho mais estranho nesse negócio de palavrão é denominarem de palavrão uma palavra com uma sílaba e duas letras: cu. Mesmo com muita gente devassando o cu com o acento agudo (o que deixa o pobre do cu assim: cú) a palavra não cresce um milímetro sequer, o que não justifica ser chamada de palavrão.

Com o advento do politicamente correto, que vai deixando tudo sem graça, fico a imaginar o banimento do palavrão, para salvar a honra das digníssimas famílias da nossa sociedade. Quando o seu dedão do pé encontrar uma pedra no caminho e a necessidade de um palavrão se fizer, o cidadão vai respirar fundo e deixar de gritar: PUTA QUE PARIU, CARALHOOOOOOO!, substituindo por um outro palavrão que, nesse caso, será apenas uma palavra grande, mais afeita aos novos tempos. Algo como: PINDAMONHANGAAAAABA! Ou AERODINÂMICA! Ou ainda: DESMAFAGAFIZADOR! Se a dor for algo insuportável, o único remédio será falar a maior palavra da Língua Portuguesa, um verdadeiro palavrão: INCONSTITUCIONALISSIMAMENTE!

Hoje se tem muito cuidado para não se falar palavrão na frente das crianças. Se bem que aqui em Macapá fala-se FODA-SE! em qualquer faixa etária. No meu tempo de criança, meu pai não poupava ninguém. Quem não quisesse ouvir que saísse de perto. E meu pai era um emérito falador de palavrão. Em cada frase, eram dois CARAAAAAALHO! a cada três POOOOOOORRA!

Já li em alguma postagem no Facebook que quem fala palavrão é mais feliz. Se assim for, já renovei o meu estoque de palavrão para sair por aí esbanjando felicidade. E para fechar esta crônica, que eu queria que fosse FODA!, mas acabou ficando ESCROTA!, um desabafo através de um palavrão que deve ocorrer a todos os que usam a web hoje em dia: Ô INTERNET FILHA DUMA PUUUUUTA! MEEEEERDAAAAAA!

Nem morto! – Crônica de Ronaldo Rodrigues

Crônica de Ronaldo Rodrigues

Fui ao médico e ele me disse uma coisa que me deixou muito chocado:

– Seu Ronaldo, sinto informar que o senhor não está mais entre nós.

– Hein? Como assim?

– Estou dizendo que o senhor está morto.

Me apalpei, me olhei, me examinei e nada indicava que eu estivesse morto:

– Doutor, o senhor disse: morto?

– Sim. Mortinho da silva, como se falava antigamente.

E o médico foi logo me apresentando um documento que acabara de assinar:

– Aqui está o seu atestado de óbito.

– Ei, o senhor está falando sério mesmo?

– Nunca falei tão sério!

Saí do consultório sem entender nada, mas eu não sou um exemplo de alguém que entende muito bem as coisas que acontecem. Devia ser a minha já conhecida distração. Me distraí e nem percebi que estava morto.

Já passei antes pela sensação de estar morto, mas aquela confirmação me deixou perplexo. E agora? O que fazer da minha morte, eu que nunca soube o que fazer da minha vida? Devia ser por esse motivo, o fato de eu estar morto, que as pessoas passavam por mim sem demonstrar qualquer sinal de me avistar. Atribuí ao costume atual de ninguém mais prestar atenção em ninguém, todos abduzidos pelos aplicativos dos celulares.

Levei o atestado de óbito ao INSS para saber quais seriam os próximos procedimentos, mas ninguém percebeu a minha presença. Achei normal, já que nessas repartições públicas dificilmente os funcionários prestam atenção em que está vivo, imagine em quem já morreu. Eu, que precisava provar que estava morto, tinha uma senhora ao lado que, para receber certo benefício, precisava dar conta de uma papelada imensa para provar que estava viva.

Bom, eu precisava me tocar (até me toquei, mas não senti o meu toque) e assumir a minha morte. Assumi tão poucas coisas na vida que assumir a própria morte seria algo bem estranho. Aí a curiosidade me tomou (sim, as pessoas continuam curiosas após a morte) e olhei mais atentamente o atestado de óbito para saber a causa da minha morte. Descobri que não teve um motivo só, mas vários motivos. Morri de tédio, de solidão, de euforia, de farra, de melancolia, de bebida, de cigarro, de respirar, de ficar doente, de ficar são, de sair pela madrugada, de ficar horas em frente à TV, de submissão, de rebeldia, de ouvir música, de falar palavrão, de gritar, de pedir silêncio, de comer, de jejuar, de fazer sexo, de fazer abstinência… Enfim, morri de uma coisa chamada vida. Lembrei imediatamente do meu amigo Gino Flex, que teve a mesma causa mortis: excesso de vida. Portanto, obrigado à vida que me deu tantos motivos para vivê-la, às vezes muito afoito, às vezes com uma preguiça terrível; aqui tomando as rédeas da situação, ali deixando as coisas rolarem.

Agora vou me encontrar com o Gino, fazer um brinde e continuar pela morte com a mesma disposição com que enfrentamos a vida.

Adeus! E saúde!

RIONDA (conto de Ronaldo Rodrigues)

Linda Imagem Mulher por sol

Rionda era terrível. Sempre mastigava os chicletes antes que eu terminasse de comer doce de banana.

Rionda era curvilínea, retilínea, mas deixava ver em sua chapa de raio-x um certo acréscimo de carnes em seus glúteos, futuramente.

Rionda era a única que sabia o enigma. Saqueava o cemitério em busca de esmeraldas e só ela tinha o poder de perscrutar em cada olho caído nas covas uma faísca de vida:

– Venham para fora, irmãos!

Rionda não queria que o mundo acabasse na próxima esquina. Ela esperava que a vida fosse forte e tênue e guerreira e diáfana. E que coubesse num suspiro.

Ronaldo Rodrigues

O menino que roubava livros – Crônica de Ronaldo Rodrigues

Crônica de Ronaldo Rodrigues

Que roubava, não! O menino que rouba livros! E esse menino sou eu! Tá, tudo bem, já estou mais pra velhinho do que menino, mas fiz analogia com o título do filme “A menina que roubava livros” para nomear esta crônica. E por falar em crônica, vamos a ela.

Sou um contumaz ladrão de livros e não me considero criminoso. Pelo contrário, sou um benfeitor da humanidade. Não coloco na condição de crime essa modalidade de roubo. E também não se trata de vício e, sim, de uma virtude. Passemos ao meu ponto de vista sobre o assunto e ao discurso de defesa, caso seja flagrado em algum momento perpetrando o meu “crime”.

Um livro não manuseado perde totalmente sua função. Por isso, não hesito em levar pra casa os que encontro largados, em total abandono e esquecimento. Não me sinto bem ao ver um livro na estante de alguém que o mantém ali apenas para ostentar uma possível erudição ou, pior ainda, para dar ao livro a simples função de ornamento, um objeto de decoração. Aí eu liberto o livro daquela situação vexatória, contrária à sua natureza, que é abrir horizontes, ser o portal de viagens interplanetárias, cruzar oceanos, desbravar novas terras. Ou simplesmente vasculhar o universo que há dentro de cada pessoa.

Na verdade, o Código Penal pode classificar como roubo, mas eu chamo de adoção. Pego o livro que estava destinado a alimentar traças e acumular poeira e o levo pra casa, onde receberá a devida atenção. Eu limpo o livro com todo o carinho e faço uma restauração básica, tipo colar páginas soltas e reforçar a lombada, caso seja necessário. E, depois de lê-lo, guardo-o em um lugar especial, todo pensado para abrigar livros, onde será respeitado e colocado à disposição de quem queira se aventurar por essa viagem fantástica que é a leitura de um livro.

Portanto, meus caros amigos, cuidem bem dos seus livros ou, caso eu tenha uma oportunidade, vou incorporá-los ao meu humilde patrimônio bibliotecário. Mas não tenham medo de me emprestar algum livro, porque faço questão de devolvê-los. E minha pequena biblioteca não é feita somente de livros roubados. Também os compro nas livrarias e sebos e faço girar o mercado editorial. É, pessoal! Esse negócio de roubar livros tem seus critérios muito bem definidos.

“Tropeçavas nos astros desastrada / Quase não tínhamos livros em casa / E a cidade não tinha livraria / Mas os livros que em nossa vida entraram / São como a radiação de um corpo negro / Apontando pra expansão do universo / Porque a frase, o conceito, o enredo, o verso / E, sem dúvida, sobretudo o verso / É o que pode lançar mundos no mundo” (trecho de Livros, música de Caetano Veloso)

Aprendendo com a dor

 

Crônica de Ronaldo Rodrigues

Certa vez, faz tempo isso, um professor ex-amigo meu, portador de muito conhecimento, orgulhoso e vaidoso de sua vasta cultura, poeta e compositor de renome, cujo nome cintila na Calçada da Fama dos artistas de Macapá, me saiu com esta pérola de ignorância declarada e descarada:

– Eu não me preocupo com esse papo de escassez de água! Vivo na Amazônia, lugar onde tem mais água potável do mundo! Nunca vai faltar água! Isso me dá o direito de esbanjar! Eu tomo banho com o chuveiro ligado o tempo todo! Sem essa de desligar pra eu me ensaboar! Não quero nem saber disso! Faço a barba com a torneira ligada o tempo todo! Quem tem que se preocupar com falta de água é quem vive onde não tem água! Foda-se!

Foda-se digo eu! Que idiotice é essa que esse cara está falando? Se é para ser ignorante assim, pra que ele estudou tanto? Argumentei que esse papo de que a Amazônia é uma fonte inesgotável de água e verde era o que o ensino do tempo da Ditadura dizia, na tentativa de nos tornar orgulhosos do nosso país, enquanto o governo militar vendia a mesma Amazônia para projetos internacionais que em nada beneficiaram o povo brasileiro. Não há nada grande demais para a ganância humana e as águas da Amazônia podem, sim, acabar, se não utilizarmos com a devida consciência. E creio mesmo que um dia haverá a guerra da água, como hoje temos a guerra do petróleo, com os Estados Unidos (sempre eles!) promovendo invasões a países com o pretexto de levar democracia ao resto do mundo quando estão mesmo querendo se apossar do petróleo.

Sem alarmismo, mas já há uma indicação de que as potências mundiais podem entrar aqui e roubar a nossa água. Tempos atrás, elas diziam que o Brasil não tem estrutura, condições técnicas e conhecimento para gerenciar seus recursos hídricos e florestais. Eles, que deixaram esgotar seus recursos naturais, acham que sabem e podem tomar conta dos nossos!

Vejo o Sudeste imerso nessa questão de falta de água e a população arrumando meios de economizar e reprocessar a água. Acho que será sempre assim. Vamos ter que aprender com a dor. Pensar em deixar de desperdiçar só quando a escassez estiver bem na nossa porta. Vejo todos os dias pessoas derramando água. Nas lavagens de carro, por exemplo, as torneiras ficam ligadas o dia todo. Tenho vontade de dizer aos lavadores de carro que essa água vai fazer falta para nós, ainda que moremos diante do maior rio do mundo. Só não digo nada porque, como já escrevi antes aqui neste espaço, o cara pode sacar um revólver e, antes de acabar com a água, acabar comigo.

A melhor maneira de não sofrer com tudo isso é não ter consciência, como o meu ex-amigo citado no início. Mas já que eu tenho, e creio que algumas pessoas têm, vou desligando, aqui e ali, as torneiras ligadas sem necessidade. E as lâmpadas também. Ih! Lá vem outro papo de desperdício, mas esse fica para futuras crônicas.

Diante do maior do mundo – Crônica com jeito de poema de Ronaldo Rodrigues

Foto: Dyego Bucchiery

Crônica com jeito de poema de Ronaldo Rodrigues

Ficar de frente para o rio, simplesmente o maior do mundo, enquanto outro rio e outros rios se desenvolvem ao meu redor.

Nesse rio e nesses rios, tudo vai se diluindo, se recriando. Certas dúvidas surgem, outras certezas emergem, outras naufragam, conflagram, se confrontam, se confraternizam, se eternizam, se volatilizam.

Esse rio é minha rua, essa rua é meu rio, é meu quintal. Aquilo que é líquido, mas o único elemento que se manterá sólido quando tudo se esvair.

É nesse rio que coloco, como barquinhos de papel, minhas ideias para navegar, singrar outros mares e sangrar por outros becos, desaguar na foz daquilo que para mim ainda é nascente.

E me deixar isolado nas ilhas de mim, nos desertos de mim, nas teias do destino que me desatinam. O rio velho e o rio menino. Eu velho e eu menino.

Sou ciente e consciente da força desse rio. Sei que quando ele resolver invadir mesmo a cidade, as cidades e o mundo, não haverá muro de arrimo a conseguir detê-lo. Não haverá utopia, ideologia capaz de segurá-lo.

Não seremos outra coisa se não canoa, cada uma buscando seu refúgio. A poucos será dado o privilégio da calmaria, do sentir-se salvo e do recomeço.

Agradeço pelo grande e pelo pequeno que ocorrem em minha vida. O que percebo e o que não. O que me percebe e o que não. Aqueles que se foram, aqueles que virão.

Diante do maior do mundo eu me junto à grandeza de suas águas e me sinto grande também. E me sinto pequeno também. Obrigado, meu rio. Amém.

O DIA DA TRAVESSIA – Crônica de Ronaldo Rodrigues

Crônica de Ronaldo Rodrigues

O canal se estendia à minha frente. Toda manhã, ao abrir a janela, lá estava ele, num permanente desafio.

Do outro lado do canal ficava a fonte da juventude, bem ao lado do castelo da mulher com mais de 300 anos que, segundo diziam, todo dia bebia da fonte e assim mantinha seus traços de 16 anos. Muitos homens tentavam atravessar o canal para vê-la. A maioria retornava depois de poucas braçadas. A correnteza era muito violenta. Muitos morreram na travessia. Todos os homens da cidade tentavam. E estava chegando a minha vez.

Sempre que se entrava na adolescência era o momento de se tentar a travessia. Antes disso, a vida se resumia em treinar. Meu cachorro Madrugada me acompanhava nos treinamentos e quando me senti preparado para realizar o feito, Madrugada se mostrou muito interessado em ir comigo:

– Você não precisa ir. Deixe que eu trago um pouco da água da fonte da juventude pra você. E à mulher do castelo eu digo que você mandou saudações.

Madrugada não entrou em acordo e, no dia da travessia, lá estava ele ao meu lado, recebendo os cumprimentos e as recomendações de toda a população.

Mergulhamos no canal e percorremos uma grande distância até Madrugada se afastar. Ele tomou a dianteira e eu o perdi de vista. Eu já estava exausto quando cheguei ao outro lado. Andei pela praia, em direção à fonte da juventude e a encontrei seca. Fui ao castelo e percebi que ele era de areia e se desmanchava com o sopro da minha respiração.

Saí procurando Madrugada e a menina de 300 anos. Só os vi quando olhei para o outro lado do canal, de onde eu havia saído. Lá estavam os dois passeando pela tarde, acenando para mim. Ao retribuir o aceno foi que reparei em minhas mãos se tornando flácidas, a pele e a carne se desmanchando igual ao castelo de areia, igual ao sonho de encontrar a juventude, igual a este conto e a tantas coisas que chegam ao fim.

Nova Idade Média (crônica de Ronaldo Rodrigues)

 
Na canção Outros Românticos, de Caetano Veloso, há uma frase que sempre me chamou atenção: “outra Idade Média situada no futuro”. Isso me vem à cabeça quando leio/vejo/ouço notícias como a que tem Emerson como alvo. Esse jogador do glorioso Corinthians foi fotografado (flagrado, como dizem as revistas e blogs de fofoca) trocando um beijo com um amigo.
 
Esse fato deixou a torcida furiosa. Quando o mesmo jogador foi visto (flagrado) lendo um livro, a torcida chiou de novo. Para os torcedores mais fanáticos, ler um livro (ou ler qualquer coisa) é inadmissível para quem defende as cores do Timão, ou qualquer outro time.

Esses dois “flagras” ilustram bem a vigilância (e a cobrança) exercida sobre a vida das pessoas. Me lembram a Inquisição. Outros fatos se acumulam e confirmam a instalação de um Big Brother a esmiuçar, expor e interferir nas nossas vidas, como o fuçar dos Estados Unidos nas redes sociais, celulares e outros meios de comunicação. Uma manobra com a chancela do Obama, o mesmo que surgiu no cenário político mundial como um cavaleiro da esperança, de visão aberta, arejada, que iria sacudir a poeira do trono da Casa Branca. 

A Inquisição desta nova Idade Média situada no futuro (ou seja, aqui e agora) decreta que um homem não pode beijar outro homem (nem que os dois sejam pai e filho). Tudo bem que homens troquem xingamentos e socos, mas beijos ou qualquer outra demonstração de afeto, nem pensar. Eles serão banidos da sociedade, na melhor das hipóteses, ou queimados em praça pública.
 
A saudável filosofia do “cuide da sua vida que eu cuido da minha” deve cair em desuso. Todo mundo vai vigiar todo mundo, controlar as saídas e chegadas e fiscalizar quem frequenta a cama do vizinho. Afinal, quem padece de falta de assunto precisa desse tipo de remédio.

Quanto aos livros, é melhor destruí-los. Vai que uma criança desta nova Idade Média se interesse por eles e tenha sua cabeça entortada pela imaginação desvairada de autores devassos.
 

Ideias tacanhas, obscurantistas deveriam estar com data de validade vencida, neste início de terceiro milênio. Mas não é o que vemos no dia a dia. Todos os valores, ideologias e pensamentos tortos que um dia levaram a humanidade à guerra, estão presentes hoje, mais vivos do que nunca. Basta ligar a televisão, entrar na internet ou mesmo olhar para o lado. É intolerância, racismo, xenofobia, desrespeito à diferença, invasão de privacidade, todo tipo de preconceito. 
 
A Idade Média está instalada, senhores. Com aparelhos e equipamentos mais sofisticados e eficazes que a Idade Média propriamente dita. Os inquisidores estão à porta, espiando pelo olho mágico e pelas câmeras de vídeo ultramodernas, que podem captar imagens através das paredes e até monitorar os nossos sonhos.
 
Tudo isso me faz lembrar também o livro 1984, de George Orwell, e lamentar que a história contada nele corra o risco de não ser mera ficção.
 
Ronaldo Rodrigues

Viagem de volta – Conto de Ronaldo Rodrigues

Conto de Ronaldo Rodrigues
Deixei um livro em cima da mesa e fui dar uma volta. Claro que ninguém roubaria um livro ali, naquele ambiente. Só se aparecesse a menina que roubava livros. Qual a minha surpresa quando retornei, ao constatar que o livro não estava lá! Olhei em torno, exercitando meu olhar sherloqueano, mas ninguém em volta parecia interessado em livros. E ninguém parecia capaz de roubar o que quer que fosse. Resolvi dar mais uma volta pelo navio. Esqueci de dizer que estava a bordo de um navio? Perdão. Às vezes esqueço de citar partes importantes de meus relatos. Alguns escritores são assim e, como sou assim, me sinto também escritor.
 
Na volta ao ponto em que deixei o livro, eis que o encontro em cima da mesa, como se nunca tivesse se ausentado. Fiquei mais intrigado ainda. Abri o livro e encontrei um bilhete com a seguinte mensagem:

“Não leve a mal, mas gostaria de concluir a leitura do seu livro, que achei muito interessante e me deixou surpreso ao descobrir alguém com o hábito da leitura, coisa bastante improvável em pessoas que costumam viajar neste navio. Deixe o livro em cima da mesa e vá passear, contemplar a paisagem do rio e da mata. Prometo devolver a cada vez que eu o emprestar”.
Foi o que fiz durante toda a viagem, cheguei a conhecer todos os recantos do navio e estender meu olhar por toda a bela paisagem. Minha curiosidade não foi suficiente para deixar o livro na mesa, me afastar um pouco e voltar subitamente para ver quem estava dividindo comigo o prazer das aventuras contidas no livro. Deixei o mistério tomar conta. Me pareceu que eu estaria quebrando um pacto se voltasse para flagrar meu companheiro de leitura.
Navegamos por três dias e os meus passeios pelo navio foram aumentando à medida que nos aproximávamos do porto de chegada. Queria que o leitor misterioso tivesse tempo de concluir a leitura. No último dia de viagem, achei o livro na mesa e novo bilhete: “Obrigado pelos momentos deliciosos que seu livro me proporcionou. Sem dúvida, tornou a viagem mais interessante. Que tal discutirmos o enredo do livro? Meu endereço na cidade em que aportaremos dentro de alguns minutos é…”.
 
Depois que aportamos, dei umas voltas pela cidade, tentando não pensar em nada daquilo. Mas não suportei o mistério e fui ao endereço indicado no bilhete. Conheci, enfim, a pessoa que pegava o livro emprestado. Era uma leitora, uma belíssima leitora. Nos conhecemos, discutimos a história do livro e de muitos outros livros e autores e temas e… Claro que nos envolvemos. E o mistério persiste até hoje.

A última cruzada – Crônica de Ronaldo Rodrigues

Crônica de Ronaldo Rodrigues

Estou andando pelas ruas de Macapá quase em desespero. Na verdade, estou, sim, em desespero! Crise de abstinência, na certa! Revolta contra esse mundo que parece fechar suas portas pra mim! Bom, acho melhor explicar o que está ocorrendo na minha vida, se é que alguém se importa.

Eu tenho um vício muito forte: palavras cruzadas. Não tenho vergonha alguma de admitir isso e não é novidade pra ninguém. Não posso ficar muito tempo sem uma revistinha de palavras cruzadas que começo a me coçar, ficar vermelho, babar e desmaiar. É a dose de palavras cruzadas que falta na minha rotina. Ah, sim! Por falar em rotina, se eu relatar a minha, pode ser que meu querido leitor compreenda melhor. Não que seja uma coisa muito complicada, mas é inusitado, de qualquer forma, alguém que não consegue viver sem matar as questões das palavras cruzadas. Ou ser morto por elas.

As revistas de palavras cruzadas circulam regularmente pelas bancas de revistas. De tempos em tempos, eu passo na banca (dificilmente vario de banca; minha preferida é aquela ao lado da Secretaria de Educação). Pois bem, já faz quase três meses que faço essa peregrinação até essa banca e nada de as revistas chegarem. As que encontro por lá são aquelas fáceis demais e o meu nível preferido é o difícil. Chegavam três revistas inéditas desse nível e agora não acho uma sequer. Até existem algumas por lá, mas são republicações. Cheguei a perguntar ao dono da banca o que estava ocorrendo, por que estavam demorando tanto.

O dono da banca, depois de tirar minhas mãos do seu pescoço, me deu um copo d’água e pediu pra que eu me acalmasse. Segundo ele, os fornecedores alegam que a editora não está mandando mais revistas de palavras cruzadas. Eu, que já estava calmo, voltei a ter um surto psicótico e gritei a minha indignação:
– Será que pararam de produzir? Resolveram acabar com uma das poucas distrações que tenho na vida? Um dos poucos jogos (talvez o único) em que consigo me sair bem?

O dono da banca me deu mais um calmante, acendeu um incenso e cantou um mantra, até eu consegui relaxar. Ele explicou que existe uma crise no mercado editorial, concorrência com a internet, fim de publicações impressas, preferência do público por edições digitais, mudança nos hábitos dos leitores e… Buááááá!

Que foi isso? Foi a vez do dono da banca começar a chorar, diante do quadro que ele, talvez só naquele momento, começou a se dar conta. Eu o acalmei e disse algo como “isso passa e tal, enfim”, essas coisas. Mas fiquei muito preocupado. Com o impacto maior ainda que a tal da tecnologia trará ao negócio de bancas de revistas e preocupado comigo, remoendo o vazio que as palavras cruzadas estão deixando em minha vida. Fiquei pensando num complô do mundo moderno contra a minha pessoa. Como daquela vez que anunciaram o fim da fabricação de plástico-bolha. Estourar plástico-bolha é outro passatempo do qual não abro mão.

Amanhã vou sair novamente atrás das palavras cruzadas, com todo o entusiasmo de que sou capaz, como um esfomeado em busca de um prato de comida. E se você, meu caro leitor, vir uma pessoa descabelada, andando por aí a esmo, com o olhar desamparado, não tenha dúvida: as palavras cruzadas (e em breve, eu) não existem mais.

A pretexto de bolos de chocolate – Conto de Ronaldo Rodrigues

Conto de Ronaldo Rodrigues

Esta história aconteceu num tempo e lugar muito remotos. Fui acusado de ter comido um bolo de chocolate. Nem tive tempo de alegar o fato de que não gostava de bolo, muito menos de bolo de chocolate. Era tudo meio confuso naquela época e nada do que pudéssemos dizer, por mais plausível que fosse, alteraria qualquer decisão do Governo Central. Tal governo havia inaugurado uma era de insegurança e delações premiadas, suspeitas e acusações que não precisavam ser fundamentadas para que fossem acatadas e executadas. Decretos aleatórios ressuscitaram leis que há muito tempo haviam sido revogadas. A criação da Comissão da Doutrina da Fé no Bolo de Chocolate foi mais um abuso daquele governo ignorante e incompetente. O bolo de chocolate tinha sido elevado ao status de iguaria divina, destinada somente aos altos escalões do Governo Central e os cidadãos comuns jamais poderiam comer.

A Comissão da Doutrina da Fé no Bolo de Chocolate nem quis me ouvir, não deu a menor bola pra minha declaração de inocência. Me levou preso sem a menor cerimônia, sem que eu tivesse chance de contratar o advogado de porta de cadeia que mendigava bem em frente à prisão de segurança máxima onde eram trancafiados os pecadores comedores de bolos de chocolate.

Fui levado a uma cela onde só cabiam eu e minha autoestima. Como minha autoestima não ocupava muito espaço, fiquei relativamente confortável e nem tive motivo pra reclamar, a não ser do rato que toda noite vinha me lembrar que aquilo era uma cela imunda. Fiquei ali por alguns meses sem saber o que seria resolvido a meu respeito, ingerindo a ração de carne podre que nutria minha covardia, meu medo e meu desalento, cada dia mais vorazes.

Certa vez, olhei pela janela a noite que se estendia lá fora. Estava iluminada por um clarão que não vinha da lua. Era até perigoso ficar olhando a lua, pois os admiradores do luar foram postos na marginalidade pelo governo. A luz também não vinha dos postes que ladeavam os caminhos que levavam à prisão. Estiquei bem o pescoço, pude olhar mais além e o que vi me deixou estarrecido. Era uma cruz de madeira pegando fogo. Ao redor, vários cavaleiros vestidos de uniformes e capuzes brancos e empunhando rifles. Só poderia ser a Ku Klux Klan, mas, apesar da KKK se encaixar perfeitamente naqueles tempos sombrios, ela só seria criada muito tempo depois.

Me recolhi ao cantinho da cela, onde o rato tinha acabado de urinar, e fiquei tremendo de medo de tudo aquilo, tentando dormir e acordar livre daquele pesadelo. De repente, um grupo de soldados entrou na minha cela, tomando Coca-Cola e disputando quem arrotava mais alto. Foi aí que o comandante olhou pra mim e berrou:

– Chegou a sua vez!

Pronto. Estava tudo acabado pra mim. Me levantei resignado e também louco pra que aquilo tudo terminasse. Estendi minhas mãos pra que os soldados me conduzissem até o local da execução. Mas o que ocorreu foi que o comandante me entregou uma garrafa de Coca-Cola e berrou novamente:

– Chegou a sua vez!

Aí compreendi. Tinha chegado a minha vez de tomar a Coca-Cola e participar do concurso de arroto. Então o comandante arrotou sua sentença:

– Se você conseguir arrotar mais alto do que nós, ganhará sua carta de alforria, sua liberdade, o perdão do Governo Central!

Claro que não acreditei que estavam me concedendo uma chance de escapar daquela situação, mas não pensei duas vezes (mesmo porque não era de pensar muito): virei a garrafa de Coca-Cola todinha na minha garganta sedenta e me preparei pra caprichar no arroto.

E foi mesmo o maior arroto que aquela região já havia escutado. Os soldados, todos arrotões de primeira grandeza, ficaram admirados com minha capacidade. Um especialista afirmou categoricamente que eu atingira uma nota ainda não registrada em toda a história da música, fato que só será superado num futuro distante, quando aparecerá um cara chamado Freddie Mercury.

Aí a minha vida deu uma reviravolta. Saí triunfalmente da prisão e me tornei um virtuose do arroto. Muita gente vinha tomar lições de arroto comigo e, dependendo da dedicação, em pouco tempo muitos alunos diplomados pela minha Universidade Musical do Arroto passaram a ocupar os mais cobiçados lugares nas maiores orquestras de arroto conhecidas na época.

Quando o Governo Central foi derrubado e o bolo de chocolate finalmente liberado pra toda a população, eu o introduzi nas lições de arroto. A combinação bolo de chocolate e Coca-Cola fez tanto sucesso que até eu passei a simpatizar com bolos de chocolate.

Assim, terminei meus dias, refestelado na glória, confortavelmente instalado em meu castelo, tendo aos meus pés os serviços de um batalhão de criados e a atenção de um número infindável de admiradores. Quanto ao arroto, passei a direção da minha universidade aos alunos mais destacados. Agora estou aposentado, só arrotando mesmo por esporte e pra não perder a embocadura.

Uma crônica para escapar – Crônica de Ronaldo Rodrigues

Crônica de Ronaldo Rodrigues

Mas escapar de quê? Desse tempo cheio de más notícias? Talvez. Escrever serve para denunciar, tocar o dedo na ferida, ou tocar o sublime. Mas serve também para que tentemos a evasão, que não chamo de fuga e, sim, de trégua.

Escrever sobre algo que não parece importante no primeiro momento também é legal. Como observar um detalhe, uma coisa que talvez já nos tenha chamado a atenção, mas que deixamos pra lá, parecia bobagem. Ou havia outra coisa a ser feita. Ou, simplesmente, nada havia a fazer, inclusive escrever. Em todo caso, escrevi algo que você lerá (ou não, se não quiser) adiante.

A maneira de um guitarrista pegar uma guitarra é diferente da maneira de uma pessoa não guitarrista pegar uma guitarra. Isso chega a ser um pensamento original? Pensei nisso quando meu amigo guitarrista pediu que eu pegasse a guitarra que estava ao meu lado. Pensei nisso porque penso sempre e penso em tudo, pelo menos em algo que possa render uma crônica, um conto, um escrito qualquer, uma postagem para largar na seara interminável da internet.

Meu amigo estava com vontade de tocar, como estou de escrever agora, e como a guitarra estava fora de seu alcance, encostada na parede em que eu também me encostava, seria bem mais fácil que eu pegasse a guitarra para passar a ele. Aí eu entendi (ou percebi com mais atenção) a diferença.

Falei disso ao meu amigo e ele disse que é assim mesmo, do mesmo jeito que ele e eu pegamos um lápis. Além de escrever, também desenho, e ele disse que a maneira de um desenhista pegar um lápis é diferente da maneira de alguém que não desenha pegar um lápis, mesmo que seja somente para transportá-lo de um lugar a outro.

Parece que alguém que não usa um instrumento, quando a circunstância o leva a pegar esse instrumento, pega com somente cuidado (exceto os que pegam qualquer coisa de qualquer jeito), enquanto que a pessoa que usa aquele instrumento pega com um cuidado mais íntimo, com mais carinho, mais delicadamente, mesmo que seja um machado ou um martelo de malhar ferro.

Gostaria muito de sair desse papo com um ensinamento e isso ocorreu. Lembrei de minha mãe, que tinha cuidado e carinho extremos ao guardar seus instrumentos (tesoura, agulha, linha, tecido) depois de findo o trabalho. Essa maneira de minha mãe agir me ensinou a ter cuidado e respeito com meus instrumentos (papel, caneta, lápis, borracha) e achar isso muito importante.

Meu amigo tocou, eu escrevi e satisfiz minha vontade de escrever e de passar alguma coisa legal através de meus instrumentos, que agora estão guardados em seus devidos lugares. Como fazia minha mãe.

Valeu, mãe. De novo.