Em Macapá é assim – Crônica de Ronaldo Rodrigues

Crônica de Ronaldo Rodrigues

Prestando atenção no modo de ser e falar desse povo, do qual orgulhosamente faço parte há 21 anos, saiu este texto. Ele é minha homenagem aos 261 anos de Macapá.

Sobre uma mulher bonita, diz-se: – Presta muito!

Sobre quem está doente ou sem dinheiro: – Esse tá blefado!

Sobre uma festa: – É um piseiro!

Sobre um lugar muito cheio de gente: – Tá teitei!

Sobre alguém afobado: – Esse tá afudegado!

Sobre alguém que vai transar: – Esse vai furar couro!

Sobre algo feito rapidamente: – É um-dois!

Quem vai passar o fim de semana no sítio: – Vou para o terreno.

Quando um papagaio corta outro, a garotada grita: – Au vaite-se! (com as variações Au vai-se! e Ovaite-se!).

Quando a coisa comentada não merece muita atenção: – À toa…

Quando alguém é muito sorridente, alto astral, alegre: – Hummm… Só ele quer ser feliz…

Se alguém marca um compromisso para, digamos, meio-dia: – Vamos nos encontrar de meio-dia.

E a campeã das campeãs das expressões: quando algo ou alguém escandaliza ou surpreende ou causa muita admiração, fala-se o indefectível: – Fooooooda-se! E quando a pessoa quer amenizar a expressão, vira: – Fôôôôôôlego!

*** *** *** *** ***

Claro que tem muito mais e vou contar com vocês para completar esta crônica. Quem conhecer outras expressões acrescente aí nos comentários. Tenho que sair agora porque deu uma vontade de… – Tu saaaabes, Patinhas…

À venda – Crônica de Ronaldo Rodrigues

Crônica de Ronaldo Rodrigues

O Brasil é tristemente notabilizado pela corrupção. E eu, brasileiro confesso, não me confesso corrupto. Mas estou reivindicando meu direito à corrupção. O lado ativo da corrupção, quero dizer. Aquele que se dá bem: não trabalha, enriquece e se aposenta em pouco tempo e com uma aposentadoria porruda. Talvez eu esteja prestando um desserviço à minha consciência e a tantos irmãos brasileiros, que se mantêm honestos toda a vida, mesmo em meio a tanta roubalheira, falcatrua, mamata, negociata.

Claro que isso que estou escrevendo é fruto de desesperança e serve pra exorcizar esse sentimento de impotência e revolta diante dos fatos que se descortinam nos meios de comunicação envolvendo os nossos parlamentares, governantes, “autoridades”.

Por que estou sempre entre as vítimas da corrupção? Se desviam dinheiro da saúde, sou eu que sofro, que tenho que ir marcar consulta de madrugada, pra ser atendido daqui a três meses, que não consigo leito nos hospitais, que tenho que dormir jogado no corredor, que sofro com a falta de medicamento. Se a escola não oferece condições necessárias para o aprendizado, porque o desvio de verba deixa toda a educação à míngua, adivinhe quem será afetado: os meus filhos. Se um grupo político rouba a grana do asfalto, quem cai no buraco da rua? Euzinho aqui. Por isso, resolvi que, se alguém tem que ser lesado nessa história, não serei eu. Não mais.

Eu quero ser corrupto, mesmo que me sinta incompetente pra tal função. E não é brincadeira. Já tentei ser corrupto e vejam só o que aconteceu.

Certo dia, me coloquei na esquina de casa segurando um cartaz. Era um pedaço de papelão com uns garranchos feitos com caneta piloto: “Estou à venda. Aproveitem. Preço de ocasião. Quem dá mais?”.

Devo ter cara de honesto mesmo, pois passei o dia inteiro na esquina segurando esse cartaz e ninguém se interessou. Nem uma tentativa sequer de suborno, nem um convite pra participar de uma maracutaia qualquer. Nem pra ser laranja, o laranja mais otário, aquele que só está no lance pra levar toda a culpa se tudo der errado. Nem pra isso me convidaram.

Resolvi fazer um curso intensivo, uma graduação na área. Catei as minhas últimas merrecas e parti pro maior centro de corrupção do Brasil, talvez do mundo, já que Sodoma e Gomorra foram riscadas do mapa há muito tempo pela ira divina. Cheguei a Brasília, me deparei com aquele antro do crime institucionalizado e respirei bem fundo, pra ver se me entranhava daquele ar viciado de corrupção.

Os corruptos profissionais me ignoraram completamente. A maioria é muito ignorante mesmo e o que resta aos ignorantes é ignorar. Só não ignoram a arte de enriquecer ilicitamente. Além do mais, não fui num período eleitoral, não estavam em campanha, logo não precisavam do meu voto. O único político que notou minha presença me deu um forte abraço e disparou um sorriso onde brilhavam seus caninos de vampiro muito bem cuidados. Estranhei, claro, mas o fato se esclareceu logo. O sujeito me deu aquele tradicional tapinha nas costas e se perdeu no meio da quadrilha. Fui procurar minha carteira, com meus últimos tostões e… nem sinal! O cara tinha levado tudo!

Eu, ovelha pirenta andando entre os lobos granados, empanturrados do meu dinheiro e dos seus, caríssimos leitores, voltei a pensar numa coisa bem irônica que de vez em quando me vem à cabeça: as pessoas morrem de medo de ser assaltadas por quem anda vestido de camiseta, bermuda e sandália e são assaltadas todo dia por quem usa paletó, gravata e os perfumes mais caros, pra cobrir o cheiro da podridão de caráter.

Voltei pra minha cidade, antes de ser totalmente tosquiado, e sigo minha vida de cidadão honesto, já que não sei ser de outra forma. E, para que esta crônica não termine em baixo astral, acredito que esses caras vão prestar conta com suas consciências, se é que eles têm isso e se é que vai chegar algum dia o momento da prestação de contas. O que me resta é seguir o conselho do meu pai, outro honesto incorrigível, esse bem das antigas mesmo, um incorruptível raiz. Ele sempre dizia que trabalho e honestidade são valores que jamais devem ser esquecidos e que, ainda que sejam motivos de chacota, um dia farão toda a diferença.

Verônica, a submersa (conto porreta de Ronaldo Rodrigues)

 
Quando Verônica chegou em casa eu era uma criança a mais numa família de noventa e oito irmãos. Naquela cidade eram comuns famílias numerosas, que envelheciam muito cedo.
 
Verônica, quieta, tranquila, limitava-se a permanecer no fundo do tanque que lhe fora destinado. Comia pouco, apenas algumas algas que brotavam nas paredes do tanque. Parecia resignada, mas havia algo de resoluto em seus movimentos. Uma silenciosa determinação. Uma calma revolucionária, que tanto afligia quanto encantava. Sua diáfana presença a tornava forte, intacta.
 
Verônica gostava da minha companhia. Nos entendemos bem desde o primeiro olhar. E sem trocar palavras. A cumplicidade de nosso silêncio nos bastava. E nos fortalecia.
O silêncio selou um pacto entre nós. Eu arquitetei um plano para tirá-la daquela casa onde aprisionavam lindas mulheres em tanques frios e não davam a mínima atenção. Deixavam lá, no fundo do quintal, como prova de algo que eu não conseguia compreender.
 
Verônica era altiva e simulava distância de sua condição de prisioneira. Quando eu entrava para dormir, ficava imaginando Verônica entre as pedras do tanque. Linda. Enigmática. Verônica.
 
Finalmente, chegou o dia de realizar o plano. Acordei bem cedo, antes de todos. A casa era enorme e foi trabalhoso atravessá-la no escuro, desviando de tantas redes.
 
Eu estava fugindo de casa levando Verônica num aquário gigantesco, roubado no dia anterior. O aquário, preso a uma plataforma com rodinhas, era frágil, mas daria para chegar até o rio.
 
Rapidamente, Verônica foi remanejada do tanque para o aquário. Tudo aconteceu conforme o plano e chegamos ao rio antes que dia clareasse. Eu estava esgotado pelo esforço de empurrar aquele aquário imenso pelas trilhas tortuosas da floresta. Verônica me animava com seu olhar completo, inquebrantável.
 
E foi com o olhar que Verônica me fez compreender que nossa história de amor era impossível. Eu não poderia acompanhá-la, por não poder viver dentro d’água. Ela não poderia ficar comigo, por não poder viver fora d’água. Era uma barreira definitiva. Eu precisava compreender.
 
E compreendi. Verônica foi lançada ao rio e mergulhou bem fundo até desaparecer. Antes, acenou com os olhos, que transbordavam lágrimas iguais às minhas. A lembrança de seus olhos ficou comigo pelo caminho de volta para casa e por toda a minha vida.
 
Outras mulheres foram morar no velho tanque, ao longo dos anos. Belas e silenciosas como Verônica, que também precisavam de liberdade. Mas eu já estava velho demais para pensar em libertá-las. Como disse no começo desta história, envelhecia-se muito cedo naquela cidade.
 
Ronaldo Rodrigues

Não joga pedra na Geni (conto de Ronaldo Rodrigues)

“De tudo que é nego torto / do mangue e do cais do porto / ela já foi namorada”. Eu era um perdido no caos do porto da vida e ela me amava assim mesmo. Desconsiderava minhas feridas e lambia meu corpo inteiro. Me colocava pra dormir em sua cama de papelão, sob a marquise de alguma loja. Ou no chão de um banheiro imundo. Ela acolhia a todos os famintos e dava de comer. Os que tinham frio, ela aquecia entre seus seios. Eu era mais um em sua teia, mas cada um sabia que era único. 

 
Ela nos fazia amados e preparados pra amar. Nos fazia crer que era possível continuar a sugar da vida tudo o que ela trazia de bom. O que era ruim já se conhecia tanto. Não devíamos desperdiçar energia em ofícios vãos, preocupações metafísicas, o segredo dos astros, a fofoca da esquina. Que vivêssemos! Vivêssemos! Vivêssemos! Só isso!
 
Ela não fraquejou nem quando a carruagem parou na entrada do beco. O Dono do Mundo desceu reclamando suas carícias. Ele desejava ter aquela mulher que tantos tinham. Ele começou oferecendo dinheiro, joias, roupas, viagens ao exterior. Ela disse não a um homem que não estava acostumado a ouvir essa palavra tão pequena na forma e tão grande em sua significação. Ele ofereceu toda a sua fortuna e ouviu outro não. 
 
Por fim, ofereceu apenas o seu amor. Quando ela duvidou disso, ele passou à chantagem. Colocou todos nós, os mendigos, como reféns. Ele só queria uma noite de amor, senão mandaria nos matar. Ela olhou o Dono do Mundo por longo tempo. A limpeza de suas ricas roupas a enojava. Seu perfume caro causava náuseas. Seu sorriso com todos os dentes lhe dava repugnância. Ela nos olhou e sorriu. Aceitaria aquela tortura por nós. E nós, covardes, não fizemos um gesto de impedimento. Também podíamos tão pouco. Ele apenas anteciparia a matança. 
 
“Ele fez tanta sujeira / lambuzou-se a noite inteira” e foi embora, nos deixando vivos. Ela nos abraçou e abençoou nosso cheiro azedo, nosso hálito de cachaça, tabaco e fome. Aquele homem que era dono de tudo não era nada perto de nós. E se a cidade toda quiser, um dia, apedrejá-la vai encontrá-la subindo aos seus céus, como uma santa, levando pelas mãos todos os perdidos.
 
Ronaldo Rodrigues
*Geni e o Zepelim – Letícia Sabatella (Chico Buarque):

Solidão (crônica de Ronaldo Rodrigues)


É possível que minha vida faça parte de um filme. Se assim for, gostaria que a câmera pegasse um ângulo favorável do meu rosto. Meu nariz é torto visto de frente. Bobagem.
 
Alguém abre a porta e mete a cara. Levanto a cabeça, por não ter muito o que fazer, a tempo de ver uma mulher fechando a porta, com um certo ar de decepção. Por falar em ar, nesta sala de leitura tem um cartaz pedindo silêncio, bem abaixo de uma central de ar condicionado que faz um barulho dos infernos. A muito custo é possível não deixar que o barulho atrapalhe a leitura.

O sol entra pela vidraça. Em breve será noite, a biblioteca irá fechar e eu terei que levar minha solidão para se distrair em outro lugar. Solidão é um bicho que fica fazendo cócegas aqui dentro.
 
Em meio a tantos livros, fico pensando como seria minha vida se eu fosse um autor consagrado. Um cara que escreveu só um livro e ficou rico e famoso com ele. E nunca mais teve que trabalhar. Outro tipo de solidão vem mostrando suas garras, junto aos últimos raios de sol desta tarde igual às outras tardes, antecedendo uma noite igual às outras noites.
 
Saio da biblioteca e vou procurar refúgio. Atravesso a praça, olhando o grande relógio da matriz. O tempo é parceiro inseparável da solidão. Mas o tempo não me diz nada, não marquei encontro com ninguém, não tenho plano algum. No momento, estou no centro da praça e as nuvens anunciam tempestade. Gostaria imensamente que um raio caísse em cima de mim e eu pudesse concluir este texto.
 
Ronaldo Rodrigues

Super-herói da Amazônia em mais uma missão

De mão em mão

Impressão xerográfica e venda de mão em mão. É assim que o Capitão Açaí chega aos seus inúmeros leitores. O Capitão Açaí é um personagem criado em Belém que vive em Macapá, junto com seu criador, o cartunista Ronaldo Rony, há 21 anos. Chegou a ser publicado em tiras diárias, em 1996, no jornal A Província do Pará e, hoje, aparece em revistas produzidas artesanalmente, com periodicidade aleatória. O personagem é um super-herói às avessas, nos moldes do Chapolin Colorado, que desempenha suas missões em meio a muitas trapalhadas.

Superforça

Os poderes do Capitão são alimentados por uma fórmula infalível: uma cuia de açaí grosso com farinha baguda. Essa mistura dá uma força fenomenal, mas, com a força, vem também a preguiça e o sono, que dão o tom engraçado ao personagem e marcam suas histórias.

Sucesso com a criançada

O Capitão Açaí não foi pensado inicialmente para o público infantil, mas faz um grande sucesso junto às crianças. Por isso, o autor Ronaldo Rony, sempre que possível, dá um enfoque educativo às intervenções do super-herói. O cartunista afirma, filosoficamente: “O Capitão Açaí é uma leitura para as crianças e também para os adultos que mantêm viva a criança interior”.

Pelo açaí raiz

A nova aventura traz o herói travando uma batalha a favor do açaí tradicional, cujo final você vai saber, claro, comprando a revista no lançamento ou em algum ponto da cidade em que o autor se encontre. Ajude este super-herói tucuju (e o seu criador) a sobreviver.

Serviço:

Lançamento da revista do Capitão Açaí: produção artesanal, impressão xerográfica, tamanho A4, 20 páginas, capa colorida, miolo P&B, preço: R$ 10,00 (se o choro for bom, o autor faz um desconto).
Dia: 12 de janeiro de 2019
Hora: 18h
Local: Biblioteca Pública Elcy Lacerda

Assessoria de imprensa do Capitão Açaí

2019 novinho em folha – Crônica de Ronaldo Rodrigues

Crônica de Ronaldo Rodrigues

Eita! Vejam só! Um ano inteiro pra gente usar! Um ano cheirando a leite, a talco de bebê, a flor que acabou de se abrir.

Um ano inteiro pra gente confirmar ou desmentir as previsões. Um ano pra gente se matar de fazer contas no fim de cada mês. Um ano pra gente comentar a morte de tal celebridade. Um ano pra gente dizer: – Poxa! Mas o tempo tá passando tão rápido!

Um ano pra gente fumar, beber ou fazer jejum de tudo isso. E tentar emagrecer, comer coisas saudáveis, caminhar e pedalar. Até se tocar de que a maior parte disso cai diante de uma suculenta picanha e uma cerveja espumando de deliciosa.

Um ano pra gente esquecer na gaveta, junto com os óculos que você jurou que nunca mais esqueceria. Um ano todo pra gente deixar esparramado no quintal ou estorvando na sala, junto com aquele sofá que seria jogado fora há dois anos e não foi e nunca será.

Um ano pra gente deixar a toalha molhada em cima da cama. Pra gente embalar o lixo de forma inadequada. Pra gente não trocar o rolo de papel higiênico quando termina. Pra gente espalhar a notícia de que tudo isso vai mudar.

Um ano pra gente atravessar fora da faixa de pedestre, caso seja pedestre. Ou dirigir bebendo, sem cinto de segurança e falando ao celular, caso seja motorista.

Um ano que não terá culpa nenhuma, mas que arcará com as responsabilidades que caberiam unicamente às pessoas, se algum projeto não alcançar o sucesso desejado.

Um ano pra gente soprar fumaça de cigarro, pra deixar chover em cima, pra sujar de lama. Afinal, de que vale um ano imaculado, sem a mancha das vidas que por ele passam? Como aqueles brinquedos que nunca saem da embalagem e por isso se conservam sempre novos e sempre inúteis e sempre sem graça.

Um ano pra lamentar, talvez, ou revirar na fogueira da solidão as cinzas da esperança.

Como sou otimista, digo que será um ano como todos os que já vivi, com a expectativa de que seja o último, mas com a vontade íntima de que não seja.

Vivamos o ano e que ele se vingue, se necessário, de nossa resolução de que alguma coisa, realmente, mude. Trata-se de um ano novinho em folha, um jardim em que iremos plantar e colher os frutos do que somos, pensamos, falamos, propomos.

Um ano inteirinho pra chegar ao final do caminho em que todos se renovam, repetindo as atitudes de perdão e condenação, de luz e de escuridão e de todos os contrastes que compõem a riqueza de todo ser humano.

Mais um ano se foi, mais um ano chegou e estamos aqui, com nossos mortos carinhosamente abrigados na bagagem da memória. Estamos inteiros, ainda que ensanguentados, mas não é a presença do sangue a indicação de que ainda há vida?

O ano fez o primeiro lance neste jogo de xadrez. Façamos o nosso pra que o jogo prossiga, lembrando que o xeque-mate ainda está muito, muito longe.

Orgasmos múltiplos em 2019 – Crônica de Ronaldo Rodrigues

Crônica de Ronaldo Rodrigues

Erupção vulcânica sempre me fez pensar que se trata de um orgasmo que o planeta atinge de vez em quando. Para quem conta com vários bilhões de anos, até que o planeta está se garantindo, já que existem pessoas que passam a vida inteira sem saber que porra é essa de orgasmo. Agora, por exemplo, a Terra está em êxtase, atingindo orgasmos múltiplos na Indonésia, com o Krakatoa, e na Itália, com o velho Etna.

Se o orgasmo do planeta não fodesse com a vida de tanta gente, seria um espetáculo a se louvar, mas as calamidades que vêm na rasteira do gozo mundial são devastadoras e fazer piada sobre isso é o fim da picada. E para terminar este parágrafo piadístico, digo que gozo pra valer é assim mesmo, que nem o da Terra: não fica pedra sobre pedra.

A questão é que, quando penso no nosso querido planeta (não tão querido assim, a julgar pelas atitudes da maioria das pessoas), vem toda aquela curiosidade que as aulas de Geografia e Ciências despertavam nos meus tempos de estudante imberbe, ainda virgem de sexo, drogas e rock ‘n‘ roll.

Buracos negros, galáxias, nebulosas, velocidade do som e da luz foram coisas que estudei em Geografia e Ciências e que ainda hoje me encantam. Uma vez, meu professor de Ciências discorreu longamente sobre o fato de a gente ter sombra, que parece banal, mas é algo que pertence à pessoa de forma definitiva. “Quando tudo te faltar”, dizia meu profe, “família, amigos, a pessoa amada, casa, emprego… sempre haverá a tua sombra. É algo que ninguém é capaz de te tirar”. Parece banal, já disse antes, mas o profe tinha razão. Ainda hoje prezo essa informação e acho o máximo alguém ter uma sombra só sua sem que outro alguém tenha a remota possibilidade de adquiri-la, mesmo num momento de falta de grana, o que prova que existem coisas que dinheiro não compra.

É verdade que cada vez menos pessoas se interessam por Geografia, Ciências ou qualquer coisa que tenha real importância. História, então, nem se fala, é uma matéria em extinção, o que aponta a extinção do próprio ser humano. Ainda mais com o próximo governo que, ao que tudo indica, vai implantar a ditadura da burrice ampla, geral e irrestrita e revogar a queda da Bastilha, o grito do Ipiranga e a abolição da escravatura. Mas isso são especulações que o mercado financeiro, que é quem manda na porra toda, não apoia de jeito nenhum, a não ser que role uns caraminguás por fora.

Agora, mudando de assunto e permanecendo no mesmo, lá vem 2019 com toda aquela carga de fim/começo de ciclo, aquela euforia de que vale a pena o recomeço. No fim do ano, só me vem à cabeça a imagem dos indefectíveis maratonistas quenianos mandando ver na corrida de São Silvestre. Já ficou até sem graça aquela piada de que os quenianos são top em corrida porque treinam com gazelas e guepardos. E aí vem novamente a importância da Geografia, já que precisamos nos certificar se a região da África em que o Quênia se situa seja também o habitat de gazelas e guepardos.

Esta crônica é para me despedir de 2018 e dar um salve a 2019. Que as crises anunciadas para o próximo ano também passem rápidas, velozes, que nem os quenianos. Que as tsunamis não nos derrubem. Que os orgasmos do planeta sejam destinados à realização dos nossos desejos. Que a Terra continue seu caminho rumo à luz que ainda resta na humanidade e que um dia inundará de felicidade todo o universo.

Felizes orgasmos em 2019! Use sem moderação!

Querido Papai Noel – Conto de Natal de Ronaldo Rodrigues

12399255_10201096324287837_1596386061_n

Conto de Natal de Ronaldo Rodrigues

– Deixa de coisa! Vamos embora! Papai Noel não existe!
– Claro que existe! E ele vai aparecer hoje pra deixar o presente que eu pedi!
– Espera sentado! Eu vou dormir. Papai Noel pode até existir, mas ele nunca lembra da gente!

O mano maior disse aquilo ao mano menor e entrou para dormir. O mano menor ficou ali, no quintal, sob o orvalho da madrugada, só pensando: “Poxa. Bem que o Papai Noel poderia aparecer aqui com o meu presente. Eu ia correndo acordar o mano maior pra dizer que ele tava enganado pensando que Papai Noel não existe”.

O mano menor desistiu de esperar Papai Noel e entrou no quarto onde dormia na cama de cima do beliche, enquanto o mano maior dormia na cama debaixo. Teve uma surpresa quando viu um embrulho em cima da cama. E acordou o mano maior:
– Olha só! Papai Noel teve aqui e deixou um presente pra mim!

O mano maior, bocejando e reclamando por ser acordado, falou bruscamente:
– Só se ele entrou quando eu tava dormindo, porque eu não vi nada!

O mano menor, abrindo o embrulho:
– É que Papai Noel é mágico! Ele entra nos lugares sem que ninguém veja.
– Tudo bem! Agora me deixa dormir.

O mano menor olhou para o mano maior com um olhar de compaixão:
– Poxa! Ele não deixou nada pra ti, né?
– É que eu já sou grande.

O mano menor falou com um certo ar de reprovação:
– É que tu não acredita nele…

O mano maior respondeu, já se virando na cama:
– E não acredito mesmo! Boa noite!
– Boa noite! E Feliz Natal!

O mano maior ficou ouvindo a oração que o mano menor fazia na cama de cima do beliche:
Obrigado pelo presente, Papai Noel! Esse carrinho é o brinquedo que eu queria mesmo. O senhor acertou! Só quem sabia que eu queria esse carrinho é esse meu mano maior aí embaixo. Ele não acredita no senhor, mas ele é bacana. Perdoa ele! Agora eu vou guardar o meu carrinho, dormir e amanhã bem cedo eu vou brincar com o presente que o senhor me deu. Boa noite, Papai Noel!

Desligou a luz sem ver o brilho dos olhos do mano maior, que comemorava o fato de continuar mantendo no mano menor aquela chama de fantasia que embala tantas crianças por tantos anos.

Viver e respirar – Crônica de Ronaldo Rodrigues

Crônica de Ronaldo Rodrigues

Foi o que pensou Neurinha, adentrando os 19 anos e achando que, naquela idade, seria bom começar a pensar nessas coisas. Seria bom pensar em alguma coisa. Qualquer coisa.

Mas o pensamento mais louco mesmo ela teve depois:

– Será que consigo morrer SEM parar de respirar?

Seu cachorro respondeu que não, ao que o ursinho de pelúcia disse que sim:

– Viver e respirar são coisas completamente díspares, conflitantes. Uma coisa não tem nada a ver com a outra. Tenho dito!

O cachorro de Neurinha ponderou que aquela maneira de falar do ursinho de pelúcia deixaria Neurinha ainda mais sem entender nada.

Neurinha, por sua vez, continuou sem nada entender. Paciência. Era sua natureza. Não entender qualquer coisa era a única coisa ao alcance de qualquer coisa que Neurinha pudesse entender. Entendeu? Nem eu!

Neurinha procurou os sábios conselhos de seu antílope de estimação, Clodoaldo, que entendia muito bem dessas questões, quando não estava ocupado em beber, fumar e levar mulheres para o apartamento.

Clodoaldo passou a contar a história de um tatu que fez greve de respiração em protesto contra a proliferação de armas nucleares e morreu em poucos minutos, ainda a tempo de ordenar a seus seguidores que invadissem a Casa Branca e incendiassem a provisão de amendoim.

Claro que Neurinha não entendeu e parou de se questionar. Resolveu passar à ação e cometer o ato de parar de respirar.

Segundo o método dos ninjas, Neurinha girou o nariz como se fosse uma torneira e parou de respirar.

Você, caríssimo leitor, já sacou que Neurinha era bem tontinha. Pois é. Até hoje ela não sabe se morreu.

Cordilheira – Crônica de Ronaldo Rodrigues

Crônica de Ronaldo Rodrigues

De todas as palavras, esta era a mais exata, definitiva, avassaladora do meu pobre vocabulário: cordilheira. Sempre que a usava, mesmo antes de saber seu significado, sentia uma força de montanha crescendo, após um repouso de três milênios, do fundo do peito e ocupando meu pequeno mundo, que nesses momentos ficava imenso.

Olhava as pessoas e elas, aos meus olhos, eram grupos de montanhas. Os edifícios, no ângulo do meu olhar, se transformavam, também, em cadeias de montanhas. Observando o frêmito do tráfego causado pelos automóveis, estes eram montanhas, mas se moviam tão rápido que não havia tempo hábil para que eu os retivesse na memória, que já dava sinais de falha desde o último outono.

Quando estive diante do pelotão de fuzilamento, condenado por ver coisas que não existiam aos olhos da maioria das pessoas, senti no fundo do peito que ainda não seria o meu fim. O comandante ordenou que eu dissesse alguma coisa, como o último ato a que teria direito. Nem foi preciso pensar muito, já que a palavra final, que também era a inicial, já estava lá, pulsando, aquela palavra que esteve sempre presente, me salvando nos momentos mais cruciais da minha existência.

Impaciente com a demora, o comandante berrou para que eu pronunciasse minhas últimas palavras. Mas não eram palavras, era uma apenas e, antes mesmo de eu abrir a boca para liberá-la, ela se fez ouvir no ar tempestuoso daquela tarde:

– Cordilheira!

A palavra, que para mim sempre representou doçura, veio investida de toda a fúria e derrubou o comandante, o pelotão de fuzilamento, as muralhas da prisão, o medo, a angústia, a falta de emoção…

Como sempre acontecia, a minha palavra favorita me libertou, com o poder devastador que as palavras têm. Creio que existe uma palavra que ocupa de forma decisiva a vida de outras pessoas. Penso nas palavras como uma cadeia de montanhas, uma cordilheira de palavras que inquietam, que apaixonam, que estão prontas a abraçar, abrigar e afagar aqueles que são capazes de ouvi-las.

Uma crônica baseada em baseados reais – Crônica de Ronaldo Rodrigues

GinoflexForever

Crônica de Ronaldo Rodrigues

Mais uma história verídica quase ficção do meu amigossauro Ginoflex Vinil.

Tocou o celular, eu atendi:

– Alô.
– Fala, Ronaldo!
– Fala, Gino. Qual é o papo?
– Tá rolando uma festinha aí na tua casa?
– Não é bem uma festa, só uns amigos reunidos. Fizemos aquela coleta básica e compramos umas latinhas.
– Eu posso ir praí?
– É… Pode! Mas olha lá, hein! Tu vais trazer algum amigo contigo?
– Vou. O senhor sabe que eu sempre levo alguém.
– Mas quantos tu vais trazer?
– Calma, Gabiru! Relaxa! Vou levar dois.
– Dois? Tá legal. Pode vir.

11222913_10205167658966259_7857161415484695267_n

Desliguei o celular e me reuni aos três amigos que conversavam e bebiam no pátio de casa, lá no bairro do Trem. Fiquei um pouco apreensivo porque eu sabia que o Ginoflex costumava SE convidar para as reuniões de farra e aproveitava para convidar muita gente. Eu estava pensando nisso quando o Ginoflex apareceu dentro de um carro com mais cinco pessoas. Ao lado, parou outro carro, este com seis pessoas dentro.

supernatural_season_8_wallpaper
Ginoflex e Ronaldo Rodrigues

O Ginoflex, com aquele jeito todo à vontade, foi logo me apresentando a galera. Na discreta, chamei o Ginoflex para o lado:

– Porra, Gino! Eu falei que não era uma farra grande e tu disseste que só ia trazer dois amigos!
– Calma, Gabiru! Eu falei que ia trazer dois! Dois carros!

Eu compreendi e sorri com mais uma do Gino. Já ia me recolher ao meu canto quando ele, abrindo um pacote de uma erva (que eu não vou dizer aqui), falou com a cara mais sem-vergonha deste meio do mundo:

– Mas eu trouxe outras coisas também, Gabiru!

Aí demos início ao ritual de boas-vindas. Se é que me entendem.

Cemitério dos elefantes

14937887_10202276686636158_1077142218_n

Crônica de Ronaldo Rodrigues

Sempre curti cemitérios. Gosto de passear pelos corredores, admirar a arquitetura de alguns túmulos, observar as datas de nascimento/falecimento. Quanto mais antigas as datas, tanto melhor.

Em Curuçá/PA, a casa da minha família era bem próxima ao cemitério. Eu tinha uns quatro anos e ia muito lá. Deve ter vindo daí minha predileção por cemitérios e um senso de humor que, vez por outra, tem muito de mórbido. Depois, na adolescência, já morando em Belém, sempre que passava férias em Curuçá, o cemitério era um de meus locais preferidos de passeio.

Em Belém, frequentava o cemitério da Soledade, que tinha/tem um ar de abandono, cenário para filmes góticos, e o de Santa Isabel, o último lar de figuras como Eneida de Moraes, escritora e militante política. Sempre à frente de seu tempo, Eneida desafiou os padrões de sua época, liderando greves e atuando no jornalismo das décadas de 1920/30, quando esta atividade era considerada exclusivamente masculina.

14971297_10202276684396102_21662866_n

No cemitério de Santa Isabel, encontramos também túmulos que são recordistas de visitação em dias como os de hoje, 2 de novembro. Alguns mortos dali são considerados santos pela tradição popular, como o cirurgião Camilo Salgado, que fez muita filantropia em vida; Severa Romana, uma moça de 19 anos assassinada grávida, em 1900, a quem muitos atribuem milagres; e Josephina Conte, morta em 1931, que se transformou numa lenda urbana da cidade das mangueiras: a Moça do Táxi.

14958767_10202276691476279_506531618_n

Se e quando for a Paris, minha primeira visita não será à Torre Eiffel nem ao Arco do Triunfo. Será ao cemitério do Père Lachaise, o mais famoso do mundo, pela sua beleza arquitetônica e pela lista de hóspedes. Veja apenas alguns: Delacroix, Balzac, Oscar Wilde, Marcel Proust, La Fontaine, Allan Kardec, Modigliani, Isadora Duncan, Albert Camus, Molière, Chopin, Maria Callas, Edith Piaf e Jim Morrison.

Aqui em Macapá, minhas visitas aos cemitérios se fizeram mais raras, mas ainda dou minhas voltas pelo cemitério de Nossa Senhora da Conceição, o mais antigo da cidade.

Enquanto não me transformo em morador de um lugar desses, vou curtindo sua tranquilidade e suas histórias, sempre com muito respeito pelos que ali estão. Até que eu morra e vá descobrir, finalmente, onde fica o tal cemitério dos elefantes.