VAZANTE – Conto de Luiz Jorge Ferreira

Ele há muitos anos não bebe água…

Ocupado em recolher as datas, as que são ocupadas por episódios trágicos.

Arranca dos Calendários da parede as folhas numeradas marcando as datas dos meses, e os dias das semanas.

E as coloca dentro de um saco de plástico bege que chama de Existência.

Sua mulher doutro lado da sala, onde nestes últimos anos eles transformaram em sala, quarto, cozinha e área de seus raros banhos…o observa em silêncio…sua ocupação, aparar as bordas desniveladas da papelada que ele ensaca para lhes dar um primoroso acabamento…

Ele não bebe água…embora a vasilha que ela encheu na bica que a chuva transborda e deixa escorrer abundante, houvesse chegando ao meio, só ela havia consumido o líquido.

Ele, da água não beberá um gole.

Estava magro e ressecado, como uma mala velha de couro, e sua calça e camisa pareciam tão secas como ele próprio.

Estava recolhendo o que ele próprio chamava de sobrevivência…para ensacar nos sacos chamados por ele de Existência.

Os discos, as fichas telefônicas, as gaiolas onde antes pulavam os Curiós, o tapete espesso onde procriaram três gerações de gatos Siameses, e estampilhas de imagens de toureiros, damas tocando castanholas, e espadachins portentosos.

Um monte de sacos amontoados no caminho do antigo corredor que ia rumo ao quintal… desaparecerá…o barulho da televisão, agora mais um chiado continuo, que fala inaudível, se fazia presente…longinquamente.

E vários pacotes de vela, para serem acessas em sequência, pois a tempos se fora a luz elétrica, não que não houvesse fios, apenas quebraram-se as lâmpadas, vieram as velas.

A casa era triste…as dobras da rua defronte pareciam querer fugir dali…mas ele não bebia água…

As árvores plantadas no quintal decorando de folhas o chão,os troncos não eram mais de madeira, eram agora de papel machê, porque também não bebiam água…

Ele catando passos, falas, espirros, algazarras, sorrisos, e desenhos feitos a mão, em determinados momentos,fazia trejeitos e repetia monólogos, cuja a única testemunha eram os ponteiros do relógio, que ele usará para prender um cadarço de sapato na parede para nele dependurar coisa esquecidas…

Um caos…a própria vida começou a evitar aquela casa.

A noite passava ao largo.

A chuva deixou de vir…

Um silêncio triste, sentou debaixo das árvores, e ficou calado.

Tudo era um traçado de ensacar coisas deles, e de tudo,e o todo, que ele achava que era um grão.

Ela doutro lado da então agora uma coisa qualquer chamada antes de sala, se transformou, em água.

E ele cabisbaixo entrando no derradeiro saco, não bebeu.

* Além de contista, Luiz Jorge Ferreira é poeta, escritor e médico amapaense que reside em São Paulo e também é vice-presidente da Sociedade Brasileira de Médicos Escritores (Sobrames).

Poema de agora: Para um certo lugar atolado no Ontem. – Luiz Jorge Ferreira

Para um certo lugar atolado no Ontem

Planto chuvas como se Abril fosse bissexto.
Molho textos como se tardes nascessem do mar.
Amanheço em mim, assustado com a possibilidade de voar.
Mas não saio de ti, nem que o avesso apareça por traz da pintura de R.Peixe…ou esculturas de Rodin.

Enxerto pecados em virtudes, canto com Alaúde uma Ave Maria agnóstica, que na surdina do barulho infernal dos sapateios, finge ser muda.
Mas eu a traduzo para a linguagem gestual dos mudos, e ela fica lilás e sensual.

Com as lágrimas que pulam para a calçada…
Afogo rosas todas esculpidas em barro como o de Brumadinho.
E ponho em fila todas as vidas abortadas e nuas pelas valas espremidas.

Planto chuvas e as carrego sobre os ombros, que imagino largos, a Noroeste do Riacho que chamo de lama.
Da casa a céu aberto que chamo de alma.
Da imensidão de saudade, que chamo de drama.
Do paneiro cheio de palavras átonas e tônicas … que chamo de poema.

E se eu soubesse que viraria lama.
Teria atirado minha chuva na tua cara!

Luiz Jorge Ferreira

 

*Poema do livro “Nunca mais vou sair de mim, sem levar as Asas”.

Poema de agora: Transcriação – (@cantigadeninar)

Transcriação

Ereção a cada palavra.
O sêmen na caligrafia,
O desejo que escorre em fila,
Os dedos penetram uma linha.
Jorra e se espalha em cores,
A língua sem dissabores.
A preliminar veloz,
A escolha de um título feroz
Que resuma toda a cópula.
Eis que o processo de criação
Nada mais é que procriação
De uma espécie feita de tinta.


Na safadeza explícita,
Não me julgo prostituta
Pois ofereço-me gratuita
A serviço de um verso.
E nesse coito,
Papel-eu-pena,
Masturbo, com carinho, um poema…
E no ápice, sem aborto,
Gozo, enfim, uma estrofe:
– Engole ou cospe?
E orgulhosa, exibo minha cria:
Um orgasmo em poesia.

Lara Utzig

Operação Boogeyman: PF combate crime de pornografia intanto-juvenil no AP

A Polícia Federal deflagrou nesta quinta-feira (7/2) a Operação Boogeyman*, que visa combater o compartilhamento de material de pornografia infanto-juvenil através da internet no estado do Amapá.

Durante as investigações foi identificado, por meio da utilização de software específico, o local de onde ocorrem os compartilhamentos e provavelmente onde estão armazenados os arquivos contendo imagens e/ou vídeos pornográficos infantil-juvenil. Essa prática criminosa vem ocorrendo desde o ano de 2017.

Nesta operação, foi dado cumprimento a um mandado de busca e apreensão em Macapá/AP. No momento da busca, um indivíduo, de 31 anos, foi preso em flagrante na posse de mais de 40 Gb de arquivos com imagens de abuso sexual, que foram apreendidos.

O preso foi conduzido à Superintendência de Polícia Federal para prestar depoimento e responderá, pelos crimes de compartilhamento e armazenamento de registro contendo pornografia de criança ou adolescente. Se condenado, as penas podem chegar a 10 anos de reclusão.

* O nome Boogeyman (monstro da cultura inglesa) é um fantasma sombrio e amorfo, que se esconde em lugares obscuros para assustar vítimas inocentes. Ele é mais um incômodo do que um perigo, e o seu poder é facilmente neutralizado pelo brilho da luz.

Comunicação Social da Polícia Federal no Amapá
[email protected] | www.pf.gov.br
(96) 3213-7500

Cidade Lançante (crônica de Fernando Canto em homenagem à Macapá)

10557773_759033397493394_8872011468881926845_o

Por Fernando Canto

Esta baía é uma grande gamela de líquidas contorções, ondas que bailam sob a música do vento.

Esta baía não guarda mais o sangue inglês do comandante Roger Frey que pereceu sob a espada implacável do capitão Ayres Chichorro a 14 de julho de 1632, um dia claro, aliás, de verão amazônico, quando o sol derretia naus e o piche dos tombadilhos. Nem o sol, nem o vento, nem o oceano lá adiante cogitavam que naquela mesma data, dali a 157 anos o povo francês tomaria a Bastilha.

Na margem esquerda deste rio imensurável uma floresta úmida abrigava uns seres esquisitos, cabeludos e cheios de penas coloridas que os portugueses conheciam por Tucuju, Tikuju, Tecoju ou Tecoyen. Segundo ensina a mestra Dominique esse era um povo de origem Aruaque, ocupante da Costa Sul do Amapá que se tornou aliado dos holandeses, dos franceses e dos irlandeses. Por isso foi atacado impiedosamente por uma expedição do desbravador Pedro Teixeira no ano da graça de 1624. Sua história, no contexto da nossa, dá conta que após a façanha do capitão português esse povo procurou abrigo no Cabo do Norte, mas foi reduzido pelos jesuítas a uma missão no baixo Araguari e pelos capuchinhos no baixo Jari. É provável que um pequeno grupo tenha sobrevivido ao sul do município de Mazagão até o início do século XIX. Desse pequenino grupo restaram apenas as cinzas do tempo e um soluço quase imperceptível que morre a cada segundo na agonia de todos os silêncios.

1011593_608106562611712_802979731_n

Esta baía guarda estranhos segredos: uns são contados em língua morta, quando o hálito da madrugada sopra depois que a lua assim determina. Esses são de difícil entendimento. Os outros pairam nos escaninhos dos tabocais ou na boca das pirararas. Dificilmente serão contados.

O estuário deste rio dadivoso acelera a corrente de 2,5 quilômetros por hora para jogar no oceano cerca de 220 mil metros cúbicos de água por segundo. O inacreditável é que apenas o desaguar de 24 horas daria para abastecer de água potável uma cidade superpovoada como São Paulo por quase 30 anos. Números são números, diria o matemático. Nessa foz está a redenção de nossa terra, diz o sonhador sem perder sua utopia. Do barro e dos detritos aluviais se faz a vida. E ela está ali dentro das águas à espera da sustentação das mãos trabalhadoras.

Esta baía não se faz só de águas e barcos deslizando ao sabor das ondas. Ela abriga uma pequena jóia nascida sobre a várzea dos aturiás, velada há dois séculos por uma fortaleza plantada em cima de falésias.

Orlademacapafotojuvenalcanto]
Foto: Juvenal Canto

Macapá, velho pomar das macabas, carrega dentro de si a similitude de um éden tropical das narrativas dos antigos viajantes, até por ser banhada por tantos líquidos e cheiros advindos diariamente pela chuva refrescante e pela espuma das lançantes marés.

Macaba, Maca-paba:gordura, óleo, seiva do fruto da palmeira, vida e princípio desta terra, posto que a sombra traz a ternura e contrasta com o benefício da luz que se espraia por glebas de esperança.

Antiga terra da maleita e da febre terçã. Terra do “já teve” já não és. Mas alguns homens ainda jogam em teu traçado xadrez e, silenciosos, manipulam segredos e conspiram contra ti, a degradar-te e degredando teus verdadeiros sonhos e tua vocação para o abrigar da vida que se espera. Mesmo assim a felicidade bem insiste em se hospedar em ti.

1518554_852004074821805_3486749285890907570_o

Embora batizada com nome de santo – especialíssimo no panteão católico – teus habitantes não ficam isentos dos perigos: pés se torcem ou se fraturam todos os dias nos buracos das ruas outrora bem cuidadas.

Agora eu fico aqui me perguntando: por que quando te fundaram ergueram um pelourinho? – “Símbolo das franquias municipais”, dirão os doutos e sisudos professores. Ora, quantos homens não castigaram seus escravos até à morte após a partida do governador Francisco, porque estes aproveitaram para fugir durante a solenidade.

Um tralhoto viu e contou ao Mucuim que diz-que o Ouvidor-Geral e Corregedor Paschoal de Abranches Madeira Fernando tomou um porre de excelente vinho do Porto ofertado a ele nesse dia pelo plenipotenciário capitão-general Mendonça Furtado, que daqui zarpou para o rio Negro para demarcar as fronteiras do reino, a mando de Pombal. Foi um dia de festa aquele 04 de fevereiro de 1758, porque nasceu naquele instante a vila de São José de Macapá.

E ela cresceu e se fez linda e amada, pois os caruanas das águas vez por outra rondam em espirais por aí, passeando em livros abertos, nos teclados dos computadores, pelas portas e pelos filtros dos aparelhos de ar condicionado, nos protegendo das agruras naturais e das decisões de homens isentos do compromisso de te amar.

Parabéns, Macapá!

* Texto escrito em 2001.

Homenagem à Macapá – Por @BernadethFarias

SãoJosé

Por Benadeth Farias

Índios, brancos, negros, mamelucos, mulatos, cafuzos. Uma rica mistura de origens, um povo que se aperfeiçoa a cada geração. Gente morena que traz na alma fé e graça. Força talhada na miscigenação. Povo hospitaleiro com sangue guerreiro. Terra tucuju, beleza de norte a sul. Macapá das bacabas, do açaí, e até da sucuri. Terra do peixe farto, que traz no prato o gosto do pirarucu saboreado com um suco de cupuaçú. Gastronomia regional que já atravessou outro canal. Do açaí ao peixe e camarão, uma delicia saboreada com um bom pirão.

Na feira do tradicional mercado central, o corre corre em direção ao canal. Na procura por uma refeição, quem não tomou aquela garapa com pastelão? Mas no momento atual, o churrasquinho de gato virou prato principal e custa apenas um real.

10477421_776613925694154_8676649923332490034_oMacapá do majestoso rio amazonas, ora calmo, rasante, lançante, imponente feito gente. Protegido por São José nos quer sempre perto, de braço aberto. Na orla da capital, um cenário tropical, a música regional embala o casal.

10378198_775271035828443_1020632402930808740_n

Cidade do Marco Zero, dois hemisférios, um verdadeiro mistério. No Estádio Zerão muita emoção. É a bola no pé de quem tem sempre fé. E na Catedral de São José muita oração. Fiéis em ação para pedir proteção.

No corredor da folia, muita energia, gingado e alegria. Com o samba no pé, e no coração haja emoção. Terra de batuque e marabaixo. Do grupo pilão que canta com empolgação. Do Zé que vai para o mato apanhar açaí, sem esquecer o tucupi.

Macapá do Negro Sacaca, das grandes áreas de ressaca. Das plantas medicinais milagrosas usadas por mulheres fogosas. Do Curiaú de fora e de dentro que se tornou um alento. Macapá da Fazendinha, das brincadeiras de cirandinha. Cidade de encantos e cantos.

1459666_878513942172370_5244733877850657008_n

Poesia, simpatia, alegria, não faltam a Macapá. Inspiração tem até para sobrar. Falo da cidade que surgiu a partir de um destacamento militar. Proteger a fronteira do Brasil foi um grande desafio, mas estou aqui para relembrar que o governador do Grão Pará fundou Macapá.

Cidade que oferece amor, trabalho e dedicação aos filhos de nascimento e aqueles de coração. Macapá é um refugio de sonhos e concretização de realidades. Beleza natural, diversidade cultural. Povo caloroso e guerreiro, com o coração cheio de amor para dar, alegria de viver, tristeza nem pensar, assim é Macapá.

1518554_852004074821805_3486749285890907570_o

Desenvolvimento, turismo e beleza, combinação perfeita e que com certeza atrai quem procura a natureza. Pontos inexplorados, cenários que mexem com a imaginação e são inspiração

E com ousadia arrisquei fazer essa rima em forma de poesia que me deu muita alegria. Macapá é simplesmente o lugar onde quero sempre morar.

*Bernadeth Farias é jornalista com 29 anos de experiência no Amapá. Há anos atua de forma brilhante na chefia da Comunicação Institucional do Tribunal de Justiça do Amapá (Tjap), além de querida amiga minha.  

Música de agora: Coração Tropical – Amadeu Cavalcante


Coração Tropical – Amadeu Cavalcante

Meu Coração tropical
Amanheceu Batucando por você
Eu não sou anormal
Aqui no outro lado do Brasil
O amor é tão natural quanto taperebá
E você ainda me vem com esse cheiro de fruta
na boca, na boca

Ja passou carnaval
Mas ainda não chegou São João
O meu peito anda em festa
E assim eu te fiz esta canção
Sob o sol
Macapá
Lagoa dos Indios,
Quebra Mar
Não deu brega, nem samba, batuque ou bolero
So uma canção de mim

Amanheci cantando por você
Amanheci vivendo por você
Do seu amor eu peço biz

Poema de agora: AS ANGÚSTIAS SE CURVAM – Saulo Mendes

AS ANGÚSTIAS SE CURVAM

As angústias se curvam
ao peso de uma só dor.
Uma só memória cala
a força, a vontade, a cor.
Poderíamos estar juntos
se não fosse a conjuntura.
Doze espinhos são encravados
aos gritos, sem compostura,
na forma bruta da morte,
na desmemória dos jovens
na face da própria sorte.

Doze horas são passadas
antes que a última vez
se projetasse ao futuro
na glória de cada mês.
Doze instantes sem tarjeta
mudaram-se em flores mortas
cresceu força da sarjeta
rompendo amarras e portas.
Nova vida rompeu seio
E aos gritos cada manhã,
queimou formas, vias e meios
conformou todo o amanhã.
É preciso ainda esperar,
ainda espero, ainda que venha
a doce força de um mar.

Saulo Mendes

*Saulo Mendes foi um poeta carioca que se instalou por aqui nos anos 70, Era compositor, poeta, radialista e diretor teatral, inclusive montou duas peças, de autoria dele: o Louco, encenada no auditório da Rádio Educadora e Morte e Vida Severina, encenada no Cine Teatro Territorial. Foi casado com a cantora Lurdinha Mon’Alverne e morreu nos anos 80 em acidente na Br-156.
**Contribuição de Fernando Canto.

A fundação de Macapá – Por Fernando Canto

Por Fernando Canto

Segundo o historiador amapaense, Estácio Vidal Picanço, “a cidade de Macapá teve sua origem primitiva de um destacamento militar que se aquartelava sob as ruínas da fortaleza de Santo Antônio de Macapá, por volta de 1738, comandada por Manoel Pereira de Abreu”.

Imagem: Google

Dez anos mais tarde, o rei D João V criou a Província dos Tucujus, abrangendo o que seria hoje os municípios de Macapá, Mazagão e Amapá. O povoamento definitivo da Província ocorreu quando o governador Mendonça Furtado, nomeado pelo próprio irmão – ninguém menos do que o Marquês de Pombal, no reinado de D. José I -, por volta de 1751, trouxe os primeiros colonos da ilha dos Açores para garantir a defesa deste pedaço de solo, que desde o século XVI vinha sendo cobiçado por várias potências estrangeiras.

Imagem: google

Quando Mendonça Furtado viajava de Belém para a capitania de São José do Rio Negro, hoje Estado do Amazonas, onde iria ver de perto os serviços de demarcação e estabelecimento das terras, já vinha com a incumbência de fundar a Vila de São José de Macapá, no antigo povoado da Província dos Tucujus.

O governador aqui chegou no dia primeiro de fevereiro de 1758 e três dias depois mandou levantar o pelourinho na praça São Sebastião, para simbolizar as franquias municipais, declarando solenemente fundada e instalada a Vila de São José de Macapá, que se mantinha com atividades de pecuária, agricultura e coleta de produtos da floresta.

Fortaleza de São José de Macapá – Foto: blog Amapá, minha terra amada.

Pela Lei Provincial do Pará, de número 281, do dia 06 de setembro de 1856, Macapá recebeu os foros de cidade, quase um século depois de sua elevação a Vila. No século seguinte, Macapá foi promovida a Capital do Território Federal do Amapá, em 31 de maio de 1944.

Hoje, Macapá desfruta a condição de terceira metrópole da Amazônia pelas suas características urbanas. Uma cidade planejada com ruas largas e praças espaçosas. Para Estácio Vidal, pesquisando a origem do vocábulo “Macapá”, o significado mais aproximado da palavra é de procedência tupi, o qual, de acordo com outro historiador, Teodoro Sampaio, vem de Maca-Paba – estância de macabas, corruptela de bacaba, fruto de uma palmeira abundante na região.

Foto: Blog Porta Retrato

A turma do buraco

De modo geral, na Amazônia, mesmo em virtude do não-planejamento urbano, podemos encontrar as cidades verdes e cheias de árvores Belém é conhecida como “Cidade das Mangueiras” e, a seu exemplo, Macapá possui inúmeras dessas árvores, plantadas em suas principais vias.

Mesmo sendo desaconselhável a arborização com plantas frutíferas, mormente espécies que dão frutos grandes, deliciosos e carnudos, por causa dos inconvenientes no trânsito e na limpeza pública, Macapá tem uma história significativa sobre o assunto, que remonta à época do primeiro governo amapaense, Janary Nunes, em 1944 realizaria um trabalho pioneiro num lugar “contaminado pela miséria’, como diria mais tarde Álvaro da Cunha, o inventor da “Mística do Amapá”.

Começava então um processo de urbanização, acompanhado por um sistema fenomenal de arborização, incentivado por professores e membros do governo, e executados por alunos que seriam conhecidos como a “Turma do Buraco”. A arborização começou a ser feita por essa turma de estudantes, dos quais muitos ocuparam cargos importantes na administração do Território e do Estado, ou são profissionais liberais de reconhecimento e respeito.

Essa eficiente turma era selecionada nas escolas e encaminhada anualmente à Prefeitura para fazer serviços de poda, conservação de ruas, limpeza de canais e buracos, irrigação, drenagem e outros serviços de reparos. Na época, a cidade se abastecia de água no Poço do Mato, que no verão não era suficiente para a conservação das plantas, havendo a necessidade da tarefa desses estudantes, os quais, antes de mais nada, ganhavam uma gratificação da Prefeitura para ajudar nas despesas do colégio.

Foto: Blog do João Silva

Esse ato de plantar mangueiras, levado a cabo pela Turma do Buraco, não deve ser olhado hoje pelos urbanistas como algo ruim para a urbanização e ornamentação das ruas e praças. Em Macapá plantamos o que gostamos e comemos. Isso é louvável não porque dá somente sombras, não porque libera o oxigênio que respiramos, mas também porque mata a fome de muitos desvalidos. Hoje, quando andamos pela cidade, abrigando-nos do sol inclemente, facilmente nos sentamos à sombra de uma mangueira para descansar. E como é bom podermos saborear o seu fruto.

Dragão do Mar – Conto de Luiz Jorge Ferreira

Conto de Luiz Jorge Ferreira

A taberna estava azeda com a grande quantidade de marinheiros, bucaneiros, ex_piratas, vendedores de bugigangas e meretrizes aposentadas.

Era um barulho de goles, de tosse, de gargalhadas, de copos de couro lançando dados nas mesas e engasgos mil.

Quem mais gritava era o louro careca, um misto de maritaca e papagaio que engaiolado no alto da escada que ia até o sótão praguejava e xingava.

Aquele se possuísse saliva e pudesse cuspir já o teria feito dezenas de vezes.

Um marroquino vesgo, de bruços tatuado, cutucava-lhe com uma vara de apagar o castiçal de velas dependurado perigosamente próximo a sua gaiola.

Apaguem as velas…apaguem as velas gritava.

Cala o bico Rapunzel.

Cala a boca vesgo.

Rapunzel é a mãe.

Eu sou papagaio papagaio ô ô ô…

Ela chegou vinda do cais, era negra, estava ferida na perna direita e marcada nas costas com uma ferrada de meio palmo escrita Ex Librium.

Os homens afastaram-se para que ela entrasse.

Há alguns meses escapara de um negreiro, como chamavam os navios que transportavam escravos até o porto.

Tinha sido salva por um pescador que seu navio afundara, atingido-lhe o deposito de munição com um tiro desferido por um canhaozinho tosco de fabricação artesanal que ele mesmo fizera e o colocara sobre uma jangada e desde então se tornara um empecilho a chegada destes navios ao Porto.

De tanto combate-los de forma rudimentar e heroica era apelidado de Dragão do Mar.

Este era o dono do papagaio.

Um dia resolvera sozinho não permitir que aportassem estes navios com seus escravos vivos e cadáveres ali na região de Iracema.

Ele afundara o navio que a trazia, a salvara do mar e a trouxera para terra.

Tendo em vista que este carregamento estava adquirido pela Companhia Librium que ia incorporar estes homens e mulheres aos demais escravos, que já trabalhavam na Companhia Librium de construção de ferrovias.

Esta Companhia estava fincando dormentes em Crato.

O contrato da posse de um escravo dava trinta por cento de propriedade a quem lhe salvasse a vida.

Isto ficou acordado contra sua vontade.

Logo, a escrava a qual ele deu liberdade dos seus trinta por cento, estaria por nove meses engajada a frente escrava de trabalho no Sertão de Crato, e por três meses do ano livre.

Estaria por conta dele, e depois deveria ser devolvida apta para voltar ao trabalho, sob pena de em caso de perda da capacidade de trabalhar, ser a Companhia Librium indenizada em alta soma.

O tempo, contando os meses de Janeiro Fevereiro e Março, época das chuvas em que quase paravam os trabalhos na linha férrea, vinha ela para a capital depois de andar léguas e léguas a pé e punha-se a segui-lo.

Quando ele estufava as velas e largava-se ao mar para espreitar e combater as embarcações vindas da África, ela ficava a praia entoando canções africanas.

Quando ele ia a taberna, estava ela lá, entre os homens do mar.

Vendo-o de longe.

Davam-lhe de comer e água para beber.

Ela não falava português.

Ele não falava Nagô.

Isto se repetiu por anos e anos.

Foi assim ate que ele não voltou do mar.

Quando a taberna pegou fogo no Natal, só restaram cinzas e o esqueleto de uma gaiola.

Dizem que avistaram no mar uma jangada com um casal e um papagaio xingando em Nagô.

Outros dizem que é lenda.

Roubei mais um ladrão. Às lagrimas, o Sambódromo! – Por @rostanmartins

Por Rostan Martins

Percorrendo a Avenida Ivaldo Alves Veras, nos deparamos com o Sambódromo, com a Avenida do Samba e com a Cidade do Samba. Complexo do samba; palco de caqueados; cenário de histórias vividas, de emoções, de alegrias e de amores.

Mas, atualmente, tudo num completo abatimento. Topamos com as lágrimas do Sambódromo. Sem as agitações dos dias que antecedem os desfiles; sem os desfiles das escolas de samba. Este cenário declina para a melancolia. Vamos chegar, há exatos, quatro anos sem as alegrias e as emoções do Sambódromo. A mesma situação que dar vontade de chorar.

Nosso carnaval é grandioso! Alcançamos um nível de mega espetáculos; exportávamos carnavalescos; fomos enredo na Sapucaí, enredo campeão.

Temos a Liesap – Liga Independente das Escolas de Samba, onde abriga um Conselho de Representantes das agremiações, entidade que tem a competência de organizar os desfiles. 10 escolas de samba; 11 blocos carnavalescos; 5 barracões destinados às confecções das alegorias e das fantasias (Cidade do Samba). Ainda temos o Sambódromo, com camarotes, arquibancadas e infraestrutura necessária par os desfiles.

Somos uma comunidade apaixonada pelo samba, pelo carnaval. Além disso, temos o suporte governamental: iluminação, segurança pública, sistema de saúde, limpeza, etc.

Então por que a não realização dos desfiles, com toda essa trajetória e história?

O som dos surdos não mais ecoara lá pelos campos do Complexo do Marco Zero; os sambas de enredo não mais cantaram as nossas culturas, nem as nossas memórias. Os sambistas não vão bazofiar o breque na pista. Não veremos as emoções das mulatas, nem das rainhas. E nem as disputas, nem as notas 10. O rei Momo está desolado. Estamos sem majestade. A sua fantasia está sem o brilho da felicidade.

A culpabilidade pelas lágrimas do Sambódromo recai a quem? Aos líderes das agremiações? Ao presidente da Liesap? Aos governos (municipal e estadual)? Aos brincantes? Aos sambistas? Ao rei Momo? De quem é essa responsabilidade?

Ao final de tudo, o motivo da passarela do samba, local de demonstração de emoção e alegria, estar desamparada, é culpa de todos nós que adoramos carnaval.

Mas, não vamos desistir, mesmo com o rosto em lágrimas, com o Sambódromo às lagrimas, vamos no “Pererê”, no “Aqui nós bebe, aqui nós cai”, ou, nos arrastões de algumas escolas de samba. Ou seja, carnaval vai ter. Preparamos nossa fantasia e vamos na “Banda”. E, no ano que vem, nós nos encontraremos com o Sambódromo, enxugaremos as suas lágrimas, e sambaremos.

Esta situação daria um belo Ladrão de Marabaixo, concordam?

(Ladrão, no Marabaixo, são as cenas cotidianas de personalidades, autoridades, ou simples cidadãos, ou também situações, que memorizadas (roubadas) são socializadas, em forma de poemas, no Ciclo do Marabaixo). 

261 anos de Macapá: prefeitura e Abrasel promoverão Cozinha dos Chefs com pratos ao preço de R$ 10,00

A programação de aniversário de 261 anos de Macapá está cheia de eventos imperdíveis. O Instituto Municipal de Turismo (Macapatur) e a Associação Brasileira de Bares e Restaurantes (Abrasel) se unem e presenteiam a capital com a Cozinha dos Chefs, nos dias 3 e 4 de fevereiro, na Praça Floriano Peixoto.

O Cozinha dos Chefes é montada para servir refeições ao preço de R$ 10,00, preparadas por profissionais experientes da gastronomia amapaense. Nessa edição, terá o chef Orazio Cattani, italiano, reconhecido pela crítica gastronômica como o melhor profissional no mercado; chef Yukio Nagano, de descendência oriental, proprietário de um renomado restaurante japonês da cidade; chef charcuteiro Rafael Salviano, especialista em defumados; e o chef Burguer Thiago Santiago, proprietário de uma das melhores hamburguerias da capital.

Além da comercialização de pratos sofisticados, a culinária regional estará presente na área gastronômica como parte de uma extensa programação promovida pela Prefeitura de Macapá. Segundo o diretor-presidente do Macapatur, Paulo Brito, a programação será literalmente recheada de delícias para valorizar os produtos da culinária regional e potencializar o setor de gastronomia como um produto legitimamente turístico. “Reunimos grandes profissionais da gastronomia para presentear Macapá com os melhores sabores”, ressalta.

Para o executivo da Abrasel no Amapá, o turismólogo Sandro Belo, a parceria com a prefeitura trará uma programação inovadora, acessível à população, ao colocar insumos e ingredientes sofisticados, preparados pelos principais profissionais do setor, a preços populares, num ambiente aprazível, que é a Praça Floriano Peixoto.

Cássia Lima
Assessora de comunicação/Macapatur
Contato: 98104-9355