O trombone invisível – Conto de Fernando Canto para Obdias Araújo.

 

Conto de Fernando Canto para o poeta Obdias Araújo.

Ainda era muito cedo.

O rapaz de uns vinte e cinco anos vinha no meio da rua tocando um trombone de vara, marchando alegre e sem medo de ser atropelado pelos veículos pesados que se movimentavam para pegar a rodovia JK. Ele soprava e punha a mão na boca do instrumento, ajustando-o. O tipo de música executada se assemelhava a um dobrado, já que seus passos seguiam em perfeita cadência rítmica, como se desfilasse numa parada escolar. Devia puxar o pelotão de uma banda musical que talvez lhe seguisse após a desobstrução da via. De vez em quando olhava para trás, mas sem parar de marchar.

Dobrei meu caminhão para o acostamento e esperei que passasse por mim. Eu disse:

– Ei, amigo, não estou ouvindo direito essa música.

Ele me olhou meio de esguelha, com certo ar de desprezo e apontou o dedo para a boca do instrumento, lamentando minha ignorância, querendo dizer que tocava com a surdina, pensei.

Deixei-o passar e o acompanhei pelo retrovisor. Seguia cadencioso no meio da rua esburacada, naquela manhã de abril, sob um céu plástico e chuvoso do equador. Eu já ia embora quando ouvi o som nervoso da buzina de uma carreta atrás de mim e o baque surdo de um corpo caindo ao chão. O moço, seminu, trajava apenas uma cueca branca e rota. Não havia trombone, não havia banda, não havia música.

Os pássaros madrugadores da cidade pousados nos fios de alta tensão da Eletronorte assustaram-se e fugiram desesperados com o som da morte, para descrever no céu as notas de um réquiem ao trombonista atropelado.

VAZANTE – Conto de Luiz Jorge Ferreira

Ele há muitos anos não bebe água…

Ocupado em recolher as datas, as que são ocupadas por episódios trágicos.

Arranca dos Calendários da parede as folhas numeradas marcando as datas dos meses, e os dias das semanas.

E as coloca dentro de um saco de plástico bege que chama de Existência.

Sua mulher doutro lado da sala, onde nestes últimos anos eles transformaram em sala, quarto, cozinha e área de seus raros banhos…o observa em silêncio…sua ocupação, aparar as bordas desniveladas da papelada que ele ensaca para lhes dar um primoroso acabamento…

Ele não bebe água…embora a vasilha que ela encheu na bica que a chuva transborda e deixa escorrer abundante, houvesse chegando ao meio, só ela havia consumido o líquido.

Ele, da água não beberá um gole.

Estava magro e ressecado, como uma mala velha de couro, e sua calça e camisa pareciam tão secas como ele próprio.

Estava recolhendo o que ele próprio chamava de sobrevivência…para ensacar nos sacos chamados por ele de Existência.

Os discos, as fichas telefônicas, as gaiolas onde antes pulavam os Curiós, o tapete espesso onde procriaram três gerações de gatos Siameses, e estampilhas de imagens de toureiros, damas tocando castanholas, e espadachins portentosos.

Um monte de sacos amontoados no caminho do antigo corredor que ia rumo ao quintal… desaparecerá…o barulho da televisão, agora mais um chiado continuo, que fala inaudível, se fazia presente…longinquamente.

E vários pacotes de vela, para serem acessas em sequência, pois a tempos se fora a luz elétrica, não que não houvesse fios, apenas quebraram-se as lâmpadas, vieram as velas.

A casa era triste…as dobras da rua defronte pareciam querer fugir dali…mas ele não bebia água…

As árvores plantadas no quintal decorando de folhas o chão,os troncos não eram mais de madeira, eram agora de papel machê, porque também não bebiam água…

Ele catando passos, falas, espirros, algazarras, sorrisos, e desenhos feitos a mão, em determinados momentos,fazia trejeitos e repetia monólogos, cuja a única testemunha eram os ponteiros do relógio, que ele usará para prender um cadarço de sapato na parede para nele dependurar coisa esquecidas…

Um caos…a própria vida começou a evitar aquela casa.

A noite passava ao largo.

A chuva deixou de vir…

Um silêncio triste, sentou debaixo das árvores, e ficou calado.

Tudo era um traçado de ensacar coisas deles, e de tudo,e o todo, que ele achava que era um grão.

Ela doutro lado da então agora uma coisa qualquer chamada antes de sala, se transformou, em água.

E ele cabisbaixo entrando no derradeiro saco, não bebeu.

* Além de contista, Luiz Jorge Ferreira é poeta, escritor e médico amapaense que reside em São Paulo e também é vice-presidente da Sociedade Brasileira de Médicos Escritores (Sobrames).

A volta de Paul Devil, o assediador de meninas que finge ser um inofensivo militante cultural – Conto De Rocha de Elton Tavares

Conto De Rocha de Elton Tavares

Há tempos eu não tinha o desprazer de ouvir falar de “Paul Devil”, um grande filho da puta que conheci na primeira metade dos anos 2.000. Como ninguém vem com a índole escrita na cara, por engano, já me misturei a alguns escrotaços ao longo da vida. Paul Devil é um deles.

De fala mansa, intelecto maquinante sempre voltado para tirar vantagem de algo ou alguém, principalmente de meninas que não conhecem sua alma sebosa, ele vai chegando sempre com um papo furado, uma falsa “gentebobisse cult”.

O pior é que o doido pensa mesmo ser “a bala que matou Lennon” (li essa frase dita pela Vitória uma vez e sempre uso). Sim, Paul Devil faz cara de militante cultural engajado e amigo de todos, mas não passa de um vagabundo que assedia garotas dentro da área universitária. A velha prática nojenta é sempre a mesma: aproximação, birita na vítima e se ninguém impedir o desgraçado, ele abusa (toca ou até estupra).

Existem vários relatos sobre essa prática do canalha. Mas o inescrupuloso personagem consegue fica impune e eu realmente me pergunto, até quando? Ele devia, há muito, estar preso.

Com sua escrotidão, Paul Devil já fez muitas vítimas e já escapou de mim (que na época queria lhe aplicar uma boa surra) umas duas vezes.

Mas, se liguem. Ontem (11), uma querida jovem acadêmica relatou que ele voltou, se é que um dia parou, a assediar meninas dentro do Campus. O pior é que ninguém faz nada. Professores, coordenadores, corpo técnico, Reitoria, ninguém toma uma providência contra Paul Devil e outros figuras que praticam os mesmos atos, sobretudo nas famosas festas universitárias. Até quando?

A velha máxima de colher o que planta sempre se concretiza. Um dia, que espero não demorar, pois já faz muito tempo que Paul Devil comete esse crime, ele se ferrará. Enquanto isso vai um aviso : se toca, senão o gordo biriteiro te pega, seu doente filho da puta pervertido de merda!

As Estrelas da Tarde (Conto paid’égua de Fernando Canto)

Conto de Fernando Canto

– Quem vê uma estrela de dia será feliz, disse-me o homem de cabelos brancos com quem costumava conversar quando voltava da escola.

Eu havia contado a ele que há dias vira uma delas, grande e brilhosa, dentro de nuvens escuras (cumulus-nimbus, frisei, orgulhoso do meu aprendizado escolar), antes que elas vertessem sobre o mundo suas águas lacerantes.

Seu Unvagnime ficava todo fim de tarde na calçada observando os poucos passantes da rua enladeirada, onde um tempo lento absorvia a realidade e abria seu portal para uma dimensão que nos olhava de soslaio. Junto a sua cadeira de macarrão, afundada de tantos sentares, havia sempre uma garrafa térmica com café que oferecia aos seus conversadores ocasionais. Entre eles eu. Parava ali como se estivesse atendendo a um chamado, mas meus colegas de escola o escarneciam por causa de sua aparência. Cheguei a brigar por causa disso com um deles, que também era meu vizinho.

Tornei-me um conversador contumaz e um apreciador daquele café puro, colhido, torrado e moído no pilão por suas filhas solteironas, umas meninas galegas de cabelos louríssimos e de olhos azuis, azuis. Pareciam mulheres nórdicas que pulavam de dentro de revistas e se escondiam nos meus sonhos. Eram albinas. Quando voltava da missa aos domingos eu as acompanhava. Estavam sempre de óculos escuros e lenços de seda na cabeça. Chamavam-se Anabella e Ana Bolena. Aparentavam tristeza, mas sorriam quando falavam comigo.

Em uma dessas conversas com o ancião perguntei se ele já teria visto uma estrela de dia. Ele percebeu minha curiosidade, ajeitou os óculos espelhados estilo ray-ban que mandou buscar por um catálogo, e disse:

Vi muitas, Josset, vi muitas. E sou feliz, eu juro. Por Deus e pelas sete chagas de Cristo, repetindo o juramento com entusiasmo.

Contou suas aventuras como marítimo e pescador, dos sete naufrágios em que se salvou, sendo que quatro deles aconteceram em pleno dia. Falava como se estivesse revivendo tudo aquilo, olhando a embarcação estraçalhada pelas vagas do oceano, embaixo de procelas inacabáveis. Falou que sua voz e seus ouvidos estouravam na dança arritmada das águas, no vai-e-vem, no vai-vai, no vem-vem das ondas, nos punhais da chuva baguda disparada pelo vento.

E graças às estrelas que corriam entre as nuvens, me disse, soubera que direção tomar. Em um desses desastres ele nadou, nadou, e nadou no rumo das ilhas, ao sabor da corrente, até ser encontrado por um barco de passageiros que ia em direção às ilhas do Bailique. Sempre que se salvava de um naufrágio estava preso a uma boia, a um botijão de gás ou outro objeto que os ajudavam a se salvar. Certa vez, ele e um marinheiro se agarraram a um tronco solto na maré depois que o barco virou surpreendido por uma pororoca entre o continente e a ilha do Brigue. Infelizmente seu parceiro sumiu nas águas barrentas e ele nada pôde fazer.


– Vi muitas vezes, Josset, tantas que nem procurei a felicidade, se é que queres saber. Ela veio a mim e eu sou feliz. Viver foi a minha condição de felicidade, que é tão rude como as ondas do mar na tempestade. Vi muitas, meu amigo. Como são suaves e belas ao cair da tarde. O céu me deu a escolha de tê-las grandes ou pequenas. Eu quis a que veio a mim por quatro vezes para que eu tivesse uma longa vida. Conheci pessoas que tiveram esse condão e foram contempladas com a sorte da riqueza. Elas pouco viveram, mas compensaram suas vidas espalhando sua felicidade no tempo a outros que dela precisaram.

Olha rapaz, disse o velho, a felicidade não é um objeto, um ser, uma alma. Ela apenas é. Ela vive, sim, em um tempo duradouro, às vezes na forma de uma estrela avistada por poucos em tardes de tempestades.

Narrou suas histórias por um bom tempo. Quando terminou de falar encheu o copo de café e o entornou. Eu fiz o mesmo e fui para casa. Quase não dormi naquela noite, imaginando viagens pelos mares, e por causa do café.

No dia seguinte ao voltar da escola deparei com uma multidão na sua casa. Velavam seu corpo na sala. Eu que nunca havia passado pelo portão do quintal me surpreendi com aquele ambiente esquisito, nem alegre nem soturno.

Havia conjuntos de móveis estofados, enormes telas de paisagens amazônicas nas paredes, sempre com barcos navegando; cristaleiras com taças e cálices com bordas de ouro, estantes abarrotadas de livros e de miniaturas de barcos, tapetes coloridos sob mesas de mármore com pés de madeira nobre; uma geladeira vermelha meio arredondada e uma vitrola hi-fi de mogno num canto. Na sala contígua estava o caixão branco com o corpo do velho Unvagnime ornado de flores, anzóis e pedaços de rede de pesca. Em seu peito haviam colocado a bandeira do Brasil e a do Sindicato dos Pescadores.

Cumprimentei suas filhas com o devido respeito, me contendo para não chorar, pois já possuía a experiência de morte na família e a perda de uma pessoa que considerava amiga me doía muito. Aproximei-me do corpo. No rosto pálido haviam deixado os óculos espelhados, a pedido dele, me disseram.

E foram muitas as lágrimas que caíram dos meus olhos naquelas lentes que me refletiam.

Eu os tirei do rosto para enxugá-los com blusa do meu uniforme e olhei seu rosto bem de perto, mas em vez de seus olhos fechados vi duas estrelas faiscando como se estivessem me chamando em código, do alto de uma nuvem escura.

Um cheiro de café explodia em todos os meus sentidos. Saí daquele ambiente plenamente entranhado de sensações estranhas e de uma felicidade extemporânea.

Ela sempre reina em mim quando olho para o céu e procuro estrelas da tarde. Se a sorte chega e vejo uma, pequena e fugaz que seja, ouso transformá-la em nebulosas infinitas.

Sobre sonhos, pesadelos e outras viagens – Por Cleomar Almeida

Meu amigo Cleomar Almeida é um competente engenheiro. O cara também é a personificação da pavulagem e gentebonisse, presepeiro e boçal como poucos que conheço. Um figura divertido, inteligente, gaiato, espirituoso e de bem com a vida. Dono de célebres frases como “ajeitando, todo mundo se dá bem” e do “ei!” mais conhecido dos botecos da cidade. Quem conhece, sabe. Hoje ele escreveu essa:

Sobre sonhos, pesadelos e outras viagens

Queria que alguns de meus sonhos pudessem ser gravados, só pra eu assistir novamente, tal a veracidade das coisas que neles acontecem. Alguns seriam dignos de um Oscar, outros, mero refugo da pornochanchada. Dia desses, digo, noite dessas, creio eu, de tanto ficar assistindo programa de bicho, me peguei dormindo em meio a uma mata, riacho passando ao lado, canto de pássaros e uma penumbra bacana.

Eis que ao longe vejo aquele enorme felino, rastejando em minha direção, nessa hora de desespero meu único pensamento é correr. Posiciono-me para iniciar a disparada da minha vida, como Usain Bolt na linha de partida para os cem metros e só então percebo que não estou só naquela situação periclitante, minha mulher dorme ao lado, alheia ao risco de virarmos bóia do animal faminto. Onça chegando, eu pronto pra correr, mulher dormindo ao lado, macaco gritando, desespero total na mata e é quando tomo a decisão, vou correr, não sem antes avisar minha parceira, isso seria uma covardia sem tamanho.

Dou-lhe um belo de um tapa na bunda e grito: Amor, corre que tem onça!! Minha disparada é curta e breve, minha cama é colada à parede, quase arrebento os cornos por conta da velocidade impressionante que atingi naquele meio metro que tinha pra avançar. Ainda atordoado olho para o lado, minha mulher sentada na cama me fita com ar de reprovação e diz: Eu “mínino”, tu vais quebrar esta parede!!!. Mal sabe ela a fogueira que acabamos de pular.

ROUCO RECADO – Conto de Luiz Jorge Ferreira

Conto de Luiz Jorge Ferreira

O Corcel da noite uivava…preso nos dentes fiapos de mangas e crinas das madrugadas.

Nossa casa tem tábuas podres… Mãe!
Nosso quintal tem casca de ovo… Mãe!

Eu sei acender o fogo com um só palito de fósforo. Mesmo que sopre o vento de muitos assobios.

Mãe você não se incomoda.

Porquê tem muitas tábuas podres nossa casa…e as estrelas vem mordê-las, e perdem-se no sulco do disco de Luiz Gonzaga.

Anita que espreita, tem seios, e meios de fazer carícias que nem sei.

Mãe , você espante está tristeza vagabunda…mesmo que uive a noite, temos contra a escuridão, um pavio aceso, e uma luz nos seus olhos.
Na estante… temos ‘ O Tempo e o Vento, e ‘Mar Vermelho’.

Nossa casa tem tábuas podres… Mãe!
E você conhece toda a Coleção de Jorge Amado.
E você conhece Trigonometria…a ensina a trinta anos… conhece Freud e Kafka…
Eu ouço o ruído das tábuas apodrecendo, dos cupins roendo, a cumieira.
Eu ouço a dor das queixas dos favelados, nos pátios das baixadas.


E lá…nem lua, nem Hollywood, nem Sinatra, pousam.

O corcel da noite, feito um bêbado insolente, descobre as tábuas podres, a noite adormece os miseráveis, adormece D.Ester, que vigia a chuva para não chover.

E nossas tábuas podres, podem se vingar
Você não, mãe.


Você demarca as costas do Amapá, e o Mapa fica entrincheirado em um prego na parede, defronte a um armário antigo de vidros quebrados, que esconde o ruído dos cupins, penas de anjos, e tábuas podres.

E você não se incomoda… Mãe!

Ah! Como zombam de nós, as tábuas podres!

*Do livro Cão Vadio, publicado pela Imprensa Oficial do Governo Federal do Amapá, em 1986.

Dragão do Mar – Conto de Luiz Jorge Ferreira

Conto de Luiz Jorge Ferreira

A taberna estava azeda com a grande quantidade de marinheiros, bucaneiros, ex_piratas, vendedores de bugigangas e meretrizes aposentadas.

Era um barulho de goles, de tosse, de gargalhadas, de copos de couro lançando dados nas mesas e engasgos mil.

Quem mais gritava era o louro careca, um misto de maritaca e papagaio que engaiolado no alto da escada que ia até o sótão praguejava e xingava.

Aquele se possuísse saliva e pudesse cuspir já o teria feito dezenas de vezes.

Um marroquino vesgo, de bruços tatuado, cutucava-lhe com uma vara de apagar o castiçal de velas dependurado perigosamente próximo a sua gaiola.

Apaguem as velas…apaguem as velas gritava.

Cala o bico Rapunzel.

Cala a boca vesgo.

Rapunzel é a mãe.

Eu sou papagaio papagaio ô ô ô…

Ela chegou vinda do cais, era negra, estava ferida na perna direita e marcada nas costas com uma ferrada de meio palmo escrita Ex Librium.

Os homens afastaram-se para que ela entrasse.

Há alguns meses escapara de um negreiro, como chamavam os navios que transportavam escravos até o porto.

Tinha sido salva por um pescador que seu navio afundara, atingido-lhe o deposito de munição com um tiro desferido por um canhaozinho tosco de fabricação artesanal que ele mesmo fizera e o colocara sobre uma jangada e desde então se tornara um empecilho a chegada destes navios ao Porto.

De tanto combate-los de forma rudimentar e heroica era apelidado de Dragão do Mar.

Este era o dono do papagaio.

Um dia resolvera sozinho não permitir que aportassem estes navios com seus escravos vivos e cadáveres ali na região de Iracema.

Ele afundara o navio que a trazia, a salvara do mar e a trouxera para terra.

Tendo em vista que este carregamento estava adquirido pela Companhia Librium que ia incorporar estes homens e mulheres aos demais escravos, que já trabalhavam na Companhia Librium de construção de ferrovias.

Esta Companhia estava fincando dormentes em Crato.

O contrato da posse de um escravo dava trinta por cento de propriedade a quem lhe salvasse a vida.

Isto ficou acordado contra sua vontade.

Logo, a escrava a qual ele deu liberdade dos seus trinta por cento, estaria por nove meses engajada a frente escrava de trabalho no Sertão de Crato, e por três meses do ano livre.

Estaria por conta dele, e depois deveria ser devolvida apta para voltar ao trabalho, sob pena de em caso de perda da capacidade de trabalhar, ser a Companhia Librium indenizada em alta soma.

O tempo, contando os meses de Janeiro Fevereiro e Março, época das chuvas em que quase paravam os trabalhos na linha férrea, vinha ela para a capital depois de andar léguas e léguas a pé e punha-se a segui-lo.

Quando ele estufava as velas e largava-se ao mar para espreitar e combater as embarcações vindas da África, ela ficava a praia entoando canções africanas.

Quando ele ia a taberna, estava ela lá, entre os homens do mar.

Vendo-o de longe.

Davam-lhe de comer e água para beber.

Ela não falava português.

Ele não falava Nagô.

Isto se repetiu por anos e anos.

Foi assim ate que ele não voltou do mar.

Quando a taberna pegou fogo no Natal, só restaram cinzas e o esqueleto de uma gaiola.

Dizem que avistaram no mar uma jangada com um casal e um papagaio xingando em Nagô.

Outros dizem que é lenda.

AS MULHERES-PEIXE (Conto de Fernando Canto)

Conto de Fernando Canto

Os cachaceiros do bar da Loura Rainha podiam apostar com certeza que era mais uma mentira do Edmer. Falou pra quem estava ali que tinha comido uma mulher-peixe, só pra se gabar e se aproveitar de uma história que corria na área e era a razão do medo dos nossos novos vizinhos, que eram feios pra caralho e tinham chegado há pouco tempo sabe lá de onde. – Porra, falei. Eu também namorei, quer dizer, cheguei a morar com uma delas lá nas brenhas do Igarapé do Salamagonha, no tempo que ainda tinha ouro aqui no garimpo do Lourenço.

Pra quê… O Edmer, que era um tremendo filho de uma puta avançou em cima de mim com uma faca de sapateiro, mas ele estava porre e não me furou porque pulei de lado e lhe acertei uma garrafada no meio da testa. O homem caiu no assoalho com a garapa descendo por todo o corpo. Foi pá, merda. O Edmer era uma bosta e morreu porque achava que eu tinha comido a mulher-peixe dele.

Flamenguista safado, eu dizia muito puto sobre o gordão assassinado. Ainda bem que as testemunhas foram na delegacia e confirmaram ao policial de plantão que meu reflexo salvou minha vida e que agi em legítima defesa. Passei a noite inteira esperando o bacharel.

Quando o delegado chegou pra pegar o meu depoimento foi logo perguntando quem eram essas mulheres-peixe que tanto davam medo nos novos moradores do assentamento, uns colonos feios pra caralho, e sobre a causa da briga com o gordo Edmer. Disse o que se passou no bar e que eu não sabia nada das mulheres, que apenas tinha mentido pra acabar com a gabolice do cara. Fui solto, mas ele pediu que eu não saísse da área porque o caso era da Polícia Federal, já que o merda do Edmer era funcionário do Incra. Ele não se conformou e me seguiu até o meu sítio. Depois eu soube que ele acampou por lá por perto com uns tiras atrás de ouro.

A verdade é que eu tinha achado um veio numa gruta e havia escondido de todo mundo que ainda tinha ouro por lá. Na gruta havia um lago de água verde, verde, verdinha. Não fazia muito tempo que eu tinha descoberto essa gruta e o lago e visto as mulheres-peixe se banhando. Tinham a cor dourada e eram largas. Suas barbatanas eram vermelhas, umas gracinhas. Nem de longe pareciam com as sereias que eu já tinha visto em revistas. Brincavam com as águas e sorriram quando me viram. Me chamaram pra bem perto delas e aí eu pude conhecer o verdadeiro valor do prazer sexual com aquelas mulheres, ainda que não fossem humanas. Eu me acostumei com elas e elas comigo.

O Edmer estava fiscalizando o assentamento dos colonos. Ele também descobriu a gruta depois que a caminhonete dele pregou perto do torrão do Tracajatuba, na estrada que levava ao meu terreno. E parece que ele chegou a dar umazinha por lá porque elas me falaram por alto dele. E foi justamente no bar da Loura Rainha, onde eu tinha chegado pra tomar uma caninha que ele achou de contar vantagem. Eu confesso que não queria que ninguém soubesse ainda mais depois que elas me indicaram onde estava o ouro.

O delegado me flagrou com as mulheres-peixe quando a gente estava bacana, tomando um Campari no meio do lago. Ele já sabia do ouro e me deu voz de prisão. Ao verem os tiras as mulheres douradas foram tomadas de um pavor que eu jamais vira. Pareciam loucas, cantando e dançando e mergulhando. Assoviavam uma melodia tão forte que se eu não tivesse corrido pra fora da gruta meus tímpanos estourariam, assim como aconteceu com os policiais, que desmaiaram e morreram afogados. Elas salvaram minha vida, pois a ambição do delegado e seus subordinados não tinha limite. Onde havia ouro eles iam lá confiscar.

Não sei como alguns agricultores ouviram os gritos de tão longe. Chegaram ao local armados de facões, mas se tremiam de medo. Certamente viram os vultos das mulheres-peixe no fundo da gruta. O boato das suas existências já rolava pela vila do Lourenço, imagina agora com a morte dos tiras e o testemunho dos colonos feios.

Quando os policiais federais chegaram pra me prender eu já estava muito longe com o meu ouro. Larguei tudo: o sítio, os animais, os empregados, a mulher e os filhos. Comprei um carro usado e sumi no trecho pra capital. Agora que acabou a porra do ouro e do dinheiro bate uma saudade daquelas mulheres lindas que nunca mais vou voltar a ver. Elas devem ter morrido com a presença de tanto garimpeiro feio no lugar que com certeza poluíram a gruta e seu lago verdinho.

SOberba ORAção dos SERes da FLOResta parA IANEJAR, o heRÓI – Por Fernando Canto

 


Eu te agradeço Ianejar pelo teu sangue de borboleta avoante. Por seres a distorção da história fútil do homem branco que aqui chegou fincando sobre a terra seus valores.

Ianejar, eu te agradeço pelo fogo – o cataclismo devastador – mais que necessário para proteger teu povo do intrépido inimigo e de suas armas cuspidoras do brilho do infortúnio.

Todos os dias quando o sol se agiganta como um raivoso pai lá no horizonte, eu penso que tu estavas certo em provocar a fuga-exílio do teu povo sofredor por dentro de uma casa-argila, onde tantos faleceram de calor e de frio.

E era Mairi que flutuava pelas margens do Grande Paraná à deriva e à procura de uma terra em que houvesse paz.

Eu te agradeço, Ianejar, por conduzires com grandeza a dignidade do povo Wajãpi na sua memória ímpar, por enormes espirais que o nosso povo representa em ciclos míticos.

Sei que foi preciso destruir uma parte da Floresta-Mãe para depois fazer a roça e ver medrar a folha verde dos campos.

O cacique Piriri fuma seu charuto enquanto outros wajãpis celebram com cantos tradicionais. Nessas festas, eles costumam consumir caxiri, uma bebida típica com forte teor alcóolico preparada da fermentação da mandioca.Foto: Victor Moriyama

E mesmo antropizada como hoje diz o karaiko /o homem branco/ a floresta é a tua dádiva. É a cornucópia do nosso cabeludo povo, dada a nós por um demônio manso que hoje deita na tua rede no teu céu, lá onde estão as borboletas e a estrela em que tu te tornaste quando saíste pelo buraco do final da Terra.

Eu te agradeço, Ianejar, eu te agradeço.

Fernando Canto

* Publicado no livro EquinoCIO, de 2004.

PIRA – Conto de Fernando Canto

Conto de Fernando Canto

Meu filho nasceu com uma pequena chama na cabeça e a mãe dele morreu de parto, inflamada. Mesmo assim, à revelia dos nossos familiares (pelo perigo que representava à sociedade, dizendo eles), eu o criei em outra cidade protegendo-o sempre com um chapéu de água que inventei para que ele não fosse discriminado pelos vizinhos nem sofresse bullyng na escola.

Eu vivia solteiro, mas era feliz com o desenvolvimento físico e intelectual do meu filho. Era ele que acendia as fogueiras de nossa rua no tempo das festas juninas. Acendia meus charutos Coyba, que um amigo importador me trazia de Porto Rico e dizia que eram cubanos e nem titubeava em acender o fogão de lenha nos nossos churrascos domingueiros e qualquer coisa que precisasse de fogo. Eu o chamava carinhosamente de Pira, uma alusão à pira dos Jogos Olímpicos.

Mas Pira era um menino levado e gostava muito de ver o rio passar com suas ondas grandes na baía. Ficava encantado com aquilo. Dizia que queria aprender a nadar, que também queria tomar banho de chuva como os outros meninos da sua idade. Mas eu não o incentivava. Sabia que poderia ser perigoso só para ele. Sua chama não podia apagar de jeito nenhum.

Num desses churrascos apareceu a loura Yurgueline, uma gostosona bem brasileira de bunda grande e peitos fartos, indisfarçavelmente siliconada. Não resisti e a cantei. Acabamos na cama.

De manhã acordei sem o cheiro gostoso do café do meu filho. Fui à cozinha e não o vi. Abri a janela e o avistei caído na lama da chuva que caíra à noite toda e eu nem pude perceber.

Eu o levei para dentro e chamei a ambulância. Antes que ela chegasse ele abriu os olhinhos, sorriu parecendo feliz, e acendeu, bem fraquinha, pela última vez sua chama da cabeça.

Verônica, a submersa (conto porreta de Ronaldo Rodrigues)

 
Quando Verônica chegou em casa eu era uma criança a mais numa família de noventa e oito irmãos. Naquela cidade eram comuns famílias numerosas, que envelheciam muito cedo.
 
Verônica, quieta, tranquila, limitava-se a permanecer no fundo do tanque que lhe fora destinado. Comia pouco, apenas algumas algas que brotavam nas paredes do tanque. Parecia resignada, mas havia algo de resoluto em seus movimentos. Uma silenciosa determinação. Uma calma revolucionária, que tanto afligia quanto encantava. Sua diáfana presença a tornava forte, intacta.
 
Verônica gostava da minha companhia. Nos entendemos bem desde o primeiro olhar. E sem trocar palavras. A cumplicidade de nosso silêncio nos bastava. E nos fortalecia.
O silêncio selou um pacto entre nós. Eu arquitetei um plano para tirá-la daquela casa onde aprisionavam lindas mulheres em tanques frios e não davam a mínima atenção. Deixavam lá, no fundo do quintal, como prova de algo que eu não conseguia compreender.
 
Verônica era altiva e simulava distância de sua condição de prisioneira. Quando eu entrava para dormir, ficava imaginando Verônica entre as pedras do tanque. Linda. Enigmática. Verônica.
 
Finalmente, chegou o dia de realizar o plano. Acordei bem cedo, antes de todos. A casa era enorme e foi trabalhoso atravessá-la no escuro, desviando de tantas redes.
 
Eu estava fugindo de casa levando Verônica num aquário gigantesco, roubado no dia anterior. O aquário, preso a uma plataforma com rodinhas, era frágil, mas daria para chegar até o rio.
 
Rapidamente, Verônica foi remanejada do tanque para o aquário. Tudo aconteceu conforme o plano e chegamos ao rio antes que dia clareasse. Eu estava esgotado pelo esforço de empurrar aquele aquário imenso pelas trilhas tortuosas da floresta. Verônica me animava com seu olhar completo, inquebrantável.
 
E foi com o olhar que Verônica me fez compreender que nossa história de amor era impossível. Eu não poderia acompanhá-la, por não poder viver dentro d’água. Ela não poderia ficar comigo, por não poder viver fora d’água. Era uma barreira definitiva. Eu precisava compreender.
 
E compreendi. Verônica foi lançada ao rio e mergulhou bem fundo até desaparecer. Antes, acenou com os olhos, que transbordavam lágrimas iguais às minhas. A lembrança de seus olhos ficou comigo pelo caminho de volta para casa e por toda a minha vida.
 
Outras mulheres foram morar no velho tanque, ao longo dos anos. Belas e silenciosas como Verônica, que também precisavam de liberdade. Mas eu já estava velho demais para pensar em libertá-las. Como disse no começo desta história, envelhecia-se muito cedo naquela cidade.
 
Ronaldo Rodrigues

EDESSA MEDITABUNDO – Conto porreta de Fernando Canto

Conto de Fernando Canto

Solidão.

Há semanas trabalhava intensa e duramente na pesquisa. Tese de doutorado. Haveria de entregá-la no prazo.

A mulher lhe escrevera, mandara encomendas pelo correio nem sabia quando. Não abria e-mail, nem ligava para as redes sociais. Talvez algumas cartas estivessem na portaria. Não. O porteiro lhe teria entregue.

Abriu a lata de atum e o esquentou na frigideira suja, usada mil vezes. O frigir despertou-lhe para alguma coisa. Correu aos livros, consultou-os e escreveu algo num papel sobre a mesa desarrumada que só ele podia entender. Comeu parte da massa compacta com xarope de guaraná diluído em água e, logo após, como se comemorasse, deu um arroto de arrebentar suas próprias entranhas e foi deitar-se nas almofadas espalhadas pelo pequeno apartamento. Ali, há tempos, guardava imemoriais fragmentos de experimentos trazidos do laboratório de sua universidade de origem. Já obtivera bons resultados, estabelecera uma metodologia um tanto quanto complicada para o cruzamento de variáveis. Só ele entendia.

Por ser um voraz usuário do computador vinha comprovando velhas hipóteses até então refutadas pelos seus colegas pesquisadores de todo o país. Uma vitória ali outra acolá, um insigth acordado, uma sacação num sonho. Tudo lhe fascinava. Era um apaixonado pela ciência. Quase nunca dormia porque se ocupava fazendo anotações, lendo e escrevendo como um louco no teclado do seu micro. Mas vencia o tempo a caminho da glória. Ou no mínimo de um salário melhor. Quem sabe obteria mais prestígio dentro da comunidade científica. Era brilhante. Seus colegas haveriam de admirá-lo e de respeitá-lo mais e mais. Com certeza sua tese seria aprovada com louvor pelos sisudos e exigentes doutores da banca examinadora.

Não fumava mais. Pudera. O corpo franzino não aguentaria nem mais um trago. Estava proibido de fumar, beber álcool ou ingerir qualquer droga, mesmo calmantes, analgésicos e vitaminas sem consentimento médico. Seu médico lhe fora enfático: – Ou larga ou não acaba a tese este ano. Deixou o cigarro, mas abusava de tudo. Não se alimentava bem, só comia enlatados, pão dormido, macarrão, quando lhe dava vontade ou quando se lembrava que seres humanos também comem. Adorava porcaria. Daí a dor que sempre sentia no estômago, um sofrimento a mais que o deixava louco de se enrolar pelo chão atrás de algum remédio porventura perdido na bagunça daquele minúsculo apartamento, mas tão cheio de bagulho.

Nessas horas de dor, a lembrança da infância. Brotava a insegurança. Cadê mamãe? Um misto de ternura e desespero. Cadê minha mulher? A solidão doía, a lembrança doía. Ele se recorda, tentando lenificar a dor. Seria entomologista. Ah, seria. Da sua paixão por insetos nasceria um cientista respeitável. Dos seus estudos resultariam proveitos econômicos tão grandes que a História não lhe olvidaria. A Nação lhe seria eternamente grata. Da função dos insetos na natureza tiraria o que de melhor fosse para o desenvolvimento da ciência e, claro, para beneficiar todos os seres humanos. Um idealista. Modesto. Virtuoso. Não precisaria ficar rico com suas descobertas e patentes. Bastaria que lhe financiassem ousados projetos de pesquisas, se possível dentro do país. Por isso estudou Biologia, curso inexpressível numa universidade pública de pequena importância. Por isso, pensava, com seu nome a tiraria do marasmo científico.

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Atrás de tanta vontade. Porém, um trauma. Ainda estudante – monitor concursado de entomologia – coletava insetos na floresta quando inofensivos percevejos saltaram de um arbusto para sua roupa. Eram insetos coloridos, de uma espécie jamais vista por ele. E pelo que lembrava, nunca a vira catalogada nas enciclopédias de seus professores. – Uma espécie não identificada ainda, pensou, eufórico. E no embaraço da emoção explodindo tentou capturá-los. Eles saltavam para outros arbustos deixando no ar um cheiro tão peculiar que o candidato a cientista hesitou na empreitada da captura. Mas prosseguiu. E ao agitar desastrosamente a folhagem, o odor dos percevejos se espalhou pelo ambiente de tal forma que o ar parecia se solidificar como um enorme bloco de concreto sobre seu corpo, a lhe prender e a lhe impedir de se mover. Na luta desesperada viu escorrer pelas mãos o que seria sua primeira conquista profissional. – Já pensou? Um inseto com o meu nome?

Encontraram-no em uma posição ridícula, estático com uma estátua equestre, no meio do mato. Os olhos arregalados, um fóssil conservado em bloco de gelo. Do jeito que estava, duro, foi levado ao primeiro posto médico pela equipe de alunos que monitorava.

Do acontecimento inopinado adveio-lhe alcunhas abomináveis e um recolhimento de muitos dias. Quase perdia o semestre. Quando conseguiu superar o fato, superou-se a si mesmo. Antigas veleidades viraram obsessão: haveria de ser entomólogo, ainda que lhe chamassem de Múmia de Barata em alusão à Metamorfose de Kafka, e de Edessa Meditabundo, uma espécie de percevejos fedorentos. E que rissem ao cruzarem com ele nos corredores do campus.

Débora, uma caloura, foi a única que o compreendeu. Jamais tocava na história inacreditável. Acabou casando com ele logo após terminar a graduação. Mas ficava lá, em sua cidade, cuidando do filho, morando na casa do sogro. Fez um mestrado medíocre na mesma universidade e nela tornou-se professor depois de um concurso muito disputado.

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Doía a solidão. Doía, doía.

Ás favas a solidão, as lembranças, a dor. Rompe, de repente, com o pensamento. A decisão é tomada. Vai descer ou acaba pirando. Antes, porém, olha para o PC e o notebook sobre mesinhas, olha as paredes do cubículo… Desenhos, mapas, quadros, tabelas, referências, classificações. Tudo ali, pregado com durex.

Pediculos humanus humanus / Ischioleneho wollastoni / Coleoptera. / Pyridae, Lampyridae / Periplaneta americana / Coleopteros / Homoptera / Cicadidae / Paraponera clavata / Tineola bisselliélla / Fulgora spp. Schistocerca americana / Apis mellisfera / Soolenopsis beminata / deptera. Culicidae / megalopsy lanata / Sinoeca cianea…

E, atrás da porta de entrada, em letras garrafais:

EDESSA MEDITABUNDO

(Percevejo-filho-duma-vagabunda-
Não-é-o-mesmo-que-vejo)
Vou a fundo
Vou a fundo
Para te encontrar
Viro o mundo
Ou não me chamo

EDMUNDO

Ele come, por fim, o resto do atum, bebe mais guaraná, relê seu poema com orgulho, apaga a luz e sai.

No hall do edifício tudo é silêncio. O porteiro dorme sem roncar.

O doutorando agora hesita em abrir a porta que dá para a rua porque lá fora também é só silêncio. E sua solidão novamente toma conta do corpo, fragmenta a alma e corta recônditas memórias, intuindo um assalto do futuro. Há pouca luz no ambiente. O porteiro dorme, a cidade dorme. A cidade está morta. Raios de luz projetam as sombras de um pé de ficus belga do jardim no teto e nas paredes dos edifícios vizinhos. O pé de ficus belga parece fazer um movimento humano nas colunas que sustentam o prédio. Mas é só impressão. Fruto do cansaço, ele pensa. Anda em voltas pelo jardim e então resolve subir. É madrugada, o dia está para nascer. Não vale a pena sair pelas ruas de seu bairro a essa hora.

Na passagem encosta no pé de ficus belga. Ele não percebe, mas sua camisa está cheia de bichinhos coloridos. Entra no elevador, aperta o número 19 e solta devagar, deixando um cheiro podre pairando por todo o condomínio.


Edessa meditabundo abre a janela. Respira com dificuldade porque o ar lhe solidifica o corpo aos poucos. Filigranas de luz empurram cumulusnimbus espessas e amedrontadoras no dia que já nasce apertado.

Lá embaixo o gás carbônico flutua sobre o asfalto.

Desta vez o percevejo não hesita: – Que doa a solidão!

Com esforço estende as asas membranosas. Dá um arroto de despertar a cidade e salta em busca de alimento.

O JULGAMENTO – Conto de Alcy Araújo – (contribuição de Fernando Canto)

Conto de Alcy Araújo (contribuição de Fernando Canto)

O juiz entrou com sua toga e sentou-se gravemente na cadeira negra de espaldar alto. Fez-se, então, um silêncio que podia ser cortado com uma faca.

Com a chegada do juiz, aconteceram as coisas mais comuns, já previstas em lei, como inquirição de testemunhas, etc, etc.

O réu, vestido com uma túnica azul, de asas e auréola dourada, parecia não prestar atenção a nada, salvo ao voo de uma pequena borboleta amarela, que estava na sala há temos imemoriais.

O promotor levantou e fez a acusação, erguendo os braços para o alto. Outras vezes apontava o dedo nicotinado para o réu que olhava a borboleta. O juiz, muito grave, piscava por trás dos óculos. Os jurados fingiam muito interesse, enquanto, às escondidas, comiam pipocas. E quanto mais comiam pipocas, mais pipocas apareciam. Todas as pipocas do mundo estavam ali.

As palavras do promotor cerziam a acusação, saindo lisas e claras. Mas eram absorvida elo candelabro de cristal e desapareciam completamente. Cada qual à medida que escorregavam da barba do orador. Não ficou nenhuma na sala, por mais estranho que pareça.

O advogado gordo, que lembrava um pato obeso, comia as folhas de um grosso processo, lentamente, sem pressa, durante todos os dias em que falou o promotor que, ao terminar a sua peça acusatória, tinha a roupa em tiras e os cabelos brancos e compridos.

Então o advogado, com o ventre cheio do processo, se levantou do saco em que estava sentado e falou ..Mas ninguém ouviu a sua voz. Foi um silêncio angustiante. Para quebrar o silencio um velho gritou nas galerias. Aí aconteceram muitas coisas inesperadas. Todo mundo gritou para apagar o silêncio.

O juiz com as listras verdes da toga, aparecendo mais acentuadas e emanando uma certa iridescência, cresceu na cadeira. E bateu com o malho na mesa. Pá-pá-pá! Até que o malho criou asa e saiu pelo forro.

Nem assim cessou a gritaria. O meritíssimo, sem malho, pegou um dos braços amputados que estavam sobre a mesa e começou a bater com ele, até que a mão se deteriorou e os dedos se espalharam entre os jurados e se misturaram com as pipocas e se multiplicaram.

Com pouco tempo, havia tanto de pipocas como tanto de dedos. Aí o réu deixou de olhar a borboleta e falou aflito: Parem com isto, pelo amor de Deus!

E todo mundo parou. O juiz viu que nada tinha afazer e esboçou um gesto para o advogado gordo. Ele também fez um gesto, que os jurados fingiram compreender, batendo das vestes os dedos e as pipocas.

A defesa foi feita de modo tranquilo, com o advogado falando em silêncio. Quando muitas luas tinham passado, os jurados se levantaram e se recolheram a uma sala de vidro, para deliberar. De fora, apenas, eram percebidos os seus gestos desesperados, durante dias e noites, em que cresceram os figos da figueira.

Foi preciso que o réu tomasse a deixar de olhar para a borboleta e falasse com a voz cheia de angústia: Vamos terminar com isto, pelo amor de Deus! Muito graves, com as suas roupas pretas, os jurados voltaram. Um deles, que aparentava ter entre sete e nove anos de idade, assumiu a universal postura de líder, e transmitiu o veredito: Culpado!

O teto rachou, no momento em que o jurado-líder pronunciou a palavra fatal e envelheceu quarenta anos. Uma porta se abriu e na moldura apareceu um homem sem braços. Olhou para os presentes, que imediatamente se transformaram em auditório do mutilado. Neste ponto ele bradou, com palavras roucas, que arranhavam a perplexidade geral: Que fizeram dos meus braços? Quem espalhou meus dedos pelo chão e o meu sangue pelos móveis?

Como ninguém respondesse, aproximou-se da mesa do juiz. Mandou que colocasse o braço no lado esquerdo. Já com o braço, pôs-se a juntar os pedaços do outro braço, os dedos e armá-los, como brincam com um quebra-cabeça. Quando o braço ficou inteirinho, com mãos dedos e tudo o mais, ele mesmo o colocou no lado direito. Ajoelhou-se e ergueu as mãos para Cristo, crucificado acima da cabeça do juiz.

Ouviu-se, de mistura com a prece do homem, a pergunta necessária: E agora? Vale ou não vale o veredito?

Vale! Gritaram uns. Não vale! Gritaram outros. Fez-se um tumulto dos diabos. Quando o cansaço de gritar fechou as bocas. O meritíssimo lavrou a sentença. O carrasco se aproximou, passou a corda sobre a’ cabeça do condenado no exato momento em que o Cristo desceu da parede tomou pela mão o que ia ser justiçado e desceu com ele as escadas que davam para a rua.

Como um serventuário queria varrer as pipocas pelo chão; todos foram embora, para contar lá fora o julgamento.


*Hoje o escritor, jornalista e poeta, Alcy Araújo, faria 95 anos. De acordo com o também escritor Fernando Canto, este é antológico na literatura amazônica e um dos melhores do fantástico, do mágico e do maravilhoso. Por isso ele, Canto, me enviou este belo conto hoje. 

“O Julgamento” é, de fato, o melhor trabalho em prosa do saudoso escritor, por quem tenho grande admiração. Hoje, nesta comemoração dos 95 anos do seu nascimento, considero primordial a publicação deste conto, pois ele nunca foi publicado em livro, só em revistas e em blog. Seria uma forma de homenagearmos o caríssimo escritor” – Fernando Canto.

FLAUTA – Conto de Luiz Jorge Ferreira

Conto de Luiz Jorge Ferreira

​De manhãzinha, seu Pedro descia os três degraus de escada, fechava a porta com chave, duas voltas, e seguia caminhando cabisbaixo como perseguido pelos sons da flauta que tocava nas horas de folga.

​Sempre aquele soprar enfadonho, semi-tonado, choroso e cabisbaixo como ele quando caminhava para o centro da cidade, onde funcionava a barbearia em que trabalhava há 40 anos, ali debaixo do antigo Grande Hotel do Pará.



Quando seu Pedro voltava, já começando a noite, alguns gatos atravessavam a rua, vindos do terreno baldio em frente e, miando, subiam pelo telhado de sua casa, entre as ervas ali dependuradas e telhas soltas cheias de limo.

Com a noite alta, os gatos atravessavam a rua e retornavam às suas moradas no terreno baldio do outro lado da rua. Então, terminava a folga dos ratos. A flauta se calava e o pessoal da república, a uma quadra dali, – Joca, Edílson Calouro, João Silva Santos, Veríssimo, Alípio e Edivaldo – acomodavam-se para estudar. Eu podia ver as notas correndo pela vala em meio à água rala que pouco cobria o lodo do fundo. Na rua tinha um cachorro vagabundo que, vez por outra, pulava na vala atrás delas, e as engolia de um só fôlego. Era ele fazer isso que a estudantada saía pela porta da sala e divertia-se ouvindo-o latir. Uns latidos meio miados, meio zunir de ratos, meio barulho de tesoura cega cortando cabelo.

Veríssimo era o mais moleque e o atiçava com uma toalha. Certa vez, foi tanta a algazarra que seu Pedro saiu na porta de sua casa e tocou na flauta um fado tão lamento, que as notas saíram da vala, da boca do cachorro, do barulho de uma rasga mortalha, e coloridas e em fila retornaram para a flauta. Seu Pedro fechou a porta e, mais depois, amanheceu. Tudo foi tão rápido que os degraus não tinham se levantado quando ele abriu a porta e desceu.

Noutro dia, eu soube que ele caíra e fora levado para o hospital. E que mais tarde toda a vizinhança o fora visitar. Uns levaram caqui, outros restos de mar, outros nacos de sol. Eu levei alguns gatos pardos e malhados e um rato, o que costumava cantar mais alto. Não consegui entrar.

À noitinha seu Pedro morreu. A vala foi aterrada pela Prefeitura. Chegou o carnaval e os gatos viraram tamborins. A flauta ficou pendurada na sala, guardando notas enferrujadas. Até que a casa ruiu. Os estudantes concluíram seus cursos e sumiram. Eu fiquei sozinho, escrevendo contos irreais sobre flautas, gatos, ratos, cães e valas. Coisas em que seu Pedro, também sozinho, nunca acreditou.

– Seu Pedro era canhoto?

* Além de contista, Luiz Jorge Ferreira é poeta, escritor e médico amapaense que reside em São Paulo e também é vice-presidente da Sociedade Brasileira de Médicos Escritores (Sobrames).
**Do livro Antena de Arame, Rumo Editorial- SP – II EDIÇÃO. 2017.