“Os patos”, de Rui Barbosa e o Zeca Baleiro

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Diz a lenda que Rui Barbosa, ao chegar em casa, ouviu um barulho estranho vindo do seu quintal. Chegando lá, constatou haver um ladrão tentando levar seus patos de criação. Aproximou-se vagarosamente do indivíduo e, surpreendendo-o ao tentar pular o muro com seus amados patos, disse-lhe:

“- Oh, bucéfalo anácrono! Não o interpelo pelo valor intrínseco dos bípedes palmípedes, mas sim pelo ato vil e sorrateiro de profanares o recôndito da minha habitação, levando meus ovíparos à sorrelfa e à socapa. Se fazes isso por necessidade, transijo; mas se é para zombares da minha elevada prosopopéia de cidadão digno e honrado, dar-te-ei com minha bengala fosfórica bem no alto da tua sinagoga, e o farei com tal ímpeto que te reduzirei à quinquagésima potência que o vulgo denomina nada.”

E o ladrão, confuso, diz:

“- Dotô, eu levo ou deixo os pato?

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Zeca Baleiro, faz essa mesma citação em sua música “Vô Imbolá”, mas num contexto diferente que pode-se aplicar muito bem ao nosso dia-a-dia, principalmente aos bucéfalos anácronos:

“- Como é por ignorância transito, mas se fosse unicamente para menoscabar de minha alta prosopopéia, dar-te-ia um soco no alto da sinagoga que por-te-ia mais raso do que solo pátrio!”

Não lembro onde achei isso, pois faz anos, mas é genial, não?

A HORA DA DANAÇÃO – Conto porreta de Fernando Canto

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Conto de Fernando Canto

Depois de vencer sete eleições consecutivas para deputado estadual, o escamoso líder do Partido da Estrela Negra, Maciel Fallabuonna enfim perdeu a disputa eleitoral naquele ano, possivelmente por causa dos inúmeros escândalos de corrupção envolvendo o seu nome.

Maciel tinha uma carreira impressionante pelo carisma que emanava até dos poros, desde que fora eleito como vereador pelo partido do governo nos tempos da ditadura militar. Seguia sempre os princípios de não ser nem oposição nem absolutamente situação, apesar de constantemente mudar de partido, de acordo com suas conveniências e as oportunidades históricas que se avistavam. Exerceu cargos mandantes na mesa diretora, sem se envolver diretamente com as decisões da presidência. Sempre tinha poder. Seus assessores chagavam a quase duzentas pessoas, porque sabia dividir a verba parlamentar de modo que todos ficavam satisfeitos. Somados os cargos de apadrinhados e familiares nos governos o número disparava e o colocava em vantagemimages (2) contra seus pares. Vencia sempre. Assim podia indicar quem quisesse nos governos que se aliava, principalmente na época das eleições ou depois que as águas da política baixavam, quando o poder executivo precisava do seu apoio, por meio de alianças venais veladas, dessas que a imprensa democrática jamais teria condições de descobrir. Sua assessoria era tão eficiente que até o presidente da Assembleia tentou comprar o passe do jornalista responsável pela divulgação das atividades de Maciel. Só tentou, porque Maciel segurou o seu passe com vantagens que só eles sabiam.

Maciel, contudo, tinha uma frustração. Nunca pôde ter filhos. Por ser muito ocupado também não se preocupara em adotar algucpi-pelicanoém ou mesmo pular o muro atrás de mulheres fáceis, que cercavam os poderosos e que notadamente usavam de truques sujos para engravidar de incautos e com isso garantir pensão em troca de silêncio. Nunca, porém Maciel se envolveu em orgias e escândalos sexuais. Mexeu com o jogo do bicho e outras contravenções penais; com o tráfico de drogas e lavagem de dinheiro, mas com mulheres, jamais. Era até respeitado no high society por causa disso. E sua mulher achava o máximo. Mal sabiam as pessoas que fora do Estado ele se metia com travestis em uma época que nem se falava em GLBT e políticas de diversidade de gêneros.

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Foi aí que começou a derrocada do deputado. Boatos começaram a circular e especuladores oposicionistas deflagraram um processo de degradação moral do deputado. Tudo começou mesmo quando um travesti do estado vizinho que migrara para Macapá o reconheceu no noticiário de TV. Foi só um pulo para a boataria deslanchar. Entretanto, a assessoria do deputado conseguiu desmentir tudo e levá-lo novamente à vitória para exercer seu sétimo mandato.

Embora tivesse vencido essa eleição, seria a última que ganharia, pois a dúvida, o preconceito e o machismo da população permaneceriam por mais quatro anos lhe espezinhando a moela, falando sobre seu gosto por homens ”montados” de mulheres. E uma vronaldo_com_travestiez no chão, diziam, o caldo não se junta nem com língua de cão sarnento lambendo e fuçando. Apelidos, ditados populares jocosos e discursos insinuadores fizeram o inferno do legislador, que mesmo ganhando muito dinheiro nos inúmeros processos por calúnia e difamação, não conseguia se desvencilhar das especulações. Ele sofria uma campanha pesada. Um vídeo em que supostamente ele aparecia em ato sexual com um travesti louríssimo foi disseminado na internet e isso concorreu bastante para que perdesse a eleição pela primeira vez, após quase trinta anos de atividade política.

Mágoas deslizaram ao largo de sua boa vontade de sempre fazer projetos de impacto para a melhimages (3)oria do povo do estado que ele tanto amava. ”Um baque no coração”. “Porrada seca”, dizia. E andava triste, consolado apenas pela compreensiva esposa estéril. Chorava também por não ter filhos para continuar sua descendência política, sua “dinastia”, falava. Se a sorte lhe negara isso, a mente invejava seus pares e adversários que já haviam colocado os filhos nas trilhas aparentemente fáceis da política. Todos eram assim: contra o nepotismo, a corrupção e as injustiças sociais, irreverentes, lutadores e ideólogos. Depois se eximiam dos propósitos iniciais, sucumbiam ao dinheiro e se lançavam aos cães do mando dos mais poderosos.

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Aos ccanstock25890860inquenta e três anos, abatido pelos escândalos de corrupção e envolvimento em outras práticas criminosas, Maciel prostrou-se em uma depressão inédita em sua vida ainda jovem e saudável – produto da prática da musculação diária na academia instalada em sua mansão. Rico, mas sem o poder que lhe acompanhara a vida toda, gastou uma chuva de dinheiro para a cura dessa doença contemporânea.

Conseguiu se sair dela depois de longo tratamento e algumas perspectivas de voltar à política, dado o rol de informes que poucos ex-colaboradores lhe passavam pessoalmente, pois detestava ler jornais: uma fobia adquirida no poder quando sua assessoria só lhe passava clipes diários.

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Com o tempo voltou a ler tudo o que via pela frente, até que um dia viu uma notícia diferente: um concurso de melhor velório, em uma grande capital, promovido por uma revista de circulação nacional. Achou estranho, porque nem sabia que era comum postarem fotos de enterro de famosos na internet, de velórios glamorosos de famílias ricas e de personalidades do mundo da política. Era o culto à morte dos não-heróis. O capitalismo achou um outro nicho para driblar a crise e armazenar chuvas de dinheiro. Virou moda. A indústria de maquiagem para cadáveres se desenvolveu rápida e oportuna, assim como os serviços de decoração, floricultura, buffet e arquitetura moderna para túmulos e santuários, que também chegaram download (5)rápidos em sua cidade. A especulação tomou conta dos cemitérios e os ricos chegavam a comprar os pequenos lotes ao redor dos seus para erguerem capelas, templos e campanários climatizados, que chamavam a atenção e faziam a alegria dos frequentadores mórbidos e da rapaziada gótica. A Prefeitura urbanizou os campos santos, contemplando-os com linhas de micro-ônibus e praças de alimentação. Certos lugares tinham a concessão de cobrar ingressos para visitação, tanto era a sofisticação e a diversidade de atrações desse mercado.

download (6)Visitantes andavam de elevadores pelos subsolos onde jaziam os sarcófagos construídos ao estilo faraônico. Viam-se os corpos intatos das personalidades famosas, muitas das quais haviam sido enterradas em rituais patrióticos. Havia túmulos de diversos estilos. Alguns corpos ficavam em esquifes nos patamares um pouco abaixo do obelisco municipal que tinha em todos os cemitérios públicos, monumento obrigatório por Lei. O público era transportado por elevadores panorâmicos, por isso tinham o ingresso mais caro. Também havia a seção museológica dos mortos em acidentes trágicos que recebia vista de milhares de romeiros de todo o Estado. Eles digitavam em tablets ali mesmo vendidos, os agradecimentos pelas graças alcançadas pelas curas de suas doenças, ao mesmo tempo em que desejavam estar expostos juntos a seus santos.

De acordo com as suas religiões as pessoas também pagavam com peças de ouro um minuto de aconchego com as asas eletrônicas e confortáveis de anjos, querubins, serafins, potestades…. Cada categoria tinha um preço.

A noite era o período de maior visitação. Antigos darks e grupos de heavy metal faziam aARGENTINA-CERATI-DEATH-FUNERAL-GPN1RDJPR.1presentações no anfiteatro cantando uma mistura de gospel e protesto contra a vida. As encenações punham a morte de um longo vestido vermelho brilhante descendo ao palco com uma enorme foice de luz. A figura jogava de repente a foice e emergia no meio do público alucinado disparando um fuzil russo automático. Ninguém se amedrontava, pois se sabia que era a hora da morte, a hora da danação.

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Com o barulho do disparo na mente, Maciel saiu do transe, da concentração, meio tonto ainda. Pediu a um colaborador os detalhes do concurso de túmulos. Nada mais lhe restava, senão a morte e um enterro digno de um ex-parlamentar atuante.images (6)

Como o respeito pelos mortos mudava de configuração nestes tempos, ele apostou consigo mesmo que ganharia o concurso, mesmo que para isso tivesse que morrer. Começou a planejar suas exéquias contratando um arquiteto italiano especialista em cemitérios. Sua fortuna acumulada lhe permitia sonhar com o primeiro lugar em todo o Brasil. Bastava-lhe morrer. Antes, porém, escreveria sua biografia, onde a defesa das coisas a ele imputadas seria o foco principal. Morreria, ora se morreria. A vida não lhe interessava mais. Logo ele que nunca tivera tempo de se converter em uma religião porque fora de todas nas suas conveniências políticas em busca de votos. Por isso sabia os rituais.as_mulheres_choradeiras-E

Ao se preparar para a glória definitiva Maciel inventou uma liturgia que era a mistura de vários ritos de encomendação das almas de religiões diferentes. Mandou imprimi-la para que os presentes recitassem desde a transladação do corpo no carro de bombeiros da Assembleia Legislativa ao cemitério, quando os discursos e a pomposidade explodiriam sobre as suas antigas eleitoras previamente bem trajadas com as cores do seu último partido político, e bem pagas para serem carpideiras e mistificadoras da sua obra.Quando-eu-morrer-por-Sponholz1

O ex-deputado escolheu um modelo de se matar que não viesse a agredir ou mutilar seu rosto e estaria barbeado e maquiado conforme suas instruções. No dia marcado e tudo em segredo, sua mulher estranhou um certo entusiasmo, depois da depressão que o atormentava. Terminou descobrindo o plano mórbido. E ameaçou contar tudo à imprensa. Maciel, no entanto, estava irredutível e decidiu morrer de qualquer maneira. Dominou a frágil esposa e a prendeu num quarto.

Seu plano seguia de acordo como que previra, inclusive com a inscrição do seu túmulo no concurso da revista. Partiu para o ato final. Na sua hora da danação os olhos esbugalhados de um doente depressivo, injetados de problemas e de remédios “tarjas pretas”. Estava o deputado mortinho, obstinado no seu desejo de imortalidade em forma de monumento. Feneceria, cleao-cachorro-tumulo-rio-550_thumbonforme imaginou, congelado dentro de um freezer após se dopar com uma overdose de valium.

Seguiram as instruções deixadas, mas o deputado não ganhou sua última eleição.

Mercedes, encontrada e liberta, achou que seria um gesto desnecessário tanta pomposidade para o morto e resolveu economizar aqui na terra, preferindo um túmulo mais barato para garantir o seu futuro, já que a justiça iniciara o resgate dos bens acumulados do marido em seus últimos mandatos.

As que se chamam Flávia… – Conto porreta de Ronaldo Rodrigues sobre a chegada de outubro

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Conto de Ronaldo Rodrigues

– Outubro é muito perigoso!

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É preciso segui-la. Sinto isso logo que a vejo na livraria. Está folheando uma revista, sem muita atenção, fixando-se apenas nas fotografias. Parece estar ali com o mesmo propósito que eu, matando o tempo até voltar ao trabalho.

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– Outubro é muito, muito perigoso!

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Ficamos lado a lado, embora a mulher permaneça como se só ela existisse. Tenho a visão no livro que folheio sem qualquer interesse e a atenção totalmente voltada para a mulher. Ela fecha a revista decididamente, olha para o relógio e o percebe parado:

– Sabe as horas, moço? – Pergunta, altivamente.

– Nã… Não! Não… sei… – Gaguejo, respondendo.

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Quem sempre me dizia isso era o Capitão Nemo:

– Tenha muito cuidado, menino! Outubro é muito perigoso!

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Ela deixa a revista na estante e dirige-se à portaria. Confere a hora e acerta o relógio. Sai da livraria e eu continuo olhando aquela mulher, agora através do vidro da vitrine. Ou será que não existe vidro algum? Meu olhar é que fez a parede tornar-se transparente?

Pergunto o motivo do perigo de outubro e ele responde, depois de longo silêncio, os olhos em transe, na direção do mar:
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– É em outubro que começamos a enlouquecer! É em outubro que costumam surgir as sereias!

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Ela atravessa a rua. Saio da livraria, disposto a segui-la, e paro na esquina. Contemplo, então, o espetáculo da rua silenciar-se para a passagem daquela mulher. A paisagem urbana torna-se repentinamente quieta, mas com uma acelerada pulsação interior que começa no asfalto e termina/continua no meu peito.

Ela entra num edifício e eu continuo seguindo seus passos. Ainda não me percebeu e acho que isso não acontecerá nunca. Ela aguarda a chegada do elevador junto a mais três pessoas. Incorporo-me ao grupo e passo a esperar também.

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Todos dizem que não devo dar atenção às palavras do Capitão Nemo. Dizem ser louco tanto o Capitão Nemo quanto quem o escuta. Mas eu digo que não. É preciso buscar o sentido das palavras, principalmente das que nos parecem mais delirantes.

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O elevador chega, nos recolhe e inicia sua lenta subida. As pessoas vão ficando em seus respectivos andares até restar apenas eu e a mulher. Como música de fundo, meus batimentos cardíacos ecoam nas paredes do elevador confundindo-se com a palavra outubro.

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Outubro. Agora compreendo claramente seu perigo. O Capitão Nemo ficou aprisionado em sua louca lucidez, nos destroços do seu navio, enfeitiçado por uma sereia. Eu estou preso neste elevador atraído por uma sereia. Aqui ficarei para sempre, aguardando todos os dias aquela mulher maravilhosamente perturbadora cujo nome conheço apenas a letra inicial (F), que vi uma vez em que ela abriu rapidamente a agenda.
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Todos os dias, quando ela sai do elevador, ainda sem notar minha presença, recordo as palavras do Capitão Nemo, que todos acreditavam serem palavras de um louco:

– É preciso ter muito cuidado com as sereias de outubro. Elas são cruéis e nos enfeitiçam com desejos intocáveis. Principalmente, meu filho, as que se chamam Flávia…

* Este conto foi publicado em 1995, na coletânea Novos Contistas da Amazônia, em Belém, resultado de um concurso promovido pela Universidade Federal do Pará. Tempos depois, o conto inspirou a HQ Outubro, do cartunista Paulo Emmanuel, premiada em dois salões de humor. Isso mostra o quanto este conto é quente.

Macapá já se anunciava para mim, pois o livro trazia contistas que só fui descobrir aqui, como Archibaldo Antunes e Ray Cunha, e apresentação do grande Fernando Canto.
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Gosto muito deste texto, creio que seja um ponto alto da minha carreira de contista, que ofereço agora como homenagem, digamos assim, ao mês de outubro.

Ronaldo Rodrigues

AZUL – Conto de Luiz Jorge Ferreira

Conto de Luiz Jorge Ferreira

O primeiro cavalo era o que trazia a cauda toda ensopada de orvalho. Do terceiro em diante, só insetos, restos de dia, pedaços escuros da noite e sons de puns de dragões. Para ela, presa a uma cadeira de rodas, era uma alegria ouvir o barulho da cavalgada e, mais ainda, adivinhar a ordem de chegada de cada um deles pelo tropel. Quando era menorzinha, caíra gravemente da bicicleta e machucou muito a coluna vertebral.

Desde então, não andava mais. Quatro anos, dos oito que possuía, acostumara-se a ser colocada próxima à janela e observar quase que diariamente a passagem dos cavalos. Quando eles não vinham, distraía-se observando o voar dos anuns lá no milharal, ou então quedava-se a escutar a conversa animada dos espantalhos medrosos da chuva, reclamando do sol e xingando as joaninhas que lhe causavam cócegas nas pernas.

Por isso, quando o primeiro cavalo parou para conversar com ela, animou-se muito. Fez amizade e deu lhe restos de bolo de milho que comera no café da manhã. Depois, apresentou-o aos anuns e mais tarde aos espantalhos. Uma tarde, quase foram pegos jogando baralho e apostando pétalas de girassóis.

Hoje, não amanhecera bem. Não conseguia comer e tinha febre. A noitinha, surpreendentemente, sentiu vontade de esperar os cavalos na frente da casa. Tentou com esforço levantar e conseguiu. Suas pernas haviam ficado leves. Foi como se flutuasse até o terreiro. Escutou o tropel. Eles já estavam chegando quando caiu da cadeira de rodas. Escutou o choro dos que ficaram dentro de casa. A que chorava mais alto era sua mãe. Mas nem se importou. Muito menos com os gritos dos anuns: “- Lá vai ela! Lá vai ela!” E nem com os acenos dos espantalhos. Montou no primeiro cavalo e saíram cavalgando. Podia ser que fosse longe, mas parecia tão azul…

*Luiz Jorge Ferreira é amapaense, médico que reside em São Paulo e vice-presidente da Sociedade Brasileira de Médicos Escritores (Sobrames).

A SUCURI – Conto indígena de Fernando Canto

 

Era ainda princípio de mundo quando Ianejar já havia criado os seres que mais tarde iriam compor o conjunto de animais sobre a terra. Todos eles tinham a mesma aparência, falavam a mesma língua e não mostravam nenhuma diferença nas suas práticas e conhecimentos da vida. Tinham música e flautas do turé para realizarem seus rituais, mas não possuíam cores.

Só a floresta tinha cor. Coube, então a Ianejar, durante uma grande festa, promover a separação entre homens e animais, para os quais destinou um espaço diferenciado para organizar, assim, a vida em sociedade. Na festa os homens e animais cantavam e dançavam, até que uma grande parte desses primeiros seres que dançavam caiu no rio e se transformaram em peixes, que passaram daí em diante, a servir de pasto aos homens. Outros viraram cobras aquáticas que continuaram vivendo no fundo dos rios, e só se comunicavam com os pajés, porque continuavam gente.

No local em que viviam havia uma enorme caverna sob uma montanha de pedra, onde morava um ser muito temido e que foi morto pelos humanos. Ao cair na beira do rio eles lhe abriram o ventre e extraíram seus excrementos, que eram todos coloridos. Então fizeram outra grande festa e se pintaram com as cores deixadas pelo ser. Não perceberam, entretanto, que no ventre do cadáver do poderoso ser eclodia o ovo de uma enorme sucuri que foi crescendo, crescendo, durante a festa que realizavam.

De repente ela surgiu afugentando os convidados que partiram voando para o céu se tornando os primeiros pássaros. Alguns se embrenharam em todas as direções da floresta e viraram caititus, antas e capivaras, veados e jacarés.

A cobra-grande jurou se vingar dos homens e de qualquer animal que se pusesse em sua frente, furiosa porque mataram seu pai primordial. E se foi na direção do sol poente, levando águas e terras até fazer sua morada em um lago escuro, de onde sai de tempos em tempos, quando uma estrela de cauda aparece no céu da noite. Ela vem silenciosa para destruir o que os homens construíram às margens dos rios, sejam aldeias, cidades ou fortes de pedras. E no seu caminho em direção à foz do Grande Paraná, para onde vai trocar de pele, vai deixando escamas sobre as construções que destrói na trajetória avassaladora de sua eterna vingança. É por isso, então, que para se protegerem de si mesmos e dos perigos da floresta, até hoje os homens só constroem suas casas umas juntas das outras nos lugares onde ficaram as escamas deixadas pela sucuri.

A Seringa contaminada de Bambo, o Zagueiro do Futlama (Conto porreta de Fernando Canto sobre o “Bambolê”, que aterrorizou Macapá nos anos 90)

São três da tarde, o sol está quente que dói. E o cara na zaga deixa a bola passar: gol contra o nosso time. De novo ele faz isso. Tamanho cara, eu penso, parece que faz tudo pra gente perder. Culpa do Juninho que não veio hoje porque arranjou o primeiro emprego e indicou o negão aí que é só tamanho e nem sabe pra onde a bola vai. Dou-lhe uma esculhambação, mas ele não liga. Nem tem como substituí-lo, hoje é segunda-feira, tem uns quatro do nosso time trabalhando no comércio. Eu não estou nem aí… Sou funcionário público mesmo…

A maré vem enchendo e a gente vai ter que abandonar o campo na praia. Nosso time era quase imbatível, mas esse cara… Putz! 5 X 0 e saímos ridicularizados pelo adversário. Agora todo mundo vai saber. Vão nos gozar o ano todo. Isso nunca tinha acontecido, éramos os reis do futebol de praia, do futlama, digo, como chamamos aqui em nossa cidade, porque o campo que utilizamos é o leito do rio, que tem uma sedimentação mais sólida depois que a ábardupedrogua seca. Jogamos entre as marés, até o rio encher. E o nosso time, o “Mergulhão”, era o melhor. Era. Antes desse vexame.

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É Sexta-feira. Estou no bar da Preta, lá perto do trapiche, tomando uma loura, esperando a namorada e a lua cheia que vem linda, brotando do meio do rio, quando vejo a confusão: gente correndo, polícia chegando com suas sirenes e luzes e um negão descontrolado:

Vou contaminar todo mundo, eu. Ninguém encosta que eu faço o que digo.

Caramba! É o cara ruim de bola da defesa do nosso time. Está com uma seringa na mão e aparenta estar drogado. Os garçons dizem que é um tal de “Bambo”, um menor delinquente, destemido e inconsequente. Fugiu novamente do Centro que abriga menores infratores e quer assaltar todo mundo. Esconde-se atrás de uma coluna e salta como um gato sobre um casal. Ameaça enfiar a seringa na moça, mas ela desmaia e o rapaz foge covardemente sem prestar auxílio à namorada. Mesmo na mira dos policiais “Bambo” consegue segurar uma garçonete do bar contíguo ao que eu estou escondido junto ao balcão. Ela tenta se desvencilhar dos braços enormes do agressor, mas ele a aperta cada vez com mais força. O garçom que se esconde ao meu lado me diz que o cara já contaminou duas pessoas com o sangue dele, que tem AIDS.

Falo baixinho, cético, quase sussurrando: – Mas como esse cara é aidético… Desse tamanho? Acho que ele está blefando. A polícia se aproxima e o cara está irredutível no seu propósito.

– Joga a seringa no chão. Ordena o soldado, segurando o revólver com as duas mãos. – Larga a moça e joga isso logo.

Os olhos do bandido volteiam quase saindo das órbitas, de um jeito que procuram algo no céu. São grandes e negros. Lá fora o rio enche e as ondas do Amazonas se embrabecem com o vento invernal. A lua sai por entre nuvens escuras e uma chuva contumaz desaba na Beira-rio. Ele me vê e parece me reconhecer. Caraca! Ele me viu e diz ao policial que quer trocar a moça por mim. Só assim poderá negociar sua vida.

Um tenente chega comigo e pergunta se eu o conheço. Titubeio na afirmação positiva. Surpreendentemente, e como que hipnotizado por aqueles olhos, caminho em sua direção desobedecendo às ordens do oficial. Peço que não atirem e me posiciono na frente dele. Ele larga a garçonete e me segura pelo pescoço. Dá pra ver a seringa com uns 200 ml de sangue dentro dela. Um sangue claro, semelhante a suco de groselha. Falo para ele:

– Te entrega ou eles vão te matar.

– Não vão, não. A imprensa já tá chegando.

– O que tu queres comigo?

– Quero jogar no teu time de futlama, no “Mergulhão”.

Fiquei mais lívido que quando fui trocado pela garçonete. Puta merda, além de bandido o cara é ruim demais. – Mas por que, cara? Pergunto.

– É que gostei do nome do time e sou amigo do Juninho.

Fiquei pensando, pensando. – Está bem. Quando tu saíres do Centro que tu estavas passa lá com a gente que vais ter lugar garantido, eu te juro.

Legal, disse ele. Eu sou gente boa, eu. Arrematou naquela linguagem própria de adolescentes pobres, membros de gangues suburbanas. Seus olhos eram grandes, mas tristes. Estavam marejados.

Ainda sob a mira dos revólveres dos policiais e sob o foco das câmeras de televisão e celulares de curiosos, ele largou meu pescoço e a seringa supostamente contaminada. Os policiais lhe deram voz de prisão e tentaram lhe algemar com truculência. Mas antes de entrar na viatura, “Bambo” conseguiu puxar do bolso traseiro da bermuda estampada de camuflagem militar, outra seringa. Ao mesmo tempo em que tentava se desvencilhar das pancadas, aplicou a agulha no rosto de um soldado. Levou imediatamente quatro balaços no peito e caiu no asfalto. Os policiais afastaram os repórteres e curiosos e saíram em velocidade com o corpo do menor e o militar que berrava de dor. Foi tudo muito rápido.

*******

Só me restava agora tomar mais uma gelada para aliviar a tensão, já que não fui intimado para depor na delegacia. A namorada chegou preocupada. Já sabia do acontecimento pelas redes sociais. E bebeu comigo para me consolar.

Ainda era cedo. A nuvem escura havia se dissipado e o rio bebia o brilho da lua fêmea. Estendi meu olhar sobre o Amazonas se enchendo de luar e vi um mergulhão solitário emergindo d’água, desenhando a silhueta acima da Pedra do Guindaste, voando na direção ao norte. Parecia uma alma escura a buscar desesperadamente seu ninhal.

Comentei com a namorada o quanto tudo aquilo havia me deixado intrigado. Até cheguei a filosofar sobre a imagem do mergulhão retardatário. Ficamos um tempão olhando o rio e bebendo cerveja. E não demorou muito para o céu se fechar novamente com raios e trovões e nuvens escuras bailando ao vento, a cobrir o magnífico luar.

Não são simplesmente nuvens de chuva, me disse o velho garçom, sorrindo com a gorjeta que lhe dei ao pagar a conta e justificar minha ida por causa da chuva que logo desabaria. – Quando matam um bandido por aqui acontece isso, me disse ele com calma.

– Olhe de novo.

Perscrutei o céu como quem busca desvendar uma ilusão de ótica desenhada. As nuvens eram bandos de mergulhões reunidos, voando em círculos, prontos para pescar nas águas profundas do rio naquela noite trágica.

Mercúrio em Virgem – Por Mayara La-Rocque

Por Mayara La-Rocque

Já te disse que a noite é prenha e que só a lua transborda. Certa vez escrevi isso, lá atrás, talvez eu tivesse a idade de meu irmão ou um pouco mais. Acontece que esses ares me voltam à cabeça, os daquela época – hoje a de meu irmão e dos amigos dele. Era um tempo em que eu escrevia pelas paredes do quarto e me arranhava em pensamento pelas ruas. As ruas desta mesma noite. Já te disse que ela é prenha e a lua continua a transbordar. Tudo ainda me cresce e apesar das luzes cheias de gentes que ofuscam, dos sinos que tocam, dos festejos que comemoram datas imprecisas – ninguém mais se lembra da história, quando foi que tudo começou, se era mesmo um deus que nascia ou deuses que morriam, mas vejo que foi desde então – os calendários estão atônitos, os noticiários se repetem na frente das igrejas, das praças, no homem que trucidou a mulher que chamou de sua, no corpo dessa mulher de pele e vias-lácteas violadas.

Contudo, tem algo ali entre a curva das mangueiras e a beira do céu quase a alcançar Mercúrio por cima de minha cabeça e que traz por entre as esquinas a queda de uma estrela, o tempo dilatado das ruínas. Não sei bem o que é, mas me afronta a memória como ostra viva, se assemelha a algo que talvez eu tenha lido ainda hoje – não bem em verbo ou carne ressequida, mas tinha gosto de vida, era fresco como orvalho entranhando as narinas; muito menos era palavra o que li, mas sim, o que eu vi tomou corpo e forma dos reencontros que tenho tido entre leitura e solidão.

Tudo isso já te disse. Então, tu preponderas e até refutas, indignado, pra quê tanta solidão? E eu te digo que dela o mundo está vazio, pois que é sempre muita gente sozinha em tumulto, muita fala ao mesmo tempo aglomerada, muita boca lotada de secura, muitos olhares perdidos por todos os lados a procurar, uma procura que desvia a procurar, procurar, procurar o quê? Sem solidão, ninguém sabe.

Mas eu dizia que as ruas ainda vivem nos meus passos. É quase sempre onde me faço ou descubro um pensamento, um caminho ruminando em algum lugar que ainda não conheço. Eu sei, todo mundo carrega tristezas, mas me pergunto – ora, veja, quem! – quem, realmente se dá conta por si e sabe de sua tristeza? Está bem, está certo, acho que, no fundo, todos sabem. E apesar das luzes tremendo o barulho que sibila, esse embaçado que carregamos frente aos olhos – e que dói até nas costas, meu Deus, eu sei que dói – apesar desse a-pesar, existe uma noite que é prenha. Está fermentando lá embaixo enquanto vivemos aqui na superfície: eu tenho fome, preciso, comer, minha garganta está seca, tenho sede. O que é a sede? Tu perguntas. Agora! Diz, tu tens sede exatamente do quê? Não sabes. Não sei. Tenho. Temos. Quero, e sabemos, queremos sempre mais. Toda-via, Deus meu, tem vida debaixo da terra e sei que tu ainda podes observar, ela percorre o giro da lua – decapitando as dormências e nos acordando na entrada dos olhos os zincos, as pratas e os metais e também as pérolas ativas do sonho que de heras vem se formando por debaixo dos oceanos feito anzóis em suspensão; é enquanto olhamos a crista das ondas do mar que pescamos: a noite é sombra que reflete o brilho, movimento que vai parar nos olhos; a fundo, da ponta dos cílios também tem um oceano querendo jorrar.

No momento em que estou indo para casa, lembro que tenho que comprar pão, também o café e outras embalagens, os ditos descartáveis, os resíduos manufaturados do supermercado, e os resíduos humanos seguem comigo, penso na minha vida adulta e nos meus projetos inacabados. Sinto fome. Continuo a especular, é sempre tudo mera especulação: quando chegar em casa, preparo algo para comer e é exatamente aí que, de repente, é como se tudo que estivesse na boca do estômago em estado de latência, ruminando, fervilhando, chegasse até o limiar da goela e, ao ser mastigado, voltasse a ser engolido e fosse para o lugar de onde veio. Saciada a fome da superfície, tudo se esquece, e volta a dormir no âmago do sonho.

*Mayara La-Rocque é paraense, educadora, escritora. Publicou a plaquete literária “Uma luminária pensa no céu”, pela Editora Escriba, em 2017. (além de velha amiga minha e colaboradora deste site).

Gigantes – Conto de Luiz Jorge Ferreira

Conto de Luiz Jorge Ferreira

Eu brincava com bolhas de sabão quando vieram os gigantes, cada um deles trazia outros pequenos gigantes, que pensei serem seus filhos, mas soube mais tarde que faziam parte de um circo, em que as pessoas nasciam sempre com mais de cinco metros.

Sinos da Igreja de Nossa Senhora da Conceição, localizada no bairro do Trem, zona Sul de Macapá – Foto: Elton Tavares.

Eu vi quando um deles menorzinho, mas muito, muito grande, quebrou a torre da igreja e derrubou o sino que nos chamava para a missa nos dias de Domingo. O sino era verde por dentro, cheio de limo e espalhou este verde por muitos lugares.

Minha mãe assustou-se com a chegada dos grandes gigantes, não catou mais feijão,,não se demorou mais indo ao poço apanhar água, nem foi mais a casa de Dona Maricota, que era pertinho então eu pensei que estavam de mal. O cego Faustino que costumava sacudir a cuia com moedas cantarolando gemidos e quase uivos, agora pedia com um mexer de lábios. Tinha medo de com os seus lamentos, acordar os gigantes.

Eles ficavam na frente da televisão, riam e roíam as unhas e mexiam com as mãos entre os cabelos, depois atiravam no chão uns piolhões que possuíam o tamanho do carro de boi de Seu Jaime. Os piolhões corriam e começavam a cavar ate desaparecem entre a terra que ficava fofa e amontoada formando um morro, que depois subíamos. Era tal como escalar uma montanha.

Os gigantes apesar do fedor que exalavam, fomos nos acostumando com eles. Muitas vezes eu vi Seu Faustino entre os dedos dos seus pés, catando moedas. Ate mesmo os cavalos dos que apeavam a frente da venda de Quele, pastavam encostados aos pelos de suas pernas. Eu voltei a brincar com as bolhas de sabão e mamãe voltou a atravessar dois quintais para ir a prosa com Maricota, bastava entardecer.

Eu já tecia paneiros que vendia para os pescadores do Porto, quando os gigantes foram embora. Os menorzinho estavam pálidos e saíram arrastando os maiores e deixando enormes valados que acabaram por derrubar os montes abrir crateras e fazer com que aqueles piolhões pulassem de volta para o corpo deles.

O cego iniciou a cantar lamentos para pedir moedas e eu comecei a tecer enormes caixões de cipós e folhas de açaí, de maneira que para quem olhava de longe já não enxergava mais minha casa e nem mamãe conseguia sair para ir ao poço apanhar água e nem ouvia mais Dona Maricota gritar.

Ô vizinha!-Ô vizinha!

Dentro de casa era sempre escuro porque os enormes caixões impediam a entrada da luz do sol.E eu não conseguia parar de tece-los. Certa vez eu deitei dentro de um e morri.

Mamãe gritou tanto que estranhamente voltarão os gigantes e os piolhões. Agora tão pequenos, que para vê-los, ela precisou da lente dos seus óculos, uma sobre a outra. Ela se afeiçoou a eles. Passaram o resto de suas vidas, falando da minha vida aventureira e cristã.

E tecendo minúsculos paneiros e caixões. Construíram um sino de cipó, que todos os Domingos toca. Mas ninguém escuta.

*Luiz Jorge Ferreira é poeta e médico Macapaense criado no Laguinho, que atua em São Paulo. Ele também é vice-presidente da Sociedade Brasileira de escritores Médicos (Sobrames).
**Do livro “Antena de Arame”.

Minha (Elton) reação diante de textos como esse: 

O DITADO – Conto de Luiz Jorge Ferreira

Conto de Luiz Jorge Ferreira

Minha tia morreu jovem aos oitenta anos de um parto prematuro. Minha mãe morreu velha aos 16. Eu sobrevivi até hoje. Sobrevivi, porque Deus adoeceu e não viu que eu me escondia debaixo deste assoalho de tábuas podres onde eu moro. Eu e meus três cavalos: Açaí, Bacaba e Tucumã. São três belos cavalos garanhões, fogosos e brabos.

As proximidades do outono, Bacaba pariu um potro albino que eu chamei de Tucuxi. Uma anciã, que jogava búzios, disse-me que ele era filho de boto. Um velho Saci Pererê, que vinha lavar a ferida da perna no córrego, onde lavo os meus cavalos, disse-me ser ele filho de seu próprio pai. Um índio da tribo dos Tumucumaque, que eu conheci salgando peixe-boi no Porto de Santana, disse que ele era fruto dos sêmens trazidos pelas correntes marinhas, oriundos das noitadas dos marinheiros de Ulisses, que o engravidara assim como acontecera com Helena. O fato é que me afeiçoei tremendamente ao potro Tucuxi e ele a mim. Com a chegada do desmatamento e a transformação da floresta em pastagens, Tucuxi começou a se afastar e procurar ser aceito pelos bandos de cavalos que pastavam do outro lado do córrego, agora um rio de águas amareladas.

O clima começou a mudar e as noites foram ficando mais longas. O córrego onde eu lavava Açaí, Bacaba e Tucumã salgou-se. Um mateiro, cego de um olho, disse que isso tinha sido feito por um índio que salgava peixe-boi. O soldado, que patrulhava a fronteira entre o Amapá e a Guiana Inglesa, disse que foi o azougue. E um regatão, vendedor de perfume francês de duas cores e chita colorida transparente, disse que foi o Tsunami em Macacoari.

O fato é que com a transformação da água doce em água salgada, Açaí, Bacaba e Tucumã envelheceram, perderam os dentes, os pêlos, racharam as patas e encolheram as pernas traseiras. Em vez de relinchar apenas miavam. Tucuxi parecia uma canoa. Ficava flutuando como uma toiça branca pela extensão do córrego, agora um pequeno rio-mar.

Toda à noite de lua cheia, eu saia um pouco debaixo do jirau de tábuas podres e olhava para o firmamento. Como não via os olhos de Deus procurando-me, ia ao rio e lavava-me sob a intensa dor provocada pelo sal das águas na minha carne avermelhada e nas feridas aberta nos meus pés. Eu já estava criando cascos. Descobri olhando os rastros que eu deixava na lama da margem. Em mim, também, nasciam asas. Isto eu descobri pela grande quantidade de penas no rio. Estava translúcido, de pele muito alva, resultado do enorme tempo que vivia debaixo do jirau de tábuas podres. Escondido dos olhos de Deus.

Tucuxi ficava horas comigo. Eram dois albinos tomando banho despreocupadamente. Talvez pai e filho. Talvez anjos caídos. Talvez cavalos. Deus quando me encontrou morreu. Fiquei órfão. A lavadeira que batia as roupas esfarrapadas de encontro às pedras porosas do rio, disse para eu rezar. A bota que expelia óvulos debaixo da folha do mururé, para que o sol os fecundasse, disse para eu beber Andiroba. A brisa que acariciava o dorso das Cobras e Poraquês deu-me de costas. A prostituta, que se dependura na beirada dos barcos para vender-se em poucos minutos, ficou com pena de mim e deu-me um Curumim que, hoje, é: – Quem escreve o que falo.

A Pedra Encantada do Guindaste – Conto de Alcinéa Cavalcante

Conto de Alcinéa Cavalcante

Não me pergunte porque aquela pedra, ali no rio Amazonas, bem na frente da cidade de Macapá, é chamada de Pedra do Guindaste. Eu não sei. O que sei é que nela morava uma princesa de olhos claros e cabelos cor de mel. Sei também que em noites de lua nova, a pedra se transformava num imenso navio azul.

Açucena – é este o nome da princesa – foi trazida para Macapá para conhecer seu noivo González, um dos homens mais ricos da região, dono de terras a perder de vista, incontáveis cabeças de gado e minas de ouro. Era culto, elegante e bonito.

Açucena não o amava, mas não se opôs à vontade do rei.

Casaria com González, não tivesse visto certa manhã, um sorriso tão lindo, tão amplo, tão cheio de ternura, que se sentiu abraçada por esse sorriso. E aquele par de olhos? Ah, naqueles olhos brilhava esperança. E em Açucena nasceu a esperança de ser feliz, de amar, de ter um amor para a vida inteira.

Desistiu de González.

Pedra do Guindaste – Arquivo de Floriano Lima.

O rei e a rainha não aceitaram, afinal tinham prometido a mão da filha ao homem rico e promessa de rei tem que ser cumprida. Além disso, o dono do sorriso que encantou Açucena jamais poderia entrar num palácio, nunca – nem em sonho – poderia fazer parte da família real. Ele era negro, sem estudos e sem posses. Era um escravo que passava o dia inteiro carregando pedras, sob o sol escaldante, para a construção da Fortaleza de São José de Macapá. Trazia no corpo as marcas das chibatas, mas no olhar um brilho diferente, que iluminava a alma e o coração da princesa. Não era proprietário de terras, de gados, de ouro… mas era proprietário de esperanças, versos e ternura. Se descobriram apaixonados um pelo outro. Açucena todos os dias, antes do sol nascer, postava-se à beira do rio, quase ao lado do local onde estava sendo erguida a Fortaleza, para vê-lo passar e ser abraçada por aquele sorriso tão amplo.

Obrigada pelo rei a casar com González, Açucena decidiu fugir. Num final de tarde, quando a primeira estrela surgiu, ela jogou-se no rio e foi nadando, nadando, nadando em direção à Pedra do Guindaste e lá se escondeu da família, do mundo, do luxo, de González e de toda riqueza material.

Os mais antigos contam que todos os dias, antes do sol nascer, uma princesa surgia, como que por encanto, naquela pedra. Mas só era vista por pessoas extremamente apaixonadas. Conta-se também que em noites de lua nova a pedra, como num passe de mágica, se transformava num iluminado navio, mas só olhos cheios de ternura poderiam vê-lo.

Passados anos e anos e anos, um artista português esculpiu uma imagem de São José e colocou-a em cima da Pedra do Guindaste. Açucena sabia que São José era o santo padroeiro de Macapá e começou a rezar e pedir ao santo a graça de viver e ser feliz com seu grande amor.

A última ceia – Conto de @juliomiragaia

Conto de Júlio Miragaia

Não havia nenhum luxo naquela comemoração. A época de chuva umedecia os caminhos de madeira da ponte onde ficava a humilde casa, das tábuas encharcadas e cada vez mais escuras e enlodadas com o passar dos anos.

Dos três irmãos, apenas João havia conseguido, com suas economias, comprar uma roupinha nova, que não tinha nada de mais.

A ceia também não era o mais refinado dos banquetes, mas era a melhor refeição que poderiam ter naquela noite. Os enfeites, luzes compradas numa importadora e uma pequena árvore de plástico, completavam o ambiente natalino.

O cheiro de comida que vinha da sala e da cozinha se espalhava por toda a casa, fazendo junto com as canções evangélicas que tocavam num aparelho de som, com que aquela noite tivesse qualquer coisa relacionada a um sentimento de agradecimento entre todos os que ali estavam.

No centro da mesa foram colocados dois frangos assados, uma tigela cheia de risoto, um vatapá feito pela avó, dois bolos, um cento de salgadinhos e outro de monteiro lopes com brigadeiro. Uma garrafa de cinco litros de Cantina da Serra era guardada para que os mais velhos bebessem depois da meia-noite.

João, do alto dos seus quatorze anos, planejava passar o reveillón na casa do tio, em Belém, no bairro da Sacramenta. Além de contribuir com duzentos reais com a ceia da família, conseguiu juntar trezentos e oitenta para comprar as passagens para ir de navio de Santana até a capital paraense.

Foram longos meses, subindo e descendo de ônibus vendendo jujubas, amendoins e mentas para alcançar o objetivo. O dinheiro que juntava também ajudava a comprar comida para casa nos dias difíceis.

O pai, pedreiro desempregado, tinha feito bicos, pintando casas e lavando carros para conseguir algum dinheiro para o jantar de natal que fizeram naquela noite.

Havia uma felicidade não parcial, apesar das dificuldades daquela família. Uma felicidade em saber que estavam todos com saúde na casa, depois de um ano tão cansativo e injusto em diversas ocasiões.

Ninguém tinha comprado presente para ninguém. Mas a conversa e as brincadeiras fluíam pela sala, nos dois sofás e ao redor da mesa ainda intocada.

Por volta de onze e quarenta, a energia elétrica foi embora. Menos de dez minutos depois, ouvem-se quatro tiros. João, o terceiro filho da família, que viajaria sozinho pela primeira vez para Belém, depois de trabalhar duro, soltou um misto de gemido, grito e choro da cadeira onde estava sentado até o chão onde caiu. O choro e o grito da mãe e da avó saíram como que sincronizados, atravessando o som dos sapos e dos grilos da ponte.

A energia voltou meia noite em ponto. Os vizinhos se aglomeraram dentro e na frente da casa. João estava entre a mãe e o pai, no chão da sala, o corpo sem vida e as roupas novas ensanguentadas. Foi uma noite em que as horas se arrastaram desgraçadamente e o natal se revestiu de lágrimas e luto.

O dia iniciou com uma chuva tão forte que o lago onde fica a casa começou a transbordar. O vento forte e frio fazia as janelas da casa e o rosto triste de seus moradores tremerem.

Fez-se manhã, tarde e noite de natal e parecia que nunca mais pararia de chover. A ceia permaneceu intocada. A água invadiu o piso de madeira, lavando lentamente o sangue de João. E a vida daquela família, principalmente nas noites de natal, foi encharcada de tristeza e de uma estranha e profunda solidão.

Frases, contos e histórias do Cleomar (Parte II)

Meu amigo Cleomar Almeida é um competente engenheiro. O cara também é a personificação da pavulagem e gentebonisse, presepeiro e boçal como poucos que conheço. Um figura divertido, inteligente, gaiato, espirituoso e de bem com a vida. Dono de célebres frases como “ajeitando, todo mundo se dá bem” e do “ei!” mais conhecido dos botecos da cidade. Quem conhece, sabe. Na mesma linha da PRIMEIRA PUBLICAÇÃO sobre seus papos no Facebook, selecionei alguns de seus relatos na referida rede social. Boa leitura:

“Não vem dar teco no meu açaí, toma o teu que eu tomo o meu”. Pra eu deixar de ser enxirido.

Se eu, Cleomar, pego uma cagada que nem a que o Gilmar Mendes pegou do Ministro Barroso ontem, aproveitava o apagão e mandava avisar: Gente, queimou uns bagulhos aqui em casa e tô tentando arrumar, não poderei ir na repartição hoje. Pense numa lapada. (Em março de 2018, sobre o “mau sentimento).

Como é a vida! Lembro de um episódio nessa lida de engenheiro em que um potencial cliente me chamou pra acompanhar uma obra e que, por ser um serviço simples, ele me pagaria com “o da gasolina”. Na hora fiquei puto da vida, perguntei pra ele se achava que eu tinha cara de motor, virei as costas e saí dali indignado. Se tal proposta fosse feita hoje, nem ele teria condições de me pagar o prometido e nem eu me encheria de frescura em aceitar. (Durante a falta de combustível, em maio de 2018).

Ia comprar o AmapaCap pra ver se diminui essa lisura mas acho que primeiro vou me mudar pra Santana, pense num povo de sorte, só dá eles.

Já tô mordido com essas porcarias de goteiras, pior que só aparece quando tá chovendo. Parece o gás, que só acaba quando a gente tá cozinhando.

São estilo “Walking Dead” os carapanãs da minha casa, só pode. Tu entopes o quarto de veneno e vai caindo um por um, em meia hora já começam a se levantar, só que agora totalmente transformados, possuídos, com ódio no coração, dá pra ver a ira em seus olhos esbugalhados e sedentos de sangue. Coisa do Belzebu mesmo.

Nenhum “Fake news” foi tão devastador quanto o da faca no boneco do Fofão. Tinha até fogueira pra queimar o boneco do capeta. Tédoido!

Coisa boa mesmo é o cara ser desembargador federal, dia que tu acordas de cu sujo, tu bagunças com o domingo da galera toda. (Sobre o habeas corpus concedido ao ex-presidente Lula, pelo desembargador Rogério Favreto, do Tribunal Regional Federal da 4ª Região, no dia 8 de julho de 2018).

Você foi chegando aos poucos, ocupando cada espaço em minha cabeça, quando percebi já era tarde. Sai de mim calvíce da peste, logo eu, que era o Urso do Cabelo Duro.

Fala a verdade, tu tá mais puto por conta das folgas que tu perdeu, no fundo a gente sabia que não ia ganhar porra nenhuma. (Sobre a eliminação do Brasil na Copa do Mundo 2018).

Quer encontrar gente aru, é só ir na fila do caixa eletrônico, fôlego.

No meu entendimento, se o cara fez a comida, ele tá livre de qualquer obrigação com as louças, se eu cozinho, eu não lavo.

Se a vadiagem fosse remunerada, já teria feito uma grana preta, só nesse sábado.

Já tô cansado de tanto descansar, amanhã vou trabalhar de qualquer jeito. Meeeeentheeeera, ainda aguento ficar nessa vadiagem mais uns dez dias. Pra melhorar só faltava uma rede e uma frieira.

Ninguém, eu afirmo ninguém, teve um domingo mais tiricento de que eu. Sai de mim.

Tá decidido, vou votar no Dr Rey, ele tá prometendo que vai deixar todo mundo bonito, bora comigo bando de feio.

O Sanitarista (Conto porreta de Fernando Canto)

Conto de Fernando Canto

Depois de trinta anos ausente, o médico E. E. Spíndola avistou da aeronave o novo aeroporto da sua cidade natal e a placa de aço com os dizeres “Aeroporto Internacional das Ilhas Redondas Alberto Alcolumbre”. O dia estava amanhecendo em Macapá. Ele apanhou um táxi e mostrou o cartão do hotel ao motorista. Falante que só ele, o taxista lhe disse que pegaria a Rua Comandante Barcellos e seguiria pela Avenida General Ivanhoé, onde existira uma velha igreja em homenagem a São José, passaria por trás do Estádio Monumental dos Góes até o Marco Zero “Presidente Sarney”. Informou-lhe que passaria na rotatória da linha do Equador “Janary Nunes”, que atravessaria a Praça dos Capiberibe pela orla da Praia do Camarão no Bafo, e iria para a Cidade Evangélica para poder contornar novamente a orla em direção ao hotel, pois a Rodovia Praiana estava interditada em diversos pontos.

Ouvira no monitor do carro que havia uma greve de professores estaduais a reivindicar 501% de aumento de salários e a aquisição de instrumentos pedagógicos mais modernos para seus alunos. Também fora informado pelas redes sociais que no centro da cidade estudantes universitários e populares preparavam desde o dia anterior uma manifestação “pacífica” contra a falta de emprego e a corrupção. O médico fez uma cara de espanto, mas concordou com o taxista e seguiram. Ao chegarem ao destino, viu que o hotel tinha quase o mesmo nome de antes: “Macapá Hotel Vale do Tumucumaque”, mas que era agora um prédio de dezoito andares.

Era cedo, então tomou o seu café no restaurante e esperou a hora do evento que participaria. Perto das 09h00 adentrou o suntuoso salão de convenções “Ernestina Libório” e, para a surpresa sua, encontrou velhos amigos empaletosados em busca dos mesmos interesses profissionais.

Eram todos médicos sanitaristas preocupados com um surto de varíola que grassara inexplicavelmente na região, uma doença que parecia extinta há mais de cem anos. Realmente era preocupante. Na foz do rio Amazonas uma peste medieval dessas poderia ser muito perigosa para todas as populações que cresceram ao longo do rio e nas ilhas oceânicas, incluindo a do Marajó, agora um estado federativo importante da região.

E.E. Spíndola tomou seu lugar à mesa e foi apresentado pelo mestre de cerimônia aos presentes como grande referência nacional sobre o assunto daquele importante colóquio científico. Na sua conferência lembrou os dias difíceis como estudante vindo do interior do estado e de sua luta para conseguir se formar e crescer como médico e pesquisador. Muitos amapaenses se emocionaram ao ouvir a triste narrativa.

Abordou o assunto com competência, inclusive referindo-se à história local,citando o caso de um surto de varíola ocorrido na década de 1750, quando da fundação da vila que originaria a atual capital do estado. Propôs soluções socioambientais e imunológicas que mais tarde seriam consideradas incoerentes e megalomaníacas pelos mesmos colegas que o ovacionaram de pé quando terminou de falar. Lançou seu novo livro digital sobre o assunto em cerimônia previamente preparada pela editora com quem possuía exclusividade nas vendas e foi cumprimentado pelas autoridades presentes.

Almoçou com o senador Zéfiro Libório, pai do atual governador e seu herdeiro político, após lutas e lutas inglórias contra as oligarquias dos Capiberibe e Góes que se alternavam no poder havia gerações. À noite pegou um superbarco e foi jantar na Ilha dos Caititus, do outro lado do Amazonas. Comeu um prato estranho, mas muito delicioso e, sobretudo muito caro: filhorada ao molho de cupuaçu, uma mistura genética dos peixes filhote e dourada, criada em cativeiro. O prato era preparado com ervas aromáticas, marinado ao vinho e servido com a raríssima polpa de cupuaçu.

E. E. Spíndola foi apresentado a magistrados e juristas da terra que eram clientes contumazes e chiques do restaurante. Estavam acompanhados de lindas e exuberantes mulheres, porém de vez em quando se levantavam para rubricar em I Pad’s processos digitais que os subalternos oficiais de justiça levavam a eles de helicópteros. Pastores, deputados e padres gordos se refestelavam nos pratos principais e nas sobremesas. As elites riam a cada gole de um escocês e entre as baforadas de cubanos. Spíndola chegou a ver uma tentativa de protesto de dezenas de canoeiros ribeirinhos doentes remando e gritando, empunhando lampiões e faixas na escuridão, ato imediatamente dissolvido à bala pelos seguranças locais. A arrogância e o deboche das autoridades presentes causou repugnância no médico. Naquele momento ele percebeu o clima hostil das autoridades e se despediu. Entrou no superbarco, já cancelando pelo celular a visita que faria no dia seguinte às vilas ribeirinhas afetadas pela doença. Decidiu viajar o mais rápido possível para a Europa.

No trajeto veloz observou as luzes de Macapá crescendo ao longe, imaginando o quanto seria bom se as comunidades amazônicas tivessem lugares como aquele restaurante luxuoso que parecia uma redoma protegida do contágio da peste ribeirinha. Pensou em soluções definitivas para a epidemia e devaneou por uns dois minutos.

Próximo ao porto da cidade foi surpreendido por um vergalhão da pororoca que emergiu de repente no meio do rio. Ela veio sutilmente se formando por baixo do canal como uma cobra traiçoeira. Havia migrado nos últimos anos da foz do Araguari devido às alterações geográficas e ecológicas causadas pela instalação de quatro usinas hidrelétricas ao longo do outrora rio do vale dos papagaios.

A onda de arrebentação rompeu como um ser criado pelos deuses, dançarina louca bailando à música do vento, carregando lama e espuma e sedimentos no seu percurso de destruição, sem esquecer de levar em sua primeira vaga o superbarco de passageiros. O médico sanitarista ainda teve calma de espírito ao ver, pela primeira e última vez, antes de se afogar, os jovens surfistas luminosos, de lâmpadas de LED coladas aos corpos, saltarem do nada com suas pranchas de raios coloridos sobre o dorso da grande onda da noite.

Eram anjos montados no macaréu, indo ao encontro das ruínas do forte, um antigo símbolo da cidade.

O assalto no campus Marco Zero – Conto porreta de Fernando Canto

Conto de Fernando Canto

Um ar de tranquilidade pairava na Universidade no entardecer daquela quinta-feira, véspera de feriado. Eu precisava retirar uma grana do caixa eletrônico instalado no prédio da reitoria para poder viajar com a família ao terreno que temos em Ferreira Gomes.

Pensando nisso fiquei na fila aguardando a minha vez, enquanto colegas de trabalho, sorridentes, desejavam bom feriadão uns aos outros.

Ao chegar minha vez fui surpreendido com um objeto frio na nuca antes de colocar o cartão na máquina. Eu me voltei e um sujeito corpulento me empurrou e disse:

– Não me olha, filho da puta. Encosta ali no canto que a gente vai explodir essa porra.

Tive que me deitar no corredor onde a vigilante que minutos antes trocara de turno jazia sobre o balcão de informações com a garganta cortada, ainda em convulsão. Ouvi ruídos e em seguida uma explosão que rebentou toda a máquina. Quatro bandidos apanharam o dinheiro rapidamente e saíram correndo para um carro que os esperava. Atiraram na cabeça do vigilante instalado na guarita do portão de entrada e feriram, atirando a esmo, dois estudantes que chegavam para o turno da noite. Fugiram na direção de Fazendinha pela Rodovia JK, perseguidos pelo carro do Batalhão de Operações Especiais da Polícia Militar que havia sido informada do roubo e das mortes.

Mais tarde, quando depunha na Delegacia de Roubos e Furtos, ainda surdo com o barulho da explosão, soube pelo plantão da TV que na fuga desesperada eles foram atropelados e esmagados por uma carreta da AMCEL carregada de eucalipto, lá em Santana. Os cinco bandidos morreram na hora. Viraram farelo dentro de uma lata. Segundo o repórter, um deles era de Mazagão e os outros vieram do sul do Pará.

Mesmo refeito do susto eu não quis mais ir para o terreno da família. Mas no domingo… No domingo não resisti e fui ao bar do Abreu. Bebi pra caralho e vibrei com a vitória do Flamengo sobre o Vasco, coisa que os assaltantes filhos de uma égua não iriam assistir nem no inferno. Égua! Mas o barulho de cada foguete explodindo lá fora me lembrava da porra do assalto. E o campari no copo era igual ao sangue esvaído da vigilante estrebuchando ao meu lado.