Niver…Niver…Ponto…6.0 – Conto de Luiz Jorge Ferreira

Conto de Luiz Jorge Ferreira

Alípio faz aniversário.

Alípio andou junto comigo pelas ruas arborizadas do bairro do Laguinho, quase todos os dias certa época, vindo da Escola Normal de Macapá, hoje IETA, pela Avenida FAB e outras que não me lembro.

Ainda na época do Rum Montilla e da promoção.

Beba Rum Montilla e junte os rótulos, seja sorteado, e viaje para a Copa do Mundo de Futebol no Chile- 62.

Separávamos na esquina do Bar Estrela do Laguinho. Ele ia em frente, eu quebrava para a esquerda na Av. Ernestino Borges, e o Eduardo, o Bico Doce – apelido dado por soprar uma flauta com muita destreza – descia para a Rua São José, no Igarapé das mulheres. Tadeu não.

Tadeu ficava em sua casa próxima ao Cemitério da cidade, onde a morte para nós, era apenas uma cruz, sobre um monte de terra fofa.

Conversávamos o ano todo sobre a matéria dada em aula, a prova, os professores, as festas nos Clubes da cidade, as meninas, ‘Os Brotos’, e o futuro. O futuro mais longe era nessa ordem.

Foto: G1 Amapá

Fazer os 15 anos, usar calça comprida 9ainda andávamos de bermudas), os dezoito anos, servir o exército através do Tiro de Guerra da Cidade de Macapá, território Federal do Amapá, e a Copa do Mundo, de 1970…tão longe…longe demais para tentar se escalar um time. Não tínhamos o fantasma da Revolução ainda por perto, e o barato era ouvir na Rádio Timbiras do Maranhão, a rádio novela Jerônimo…O Herói do Sertão, e assistir Domingo à tarde no Salão Paroquial dos Padres, o seriado do Cavalheiro Mascarado que servia de combustível para os comentários na escola durante toda a semana.

Um moço chamado Roberto Carlos gravara um Compacto Simples, e um jogador do Amapá, chamado ‘Palito’, havia ido treinar no Vasco.

Eu me preparava para ganhar a primeira calça comprida. Alípio ganhou bicicleta com garupa, e Eduardo ganhou um violino – que mais tarde ficou dependurado na parede do quarto, de Janeiro de 1965 até hoje.

Tadeu ganhou um violão e, canhoto, não inverteu as cordas.

Hoje o futuro pertence ao passado; estou em Osasco, de onde mando um abraço pelo Aniversário de Alípio que mora no Rio.

Tadeu continua em Macapá e Eduardo não viu estes múltiplos últimos anos, morreu em 1965, em Janeiro. Os viu por nossos olhos, afagou os filhos de cada um, por nossas mãos, e torce pela Copa do Mundo de 2014 no Brasil, pelos 50 anos da carreira de Sucesso de Roberto Carlos, pela Estátua de ‘Palito’ defronte ao Amapá Clube, pelo leilão dos Rótulos de Rum Montilla em Jamaica.

Coisas que nossa projeção de futuro não imaginou jamais.

Isso em 1962.

Quando Deus ainda não era brasileiro, nem o Papa…Argentino.

* Do livro de Contos “Defronte a Boca da Noite, moram os dias de Ontem”.

Bar do Redondo – Conto de Luiz Jorge Ferreira

De onde estou posso vê-lo. Cercado de uma meia dúzia de pessoas, as quais eu não reconheço. Esta trajando laranja, cor que me lembra Yellow Submarine. Fala muito gesticula como se apanhasse uma mosca branca no ar. Os outros mais velhos o escutam com atenção.

Olho ao redor e encontro a mesa mais próxima. Puxo a cadeira e sento. Alguém pede um violão. Talvez ele cante Irene. Adoro Irene, penso enquanto aceno ao garçom. Que não encontra o violão. Plagiando a Irene que conheci em Belém do Pará. Das palavras dos gestos e dos planos loucos de democracia plena. No meio da vigilância noturna da polícia política, em meio a Festa de Arraial na Igreja de São Raimundo. Pichando muros.

Igreja Matriz de São Raimundo Nonato, padroeiro do Bairro da Aldeia e a Praça do Centenário. Fotografia do acervo de Edenmar da Costa Machado.

O bar está quase deserto. Afora as pessoas que estão com ele temos um casal sentado perto do palco, um tablado mais alto que o assoalho uns quinze centímetros. Atores. Ela vestida de abelha e ele de rei. Provavelmente o Rei da Escócia. Provavelmente vindos de uma peça.

O pano que cobre a mesa de Caetano tem a figura do Zodíaco. Talvez ele role os dados.

Estalo os dedos para o garçom, um velho conhecido dali mesmo, eu um solicitador frequente de seus serviços.

Chico! Sai um Gim! Chico parece não me escutar. O bar está às moscas. Mas o ar parece pesado. E ainda são duas e meia da manhã. As cerejas que carrego amassadas no bolso da japona espreitam no fundo do copo. O palito espetado, balança como fosse pêndulo, sem Norte.

Arranco a cutícula do dedo mínimo da mão direita. Não ergo a voz receio gritar desafinado e chamar a atenção deles. Batuco os dedos na mesa como um ritmo Caribenho. Eles me olham e sem dar importância voltam aos seus assuntos. Bebem vinho do Porto.

Abro meu livro de Saint Exupéry e finjo ler. Caetano está de safári e sandálias. Amarra os cabelos com um cordão de rastafári. Finjo ler por que logo levanto para ir ao banheiro. E passo bem perto deles. Discutem Joyce. O monólogo. Um dia apenas de setecentas páginas.

Volto, eles já se foram. Vinte anos depois, em 1988, no dia 8 de Agosto. Volto aqui. Só. Com medo da noite. Não da polícia política. Dos assaltadores. O bar cedeu duas metades esquerdas, uma para a cafeteira americana que serve café com hortelã e mostarda e a outra parte para que guardem carrinhos de amendoim e de vendedores ambulantes quer entopem o centro da cidade, com suas guloseimas inúteis.

Sento à mesa descascada que parece eternizar-se ali. Chamaria o Chico, garçom para que me trouxesse um Gim. Mas Chico morreu. Tento estalar os dedos para chamar o que se esforça para entre as mesas muito próximas rápido para chegar aos clientes, mas nada. Os dedos já não emitem som quando os estalo. Tento batucar com eles um som Caribenho, eles se contorcem sem êxito. Sai um som desafinado e sem definição.

O garçom chega e peço um guaraná diet. Puxo o cachecol. Sobra um medo, filho da revolução, e da sua polícia política. Um tremular de mãos agiganta-se. Herança ganha do exílio e das torturas físicas e psicológicas. Tudo tem um leve sabor amargo, distante. Parece que só me contaram. Tudo agora é historia com h minúsculo.

Bebo todo o copo de guaraná com duas pílulas coloridas. Esqueço o ritmo dos dedos. Parece que passo pela mesa. E ainda Joyce e agora outros que nas palavras que abortaram, perpetuaram-se, inclusive ele.

Vou ao banheiro devagar, entro retiro o tampão da sonda e solto a urina politicamente correta. Olho para a sonda alaranjada. Olho no espelho enquanto lavo as mãos. Há um senhor de idade refletido no espelho. Talvez seja ele que se lembre de Irene e não eu.

Vinha aqui para curtir a solidão desde a época do cursinho. Hoje parece que ela nunca deixou de ser minha. Vinte anos depois imagino que este lugar ainda esta lotado. Mas não está. Volto, eles já se foram. Todos se foram. Inclusive Irene de Belém do Pará, a que fingia me namorar encostando-se à parede enquanto pichava. Abaixo a Ditadura.

Eu saio como entrei. Calado. Nem a garoa, me acompanha. Na banca. Há uma manchete no jornal que diz que Fidel Castro foi operado. Está solitário, doente, e muito mal.

Até ele?

Luiz Jorge Ferreira

*Do livro de Contos “Antena de Arame” – 2° Edição 2017 – Rumo Editorial. São Paulo. Brasil.

As negras velhas ( Por Fernando Canto )

Conto de Fernando Canto

Caixas do marabaixo retumbam/retumbam em círculos movimentados de pés descalços/negros pés. E saem das línguas vermelhas os gritos guerreiros e as canções improvisadas da guerra que nunca houve. A valentia é substituída pelo insaciável apetite de voar sem asas para mitigar dores ancestrais, enquanto rosas brancas, açucenas e papoulas enfeitam a negra beleza dos cabelos esticados em rolinhos de plástico… E sob os olhares críticos da geração megahair.

As caixas retumbam/retumbam e dobram incansavelmente ao meio de odores/suores/toalhas e saias rodadas que combinam brancas anáguas bordadas de renda.

O Marabaixo prossegue em seu curso no arrasto dos pés pela roda, em cursos passos à frente e um passo cansado atrás.

As velhas do Marabaixo cochicham segredos e riem dos seus casos antigos que ora se sentam nos bancos corridos dispostos pelo salão. É lá que as histórias completam a memória, acertam verdades e crenças e extinguem resquícios de quizílias familiares.

No gesto de encher a colher de caldo e levá-la à boca, na satisfação do gole da batida de gengibre e na algazarra de enfeitar o mastro com galhos de murta, está a poesia do povo e a fortaleza do sangue um dia pisado e magoado por grilhões e calcetas.

O diabo está solto no tempo do Marabaixo. Dizem que quem for podre que se quebre ou que se pegue com o Divino, aquele do Espírito Santo.

O diabo está solto, sim. Mas as negras desdenham dele e gargalham em seus sorrisos falhos, sabendo que o que fazem é bonito, é autêntico e dá uma saudade imensa…

* Publicado no livro EquinoCIO, de 2004.

Fotos encontradas nos blogs Visite o Brsil, Porta Retrato e Amapá da minha Terra

Flip – Conto de Luiz Jorge Ferreira

Conto de Luiz Jorge Ferreira

Jesus não foi porque estava com catapora. Eu, Elzimar, fui. Fui arrastando o chinelo surrado cheio de calo dos meus calos. Saí pela porta como se fosse para o fim do mundo e eu ia só noutro povoado visitar nossa avó. Desci os degraus de terra batida. E pensei que hoje ia demorar mais de meia hora. E eu ia perder a hora do almoço.

A mesma lombrigueira roncando na barriga. Acima o sol tímido. Abaixo os toquinhos de capim furando e ferindo. O nosso cachorro me seguiu até a curva das grandes Oliveiras.

Depois se distraiu e começou a correr em círculos perseguindo a cauda. Eu chorei um pouco, por ir sem companhia. Mas lá adiante eu é que me distraí jogando pedras em uns pássaros pretos e correndo como se fosse alcançá-los e mais tarde corri para esconder-me de uma pancada rápida de chuva. Chuva de verão.

Tinha 10 anos. Jesus tinha nove. Semana que vem, vamos visitar o templo. Abaixei-me, enchi a mão de terra que atirei para cima para vê-la se espalhar com a lufada do vento que soprava trazendo um cheiro de camelo. Tenho saudade de quando morávamos à beira do mar aonde colecionávamos conchas, aonde costumávamos passar horas ouvindo o mar falar conosco. Ele traduzia o que o mar dizia. Coisas como: “Estou com frio. Estou muito azul hoje”.

Adorava quando o primo chamava para que nos acariciássemos. As pequenas baleias que vinham até próximo à praia e se ele chegasse perto elas queriam lamber-lhes os pés. Havia também as tartarugas que se arrastavam até a areia para nos carregar e apostávamos corridas sobre elas ou íamos a passeio pelo mar e as ondas nos faziam voltar e caprichosamente desenhavam na areia nossos rostos.

Por diversas vezes o vira andar sobre o mar, correndo com as sandálias na mão. Desviando-se, os peixes pulavam por sobre meus ombros. Ou as algas que se prendiam nos seus pés como a adorná-los.

Dissipei meus pensamentos e comecei a descer a ravina em direção à escada de pedra que rodeava o pequeno desfiladeiro. Bastava atravessa-lo e já se avista a casa de vovó. Caso ele tivesse vindo com certeza estalaria os dedos e um par de águias nos içaria, e nos transportaria para o outro lado, poupando esta marcha cansativa por esta escada escorregadia esculpida nas pedras da rocha.

A mãe dele, minha tia, já o proibira de fazer estas coisas na frente das pessoas, mesmo escondido. Pois alguém poderia ver. Vovó também dizia: “Não, Não deve usar esta sua facilidade de lidar com as coisas para tornar menos difíceis suas tarefas. Quando está com sede, não deve fazer brotar água das pedras, quando está enfadado, não deve caminhar dormindo. Nem olhar o que vai acontecer daqui a alguns dias, por simples curiosidade, apenas fechando os olhos e se concentrando, E está terminantemente proibido de fazer reviver pássaros, cães, gatos, ou outros animais mortos, com peninha deles.”

“Isso – dizia ela – não é normal que as pessoas façam. E pare de voar para cima das árvores para apanhar os frutos mais maduros. E se eu ou sua mão ou seu primo ficarmos doentes ou nos ferirmos em alguma ocasião, não nos toque para nos curar, nem nos cicatrize”. Eu pensei porque eu não sei fazer isto. Somos primos. Embora algumas vezes tenha pedido para ele me ensinar. E ele tentasse. Certa ocasião me pôs a mexer as mãos para cima e para baixo sobre um corvo morto e em dois dias nada aconteceu.

Esculpiu uma vara de bambu e suado se abraçou com ela e me deu para que tocasse com força nas pedras e nada de brotar água. Mandou que eu passasse saliva como tantas vezes o fizera sobre uma borboleta e ela não ressuscitou. E dizia: “Pensa… pensa… pensa… pensa forte”. E eu pensava tanto que ficava com dor de cabeça e nada. No dia que tentei voar para cima de uma videira, e olha que era baixa, foi uma queda só. Não, primo. Desisto, eu disse. Não sei como você faz, vejo que é simples, não tem nem palavra mágica.

Então é isto. Abraçou-me sorrindo. Falta uma palavra mágica para você, primo. E se a gente inventar uma. Qual? Indaguei. Flip. Ele falou Flip. E eu, de repente, estava com um pé só em cima da videira. Titia nos viu e nos deu umas palmadas. Está proibido, terminantemente, de fazer qualquer uma das coisas que lhe proibi. Falou rispidamente. Inclusive com Elzimar, apontando para mim e dirigindo-se a ele. Até que fique um homem senhor da sua vida. Nem mesmo se curar pode, ouviu!

Ele a olhou em silêncio, com os olhos marejados. Vovó, quando me viu chegar sozinho, com cara de tristeza, suado, faminto, todo coberto de pó, perguntou-me: “Veio só?”. Vim – respondi. Jesus não veio. Jesus está com catapora.

* Do livro de Contos “Antena de Arame” – 2° Edição 2017 – Rumo Editorial. São Paulo. Brasil.

O NOIVADO – Conto de Luiz Jorge Ferreira

Tenho duas preocupações na minha cabeça. Hoje, 17 de abril de 1968. Delas, a primeira são as janelas da repartição pública em que trabalhei trinta anos. A segunda é sua certeza de que devemos viver o resto de nossas vidas juntos.

A primeira tenho quase certeza de que com um pouco de boa massa de vidraceiro contornarei o problema. Estou aposentado, mas não perdi o raciocínio. É certo que me encho de sono quando vejo o mar se arrebentar a cada minuto contra os arrecifes. Ele é como eu. Tudo o que fiz, repeti tantas vezes que decorei.

Decorei o caminho para Olinda. A burocracia do serviço público. Meus conhecimentos sobre insetos. A conversa semanal com meus amigos reunidos neste apartamento falando sobre quadros geométricos, e nuances de cores do nanquim.

Tenho a impressão que são duas e quarenta e cinco da manhã. Com você não sei como resolverei sem o som da marcha nupcial: tamtamtam…tamtamtam…tamtamtam…

Volto ao banheiro para dar descarga no vaso sanitário. Um cheiro de rato podre me aborrece desde a semana passada.

Rato podre no décimo terceiro andar?

Há duas semanas tenho lhe magoado com o meu “não” ao nosso casamento. Penteio o que resta dos meus cabelos com um pente largo sem cabo. Pareço o meu pai no espelho.

E você minha mãe.

E você, quando desce para ir a praia comigo ou para irmos ao Supermercado, ainda me segura pelas mãos, e puxa meus sessenta e quatro quilos, nestes um e setenta e cinco de altura, como se eu fosse a sacola que trazemos sempre abarrotada de latas e vidros. Nao gosta de me deixar ir a rua sozinho, pois diz que eu atraio formigas.

Sempre esquece meu aparelho descartável com que aparo os pelos brancos de uma barba mal resolvida, arruma minhas meias em pares trocados, e entope o ralo do banheiro com o sabonete amassado. Para que formigas não entrem pelo ralo e procurem minhas roupas , que eu espalho pelo cantos do apartamento.

Olho meu terno de Gabardine, vejo uns pontos puídos aqui, e ali. Vejo formigas. Estou na repartição.

Não vou retira-lo do corpo. E ficar de camisa social. Deve ter algumas formigas, pela roupa, desconfio pelos buraquinhos feitos no tecido, aqui e ali…

Mas como poderei deslocar a enorme flanela que protege minha escrivaninha para subir e retirar o vidro da janela mais alta.

As mangas apertadas do Paleto me impedem amplos movimentos.E se o vidro cair? Já não se fazem mais vidros deste padrão, desenhado, uma Deusa e um Fauno.

Hoje daqui da janela, do decimo terceiro andar. Estou me demorando mais do que o costume, olhando longe a espuma do mar. Venta muito.

Você insiste há vinte anos em casar, ter filhos e esperar netos que entrem correndo pelo corredor com os sapatos sujos de areia. Vejo-a balançando lentamente, na parede sua sombra projetada pela luz mortiça da sala, parece o movimento das aranhas, mas são suas pernas sincronizadas com as sombras que elas projetam.

Quer ter filhos, mas temo que você não resista a uma cesariana. Afinal tem duas pontes de safena, e uma perturbação espiritual que se manifesta quando diz enxergar Nossa Senhora de Lourdes lá no canto esquerdo da sala.

E se eu lhe levar embora desta redoma de vidro em que lhe tranquei há dois meses sem comer e beber, só para tomar jeito?

Quem colocará massa de vidraceiro nos meus ouvidos quando as formigas invadirem Recife.

Luiz Jorge Ferreira.

* Do livro de Contos Antena de Arame – Rumo Editorial – 2016

As que se chamam Flávia… – Conto porreta de Ronaldo Rodrigues sobre a chegada de outubro

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Conto de Ronaldo Rodrigues

– Outubro é muito perigoso!

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É preciso segui-la. Sinto isso logo que a vejo na livraria. Está folheando uma revista, sem muita atenção, fixando-se apenas nas fotografias. Parece estar ali com o mesmo propósito que eu, matando o tempo até voltar ao trabalho.

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– Outubro é muito, muito perigoso!

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Ficamos lado a lado, embora a mulher permaneça como se só ela existisse. Tenho a visão no livro que folheio sem qualquer interesse e a atenção totalmente voltada para a mulher. Ela fecha a revista decididamente, olha para o relógio e o percebe parado:

– Sabe as horas, moço? – Pergunta, altivamente.

– Nã… Não! Não… sei… – Gaguejo, respondendo.

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Quem sempre me dizia isso era o Capitão Nemo:

– Tenha muito cuidado, menino! Outubro é muito perigoso!

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Ela deixa a revista na estante e dirige-se à portaria. Confere a hora e acerta o relógio. Sai da livraria e eu continuo olhando aquela mulher, agora através do vidro da vitrine. Ou será que não existe vidro algum? Meu olhar é que fez a parede tornar-se transparente?

Pergunto o motivo do perigo de outubro e ele responde, depois de longo silêncio, os olhos em transe, na direção do mar:
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– É em outubro que começamos a enlouquecer! É em outubro que costumam surgir as sereias!

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Ela atravessa a rua. Saio da livraria, disposto a segui-la, e paro na esquina. Contemplo, então, o espetáculo da rua silenciar-se para a passagem daquela mulher. A paisagem urbana torna-se repentinamente quieta, mas com uma acelerada pulsação interior que começa no asfalto e termina/continua no meu peito.

Ela entra num edifício e eu continuo seguindo seus passos. Ainda não me percebeu e acho que isso não acontecerá nunca. Ela aguarda a chegada do elevador junto a mais três pessoas. Incorporo-me ao grupo e passo a esperar também.

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Todos dizem que não devo dar atenção às palavras do Capitão Nemo. Dizem ser louco tanto o Capitão Nemo quanto quem o escuta. Mas eu digo que não. É preciso buscar o sentido das palavras, principalmente das que nos parecem mais delirantes.

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O elevador chega, nos recolhe e inicia sua lenta subida. As pessoas vão ficando em seus respectivos andares até restar apenas eu e a mulher. Como música de fundo, meus batimentos cardíacos ecoam nas paredes do elevador confundindo-se com a palavra outubro.

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Outubro. Agora compreendo claramente seu perigo. O Capitão Nemo ficou aprisionado em sua louca lucidez, nos destroços do seu navio, enfeitiçado por uma sereia. Eu estou preso neste elevador atraído por uma sereia. Aqui ficarei para sempre, aguardando todos os dias aquela mulher maravilhosamente perturbadora cujo nome conheço apenas a letra inicial (F), que vi uma vez em que ela abriu rapidamente a agenda.
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Todos os dias, quando ela sai do elevador, ainda sem notar minha presença, recordo as palavras do Capitão Nemo, que todos acreditavam serem palavras de um louco:

– É preciso ter muito cuidado com as sereias de outubro. Elas são cruéis e nos enfeitiçam com desejos intocáveis. Principalmente, meu filho, as que se chamam Flávia…

* Este conto foi publicado em 1995, na coletânea Novos Contistas da Amazônia, em Belém, resultado de um concurso promovido pela Universidade Federal do Pará. Tempos depois, o conto inspirou a HQ Outubro, do cartunista Paulo Emmanuel, premiada em dois salões de humor. Isso mostra o quanto este conto é quente.

Macapá já se anunciava para mim, pois o livro trazia contistas que só fui descobrir aqui, como Archibaldo Antunes e Ray Cunha, e apresentação do grande Fernando Canto.
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Gosto muito deste texto, creio que seja um ponto alto da minha carreira de contista, que ofereço agora como homenagem, digamos assim, ao mês de outubro.

Ronaldo Rodrigues

O Quadro – Conto de Luiz Jorge Ferreira

 

Conto de Luiz Jorge Ferreira

De Lisboa a Londres fui andando.

A nado fui de Belém a Macapá. Voando fui de João Pessoa a Quixadá. Hoje neste apartamento pequeno em que as paredes, pintadas de roxo, têm muitas manchas amarelas provocadas pela umidade Amazônica. É que sei que o tempo passou, enquanto eu calçava e descalçava os sapatos surrados. Manchou-me também.

Hoje corro descalço, olhando de suas janelas que dão para a Av Ernestino Borges, as da frente. A da cozinha, abrem-se para a Rua Iolanda Marcucy. A do banheiro, dela se vê a Rua 14 de Março, e a da cozinha tem a paisagem da rua Cel Lisboa, com o telhado descorado da casa do Braz.

Estou em meus oitenta anos. A cabeça já funciona aos solavancos e os cabelos, estão úmidos, produto desta fina garoa, que teimosamente chove sobre mim. Ela me abriga a usar permanentemente um guarda chuva aberto, mesmo dentro do apartamento.

Caminho devagar, entre os dias e as noites. São seis aparelhos de televisão ligados, cada um em um canal. Oito rádios sintonizados nas oito maiores capitais do mundo que enchem a casa de um barulho estéril de Mandarim, Russo, Árabe, Japonês, Hebreu, Grego, Inglês e Italiano. Tenho dois sois, um amarelo e outro castanho, que se reflete em um jogo de espelhos, que dependurei entre a cômoda e a estante cheia de bíblias sempre movimentadas as suas paginas por um amontoado de ventiladores, que mantem a temperatura da sala quase meio grau abaixo de zero.

Caminho devagar entre as esculturas Maias e Incas que coabitam comigo na sala, entre cabeças empalhadas de orangotangos e chimpanzés. Por isso perco com facilidade meus chinelos. E quando vou pé ante pé para o local em que guardo meus discos e os ponho na vitrola em trinta e oito rotações por minutos rangem as tabuas do assoalho.

Fazem dueto com os estalos de minhas articulações, quase enferrujadas. Ouço Mario Lanza em um dueto estranho com minhas próprias barulheiras. Abro as janelas muitas vezes e o ar de fora bate na minha própria umidade e volta criando um pequeno ciclone que apelidei de “Equadorzinho”.

Um dia lendo uma das dezenove Enciclopédias e fazendo cálculos com uma régua fisiogeográfica percebi que os trópicos de Câncer e Capricórnio cruzam-se aqui, talvez por isso, este prurido que me castiga determinados dias do mês, e que me fez ficar amigo de uns pelicanos, que também se coçam.

Eles pousam na janela, aquela que abre para a Avenida Ernestino Borges, em alguns dias do mês. Comecei a morar aqui quando fiquei viúvo. Ela morreu e deixou um enorme vazio que preenchi com garrafas de Rum e desenhei sua silhueta.

Para formar o par de peitos foram necessárias mais de cinqüenta garrafas. Era uma mulher abastada que deu-me dezoito filhos e pretendia dar-me mais se não se houvesse tocado fogo lixando tanto as unhas. Quando fiquei só pretendia mudar-me o mais cedo possível, mas a amizade com as águas vivas do lago do Ibirapuera e a admiração pelas borboletas do Pacoval foram prolongando minha estadia.

Hoje sou parte deste Quadro. E olhando a pintura de um quadro feito por Salvador Dali, dependurado no vão entre a porta do nosso quarto e o inicio da escada que nunca subi, nem sei aonde vai dar. É que percebo que envelheci.

Não tenho mais vontade para trocar de roupa e agora me cubro, com pelos espessos e longos cabelos, que pouco molho, mas estão sempre úmidos.

Como muito pouco e durmo quase nada. Quando a saudade aperta abraço-me a imagem dela feita de garrafas e assim fico por um tempo.

O que tem me cortado demais o peito e o púbis. Mas eu não ligo. O que me incomoda são os filhos. Estes que estão empalhados pelo corredor entre as cabeças empalhadas de Orangotangos e Chimpanzés.

Amanha irei para Osasco aonde enterrarei o Quadro.

* Do livro de Contos Antena de Arame – Rumo Editorial II Edição – São Paulo – 2017.

Oníria – Conto de Luiz Jorge Ferreira

Conto de Luiz Jorge Ferreira

Eu encontrei com ela descendo a rua em direção ao Campo dos Escoteiros. Vinha lá do fim do bairro do Laguinho, de saia preta, tranças no cabelo, boca levemente pintada, um cheiro de perfume patchuli, não me lembro se descalça. Caminhava indolente. Passou por mim e seguiu. Eu a olhei disfarçadamente.

Depois troquei de mão a sacola cheia de goiabas que levava para casa e atravessei para o outro lado da rua, seguido de perto pelas formigas. Subi as escadas e vi minha mãe lá no fim do quintal. Escrevia, talvez copiasse um texto de um papiro aberto sobre um tabuado. Riscava com a ponta da faca o tronco de uma árvore de ingá. Mãe estava de azul, eu estava azul e as goiabas ainda estavam verdes. Goiabas que eu apanhara na casa de Dona Ercília naquele mesmo dia onze e quinze, antes de encontrar com Oníria, que fingira não me ver.

Lá no fundo do quintal, mamãe escrevia no tronco, curvada sobre um dos ombros. Escrevia e lambia a seiva que escorria dos golpes aplicados no tronco do lado que a sombra do sol coloria. Parecia embriagada. Às vezes parava de riscar e punha-se a dançar, depois cansada ficava de cócoras. Eu estava muito cansado para comer, beber água, dormir, caminhar, subir na rede, deitar, fechar os olhos, respirar.

Então resolvi morrer.As formigas trouxeram as goiabas e com elas entupiram minha boca.

À tarde trouxe Dona Ercília, com outras goiabas que se avolumaram pela casa toda e mais de noite Oníria chegou ainda de tranças, agora quatro, um cheiro de Água de Cheiro do Ver-o-peso, nua em pelo, para o espanto dos que tomavam café e comiam pão torrado.

Ela deitou sobre mim quente como um forno de carvão, cheia de formigas.

Minha mãe veio correndo e nos separou, colocou-nos de castigo ao lado das formigas que empilhavam os pingos de chuva, os talos de goiabas e as lágrimas dos que tinham vindo chorar.

Já era sábado quando as formigas foram embora, levando as goiabas.

Minha mãe começou a contar estória de encantamente e gente do fundo, duendes e caiporas.

Eu estava febril, queria beber água, e comer fungos, bolores e semente.

Logo sarei, bebendo muito chá de sumo de ingá. As goiabas que restaram apodreceram e fizeram nascer larvas de moscas e minhocas.

Foi com elas que me criei. Quando comecei a voar fui ter com Oniria. Agora não esperei que passasse.

Esperei que voasse à frente de toda a sua colônia que gritava bem alto, seguindo-a: Rainha … Rainha …

* Do livro Antena de Arame – Rumo Editorial – Primeira Edição – São Paulo – Abril de 2016.

Frases, contos e histórias do Cleomar (Parte V)

Sempre digo que meu amigo Cleomar Almeida é um cara competente engenheiro. O figura também é a personificação da pavulagem e gentebonisse, presepeiro e boçal como poucos que conheço. Um maluco divertido, inteligente, gaiato, espirituoso e de bem com a vida. Dono de célebres frases como “ajeitando, todo mundo se dá bem” e do “ei!” mais conhecido dos botecos da cidade. Quem conhece, sabe. Na mesma linha da PRIMEIRA, SEGUNDA, TERCEIRA e QUARTA edições sobre seus papos no Facebook, mais uma vez selecionei alguns de seus relatos hilários na referida rede social.

Boa leitura (e risos):

Casamento

Se tua mulher não te ameaça semanalmente, dizendo que vai botar azeite quente no teu ouvido, ou que vai mandar fazer um porrete pra te dar umas cacetadas, sinto te informar, mas teu casamento caiu na rotina parceiro.

Bons modos

Definitivamente não sei comer em quilão, “amodo” que eu incorporo um estivador. Pense num prejuízo!

Pirsiguição

Aí tu ganhas uma camisa de presente do dia dos pais e tua mulher vem reclamar pq tu estás usando a dita camisa já tem três dias. Como dizia minha avó, égua da “pirsiguição”, tá nem fedendo ainda.

Vegetariana

Aí no almoço minha filha me diz: Pai, vou virar vegetariana!
Eu: Aproveita, larga esse bife e começa comendo esses carás roxos e esse jerimum que estão na geladeira.
Ela: Acho que vou virar vegetariana só semana que vem!

Doido

Toda família tem um doido, se tu achas que na tua não tem, presta atenção que o doido és tu.

Novela

O cara casa com a Maria da Paz e de lambuja, ganha uma loja de birita. Esse mundo é muito injusto mesmo.

Espanhol

Pareço normal, mas sou o tipo de pessoa que assiste La Casa de Papel e passa o dia inteiro falando sozinho em espanhol.

Circo

Circo Ramito esqueceu os funcionários aqui em Macapá. Toda esquina tem um malabarista, um equilibrista ou um Homem Aranhista.

Aprendizado

Conversando mais cedo com um amigo, ele indignado com uma situação me diz:
Negão, o homem não aprende com o cérebro, aprende com o cu, cada vez que toma no cu, ele aprende algo. Vivendo e aprendendo!

Mega-Sena

Sentado na pracinha em Laranjal do Jari, esperando meu sanduba, ouço o cara da mesa ao lado expressar seus desejos a um outro que o acompanha, em relação a Mega-Sena acumulada.
Dizia ele: Bicho, se eu ganho, compro um barco, encho de puta, contrato o Wanderley Andrade e vou fazer onda no Festival do Camarão.
O cara que o acompanha, eufórico diz: Bicho, vai ser muita onda, eu vou contigo.
Pena que os planos falharam, ia ser muita onda mesmo.

Ser pai

Quando se tem filhos a gente a gente se enquadra em três níveis de bestidade. O besta propriamente dito, o abestado e o abestalhado. Nesse último, me enquadro perfeitamente.

Nem Deus perdoa

Nunca ouvi alguém dizer “que Deus me perdoe” e na mesma frase, desejar algo de bom pra alguém.

Calendário falho

Tendo como base, uma análise minuciosa na geladeira e no armário aqui de casa, vejo que o mês já deveria ter acabado a dez dias.

MINHA HISTÓRIA INVISÍVEL – Conto de Fernando Canto

Conto de Fernando Canto

Atravessar a rodovia pela passarela da frente da Universidade. Na adversidade, admito. Na miséria de um pássaro sem ninho. Debaixo de uma chuva baguda. Barulhenta. Martelando a alma. A telha de zinco. Uma tortura catay. Umas gotas grossas por longos segundos. No cocuruto. Até eu te contar o que sei de ti. E de teus asseclas chineses. Estes que querem minha cabeça fora de Macau e Hong Kong. Talvez em um palco amazônico. Talvez pendurada no mais alto prédio de Dubai. Lá no deserto. Quando só os satélites veriam minha solidão.

A travessia da passarela não é um desfile. Nem palco de uma escola de samba. É como um caminho de pedra miltonascimenteano & fernandobrantano. Onde não posso sonhar. O suicídio iminente. Cair desse caminho. Ser atropelado. O corpo rolando sob as rodas dos automóveis. O sangue esguichando nos capôs. A massa corporal mutilada e magra. Irreconhecível aos parentes.

Retomar os passos. Chegar ao final e retornar. Inevitável. Ô merda! O celular esquecido na mesa do professor. Resgatá-lo à meia-luz na última sala do último pavilhão. Agora o sol se pondo. Uns clarões do anoitecer do fim do inverno. Outra baguda procela. Procela? Não. Tempestade equatorial.

A volta melancólica. Mecânica. Cabisbaixo vou. Pensarei em ti e no perigo que és, que representas ao mundo. Mundo humano. Mundano. Avassalador. Neste périplo estou eu no meio da ponte. Ouvindo o zoar dos veículos que vêm do shopping abarrotados de presentes & risos de amor & bocas lambuzadas de sorvete & pipoca & chopp. Vêm da praia também. Com cheiro de peixe & camarão.

Nesta travessia apanho o vento forte com uma das mãos. E me dou conta. Estou no meio do mundo. Sigo a leste. Em frente. Escapei da morte por causa de um esquecimento. De um celular barato que ninguém quis ficar. Escapei da Morte. Sim. Escapei do empurrão que me mandaste dar. Eu vi a sombra dos teus comparsas amarelos. No final da passarela. Um lapso me salvou a vida por duas vezes. Desenhada a lápis, a outra travessia estava na minha decisão. Hoje não. Sobre a rota certa eu ando. Minha trajetória consistirá, talvez, de atravessar a passarela, não a vida e o laço íngreme da morte. Sobre ela está a minha história invisível a todos. Minha paranoia & minha depressão & minha dor.

Hoje eu te mandaria à merda & à puta que pariu. Ainda que tanto te ame. zecabaleiramente. Que tanto te ame. Que tanto te ame & que te ame tanto.

Super-homem – Conto de Luiz Jorge Ferreira

Conto de Luiz Jorge Ferreira

Eu vi o Super-Homem. Estive mesmo com ele em Macapá, quando por ocasião da fundação da Cooperativa dos Catadores de Material Reciclável. Cooperativa esta que incluía catadores de jornal, papelão, garrafas de vidro, garrafas de plástico, kryptonitas, latinhas de refrigerantes, cervejas e afins.

Estava muito calor na sede da cooperativa – CMRCA – quando ele chegou. Confesso que refrescou o local. Não que o Super-Homem fosse gay. Isto, nem pensar! Até por que alguns meses depois dos cinco dias que ele permaneceu em Macapá, nasceram na cidade muitas crianças, e entre elas muitas que costumam amarrar capas vermelhas no pescoço e sair correndo pelas ruas e quintais, querendo voar. Parece instinto, DNA, coisa que o valha.

D.Faustina mesmo, diz ter visto seu neto menorzinho flutuar na laje em direção a uma pipa com sucesso. E sua filha, por acaso, era arrumadeira de hotel.

Mas voltando à entrada do Super-Homem no recinto da CMRCA: -Sou testemunha de que refrescou o local, e não foi só isto, ele perfumou. Depois soube que viera sobrevoando os Alpes, e trouxera no corpo a fragrância de uma rara flor que só nasce e cresce por lá, a mais de 2.600 metros, segundo explicação dada pelo Alípio Banhos, responsável pela agência de venda de passagens da única empresa aérea na cidade, e que entendia de vôos.

A chegada do Super-Homem pousando, até melhor dizendo… brecando, pois eu mesmo vi quando ele entrou, com um ruído semelhante ao frear súbito de carros em grande velocidade, cantando os pneus, quero dizer… sapatos, que eu mesmo vi, tinham os bicos congelados e a região do calcanhar em brasa. E como mais tarde explicou o Alípio Banhos…artificialmente ele invertera a direção das correntes de ar quente e frio para provocar a desaceleração, como um Ciclone, o que provocou o esfriamento do local.

O que conta é que o Super-Homem cortou a fita inaugural. Cortou não é bem o termo… arrebentou-a. E não fez discurso. Saiu logo depois, com o braço no ombro do governador que foi com ele até o hotel, andando, pois a autoridade recusara-se terminantemente a voar com o ilustre convidado.

O homem de aço pareceu-me bem disposto. Confesso que, como médico do hospital local, torci um pouco para que adoecesse, resfriasse, coisa leve, para que eu pudesse examina-lo, ausculta-lo, realizar um eletrocardiograma, nunca pensando em Raio-X. Receitar-lhe coisas caseiras como um chá de alho e trezentas mg de aspirina.

Jamais pensaria em mandar aplicar-lhe uma Benzetacyl. Que agulha, meu Deus, que agulha furaria seus músculos de aço?

De forma que soube mais tarde que nem banheiro ele havia usado. Comera um líquido feito com mel e jabuticabas. Deitara de uniforme mesmo. No parapeito da janela do apartamento do décimo quinto andar do hotel em que estava e recebeu muitas descargas.

Era uma das noites em que coincidentemente desabou uma destas rápidas tempestades tropicais.

E nem seu Souza. Hoje (09 de outubro de 2004), eu soube que ele morreu. Será que resfriou mesmo como eu temia, ao mudar tão rapidamente de uma temperatura de um dia frio de inverno, na cidade de Nova York, para o calor escaldante de Macapá?

Não me perdoo por não ter ido até o hotel com a minha maleta de primeiros socorros, tomado o elevador e, ignorando toda a minha timidez, chegar até a frente do apartamento em que ele estava hospedado, ter batido palmas suavemente e chamado: Senhor Super-Homem… Senhor Super-Homem… com certeza ele, ouvindo muito vem, viria até a porta aonde calmamente eu aguardava que ele abrisse, mas por certo já teria me visto com seu olhar de Raio-X. Ao abri-la eu me apresentaria um pouco gago pela emoção e atordoado pelo embaraço:

“Boa noite, Mister Senhor Super-Homem… Sou seu fã e sou o médico da cidade. Vim saber como o senhor está passando. O senhor está bem? O senhor precisa de meus cuidados? Está febril. Está resfriado. Posso medir-lhe a pressão? Posso contar-lhe o pulso? Está pálido. Está tonto. Está Zorro… Oh, oh… Desculpe. Embaralhei os heróis.

*Livro de Contos Antena de Arame – Rumo Editorial (II Edição) – 2016

PREFÁCIO – Conto de Luiz Jorge Ferreira

Conto de Luiz Jorge Ferreira

Nunca pensei em escrever um livro de contos. Ainda mais com este colorido criado com esta “Tinta Mágica” escorrida das pinceladas de Salvador Dali. Mas escrevi.

Colhi fragmentos escutados na minha infância e pré-adolescência em Macapá.

Juntei personagens e resíduos de acontecimentos e os fui reciclando, preenchendo os vagos com personificação à semelhança do surrealismo.

Ele pronto! Fui ao título, que tomei emprestado do conto “Antena de Arame”.Posto o ponto final. (Nunca se coloca o ponto final)

Para revisioná-lo sentei à mesa de um restaurante em Osasco denominado Frangão e bebi um pouco, reli os contos, e aguardei que chovesse para depois ir embora. Em pouco tempo um rio formou-se pelas ruas adiante ao local que eu estou. Quiçá mais um pouco talvez passe uma canoa tipicamente Amazônica, botos, mutuns, atuns…

Imaginei abstratamente.

Porem distrai-me observando uma mulher e o cão com esforço atravessarem a corrente, e por fim irem-se juntos com a lua e a outra mulher que empurrava com uma vassoura velha um resto de luar para debaixo do tapete.

Comigo estavam as paginas, e alguns comentários de amigos sobre o livro.

Deixei todo este material sobre a mesa e fui ao banheiro atirar fora resíduos líquidos da cerveja sorvida.

Quando voltei, os Contos haviam sumido, estava vazia a mesa. Indaguei ao Garçom. E meus papéis? Os que estavam sobre a mesa. Os contos?

Ele deu-me o troco e se afastou com um meio sorriso. Contos!…Ah! Contos…Achando que eu tinha me embebedado muito rapidamente. Passou um pano limpo e seco sobre a mesa que ficou todo sujo de letras.

Foi ate a Tv e deu duas pancadas ao lado do aparelho visando melhorar a imagem da chuva, da canoa, da mulher, e da lua.

“O que falta aqui é uma Antena de Arame!” – gritei. Para ninguém.

Em seguida levantei para ir embora achando que ele me parecia um dos Personagens dos meus Contos.

Chamei bem alto: “Bebeçudo!” Nem a voz saiu, nem o garçom voltou.

Sóbrio e só. Atravessei a rua, e mergulhei apressado no chão, no vão da calçada, atrás de um monte de formigas, que ali entravam, carregando consigo as páginas que eu procurava.

Não chovia mais.

* Prefácio em forma de Conto como Narrativa no Livro Antena de Arame – Rumo Editorial – São Paulo – 2016

DALILA – Conto de Luiz Jorge Ferreira

Conto de Luiz Jorge Ferreira

Ela deixou-me em 1947. Foi embora com um Prussiano com imensos bigodes e uma farda cheia de insignias por várias Bravuras, e outras Medalhas de Honra ao Mérito. A perna direita cicatrizada de fraturas provocadas por estilhaços de granadas alemãs encurtara, coxo… este herói do front da Criméia a arrastou consigo, herói viciado em açaí e pupunha.

Eu embarquei para Lisboa. Ali no cais do Porto, com os dentes sujos de tapioca e broa de milho, fui para lá, morar.

Lá aprendi a arte de fazer pão, roscas, doces e salgados, bolo de cenoura, bolinhos de chuva crocantes, recheados de nozes e avelãs.

Não demorou muito para o negócio prosperar e eu então fui ao cais contratar uma cozinheira.

Acabei trazendo comigo uma natural de Angola experiente em defumar peixe, cozer frutos do mar e desidratar frutas para o confeito de bolos e roscas.

Ela não falava Português.

Mas nos fomos nos adaptando um ao outro até que passamos a dormir juntos.

Meses depois ela apareceu com uma grande inflamação que em vão tentou curar com asseios íntimos de hortelã, permanganato de Sódio, e vinho branco.

Temperou-se muito, não resistiu e faleceu.

Fiquei novamente só.

Com uma pequena cadela, a quem dei seu nome…Dalila!

Desafeiçoei-me ao trabalho.Passava horas e horas no cais.Olhando as Gaivotas voando e pescadores tecendo redes.Foi assim que de uma feita, uma brisa marinha trouxe em si do Vietnã um pó amarelo que me cegou. Não suportando a dor, ao pressentir que eu não mais lhe podia ver, Dalila segurou na boca um balde cheio de pedras que eu usava como lastro para minha linha de pescar e atirou-se ao mar, afogando-se.

Passei semanas até dar por sua falta.

Comecei a beber, ia aos bares do Porto, amanhecia por lá.

Para ganhar alguns trocados, passei a ler as mãos dos marujos chineses,jamaicanos,haitianos,latinos,indus, entre eles a mão de um certo Che Guevara, fascinado por Marco Polo…onde havia desgraças eu lia esperança…onde havia desespero, eu falava de amor.

Fiquei famoso, não cobrava…mas recebia muitos presentes…Caixinhas de Música de Xangai, Perfumes finos de Paris, Correntes de Platina, Cordões de Ouro Branco,e Temperos exóticos da Índia.

Deixei crescer os cabelos, o bigode, as unhas dos pés, e das mãos, pintei-as de Carmim, e cobri-me de Seda, calcei altos tamancos, e criei uma Santa.

Um certo dia recebi um casal, que havia ouvido falar de mim. Estavam finamente vestidos. Ele tinha vindo curar sequelas de ferimentos adquiridos na segunda Guerra Mundial. Ela apenas o acompanhava.

Pelo perfume a reconheci ,mas fiz de contas que não.

Creio uma imã com apetrechos retirados de um antigo motor de um navio naufragado no canal marítimo da cidade, bezuntei inteiro o corpo dele, com extratos de Benzoato de Benzila e passei a imã em seu corpo, até que enchi um copo de vidro de estilhaços metálicos.

Eles foram embora felizes, não sem antes me doarem como pagamento, um baú repleto de moedas de Ouro, e dobrões de Prata.

Tomei para mim, o nome, de Al Shair Sefet e fui morar nas montanhas, com dezoito escravas, um casal de elefantes, e duas jiboias .

Mais tarde soube que ele dera fim a sua vida, e que após a retirada dos metais tornara-se lento, sonolento, lerdo e inconstante , por fim desgostoso demais,desejava a morte.

Até que uma noite conseguiu beber todos os estilhaços com dois copos de vinho.

Em Abril, acordei com ela gritando por meu nome.

Nua sob o luar.Os seios trêmulos. Lânguida. Cheia de desejos. Aflita invadiu, a Grande tenda colorida, pisando sobre as brasas semi acesas, sobre os animais descansando na areia.

Queria reiniciar a vida de prazeres, e ter felicidades.

Exatamente como eu.

Como não reconhecia mais vultos a estraçalhei entre os elefantes achando que estava sendo atacado por ferozes abutres.

Dormi ao relento, ouvindo o vento, que me contou que Dalila voltará.

Como me afastara muito.

Ate hoje caminho em círculos. E nunca consegui voltar.

* Do livro “Anais” – X Jornada Nacional da Sobrames – São Paulo – 2019.

Natanael na Janela – Conto cinematográfico de Fernando Canto

Conto de Fernando Canto

Cena 1

Ocorrera que os madeireiros haviam jogado uma espécie de veneno no rio da nossa comunidade e a gente se juntou para dar uma pisa neles porque todas as crianças adoeceram. Até mesmo nós, os mais velhos, acostumados a comer o que a floresta nos oferecia, já sentíamos fraqueza para labutar na roça.

Cena 2

Tinha gente de todo lado querendo nossas terras. Até parecia que valiam muito. Havia nove anos que a gente estava lá desbravando o lugar: cortando árvores gigantes, construindo pontes, criando pequenos animais, arando o cerrado e plantando mandioca para fazer farinha e vender na feira do produtor rural, na capital, para onde um caminhão nos levava todas as terças e quintas-feiras.

Os madeireiros invadiam a floresta para tirar as árvores mais valiosas e, não bastasse isso, chegaram os plantadores de soja, oferecendo uma insignificância pelos poucos hectares que tínhamos, mas que juntos faziam um latifúndio. A situação se agravava e a gente resistia como podia, porque as autoridades políticas que nos visitavam e diziam que iam nos proteger, sumiam. Nunca mais vinham na comunidade. Uma vez ou outra mandavam recados pelos seus cabos eleitorais com uns jornalecos onde contavam suas bravatas e lorotas.

Certo dia, na reunião do Centro Comunitário, alguém avisou que uns homens armados estavam nos cercando para nos amedrontar. E só deu tempo para a gente se abaixar e ver o Natanael, que se escorava na janela, levar um balaço no olho direito.

– Foi pá… Merda! Ele caiu estirado quando eu corri para pegar minha 12 e revidar. Acertei o motorista do jipe no braço, mas eles atiraram em minha direção e fugiram, anunciando que voltariam para completar o serviço. Eram pistoleiros contratados pelos madeireiros que queriam nos expulsar à força do lugar.

Cena 3

Uma rasga-mortalha sobrevoou nossas casas nessa noite. O Comissário Policial do Distrito soube da ocorrência e estava no velório para garantir a segurança. Mas ele me pareceu tremer de medo quando o pássaro agourento flechou o céu em busca de alimento na sua caçada noturna.

Seu Antônio da Luz rezava o terço de encomendação das almas e a gente respondia os pais-nossos e as ave-marias, olhando o desespero indisfarçável da viúva, agarrada a seus filhos e envolvida em um véu preto, na nossa capelinha de São Joaquim Lavrador.

Cena 4

Aqueles homens estavam à espreita, a gente sentia isso. O Comissário mandou seus dois ajudantes ficarem do lado de fora do velório e avisar se algo estranho estivesse acontecendo. Apesar de tudo a gente não se sentia seguro. Por causa disso eu já havia mandado minha família e outras mulheres e crianças para a minha casa do forno de farinha, bem longe da comunidade.

Ouvimos tiros lá fora. Todos os que tinham arma de fogo se prepararam para o confronto. O Comissário tremia porque não conseguia avistar seus auxiliares. A situação ficou tensa quando uma voz de mulher disse no megafone.

– Saiam daí. A gente só quer o Baixinho da Farinha.

Eles se referiam a mim. Sabiam da minha fama de valente, da minha luta como líder comunitário e da minha pontaria com a espingarda. E atiraram com rifles mais duas vezes em direção de onde estávamos abrigados. O comissário começava a lagrimar. A mulher pediu de novo que eu me entregasse. Pedi que parassem de atirar e deixassem os comunitários em paz. Qual nada! Continuaram atirando. Pensei em algo e disse que me entregava, mas o policial ficara desnorteado e de súbito tomou a decisão de fugir pela porta dos fundos. Uma bala veio como um raio da escuridão e atingiu a barriga dele. Estávamos mesmo cercados.

Cena 5

Os comunitários demonstravam medo, porém se seguravam nas suas armas de caça.

– Vai ser um massacre, falei. Ou a gente se entrega ou confronta os assassinos.

Uma língua de luz, seguido de um trovão rolando no teto do céu escuro, parecia preconizar uma tragédia. Deu malmente para ver que eram quatro ou cinco silhuetas perto do jipe estacionado ao lado do Centro Comunitário. Todas armadas, inclusive a da mulher do megafone, que deveria ser a chefe dos pistoleiros.

Eu chamei meus amigos e expliquei:

– Eles estão na vantagem com suas armas modernas. Nós somos poucos e só temos espingardas. O Zeca, ali, só tem uma daquelas antigas punheteiras. Só dá pra dar um tiro, disse, subestimando a arma do amigo, mas ninguém riu.

– A gente faz o quê? Perguntou o Davi.

– Temos que proteger as nossas mulheres e filhos.

Chamei, então, o seu Antônio da Cruz e mandei ele puxar uma ladainha bem alto. O plano era fazer os caras armados se aproximarem com cautela, pois sabiam que estávamos armados, mas que em uma negociação a gente se entregaria sem que fosse necessário derramar mais sangue. Entretanto, havíamos acertado vingar o Natanael.

Cena 6

Seu Antônio começou:

– Regina Angelorum.

E a gente respondia alteando a voz:

– Ora pro nobis.

– Regina Patriarcarium

– Ora pro nobis

– Regina Sacratíssimo Rosarium

– Ora pro nobis

No Quarto Ora pro nobis abrimos a janela e jogamos o corpo de Natanael. Foi o tempo de ouvirmos o barulho dos disparos. Uns comunitários saíram por trás da capela e outros pela frente, comigo, atirando. O confronto foi muito rápido. O Zeca matou um dos bandidos com a punheteira velha e se estatelou no chão com um balaço no coração disparado pela mulher. Eu atirei na cabeça dela. O assassino que estava atrás da capela sangrou até morrer com o chumbo na veia jugular da velha parabellum do Marcelino. Os outros dois foram surpreendidos e mortos pelo Comissário de Polícia, que conseguira rastejar, ferido, até a pocilga e de lá ao Centro Comunitário. Com esforço e graças a um clarão de raio os acertou quando viu o ataque. Seus ajudantes jaziam de olhos abertos num curral de cabras.

O corpo do defunto Natanael levou dez tiros no desvio de atenção que provocamos. Seu semblante pálido e cheio de buracos parecia debochar dos assassinos.

Estava prestes a amanhecer quando o grito desesperado da rasga-mortalha cruzou o céu, voltando para o ninho com a presa nas garras. O Comissário ouviu seu canto ameaçador e tremeu de novo ao entrar no carro para avisar do acontecido às autoridades da capital.

Cena 7

Ninguém esperou mais nada. De ninguém. Enterramos nossos mortos sem nenhum ritual religioso, e deixamos os corpos dos assassinos no mato para serem devorados pelos bichos selvagens. Era abril e a cerração se dissipava lentamente nas veredas dos buritizeiros.

À noite, cansados, mas insones, ouvimos os gritos fúnebres das rasga-mortalhas se intensificarem. Eram muitas. Voavam raso sobre nossas casas, indo e voltando, indo e voltando, anunciando o caos debaixo do céu sem estrelas.