ANTENA DE ARAME – Conto de Luiz Jorge Ferreira

ANTENA DE ARAME

Conto de Luiz Jorge Ferreira

O rádio estava chiando muito. Meu pai, com o propósito de diminuir o chiado, mudava de posição a vara de bambu que segurava um pedaço longo de arame que chamava, a toda hora, de antena. Mas tudo em vão. Eu sabia que era Copa do Mundo.

Todos falavam que aquele jogo com a Tchecoslováquia era de vida e morte. Aquele Skarov era o diabo, podia fazer um gol e muitos outros e nos mandar de volta do Chile para casa, acabando com o sonho de sermos bicampeões mundiais.

Eu, medrosamente, olhava para o rádio. Quem sabe se aquele diabo loiro, musculoso, de muitos metros de altura, como eu o imaginava, pulasse de dentro do rádio para acabar com todos ali, inclusive comigo que torcia contra ele. Eu queria que este Skarov morresse e fosse para o inferno que era o pior lugar que eu em meus oito anos ouvira falar. Escondia-me por detrás de mamãe. Ia aonde ela ia. Vigiava a porta disfarçadamente e olhava assustado para o grupo de amigos do papai, que ora fumavam, ora bebiam um gole de seus copos sempre cheios, ora passavam a mão pelos cabelos, ora roíam as unhas e iam e vinham do banheiro apressados, enxugando as mãos na calça. “- Quanto está ainda? Ninguém marcou? O Skarov está nos atacando novamente? Este demônio vai acabar fazendo um gol.” Depois de noventa minutos de sofrimento, o Brasil ganhou o jogo.

À noite, vi Skarov vindo me engasgar com suas mãos peludas, rindo e pondo a mostra seus dentes afiadíssimos. Trazia um hálito de sangue, um fogo em seus olhos vermelhos que pareciam beliscar-me. Gritei muito. Mamãe saiu de seu quarto e veio me sacudir. “– Eu não lhe disse para que não provasse o vinho que seu pai e os amigos dele estavam tomando? E que também não ficasse com o ouvido grudado no rádio? Jogo é para gente adulta. Levanta e vai tomar banho. Está urinado. Lave-se e, depois, vá para cama do seu irmão. De manhã, troco os lençóis. Reze de novo antes de deitar.”

Em 1982, por ocasião da Copa do Mundo, fui a trabalho até a antiga Tchecoslováquia e fiquei hospedado nas proximidades de uma antiga Vila Olímpica que, na ocasião, foi transformada como abrigo de ex-atletas. Uma noite, antes de embarcar, ao regressar sozinho de um coquetel, atravessei por entre os prédios todos iguais, andando por uma viela escura que cortava caminho em direção ao Hotel onde estava hospedado com a delegação de jornalistas brasileiro, foi quando vi o vulto de uma pessoa.

Ao me aproximar, vi um homem caído defronte a um dos últimos prédios. Aproximei-me para prestar-lhe ajuda. Risquei o isqueiro. Estava escuro e muito frio para a estação. Ameaçava mesmo nevar. Observei que era um homem de aproximadamente uns setenta e poucos anos, magro, desnutrido, que cheirava álcool, balbuciava uma mistura de francês e tcheco. Ficou apavorado comigo ali. Àquela hora, abaixado sobre ele e tentando acender um isqueiro, eu tentava enxergá-lo melhor para saber se ele estava ferido. Vi que tentou levantar-se, arrastar-se, mas as pernas castigadas pelo álcool não lhe obedeciam. Transpirava muito. Olhava-me quase como se implorasse pela sua vida e eu, também, fiquei nervoso balbuciando frases mal construídas em inglês e em francês, tentando me comunicar. Era em vão. Ele estava em pânico. Apertava meu braço e tentava ficar de pé. O vento frio que soprava não era o bastante para enxugar o suor que gotejava da sua testa. Ele tremia apavorado. Eu, sem saber o que fazer para acalmá-lo, gritava em português. “– Acalme-se! Não se apavore, quero ajudá-lo. Sou jornalista do Brasil. Você esta ferido? Você entende? Brasil!”

O ancião olhava-me em choque, com certeza se achava vítima de um assassino ou na presença de um monstro de dentes afiadíssimos que queria no mínimo devorá-lo. De repente, passou-me uma ideia. Abri o paletó e mostrei-lhe a camisa da Seleção Brasileira que tínhamos levado para o coquetel de confraternização a fim de fazermos uma brincadeira com os jornalistas portugueses. Senti que havia dado certo. Eu tinha razão, ex-atleta reconhece a camisa. Aquela cor, aquele distintivo. Por fim, deixou-me ergue-lo e acomodá-lo em um canto da escada, onde o cobri e com meu sobretudo. Senti que se acalmava. Já não transpirava muito e seus olhos começavam a perder o olhar apavorado. Diminuíra sua angustia. Tentei fazer com que ele me entendesse e procurei ver se tinha um documento, uma identificação para que eu pudesse passar pela portaria do Hotel. Pedi para que um funcionário fosse vê-lo e o encaminhasse a um atendimento médico. Por certo, ficaria muitas horas exposto ao frio. Ele deu-me um pequeno embrulho de plástico. Compreendi que aquilo protegia um documento. Antes que eu me afastasse em direção a portaria, abraçou-me agradecido, meio sem jeito, na posição que se encontrava. O deixei ali e fui até ao Hotel onde entreguei o embrulho para o chefe da segurança, que se encarregou do caso.

Pela manhã, ao descer para embarcar de volta para a Espanha, o rapaz da portaria disse que havia um recado para mim da família do homem que eu ajudara, mas que infelizmente ele havia falecido. Como não leio Tcheco, ele o fez anotando a tradução no verso do próprio bilhete que imediatamente guardei. Tomei um táxi para o Aeroporto com aquela tira de papel no bolso do paletó e o episódio martelando em minha cabeça.

Comprei um jornal espanhol e ao folhear a secção de esporte, deparei-me com a notícia “A Tchecklosvaquia perdera um craque da seleção vice-campeã do mundo de 1962. Encontrado ao relento por um turista estrangeiro…” Foi, então, que abri a tira de papel com o bilhete traduzido: “A família do ex-jogador de Futebol Skarow agradece ao jornalista brasileiro pela ajuda prestada ao seu pai e avô.” Grampeada em anexo havia uma foto da formação da seleção Tcheca 1962. Retornei ao jornal assustado e confuso. A notícia martelava em minha cabeça. Li novamente. Abaixo da legenda via-se a foto de um ancião pequeno, frágil, magro, de cabelos brancos e ralos, de semblante plácido, deitado sobre uma mesa, coberto com seu sobretudo. Tomei o avião e quando cheguei em Madrid, fazia sol.

* Além de contista, Luiz Jorge Ferreira é poeta, escritor e médico amapaense que reside em São Paulo e também é vice-presidente da Sociedade Brasileira de Médicos Escritores (Sobrames).

KARUTAPERÁ – Conto de Luiz Jorge Ferreira

Conto de Luiz Jorge Ferreira

Eu a chamava de Tamaiká…eles a chamavam de Manitu, é minha mãe a chamava de Tuxauã…

Não imagino quantos anos ela tinha…sei que ela contava que era do tempo em que o sol nascia onde hoje se convencionou chamar Poente…

Não sei se tivera filhos, sei que tinha consigo inúmeros bonecos feito de argila, a quem ela se dirigia por um nome balbucido entredentes em um dialeto feito de consoantes, e números…

Eu havia contado mais de cem bonecos de argila, como afirmara que tinha uma gravidez a cada ano, deduzi que tinha de idade, mais de cem anos.

Minha mãe como trabalhará por muitos anos na confluência do rio Oiapoque, e o estuário do Bailique, se tornará íntima da linguagem coloquial dos Kaokaris, indivíduos albinos, que se vestiam de uma roupa traçada com fios de teia de aranha tocantira, muito semelhantes as formigas desta família, o que levava a crer que uma fosse a outra, ou a outra tivesse sido antecessora dessa.

Mamãe lhe acompanhava quando ia se alimentar, comia restos de flores, sempre amarelas, e frutos roídos por antas e capivaras, assim que entrava na mata, com um cipó amarrava a perna esquerda de encontro a coxa, é mesmo assim nesta pose incomoda adentrava léguas, e léguas, até encontrar uma nascente , então cavava, e quando brotava uma água reluzente, como se fora misturada a luzes, lavava os olhos, pedia que minha mãe lavasse os dela, mas como das vezes anteriores, em que minha mãe , o fizera, virá em seguida a clareira cheia de Sacis, Duendes, Mapinguaris, e algumas Matintas Perera, ela medou, para não ser discordante, passava a mão naquela água fosforescente, e fingia esfregar os olhos.

Mas um dia, ela deixou de convidar minha mãe, a lavar com ela seus próprios os olhos….e de volta já noite avançando…

Mãe a inquiriu… porquê não insistiu mais que eu lave os olhos, na água que brilha.

– Você não o faz!

Olho seus olhos, e eles continuam só enxergando o limitado…

O infinito que nos cerca, você teme…

Mãe envergonhou-se. Por falar e entender a língua Kaokaris, mãe conversava com ela, quando as duas estavam sozinhas, porque a linguagem Kaokaris, tem voz, gestos, estalos de língua ritmados, e piscadas, como um código Morse, e separando cada grupo de gestos, e sons, ligeira flexão sempre de frente para o sol, e em seguida dando as costas para a Constelação de Sírius,se noite fosse, porque segundo ela, a Kaokari …Sempre dizia…Lá foi onde tudo começou.

Eu ouvi este diálogo, várias vezes, ouvi porque tinha ido passar alguns dias em Karutapera, e em estando lá comecei a traduzir, sons, trejeitos, genuflexoes, e breves passos de dança…

Foi quando chegou a Primavera, eu sumi.

Agora eu daqui de Sírius, me manifesto neste estado semi liquido, de mistura as luzes fosforescentes, neste corredor criado para a fluidez das ondas alfa, e vou até a parte neural do seu cérebro, onde o faço, transcrever isto que digo, como se ela minha mãe, o houvesse criado.

Obrigado.

Tuxauã…Manitu… Tamaiká…

A voz de minha mãe, agora fraca, se perdeu entre paredes descascadas.

Ela, abriu pela derradeira vez o quarto do filho desaparecido há uma década…sabia que ali não viria mais…

Sentia sobre si, o peso dos anos, a mão direita tremia, e os olhos tinham as pálpebras pendentes, o que a forçava a olhar com o rosto voltado para cima, trazia os espasmos na musculatura da face que quase que mudavam sua fisionomia de um todo, apagando a que ele conhecerá quando ainda estava ali.

Muitas vezes andando bem lentamente, tinha a sensação que sua alma lá adiante parava esperando o corpo vir se aproximando, como chuva e vento…que um espera o outro.

Beijou cada papel riscado, cada traço espalhado, cada fresta de tábua escapando luz…

Olhou o calendário todo rabiscado na parede…2049…

Achou que sonhava …e morreu.

D’aí o tempo apodrecido e magro… cuspiu sobre a sua sombra, que embora com o perfil de um Mapinguari desajeitado e lento, lhe acompanhava ágil … desde que nascerá.

* Além de contista, Luiz Jorge Ferreira é poeta, escritor e médico amapaense que reside em São Paulo e também é vice-presidente da Sociedade Brasileira de Médicos Escritores (Sobrames).

Quarto Degrau – Conto de Luiz Jorge Ferreira

Depois que nos mudamos para aquela casa. Bastava cessar a chuva e eu ouvia o barulho de Zig.Zig.Zag.

Ouvia por quatro vezes. Depois parava. Eu saia do meu quarto meio com medo dentro dos meus seis anos. Ia até a cozinha e olhando na direção da escada que levava ao andar de cima. Estava lá uma esfera luminosa zig zig zag deslizando com ruído no quarto degrau. Eu das primeiras vezes fiquei espantado. Depois já me aproximava dela. Era esférica e tinha um orifício no meio. Eu enxergava–a com dificuldade. Mas mesmo assim conseguia ver que havia imagens no centro do orifício. Depois ela sumia e sumia com ela o barulho.

Não contei para ninguém. Nem satisfiz a curiosidade de olhar no centro da esfera e ver o que eram aquelas figuras ali. Que dava para nota-las, dava, mas não dava para distinguir. Mesmo eu dobrando os óculos de vovó, para por as duas lentes em um olho só.

Mesmo assim. Eu tinha medo de aproximar meu rosto da esfera luminosa.

Meses depois meu pai que era Gerente do Banco Moreira Gomes em Macapá.

Foi transferido para Fortaleza.

Passaram-se anos. Eu formado em engenharia volto a cidade á trabalho. Como cresceu. Quase não a reconheço.

Hoje eu resolvo ir à casa de uma colega de equipe para um encontro e já meio atrasado tomo um táxi.

Pode me levar a rua Jovino de Noa, a altura do 515? – É pra já, responde, o motorista.

Começamos a rodar. Estou ansioso. Parece que estou apaixonado, ela interessou-me demais.

De repente o táxi entra por ruas que me levaram a infância. Lembranças felizes.

Momentos inesquecíveis junto com meus pais, agora já falecidos.

Peço que ele diminua a velocidade.

Foto encontrada no blog Porta Retrato

-Olho o colégio que estudei. Olha a praça dos Escoteiros. Quantas pipas empinei aqui.

O motorista sorriu.

Aqui nesta praça ganhei esta cicatriz.  Apontei-a sobre a sobrancelha direita.

De repente surgiu o esqueleto de uma casa já meio demolida. Eu já morei ai. Disse-lhe.

Que vão construir? Perguntei. Um templo, respondeu.

Pare um pouco. Vou descer um momento. Vou entrar um pouco nestas ruínas.

Ele parou na esquina. Debaixo de um foco de luz da iluminação publica. O que restou da casa estava do outro lado da rua em total abandono.

Não se demore disse. Este lugar é bastante perigoso.

Atravessei meio correndo.

A casa estava ali. Fora a ultima moradia comum a meus pais e meus avós, antes de irmos para Fortaleza.

Apesar de estarem derrubadas algumas paredes. Eu ainda conheço você, disse. Conheço bem ainda seus cômodos. Aqui era a sala. Bem ali ficavam os quartos, o banheiro, a cozinha.

Estava muito escuro. A placa da construtora defronte da casa quase totalmente demolida aumentava a escuridão e era uma construção de responsabilidade de nossa Construtora.

Que coincidência. Pensei comigo.

Parece que o táxi buzinava. Chamando-me.

O lugar esta escorregadio. Quase levo um tombo e que choveu fininho há pouco.

Das poucas coisas ainda de pé encontro à escada a minha frente, suspensa no ar.

Agora ela não se encontra com o andar de cima. Vou ao quintal não há mais a porta, vejo o cajueiro outrora pequeno, agora enorme.

De repente ouço um zig zig zag que me assusta um pouco. Retorno à cozinha pulando por sobre monturos de paredes derrubadas.

Esta lá brilhando a esfera luminosa. Parece que me esperava. Olho seu movimento zigzagueando de um degrau para o outro ate parar no quarto degrau.

Agora a vejo melhor. Estou usando uso óculos. E com eles posso vê-la é de uma luminosidade quase vermelha, brilhante, com um orifício no meio.E neste meio alguma coisa como que se mexe.

Pulo por cima dos pedaços de madeiras podres, espalhados pelo chão e me aproximo cada vez mais.

Ela não foge de mim zig zig zagueia e me espera.

Agora meio apoiado na própria escada, olho pelo orifício do centro.

Há uma figura masculina posso perceber pelo traje. Andando, de costas para mim.

Há um carro estacionado, é na direção do carro que ele caminha, posso vê-lo bem. Presto mais atenção sem me preocupar com a proximidade dos meus olhos, com o orifício da esfera luminosa. Chega um novo vulto, é outro homem.

Não consigo distinguir bem as feições. O que chegou por ultimo esta armado, mete a mão no bolso do primeiro, retira alguma coisa. Brigam um pouco.O homem armado atira varias vezes. Não acredito pareço sentir em mim os tiros. Ele corre. O que estava indo para o carro é atingido cai de costas. Não consigo ver seu rosto. Agora quase encosto os olhos no orifício de bola luminosa.

De repente sai outro homem do carro pela porta do motorista e se dirige ao que esta no chão Toma-lhe o pulso e parece gritar. O outro deve estar morto, pensei.

Então vira o corpo caído. Meu coração sobressalta-se. Foi um assalto.Eu vejo por fim o rosto nítido do morto no chão. Sua feição jovem, a meia barba, uma cicatriz sobre a sobrancelha direita, os óculos caídos no chão sob a luz mortiça do poste. Agora posso vê-lo nítido.

A esfera luminosa começa extinguir-se, não antes dos meus gritos

Ele.- Sou eu! Ele.- Sou eu! Ele – Sou eu.

Luiz Jorge Ferreira

* Além de contista, Luiz Jorge Ferreira é poeta, escritor e médico amapaense que reside em São Paulo e também é vice-presidente da Sociedade Brasileira de Médicos Escritores (Sobrames).

POSE – UM CEGO – Conto de Luiz Jorge Ferreira

POSE – UM CEGO

Um cego olhando de longe o horizonte me viu. Eu estava com um casal de andorinhas nas mãos. Quase neste instante, choveu. Uma chuva suja. Minha casa ficou toda molhada encolheu. Pedi a um homem que eu conhecia de nome, mas não lembrava de onde, que fotografasse de frente e de perfil meus retratos infantis dentro do quarto de dormir que eu via dali sob a pata traseira de um cachorro. Ele preferiu ficar com o osso do animal e fugiu.

Defronte onde estávamos, um sol enorme queimava o chão. Acendia baganas de cigarro e espantava os passarinhos para o céu. O cego veio se aproximando. Cantava ele um canto nordestino meio baião, que nem falava de seca nem de chuva inundante, mas falava de cores e tons, de cheiro e sons, de sorrisos e gargalhadas. “- Dê-me a máquina fotográfica. Quer fotografar com arte seus retratos de menino?” Pressentiu que afirmei sim com a cabeça. As andorinhas subiram na minha cabeça. Pretendia proteger-me da chuva, fazer um ninho ou alçar vôo. O cego, com a máquina na mão, se pôs e me mandou fazer pose.

A chuva cavou um buraco que engoliu a casa, a rua, a cidade, os pontos cardeais, duas festas de aniversário, o galope de um cavalo e eu. As andorinhas nunca chegaram ao céu. O cego está lá até hoje esperando. Pensa que ainda eu faço pose.

Luiz Jorge Ferreira

* Além de contista, Luiz Jorge Ferreira é poeta, escritor e médico amapaense que reside em São Paulo e também é vice-presidente da Sociedade Brasileira de Médicos Escritores (Sobrames).

 

MAMA GUGA – Conto de Fernando Canto que deu nome ao livro (Para Fernando Bedran)

Desde sua primeira prisão por contrabando, meu pai estampava na cara que era um bandido, um contraventor, um fora da lei que ameaçava a economia da região por não pagar impostos. Era convicto dessas coisas, até cínico. Propinava gente grande da Alfândega e fiscais estaduais dissimulados. Para ele, tudo era normal numa época de carestia e desencanto. Ele sabia dos perigos que o rondavam e que a qualquer momento poderiam enquadrá-lo por outros crimes. Por muito tempo fora um ajudante de importadores de mercadorias com uma impetuosa vontade de vencer na vida. Queria dar algo melhor para a família de quatro filhos que moravam com os avós em uma casa na Cidade Velha, em Belém, assim que enviuvou ainda jovem.

Depois que aprendeu a rota marítima e um pouco de patois para se comunicar e comercializar com os contatos de Paramaribo e Caiena, produziu sua independência e se tornou patrão, mesmo à revelia da vontade do seu antigo chefe. Viajou muito. Chegou a ir até a Venezuela comprar objetos de cozinha feitos de prata da Bolívia para revender aos comerciantes de varejo na Cidade das Mangueiras e em São Luís do Maranhão. Trazia famosos perfumes franceses, cortes finos de cetim e seda do oriente, que vendia para uma seleta freguesia de fazendeiros do Marajó e para clientes do society que ainda se julgavam aristocratas. Fazia tudo de uma forma meio escamoteada na loja que montou para o meu avô Salim. Meu avô era um libanês corcunda, um sábio, um conhecedor profundo das coisas do Cosmo Infindo, iniciado há tempos em uma Ordem Mística do Oriente, onde também iniciou meu pai.

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Nossa família foi ficando rica, mas muito visada pela polícia. Meu pai sabia disso e contornava as investigações com boas “gratificações” a policiais corruptos. Não demorou muito ele comprou outra embarcação com um sonar moderno que permitia viajar à noite com maior segurança pela costa, inclusive no tempo das pororocas mais fortes que rebentavam no litoral próximo à boca do rio Araguari, no oceano.

Os federais eram mais bandidos que os próprios bandidos. Espalharam que queriam pegar o terceiro chefão na linha direta do tráfico de mercadorias e não perdoavam quem ao menos ousasse imaginar que estavam torturando pessoas em busca de informações mais precisas. Tudo valia naquele tempo de ditadura militar. Não havia grupos de direitos humanos, e, mesmo se houvesse, ninguém jamais pensaria que essas práticas medievais ainda ocorressem por aqui.

O barco do velho certa vez foi metralhado por um bando de piratas que agiam próximo ao Cabo Orange, quando vinha de Paramaribo com um carregamento de uísque, vinho e máquinas de costura. Morreram quatro tripulantes, e dois deles se jogaram feridos ao mar. Meu pai nunca usou arma e viu, baleado, levarem a carga toda.

Não se sabe bem o porquê, mas deixaram com ele uma negrinha guianesa depois de a terem usado como escrava nas suas rotas criminosas pelo Caribe. Tempos depois, ele viria a se apaixonar, pois com muita paciência e carinho ela conseguiu curá-lo dos ferimentos de bala que o deixaram para sempre com o braço torto. Três dias depois do assalto, uma vigilenga os recolheu bastante debilitados e os conduziu até a cidade de Vigia.

Já recuperado, levou a mulher para casa, em Belém. E por ser viúvo todos aceitaram a estrangeira, mas havia um certo preconceito entre os membros da família, algo velado, que se dissipava com a autoridade do velho. Mais tarde, ele conseguiu financiamento com os chefes do contrabando, comprou um novo barco, juntou tripulação e voltou à ativa.

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Mama Guga parecia rejuvenescer com a viagem. Virou taifeira da embarcação e principal ajudante do meu pai nas operações comerciais com os habitantes das guianas. Falava bem o patois crioulo e o tak taki das fronteiras do território francês e de Suriname. Passavam longe da então Guiana Inglesa, pois lá as lutas pela independência da Inglaterra fizeram o comércio internacional ser impraticável. Muitos grupos de guerrilheiros almejavam o poder e se dividiam em ideologias, estratégias e objetivos, e se matavam uns aos outros. A nova embarcação, agora com o nome de Mama Guga, uma homenagem óbvia, singrava o Atlântico, as Antilhas e o mar do Caribe. Meu pai era só felicidade com a nova mulher. Ele a levava para dançar beguine no hotel Montabô, em Caiena, e bebiam os melhores conhaques franceses.

Certa noite, ela pulou do camarote como saindo de um pesadelo. Chamou meu pai, e se armaram. Estavam fundeados no Porto de Sucre, próximo de Caiena, esperando um carregamento de vinho para o dia seguinte, quando partiriam para o Brasil. Aguardaram e viram os vultos de quatro ratos d’água subirem pelo convés, armados de revólveres e facões. Vinham sorrateiros, com propósito assassino, pois para roubarem as mercadorias tinham que matar os tripulantes e fugir com a embarcação. Havia só a luz de um farolete a querosene a iluminar minimamente a área da proa, onde o marinheiro Zé Raimundo tirava o seu plantão. Iam surpreendê-lo quando Mama Guga acertou com um tiro no pescoço o negro magrinho que parecia liderar o grupo.

Zé Raimundo pulou para o lado e cortou em duas partes a cabeça do outro bandido com seu terçado afiado, enquanto meu pai disparava mais dois tiros para liquidar os outros ratos. Seguiu-se um silêncio… Esconderam os quatro cadáveres no porão e lavaram o sangue do convés. Ao carregarem a carga de vinho, já no dia seguinte, ainda foram cumprimentados pelos tripulantes de outros barcos que ouviram os tiros e calcularam o que ocorrera. Depois jogaram os corpos dos bandidos no mar e navegaram até Belém, não sem antes se esconderem das patrulhas das marinhas francesa e brasileira em pelo menos duas áreas de fiscalização, na foz do Oiapoque e no cabo Norte.

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Meu avô sabia que as viagens estavam ficando cada vez mais perigosas. Chamou meu pai e o avisou. Não era só a marinha e a polícia paraense que ficavam no pé do velho. Surgiam boatos que a polícia federal estava atenta a tudo e que faria operações na costa do Amapá até a fronteira com a Guiana Francesa. Para tanto, já estava equipada com barcos rápidos e radares poderosos. Era imperiosa a fiscalização das 200 milhas marítimas decretada pelos militares, e até corvetas da Marinha de Guerra transitavam na região. Não estavam ali só para prender contrabandistas ou pescadores internacionais nas nossas águas. Algo acontecia, além disso. Meu pai precisava pagar o empréstimo aos seus chefes patrocinadores e tinha que viajar mais vezes. Seu lucro era grande, mas os juros eram muito altos. O perigo era maior ainda.

Esse quadro todo era previsto pelo meu avô Salim. Platonista atento que era às vicissitudes dos seus parentes mais próximos, repetia sempre a máxima do seu mestre: “assim como em cima é embaixo”. E enfatizava que há tempo para semear, tempo para plantar e tempo para colher. Meu pai estava no tempo de colher, ele dizia. Desde a morte de minha mãe, ele esquecera o sentido da reflexão, da meditação, como técnica a ser utilizada em tudo o que desejamos ou temos obrigação de realizar. Perdera a sabedoria e ganhara a esperteza ao meio da ganância e das práticas ilegais e resolvera agir, assim, pelo livre arbítrio, fora da Lei Cósmica. Meu pai estava involuindo da sua divindade, de sua essência. Sabia disso e não ligava. Meu avô pronunciava palavras ao vento…

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— Você está nesse mundo pra viver! – disse o chefe dos federais. Colabora, porra!
— Se tu não falar por bem tu vai pegar muita porrada lá no “Purgatório”! – dizia rindo sarcasticamente o policial, referindo-se a uma tenebrosa câmara de tortura existente nos porões do prédio colonial que abrigava a delegacia.
— Diz logo, porra. Onde é que tá a Mama Guga, aquela salope duma figa? Cadê os terroristas assaltantes de banco? Hem, caralho. Onde vocês deixaram eles.

Meu pai, literalmente de mãos atadas pelas algemas, levantou a cabeça, pediu água. O policial, num gesto rápido, pôs-lhe o cigarro na boca e acendeu um isqueiro de aço, daqueles que têm uma chama alta e são acesos com faíscas de pedra no chumaço molhado de querosene.

— Diz logo, caralho! – e foi levantando devagar o queixo do velho, lhe queimando a barba, e ele pulou para trás urrando de dor e se estatelou sobre a cadeira que caíra com ele.
— Fala logo, turco filho da puta! – gritou outro policial, chutando-lhe a cara sem piedade. – Fala, “Braço de Eletrola”! – gritou o policial se referindo ao defeito no braço do velho, e continuou: Onde escondeste os filhos da puta dos comunistas? Cadê a negra?
— Eu não sou turco, sou libanês… – balbuciava meu pai, sangrando pelos buracos da cabeça.
— Mas tu és bandido, seu contrabandista de uma figa. Onde é que está a Mama, seu macoumê da Guiana?

“Turco não, libanês…”

Aplicaram-lhe tantos golpes covardes que ele desfaleceu.

Acordou amarrado do mesmo jeito. Da testa e do nariz escorria um sangue escuro, quase coagulado. Perguntaram de novo pela Mama Guga. Ele disse:

— Eu vou dizer, mas ela vai rogar uma praga pra vocês que vão ficar vinte anos babando saliva com vontade de consumir o que não podem, seus otários. Eu sou bandido, sim. Sou contrabandista, mas não sou como vocês que acreditam nessa tal revolução de merda. Sai um ladrão do poder, entram centenas. Essa é a regra desde o início dos tempos.

Depois de apanhar mais e de “dar o serviço”, meu pai dizia que só se lembrava das coisas depois de ter sido encontrado por um barco transportador de açaí perto do Ver-o-Peso. Não fosse sua prática de marinheiro-embarcadiço na juventude, jamais teria sobrevivido àquela condição extrema de tortura em que lhe deixaram os policiais, após o terem depositado n’água, na madrugada. Nunca havia posto um cigarro na boca e tinha uma força imensa.

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Anos depois, já com a decretação da Lei da Anistia, meu pai saiu pela primeira vez de casa para tomar sol e andar pelo Porto do Sal à procura de notícias de Mama Guga, pois até então a polícia não deixava de vigiá-lo em sua porta. Inquiriu seus antigos camaradas, marinheiros e ex-tripulantes durante meses, do Porto da Palha ao Ver-o-Peso. Um dia, encontrou com o seu velho amigo Zé Raimundo e descobriu onde sua amada estava. Vibrou de alegria. Ele sabia que ela vivia, mas não podia vir até ele. E nem ele até ela.

Na sua última viagem, foi obrigado pelos chefes do contrabando a levar como passageiros cinco terroristas que fugiram do presídio São José, após terem sido presos por assalto à mão armada em um banco estatal, em Belém. Era o pagamento final de sua dívida. Era pegar ou largar. E ainda tinha um pagamento em ouro a ser acertado no final da viagem. Essa promessa o fez investir num plano ousado. Alugou um pequeno barco de pesca e o mandou na frente com alguns tripulantes e os esquerdistas barbudos, sob o comando de Mama Guga. Viajariam apenas à noite, bem próximo à costa. Uma semana depois, meu pai zarpou de Vigia para as águas do Atlântico rumo à Caiena.

No canal do Maracá, foi avistado por uma corveta da Marinha. Prenderam o barco e a tripulação, mas só ele foi torturado até relatar o plano de viagem.

Ele sabia que sua amada Mama Guga havia deixado os comunistas no Porto de Sucre com êxito, portanto nada mais devia aos mafiosos chefes do contrabando – a essa altura todos mortos. E ela não era mais considerada persona non grata no Brasil.

A sortida loja de tecidos do meu avô se transformou em um ponto comercial alugado. Vivíamos de renda e do salário dos meus irmãos mais velhos. Mas eu fui o escolhido para procurar e trazer Mama Guga até ele. Protestei de início e argumentei que era muito franzino para enfrentar uma aventura e nunca tinha viajado de embarcação, ainda mais pelo mar, inclusive era conhecido no bairro por “filé de Borboleta”. Porém, não convenci o velho. Fui convencido, porque “arranhava” um pouco de francês. Então parti pelo mar.

Na cidade de Oiapoque, me informaram que Mama Guga tinha um pequeno comércio na vila de Tampac, abaixo de Saint-Georges, no rio Oiapoque, uma comunidade habitada por descendentes de africanos chamados saramacás. Aluguei uma catraia e fui até lá. O catraieiro que me serviria de intérprete.

O chefe da vila, conhecido por Capitão Gody, me recebeu com um grande sorriso, como se eu fosse esperado há tempos, e apertou minha mão com força. Ele falava um português tão correto que eu nem precisei mais do intérprete. Sabia que eu procurava Mama Guga e que era enteado dela. Foi um recebimento protocolar. Pediu aos membros de sua corte que dançassem o cacicó em minha homenagem, e eles dançaram e cantaram ao som dos tambores o “Mô kalê lá / Mô kalê lá”, entre goles do tafiá Damme Jeanne, uma cachaça de garrafão feita de milho, típica da Guiana. Ofereceu-me um cálice do genuíno vinho francês Quinquina du Prince e me contou que Mama Guga tivera uma vida trágica. Seus pais foram assassinados, e ela, raptada ainda adolescente por um garimpeiro nas cabeceiras do rio Maropi. Depois foi vendida como escrava a um barco de piratas. Tinha o dom dos xamãs e teria explodido com a força do pensamento os escrotos de um pirata quando ele tentou estuprá-la. Tiveram medo de matá-la e a jogaram no peito do meu pai ferido por tiros, quando roubaram seu barco e a carga.

A notícia que ele me daria em seguida seria mais surpreendente. Ela morrera há três dias. Tinha vivido por anos na vila, onde fora bem recebida porque seus pais eram saramacás. Mas ela sofria de melancolia, com saudade do seu amor do Brasil, o único homem que a valorizara em toda a sua vida, costumava dizer.

Eu nada perguntava ao Capitão Gody. Ele mandou parar o cacicó e me levou a um lugar afastado, sempre com o séquito atrás dele. O ar era perfumado por um cheiro estranho. Havia uma cabana coberta no quintal à beira do rio. O cadáver de Mama Guga jazia sobre um assoalho de paus. Ele disse solenemente:

— Meu filho, quando morre um membro da nossa tribo, construímos um girau da palmeira jussara para colocar o corpo do morto. Embaixo do corpo, pomos uma gamela de madeira bem calafetada do tamanho do corpo e ateamos fogo ao redor. Do cadáver vai escorrendo o suco que era sua vida. Depois que ele fica bem seco, fazemos o enterramento e dançamos ao seu redor, esfregando aquele suco em nossos corpos. Isso nos dá mais vida e melhor bem-estar. Nós herdamos esse costume dos nossos ancestrais africanos – completou o chefe Gody.

Eu assisti ao ritual e me besuntei do óleo de minha madrasta. O Capitão Gody me presenteou com um belo artesanato de madeira feito a canivete e me entregou dois quilos de ouro em pó que Mama Guga havia deixado para o meu pai. Ela tinha certeza de que alguém viria vê-la nem que já fosse morta. O chefe era um homem justo e foi o guardião da fortuna até entregar o que agora pertencia a meu velho. Voltei com medo, mas me senti protegido, porque, além do ouro, trazia um frasco com um pouco de suco de Mama Guga para dar nas mãos dele.

*******

Quando cheguei a Belém, reuni a família, contei minha aventura floreando detalhes e entreguei a meu pai seus pertences. Depois, ficamos apenas ele, o pai dele, eu e meus irmãos homens na sala. Meu avô me disse compassadamente que meu pai voltara ao misticismo depois de perder tudo e ser torturado pelos policiais da ditadura.

Tinha estudado muito e já meditava e experimentava em laboratório caseiro os símbolos alquímicos, os quatro elementos da natureza, os sete metais, o opus alquímico e suas operações, a busca da Prima-Matéria e outros conteúdos dessa arte e ciência milenar, cujos segredos ainda eram guardados pelos Rosa Cruzes. Nesse momento, ele purgava suas falhas com o Cósmico no seu processo evolutivo, pois havia sucumbido diante da ambição e da ganância, que o tiraram do eixo da harmonia com o Universo.

Enquanto o meu avô explicava, meu pai ajoelhou-se em nossa frente, invocou palavras desconhecidas para nós, seus filhos. Besuntou-se do suco de Mama Guga e salpicou sobre sua cabeça uma pequena quantidade de ouro em pó.

O rosto dele iluminou-se de felicidade quando um fogo fez seu corpo entrar em combustão e o ouro transmutar-se em uma diáfana camada de névoa amarelada. Tentamos correr para salvá-lo, chorando em desespero, mas meu avô nos impediu.

— É só uma ilusão, meus filhos… – disse o velho avô.

Sim, seria uma ilusão, não fosse o fato de Mama Guga estar presente todos os dias em nossas vidas dançando beguine com meu pai, ali na nossa sala. Meu avô Salim fica sentado na poltrona, coça a barba branca e abre um sorriso enfatuado por ter realizado seu trabalho redentor em nossa família.

Eu, Fernando Bedran ( primeiro à esquerda, que inspirou este conto sensacional) e Fernando Canto (o maior escritor vivo do Amapá).

Meu comentário: este genial conto de Fernando Canto foi escrito por conta de várias histórias do amigo Fernando Bedran (tenho a honra de ser amigo dos dois fernandos), que nas mesas de bar. Claro que o autor, além de contextualizar, escreveu o conto com carradas de realismo fantástico e brilhantismo, da mente genial de Fernando Canto. Aí deu nesse escrito sensacional. Porreta!

Orgulho: conto da escritora amapaense Alcinéa Cavalcante integra antologia lançada no Museu do Louvre, em Paris (FRA)


O conto “La Pierre enchantée” de autoria da poeta, jornalista e escritora amapaense, ela é imortal da Academia Amapaense de Letras (AAL), além de querida amiga deste editor, Alcinéa Cavalcante integrou a antologia “Les Plus Belles Oeuvres de ce Siècle”, lançada na última sexta-feira (20), no Museu do Louvre, em Paris (FRA).

A publicação também será lançada nesta terça-feira (23), no Museu do Perfume, na cidade de Marrakesh (MAR).

“Les Plus Belles Oeuvres de ce Siècle” é a segunda antologia em francês, editada pela Divine Académie, a publicar as obras de Alcinéa. A primeira foi “Ainsi écrivent les brésiliennes”, lançada em 2015, no Salão do Livro de Paris.

Além destes feitos, a querida escritora teve seu conto “A pedra encantada do guindaste” publicado na Antologia “As Melhores Obras deste Século”, em 2017. O mesmo escrito também faz parte das publicações antologia “Vozes Portuguesas”, do Núcleo Acadêmico de Letras e Artes de Lisboa, que será lançada dia 26 de maio do ano passado, em Odivelas (Portugal) e Antologia “Lindas Lendas Brasileiras”, de 2014.

Só orgulho da querida amiga Alcinéa.

Alcinéa é “PHO – DA”! Assim mesmo, com PH, silabicamente e em caixa alta. E esse foi mais um de seus feitos. Além disso, é uma das melhores jornalistas do Amapá. Tenho muito orgulho de ser seu amigo. Meus parabéns à escritora, que representa a literatura do Amapá nacional e internacionalmente. Orgulho de ti, Néa. Parabéns!!

Elton Tavares

“Os patos”, de Rui Barbosa e o Zeca Baleiro

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Diz a lenda que Rui Barbosa, ao chegar em casa, ouviu um barulho estranho vindo do seu quintal. Chegando lá, constatou haver um ladrão tentando levar seus patos de criação. Aproximou-se vagarosamente do indivíduo e, surpreendendo-o ao tentar pular o muro com seus amados patos, disse-lhe:

“- Oh, bucéfalo anácrono! Não o interpelo pelo valor intrínseco dos bípedes palmípedes, mas sim pelo ato vil e sorrateiro de profanares o recôndito da minha habitação, levando meus ovíparos à sorrelfa e à socapa. Se fazes isso por necessidade, transijo; mas se é para zombares da minha elevada prosopopéia de cidadão digno e honrado, dar-te-ei com minha bengala fosfórica bem no alto da tua sinagoga, e o farei com tal ímpeto que te reduzirei à quinquagésima potência que o vulgo denomina nada.”

E o ladrão, confuso, diz:

“- Dotô, eu levo ou deixo os pato?

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Zeca Baleiro, faz essa mesma citação em sua música “Vô Imbolá”, mas num contexto diferente que pode-se aplicar muito bem ao nosso dia-a-dia, principalmente aos bucéfalos anácronos:

“- Como é por ignorância transito, mas se fosse unicamente para menoscabar de minha alta prosopopéia, dar-te-ia um soco no alto da sinagoga que por-te-ia mais raso do que solo pátrio!”

Não lembro onde achei isso, pois faz anos, mas é genial, não?

A HORA DA DANAÇÃO – Conto porreta de Fernando Canto

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Conto de Fernando Canto

Depois de vencer sete eleições consecutivas para deputado estadual, o escamoso líder do Partido da Estrela Negra, Maciel Fallabuonna enfim perdeu a disputa eleitoral naquele ano, possivelmente por causa dos inúmeros escândalos de corrupção envolvendo o seu nome.

Maciel tinha uma carreira impressionante pelo carisma que emanava até dos poros, desde que fora eleito como vereador pelo partido do governo nos tempos da ditadura militar. Seguia sempre os princípios de não ser nem oposição nem absolutamente situação, apesar de constantemente mudar de partido, de acordo com suas conveniências e as oportunidades históricas que se avistavam. Exerceu cargos mandantes na mesa diretora, sem se envolver diretamente com as decisões da presidência. Sempre tinha poder. Seus assessores chagavam a quase duzentas pessoas, porque sabia dividir a verba parlamentar de modo que todos ficavam satisfeitos. Somados os cargos de apadrinhados e familiares nos governos o número disparava e o colocava em vantagemimages (2) contra seus pares. Vencia sempre. Assim podia indicar quem quisesse nos governos que se aliava, principalmente na época das eleições ou depois que as águas da política baixavam, quando o poder executivo precisava do seu apoio, por meio de alianças venais veladas, dessas que a imprensa democrática jamais teria condições de descobrir. Sua assessoria era tão eficiente que até o presidente da Assembleia tentou comprar o passe do jornalista responsável pela divulgação das atividades de Maciel. Só tentou, porque Maciel segurou o seu passe com vantagens que só eles sabiam.

Maciel, contudo, tinha uma frustração. Nunca pôde ter filhos. Por ser muito ocupado também não se preocupara em adotar algucpi-pelicanoém ou mesmo pular o muro atrás de mulheres fáceis, que cercavam os poderosos e que notadamente usavam de truques sujos para engravidar de incautos e com isso garantir pensão em troca de silêncio. Nunca, porém Maciel se envolveu em orgias e escândalos sexuais. Mexeu com o jogo do bicho e outras contravenções penais; com o tráfico de drogas e lavagem de dinheiro, mas com mulheres, jamais. Era até respeitado no high society por causa disso. E sua mulher achava o máximo. Mal sabiam as pessoas que fora do Estado ele se metia com travestis em uma época que nem se falava em GLBT e políticas de diversidade de gêneros.

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Foi aí que começou a derrocada do deputado. Boatos começaram a circular e especuladores oposicionistas deflagraram um processo de degradação moral do deputado. Tudo começou mesmo quando um travesti do estado vizinho que migrara para Macapá o reconheceu no noticiário de TV. Foi só um pulo para a boataria deslanchar. Entretanto, a assessoria do deputado conseguiu desmentir tudo e levá-lo novamente à vitória para exercer seu sétimo mandato.

Embora tivesse vencido essa eleição, seria a última que ganharia, pois a dúvida, o preconceito e o machismo da população permaneceriam por mais quatro anos lhe espezinhando a moela, falando sobre seu gosto por homens ”montados” de mulheres. E uma vronaldo_com_travestiez no chão, diziam, o caldo não se junta nem com língua de cão sarnento lambendo e fuçando. Apelidos, ditados populares jocosos e discursos insinuadores fizeram o inferno do legislador, que mesmo ganhando muito dinheiro nos inúmeros processos por calúnia e difamação, não conseguia se desvencilhar das especulações. Ele sofria uma campanha pesada. Um vídeo em que supostamente ele aparecia em ato sexual com um travesti louríssimo foi disseminado na internet e isso concorreu bastante para que perdesse a eleição pela primeira vez, após quase trinta anos de atividade política.

Mágoas deslizaram ao largo de sua boa vontade de sempre fazer projetos de impacto para a melhimages (3)oria do povo do estado que ele tanto amava. ”Um baque no coração”. “Porrada seca”, dizia. E andava triste, consolado apenas pela compreensiva esposa estéril. Chorava também por não ter filhos para continuar sua descendência política, sua “dinastia”, falava. Se a sorte lhe negara isso, a mente invejava seus pares e adversários que já haviam colocado os filhos nas trilhas aparentemente fáceis da política. Todos eram assim: contra o nepotismo, a corrupção e as injustiças sociais, irreverentes, lutadores e ideólogos. Depois se eximiam dos propósitos iniciais, sucumbiam ao dinheiro e se lançavam aos cães do mando dos mais poderosos.

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Aos ccanstock25890860inquenta e três anos, abatido pelos escândalos de corrupção e envolvimento em outras práticas criminosas, Maciel prostrou-se em uma depressão inédita em sua vida ainda jovem e saudável – produto da prática da musculação diária na academia instalada em sua mansão. Rico, mas sem o poder que lhe acompanhara a vida toda, gastou uma chuva de dinheiro para a cura dessa doença contemporânea.

Conseguiu se sair dela depois de longo tratamento e algumas perspectivas de voltar à política, dado o rol de informes que poucos ex-colaboradores lhe passavam pessoalmente, pois detestava ler jornais: uma fobia adquirida no poder quando sua assessoria só lhe passava clipes diários.

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Com o tempo voltou a ler tudo o que via pela frente, até que um dia viu uma notícia diferente: um concurso de melhor velório, em uma grande capital, promovido por uma revista de circulação nacional. Achou estranho, porque nem sabia que era comum postarem fotos de enterro de famosos na internet, de velórios glamorosos de famílias ricas e de personalidades do mundo da política. Era o culto à morte dos não-heróis. O capitalismo achou um outro nicho para driblar a crise e armazenar chuvas de dinheiro. Virou moda. A indústria de maquiagem para cadáveres se desenvolveu rápida e oportuna, assim como os serviços de decoração, floricultura, buffet e arquitetura moderna para túmulos e santuários, que também chegaram download (5)rápidos em sua cidade. A especulação tomou conta dos cemitérios e os ricos chegavam a comprar os pequenos lotes ao redor dos seus para erguerem capelas, templos e campanários climatizados, que chamavam a atenção e faziam a alegria dos frequentadores mórbidos e da rapaziada gótica. A Prefeitura urbanizou os campos santos, contemplando-os com linhas de micro-ônibus e praças de alimentação. Certos lugares tinham a concessão de cobrar ingressos para visitação, tanto era a sofisticação e a diversidade de atrações desse mercado.

download (6)Visitantes andavam de elevadores pelos subsolos onde jaziam os sarcófagos construídos ao estilo faraônico. Viam-se os corpos intatos das personalidades famosas, muitas das quais haviam sido enterradas em rituais patrióticos. Havia túmulos de diversos estilos. Alguns corpos ficavam em esquifes nos patamares um pouco abaixo do obelisco municipal que tinha em todos os cemitérios públicos, monumento obrigatório por Lei. O público era transportado por elevadores panorâmicos, por isso tinham o ingresso mais caro. Também havia a seção museológica dos mortos em acidentes trágicos que recebia vista de milhares de romeiros de todo o Estado. Eles digitavam em tablets ali mesmo vendidos, os agradecimentos pelas graças alcançadas pelas curas de suas doenças, ao mesmo tempo em que desejavam estar expostos juntos a seus santos.

De acordo com as suas religiões as pessoas também pagavam com peças de ouro um minuto de aconchego com as asas eletrônicas e confortáveis de anjos, querubins, serafins, potestades…. Cada categoria tinha um preço.

A noite era o período de maior visitação. Antigos darks e grupos de heavy metal faziam aARGENTINA-CERATI-DEATH-FUNERAL-GPN1RDJPR.1presentações no anfiteatro cantando uma mistura de gospel e protesto contra a vida. As encenações punham a morte de um longo vestido vermelho brilhante descendo ao palco com uma enorme foice de luz. A figura jogava de repente a foice e emergia no meio do público alucinado disparando um fuzil russo automático. Ninguém se amedrontava, pois se sabia que era a hora da morte, a hora da danação.

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Com o barulho do disparo na mente, Maciel saiu do transe, da concentração, meio tonto ainda. Pediu a um colaborador os detalhes do concurso de túmulos. Nada mais lhe restava, senão a morte e um enterro digno de um ex-parlamentar atuante.images (6)

Como o respeito pelos mortos mudava de configuração nestes tempos, ele apostou consigo mesmo que ganharia o concurso, mesmo que para isso tivesse que morrer. Começou a planejar suas exéquias contratando um arquiteto italiano especialista em cemitérios. Sua fortuna acumulada lhe permitia sonhar com o primeiro lugar em todo o Brasil. Bastava-lhe morrer. Antes, porém, escreveria sua biografia, onde a defesa das coisas a ele imputadas seria o foco principal. Morreria, ora se morreria. A vida não lhe interessava mais. Logo ele que nunca tivera tempo de se converter em uma religião porque fora de todas nas suas conveniências políticas em busca de votos. Por isso sabia os rituais.as_mulheres_choradeiras-E

Ao se preparar para a glória definitiva Maciel inventou uma liturgia que era a mistura de vários ritos de encomendação das almas de religiões diferentes. Mandou imprimi-la para que os presentes recitassem desde a transladação do corpo no carro de bombeiros da Assembleia Legislativa ao cemitério, quando os discursos e a pomposidade explodiriam sobre as suas antigas eleitoras previamente bem trajadas com as cores do seu último partido político, e bem pagas para serem carpideiras e mistificadoras da sua obra.Quando-eu-morrer-por-Sponholz1

O ex-deputado escolheu um modelo de se matar que não viesse a agredir ou mutilar seu rosto e estaria barbeado e maquiado conforme suas instruções. No dia marcado e tudo em segredo, sua mulher estranhou um certo entusiasmo, depois da depressão que o atormentava. Terminou descobrindo o plano mórbido. E ameaçou contar tudo à imprensa. Maciel, no entanto, estava irredutível e decidiu morrer de qualquer maneira. Dominou a frágil esposa e a prendeu num quarto.

Seu plano seguia de acordo como que previra, inclusive com a inscrição do seu túmulo no concurso da revista. Partiu para o ato final. Na sua hora da danação os olhos esbugalhados de um doente depressivo, injetados de problemas e de remédios “tarjas pretas”. Estava o deputado mortinho, obstinado no seu desejo de imortalidade em forma de monumento. Feneceria, cleao-cachorro-tumulo-rio-550_thumbonforme imaginou, congelado dentro de um freezer após se dopar com uma overdose de valium.

Seguiram as instruções deixadas, mas o deputado não ganhou sua última eleição.

Mercedes, encontrada e liberta, achou que seria um gesto desnecessário tanta pomposidade para o morto e resolveu economizar aqui na terra, preferindo um túmulo mais barato para garantir o seu futuro, já que a justiça iniciara o resgate dos bens acumulados do marido em seus últimos mandatos.

As que se chamam Flávia… – Conto porreta de Ronaldo Rodrigues sobre a chegada de outubro

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Conto de Ronaldo Rodrigues

– Outubro é muito perigoso!

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É preciso segui-la. Sinto isso logo que a vejo na livraria. Está folheando uma revista, sem muita atenção, fixando-se apenas nas fotografias. Parece estar ali com o mesmo propósito que eu, matando o tempo até voltar ao trabalho.

*** *** *** *** *** *** *** *** ***
– Outubro é muito, muito perigoso!

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Ficamos lado a lado, embora a mulher permaneça como se só ela existisse. Tenho a visão no livro que folheio sem qualquer interesse e a atenção totalmente voltada para a mulher. Ela fecha a revista decididamente, olha para o relógio e o percebe parado:

– Sabe as horas, moço? – Pergunta, altivamente.

– Nã… Não! Não… sei… – Gaguejo, respondendo.

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Quem sempre me dizia isso era o Capitão Nemo:

– Tenha muito cuidado, menino! Outubro é muito perigoso!

*** *** *** *** *** *** *** *** ***
Ela deixa a revista na estante e dirige-se à portaria. Confere a hora e acerta o relógio. Sai da livraria e eu continuo olhando aquela mulher, agora através do vidro da vitrine. Ou será que não existe vidro algum? Meu olhar é que fez a parede tornar-se transparente?

Pergunto o motivo do perigo de outubro e ele responde, depois de longo silêncio, os olhos em transe, na direção do mar:
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– É em outubro que começamos a enlouquecer! É em outubro que costumam surgir as sereias!

*** *** *** *** *** *** *** *** ***

Ela atravessa a rua. Saio da livraria, disposto a segui-la, e paro na esquina. Contemplo, então, o espetáculo da rua silenciar-se para a passagem daquela mulher. A paisagem urbana torna-se repentinamente quieta, mas com uma acelerada pulsação interior que começa no asfalto e termina/continua no meu peito.

Ela entra num edifício e eu continuo seguindo seus passos. Ainda não me percebeu e acho que isso não acontecerá nunca. Ela aguarda a chegada do elevador junto a mais três pessoas. Incorporo-me ao grupo e passo a esperar também.

*** *** *** *** *** *** *** *** ***

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Todos dizem que não devo dar atenção às palavras do Capitão Nemo. Dizem ser louco tanto o Capitão Nemo quanto quem o escuta. Mas eu digo que não. É preciso buscar o sentido das palavras, principalmente das que nos parecem mais delirantes.

*** *** *** *** *** *** *** *** ***

O elevador chega, nos recolhe e inicia sua lenta subida. As pessoas vão ficando em seus respectivos andares até restar apenas eu e a mulher. Como música de fundo, meus batimentos cardíacos ecoam nas paredes do elevador confundindo-se com a palavra outubro.

*** *** *** *** *** *** *** *** ***

Outubro. Agora compreendo claramente seu perigo. O Capitão Nemo ficou aprisionado em sua louca lucidez, nos destroços do seu navio, enfeitiçado por uma sereia. Eu estou preso neste elevador atraído por uma sereia. Aqui ficarei para sempre, aguardando todos os dias aquela mulher maravilhosamente perturbadora cujo nome conheço apenas a letra inicial (F), que vi uma vez em que ela abriu rapidamente a agenda.
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Todos os dias, quando ela sai do elevador, ainda sem notar minha presença, recordo as palavras do Capitão Nemo, que todos acreditavam serem palavras de um louco:

– É preciso ter muito cuidado com as sereias de outubro. Elas são cruéis e nos enfeitiçam com desejos intocáveis. Principalmente, meu filho, as que se chamam Flávia…

* Este conto foi publicado em 1995, na coletânea Novos Contistas da Amazônia, em Belém, resultado de um concurso promovido pela Universidade Federal do Pará. Tempos depois, o conto inspirou a HQ Outubro, do cartunista Paulo Emmanuel, premiada em dois salões de humor. Isso mostra o quanto este conto é quente.

Macapá já se anunciava para mim, pois o livro trazia contistas que só fui descobrir aqui, como Archibaldo Antunes e Ray Cunha, e apresentação do grande Fernando Canto.
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Gosto muito deste texto, creio que seja um ponto alto da minha carreira de contista, que ofereço agora como homenagem, digamos assim, ao mês de outubro.

Ronaldo Rodrigues

AZUL – Conto de Luiz Jorge Ferreira

Conto de Luiz Jorge Ferreira

O primeiro cavalo era o que trazia a cauda toda ensopada de orvalho. Do terceiro em diante, só insetos, restos de dia, pedaços escuros da noite e sons de puns de dragões. Para ela, presa a uma cadeira de rodas, era uma alegria ouvir o barulho da cavalgada e, mais ainda, adivinhar a ordem de chegada de cada um deles pelo tropel. Quando era menorzinha, caíra gravemente da bicicleta e machucou muito a coluna vertebral.

Desde então, não andava mais. Quatro anos, dos oito que possuía, acostumara-se a ser colocada próxima à janela e observar quase que diariamente a passagem dos cavalos. Quando eles não vinham, distraía-se observando o voar dos anuns lá no milharal, ou então quedava-se a escutar a conversa animada dos espantalhos medrosos da chuva, reclamando do sol e xingando as joaninhas que lhe causavam cócegas nas pernas.

Por isso, quando o primeiro cavalo parou para conversar com ela, animou-se muito. Fez amizade e deu lhe restos de bolo de milho que comera no café da manhã. Depois, apresentou-o aos anuns e mais tarde aos espantalhos. Uma tarde, quase foram pegos jogando baralho e apostando pétalas de girassóis.

Hoje, não amanhecera bem. Não conseguia comer e tinha febre. A noitinha, surpreendentemente, sentiu vontade de esperar os cavalos na frente da casa. Tentou com esforço levantar e conseguiu. Suas pernas haviam ficado leves. Foi como se flutuasse até o terreiro. Escutou o tropel. Eles já estavam chegando quando caiu da cadeira de rodas. Escutou o choro dos que ficaram dentro de casa. A que chorava mais alto era sua mãe. Mas nem se importou. Muito menos com os gritos dos anuns: “- Lá vai ela! Lá vai ela!” E nem com os acenos dos espantalhos. Montou no primeiro cavalo e saíram cavalgando. Podia ser que fosse longe, mas parecia tão azul…

*Luiz Jorge Ferreira é amapaense, médico que reside em São Paulo e vice-presidente da Sociedade Brasileira de Médicos Escritores (Sobrames).

A SUCURI – Conto indígena de Fernando Canto

 

Era ainda princípio de mundo quando Ianejar já havia criado os seres que mais tarde iriam compor o conjunto de animais sobre a terra. Todos eles tinham a mesma aparência, falavam a mesma língua e não mostravam nenhuma diferença nas suas práticas e conhecimentos da vida. Tinham música e flautas do turé para realizarem seus rituais, mas não possuíam cores.

Só a floresta tinha cor. Coube, então a Ianejar, durante uma grande festa, promover a separação entre homens e animais, para os quais destinou um espaço diferenciado para organizar, assim, a vida em sociedade. Na festa os homens e animais cantavam e dançavam, até que uma grande parte desses primeiros seres que dançavam caiu no rio e se transformaram em peixes, que passaram daí em diante, a servir de pasto aos homens. Outros viraram cobras aquáticas que continuaram vivendo no fundo dos rios, e só se comunicavam com os pajés, porque continuavam gente.

No local em que viviam havia uma enorme caverna sob uma montanha de pedra, onde morava um ser muito temido e que foi morto pelos humanos. Ao cair na beira do rio eles lhe abriram o ventre e extraíram seus excrementos, que eram todos coloridos. Então fizeram outra grande festa e se pintaram com as cores deixadas pelo ser. Não perceberam, entretanto, que no ventre do cadáver do poderoso ser eclodia o ovo de uma enorme sucuri que foi crescendo, crescendo, durante a festa que realizavam.

De repente ela surgiu afugentando os convidados que partiram voando para o céu se tornando os primeiros pássaros. Alguns se embrenharam em todas as direções da floresta e viraram caititus, antas e capivaras, veados e jacarés.

A cobra-grande jurou se vingar dos homens e de qualquer animal que se pusesse em sua frente, furiosa porque mataram seu pai primordial. E se foi na direção do sol poente, levando águas e terras até fazer sua morada em um lago escuro, de onde sai de tempos em tempos, quando uma estrela de cauda aparece no céu da noite. Ela vem silenciosa para destruir o que os homens construíram às margens dos rios, sejam aldeias, cidades ou fortes de pedras. E no seu caminho em direção à foz do Grande Paraná, para onde vai trocar de pele, vai deixando escamas sobre as construções que destrói na trajetória avassaladora de sua eterna vingança. É por isso, então, que para se protegerem de si mesmos e dos perigos da floresta, até hoje os homens só constroem suas casas umas juntas das outras nos lugares onde ficaram as escamas deixadas pela sucuri.

A Seringa contaminada de Bambo, o Zagueiro do Futlama (Conto porreta de Fernando Canto sobre o “Bambolê”, que aterrorizou Macapá nos anos 90)

São três da tarde, o sol está quente que dói. E o cara na zaga deixa a bola passar: gol contra o nosso time. De novo ele faz isso. Tamanho cara, eu penso, parece que faz tudo pra gente perder. Culpa do Juninho que não veio hoje porque arranjou o primeiro emprego e indicou o negão aí que é só tamanho e nem sabe pra onde a bola vai. Dou-lhe uma esculhambação, mas ele não liga. Nem tem como substituí-lo, hoje é segunda-feira, tem uns quatro do nosso time trabalhando no comércio. Eu não estou nem aí… Sou funcionário público mesmo…

A maré vem enchendo e a gente vai ter que abandonar o campo na praia. Nosso time era quase imbatível, mas esse cara… Putz! 5 X 0 e saímos ridicularizados pelo adversário. Agora todo mundo vai saber. Vão nos gozar o ano todo. Isso nunca tinha acontecido, éramos os reis do futebol de praia, do futlama, digo, como chamamos aqui em nossa cidade, porque o campo que utilizamos é o leito do rio, que tem uma sedimentação mais sólida depois que a ábardupedrogua seca. Jogamos entre as marés, até o rio encher. E o nosso time, o “Mergulhão”, era o melhor. Era. Antes desse vexame.

*******

É Sexta-feira. Estou no bar da Preta, lá perto do trapiche, tomando uma loura, esperando a namorada e a lua cheia que vem linda, brotando do meio do rio, quando vejo a confusão: gente correndo, polícia chegando com suas sirenes e luzes e um negão descontrolado:

Vou contaminar todo mundo, eu. Ninguém encosta que eu faço o que digo.

Caramba! É o cara ruim de bola da defesa do nosso time. Está com uma seringa na mão e aparenta estar drogado. Os garçons dizem que é um tal de “Bambo”, um menor delinquente, destemido e inconsequente. Fugiu novamente do Centro que abriga menores infratores e quer assaltar todo mundo. Esconde-se atrás de uma coluna e salta como um gato sobre um casal. Ameaça enfiar a seringa na moça, mas ela desmaia e o rapaz foge covardemente sem prestar auxílio à namorada. Mesmo na mira dos policiais “Bambo” consegue segurar uma garçonete do bar contíguo ao que eu estou escondido junto ao balcão. Ela tenta se desvencilhar dos braços enormes do agressor, mas ele a aperta cada vez com mais força. O garçom que se esconde ao meu lado me diz que o cara já contaminou duas pessoas com o sangue dele, que tem AIDS.

Falo baixinho, cético, quase sussurrando: – Mas como esse cara é aidético… Desse tamanho? Acho que ele está blefando. A polícia se aproxima e o cara está irredutível no seu propósito.

– Joga a seringa no chão. Ordena o soldado, segurando o revólver com as duas mãos. – Larga a moça e joga isso logo.

Os olhos do bandido volteiam quase saindo das órbitas, de um jeito que procuram algo no céu. São grandes e negros. Lá fora o rio enche e as ondas do Amazonas se embrabecem com o vento invernal. A lua sai por entre nuvens escuras e uma chuva contumaz desaba na Beira-rio. Ele me vê e parece me reconhecer. Caraca! Ele me viu e diz ao policial que quer trocar a moça por mim. Só assim poderá negociar sua vida.

Um tenente chega comigo e pergunta se eu o conheço. Titubeio na afirmação positiva. Surpreendentemente, e como que hipnotizado por aqueles olhos, caminho em sua direção desobedecendo às ordens do oficial. Peço que não atirem e me posiciono na frente dele. Ele larga a garçonete e me segura pelo pescoço. Dá pra ver a seringa com uns 200 ml de sangue dentro dela. Um sangue claro, semelhante a suco de groselha. Falo para ele:

– Te entrega ou eles vão te matar.

– Não vão, não. A imprensa já tá chegando.

– O que tu queres comigo?

– Quero jogar no teu time de futlama, no “Mergulhão”.

Fiquei mais lívido que quando fui trocado pela garçonete. Puta merda, além de bandido o cara é ruim demais. – Mas por que, cara? Pergunto.

– É que gostei do nome do time e sou amigo do Juninho.

Fiquei pensando, pensando. – Está bem. Quando tu saíres do Centro que tu estavas passa lá com a gente que vais ter lugar garantido, eu te juro.

Legal, disse ele. Eu sou gente boa, eu. Arrematou naquela linguagem própria de adolescentes pobres, membros de gangues suburbanas. Seus olhos eram grandes, mas tristes. Estavam marejados.

Ainda sob a mira dos revólveres dos policiais e sob o foco das câmeras de televisão e celulares de curiosos, ele largou meu pescoço e a seringa supostamente contaminada. Os policiais lhe deram voz de prisão e tentaram lhe algemar com truculência. Mas antes de entrar na viatura, “Bambo” conseguiu puxar do bolso traseiro da bermuda estampada de camuflagem militar, outra seringa. Ao mesmo tempo em que tentava se desvencilhar das pancadas, aplicou a agulha no rosto de um soldado. Levou imediatamente quatro balaços no peito e caiu no asfalto. Os policiais afastaram os repórteres e curiosos e saíram em velocidade com o corpo do menor e o militar que berrava de dor. Foi tudo muito rápido.

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Só me restava agora tomar mais uma gelada para aliviar a tensão, já que não fui intimado para depor na delegacia. A namorada chegou preocupada. Já sabia do acontecimento pelas redes sociais. E bebeu comigo para me consolar.

Ainda era cedo. A nuvem escura havia se dissipado e o rio bebia o brilho da lua fêmea. Estendi meu olhar sobre o Amazonas se enchendo de luar e vi um mergulhão solitário emergindo d’água, desenhando a silhueta acima da Pedra do Guindaste, voando na direção ao norte. Parecia uma alma escura a buscar desesperadamente seu ninhal.

Comentei com a namorada o quanto tudo aquilo havia me deixado intrigado. Até cheguei a filosofar sobre a imagem do mergulhão retardatário. Ficamos um tempão olhando o rio e bebendo cerveja. E não demorou muito para o céu se fechar novamente com raios e trovões e nuvens escuras bailando ao vento, a cobrir o magnífico luar.

Não são simplesmente nuvens de chuva, me disse o velho garçom, sorrindo com a gorjeta que lhe dei ao pagar a conta e justificar minha ida por causa da chuva que logo desabaria. – Quando matam um bandido por aqui acontece isso, me disse ele com calma.

– Olhe de novo.

Perscrutei o céu como quem busca desvendar uma ilusão de ótica desenhada. As nuvens eram bandos de mergulhões reunidos, voando em círculos, prontos para pescar nas águas profundas do rio naquela noite trágica.

Mercúrio em Virgem – Por Mayara La-Rocque

Por Mayara La-Rocque

Já te disse que a noite é prenha e que só a lua transborda. Certa vez escrevi isso, lá atrás, talvez eu tivesse a idade de meu irmão ou um pouco mais. Acontece que esses ares me voltam à cabeça, os daquela época – hoje a de meu irmão e dos amigos dele. Era um tempo em que eu escrevia pelas paredes do quarto e me arranhava em pensamento pelas ruas. As ruas desta mesma noite. Já te disse que ela é prenha e a lua continua a transbordar. Tudo ainda me cresce e apesar das luzes cheias de gentes que ofuscam, dos sinos que tocam, dos festejos que comemoram datas imprecisas – ninguém mais se lembra da história, quando foi que tudo começou, se era mesmo um deus que nascia ou deuses que morriam, mas vejo que foi desde então – os calendários estão atônitos, os noticiários se repetem na frente das igrejas, das praças, no homem que trucidou a mulher que chamou de sua, no corpo dessa mulher de pele e vias-lácteas violadas.

Contudo, tem algo ali entre a curva das mangueiras e a beira do céu quase a alcançar Mercúrio por cima de minha cabeça e que traz por entre as esquinas a queda de uma estrela, o tempo dilatado das ruínas. Não sei bem o que é, mas me afronta a memória como ostra viva, se assemelha a algo que talvez eu tenha lido ainda hoje – não bem em verbo ou carne ressequida, mas tinha gosto de vida, era fresco como orvalho entranhando as narinas; muito menos era palavra o que li, mas sim, o que eu vi tomou corpo e forma dos reencontros que tenho tido entre leitura e solidão.

Tudo isso já te disse. Então, tu preponderas e até refutas, indignado, pra quê tanta solidão? E eu te digo que dela o mundo está vazio, pois que é sempre muita gente sozinha em tumulto, muita fala ao mesmo tempo aglomerada, muita boca lotada de secura, muitos olhares perdidos por todos os lados a procurar, uma procura que desvia a procurar, procurar, procurar o quê? Sem solidão, ninguém sabe.

Mas eu dizia que as ruas ainda vivem nos meus passos. É quase sempre onde me faço ou descubro um pensamento, um caminho ruminando em algum lugar que ainda não conheço. Eu sei, todo mundo carrega tristezas, mas me pergunto – ora, veja, quem! – quem, realmente se dá conta por si e sabe de sua tristeza? Está bem, está certo, acho que, no fundo, todos sabem. E apesar das luzes tremendo o barulho que sibila, esse embaçado que carregamos frente aos olhos – e que dói até nas costas, meu Deus, eu sei que dói – apesar desse a-pesar, existe uma noite que é prenha. Está fermentando lá embaixo enquanto vivemos aqui na superfície: eu tenho fome, preciso, comer, minha garganta está seca, tenho sede. O que é a sede? Tu perguntas. Agora! Diz, tu tens sede exatamente do quê? Não sabes. Não sei. Tenho. Temos. Quero, e sabemos, queremos sempre mais. Toda-via, Deus meu, tem vida debaixo da terra e sei que tu ainda podes observar, ela percorre o giro da lua – decapitando as dormências e nos acordando na entrada dos olhos os zincos, as pratas e os metais e também as pérolas ativas do sonho que de heras vem se formando por debaixo dos oceanos feito anzóis em suspensão; é enquanto olhamos a crista das ondas do mar que pescamos: a noite é sombra que reflete o brilho, movimento que vai parar nos olhos; a fundo, da ponta dos cílios também tem um oceano querendo jorrar.

No momento em que estou indo para casa, lembro que tenho que comprar pão, também o café e outras embalagens, os ditos descartáveis, os resíduos manufaturados do supermercado, e os resíduos humanos seguem comigo, penso na minha vida adulta e nos meus projetos inacabados. Sinto fome. Continuo a especular, é sempre tudo mera especulação: quando chegar em casa, preparo algo para comer e é exatamente aí que, de repente, é como se tudo que estivesse na boca do estômago em estado de latência, ruminando, fervilhando, chegasse até o limiar da goela e, ao ser mastigado, voltasse a ser engolido e fosse para o lugar de onde veio. Saciada a fome da superfície, tudo se esquece, e volta a dormir no âmago do sonho.

*Mayara La-Rocque é paraense, educadora, escritora. Publicou a plaquete literária “Uma luminária pensa no céu”, pela Editora Escriba, em 2017. (além de velha amiga minha e colaboradora deste site).

Gigantes – Conto de Luiz Jorge Ferreira

Conto de Luiz Jorge Ferreira

Eu brincava com bolhas de sabão quando vieram os gigantes, cada um deles trazia outros pequenos gigantes, que pensei serem seus filhos, mas soube mais tarde que faziam parte de um circo, em que as pessoas nasciam sempre com mais de cinco metros.

Sinos da Igreja de Nossa Senhora da Conceição, localizada no bairro do Trem, zona Sul de Macapá – Foto: Elton Tavares.

Eu vi quando um deles menorzinho, mas muito, muito grande, quebrou a torre da igreja e derrubou o sino que nos chamava para a missa nos dias de Domingo. O sino era verde por dentro, cheio de limo e espalhou este verde por muitos lugares.

Minha mãe assustou-se com a chegada dos grandes gigantes, não catou mais feijão,,não se demorou mais indo ao poço apanhar água, nem foi mais a casa de Dona Maricota, que era pertinho então eu pensei que estavam de mal. O cego Faustino que costumava sacudir a cuia com moedas cantarolando gemidos e quase uivos, agora pedia com um mexer de lábios. Tinha medo de com os seus lamentos, acordar os gigantes.

Eles ficavam na frente da televisão, riam e roíam as unhas e mexiam com as mãos entre os cabelos, depois atiravam no chão uns piolhões que possuíam o tamanho do carro de boi de Seu Jaime. Os piolhões corriam e começavam a cavar ate desaparecem entre a terra que ficava fofa e amontoada formando um morro, que depois subíamos. Era tal como escalar uma montanha.

Os gigantes apesar do fedor que exalavam, fomos nos acostumando com eles. Muitas vezes eu vi Seu Faustino entre os dedos dos seus pés, catando moedas. Ate mesmo os cavalos dos que apeavam a frente da venda de Quele, pastavam encostados aos pelos de suas pernas. Eu voltei a brincar com as bolhas de sabão e mamãe voltou a atravessar dois quintais para ir a prosa com Maricota, bastava entardecer.

Eu já tecia paneiros que vendia para os pescadores do Porto, quando os gigantes foram embora. Os menorzinho estavam pálidos e saíram arrastando os maiores e deixando enormes valados que acabaram por derrubar os montes abrir crateras e fazer com que aqueles piolhões pulassem de volta para o corpo deles.

O cego iniciou a cantar lamentos para pedir moedas e eu comecei a tecer enormes caixões de cipós e folhas de açaí, de maneira que para quem olhava de longe já não enxergava mais minha casa e nem mamãe conseguia sair para ir ao poço apanhar água e nem ouvia mais Dona Maricota gritar.

Ô vizinha!-Ô vizinha!

Dentro de casa era sempre escuro porque os enormes caixões impediam a entrada da luz do sol.E eu não conseguia parar de tece-los. Certa vez eu deitei dentro de um e morri.

Mamãe gritou tanto que estranhamente voltarão os gigantes e os piolhões. Agora tão pequenos, que para vê-los, ela precisou da lente dos seus óculos, uma sobre a outra. Ela se afeiçoou a eles. Passaram o resto de suas vidas, falando da minha vida aventureira e cristã.

E tecendo minúsculos paneiros e caixões. Construíram um sino de cipó, que todos os Domingos toca. Mas ninguém escuta.

*Luiz Jorge Ferreira é poeta e médico Macapaense criado no Laguinho, que atua em São Paulo. Ele também é vice-presidente da Sociedade Brasileira de escritores Médicos (Sobrames).
**Do livro “Antena de Arame”.

Minha (Elton) reação diante de textos como esse: