PREFÁCIO – Conto de Luiz Jorge Ferreira

Conto de Luiz Jorge Ferreira

Nunca pensei em escrever um livro de contos. Ainda mais com este colorido criado com esta “Tinta Mágica” escorrida das pinceladas de Salvador Dali. Mas escrevi.

Colhi fragmentos escutados na minha infância e pré-adolescência em Macapá.

Juntei personagens e resíduos de acontecimentos e os fui reciclando, preenchendo os vagos com personificação à semelhança do surrealismo.

Ele pronto! Fui ao título, que tomei emprestado do conto “Antena de Arame”.Posto o ponto final. (Nunca se coloca o ponto final)

Para revisioná-lo sentei à mesa de um restaurante em Osasco denominado Frangão e bebi um pouco, reli os contos, e aguardei que chovesse para depois ir embora. Em pouco tempo um rio formou-se pelas ruas adiante ao local que eu estou. Quiçá mais um pouco talvez passe uma canoa tipicamente Amazônica, botos, mutuns, atuns…

Imaginei abstratamente.

Porem distrai-me observando uma mulher e o cão com esforço atravessarem a corrente, e por fim irem-se juntos com a lua e a outra mulher que empurrava com uma vassoura velha um resto de luar para debaixo do tapete.

Comigo estavam as paginas, e alguns comentários de amigos sobre o livro.

Deixei todo este material sobre a mesa e fui ao banheiro atirar fora resíduos líquidos da cerveja sorvida.

Quando voltei, os Contos haviam sumido, estava vazia a mesa. Indaguei ao Garçom. E meus papéis? Os que estavam sobre a mesa. Os contos?

Ele deu-me o troco e se afastou com um meio sorriso. Contos!…Ah! Contos…Achando que eu tinha me embebedado muito rapidamente. Passou um pano limpo e seco sobre a mesa que ficou todo sujo de letras.

Foi ate a Tv e deu duas pancadas ao lado do aparelho visando melhorar a imagem da chuva, da canoa, da mulher, e da lua.

“O que falta aqui é uma Antena de Arame!” – gritei. Para ninguém.

Em seguida levantei para ir embora achando que ele me parecia um dos Personagens dos meus Contos.

Chamei bem alto: “Bebeçudo!” Nem a voz saiu, nem o garçom voltou.

Sóbrio e só. Atravessei a rua, e mergulhei apressado no chão, no vão da calçada, atrás de um monte de formigas, que ali entravam, carregando consigo as páginas que eu procurava.

Não chovia mais.

* Prefácio em forma de Conto como Narrativa no Livro Antena de Arame – Rumo Editorial – São Paulo – 2016

DALILA – Conto de Luiz Jorge Ferreira

Conto de Luiz Jorge Ferreira

Ela deixou-me em 1947. Foi embora com um Prussiano com imensos bigodes e uma farda cheia de insignias por várias Bravuras, e outras Medalhas de Honra ao Mérito. A perna direita cicatrizada de fraturas provocadas por estilhaços de granadas alemãs encurtara, coxo… este herói do front da Criméia a arrastou consigo, herói viciado em açaí e pupunha.

Eu embarquei para Lisboa. Ali no cais do Porto, com os dentes sujos de tapioca e broa de milho, fui para lá, morar.

Lá aprendi a arte de fazer pão, roscas, doces e salgados, bolo de cenoura, bolinhos de chuva crocantes, recheados de nozes e avelãs.

Não demorou muito para o negócio prosperar e eu então fui ao cais contratar uma cozinheira.

Acabei trazendo comigo uma natural de Angola experiente em defumar peixe, cozer frutos do mar e desidratar frutas para o confeito de bolos e roscas.

Ela não falava Português.

Mas nos fomos nos adaptando um ao outro até que passamos a dormir juntos.

Meses depois ela apareceu com uma grande inflamação que em vão tentou curar com asseios íntimos de hortelã, permanganato de Sódio, e vinho branco.

Temperou-se muito, não resistiu e faleceu.

Fiquei novamente só.

Com uma pequena cadela, a quem dei seu nome…Dalila!

Desafeiçoei-me ao trabalho.Passava horas e horas no cais.Olhando as Gaivotas voando e pescadores tecendo redes.Foi assim que de uma feita, uma brisa marinha trouxe em si do Vietnã um pó amarelo que me cegou. Não suportando a dor, ao pressentir que eu não mais lhe podia ver, Dalila segurou na boca um balde cheio de pedras que eu usava como lastro para minha linha de pescar e atirou-se ao mar, afogando-se.

Passei semanas até dar por sua falta.

Comecei a beber, ia aos bares do Porto, amanhecia por lá.

Para ganhar alguns trocados, passei a ler as mãos dos marujos chineses,jamaicanos,haitianos,latinos,indus, entre eles a mão de um certo Che Guevara, fascinado por Marco Polo…onde havia desgraças eu lia esperança…onde havia desespero, eu falava de amor.

Fiquei famoso, não cobrava…mas recebia muitos presentes…Caixinhas de Música de Xangai, Perfumes finos de Paris, Correntes de Platina, Cordões de Ouro Branco,e Temperos exóticos da Índia.

Deixei crescer os cabelos, o bigode, as unhas dos pés, e das mãos, pintei-as de Carmim, e cobri-me de Seda, calcei altos tamancos, e criei uma Santa.

Um certo dia recebi um casal, que havia ouvido falar de mim. Estavam finamente vestidos. Ele tinha vindo curar sequelas de ferimentos adquiridos na segunda Guerra Mundial. Ela apenas o acompanhava.

Pelo perfume a reconheci ,mas fiz de contas que não.

Creio uma imã com apetrechos retirados de um antigo motor de um navio naufragado no canal marítimo da cidade, bezuntei inteiro o corpo dele, com extratos de Benzoato de Benzila e passei a imã em seu corpo, até que enchi um copo de vidro de estilhaços metálicos.

Eles foram embora felizes, não sem antes me doarem como pagamento, um baú repleto de moedas de Ouro, e dobrões de Prata.

Tomei para mim, o nome, de Al Shair Sefet e fui morar nas montanhas, com dezoito escravas, um casal de elefantes, e duas jiboias .

Mais tarde soube que ele dera fim a sua vida, e que após a retirada dos metais tornara-se lento, sonolento, lerdo e inconstante , por fim desgostoso demais,desejava a morte.

Até que uma noite conseguiu beber todos os estilhaços com dois copos de vinho.

Em Abril, acordei com ela gritando por meu nome.

Nua sob o luar.Os seios trêmulos. Lânguida. Cheia de desejos. Aflita invadiu, a Grande tenda colorida, pisando sobre as brasas semi acesas, sobre os animais descansando na areia.

Queria reiniciar a vida de prazeres, e ter felicidades.

Exatamente como eu.

Como não reconhecia mais vultos a estraçalhei entre os elefantes achando que estava sendo atacado por ferozes abutres.

Dormi ao relento, ouvindo o vento, que me contou que Dalila voltará.

Como me afastara muito.

Ate hoje caminho em círculos. E nunca consegui voltar.

* Do livro “Anais” – X Jornada Nacional da Sobrames – São Paulo – 2019.

Natanael na Janela – Conto cinematográfico de Fernando Canto

Conto de Fernando Canto

Cena 1

Ocorrera que os madeireiros haviam jogado uma espécie de veneno no rio da nossa comunidade e a gente se juntou para dar uma pisa neles porque todas as crianças adoeceram. Até mesmo nós, os mais velhos, acostumados a comer o que a floresta nos oferecia, já sentíamos fraqueza para labutar na roça.

Cena 2

Tinha gente de todo lado querendo nossas terras. Até parecia que valiam muito. Havia nove anos que a gente estava lá desbravando o lugar: cortando árvores gigantes, construindo pontes, criando pequenos animais, arando o cerrado e plantando mandioca para fazer farinha e vender na feira do produtor rural, na capital, para onde um caminhão nos levava todas as terças e quintas-feiras.

Os madeireiros invadiam a floresta para tirar as árvores mais valiosas e, não bastasse isso, chegaram os plantadores de soja, oferecendo uma insignificância pelos poucos hectares que tínhamos, mas que juntos faziam um latifúndio. A situação se agravava e a gente resistia como podia, porque as autoridades políticas que nos visitavam e diziam que iam nos proteger, sumiam. Nunca mais vinham na comunidade. Uma vez ou outra mandavam recados pelos seus cabos eleitorais com uns jornalecos onde contavam suas bravatas e lorotas.

Certo dia, na reunião do Centro Comunitário, alguém avisou que uns homens armados estavam nos cercando para nos amedrontar. E só deu tempo para a gente se abaixar e ver o Natanael, que se escorava na janela, levar um balaço no olho direito.

– Foi pá… Merda! Ele caiu estirado quando eu corri para pegar minha 12 e revidar. Acertei o motorista do jipe no braço, mas eles atiraram em minha direção e fugiram, anunciando que voltariam para completar o serviço. Eram pistoleiros contratados pelos madeireiros que queriam nos expulsar à força do lugar.

Cena 3

Uma rasga-mortalha sobrevoou nossas casas nessa noite. O Comissário Policial do Distrito soube da ocorrência e estava no velório para garantir a segurança. Mas ele me pareceu tremer de medo quando o pássaro agourento flechou o céu em busca de alimento na sua caçada noturna.

Seu Antônio da Luz rezava o terço de encomendação das almas e a gente respondia os pais-nossos e as ave-marias, olhando o desespero indisfarçável da viúva, agarrada a seus filhos e envolvida em um véu preto, na nossa capelinha de São Joaquim Lavrador.

Cena 4

Aqueles homens estavam à espreita, a gente sentia isso. O Comissário mandou seus dois ajudantes ficarem do lado de fora do velório e avisar se algo estranho estivesse acontecendo. Apesar de tudo a gente não se sentia seguro. Por causa disso eu já havia mandado minha família e outras mulheres e crianças para a minha casa do forno de farinha, bem longe da comunidade.

Ouvimos tiros lá fora. Todos os que tinham arma de fogo se prepararam para o confronto. O Comissário tremia porque não conseguia avistar seus auxiliares. A situação ficou tensa quando uma voz de mulher disse no megafone.

– Saiam daí. A gente só quer o Baixinho da Farinha.

Eles se referiam a mim. Sabiam da minha fama de valente, da minha luta como líder comunitário e da minha pontaria com a espingarda. E atiraram com rifles mais duas vezes em direção de onde estávamos abrigados. O comissário começava a lagrimar. A mulher pediu de novo que eu me entregasse. Pedi que parassem de atirar e deixassem os comunitários em paz. Qual nada! Continuaram atirando. Pensei em algo e disse que me entregava, mas o policial ficara desnorteado e de súbito tomou a decisão de fugir pela porta dos fundos. Uma bala veio como um raio da escuridão e atingiu a barriga dele. Estávamos mesmo cercados.

Cena 5

Os comunitários demonstravam medo, porém se seguravam nas suas armas de caça.

– Vai ser um massacre, falei. Ou a gente se entrega ou confronta os assassinos.

Uma língua de luz, seguido de um trovão rolando no teto do céu escuro, parecia preconizar uma tragédia. Deu malmente para ver que eram quatro ou cinco silhuetas perto do jipe estacionado ao lado do Centro Comunitário. Todas armadas, inclusive a da mulher do megafone, que deveria ser a chefe dos pistoleiros.

Eu chamei meus amigos e expliquei:

– Eles estão na vantagem com suas armas modernas. Nós somos poucos e só temos espingardas. O Zeca, ali, só tem uma daquelas antigas punheteiras. Só dá pra dar um tiro, disse, subestimando a arma do amigo, mas ninguém riu.

– A gente faz o quê? Perguntou o Davi.

– Temos que proteger as nossas mulheres e filhos.

Chamei, então, o seu Antônio da Cruz e mandei ele puxar uma ladainha bem alto. O plano era fazer os caras armados se aproximarem com cautela, pois sabiam que estávamos armados, mas que em uma negociação a gente se entregaria sem que fosse necessário derramar mais sangue. Entretanto, havíamos acertado vingar o Natanael.

Cena 6

Seu Antônio começou:

– Regina Angelorum.

E a gente respondia alteando a voz:

– Ora pro nobis.

– Regina Patriarcarium

– Ora pro nobis

– Regina Sacratíssimo Rosarium

– Ora pro nobis

No Quarto Ora pro nobis abrimos a janela e jogamos o corpo de Natanael. Foi o tempo de ouvirmos o barulho dos disparos. Uns comunitários saíram por trás da capela e outros pela frente, comigo, atirando. O confronto foi muito rápido. O Zeca matou um dos bandidos com a punheteira velha e se estatelou no chão com um balaço no coração disparado pela mulher. Eu atirei na cabeça dela. O assassino que estava atrás da capela sangrou até morrer com o chumbo na veia jugular da velha parabellum do Marcelino. Os outros dois foram surpreendidos e mortos pelo Comissário de Polícia, que conseguira rastejar, ferido, até a pocilga e de lá ao Centro Comunitário. Com esforço e graças a um clarão de raio os acertou quando viu o ataque. Seus ajudantes jaziam de olhos abertos num curral de cabras.

O corpo do defunto Natanael levou dez tiros no desvio de atenção que provocamos. Seu semblante pálido e cheio de buracos parecia debochar dos assassinos.

Estava prestes a amanhecer quando o grito desesperado da rasga-mortalha cruzou o céu, voltando para o ninho com a presa nas garras. O Comissário ouviu seu canto ameaçador e tremeu de novo ao entrar no carro para avisar do acontecido às autoridades da capital.

Cena 7

Ninguém esperou mais nada. De ninguém. Enterramos nossos mortos sem nenhum ritual religioso, e deixamos os corpos dos assassinos no mato para serem devorados pelos bichos selvagens. Era abril e a cerração se dissipava lentamente nas veredas dos buritizeiros.

À noite, cansados, mas insones, ouvimos os gritos fúnebres das rasga-mortalhas se intensificarem. Eram muitas. Voavam raso sobre nossas casas, indo e voltando, indo e voltando, anunciando o caos debaixo do céu sem estrelas.

Travesseiro de Penas de Ganso – Conto místico de Fernando Canto

 Conto místico de Fernando Canto

Meu travesseiro de penas de ganso sempre voava comigo nos meus sonhos. Como sempre tive medo de altura, eu o levava porque temia uma eventual e desesperadora queda. ¬- Doce ilusão, eu mesmo me dizia. Como poderia cair daqui, se já conheço meu próprio jeito de voar?

Uma noite, tal como Davi, o rei, vi uma mulher tomando banho na piscina do seu jardim suspenso. Era bela sob a luz da lua. Sobrevoei sua cobertura e fiquei a admirar a cena ilusória.

Fazia isso quase todas as noites quando o trabalho árduo me permitia. Eu ligava minha máquina de sonhar, apanhava o travesseiro de penas e saía para conhecer o mundo e, sobretudo, para apreciar cada vez mais aquela mulher linda banhada em águas perfumosas.

Ocorre que eu estava preso a um fio de prata e não podia me desprender dele, sob pena de morrer bruscamente em meu leito, onde meu corpo-casulo ficava à espera do espírito.

Afoito que eu era na minha juventude, certa vez tentei pousar perto da jovem para conversarmos, entretanto, a máquina não me obedeceu mais e queria sempre seguir em frente como se tivesse em uma missão inadiável, me dispensando do comando. Agarrei o travesseiro com força e segui em frente na minha viagem mística.

Na volta eu a vi. Trajava um vestido longo que reluzia à luz da quarto-crescente tal como o fio de prata que me guiava. Eu a chamei. Ela me ouviu e sentiu medo. Parei a uns dois metros sobre sua cabeça erguida e perguntei se ela queria passear comigo na próxima vez. Um sorriso foi se delineando aos poucos no rosto mais belo que eu já vira em toda a minha vida. Senti, então, suas mãos acariciarem minhas longas barbas pretas. Sem hesitar dei a ela o meu precioso travesseiro de penas de ganso para que sonhasse comigo. Ela aceitou e entrou sorrindo.

Naquela noite eu voltei para o meu corpo com a sensação de que a encontraria no elevador ou na padaria no dia seguinte. Levantei declamando os versos do poeta chinês Lu-Kei-meng, da dinastia dos Tang, quando ele se comove com as armadilhas que os inimigos armam pelo caminho dos gansos:

Ganso selvagem
Longa é a rota do Norte ao Sul
Milhares de arcos estão armados no seu trajeto
No meio da fumaça e da bruma
Quantos de nós chegaremos a Hen-Yang?

Ao caminhar em direção da estação do metrô, olhei instintivamente para o alto do meu prédio e vi descer voando da cobertura aquele anjo de asas longas com o sorriso da mulher amada nos sonhos. Vinha provida de asas das penas de ganso, um misto de animal solar na figura de um ser que fora humano e naquele momento pressentia e me alertava dos perigos da cidade. As pessoas fugiram espantadas com os gritos vindos da direção do voo da mulher-anjo. Corriam para dentro e para fora da estação.

Eu não compreendia que ela era um presente simbólico dado a mim. E ainda atônito, fui envolvido em suas asas ao meio da fumaça de uma grande explosão ocorrida naquele momento no trem subterrâneo. Vi línguas de fogo e corpos em desespero queimando até que veio um grande silêncio.

Os versos de Lu-Kei-meng ressoavam em minha cabeça:

Ganso selvagem
Longa é a rota de Norte ao Sul
Milhares de arcos estão armados no seu trajeto
No meio da fumaça e da bruma,
Quantos de nós chegaremos a Hen-Yang?

Fui arrebatado da estação para nunca mais voltar.

LUAZINHA – Conto de Luiz Jorge Ferreira

Conto de Luiz Jorge Ferreira

A Lua-mãe gritou quando ela se afastou em direção as poças de água formadas pela chuva no chão das ruas.

– Alguém ainda vai apanhar você…hein!

A Luazinha fez de contas que não era com ela, e desceu em direção ao meio da rua. Fizera assim muitas, e muitas vezes.

Banhava-se por horas nas poças, e iluminava tudo ao seu redor, brincava e divertia-se a espantar os cachorros e os gatos que assustados com aquele brilho repentino saiam em disparada. Porem esta noite com o calor que fazia, ela descuidou-se e quando percebeu alguém lhe pegou.

Atraído pela brilhante luz vindo daquela poça, o catador de latas sentou-se feliz, com aquele brilhante pedaço de metal, que nunca houverá apanhado em sua vida,com certeza ganharia com ele um bom dinheiro do homem que comprava sucata.O certo era que não pesava muito, mas brilhava demais, devia ter muito valor.Abriu o saco de plastico preto, e colocou aquele objeto brilhante lá para dentro. Fechou a boca do saco, e o colocou as costas, rumando para a sua casa.

La dentro a Luazinha gritava…Solte-me…Solte-me…Solte-me! Mas ele não entendia a língua das luas, e continuou andando.

Mãe Lua ficou preocupada com a demora da filha,… e quando amanheceu cruzou nos céus com o Sol seu pai, contou a ele, que respondeu…

Vai demorar tempo para que eu volte a encontrar você, Lua mãe,pode sair do céu para procura-la, disse queimando de raiva.

Assim Dona Lua ficou encarregada de aparecer de dia , para procurar a Luazinha.

Chegando em casa o catador de latas, colocou o saco em um canto da casa, e foi deitar.Não jantou nem nada.A mulher e a filha , curiosas, foram mexer, e quase correram quando abriram o saco, e a Luazinha brilhou iluminando a sala. _- Mãe que coisa linda! Quero esta coisa linda para mim. – Não de manhã , vamos vender este pedaço de luz para o homem que conserta aqueles relógios de parede de mostradores bonitos e luminosos, deve ser parte de um deles.

Ficou assim combinado. Não foram dormir sem antes enrolar a Luazinha, em um monte de panos velhos, e guarda-la para de manha ir procurar o relojoeiro.

Este, quando lá chegaram, de manhã, olhou com a lupa, fechou as cortinas para melhor observar o brilho.

– Não é parte de relógio, ou outro aparelho que eu conheça, não me interessa , podem levar de volta…Disse !

As duas começaram a enrolar a Luazinha nos trapos em que haviam-na trazido…e ela gritavam…Deixem-me ir…Deixem-me ir…mas elas não conheciam língua de lua, e ficou por isso mesmo.

A mãe não se deu por vencida, e correu para o comprador de velho ferro. Chegando lá lhe mostrou o objeto redondo e luminoso de brilho tão lindo. Ele mexeu, mexeu, usou a marreta , usou o esmeril, e por fim o maçarico.

– Não me interessa, podem levar, para mim não tem utilidade nenhuma.

Elas voltaram a embrulhar a Luazinha nos trapos. Soltem-me…Soltem-me…pedia a Luazinha. Mas elas não entendia língua de lua ,e foram embora com ela embrulhada.

A mãe disse…não podemos chegar novamente com isso em casa.seu pai vai nos bater se souber que mexemos nas suas coisas.

Resolveram então jogar o embrulho em um campinho de futebol, onde alguns meninos soltavam pipas.

Um deles se aproximou, desmanchou o embrulho, e tomou um tremendo susto com aquela esfera colorida, e fulgurante, que mudava de cor, de forma, de brilho, a todo o momento. Que seria aquilo?

A Luazinha gritava…Solte-me…Solte-me…Solte-me…e eles como entendiam língua de lua, conversaram com ela.

Depois de ouvirem-na em silêncio, ficaram pensando o que fazer.

Não podiam chamar seu pai, o Sol , que já brilhava no céu, pois ele ao vir busca-la, derreteria tudo na terra.

Nem por sua mãe que a esta hora estava doutro lado da terra.

Então resolveram amarrar a Luazinha na linha de uma de suas pipas, e faze-la chegar ao céu.

Para ajudar sopraram com toda a força de seus pulmões, com tanta força que desmaiaram…

Quando despertaram, correram assustados para casa, perceberam que falando entre si, se entendiam perfeitamente, mas que ao falarem com outras pessoas, e pessoas da família, não eram entendidos, e espantavam-se com a cara de espanto que elas faziam.

Isto demorou muitos dias, para dar o tempo de se fazer Lua Nova de novo, e a Lua Mãe desceu um luar que lhes adormeceu, e lhes fez esquecer a língua de Lua.

Noutro dia já começaram a falar, e serem entendidos por todos.

A Luazinha ficou feliz pois tudo havia terminado bem.

E quando passeando pelo céu, vê as pipas que eles continuam a empinar, as poças d’água, e o catador de latas, abre um enorme sorriso, que se espalha como luz brilhante para a alegria da escuridão da rua.

* Do livro “A Pizza Literária” (Décima Quinta Fornada) – Rumo Editorial – 2018 – São Paulo.

Brasa X Bala- Texto de J. Arthur Bogéa (*) sobre o conto de Fernando Canto

A publicação do conto de Fernando Canto – Brasa Balançante – na edição deste jornal de n° 105 (dezembro/janeiro), coloca em evidência a revisão do passado recente: militares versus guerrilha e a acertiva de que História e Literatura têm um embrião comum. Marx, que está na moda ser considerado out, disse que aprendeu mais da História da França nos romances de Balzac, a quem dedica um estudo, do que nos livros de História do País.

As palavras – permita-se o jogo com Canto/Conto – da Narrativa estendem – se como uma corda bamba em que Autor/Atores se equilibram entre os dois lados dos combatentes: um determina o outro com a pergunta do “Alemão” – quem era realmente o inimigo(?)”. Cadeia para ele.

A pergunta do “Alemão” se estabelece a partir do título; Brasa Bala [(nç) ante]. Uma troca de palavras e o título se converte em Brasa ante Bala. Ambivalência. Para os dois lados “(n)aquela sacanagem de guerrilha” resta a maldição de Brecht: “Infeliz do país que precisa de heróis”.

Há um Narrador, na primeira pessoa que se interpõe entre o Autor e um Narratário (pluralizando) que se interpõe, por sua vez, entre o Narrador e o Leitor. O Narrador – “Eu era um soldado” (como muitos) e o Narratário (vocês jornalistas” (como os outros anteriores).

Há no texto ressonâncias de Guimarães Rosa. Ninguém passa imprudente pela leitura de Grande Sertão: Veredas. A teia e a trama do escritor se estendem ao Pós-Moderno. Bakhtin explica: em cada texto há ‘vozes’ de outros autores que ‘dialogam’.

Não há heróis entre os Atores, como a Narratologia prefere chamar os Personagens. Entre os guerrilheiros aprisionados há “uma loura – pálida” e “um barbudo feio pra caralho”. O Narrador se reflete no Almeida – “Alemão”, no Ibrahim – “Mão Benta”, Antunes e o “sargento” – a autoridade é anônima como o comando. São anti-heróis que desfilam e desafiam pela escritura de Canto.

O narrador sonha “em ser um herói (…) quem sabe ser promovido, chegar a sargento…” – aos olhos da Mãe, apenas citada, mas figura concreta, que o inconsciente do texto revela o desprezo pela mulher com a expressão “loura – pálida” e, uma figura abstrata: Pátria. Não é à toa que troca o fuzil (símbolo fálico) pela vassoura – varrer é uma atividade feminina no âmbito do privado que assume caráter masculino em público. Outra ambivalência. Sonha em varrer “O lixo da Pátria” – a Magna Mater.

Este Narrador só tem uma certeza sintetizada no verbo saber, para ele e o(s) Narratário(s): “Eu sei que vocês sabem de quase tudo que aconteceu lá no Araguaia” O “quase tudo” remete à pergunta do “Alemão”. É, portanto, o avesso do conhecer. Impreciso. O ‘contar’ do Narrador é sempre introduzido por uma pergunta: “vocês vêm me indagar sobre esse assunto?” ou “Entrevistar para quê?” – todas como um eco do “Quem vem lá?” a que “Mão Benta” não responde, por isso encontra a morte. O Narrador também não responde à história quando finaliza com um “Não sei, não sei, sei não”. Três negações, da campanha na selva à morte do heroísmo, morte civil quando deixa o exército e assume um emprego servil e, finalmente, morte da cidadania.

Vale ressaltar que Canto se recusa a regionalizar por regionalizar a ficção, por isso a expressão “à beça” e os termos “tauari” e “muru–muru” não soam artificiais, fazem parte do ‘dialeto’ do Narrador que conta a hi(e)stória, quem escreve é o Narratário. Alquimia da fala para a escrita.

Há ainda a destacar que a narrativa traz um tempo cronológico, “Vinte anos depois” e um tempo fantástico, “o estrondo no meio da noite repercutiu séculos na floresta”. Duas Vertentes que deságuam num escritor que atravessa a ‘maldição’ de ter sido adotado – O Bálsamo – no vestibular.

O autor é docente do Centro de Letras e Artes da UFPA e professor visitante da Rijksuniversiteit te Utrecht (Holanda).

(*) O professor José Arthur Bogéa faleceu em 2005.

Macapá, 13 a 19 de Janeiro de 1996 Folha do Amapá – 15 – VARIEDADES
Jornal Folha do Amapá

BRASA BALANÇANTE – (Um Conto do Tempo da Guerrilha) – Por Fernando Canto

Conto de Fernando Canto

– Vinte anos depois vocês vêm me indagar sobre esse assunto? Coisa morta, sepultada e virada pó…? Já disse, não tive culpa. Eu era um soldado, um pau-mandado naquela guerra. Se o sargento dizia para a gente matar, a gente obedecia, ora bolas! Soldado só tem que obedecer e eu seguia à risca tudo o que ele falava. Eu não queria ser um traidor. Pensava, sinceramente, em ser um herói condecorado e mostrar pra minha mãe as medalhas que poderia ganhar naquela guerra silenciosa. Já pensou? Ser reconhecido por toda a corporação, o orgulho da tropa… Quem sabe ser promovido, chegar a sargento…

Vi na televisão que vocês jornalistas só fazem entrevistas com os sobreviventes torturados, com as supostas vítimas, que pra vocês são os verdadeiros heróis de toda aquela sacanagem de guerrilha. Mas vocês precisavam estar lá para entender o nosso lado. Eu e todos os outros éramos os defensores da pátria, os que não iriam deixar nunca o nosso Brasil ser arrasado por uma corja de comunistas que só queriam entregar o país para a Rússia.

O sargento era um cara duro, mas muito legal. Ele lia muito e nos avisava do perigo que eram os comunistas e os sequestradores de diplomatas estrangeiros. A gente teria que lutar muito se quiséssemos que o Brasil não naufragasse na lama desse regime nefasto. Por isso a gente sempre conversava no acampamento sobre o que fazer quando prendesse um desses traidores safados que se escondiam na floresta.

O Ibrahim era bafento. Dizia que ia matar os comunas bem devagar cortando dedo por dedo, depois os pés, os braços, as mãos, as pernas… até transformá-los em anões e cagar na cara deles. Mas o que ele sabia mesmo era fugir do acampamento para preparar uma bebida feita de álcool que roubava da enfermaria, com raízes e cascas maceradas no mato, escondido do sargento. Preparava tão bem que ganhou o apelido de “Mão Benta”. Como a entrada de cachaça era proibida ele sempre dava um jeito para suprir nossos vícios. Até cigarro tipo tauari ele fazia com folhas secas, trituradas de um arbusto conhecido como vassourinha, abundante no lugar. Já o Gomes dizia que esfolaria os caras ainda vivos, para que eles aprendessem que com a pátria não se tira esses sarros. O Antunes, o mais bravo de nossa guarnição, só falava em meter uma vara no cu do vagabundo até ele gozar de dor. Sei lá se se goza de dor, pra mim dor é dor. E pronto. Diziam lá no 18° BIS que há alguns anos ele havia matado um cara com dezoito facadas e arrancado o olho da vítima só porque ela quis dançar com o xodó dele no salão de dança “Merengue”, que ficava perto do quartel. Ele nem foi preso na época. Pelo que me consta a polícia se aliviou ao saber do assassinato, pois o morto era muito aloprado e não capinava sentado quando era pra matar. Esconderam o caso e tudo ficou por aquilo mesmo. Me disseram que o comandante o protegeu, transferindo ele para o BEC de Santarém.

*****

– Vocês me perguntaram como era a vida lá. Aquilo nem era vida, se era vida era de animal, de burro de carga. Era uma guerra. Só o Almeida “Alemão” teve peito de perguntar pro o sargento quem era realmente o inimigo. Pegou foi uma senhora esculhambação e três dias de cadeia na “jaula” reservada pros filhos-da-puta dos guerrilheiros. A gente sabia que eles eram brasileiros, mas corria o boato que tinha muito cubano e soldado russo dando apoio pra eles, e que a coisa estava fedendo e iria feder muito mais.

Vocês precisavam ver a alegria quando uma patrulha capturou um casal de comunistas numa tapera de caboclo. Serviu para aliviar a tensão dos soldados, principalmente dos recrutas do nosso batalhão que se cagavam de medo com os ruídos do mato. Eu que era veterano, engajado há dois anos, tremia quando ouvia um barulho, imaginem eles. Pois bem, saibam vocês, no meio daquela alegria explodia o nervosismo e o heroísmo egoísta dos homens. O tenente disse que não era para ninguém passar o rádio pro comando porque ele já tinha as ordens. Saiu num jipe com o sargento, o motorista e um cabo. Segundo o motorista eles corriam a cem por uma estrada escrota e empurravam os guerrilheiros algemados. Paravam, punham o fuzil na boca dos otários e diziam: “Fala, filho-de-uma-vaca, onde está o resto dos vagabundos?” Eles não falavam porra nenhuma. Aí então repetiam a dose. Como nada arrancaram dos dois, curraram a garota – uma loura – desfalecida, pela frente e por trás, enquanto o guerrilheiro – um barbudo feio pra caralho – olhava, todo ensanguentado e quebrado.

Depois executaram os dois e levaram os corpos de volta para o acampamento. O soldado motorista me disse que o sargento obrigou ele a comer a garota, senão iria preso. Mais tarde o sargento mandou eu, o Almeida, o Gomes e o Ibrahim jogar os corpos dos cornos num Igapó “pros urubus comerem”. Isso, na boca do sargento era uma ordem, a gente não precisaria enterrá-los. Nós comemoramos à beça essa vitória. Bebemos a batida de álcool do Ibrahim diluída n’ água,

DITIRAMBO – Conto de Fernando Canto

Conto de Fernando Canto

O Corifeu, Mestre do Coro, narrava minha história enquanto cem sátiros e cem faunos coralizavam o canto dos meus amores e da minha trajetória. Era um canto arrebatador, tumultuário, mas belo e forte, que aparentemente agradava a Baco, refestelado ali em seu sofá de mármore e às muitas mulheres de ancas perfeitas que me deram companhia e filhos. O meu querido deus da orgia iniciava uma bacanal comendo cachos de uvas e sorvendo vinho puro, agora ao lado de oito bacantes em poses eróticas se movimentando em uma enorme poltrona semicircular.

Meu delírio ultrapassava a escadaria de pedras do anfiteatro iluminada por tochas, sob o entusiasmo dos expectadores tão bem vestidos com suas túnicas de linho bordadas nos extremos. Gritavam ensandecidos a cada verso sobre minha vida.

Enquanto o Corifeu cantava em êxtase eu fazia minhas libações ao deus com vinho servido em uma taça de prata, onde se podiam ver desenhos ricamente decorados de fino ouro. O ditirambo seguia seu roteiro e eu me maravilhava com tudo aquilo. Jamais pensei em tornar tão pública a minha biografia e nem pensava que o próprio Baco comparecesse em meus domínios para assistir aquela peça tão bonita que falava de mim como protagonista, como ser humano e mortal.

Ao fundo da taça, ao fim do prazer do vinho puro, ainda excitado, li, de relance, no fundo da taça, a frase: “contra malum mortis non est medicamentum in hortis” (contra o mal da morte não há remédio nos jardins).

Antes de sorver o último gole, olhei em volta com meus olhos de leal adorador, o rosto cínico de Baco me olhando. O imortal untuoso me saudava lançando perceptíveis faíscas ferinas sobre mim, provavelmente achando que eu queria, como ele, viver para sempre. Eu, então, caí envenenado, tentando desesperadamente respirar.

Acordei séculos depois na Amazônia em um banho ritual de flores perfumadas e folhas de ervas. Era noite e a lua brilhava no rosto sereno de minha mãe. Eu ouvia seu balbuciar de preces e recebia com carinho suas mãos curando minha asma e tirando meus quebrantos que tanto faziam mal à minha sobrevivência de criança ribeirinha desassistida. Por isso eu memorizei esse meu tempo antigo e o decorei com o coração para me proteger dos perigos do mundo e nunca mais esquecer os males incrustados no olhar dos poderosos, que um dia me envenenaram com suas invejas e mentiras.

Frases, contos e histórias do Cleomar (Parte IV)

Como já dito aqui, meu amigo Cleomar Almeida é um competente engenheiro. O cara também é a personificação da pavulagem e gentebonisse, presepeiro e boçal como poucos que conheço. Um figura divertido, inteligente, gaiato, espirituoso e de bem com a vida. Dono de célebres frases como “ajeitando, todo mundo se dá bem” e do “ei!” mais conhecido dos botecos da cidade. Quem conhece, sabe. Na mesma linha da PRIMEIRA, SEGUNDA e TERCEIRA edições sobre seus papos no Facebook, mais uma vez selecionei alguns de seus relatos hilários na referida rede social.

Boa leitura (e risos):

Filhos

Quando se tem filhos a gente a gente se enquadra em três níveis de bestidade. O besta propriamente dito, o abestado e o abestalhado. Nesse último, me enquadro perfeitamente.

Print

Eu sempre falei, esse negócio de print ainda vai acabar com a raça humana.

Batucada na barriga

Nunca confiem em um homem que não sabe fazer uma batucada na barriga, com certeza tem algo errado com ele. ☺️

Convocação para a Copa América

Vi essa convocação e tenho quase certeza que o Dunga sequestrou o Tite.

Cargo na AL

Se a pequena fosse barangada eu duvido que tava essa fuleiragem toda, bando de feio com dor de cotovelo.

Mês longo

Tendo como base, uma análise minuciosa na geladeira e no armário aqui de casa, vejo que abril já deveria ter acabado a dez dias.

Bolsomínions na chuva

Pra começo de conversa, blogueiro semi analfabeto não é jornalista, tem mais é que ficar na chuva mesmo.

Briga na Câmara de Vereadores

Já me meti num porradal desses, eu era o cara que chega voando!

Música

A gente tá bem assistindo ao Jornal e páh, me aparece o Mauro Cotta. Dá logo uma vontade do cabôco sair rabiando no brega.

Conversa com Deus

Se eu pudesse falar com o Criador só teria uma pergunta. Chefe, o Senhor vai precisar mesmo desses carapanãs? Fooooolego, tá demais.

DR. MEDEIROS – Conto de Luiz Jorge Ferreira

Conto de Luiz Jorge Ferreira

“- Não, Dr. Jorge Montalverne, eu concordo com o senhor. Esta febre que tenho não tem regredido com os medicamentos que tomei. Mas d’ai a necessidade de eu ser internado no Hospital São Lourenço ser enorme…”

“- Senador Medeiros, eu pondero para o seu bem. Lá estaremos com o Sr. mais próximo, os exames poderão ser feitos mais facilmente a qualquer momento, e quando o parecer de um colega se fizer necessário, ele estará lá a mão. Além do mais, tudo que este hospital tem de melhor e moderno se deve ao Senhor. Sem a sua intervenção, verbas não teriam chegado até nós para equipá-lo e modernizá-lo. É como se o Sr. estivesse em sua casa.”

“- Isso é verdade e muito me orgulha. Estive lá há coisa de dez dias, quando inauguramos o isolamento da UTI de adultos. Mas toda aquela maquinaria fazendo Brum… Brum…, meteu-me medo, Dr. Jorge.” O Senador Ubaldo Medeiros olhou para sua esposa que, calada e com ares de preocupação, estava sentada no canto do sofá. Dr. Jorge, então, apressou-se a dizer: “- D. Conceição vai estar ao seu lado.” “– Estarei lá meu amor”, disse com a voz trêmula.

“- Então, fazemos assim, eu vou à noite e me interno”, respondeu. “- Passaremos despercebidos…, disse o Doutor. “- Após conhecermos os resultados dos exames que fará, você terá alta e viajaremos para Brasília,” repetiu a mulher ávida em tentar convencê-lo. Ele escutava calado. “- Não quero que a notícia da doença se espalhe, fica mal para as minhas futuras pretensões políticas.”

“- E estes exames?” perguntou apontando um monte de papéis sobre a mesa. “- Não foram conclusivos,” apressou-se a dizer o médico e levantou-se como se o Senador houvesse concordado com tudo. “- Vamos amanhã de madrugada, Dr. Jorge! Deixe-me perguntar mais uma coisa, em que andar fico?” O médico olhou sem entender bem o Senador. “- É que…O hospital tem uma fama de que quem desce os andares até a altura das raízes do ipê roxo, aquele gigante defronte ao Hospital, é sinal, de que vai…” O Medico sorriu. “- Ora mais esta. Relacionar a melhora ou a piora dos pacientes com as raízes de uma árvore…,” disse o médico “ – … São estórias, Senador! Estórias que o povo cria.”

O Senador deu-se por satisfeito quando o elevador parou no sexto andar. Por ser tão cedo, não havia repórteres, nem encontrou nenhum conhecido, só as freiras que administravam o hospital é que tinham vindo recebê-lo. Quando amanheceu, observou o apartamento, amplo, limpo e arejado, mais parecia um grande escritório. Jornais do dia, telefone, fax, computador, internet, televisão a cabo. Estava cansado é verdade e um pouco febril, mas atribuiu aquilo ao esforço de ter acordado cedo. Foi à janela e, por ela, via a copa do grande Ipê Roxo. Estava ali, um pouco acima do parapeito, todo bordado de branco pelas fezes das andorinhas. Não teve muito tempo para olhar de novo. Uma hora, eram os enfermeiros colhendo sangue, as visitas, os telefonemas, os e-mails e, por último, no fim do segundo dia, a visita do Dr. Jorge.

“- É a péssima noticia…” “- Mas esta reforma que vai me forçar a descer para o quinto andar, estava prevista? Tossiu um pouco, antes de concluir. O médico balançou afirmativamente a cabeça. “- Calma Senador! Já estava prevista, só não contávamos com a necessidade de fazê-la agora. Pane na parte elétrica. O Sr. fica no apartamento abaixo, um andar, e nem vai se dar conta da mudança.” “- Mude-me, então, de madrugada, doutor.”

Assim foi feito. De manhã, observou que eram parecidos os apartamentos, mas já não se encontrou em um escritório. Havia alguns aparelhos na parede que ele descobriu serem de oxigênio e de outros gazes, trouxeram-lhe mais alguns remédios e ao caminhar para olhar pela janela, já não consegui ver a mancha branca sobre a copa, mas lá estava o Ipê Roxo. Amiudaram-se as medições dos enfermeiros, diminuíram os telefonemas, pouco assistiu aos noticiários da televisão e quase não leu os jornais, estava bem cansado. Haviam guardados seus sapatos e apenas um par de chinelos estavam arrumados ao lado da cama. A maleta com suas roupas sumira, por certo a mulher a colocara em algum armário.

Ao final do terceiro dia, Conceição entrou com cara de espanto. “- O que houve?”, perguntou, “-… Não encontrou o Dr. Jorge?” A tarde toda, ele estivera tossindo e com muita febre, apesar dos novos remédios que haviam lhe feito tomar. E por isso resolvera chamar o médico e amigo. “- Não… Ele precisou viajar de urgência, mas deixou o Dr. Henry encarregado do seu tratamento. Inclusive, este me disse que o andar onde ele dirige e atende é o quarto.” “- O quê?” O Senador quase engasga de todo, ficou lívido. Levantou-se com dificuldade e ela correu para ajudá-lo. “- Não…Não…E não. D’aqui eu não saio.”, gritou. “- Calma!”, disse-lhe, minutos mais tarde, o medico plantonista quando chegou com a medicação injetável e dependurando frascos que ligou aos seus braços. “- Tragam a maca, vamos mudá-lo. O que acontece?”, perguntou. “- Simplesmente porque Dr. Jorge viajou e eu tenho mais facilidade de atendê-lo no quarto andar aonde sou o responsável? Ficarei mais próximos ao Sr.”

Então, o Senador deixou-se levar, já tinha perdido todas as suas forças no acesso de raiva ao receber a notícia que desceria mais um andar. Olhou para janela. Achou que havia desmaiado. Quando voltou a consciência, viu que haviam mais frascos ligados aos seus dois braços, respirava com um tubinho no seu nariz, e seu peito tinha muitos fios que levavam a um aparelho que, naquele momento, não emitia luzes. Mas percebeu que estava ligado, porque produzia um tic-tac que o importunava. Observou, também, que havia se urinado e que estava de fraldas. Conceição estava ao seu lado e segurava sua mão.

“- Cadê o médico? ”, perguntou com a voz entrecortada. “- O Dr. Henry já foi.”- ela respondeu. “- E eu como estou?”
“- Está bem. Amanhã farão novos exames e…” “- Mais exames?” Olhou para os braços esticados. Havia perdido peso, tossia, respirava com dificuldade, estava sem forças, não controlava mais urina e fezes, o Dr. Jorge havia viajado e aquele quarto, com cara de quarto de hospital, sem nada a não ser tubos e fios espalhados para ali e para acolá. Sem TV, sem telefone, sem armário, nu como ele. E o tic-tac a espreita…

Olhou para a janela. Podia vê-lo. Melhor ainda, podia olhar seu tronco enorme encostado, parecendo que ia quebrar a janela, entrar e retira-lo d’ali. Passou o dia bem. Pensou mesmo em pedir sua subida para o sexto andar. Mas falar com quem? Desde o meio-dia, Conceição sumira. Fora receber os resultados dos exames e nada. As freiras não entravam mais ali, os enfermeiros tinham diminuído suas visitas e só podia ouvir o barulho das ambulâncias com os doentes chegando. Como companhia constante tinha uma ou outra andorinha planando e, próxima à janela, o tronco da árvore que, presente e iluminado pela luz da fachada do hospital, parecia observá-lo. Deu-lhe a impressão que Conceição, quando retornou, estava gripada. Ela ficava assoando o nariz, andava coberta com uma mascara branca no rosto, pouco conversava. Ele, triste, tentara chegar à janela muitas vezes, mas não conseguia. Os poucos passos que o separavam da janela eram demais. Ela entrava e saia.

À noite, teve o cuidado de amarrar sua perna direita à cama para ninguém mudá-lo de lugar enquanto dormia. Exausto de inutilmente chamar o médico que lhe atendera de manhã, adormeceu. Acordou com movimentos no quarto, havia um outro médico focando em seus olhos com uma lanterna e uns outros mais de longe aguardando. “- Que houve Doutor?”, perguntou cansadamente. “- Nada Senador, é rotina.”

Virou a cabeça com dificuldade. Estava sem os óculos, mas, mesmo assim, percebeu a presença do Dr. Jorge. Ele havia chegado. Com certeza, conversara com Conceição e tinha vindo avisá-lo que subiriam novamente para o sexto andar. Dr. Jorge falou-lhe alguma coisa como tomografia no terceiro andar. Sentiu que seu coração disparara, pois as pequenas luzes do aparelho ao seu lado piscaram aceleradas. Tentou falar sexto andar, mas foi em vão. Podia ver, adiante das costas do Dr. Jorge, que o tronco do Ipê se avolumava e que o médico estava totalmente vestido dos pés à cabeça de uma roupa verde. Desmaiou.

Abriu os olhos. Havia muitas luzes. Mesmo assim, pareciam fracas. Havia novos tubos: no seu pênis, no seu nariz, na sua boca, e um grande no seu pescoço que, desconfortavelmente, o forçava a respirar. Outros pacientes também estavam deitados, separados por biombos. Nem Conceição, nem um só rosto conhecido. Enfermeiras e freiras passavam caladas, cobertas da cabeça aos pés e olhavam apenas um pouco para cada um. Quis falar e perguntar pela mulher, pelo médico, mas nenhum ruído saiu. Os pés estavam na direção de um painel de vidro e a cabeça próxima a uma janela na qual não podia ver, mas imaginou ao perceber o apagar e o acender da luz colorida sobre seu corpo. Devia estar à altura da enorme letreiro com o nome do hospital que ele mesmo inaugurou. Um pouco acima da entrada das Ambulâncias, no primeiro andar, sobre o necrotério, bem próximo às raízes do tronco de Ipê.

Um silêncio profundo se rompe. Ouve-se um barulho estridente de buzina. Ele desperta. Com suas mãos tateia a maciez conhecida do colchão, o rendado do travesseiro. Acende o abajur. São quatro horas da manhã. Escuta a voz do motorista. “- O Senador Ubaldo Medeiros já está de pé? Está na hora de levá-lo para o hospital.” Ele, então, escuta Conceição responder. “- Vou acordá-lo. Breve estará pronto.” O motorista permanece com o carro ligado. O Senador Medeiros, sonolento e trêmulo, desce as escadas.

* Do livro Antena de Arame – 2018 (II Edição) – Rumo Editorial – São Paulo. 

O RETRATO AZUL – Conto de Fernando Canto sobre sua mãe

Conto de Fernando Canto

E agora estou aqui, engolindo este silêncio seco, sem saber o que dizer para você.

Por tantas vezes você me acariciou os sonhos e os cabelos e me aparou de quedas vertiginosas, falando em anjos guardiães. Às vezes, em pequenos pedaços de iracúndia você me insultou. – Burro, não é assim, é assado, é grelhado. Eu ouvindo, eu burro. Você me ralhava, dizia até com ponta de aspereza para que eu não me importasse com a perda das coisas, as que considerava tolas. Eu parado ouvia, mas dentro a cachoeira vinha abrupta e profusa. Havia de sentar ou fugir, me rebelando do trato ou a enchente me afogava.

Agora estamos nós dois sem saber o que fazer… Você aí sentado nessa rede com olhos brilhosos de lágrimas, olhando fixo o quadro que lhe demos de presente de aniversário. E você tem vergonha de chorar porque homem não chora, ainda mais um homem como você que sempre foi forte e capaz de transpor os obstáculos e desarmar, sorrindo, tantas armadilhas.

Você tem lembranças e elas são fantasias de nuvens. Você quer concreta a sua lembrança. Ela surge na forma que você quer. Ela vive em sua memória de um jeito estranho, pois o cenho não esconde a projeção e você a sente como se tivesse medo. Mas medo você não tem nem está triste, apenas lembra.

Eu ao seu lado toco em seus cabelos e na sua dor. Você me abraça. Nós, é óbvio, não temos a mesma idade nem a mesma opinião sobre os golpes que o tempo deixa, pois os ventos mudaram para outras pontas da grande rosa e os valores brilham em forma e conteúdo ou, como se diz comumente, qualitativa e quantitativamente. Hoje você vale o brilho que sabe demonstrar com sua esperteza. Hoje os fios do bigode são meros adornos de vaidade e moda. – E não culpe somente as mãos do mundo. Cuspa, se lhe aprouver. Eu vivo a contragosto esses valores e trago em mim a amargura do meu tempo. No entanto, estou aqui junto a você, agora sentindo uma reação esquisita, frente a essa tela.

Minhas lembranças não são mais nítidas que as suas porque o amor que eu sinto é diferente. Você esteve mais perto, então uma imagem lhe traz uma série de outras mais claras, mais tangíveis.

Para mim muita coisa é confusa. Os sentimentos da monocromia em azul saltitam sobre o retrato emoldurado. Consigo ver um tempo que não é meu e me sinto intruso perscrutando o que pertence a seu mundo, me metendo, penetrando no interior de seus sentimentos e elaborando apenas fantasia.

O retrato espelhado em seus olhos mexe com você até a alma. Um doce para mim se sou capaz de adivinhar. Você segura a minha mão com força como se de longe estivessem lhe chamando. Você está em dúvida. Eu respondo. Não quero que você vá. Mas quem sou eu para lhe impedir a vontade se você ama, se você quer ir.

Minha lembrança migra para uma tonalidade tênue e vejo você sentado no pátio de nossa velha casa de madeira conversando com ela sobre as atividades dos filhos, sobre a TV em preto-e-branco que desejam comprar, e especialmente sobre sua situação financeira que não está nada boa, desde que foi obrigado a vender seu comércio pra pagar dívidas contraídas pelo sócio mau-caráter.

Vejo vocês saindo da missa. Uma, duas, mil esperanças a cada domingo. Um almoço farto é imprescindível nesse dia da semana. Você diz orgulhoso:

– Em minha casa nunca faltou comida. E agradece a Deus. E come as delícias que ela fez.

Embora sua risada fosse discreta, os olhos demonstravam a cor do seu pensamento feliz. Havia tristeza, é claro. Ninguém vive sem sentir o gosto dos diferentes venenos que ingere. Porém, há remédio para tudo, isso até hoje você diz. Você pratica e ensina que há antídoto para as agruras; que existem meios e formas para superar qualquer barreira da vida; que não é necessário beber veneno, mas se for inevitável engole-se aos poucos para depois vomitá-lo todo. Então você vomita. Muitas passagens da vida são venenosas e a ação do tempo é emética, aprendo.

Não posso me arriscar a duvidar. Você foi feliz e sofre hoje. Todavia, a sua felicidade acabou no momento em que a paixão incrustou definitivamente, acho, assim como a tinta na parede, como o asfalto no leito da rua, como a cola no papel. Ora, você sabia da durabilidade das coisas porque consertou mil objetos. Sabia que nem tudo é resgatável, gastou horas e sentimentos lidando com minúcias para não esgotar a paciência. Perseverava sempre, até o limite técnico de sua vocação de engenheiro e alma de artesão incomparável. Sim, você sabia que a parede tomba com a violência do temporal, que a tinta escurece e descasca com as intempéries, que o asfalto rompe com o tráfego dos veículos, que a rua desnivela com as erosões, que a cola desgruda com as variações da temperatura, que o papel rasga e amarelece com o manusear constante. Você sabia tudo isso, mas levou tempo para admitir.

Você embala a rede que me roça as pernas. Eu afago seus cabelos brancos com uma ternura de me causar surpresa. Nós sempre fomos amigos, mas havia uma barreira. Talvez a do excesso de respeito, pelo que a aproximação arrefecia. Foi preciso tempo e esta situação para que eu me decidisse amá-lo com toda a força do meu coração, entendo-o agora, dizendo dentro de mim e, se eu quiser, bem alto e retumbante, um Eu Te Amo para impregnar este quarto onde mora a intimidade de sua memória, onde você cultiva sua solidão particular.

Há uma relação inquebrável, uma linha, um foco de luz entre seus olhos e a tela. Nela você penetra aos poucos. Eu deixo, porque a luz é sua, a transcendência é clara. Suas mãos emitem uma aura azul.

Você não percebe que eu desliguei a luz. Você enxuga uma lágrima cadente com a mão esquerda no rosto brônzeo e transmigra com os olhos fixos para dentro da figura tão bem pintada por um artista amigo da família. Com as mãos em seus cabelos acaricio, talvez, a necessidade de seu sonho. Sinto que alimento sua satisfação, embora a sua dor esteja explícita no cenho errado, duro, mas substancialmente alinhado agora. Você não parece ter a idade que tem. Eu observo seu rosto pelas réstias de luz fugidas da sala vizinha, através das frestas das tábuas. Há nele inevitáveis rugas. Mas um sorriso paira em sua boca. Um enigma.

O passado corre no quarto como um rio de volta para a nascente. Recordo suas velhas histórias. Longas e quase inacreditáveis. Histórias amazônicas, histórias que, sabemos, são verdadeiras, pois você nos ensinou que a mentira não é necessária, é sempre uma coisa dispensável. Todas elas traziam a liberdade sonhada nos quintais. Todas abrangiam um mundo particularizado, impenetrável porque aconteceram antes da devastação da floresta, o que tanto o entristece e o preocupa quando assiste aos jornais da televisão. Fogo, antes, só o fátuo – a ilusão. Eu criança e mesmo já adulto absorvia os mistérios dos seringais, as técnicas descobertas por extrema necessidade no meio da selva, e o idolatrava quando contava das farras feitas com seus irmãos, sempre aprontando alguma. Ríamos muito no final dessas histórias.

Um sentimento enorme tomava conta de nossa família. Você encanecia rápido, dizia que não era de preocupação, era genético. Mas eu sabia. Sabia quando você se preocupava, porque depois do almoço, quando mamãe saía para o trabalho, você ficava se embalando numa rede larga, de cor branca, fixando a vista em algum ponto da parede, assim como o faz agora na direção deste quadro. Depois saía sozinho, de bicicleta, ganhando a tarde.

Só você e ela sabiam das dificuldades que nos afligiam. Nós, os filhos, tínhamos o que queríamos e o que pedíamos no limite de nossa pobreza. Nunca reclamamos de nossa infância. Éramos felizes e tentamos até hoje dar um sentido racional a ela, sem, contudo, perdermos o vínculo do encantamento pretérito com a chuva de desencantos que às vezes caía sobre nós. Há um remédio para cada veneno. Lembra? Você não lembra. Está quintessenciado.

Será que erramos com a ideia do presente? Assim você sofre demais, deixando transparecer a debilidade do corpo que balança a rede. Você ainda me abraça e olha o perto/longe. Está lá dentro conversando com ela, caminhando nos paralelepípedos da cidadezinha do interior, de mãos dadas, com seu termo de linho branco, galante e contente, demonstrando o seu amor, inclusive às solteironas invejosas das janelas coloniais. Você sobe a ladeira com um sorriso de homem maduro. Mais alegre, ainda, é ela, a professorinha da Prefeitura Municipal, a desfilar com a graça de seu andar miúdo e um sorriso fulgurante, ajeitando de vez em quando a rosa amarela presa aos cabelos negros. É final da tarde de domingo.

Você a imagina assim, como no retrato. O retrato azul, transposto e ampliado de uma velha foto da década de 40. Minha impressão é que você confunde o real e o imaginário. Permanece o silêncio. Nós dois aqui.

Ah, falta o violão, imagino eu, para que você dê uns acordes harmônicos e cante músicas do seu tempo. Valsas, valsas. Mas o silêncio é seco. É áspero. É doído. Acho então que não estou errado. Seu semblante está feliz, está tocando, está ouvindo músicas. Não há amor sem música. Para ela havia muitas, dessas que entrelaçam e fortalecem uma relação aparentemente ingênua.

De repente você escuta o apito de um navio passando longe. E a convida para viajar, conhecer outras terras, começar a vidinha a dois. O apito do navio transporta o engano do futuro. Você é um aventureiro nato. Não desiste nunca. Mas não impõe. Os dois vão viajando trinta e poucos anos. E gostam. Não enjoam jamais da cara do outro. As brigas que se sucedem são só de vocês. Ai daquele que meter a colher.

Até parece que ela vive. Você devaneando me faz acreditar. Eu acredito. Você me diz: – Eu não estou triste, só lembro.

Lembrar é fato legítimo. É viver o presente com lucidez. E você vive. Apenas viajou.

Paro de afagar sua cabeleireira branca. Você me abraça e não me olha. Sei, no entanto, que está sorrindo, que está feliz. Você levanta, me dá três tapinhas nas costas e vai assuar o nariz no banheiro.

Acendo a luz fluorescente. Olho o retrato mais uma vez. O quarto está repleto de luz. Mamãe está sorrindo na tela com os olhos molhados de ternura.

4 De soslaio – Conto de Luiz Jorge Ferreira

Conto de Luiz Jorge Ferreira

Por mim a gente tocava fogo e queimava todos os barracos.

O tenente olhou-me como se me visse pela primeira vez. Não estamos mais na guerra da Alemanha. Em seguida cuspiu mais uma vez no chão, um cuspe cheio de saliva e tabaco. E fulminou-me com o olhar.

Os homens continuam lá dentro, esbravejou. Mas tocar fogo nos barracos vai matar muita gente inocente.

Eu tirei o boné e o bati na palma da mão levantando a poeira acumulada desde a Segunda-feira, quando saímos de Lagoa dos índios. Maldita hora que não aproveitei minha folga e sumi das proximidades do Quartel. Fora aquele maldito alerta e estávamos agora deitados cercando uns malditos aglomerados de matutos, que teimavam em se acharem donos daquelas terras secas e amaldiçoadas.

Os urubus caminhavam saltitantes pela terra cercando os corpos das montarias mortas há três dias, quando do primeiro tiroteio.

O tenente rastejando era cômico, manchara a calça num monte de esterco e hoje aquela laca parecia uma tatuagem seca no fundo azul de sua farda.

Por mim tocávamos fogo, ergui a mão soltando um punhado de capim seco que voou rumo ao povoado levado pelo vento que soprava forte.

Com um pouco de sorte e um palito de fósforo estes cabras vão ter que se entregar ou assam como cabritos.

Um rosto assomou pelo vão da janela. Estava com o rifle em mira, avistei os olhos encovados, abertos, assustados, em cada lado da mira, fiz pressão no dedo e tum… tum…

O rosto saiu de nossa visão como atingido por um soco.

“Bom tiro, Cabo! Este não come mais feijão.”

Olhei para o soldado ao lado, mostrava todos os dentes manchados de cárie e um pedaço de palito dançando neles. O cartucho saltou no meio de umas pedras e peguei-o com a mão para cheirar seu perfume de pólvora queimada.

Daí então caiu a tarde e ninguém viu mais ninguém. A ordem da capital era não avançar, eles estavam sitiados, a água que tinham não podia durar muito e a cacimba que ficava a meio quilometro distante do povoado, fora dinamitada e coberta de pedras. Um sargento mais desalmado trotou com nossos animais sobre a plantação de milho e feijão destruindo tudo e colocou veneno na carne que atirou para os cães, espantou as aves. Morreriam de fome ou de sede.

Levantei as mãos. Aproximei do rosto o palito de fósforo aceso e acendi o cigarro, traguei a fumaça. Éramos uns cinqüenta homens armados até os dentes, até mesmo um pequeno canhão que permanecia adormecido na praça do Quartel fora amarrado em dois burros velhos, e trazidos, há muito custo. Notei que a barba crescera e que aquela paisagem hostil parecia agora, minha velha conhecida. No dia anterior, viera o Coronel dono das terras e nos oferecera um bom almoço, distribuíra pinga, carne de sol, rapadura e uns rolos de tabaco. – Um homem fino, disse o Tenente, muito a vontade entre a cachaça e o tabaco. E entre uma cuspidela e outra o abraçava como se faz a um velho conhecido. Depois de tanta festa hoje parecia triste nosso acampamento.

Furei uma Joaninha que corria pelo chão com a ponta da faca.

O resto do cigarro lancei longe com um movimento de catapulta nos dedos médio e polegar. À noite o fogo tomou conta do cerrado e os homens morreram abraçados com suas mulheres e filhos.

De manhã cedo o burro da direita que puxava o canhão, caiu num buraco e tivemos que sacrificá-lo. Voltamos os dois, revezando sobre o único cavalo sobrevivente, chegamos exaustos. O tenente morreu.

Em Agosto, fui promovido.

* Do livro de Contos “Antena de Arame” – Rumo Editorial (2° Edição) – 2018.

As negras velhas ( Por Fernando Canto )

Conto de Fernando Canto

Caixas do marabaixo retumbam/retumbam em círculos movimentados de pés descalços/negros pés. E saem das línguas vermelhas os gritos guerreiros e as canções improvisadas da guerra que nunca houve. A valentia é substituída pelo insaciável apetite de voar sem asas para mitigar dores ancestrais, enquanto rosas brancas, açucenas e papoulas enfeitam a negra beleza dos cabelos esticados em rolinhos de plástico… E sob os olhares críticos da geração megahair.

As caixas retumbam/retumbam e dobram incansavelmente ao meio de odores/suores/toalhas e saias rodadas que combinam brancas anáguas bordadas de renda.

O Marabaixo prossegue em seu curso no arrasto dos pés pela roda, em cursos passos à frente e um passo cansado atrás.

As velhas do Marabaixo cochicham segredos e riem dos seus casos antigos que ora se sentam nos bancos corridos dispostos pelo salão. É lá que as histórias completam a memória, acertam verdades e crenças e extinguem resquícios de quizílias familiares.

No gesto de encher a colher de caldo e levá-la à boca, na satisfação do gole da batida de gengibre e na algazarra de enfeitar o mastro com galhos de murta, está a poesia do povo e a fortaleza do sangue um dia pisado e magoado por grilhões e calcetas.

O diabo está solto no tempo do Marabaixo. Dizem que quem for podre que se quebre ou que se pegue com o Divino, aquele do Espírito Santo.

O diabo está solto, sim. Mas as negras desdenham dele e gargalham em seus sorrisos falhos, sabendo que o que fazem é bonito, é autêntico e dá uma saudade imensa…

* Publicado no livro EquinoCIO, de 2004.

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