A noite dos peixes – Conto de Ronaldo Rodrigues

Conto de Ronaldo Rodrigues

A Assembleia Extraordinária convocada pela Grande Ordem dos Peixes não foi atravancada por discursos prolixos ou questões de ordem burocrática. Terminou em poucos minutos, com os Peixes optando por uma firme tomada de decisão frente aos atos praticados pelos Pescadores.

Foi elaborado um manifesto em que os Peixes reclamavam da violação de um antigo pacto firmado pelos ancestrais de Peixes e Pescadores. O pacto celebrava a harmonia entre ambos os lados e determinava a proibição da pesca de filhotes pequenos e de fêmeas grávidas.

Em seu manifesto, os Peixes sugeriam vários caminhos para a conciliação, mas deixavam clara a intenção de invadir a aldeia, caso os Pescadores não fizessem valer os itens do pacto.

Na tarde daquele mesmo dia, o mar levou até a praia o envelope timbrado da Grande Ordem dos Peixes. O Chefe dos Pescadores, obrigado a interromper a sesta para ler o manifesto, ficou com o humor ainda mais azedo.peixes2

O manifesto foi lido entre um bocejo e outro e logo o Chefe dos Pescadores desatou a rir estrepitosamente. As gargalhadas se multiplicavam à medida que os outros Pescadores tomavam conhecimento do teor do manifesto.

Em meio à onda de zombaria, sem conter as gargalhadas, o Chefe dos Pescadores enfiou o manifesto no envelope, escreveu displicentemente que Peixes não escrevem manifestos, e o devolveu ao mar.

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No dia seguinte, os Pescadores voltaram a violar o pacto. Ao retornarem da pescaria, trouxeram em suas redes, entre os Peixes adultos, que era lícito pescar, uma grande quantidade de filhotes pequenos e fêmeas grávidas.

Os Peixes ficaram convencidos de que não adiantaria qualquer esforço para evitar o confronto. Reuniram-se rapidamente, formando um numeroso exército, e conceberam um plchuva-de-peixeano de ataque para aquela noite.

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Na aldeia, os Pescadores faziam uma grande festa, comemorando o sucesso da pescaria, e não perceberam um estranho rumor se elevando pouco a pouco. Os Pescadores só puderam ouvir quando o rumor se transformou num barulho ensurdecedor, que ultrapassou as ondas sonoras lançadas pelos alto-falantes que animavam a festa.

Os Peixes vieram navegando pelos ares e o atrito de seus corpos com o vento era o que produzia aquele barulho, anunciando um trágico desfecho.

Os Peixes continuaram sua marcha, investindo contra tudo e todos, derrubando portas, destroçando paredes, derrubando casas.

Enredados pela violenta tempestade de Peixes, os Pescadores corriam de um lado a outro da aldeia, na vã tentativa de defender suas famílias e propriedades.

Após alguns minutos de ataque, que aos Pescadores pareceram horas, os Peixes voltaram ao mar, deixando na aldeia uma trilha de sangue e destruição, onde se retorciam corpos agonizantes.

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Ainda hoje, decorridos muitos anos, se escuta na aldeia-fantasma o lamento de dor que os Pescadores deixavam escapar, tentando salvar seus filhos pequenos e suas fêmeas grávidas.

Pode dar o cano quem quiser porque não vou mais correr atrás de ninguém – Conto de Ray Cunha

Conto de Ray Cunha

Não havia sido um dia de sono restaurador para Amarildo Teixeira. A periodontite o torturava, de modo que passou o dia em claro. Foi trabalhar azedo. Era garçom no Chorão da Asa Norte.

Lá pelas seis horas da tarde apareceu uma cliente, uma senhora elegante, trajada com sapatos altos de couro preto, meias e vestido também pretos. Bonita, de belos cabelos negros, quase longos, era patente que estivesse de luto, pois acumulava duas alianças no dedo anular esquerdo. Pediu o cardápio e passado um momento perguntou se a caldeirada de frutos do mar dava para duas pessoas.

– Dá para quatro, senhora – informou o garçom Amarildo.

– Traga, então.

– E para beber?

– Nada. Fico sempre muito cheia quando bebo alguma coisa durante o jantar.

Naquela hora não havia quase ninguém no Chorão. Estava tudo silencioso e agradável. Tudo bem arrumadinho, à espera da turba que não demoraria a chegar noite afora. Depois que o garçom Amarildo serviu a caldeirada de frutos do mar, pôs-se a observar a mulher. Estava desconfiado de alguma coisa. Não sabia bem de quê. Ela pediu bastante pão francês e Amarildo serviu-lhe quatro pães. Um, ela comeu num relâmpago.

O impressionante é que a caldeirada dava mesmo para quatro pessoas normais e ainda sobrava. Era uma terrina enorme, cheia de um caldo cheiroso e saboroso, com grandes pedaços de peixe, moluscos e toda sorte de crustáceos. Amarildo Teixeira não acreditou no que viu quando ela o chamou para pedir a sobremesa. A terrina estava seca, o arroz e o pirão foram devorados e os pães sumiram.

– Queijo com goiabada! – ela disse.

O garçom Amarildo ficou confuso. Foi buscar a sobremesa. Quando voltou, a bela viúva sumira. Amarildo correu para a rua e ainda pôde ver o vulto na esquina, iluminado pelas primeiras luzes da noite. Não pensou duas vezes. Saiu no seu encalço. Ao alcançar a esquina, a mulher estava à sua espera e atirou-lhe uma pedra na cabeça. O garçom escorregou e caiu. Levantou-se. Ela desaparecera. Amarildo Teixeira voltou para o restaurante. A pedra fez-lhe um galo. “Ainda bem que não foi na testa” – pensou, apalpando o calombo no lado da cabeça. “Não vou nem contar essa. Ninguém vai acreditar. É melhor não contar. O pior é que eu vou ter que pagar a conta daquele animal; me deu o cano e quase quebra minha cabeça. Como é que pode?”

De volta ao Chorão, Amarildo Teixeira foi ao banheiro. Muita gente havia chegado e o gerente estivera atrás do garçom. Quando Amarildo saiu do banheiro havia um sujeito numa das mesas de sua responsabilidade. Um sujeito grandalhão, um verdadeiro mastodonte, olhando atentamente o cardápio. Aproximou-se cautelosamente.

– Escute aqui, meu jovem, esta caldeirada de frutos do mar dá para duas pessoas? – perguntou.

– Dá para quatro – disse Amarildo Teixeira.

– Quero uma. Traga logo uns pãezinhos até chegar a caldeirada.

“Não é possível que esse cara saia correndo também. Não acredito! Até porque não agüentaria correr com esse corpanzil” – pensou Amarildo, levando quatro pães franceses para o freguês.

– Putz, ô meu, só isto? Traga uns dez – pediu-lhe o homem, passando manteiga num deles e comendo-o em duas bocadas.

Amarildo Teixeira serviu a terrina de caldeirada olhando fascinado para o homem. “É um animal de bruta raça” – pensou.

O freguês era bom de boca. Em pouco tempo não restava mais nada na mesa que pudesse ser comido.

– Ô, meu, queijo com goiabada! – disse o homenzarrão.

O garçom Amarildo foi buscar o que o sujeito pedira. Serviu a sobremesa; o tipo devorou-a em segundos e pediu outra. Após comer quatro porções de queijo com goiabada o gajo não deu tempo para nada. Ergueu-se subitamente da mesa e partiu para a porta, ganhou a rua, e correu em direção à Avenida W3 Norte, com Amarildo Teixeira atrás. Mas o freguês tinha fôlego de peso pesado. Alcançou facilmente o calçadão da W3 Norte, onde estacou abruptamente. Amarildo aproximou-se dele e recebeu um cascudo na cabeça que o fez cambalear e cair. Levantou-se e retrocedeu. O brutamontes partiu para cima dele. Alcançou-o e lhe deu uma rasteira, fazendo o garçom se acabar na calçada. Levantou-se às pressas e correu o quanto pôde para o Chorão. Quando se sentiu em segurança olhou para trás e viu o mastodonte atravessando lentamente a W3 Norte. Olhou para si e viu que ficara bastante estragado.

– Aquele desgraçado quebrou a minha cabeça só com um cascudo. Acho que tinha um pedaço de ferro na mão. Agora vou ter que pagar duas caldeiradas de frutos do mar e mais quatro sobremesas – choramingou. – A melhor coisa que eu faço é ir embora para casa.

Mas Amarildo não pôde ir embora, pois faltaram três colegas seus e na sua ala havia dois esgalamidos querendo caldeirada de frutos do mar.

“Droga, droga, droga” – disse de si para si, e foi buscar a primeira terrina, decidido a não correr mais atrás de ninguém, nem que tivesse que pagar a conta com sua poupança na Caixa Econômica Federal.

*Contribuição de Fernando Canto.

O MAMELUCO – Conto de Luiz Jorge Ferreira

O Cenário

Paredes de reboco manchado.
Fios dependurados , talvez de antena de TV, talvez fiação de um rádio antigo, fora de uso.
Um pano esfiapado servindo de porta para a saída dos fundos.
Um caco de espelho preso por dois pregos na parede.
Uma mesa tosca, sobre a qual meia dúzia de copos sujos de nada.


Uma geladeira de meio metro sobre meia dúzia de tijolos, com porta fechada com o auxílio de um tamborete.
Um fedor de suor que por ficar difícil explicar no Cenário, contrapõe-se então muitos frasco vazios de desodorantes espalhados, e alguns largados sobre a caveira da cama que jaz no fundo do espaço- cozinha-quarto, sobre o qual repousa um gato colorido de marrom e branco.

O personagem é Álvaro, na verdade, Seu Álvaro, oriundo do interior do Amapá, na verdade um povoado dito Calçoene, criado por proscritos, ingleses, franceses, holandeses, e brasileiros.
Moreno, rosto sulcado pelo sol, muitos anos a cata de peixes, Castanha do Pará, plantas medicinais, para contrabandear para a Europa, em meio as caixas com as cobras venenosas, e outras espécies peçonhentas.

Daí as cicatrizes no braço, e as marcas de cortes para salvar sua vida, ferindo a faca o local e criando uma falsa hemorragia para que chupando com a boca cheia de tabaco mascado, o filete misto de sangue e veneno,diminua sua ação mortal, mas sobrevivido taí em pé, encorpado, puxando da perna direita, e o andar marcando no chão da terra ribeirinha, sempre úmida ou molhada, um orifício de pouca profundidade, onde depois de algum tempo, a plantado pela própria perna postiça, germinará cânhamo.

Mameluco.
Subindo o rio de canoa, por diversas vezes, desembarcara da embarcação, e fizera mira na direção dos gritos.
Algum desafeto destes que deixará sangrando nos povoados, nos cabarés, nas desavenças. Apelidaram-no de Mameluco.


Fora ao mundo, agora seu mundo era este espaço entre estas quatro paredes que nada mais eram do que a lateral de duas casas abandonadas, e a traseira de um outro barraco, e a portinhola que o pano velho e encardido, definia a fronteira, com o mundo lá fora.

Cacoentes que cultiva…o olhar fixo em quem consigo fala, um tique de enfiar a unha do polegar entre os dentes da frente, e a Mantra de repetir aleatoriamente em Nagô, a oração de São Jorge, que aprenderá com os capuchinhos, em Angola.

Os outros personagens, estão espalhados em seus retratos, e recortes de Jornal que colecionou ao longo do tempo, e das viagens.

As vezes o gato deita e se espreguiça sobre eles, então ele o espanta, imitando com um assovio entre os dentes, o silvo de uma jararaca, o que faz com que Jirau, este é o nome do gato, em homenagem ao lugar onde foi encontrado, no garimpo do Jari, debaixo de um Jirau.
Jirau…este jirau como todos os jiraus era um lavatório feito de madeira, próximo a um curso d’água para que a água usada na lavagem da louça usada escorra sem ficar empoçada perto da casa para não se atrair mosquitos e pernilongos.  Ver os retratos, e os recortes… Da o gancho para que fatos sejam relembrados.


Quando vai remexer neste seu tesouro… Ele põe o espelho, em um ângulo que possa ver refletido na porta clara da geladeira, suas costas, onde guarda uma cicatriz, resultado de várias brigas e açoites dados como castigo para quem como ele fazia arruaças, arrumava brigas, e não temia o Corpo Policial, encarregado da ordem.
Cicatriz de aproximadamente 12 centímetros, descendo do ombro direito, para o meio da costa, sem atravessar o limite do meio.


Fora semelhante a um Escorpião, depois de uma queda do dorso de um novilho, se assemelhará, a uma lagartixa, mais tarde depois que sofrerá uma queimadura com querosene de barca em Barcarena, assemelhou-se a um puraqué, e com a insistência do Jirau o arranhando quando deitado de bruços, na sesta da tarde, sagrada para ele…


Um Morcego.
Porque mora ali…
Onde é este ali.
O que quer alcançar com todas as adversidades que sente lhe obstruir a estrada em sua vida.

Nada…

Por nada chegou a este lugar quando a extração de bauxita estava no auge…
E a lucratividade movia uma engrenagem de luxo e fartura, o que fazia dos aventureiros que como ele ali chegaram, abastados e novos ricos.


Nas ruínas onde morava existirá um Hotel Cassino.
Aquele pedaço de pano roto servindo de porta, fora o lençol de uma das Suítes Presidenciais, houvera duas.
E o cinzeiro ali sobre a tosca mesa, e a caixa com bailarina servindo de escora ao pedaço espelho, um adorno ao lado do quadro de dependurar chaves dos apartamentos, no saguão.
Lá fora o saguão, abrigava os morcegos, que vez por outra em rasantes pelo quarto, se espantavam com o seu as suas costas.

Mameluco.
Circula pelas ruínas, e flerta com as coisas que viu, e enamorado com as estrelas da Broadway seminuas nos recortes de jornal, e cantarola canções do meio do ano, marchas de carnaval, todo o tema de Carruagens de fogo…assovia em Mi menor.
Não há álcool.
Mas se embriaga.
Com raízes e beberagens, e quando faz sobe no palco agora um monte de ferragens e canta e dança como um Fred Astaire, desviando se de cipós e ramos tombados.

A noite quando sai a lua, alvoraçam os habitantes da tatuagem, e o incomodam muito, por isso está sempre com o corpo dolorido, pelas noites mal dormidas, e o sono assustado pelo alvoroço das figuras no dorso, todas em uma só, a dependerem da posição, em que a luz da lua, única ali incide

Segundo ato. Toca ‘Belém é Bíblica’ de Milton Hatoum/ e Gandi…cantada por Gandi.
Descem as cortinas, explodem os aplausos. 12 anos encenando o mesmo espetáculo, muitas vezes automaticamente, a dizer as falas, como se fosse ele o narrador, enquanto o personagem permanece calado.

Ele vai até o camarim, apanha a escova de cabo longo, entra no banheiro, e esfrega a maquiagem feita pelo maquiador, e vê escorrer pelo ralo uma profusão de cores, criando um arco-íris líquido que se esvai até ficar só a espuma perfumada do sabonete líquido.

Sobre a cadeira, o gato de feltro, caco de espelho, o punhado de jornais, empilhados e presos, e a barba mal feita aplicada a esmo, sobre a calça de brim desfiada em ambas as pernas, e o radinho, descascado com produtos químicos, aos pés da cadeira o pano que serve de porta , e num último gesto ele arranca e sai.

Londres esta esfumaçada, ele anda a esmo por Leicester Square, e ao seu lado passam dezenas de pessoas cobrindo pescoço e meio rosto, com a aba de seus sobretudos, se transformam em figuras a semelhança dos extras em filmes de Jack O estripador, o que chega a lhe assustar quando olha-o nos rostos e não descobre luz em seus olhos, mete a mão nos bolsos como a procurar, cigarros, isqueiro, canivete, encontra moedas, que usa para por na maquina e retirar algumas gomas de mascar.

De onde esta já pode avistar o prédio onde mora, um antigo deposito de livros, cujo o interior é dividido por ele usando os próprios livros ali deixados pelo Espolio que dividiu as propriedades após a morte de Sir Herald Finn. Dividiu entre velhos cães, anciões solitários, e artistas de teatro e cinema para quem a fama foi só uma palavra encontrada nos textos decorados.


Cartazes dependurados na frente das fachadas de Cinemas, trazem as fotos de Marylin Monroe, o perfil do Zorro, o torax de Tarzan…apressa os passos porque o frio começa a incomodar, caminha e esmigalha a bagana de um cigarro Turco no bolso direito da calça.


Anda o mais rápido que pode, sessenta e três anos, estatura mediana, dependente de Vodka e Gim, pensa no sanduíche de salame feito de manha que debaixo de dois pratos de alumínio emborcados um sobre o outro, espantara a fome que lhe roe as entranhas.

Nada mais no seu testamento, ali imaginado…Um ator sem nada. A não ser textos a decorar. Volta de súbito, vai ate a porta já as escuras do derradeiro Cinema localizado um pouco antes que a avenida se extinga, e cospe no rosto de Marylin Monroe, pega do chão um toco de cigarro fumado e risca com o carvão restante na ponta.


Deus salve a Rainha. Urina sobre o Cartaz.Escrevendo em inglês…com o jato fino e fraco interrompido por dor ardida, a todo o momento…Queen Save… Mameluco.
06.36 hora de Greenwich…pula de encontro ao solo, na mão cheia de ingressos devolvidos de espetáculos antigos fadados ao fracasso.

De manhã mais tarde… nos jornais criticas elogiando seu desempenho por doze anos com a fenomenal peça O Mameluco. Adaptada para a língua inglesa pelo não menos premiado Sir Herald Finn… ate que cai a tarde, a noite e Londres fica esfumaçada demais, ate para os gatos de feltro aguardando o sinal para ficar imóvel sobre o sofá descascado.

* Do livro “O Chalé” – Scortecci Editora – 2018.

Uma tarde com a Big-Big – Conto (marginal) de Fernando Canto

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Conto marginal de Fernando Canto

Porra, eu andava puto porque tinha sido demitido da TV que trabalhava porque em uma transmissão ao vivo a Big Big apareceu e pegou no meu pau e eu gritei de dor. Não teve jeito nem chora minha nega. Fui pra rua mesmo por justa causa, falta de ética, descompostura, atentado ao pudor… essas coisas. O féla da pôta do patrão não estava nem aí pros meus argumentos. Não convenci o fresco do judeu insensível. Ele sabia que eu era solteiro e não adiantaria mentir.

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Conheci a dita cuja da Big Big quando eu cobria o Pronto Socorro para um jornal impresso. Ela tinha sido atropelada pela sétima vez. E já estava aleijada. A droga que ela se apaixonou por mim desde que me viu fazendo a reportagem pra televisão, pois me achou bonito e queria que eu a fizesse famosa. Onde eu chegava ela achava um jeito de passar a mão em mim. Até dedada eu levei dela. Ridículo. Logo eu, porra, um jornalista considerado…

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Fudido do jeito que eu estava, com o troco do salário que me deram, pois não tive direito a nada, fui lá na beira-rio tomar uma cerveja. Pensei em almoçar no bar do Nego, mas resolvi só beber e resolvi misturar cachaça com cerveja. Comecei a ficar porre e queria fazer sexo. Não vi nenhuma garota de programa pra afogar o ganso, o Neymar, o Messi e minhas mágoas. Bebi, mas bebi pra caralho. Quando já estava chamando uma coluna do bar de meu bem vi a Big Big caminhando arrastando a perna. Pensei, na minha visão meio truvisca, que ela dançava Marabaixo. Que nada! Ela dançava um reagge e estava linda com sua pele morena.

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Paguei a conta e ainda deixei dez por cento pro garçom Raimundo, que costumava me roubar nas contas quando eu estava por cima da carne do churrasco.

Chamei a linda Big Big e lhe disse sem pudor: – Pega à vontade no meu pau, amor.

Ela ficou me olhaaaando! Não disse nada.71759_461427497243620_567377479_n1

De repente eu caí em mim e vi a Matilde Joaquina com o câmera da emissora que eu trabalhava me filmando, só pra fazer o mal, pois ela havia ocupado meu antigo posto de trabalho. Porra, todo mundo ia saber que eu tinha quase um caso com a Big Big. Quase um caralho. Agora teriam certeza.

Pedi mais um copo cheio de cachaça pro garçom ladrão e segui desolado02253686300-217x300 até as muralhas da Fortaleza de São José de Macapá. Na realidade eu fui me lamentar naqueles muros. Chorei muito. Minhas lágrimas quase amolecerem as pedras da edificação secular.

O dia se punha no oposto do rio Amazonas. E os caminhantes habituais do parque do forte olhavam para mim, me reconheciam e riam. “Drogado”, diziam, “eu até que admirava teu trabalho”. “Safado”… Assim me chamavam.

oloucoFui cambaleando e encontrei um amigo artista plástico literalmente caído na sargeta. Tentei levantá-lo a todo custo, mas não conseguia . Até que senti uns braços fortes me ajudarem. Era a gostosa Big Big que pôs o pintor num lado do ombro e pediu com gestos que eu fizesse o mesmo com o meu. Levamos nosso amigo de cachaça até a prainha que fica entre aquelas falésias da Fortaleza e bebemos o resto da granada de duelo que ele tinha no bolso, e mais duas que ela guardava na calcinha, a gitinha logo. Cantamos e rimos até a lua surgir mais porruda que em qualquer outro lugar, como disse o poeta.

Acordamos com a maré enchendo suavemente, marulhando na areia.

A bacana companheira por fim falou e me revelou que a jornalista que me substituiu pagou a ela pra pegar no meu pau naquela reportagem que fiz ao vivo.

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Nessa altura do campeonato nem esquentei mais. Eu perdoei a Big Big porque ela precisava de dinheiro pra beber e pra dar pros caras dela. Agora, lúcidos que nem uns filhos de uma égua, estamos arquitetando um plano pra invadir o estúdio da TV ao vivo e pegar na buceta daquela jornalista desgraçada. Eu, meu amigo pintor e a minha noiva Big Big. Ora, Ora. Marrapá! Vamos sair na mídia nacional. Ihiihihihihihihih!

*Quando recebi este conto (ao qual gostei bastante), disse para o Fernando: os politicamente corretos cairão de pau na gente por causa deste escrito”. Canto, que é sábio e irreverente, disparou: “os bêbados e loucos fazem parte na nossa paisagem cotidiana da cidade”. É isso aí!

PORCA – Conto de Fernando Canto

Conto de Fernando Canto

Eu insistia com ela todas as noites de lua cheia.

– Para com essa história de se transformar em porca, mulher. Não aguento mais esse cheiro de lama.

Era um segredo nosso que tive de aceitar por pura dependência financeira, desde que nos casamos. Mas ela não parava. Queria porque queria parecer melhor que a Velha Xambica, do sítio do seu Ladislau, vizinho ao nosso, que tinha o mesmo fado dela e se transfigurava em Matinta. As duas concorriam para ver quem assustava mais as pessoas desprevenidas nas noites enluaradas da minha cidadezinha.

Um dia eu estava num couro doido, numa pindaíba roxíssima. Era meu aniversário e eu vivia sempre cobrado pelos meus amigos do boteco da Waldirene Boca de Tambor.

– Quando é o churrasco, porra? Perguntavam o tempo todo, me pressionando pra valer.

Eu dizia que ia depender da indenização que estava para receber do frigorífico que fui botado injustamente pra fora, sem justa causa. O processo estava tramitando há tempos, sempre acompanhado de perto pelo iminente causídico Dr. Robário Paladino, que me garantiu o recebimento para logo, antes do fim do mês.

Na véspera do aniversário eu não aguentei mais o fedor da minha galega. Ela havia voltado de um Passeio de Assustamento da lua cheia e estava no quintal grunhindo e chafurdando na lama do chiqueiro, antes de voltar a ser mulher. Ela dizia sempre que a transformação era um processo doloroso, mas que tinha prazer em fazer sempre, pois se achava renovada toda vez que isso acontecia.

Ela estava lá. Tinha acabado de chegar. Eu fiquei pensando, pensando, pensando… peguei a peixeira e a enterrei no pescoço dela por trás. A porca revirou os olhos e o sangue esguichou com tanta força que me sujou todo. Estrebuchou e deu três longos e desesperados grunhidos. Enrolei a boca e o focinho com uma corda até ela parar de se debater. Depois coloquei o corpo em um camburão de água fervente para raspar os pelos, e, como bom açougueiro, comecei a preparar o corpo do animal para fazer um belo churrasco. Os raios do dia chegaram com uma intensidade que me feriu os olhos.

Fui ao boteco da Waldirene Boca de Tambor e convidei a rapaziada malandra pro churrasco. E ainda dizia, brincando:

– Levem um presente, seus vadios. Cheguem perto do meio-dia pra me ajudarem a assar.

Cada um se servia como podia. Eu havia trocado os miúdos da porca por cachaça e farinha com a Wal. Todo mundo se refestelou e ficou de bucho cheio. Tomaram cachaça à beça, arranjaram uns tambores e o batuque correu o dia todo. Quem chegava pro churrasco também trazia uma bebida. Mas eu não tive coragem de comer nenhum pedaço de carne, talvez em respeito à minha falecida mulher.

Já era quase meia noite e todo mundo já estava “calibrado”, tomando cachaça e dançando uns sambas de cacete. Ninguém notou a ausência da minha galeguinha, só o Ambrósio, saliente que só ele. E eu lhe disse que ela tinha ido à casa da mãe doente lá em Mazagão.

A lua rompeu uma nuvem escura e iluminou mais ainda o terreiro da festa. E o batuque ensurdecia e ecoava em toda a área.

Mas tudo parou de repente quando uma mulher idosa com bico de pássaro surgiu perto da mata onde ficava o chiqueiro da minha esposa.

– Quero tabaco, ela dizia. Quero tabaco pra levar pra minha comadre.

Os convidados se entreolharam e o medo tomou conta de todos. Atônitos viram seus ventres se mexerem involuntariamente e em todos eles uma voz dizia:

– Onde está minha costela? Cadê minhas coxas? Quede meu peito?

A lua parecia descer do céu de tão grande, naquele momento de desespero dos convidados. E todos eles saíram correndo para o mato se transformando a cada passo em caititus, porcos-do-mato, queixadas e javalis.

A velha Matinta me olhou de soslaio, cuspiu pelo bico de pássaro um cuspo negro de quem masca tabaco. Eu caí de costas no chão e tive que sustentar com os braços até de manhã a lua quase cheia que parecia ter caído em cima de mim.

RIONDA (conto de Ronaldo Rodrigues)

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Rionda era terrível. Sempre mastigava os chicletes antes que eu terminasse de comer doce de banana.

Rionda era curvilínea, retilínea, mas deixava ver em sua chapa de raio-x um certo acréscimo de carnes em seus glúteos, futuramente.

Rionda era a única que sabia o enigma. Saqueava o cemitério em busca de esmeraldas e só ela tinha o poder de perscrutar em cada olho caído nas covas uma faísca de vida:

– Venham para fora, irmãos!

Rionda não queria que o mundo acabasse na próxima esquina. Ela esperava que a vida fosse forte e tênue e guerreira e diáfana. E que coubesse num suspiro.

Ronaldo Rodrigues

MAMA GUGA – Conto de Fernando Canto que deu nome ao livro (republicado por conta dos 55 anos do GOLPE MILITAR)

Desde sua primeira prisão por contrabando, meu pai estampava na cara que era um bandido, um contraventor, um fora da lei que ameaçava a economia da região por não pagar impostos. Era convicto dessas coisas, até cínico. Propinava gente grande da Alfândega e fiscais estaduais dissimulados. Para ele, tudo era normal numa época de carestia e desencanto. Ele sabia dos perigos que o rondavam e que a qualquer momento poderiam enquadrá-lo por outros crimes. Por muito tempo fora um ajudante de importadores de mercadorias com uma impetuosa vontade de vencer na vida. Queria dar algo melhor para a família de quatro filhos que moravam com os avós em uma casa na Cidade Velha, em Belém, assim que enviuvou ainda jovem.

Depois que aprendeu a rota marítima e um pouco de patois para se comunicar e comercializar com os contatos de Paramaribo e Caiena, produziu sua independência e se tornou patrão, mesmo à revelia da vontade do seu antigo chefe. Viajou muito. Chegou a ir até a Venezuela comprar objetos de cozinha feitos de prata da Bolívia para revender aos comerciantes de varejo na Cidade das Mangueiras e em São Luís do Maranhão. Trazia famosos perfumes franceses, cortes finos de cetim e seda do oriente, que vendia para uma seleta freguesia de fazendeiros do Marajó e para clientes do society que ainda se julgavam aristocratas. Fazia tudo de uma forma meio escamoteada na loja que montou para o meu avô Salim. Meu avô era um libanês corcunda, um sábio, um conhecedor profundo das coisas do Cosmo Infindo, iniciado há tempos em uma Ordem Mística do Oriente, onde também iniciou meu pai.

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Nossa família foi ficando rica, mas muito visada pela polícia. Meu pai sabia disso e contornava as investigações com boas “gratificações” a policiais corruptos. Não demorou muito ele comprou outra embarcação com um sonar moderno que permitia viajar à noite com maior segurança pela costa, inclusive no tempo das pororocas mais fortes que rebentavam no litoral próximo à boca do rio Araguari, no oceano.

Os federais eram mais bandidos que os próprios bandidos. Espalharam que queriam pegar o terceiro chefão na linha direta do tráfico de mercadorias e não perdoavam quem ao menos ousasse imaginar que estavam torturando pessoas em busca de informações mais precisas. Tudo valia naquele tempo de ditadura militar. Não havia grupos de direitos humanos, e, mesmo se houvesse, ninguém jamais pensaria que essas práticas medievais ainda ocorressem por aqui.

O barco do velho certa vez foi metralhado por um bando de piratas que agiam próximo ao Cabo Orange, quando vinha de Paramaribo com um carregamento de uísque, vinho e máquinas de costura. Morreram quatro tripulantes, e dois deles se jogaram feridos ao mar. Meu pai nunca usou arma e viu, baleado, levarem a carga toda.

Não se sabe bem o porquê, mas deixaram com ele uma negrinha guianesa depois de a terem usado como escrava nas suas rotas criminosas pelo Caribe. Tempos depois, ele viria a se apaixonar, pois com muita paciência e carinho ela conseguiu curá-lo dos ferimentos de bala que o deixaram para sempre com o braço torto. Três dias depois do assalto, uma vigilenga os recolheu bastante debilitados e os conduziu até a cidade de Vigia.

Já recuperado, levou a mulher para casa, em Belém. E por ser viúvo todos aceitaram a estrangeira, mas havia um certo preconceito entre os membros da família, algo velado, que se dissipava com a autoridade do velho. Mais tarde, ele conseguiu financiamento com os chefes do contrabando, comprou um novo barco, juntou tripulação e voltou à ativa.

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Mama Guga parecia rejuvenescer com a viagem. Virou taifeira da embarcação e principal ajudante do meu pai nas operações comerciais com os habitantes das guianas. Falava bem o patois crioulo e o tak taki das fronteiras do território francês e de Suriname. Passavam longe da então Guiana Inglesa, pois lá as lutas pela independência da Inglaterra fizeram o comércio internacional ser impraticável. Muitos grupos de guerrilheiros almejavam o poder e se dividiam em ideologias, estratégias e objetivos, e se matavam uns aos outros. A nova embarcação, agora com o nome de Mama Guga, uma homenagem óbvia, singrava o Atlântico, as Antilhas e o mar do Caribe. Meu pai era só felicidade com a nova mulher. Ele a levava para dançar beguine no hotel Montabô, em Caiena, e bebiam os melhores conhaques franceses.

Certa noite, ela pulou do camarote como saindo de um pesadelo. Chamou meu pai, e se armaram. Estavam fundeados no Porto de Sucre, próximo de Caiena, esperando um carregamento de vinho para o dia seguinte, quando partiriam para o Brasil. Aguardaram e viram os vultos de quatro ratos d’água subirem pelo convés, armados de revólveres e facões. Vinham sorrateiros, com propósito assassino, pois para roubarem as mercadorias tinham que matar os tripulantes e fugir com a embarcação. Havia só a luz de um farolete a querosene a iluminar minimamente a área da proa, onde o marinheiro Zé Raimundo tirava o seu plantão. Iam surpreendê-lo quando Mama Guga acertou com um tiro no pescoço o negro magrinho que parecia liderar o grupo.

Zé Raimundo pulou para o lado e cortou em duas partes a cabeça do outro bandido com seu terçado afiado, enquanto meu pai disparava mais dois tiros para liquidar os outros ratos. Seguiu-se um silêncio… Esconderam os quatro cadáveres no porão e lavaram o sangue do convés. Ao carregarem a carga de vinho, já no dia seguinte, ainda foram cumprimentados pelos tripulantes de outros barcos que ouviram os tiros e calcularam o que ocorrera. Depois jogaram os corpos dos bandidos no mar e navegaram até Belém, não sem antes se esconderem das patrulhas das marinhas francesa e brasileira em pelo menos duas áreas de fiscalização, na foz do Oiapoque e no cabo Norte.

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Meu avô sabia que as viagens estavam ficando cada vez mais perigosas. Chamou meu pai e o avisou. Não era só a marinha e a polícia paraense que ficavam no pé do velho. Surgiam boatos que a polícia federal estava atenta a tudo e que faria operações na costa do Amapá até a fronteira com a Guiana Francesa. Para tanto, já estava equipada com barcos rápidos e radares poderosos. Era imperiosa a fiscalização das 200 milhas marítimas decretada pelos militares, e até corvetas da Marinha de Guerra transitavam na região. Não estavam ali só para prender contrabandistas ou pescadores internacionais nas nossas águas. Algo acontecia, além disso. Meu pai precisava pagar o empréstimo aos seus chefes patrocinadores e tinha que viajar mais vezes. Seu lucro era grande, mas os juros eram muito altos. O perigo era maior ainda.

Esse quadro todo era previsto pelo meu avô Salim. Platonista atento que era às vicissitudes dos seus parentes mais próximos, repetia sempre a máxima do seu mestre: “assim como em cima é embaixo”. E enfatizava que há tempo para semear, tempo para plantar e tempo para colher. Meu pai estava no tempo de colher, ele dizia. Desde a morte de minha mãe, ele esquecera o sentido da reflexão, da meditação, como técnica a ser utilizada em tudo o que desejamos ou temos obrigação de realizar. Perdera a sabedoria e ganhara a esperteza ao meio da ganância e das práticas ilegais e resolvera agir, assim, pelo livre arbítrio, fora da Lei Cósmica. Meu pai estava involuindo da sua divindade, de sua essência. Sabia disso e não ligava. Meu avô pronunciava palavras ao vento…

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— Você está nesse mundo pra viver! – disse o chefe dos federais. Colabora, porra!
— Se tu não falar por bem tu vai pegar muita porrada lá no “Purgatório”! – dizia rindo sarcasticamente o policial, referindo-se a uma tenebrosa câmara de tortura existente nos porões do prédio colonial que abrigava a delegacia.
— Diz logo, porra. Onde é que tá a Mama Guga, aquela salope duma figa? Cadê os terroristas assaltantes de banco? Hem, caralho. Onde vocês deixaram eles.

Meu pai, literalmente de mãos atadas pelas algemas, levantou a cabeça, pediu água. O policial, num gesto rápido, pôs-lhe o cigarro na boca e acendeu um isqueiro de aço, daqueles que têm uma chama alta e são acesos com faíscas de pedra no chumaço molhado de querosene.

— Diz logo, caralho! – e foi levantando devagar o queixo do velho, lhe queimando a barba, e ele pulou para trás urrando de dor e se estatelou sobre a cadeira que caíra com ele.
— Fala logo, turco filho da puta! – gritou outro policial, chutando-lhe a cara sem piedade. – Fala, “Braço de Eletrola”! – gritou o policial se referindo ao defeito no braço do velho, e continuou: Onde escondeste os filhos da puta dos comunistas? Cadê a negra?
— Eu não sou turco, sou libanês… – balbuciava meu pai, sangrando pelos buracos da cabeça.
— Mas tu és bandido, seu contrabandista de uma figa. Onde é que está a Mama, seu macoumê da Guiana?

“Turco não, libanês…”

Aplicaram-lhe tantos golpes covardes que ele desfaleceu.

Acordou amarrado do mesmo jeito. Da testa e do nariz escorria um sangue escuro, quase coagulado. Perguntaram de novo pela Mama Guga. Ele disse:

— Eu vou dizer, mas ela vai rogar uma praga pra vocês que vão ficar vinte anos babando saliva com vontade de consumir o que não podem, seus otários. Eu sou bandido, sim. Sou contrabandista, mas não sou como vocês que acreditam nessa tal revolução de merda. Sai um ladrão do poder, entram centenas. Essa é a regra desde o início dos tempos.

Depois de apanhar mais e de “dar o serviço”, meu pai dizia que só se lembrava das coisas depois de ter sido encontrado por um barco transportador de açaí perto do Ver-o-Peso. Não fosse sua prática de marinheiro-embarcadiço na juventude, jamais teria sobrevivido àquela condição extrema de tortura em que lhe deixaram os policiais, após o terem depositado n’água, na madrugada. Nunca havia posto um cigarro na boca e tinha uma força imensa.

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Anos depois, já com a decretação da Lei da Anistia, meu pai saiu pela primeira vez de casa para tomar sol e andar pelo Porto do Sal à procura de notícias de Mama Guga, pois até então a polícia não deixava de vigiá-lo em sua porta. Inquiriu seus antigos camaradas, marinheiros e ex-tripulantes durante meses, do Porto da Palha ao Ver-o-Peso. Um dia, encontrou com o seu velho amigo Zé Raimundo e descobriu onde sua amada estava. Vibrou de alegria. Ele sabia que ela vivia, mas não podia vir até ele. E nem ele até ela.

Na sua última viagem, foi obrigado pelos chefes do contrabando a levar como passageiros cinco terroristas que fugiram do presídio São José, após terem sido presos por assalto à mão armada em um banco estatal, em Belém. Era o pagamento final de sua dívida. Era pegar ou largar. E ainda tinha um pagamento em ouro a ser acertado no final da viagem. Essa promessa o fez investir num plano ousado. Alugou um pequeno barco de pesca e o mandou na frente com alguns tripulantes e os esquerdistas barbudos, sob o comando de Mama Guga. Viajariam apenas à noite, bem próximo à costa. Uma semana depois, meu pai zarpou de Vigia para as águas do Atlântico rumo à Caiena.

No canal do Maracá, foi avistado por uma corveta da Marinha. Prenderam o barco e a tripulação, mas só ele foi torturado até relatar o plano de viagem.

Ele sabia que sua amada Mama Guga havia deixado os comunistas no Porto de Sucre com êxito, portanto nada mais devia aos mafiosos chefes do contrabando – a essa altura todos mortos. E ela não era mais considerada persona non grata no Brasil.

A sortida loja de tecidos do meu avô se transformou em um ponto comercial alugado. Vivíamos de renda e do salário dos meus irmãos mais velhos. Mas eu fui o escolhido para procurar e trazer Mama Guga até ele. Protestei de início e argumentei que era muito franzino para enfrentar uma aventura e nunca tinha viajado de embarcação, ainda mais pelo mar, inclusive era conhecido no bairro por “filé de Borboleta”. Porém, não convenci o velho. Fui convencido, porque “arranhava” um pouco de francês. Então parti pelo mar.

Na cidade de Oiapoque, me informaram que Mama Guga tinha um pequeno comércio na vila de Tampac, abaixo de Saint-Georges, no rio Oiapoque, uma comunidade habitada por descendentes de africanos chamados saramacás. Aluguei uma catraia e fui até lá. O catraieiro que me serviria de intérprete.

O chefe da vila, conhecido por Capitão Gody, me recebeu com um grande sorriso, como se eu fosse esperado há tempos, e apertou minha mão com força. Ele falava um português tão correto que eu nem precisei mais do intérprete. Sabia que eu procurava Mama Guga e que era enteado dela. Foi um recebimento protocolar. Pediu aos membros de sua corte que dançassem o cacicó em minha homenagem, e eles dançaram e cantaram ao som dos tambores o “Mô kalê lá / Mô kalê lá”, entre goles do tafiá Damme Jeanne, uma cachaça de garrafão feita de milho, típica da Guiana. Ofereceu-me um cálice do genuíno vinho francês Quinquina du Prince e me contou que Mama Guga tivera uma vida trágica. Seus pais foram assassinados, e ela, raptada ainda adolescente por um garimpeiro nas cabeceiras do rio Maropi. Depois foi vendida como escrava a um barco de piratas. Tinha o dom dos xamãs e teria explodido com a força do pensamento os escrotos de um pirata quando ele tentou estuprá-la. Tiveram medo de matá-la e a jogaram no peito do meu pai ferido por tiros, quando roubaram seu barco e a carga.

A notícia que ele me daria em seguida seria mais surpreendente. Ela morrera há três dias. Tinha vivido por anos na vila, onde fora bem recebida porque seus pais eram saramacás. Mas ela sofria de melancolia, com saudade do seu amor do Brasil, o único homem que a valorizara em toda a sua vida, costumava dizer.

Eu nada perguntava ao Capitão Gody. Ele mandou parar o cacicó e me levou a um lugar afastado, sempre com o séquito atrás dele. O ar era perfumado por um cheiro estranho. Havia uma cabana coberta no quintal à beira do rio. O cadáver de Mama Guga jazia sobre um assoalho de paus. Ele disse solenemente:

— Meu filho, quando morre um membro da nossa tribo, construímos um girau da palmeira jussara para colocar o corpo do morto. Embaixo do corpo, pomos uma gamela de madeira bem calafetada do tamanho do corpo e ateamos fogo ao redor. Do cadáver vai escorrendo o suco que era sua vida. Depois que ele fica bem seco, fazemos o enterramento e dançamos ao seu redor, esfregando aquele suco em nossos corpos. Isso nos dá mais vida e melhor bem-estar. Nós herdamos esse costume dos nossos ancestrais africanos – completou o chefe Gody.

Eu assisti ao ritual e me besuntei do óleo de minha madrasta. O Capitão Gody me presenteou com um belo artesanato de madeira feito a canivete e me entregou dois quilos de ouro em pó que Mama Guga havia deixado para o meu pai. Ela tinha certeza de que alguém viria vê-la nem que já fosse morta. O chefe era um homem justo e foi o guardião da fortuna até entregar o que agora pertencia a meu velho. Voltei com medo, mas me senti protegido, porque, além do ouro, trazia um frasco com um pouco de suco de Mama Guga para dar nas mãos dele.

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Quando cheguei a Belém, reuni a família, contei minha aventura floreando detalhes e entreguei a meu pai seus pertences. Depois, ficamos apenas ele, o pai dele, eu e meus irmãos homens na sala. Meu avô me disse compassadamente que meu pai voltara ao misticismo depois de perder tudo e ser torturado pelos policiais da ditadura.

Tinha estudado muito e já meditava e experimentava em laboratório caseiro os símbolos alquímicos, os quatro elementos da natureza, os sete metais, o opus alquímico e suas operações, a busca da Prima-Matéria e outros conteúdos dessa arte e ciência milenar, cujos segredos ainda eram guardados pelos Rosa Cruzes. Nesse momento, ele purgava suas falhas com o Cósmico no seu processo evolutivo, pois havia sucumbido diante da ambição e da ganância, que o tiraram do eixo da harmonia com o Universo.

Enquanto o meu avô explicava, meu pai ajoelhou-se em nossa frente, invocou palavras desconhecidas para nós, seus filhos. Besuntou-se do suco de Mama Guga e salpicou sobre sua cabeça uma pequena quantidade de ouro em pó.

O rosto dele iluminou-se de felicidade quando um fogo fez seu corpo entrar em combustão e o ouro transmutar-se em uma diáfana camada de névoa amarelada. Tentamos correr para salvá-lo, chorando em desespero, mas meu avô nos impediu.

— É só uma ilusão, meus filhos… – disse o velho avô.

Sim, seria uma ilusão, não fosse o fato de Mama Guga estar presente todos os dias em nossas vidas dançando beguine com meu pai, ali na nossa sala. Meu avô Salim fica sentado na poltrona, coça a barba branca e abre um sorriso enfatuado por ter realizado seu trabalho redentor em nossa família.

Eu, Fernando Bedran ( primeiro à esquerda, que inspirou este conto sensacional) e Fernando Canto (o maior escritor vivo do Amapá).

Meu comentário: este genial conto de Fernando Canto foi escrito por conta de várias histórias do amigo Fernando Bedran (tenho a honra de ser amigo dos dois fernandos), que nas mesas de bar. Claro que o autor, além de contextualizar, escreveu o conto com carradas de realismo fantástico e brilhantismo, da mente genial de Fernando Canto. Aí deu nesse escrito sensacional. Porreta!

Meu Tataravô – Conto de Luiz Jorge Ferreira

Conto de Luiz Jorge Ferreira

Meu tataravô namorou e casou com uma moça bem mais nova, honesta e trabalhadora que ele conheceu um dia em uma Tertúlia usando um vestido de tule azul, bonita e doce, viveu com ele até que a vida de ambos se fosse , juntos tiveram muitos filhos. Ele tinha uma tara enorme por tomarem banhos juntos, mas nunca tomaram.

O filho dele, meu bisavô, que em toda a sua vida nunca desmamou, criou dois cachorros … Baleia e Rex. Andava este casal de cães sempre juntos, caçando, correndo ou estragando a horta, latiam à noite para a lua cheia, e nunca tentaram fazer sexo entre si, por falta de paixão,diferença de tamanho, ou qualquer outra pulga.

Meu bisavô casou um dia depois do feriado de finados, alinhavou seu terno com fio de linha de outra cor, juntou os trocados que guardara em um cofre de barro. e com eles comprou duas garrafas de vinho, bebeu todo o vinho e com as garrafas vazias, matou os cães.

Minha avó nasceu dia três de três de mil novecentos e três, as três e três, de um parto difícil em que as parteiras, apenas três, se revezaram em crise de empurrões e empurramentos para faze-la nascer, depois recolheram a placenta fosforescente e brilhante e com ela fizeram um luminosos barbante que até hoje esta esticado entre a cozinha e o banheiro no fundo do quintal, e a noite serve de guia para este trajeto entre a casa e os sanitários.

Casou virgem com um rapaz do Leste comprador de garrafas, no meio das quais ambos foram encontrados pelo seu pai, copulando em paz.

Das tias que eu tive a mais querida foi Caetana, que morreu ainda muito moça, vitima da mistura de cremes e poções com as quais pretendia manter-se eternamente jovem.

Já tia Benedita deu a maior sorte, sua morte foi devida a grande onda de frio que varreu o Pará em 1934, dois anos antes de ela nascer, mesmo assim comprou ações da Panair, e foi Diretora do colégio onde Jânio, iniciou a plagiar o dicionário de Buarque de Holanda.

Mamãe foi batizada e ainda de fraldas semidescartáveis foi lecionar em Sapé. Lá tio Edir e seu irmão Elzimar foram presos em Cabo Branco por ensinarem os tubarões e os saltimbancos, a pescar Arenque.

Não tiveram muita sorte, engolidos por uma Baleia foram encontrados pelos esquimós no Pólo Norte, e hoje são totens.

Eu os reconheci, por que os vi, em uma foto na mão de uma turista Argentina, moradora no bairro do Jurunas em Belém do Pará. De nome Mirassol Catalina. Era o ano de mil novecentos e sessenta e seis. Dai batizarem o anfíbio avião da FAB, de Catalina em sua homenagem, depois do passional crime,cometido contra ela, por um sargento que a amava. Que fugiu a nado para Cotijuba não chegou a ser preso e isso ficou por isso.

Muita gente nasceu na minha família e nem foram tantos, eu nasci um pouco adiante, quando Maluf asfaltou a Galiléia. Muita gente nasceu e não foram tantos, e não tão poucos e não tão importantes. Como o Homem Elefante e Elisabeth Taylor. Ainda, primos distantes, recordo…Herodes e o Alferes Tiradentes. E da descendência das filhas do meu tataravô, e dos primos do avô, e dos sobrinhos de minhas tias, Pele e Garrincha.

De coisas famosas  realizadas pelos meus, guardo a letra de um hino composto por meu padrinho, para uma cidade descoberta por Cabral, duas ostras magrinhas que imitam castanholas, uma pizza que quando se corta a borda, toca musica andaluz, e seis secas azeitonas pretas. E eu, que sobrei para fazer este relatório.

Que leio agora para a reunião centenária da família Ferreira.

Relatório para parcos ouvintes, entretidos, cada um em passar geleia em seu meio naco de pão, e tomar seu meio cálice de Rum. Cada um , com uma metade na mão e a outra metade na boca.Sentados como em uma grande Ceia. Sisudos cenhos fechados de gorros e casacos de lã. Todos em silencio, ouvindo-me sapatear sobre a mesa, descalço, fimosado e nu.

* Do livro Antologia Paulista, de 2015, publicado pela Rumo Editorial.

CORNUCÓPIA DE DESEJOS – Conto muito porreta de Fernando Canto

Conto de Fernando Canto

Por querer expressar meu pensamento sobre as coisas em meu idioma, às vezes arrebato o próprio coração em sofridas angustiosidades e dissentimentos infaláveis. Por isso monologo no granito e lavo em água este contraste, esta antagonia de imprescindível falação que ponho em tua trompa de eustáquio para te martelar suavemente a dentro.

É o caso do amor ensolarado que sinto agora, neste mirífico momento. Um assunto ressoante, uma prosa-cornucópia (onde a abundância reina) a refratar-se sem a culpa do inexpressável parlar.

Não vejo como não ensopar-me de enluação neste conto de candura quase irrevelável, posto que o meu amor possa entender-me ou espumar-se para sempre para o inevitável espanto que a declaração enseja. Paresque um salto com vara numa olimpíada de abismos.

Assim eu declaro: a cobra norato, o boitatá e as luzes do fogo-fátuo se expiram na noite cadente. Oh, teus olhos não! Teus olhos ternuram a medida do dia, solfejam histórias e cantam paisagens inescrutáveis para os sonostortos dos mortais. Eu sou o arauto deste cenário-testamento a castigar retumbantemente o couro dos tambores; eu anuncio a sublime compreensão do “amooor” que ecoa em gargalhadas sobre as ondas do Amazonas, aqui na Beira-rio, sob um céu azul intensificado de lilás quando anoitece. Eu declaro ainda: a pedra em sua bruta forma tem dentro de si os elementos primordiais que suprem tua sede de amar. Ora, Balance a pedra e sinta o gutigúti da sua oferenda. Lapide-a, pois ela provém da terra, e então perceberá o calor do fogo da paixão libertadora e o ar morno que movimentará o sangue pelas entranhas.

Num átimo, um áugure qualquer (que são muitos e banais) lerá tua sorte: dirá augúrios, claro. Um áuspice (que estão cada vez mais raros) dirá tua sina no raro voo dos louva-deuses. E te auspiciará de boas-novas e de valores inequívocos.

Ora, dizendo isso afirmo que sou aquele que nem sabe discursar suas dores, inda que saiba do futuro, pois habito o limiar do tempo. Eu sou a timidez em prosa e verso, aluno de poesia, mas prenhe de pecados, porque ingiro virtudes nos bares da noite e não sei segredar projetos inexequíveis. Não sei, juro pueril e ludicamente (mas com toda a sinceridade de uma parlenda) pela fé da mucura, torno a jurar pela fé do guará, torno a repetir pela fé do jabuti, que não sei mentir ao sabor do vento dos ventiladores que me sopram fumaça de charutos cubanos.

Descobri que sei de ti mais do sabes da pedra em teu caminho. Sou teu (adi)vinho incontestável, ad-mirador de tua trajetória. Por isso do alto da minha velada arrogância sei que tu também me amas.

Mas é de ti que quero o conteúdo dessa bilha onde Ianejar – aquele heroi dos índios waiãpi – e seus pareceiros se abrigaram do fogo ardente e do dilúvio. É por ti que generalizo a farsa da criação sem pesadelos cosmogônicos. Eu me agonizo em mistérios. Eu eternizo o meu olhar nessa paixão. E me enleio como as borboletas que viajam ao paraíso pelo buraco sem-fundo do fim da terra.

Por isso eu sei que te amo.

Por isso vago ainda em fluidos imemoriais sempre presentes, antes do esquecimento das vitórias que juntos comemoramos.

Por isso a ternura há de ser o mais farto elemento da imensa cornucópia de desejos que realizamos juntos.

Teresa (em preto e branco) – Tãgaha Soares

 

 
E foi na batata da perna de Teresa que escrevi as minhas primeiras palavras na língua nativa. 

No princípio, ela até gostou, ficou lisonjeada quando lhe disse que eu estava escrevendo um livro nela. Depois, me recusava, porque eu só procurava seu corpo para escrever…
 
O livro já estava pelo sétimo capítulo quando ela me abandonou…
 
Sem ela, perdi o fio do novelo. Passava os dias catatônico diante de uma folha de papel em branco…
 
Experimentei escrever alguma coisa em mim mesmo, mas não era tão bom.
 
Então, fui procurar as putas…

O Dia em que eu chorei diante de uma tela de Antônio Bandeira – Conto de Fernando Canto

Conto de Fernando Canto

No dia em que eu chorei diante de uma tela de Antonio Bandeira, no Museu da Universidade, fiquei até com vergonha do púbico presente. Chorei, como dizem, copiosamente (Até hoje não sei porque falam isso, mas desconfio que é porque uma lágrima copia a outra). Que vergonha! Era apenas uma tela abstrata que explodia em cores, excelentemente pintada pelo famoso artista plástico cearense. Uma tela que falava de uma chuva de neve na Europa, onde ele viveu. Nela, o branco e o azul predominavam sobre os outros tons.

Chorei tanto que o curador da exposição me convidou para chorar no banheiro. Como eu recusei, ele mandou os seguranças me botarem para fora.

E lá fora eu continuei chorando no calor, vertendo um choro esquisito, um choro que jamais chorei em outra exposição. Não que eu me lembre. E olha que eu era chorão. Mas dessa vez eu estava mais sensível que todas, mais sensível do que naquela vez no Louvre quando inevitavelmente me derramei em prantos diante da mais bela e magnética tela que já vi em toda a minha vida: a Gioconda, de da Vinci.

Malditos! Sempre me botam pra fora das exposições de obras de pintores famosos.

Malditos! Não sabem que meu choro não é fingimento, pois eu não sou ator e muito menos produtor de pegadinhas para a televisão.

Malditos! Insensíveis! À flor da epiderme estão ouriçados pelos, e no peito bate um coração magoado e eles não sabem disso. Vão logo expulsando a gente e mandado olhar as pinturas de grafite, como se os pintores das ruas não soubessem pintar em sua linguagem pura e não acadêmica.

Bandeira é Bandeira, não o poeta, mas o pintor, este que eu só conhecia de ver catálogos impressos ou fotos repetidas em revistas de arte.

Antonio Bandeira não é o ator espanhol muito menos o dono do bar da esquina, mas o artista que me convida e me move a seguir seus quadros até chorar de paixão, pois nos seus traços eu nasço, vivo e morro na dimensão dos pigmentos e reentrâncias de cada pincelada decidida bruscamente. Ao olhar suas telas explodo minhas memórias e paixões de um tempo em que me encontrava entre o poder da escolha e o despoder de ficar ilhado em angústias. Um tempo de decisão de amar ou seguir, de me entregar ao insondável ou de viver. Contudo, meu sonho de viver era apenas uma paisagem tátil num horizonte tênue, enevoada pela ausência de razão com seu cromatismo cinza, que de repente encontrou na tela de Bandeira o dia nascente, a tarde e a noite iluminada. Por isso choro. E os curadores da exposição não deixam que eu me cure em nome da arte.

Malditos curadores!

Viagem de volta – Conto de Ronaldo Rodrigues

Conto de Ronaldo Rodrigues
Deixei um livro em cima da mesa e fui dar uma volta. Claro que ninguém roubaria um livro ali, naquele ambiente. Só se aparecesse a menina que roubava livros. Qual a minha surpresa quando retornei, ao constatar que o livro não estava lá! Olhei em torno, exercitando meu olhar sherloqueano, mas ninguém em volta parecia interessado em livros. E ninguém parecia capaz de roubar o que quer que fosse. Resolvi dar mais uma volta pelo navio. Esqueci de dizer que estava a bordo de um navio? Perdão. Às vezes esqueço de citar partes importantes de meus relatos. Alguns escritores são assim e, como sou assim, me sinto também escritor.
 
Na volta ao ponto em que deixei o livro, eis que o encontro em cima da mesa, como se nunca tivesse se ausentado. Fiquei mais intrigado ainda. Abri o livro e encontrei um bilhete com a seguinte mensagem:

“Não leve a mal, mas gostaria de concluir a leitura do seu livro, que achei muito interessante e me deixou surpreso ao descobrir alguém com o hábito da leitura, coisa bastante improvável em pessoas que costumam viajar neste navio. Deixe o livro em cima da mesa e vá passear, contemplar a paisagem do rio e da mata. Prometo devolver a cada vez que eu o emprestar”.
Foi o que fiz durante toda a viagem, cheguei a conhecer todos os recantos do navio e estender meu olhar por toda a bela paisagem. Minha curiosidade não foi suficiente para deixar o livro na mesa, me afastar um pouco e voltar subitamente para ver quem estava dividindo comigo o prazer das aventuras contidas no livro. Deixei o mistério tomar conta. Me pareceu que eu estaria quebrando um pacto se voltasse para flagrar meu companheiro de leitura.
Navegamos por três dias e os meus passeios pelo navio foram aumentando à medida que nos aproximávamos do porto de chegada. Queria que o leitor misterioso tivesse tempo de concluir a leitura. No último dia de viagem, achei o livro na mesa e novo bilhete: “Obrigado pelos momentos deliciosos que seu livro me proporcionou. Sem dúvida, tornou a viagem mais interessante. Que tal discutirmos o enredo do livro? Meu endereço na cidade em que aportaremos dentro de alguns minutos é…”.
 
Depois que aportamos, dei umas voltas pela cidade, tentando não pensar em nada daquilo. Mas não suportei o mistério e fui ao endereço indicado no bilhete. Conheci, enfim, a pessoa que pegava o livro emprestado. Era uma leitora, uma belíssima leitora. Nos conhecemos, discutimos a história do livro e de muitos outros livros e autores e temas e… Claro que nos envolvemos. E o mistério persiste até hoje.

Éter, Etéreo, Etecetera, Etc… (conto de Manoel do Vale)

Ponto no final da linha. O ônibus desliza preguiçoso de chegar.

Eu espero. Quieto.

O ônibus barulha. Resmunga das juntas. Faz fumaça. Tá velho.

Se fosse uma Maria Fumaça teria um charme todo de cinema aquela cena.

Mas é apenas um ônibus velho, suburbano, mais para um blues etílico no desenho sonoro daquela tarde (quieta) em que me sentei no ponto final para espera-lo chegar preguiçoso na sua tarefa de leva e trás de anos, a seguir o mesmo caminho, colhendo já a terceira geração dos moradores do bairro.

Ele e seu Afrânio, fiel motorista, que veste o uniforme impecavelmente azul, exibindo no braço a logomarca da empresa (como se fosse uma patente militar) e seu bom dia indelével, educado, e com um sorriso no rosto, apesar do salário e das dores nas juntas.

Os dois chegando ao fim da linha, cansados.

E eu espero. Quieto.

Afrânio estaciona o ônibus no final da estação, próximo à lanchonete. Desliga o motor e desce em direção ao banheiro.

Quando volta, trás um balde com água para dar ao ônibus, como se este fosse um bicho de estimação. Despois de despejar toda a água no carburador da máquina, Afrânio vai a lancho-te pedir seu sanduiche natural com um todinho. Não sem antes dar uns tapinhas na cara do companheiro de trabalho.

O ônibus não tem cobrador, seu Afrânio é quem recepciona os passageiros e recebe o dinheiro da passagem. Gosta do que faz. Dá pra ver no seu jeito de tratar os passageiros.

Os dois se parecem. Fuças da mesma fundição, liga da mesma carne.

E eu espero que eles descansem para iniciar minha viagem rumo ao centro da cidade.

Manoel do Vale

*Achei aqui