As que se chamam Flávia… – Conto porreta de Ronaldo Rodrigues sobre a chegada de outubro

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Conto de Ronaldo Rodrigues

– Outubro é muito perigoso!

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É preciso segui-la. Sinto isso logo que a vejo na livraria. Está folheando uma revista, sem muita atenção, fixando-se apenas nas fotografias. Parece estar ali com o mesmo propósito que eu, matando o tempo até voltar ao trabalho.

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– Outubro é muito, muito perigoso!

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Ficamos lado a lado, embora a mulher permaneça como se só ela existisse. Tenho a visão no livro que folheio sem qualquer interesse e a atenção totalmente voltada para a mulher. Ela fecha a revista decididamente, olha para o relógio e o percebe parado:

– Sabe as horas, moço? – Pergunta, altivamente.

– Nã… Não! Não… sei… – Gaguejo, respondendo.

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Quem sempre me dizia isso era o Capitão Nemo:

– Tenha muito cuidado, menino! Outubro é muito perigoso!

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Ela deixa a revista na estante e dirige-se à portaria. Confere a hora e acerta o relógio. Sai da livraria e eu continuo olhando aquela mulher, agora através do vidro da vitrine. Ou será que não existe vidro algum? Meu olhar é que fez a parede tornar-se transparente?

Pergunto o motivo do perigo de outubro e ele responde, depois de longo silêncio, os olhos em transe, na direção do mar:
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– É em outubro que começamos a enlouquecer! É em outubro que costumam surgir as sereias!

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Ela atravessa a rua. Saio da livraria, disposto a segui-la, e paro na esquina. Contemplo, então, o espetáculo da rua silenciar-se para a passagem daquela mulher. A paisagem urbana torna-se repentinamente quieta, mas com uma acelerada pulsação interior que começa no asfalto e termina/continua no meu peito.

Ela entra num edifício e eu continuo seguindo seus passos. Ainda não me percebeu e acho que isso não acontecerá nunca. Ela aguarda a chegada do elevador junto a mais três pessoas. Incorporo-me ao grupo e passo a esperar também.

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Todos dizem que não devo dar atenção às palavras do Capitão Nemo. Dizem ser louco tanto o Capitão Nemo quanto quem o escuta. Mas eu digo que não. É preciso buscar o sentido das palavras, principalmente das que nos parecem mais delirantes.

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O elevador chega, nos recolhe e inicia sua lenta subida. As pessoas vão ficando em seus respectivos andares até restar apenas eu e a mulher. Como música de fundo, meus batimentos cardíacos ecoam nas paredes do elevador confundindo-se com a palavra outubro.

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Outubro. Agora compreendo claramente seu perigo. O Capitão Nemo ficou aprisionado em sua louca lucidez, nos destroços do seu navio, enfeitiçado por uma sereia. Eu estou preso neste elevador atraído por uma sereia. Aqui ficarei para sempre, aguardando todos os dias aquela mulher maravilhosamente perturbadora cujo nome conheço apenas a letra inicial (F), que vi uma vez em que ela abriu rapidamente a agenda.
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Todos os dias, quando ela sai do elevador, ainda sem notar minha presença, recordo as palavras do Capitão Nemo, que todos acreditavam serem palavras de um louco:

– É preciso ter muito cuidado com as sereias de outubro. Elas são cruéis e nos enfeitiçam com desejos intocáveis. Principalmente, meu filho, as que se chamam Flávia…

* Este conto foi publicado em 1995, na coletânea Novos Contistas da Amazônia, em Belém, resultado de um concurso promovido pela Universidade Federal do Pará. Tempos depois, o conto inspirou a HQ Outubro, do cartunista Paulo Emmanuel, premiada em dois salões de humor. Isso mostra o quanto este conto é quente.

Macapá já se anunciava para mim, pois o livro trazia contistas que só fui descobrir aqui, como Archibaldo Antunes e Ray Cunha, e apresentação do grande Fernando Canto.
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Gosto muito deste texto, creio que seja um ponto alto da minha carreira de contista, que ofereço agora como homenagem, digamos assim, ao mês de outubro.

Ronaldo Rodrigues

O Quadro – Conto de Luiz Jorge Ferreira

 

Conto de Luiz Jorge Ferreira

De Lisboa a Londres fui andando.

A nado fui de Belém a Macapá. Voando fui de João Pessoa a Quixadá. Hoje neste apartamento pequeno em que as paredes, pintadas de roxo, têm muitas manchas amarelas provocadas pela umidade Amazônica. É que sei que o tempo passou, enquanto eu calçava e descalçava os sapatos surrados. Manchou-me também.

Hoje corro descalço, olhando de suas janelas que dão para a Av Ernestino Borges, as da frente. A da cozinha, abrem-se para a Rua Iolanda Marcucy. A do banheiro, dela se vê a Rua 14 de Março, e a da cozinha tem a paisagem da rua Cel Lisboa, com o telhado descorado da casa do Braz.

Estou em meus oitenta anos. A cabeça já funciona aos solavancos e os cabelos, estão úmidos, produto desta fina garoa, que teimosamente chove sobre mim. Ela me abriga a usar permanentemente um guarda chuva aberto, mesmo dentro do apartamento.

Caminho devagar, entre os dias e as noites. São seis aparelhos de televisão ligados, cada um em um canal. Oito rádios sintonizados nas oito maiores capitais do mundo que enchem a casa de um barulho estéril de Mandarim, Russo, Árabe, Japonês, Hebreu, Grego, Inglês e Italiano. Tenho dois sois, um amarelo e outro castanho, que se reflete em um jogo de espelhos, que dependurei entre a cômoda e a estante cheia de bíblias sempre movimentadas as suas paginas por um amontoado de ventiladores, que mantem a temperatura da sala quase meio grau abaixo de zero.

Caminho devagar entre as esculturas Maias e Incas que coabitam comigo na sala, entre cabeças empalhadas de orangotangos e chimpanzés. Por isso perco com facilidade meus chinelos. E quando vou pé ante pé para o local em que guardo meus discos e os ponho na vitrola em trinta e oito rotações por minutos rangem as tabuas do assoalho.

Fazem dueto com os estalos de minhas articulações, quase enferrujadas. Ouço Mario Lanza em um dueto estranho com minhas próprias barulheiras. Abro as janelas muitas vezes e o ar de fora bate na minha própria umidade e volta criando um pequeno ciclone que apelidei de “Equadorzinho”.

Um dia lendo uma das dezenove Enciclopédias e fazendo cálculos com uma régua fisiogeográfica percebi que os trópicos de Câncer e Capricórnio cruzam-se aqui, talvez por isso, este prurido que me castiga determinados dias do mês, e que me fez ficar amigo de uns pelicanos, que também se coçam.

Eles pousam na janela, aquela que abre para a Avenida Ernestino Borges, em alguns dias do mês. Comecei a morar aqui quando fiquei viúvo. Ela morreu e deixou um enorme vazio que preenchi com garrafas de Rum e desenhei sua silhueta.

Para formar o par de peitos foram necessárias mais de cinqüenta garrafas. Era uma mulher abastada que deu-me dezoito filhos e pretendia dar-me mais se não se houvesse tocado fogo lixando tanto as unhas. Quando fiquei só pretendia mudar-me o mais cedo possível, mas a amizade com as águas vivas do lago do Ibirapuera e a admiração pelas borboletas do Pacoval foram prolongando minha estadia.

Hoje sou parte deste Quadro. E olhando a pintura de um quadro feito por Salvador Dali, dependurado no vão entre a porta do nosso quarto e o inicio da escada que nunca subi, nem sei aonde vai dar. É que percebo que envelheci.

Não tenho mais vontade para trocar de roupa e agora me cubro, com pelos espessos e longos cabelos, que pouco molho, mas estão sempre úmidos.

Como muito pouco e durmo quase nada. Quando a saudade aperta abraço-me a imagem dela feita de garrafas e assim fico por um tempo.

O que tem me cortado demais o peito e o púbis. Mas eu não ligo. O que me incomoda são os filhos. Estes que estão empalhados pelo corredor entre as cabeças empalhadas de Orangotangos e Chimpanzés.

Amanha irei para Osasco aonde enterrarei o Quadro.

* Do livro de Contos Antena de Arame – Rumo Editorial II Edição – São Paulo – 2017.

Oníria – Conto de Luiz Jorge Ferreira

Conto de Luiz Jorge Ferreira

Eu encontrei com ela descendo a rua em direção ao Campo dos Escoteiros. Vinha lá do fim do bairro do Laguinho, de saia preta, tranças no cabelo, boca levemente pintada, um cheiro de perfume patchuli, não me lembro se descalça. Caminhava indolente. Passou por mim e seguiu. Eu a olhei disfarçadamente.

Depois troquei de mão a sacola cheia de goiabas que levava para casa e atravessei para o outro lado da rua, seguido de perto pelas formigas. Subi as escadas e vi minha mãe lá no fim do quintal. Escrevia, talvez copiasse um texto de um papiro aberto sobre um tabuado. Riscava com a ponta da faca o tronco de uma árvore de ingá. Mãe estava de azul, eu estava azul e as goiabas ainda estavam verdes. Goiabas que eu apanhara na casa de Dona Ercília naquele mesmo dia onze e quinze, antes de encontrar com Oníria, que fingira não me ver.

Lá no fundo do quintal, mamãe escrevia no tronco, curvada sobre um dos ombros. Escrevia e lambia a seiva que escorria dos golpes aplicados no tronco do lado que a sombra do sol coloria. Parecia embriagada. Às vezes parava de riscar e punha-se a dançar, depois cansada ficava de cócoras. Eu estava muito cansado para comer, beber água, dormir, caminhar, subir na rede, deitar, fechar os olhos, respirar.

Então resolvi morrer.As formigas trouxeram as goiabas e com elas entupiram minha boca.

À tarde trouxe Dona Ercília, com outras goiabas que se avolumaram pela casa toda e mais de noite Oníria chegou ainda de tranças, agora quatro, um cheiro de Água de Cheiro do Ver-o-peso, nua em pelo, para o espanto dos que tomavam café e comiam pão torrado.

Ela deitou sobre mim quente como um forno de carvão, cheia de formigas.

Minha mãe veio correndo e nos separou, colocou-nos de castigo ao lado das formigas que empilhavam os pingos de chuva, os talos de goiabas e as lágrimas dos que tinham vindo chorar.

Já era sábado quando as formigas foram embora, levando as goiabas.

Minha mãe começou a contar estória de encantamente e gente do fundo, duendes e caiporas.

Eu estava febril, queria beber água, e comer fungos, bolores e semente.

Logo sarei, bebendo muito chá de sumo de ingá. As goiabas que restaram apodreceram e fizeram nascer larvas de moscas e minhocas.

Foi com elas que me criei. Quando comecei a voar fui ter com Oniria. Agora não esperei que passasse.

Esperei que voasse à frente de toda a sua colônia que gritava bem alto, seguindo-a: Rainha … Rainha …

* Do livro Antena de Arame – Rumo Editorial – Primeira Edição – São Paulo – Abril de 2016.

Frases, contos e histórias do Cleomar (Parte V)

Sempre digo que meu amigo Cleomar Almeida é um cara competente engenheiro. O figura também é a personificação da pavulagem e gentebonisse, presepeiro e boçal como poucos que conheço. Um maluco divertido, inteligente, gaiato, espirituoso e de bem com a vida. Dono de célebres frases como “ajeitando, todo mundo se dá bem” e do “ei!” mais conhecido dos botecos da cidade. Quem conhece, sabe. Na mesma linha da PRIMEIRA, SEGUNDA, TERCEIRA e QUARTA edições sobre seus papos no Facebook, mais uma vez selecionei alguns de seus relatos hilários na referida rede social.

Boa leitura (e risos):

Casamento

Se tua mulher não te ameaça semanalmente, dizendo que vai botar azeite quente no teu ouvido, ou que vai mandar fazer um porrete pra te dar umas cacetadas, sinto te informar, mas teu casamento caiu na rotina parceiro.

Bons modos

Definitivamente não sei comer em quilão, “amodo” que eu incorporo um estivador. Pense num prejuízo!

Pirsiguição

Aí tu ganhas uma camisa de presente do dia dos pais e tua mulher vem reclamar pq tu estás usando a dita camisa já tem três dias. Como dizia minha avó, égua da “pirsiguição”, tá nem fedendo ainda.

Vegetariana

Aí no almoço minha filha me diz: Pai, vou virar vegetariana!
Eu: Aproveita, larga esse bife e começa comendo esses carás roxos e esse jerimum que estão na geladeira.
Ela: Acho que vou virar vegetariana só semana que vem!

Doido

Toda família tem um doido, se tu achas que na tua não tem, presta atenção que o doido és tu.

Novela

O cara casa com a Maria da Paz e de lambuja, ganha uma loja de birita. Esse mundo é muito injusto mesmo.

Espanhol

Pareço normal, mas sou o tipo de pessoa que assiste La Casa de Papel e passa o dia inteiro falando sozinho em espanhol.

Circo

Circo Ramito esqueceu os funcionários aqui em Macapá. Toda esquina tem um malabarista, um equilibrista ou um Homem Aranhista.

Aprendizado

Conversando mais cedo com um amigo, ele indignado com uma situação me diz:
Negão, o homem não aprende com o cérebro, aprende com o cu, cada vez que toma no cu, ele aprende algo. Vivendo e aprendendo!

Mega-Sena

Sentado na pracinha em Laranjal do Jari, esperando meu sanduba, ouço o cara da mesa ao lado expressar seus desejos a um outro que o acompanha, em relação a Mega-Sena acumulada.
Dizia ele: Bicho, se eu ganho, compro um barco, encho de puta, contrato o Wanderley Andrade e vou fazer onda no Festival do Camarão.
O cara que o acompanha, eufórico diz: Bicho, vai ser muita onda, eu vou contigo.
Pena que os planos falharam, ia ser muita onda mesmo.

Ser pai

Quando se tem filhos a gente a gente se enquadra em três níveis de bestidade. O besta propriamente dito, o abestado e o abestalhado. Nesse último, me enquadro perfeitamente.

Nem Deus perdoa

Nunca ouvi alguém dizer “que Deus me perdoe” e na mesma frase, desejar algo de bom pra alguém.

Calendário falho

Tendo como base, uma análise minuciosa na geladeira e no armário aqui de casa, vejo que o mês já deveria ter acabado a dez dias.

MINHA HISTÓRIA INVISÍVEL – Conto de Fernando Canto

Conto de Fernando Canto

Atravessar a rodovia pela passarela da frente da Universidade. Na adversidade, admito. Na miséria de um pássaro sem ninho. Debaixo de uma chuva baguda. Barulhenta. Martelando a alma. A telha de zinco. Uma tortura catay. Umas gotas grossas por longos segundos. No cocuruto. Até eu te contar o que sei de ti. E de teus asseclas chineses. Estes que querem minha cabeça fora de Macau e Hong Kong. Talvez em um palco amazônico. Talvez pendurada no mais alto prédio de Dubai. Lá no deserto. Quando só os satélites veriam minha solidão.

A travessia da passarela não é um desfile. Nem palco de uma escola de samba. É como um caminho de pedra miltonascimenteano & fernandobrantano. Onde não posso sonhar. O suicídio iminente. Cair desse caminho. Ser atropelado. O corpo rolando sob as rodas dos automóveis. O sangue esguichando nos capôs. A massa corporal mutilada e magra. Irreconhecível aos parentes.

Retomar os passos. Chegar ao final e retornar. Inevitável. Ô merda! O celular esquecido na mesa do professor. Resgatá-lo à meia-luz na última sala do último pavilhão. Agora o sol se pondo. Uns clarões do anoitecer do fim do inverno. Outra baguda procela. Procela? Não. Tempestade equatorial.

A volta melancólica. Mecânica. Cabisbaixo vou. Pensarei em ti e no perigo que és, que representas ao mundo. Mundo humano. Mundano. Avassalador. Neste périplo estou eu no meio da ponte. Ouvindo o zoar dos veículos que vêm do shopping abarrotados de presentes & risos de amor & bocas lambuzadas de sorvete & pipoca & chopp. Vêm da praia também. Com cheiro de peixe & camarão.

Nesta travessia apanho o vento forte com uma das mãos. E me dou conta. Estou no meio do mundo. Sigo a leste. Em frente. Escapei da morte por causa de um esquecimento. De um celular barato que ninguém quis ficar. Escapei da Morte. Sim. Escapei do empurrão que me mandaste dar. Eu vi a sombra dos teus comparsas amarelos. No final da passarela. Um lapso me salvou a vida por duas vezes. Desenhada a lápis, a outra travessia estava na minha decisão. Hoje não. Sobre a rota certa eu ando. Minha trajetória consistirá, talvez, de atravessar a passarela, não a vida e o laço íngreme da morte. Sobre ela está a minha história invisível a todos. Minha paranoia & minha depressão & minha dor.

Hoje eu te mandaria à merda & à puta que pariu. Ainda que tanto te ame. zecabaleiramente. Que tanto te ame. Que tanto te ame & que te ame tanto.

Super-homem – Conto de Luiz Jorge Ferreira

Conto de Luiz Jorge Ferreira

Eu vi o Super-Homem. Estive mesmo com ele em Macapá, quando por ocasião da fundação da Cooperativa dos Catadores de Material Reciclável. Cooperativa esta que incluía catadores de jornal, papelão, garrafas de vidro, garrafas de plástico, kryptonitas, latinhas de refrigerantes, cervejas e afins.

Estava muito calor na sede da cooperativa – CMRCA – quando ele chegou. Confesso que refrescou o local. Não que o Super-Homem fosse gay. Isto, nem pensar! Até por que alguns meses depois dos cinco dias que ele permaneceu em Macapá, nasceram na cidade muitas crianças, e entre elas muitas que costumam amarrar capas vermelhas no pescoço e sair correndo pelas ruas e quintais, querendo voar. Parece instinto, DNA, coisa que o valha.

D.Faustina mesmo, diz ter visto seu neto menorzinho flutuar na laje em direção a uma pipa com sucesso. E sua filha, por acaso, era arrumadeira de hotel.

Mas voltando à entrada do Super-Homem no recinto da CMRCA: -Sou testemunha de que refrescou o local, e não foi só isto, ele perfumou. Depois soube que viera sobrevoando os Alpes, e trouxera no corpo a fragrância de uma rara flor que só nasce e cresce por lá, a mais de 2.600 metros, segundo explicação dada pelo Alípio Banhos, responsável pela agência de venda de passagens da única empresa aérea na cidade, e que entendia de vôos.

A chegada do Super-Homem pousando, até melhor dizendo… brecando, pois eu mesmo vi quando ele entrou, com um ruído semelhante ao frear súbito de carros em grande velocidade, cantando os pneus, quero dizer… sapatos, que eu mesmo vi, tinham os bicos congelados e a região do calcanhar em brasa. E como mais tarde explicou o Alípio Banhos…artificialmente ele invertera a direção das correntes de ar quente e frio para provocar a desaceleração, como um Ciclone, o que provocou o esfriamento do local.

O que conta é que o Super-Homem cortou a fita inaugural. Cortou não é bem o termo… arrebentou-a. E não fez discurso. Saiu logo depois, com o braço no ombro do governador que foi com ele até o hotel, andando, pois a autoridade recusara-se terminantemente a voar com o ilustre convidado.

O homem de aço pareceu-me bem disposto. Confesso que, como médico do hospital local, torci um pouco para que adoecesse, resfriasse, coisa leve, para que eu pudesse examina-lo, ausculta-lo, realizar um eletrocardiograma, nunca pensando em Raio-X. Receitar-lhe coisas caseiras como um chá de alho e trezentas mg de aspirina.

Jamais pensaria em mandar aplicar-lhe uma Benzetacyl. Que agulha, meu Deus, que agulha furaria seus músculos de aço?

De forma que soube mais tarde que nem banheiro ele havia usado. Comera um líquido feito com mel e jabuticabas. Deitara de uniforme mesmo. No parapeito da janela do apartamento do décimo quinto andar do hotel em que estava e recebeu muitas descargas.

Era uma das noites em que coincidentemente desabou uma destas rápidas tempestades tropicais.

E nem seu Souza. Hoje (09 de outubro de 2004), eu soube que ele morreu. Será que resfriou mesmo como eu temia, ao mudar tão rapidamente de uma temperatura de um dia frio de inverno, na cidade de Nova York, para o calor escaldante de Macapá?

Não me perdoo por não ter ido até o hotel com a minha maleta de primeiros socorros, tomado o elevador e, ignorando toda a minha timidez, chegar até a frente do apartamento em que ele estava hospedado, ter batido palmas suavemente e chamado: Senhor Super-Homem… Senhor Super-Homem… com certeza ele, ouvindo muito vem, viria até a porta aonde calmamente eu aguardava que ele abrisse, mas por certo já teria me visto com seu olhar de Raio-X. Ao abri-la eu me apresentaria um pouco gago pela emoção e atordoado pelo embaraço:

“Boa noite, Mister Senhor Super-Homem… Sou seu fã e sou o médico da cidade. Vim saber como o senhor está passando. O senhor está bem? O senhor precisa de meus cuidados? Está febril. Está resfriado. Posso medir-lhe a pressão? Posso contar-lhe o pulso? Está pálido. Está tonto. Está Zorro… Oh, oh… Desculpe. Embaralhei os heróis.

*Livro de Contos Antena de Arame – Rumo Editorial (II Edição) – 2016

PREFÁCIO – Conto de Luiz Jorge Ferreira

Conto de Luiz Jorge Ferreira

Nunca pensei em escrever um livro de contos. Ainda mais com este colorido criado com esta “Tinta Mágica” escorrida das pinceladas de Salvador Dali. Mas escrevi.

Colhi fragmentos escutados na minha infância e pré-adolescência em Macapá.

Juntei personagens e resíduos de acontecimentos e os fui reciclando, preenchendo os vagos com personificação à semelhança do surrealismo.

Ele pronto! Fui ao título, que tomei emprestado do conto “Antena de Arame”.Posto o ponto final. (Nunca se coloca o ponto final)

Para revisioná-lo sentei à mesa de um restaurante em Osasco denominado Frangão e bebi um pouco, reli os contos, e aguardei que chovesse para depois ir embora. Em pouco tempo um rio formou-se pelas ruas adiante ao local que eu estou. Quiçá mais um pouco talvez passe uma canoa tipicamente Amazônica, botos, mutuns, atuns…

Imaginei abstratamente.

Porem distrai-me observando uma mulher e o cão com esforço atravessarem a corrente, e por fim irem-se juntos com a lua e a outra mulher que empurrava com uma vassoura velha um resto de luar para debaixo do tapete.

Comigo estavam as paginas, e alguns comentários de amigos sobre o livro.

Deixei todo este material sobre a mesa e fui ao banheiro atirar fora resíduos líquidos da cerveja sorvida.

Quando voltei, os Contos haviam sumido, estava vazia a mesa. Indaguei ao Garçom. E meus papéis? Os que estavam sobre a mesa. Os contos?

Ele deu-me o troco e se afastou com um meio sorriso. Contos!…Ah! Contos…Achando que eu tinha me embebedado muito rapidamente. Passou um pano limpo e seco sobre a mesa que ficou todo sujo de letras.

Foi ate a Tv e deu duas pancadas ao lado do aparelho visando melhorar a imagem da chuva, da canoa, da mulher, e da lua.

“O que falta aqui é uma Antena de Arame!” – gritei. Para ninguém.

Em seguida levantei para ir embora achando que ele me parecia um dos Personagens dos meus Contos.

Chamei bem alto: “Bebeçudo!” Nem a voz saiu, nem o garçom voltou.

Sóbrio e só. Atravessei a rua, e mergulhei apressado no chão, no vão da calçada, atrás de um monte de formigas, que ali entravam, carregando consigo as páginas que eu procurava.

Não chovia mais.

* Prefácio em forma de Conto como Narrativa no Livro Antena de Arame – Rumo Editorial – São Paulo – 2016

DALILA – Conto de Luiz Jorge Ferreira

Conto de Luiz Jorge Ferreira

Ela deixou-me em 1947. Foi embora com um Prussiano com imensos bigodes e uma farda cheia de insignias por várias Bravuras, e outras Medalhas de Honra ao Mérito. A perna direita cicatrizada de fraturas provocadas por estilhaços de granadas alemãs encurtara, coxo… este herói do front da Criméia a arrastou consigo, herói viciado em açaí e pupunha.

Eu embarquei para Lisboa. Ali no cais do Porto, com os dentes sujos de tapioca e broa de milho, fui para lá, morar.

Lá aprendi a arte de fazer pão, roscas, doces e salgados, bolo de cenoura, bolinhos de chuva crocantes, recheados de nozes e avelãs.

Não demorou muito para o negócio prosperar e eu então fui ao cais contratar uma cozinheira.

Acabei trazendo comigo uma natural de Angola experiente em defumar peixe, cozer frutos do mar e desidratar frutas para o confeito de bolos e roscas.

Ela não falava Português.

Mas nos fomos nos adaptando um ao outro até que passamos a dormir juntos.

Meses depois ela apareceu com uma grande inflamação que em vão tentou curar com asseios íntimos de hortelã, permanganato de Sódio, e vinho branco.

Temperou-se muito, não resistiu e faleceu.

Fiquei novamente só.

Com uma pequena cadela, a quem dei seu nome…Dalila!

Desafeiçoei-me ao trabalho.Passava horas e horas no cais.Olhando as Gaivotas voando e pescadores tecendo redes.Foi assim que de uma feita, uma brisa marinha trouxe em si do Vietnã um pó amarelo que me cegou. Não suportando a dor, ao pressentir que eu não mais lhe podia ver, Dalila segurou na boca um balde cheio de pedras que eu usava como lastro para minha linha de pescar e atirou-se ao mar, afogando-se.

Passei semanas até dar por sua falta.

Comecei a beber, ia aos bares do Porto, amanhecia por lá.

Para ganhar alguns trocados, passei a ler as mãos dos marujos chineses,jamaicanos,haitianos,latinos,indus, entre eles a mão de um certo Che Guevara, fascinado por Marco Polo…onde havia desgraças eu lia esperança…onde havia desespero, eu falava de amor.

Fiquei famoso, não cobrava…mas recebia muitos presentes…Caixinhas de Música de Xangai, Perfumes finos de Paris, Correntes de Platina, Cordões de Ouro Branco,e Temperos exóticos da Índia.

Deixei crescer os cabelos, o bigode, as unhas dos pés, e das mãos, pintei-as de Carmim, e cobri-me de Seda, calcei altos tamancos, e criei uma Santa.

Um certo dia recebi um casal, que havia ouvido falar de mim. Estavam finamente vestidos. Ele tinha vindo curar sequelas de ferimentos adquiridos na segunda Guerra Mundial. Ela apenas o acompanhava.

Pelo perfume a reconheci ,mas fiz de contas que não.

Creio uma imã com apetrechos retirados de um antigo motor de um navio naufragado no canal marítimo da cidade, bezuntei inteiro o corpo dele, com extratos de Benzoato de Benzila e passei a imã em seu corpo, até que enchi um copo de vidro de estilhaços metálicos.

Eles foram embora felizes, não sem antes me doarem como pagamento, um baú repleto de moedas de Ouro, e dobrões de Prata.

Tomei para mim, o nome, de Al Shair Sefet e fui morar nas montanhas, com dezoito escravas, um casal de elefantes, e duas jiboias .

Mais tarde soube que ele dera fim a sua vida, e que após a retirada dos metais tornara-se lento, sonolento, lerdo e inconstante , por fim desgostoso demais,desejava a morte.

Até que uma noite conseguiu beber todos os estilhaços com dois copos de vinho.

Em Abril, acordei com ela gritando por meu nome.

Nua sob o luar.Os seios trêmulos. Lânguida. Cheia de desejos. Aflita invadiu, a Grande tenda colorida, pisando sobre as brasas semi acesas, sobre os animais descansando na areia.

Queria reiniciar a vida de prazeres, e ter felicidades.

Exatamente como eu.

Como não reconhecia mais vultos a estraçalhei entre os elefantes achando que estava sendo atacado por ferozes abutres.

Dormi ao relento, ouvindo o vento, que me contou que Dalila voltará.

Como me afastara muito.

Ate hoje caminho em círculos. E nunca consegui voltar.

* Do livro “Anais” – X Jornada Nacional da Sobrames – São Paulo – 2019.

Natanael na Janela – Conto cinematográfico de Fernando Canto

Conto de Fernando Canto

Cena 1

Ocorrera que os madeireiros haviam jogado uma espécie de veneno no rio da nossa comunidade e a gente se juntou para dar uma pisa neles porque todas as crianças adoeceram. Até mesmo nós, os mais velhos, acostumados a comer o que a floresta nos oferecia, já sentíamos fraqueza para labutar na roça.

Cena 2

Tinha gente de todo lado querendo nossas terras. Até parecia que valiam muito. Havia nove anos que a gente estava lá desbravando o lugar: cortando árvores gigantes, construindo pontes, criando pequenos animais, arando o cerrado e plantando mandioca para fazer farinha e vender na feira do produtor rural, na capital, para onde um caminhão nos levava todas as terças e quintas-feiras.

Os madeireiros invadiam a floresta para tirar as árvores mais valiosas e, não bastasse isso, chegaram os plantadores de soja, oferecendo uma insignificância pelos poucos hectares que tínhamos, mas que juntos faziam um latifúndio. A situação se agravava e a gente resistia como podia, porque as autoridades políticas que nos visitavam e diziam que iam nos proteger, sumiam. Nunca mais vinham na comunidade. Uma vez ou outra mandavam recados pelos seus cabos eleitorais com uns jornalecos onde contavam suas bravatas e lorotas.

Certo dia, na reunião do Centro Comunitário, alguém avisou que uns homens armados estavam nos cercando para nos amedrontar. E só deu tempo para a gente se abaixar e ver o Natanael, que se escorava na janela, levar um balaço no olho direito.

– Foi pá… Merda! Ele caiu estirado quando eu corri para pegar minha 12 e revidar. Acertei o motorista do jipe no braço, mas eles atiraram em minha direção e fugiram, anunciando que voltariam para completar o serviço. Eram pistoleiros contratados pelos madeireiros que queriam nos expulsar à força do lugar.

Cena 3

Uma rasga-mortalha sobrevoou nossas casas nessa noite. O Comissário Policial do Distrito soube da ocorrência e estava no velório para garantir a segurança. Mas ele me pareceu tremer de medo quando o pássaro agourento flechou o céu em busca de alimento na sua caçada noturna.

Seu Antônio da Luz rezava o terço de encomendação das almas e a gente respondia os pais-nossos e as ave-marias, olhando o desespero indisfarçável da viúva, agarrada a seus filhos e envolvida em um véu preto, na nossa capelinha de São Joaquim Lavrador.

Cena 4

Aqueles homens estavam à espreita, a gente sentia isso. O Comissário mandou seus dois ajudantes ficarem do lado de fora do velório e avisar se algo estranho estivesse acontecendo. Apesar de tudo a gente não se sentia seguro. Por causa disso eu já havia mandado minha família e outras mulheres e crianças para a minha casa do forno de farinha, bem longe da comunidade.

Ouvimos tiros lá fora. Todos os que tinham arma de fogo se prepararam para o confronto. O Comissário tremia porque não conseguia avistar seus auxiliares. A situação ficou tensa quando uma voz de mulher disse no megafone.

– Saiam daí. A gente só quer o Baixinho da Farinha.

Eles se referiam a mim. Sabiam da minha fama de valente, da minha luta como líder comunitário e da minha pontaria com a espingarda. E atiraram com rifles mais duas vezes em direção de onde estávamos abrigados. O comissário começava a lagrimar. A mulher pediu de novo que eu me entregasse. Pedi que parassem de atirar e deixassem os comunitários em paz. Qual nada! Continuaram atirando. Pensei em algo e disse que me entregava, mas o policial ficara desnorteado e de súbito tomou a decisão de fugir pela porta dos fundos. Uma bala veio como um raio da escuridão e atingiu a barriga dele. Estávamos mesmo cercados.

Cena 5

Os comunitários demonstravam medo, porém se seguravam nas suas armas de caça.

– Vai ser um massacre, falei. Ou a gente se entrega ou confronta os assassinos.

Uma língua de luz, seguido de um trovão rolando no teto do céu escuro, parecia preconizar uma tragédia. Deu malmente para ver que eram quatro ou cinco silhuetas perto do jipe estacionado ao lado do Centro Comunitário. Todas armadas, inclusive a da mulher do megafone, que deveria ser a chefe dos pistoleiros.

Eu chamei meus amigos e expliquei:

– Eles estão na vantagem com suas armas modernas. Nós somos poucos e só temos espingardas. O Zeca, ali, só tem uma daquelas antigas punheteiras. Só dá pra dar um tiro, disse, subestimando a arma do amigo, mas ninguém riu.

– A gente faz o quê? Perguntou o Davi.

– Temos que proteger as nossas mulheres e filhos.

Chamei, então, o seu Antônio da Cruz e mandei ele puxar uma ladainha bem alto. O plano era fazer os caras armados se aproximarem com cautela, pois sabiam que estávamos armados, mas que em uma negociação a gente se entregaria sem que fosse necessário derramar mais sangue. Entretanto, havíamos acertado vingar o Natanael.

Cena 6

Seu Antônio começou:

– Regina Angelorum.

E a gente respondia alteando a voz:

– Ora pro nobis.

– Regina Patriarcarium

– Ora pro nobis

– Regina Sacratíssimo Rosarium

– Ora pro nobis

No Quarto Ora pro nobis abrimos a janela e jogamos o corpo de Natanael. Foi o tempo de ouvirmos o barulho dos disparos. Uns comunitários saíram por trás da capela e outros pela frente, comigo, atirando. O confronto foi muito rápido. O Zeca matou um dos bandidos com a punheteira velha e se estatelou no chão com um balaço no coração disparado pela mulher. Eu atirei na cabeça dela. O assassino que estava atrás da capela sangrou até morrer com o chumbo na veia jugular da velha parabellum do Marcelino. Os outros dois foram surpreendidos e mortos pelo Comissário de Polícia, que conseguira rastejar, ferido, até a pocilga e de lá ao Centro Comunitário. Com esforço e graças a um clarão de raio os acertou quando viu o ataque. Seus ajudantes jaziam de olhos abertos num curral de cabras.

O corpo do defunto Natanael levou dez tiros no desvio de atenção que provocamos. Seu semblante pálido e cheio de buracos parecia debochar dos assassinos.

Estava prestes a amanhecer quando o grito desesperado da rasga-mortalha cruzou o céu, voltando para o ninho com a presa nas garras. O Comissário ouviu seu canto ameaçador e tremeu de novo ao entrar no carro para avisar do acontecido às autoridades da capital.

Cena 7

Ninguém esperou mais nada. De ninguém. Enterramos nossos mortos sem nenhum ritual religioso, e deixamos os corpos dos assassinos no mato para serem devorados pelos bichos selvagens. Era abril e a cerração se dissipava lentamente nas veredas dos buritizeiros.

À noite, cansados, mas insones, ouvimos os gritos fúnebres das rasga-mortalhas se intensificarem. Eram muitas. Voavam raso sobre nossas casas, indo e voltando, indo e voltando, anunciando o caos debaixo do céu sem estrelas.

Travesseiro de Penas de Ganso – Conto místico de Fernando Canto

 Conto místico de Fernando Canto

Meu travesseiro de penas de ganso sempre voava comigo nos meus sonhos. Como sempre tive medo de altura, eu o levava porque temia uma eventual e desesperadora queda. ¬- Doce ilusão, eu mesmo me dizia. Como poderia cair daqui, se já conheço meu próprio jeito de voar?

Uma noite, tal como Davi, o rei, vi uma mulher tomando banho na piscina do seu jardim suspenso. Era bela sob a luz da lua. Sobrevoei sua cobertura e fiquei a admirar a cena ilusória.

Fazia isso quase todas as noites quando o trabalho árduo me permitia. Eu ligava minha máquina de sonhar, apanhava o travesseiro de penas e saía para conhecer o mundo e, sobretudo, para apreciar cada vez mais aquela mulher linda banhada em águas perfumosas.

Ocorre que eu estava preso a um fio de prata e não podia me desprender dele, sob pena de morrer bruscamente em meu leito, onde meu corpo-casulo ficava à espera do espírito.

Afoito que eu era na minha juventude, certa vez tentei pousar perto da jovem para conversarmos, entretanto, a máquina não me obedeceu mais e queria sempre seguir em frente como se tivesse em uma missão inadiável, me dispensando do comando. Agarrei o travesseiro com força e segui em frente na minha viagem mística.

Na volta eu a vi. Trajava um vestido longo que reluzia à luz da quarto-crescente tal como o fio de prata que me guiava. Eu a chamei. Ela me ouviu e sentiu medo. Parei a uns dois metros sobre sua cabeça erguida e perguntei se ela queria passear comigo na próxima vez. Um sorriso foi se delineando aos poucos no rosto mais belo que eu já vira em toda a minha vida. Senti, então, suas mãos acariciarem minhas longas barbas pretas. Sem hesitar dei a ela o meu precioso travesseiro de penas de ganso para que sonhasse comigo. Ela aceitou e entrou sorrindo.

Naquela noite eu voltei para o meu corpo com a sensação de que a encontraria no elevador ou na padaria no dia seguinte. Levantei declamando os versos do poeta chinês Lu-Kei-meng, da dinastia dos Tang, quando ele se comove com as armadilhas que os inimigos armam pelo caminho dos gansos:

Ganso selvagem
Longa é a rota do Norte ao Sul
Milhares de arcos estão armados no seu trajeto
No meio da fumaça e da bruma
Quantos de nós chegaremos a Hen-Yang?

Ao caminhar em direção da estação do metrô, olhei instintivamente para o alto do meu prédio e vi descer voando da cobertura aquele anjo de asas longas com o sorriso da mulher amada nos sonhos. Vinha provida de asas das penas de ganso, um misto de animal solar na figura de um ser que fora humano e naquele momento pressentia e me alertava dos perigos da cidade. As pessoas fugiram espantadas com os gritos vindos da direção do voo da mulher-anjo. Corriam para dentro e para fora da estação.

Eu não compreendia que ela era um presente simbólico dado a mim. E ainda atônito, fui envolvido em suas asas ao meio da fumaça de uma grande explosão ocorrida naquele momento no trem subterrâneo. Vi línguas de fogo e corpos em desespero queimando até que veio um grande silêncio.

Os versos de Lu-Kei-meng ressoavam em minha cabeça:

Ganso selvagem
Longa é a rota de Norte ao Sul
Milhares de arcos estão armados no seu trajeto
No meio da fumaça e da bruma,
Quantos de nós chegaremos a Hen-Yang?

Fui arrebatado da estação para nunca mais voltar.

LUAZINHA – Conto de Luiz Jorge Ferreira

Conto de Luiz Jorge Ferreira

A Lua-mãe gritou quando ela se afastou em direção as poças de água formadas pela chuva no chão das ruas.

– Alguém ainda vai apanhar você…hein!

A Luazinha fez de contas que não era com ela, e desceu em direção ao meio da rua. Fizera assim muitas, e muitas vezes.

Banhava-se por horas nas poças, e iluminava tudo ao seu redor, brincava e divertia-se a espantar os cachorros e os gatos que assustados com aquele brilho repentino saiam em disparada. Porem esta noite com o calor que fazia, ela descuidou-se e quando percebeu alguém lhe pegou.

Atraído pela brilhante luz vindo daquela poça, o catador de latas sentou-se feliz, com aquele brilhante pedaço de metal, que nunca houverá apanhado em sua vida,com certeza ganharia com ele um bom dinheiro do homem que comprava sucata.O certo era que não pesava muito, mas brilhava demais, devia ter muito valor.Abriu o saco de plastico preto, e colocou aquele objeto brilhante lá para dentro. Fechou a boca do saco, e o colocou as costas, rumando para a sua casa.

La dentro a Luazinha gritava…Solte-me…Solte-me…Solte-me! Mas ele não entendia a língua das luas, e continuou andando.

Mãe Lua ficou preocupada com a demora da filha,… e quando amanheceu cruzou nos céus com o Sol seu pai, contou a ele, que respondeu…

Vai demorar tempo para que eu volte a encontrar você, Lua mãe,pode sair do céu para procura-la, disse queimando de raiva.

Assim Dona Lua ficou encarregada de aparecer de dia , para procurar a Luazinha.

Chegando em casa o catador de latas, colocou o saco em um canto da casa, e foi deitar.Não jantou nem nada.A mulher e a filha , curiosas, foram mexer, e quase correram quando abriram o saco, e a Luazinha brilhou iluminando a sala. _- Mãe que coisa linda! Quero esta coisa linda para mim. – Não de manhã , vamos vender este pedaço de luz para o homem que conserta aqueles relógios de parede de mostradores bonitos e luminosos, deve ser parte de um deles.

Ficou assim combinado. Não foram dormir sem antes enrolar a Luazinha, em um monte de panos velhos, e guarda-la para de manha ir procurar o relojoeiro.

Este, quando lá chegaram, de manhã, olhou com a lupa, fechou as cortinas para melhor observar o brilho.

– Não é parte de relógio, ou outro aparelho que eu conheça, não me interessa , podem levar de volta…Disse !

As duas começaram a enrolar a Luazinha nos trapos em que haviam-na trazido…e ela gritavam…Deixem-me ir…Deixem-me ir…mas elas não conheciam língua de lua, e ficou por isso mesmo.

A mãe não se deu por vencida, e correu para o comprador de velho ferro. Chegando lá lhe mostrou o objeto redondo e luminoso de brilho tão lindo. Ele mexeu, mexeu, usou a marreta , usou o esmeril, e por fim o maçarico.

– Não me interessa, podem levar, para mim não tem utilidade nenhuma.

Elas voltaram a embrulhar a Luazinha nos trapos. Soltem-me…Soltem-me…pedia a Luazinha. Mas elas não entendia língua de lua ,e foram embora com ela embrulhada.

A mãe disse…não podemos chegar novamente com isso em casa.seu pai vai nos bater se souber que mexemos nas suas coisas.

Resolveram então jogar o embrulho em um campinho de futebol, onde alguns meninos soltavam pipas.

Um deles se aproximou, desmanchou o embrulho, e tomou um tremendo susto com aquela esfera colorida, e fulgurante, que mudava de cor, de forma, de brilho, a todo o momento. Que seria aquilo?

A Luazinha gritava…Solte-me…Solte-me…Solte-me…e eles como entendiam língua de lua, conversaram com ela.

Depois de ouvirem-na em silêncio, ficaram pensando o que fazer.

Não podiam chamar seu pai, o Sol , que já brilhava no céu, pois ele ao vir busca-la, derreteria tudo na terra.

Nem por sua mãe que a esta hora estava doutro lado da terra.

Então resolveram amarrar a Luazinha na linha de uma de suas pipas, e faze-la chegar ao céu.

Para ajudar sopraram com toda a força de seus pulmões, com tanta força que desmaiaram…

Quando despertaram, correram assustados para casa, perceberam que falando entre si, se entendiam perfeitamente, mas que ao falarem com outras pessoas, e pessoas da família, não eram entendidos, e espantavam-se com a cara de espanto que elas faziam.

Isto demorou muitos dias, para dar o tempo de se fazer Lua Nova de novo, e a Lua Mãe desceu um luar que lhes adormeceu, e lhes fez esquecer a língua de Lua.

Noutro dia já começaram a falar, e serem entendidos por todos.

A Luazinha ficou feliz pois tudo havia terminado bem.

E quando passeando pelo céu, vê as pipas que eles continuam a empinar, as poças d’água, e o catador de latas, abre um enorme sorriso, que se espalha como luz brilhante para a alegria da escuridão da rua.

* Do livro “A Pizza Literária” (Décima Quinta Fornada) – Rumo Editorial – 2018 – São Paulo.

Brasa X Bala- Texto de J. Arthur Bogéa (*) sobre o conto de Fernando Canto

A publicação do conto de Fernando Canto – Brasa Balançante – na edição deste jornal de n° 105 (dezembro/janeiro), coloca em evidência a revisão do passado recente: militares versus guerrilha e a acertiva de que História e Literatura têm um embrião comum. Marx, que está na moda ser considerado out, disse que aprendeu mais da História da França nos romances de Balzac, a quem dedica um estudo, do que nos livros de História do País.

As palavras – permita-se o jogo com Canto/Conto – da Narrativa estendem – se como uma corda bamba em que Autor/Atores se equilibram entre os dois lados dos combatentes: um determina o outro com a pergunta do “Alemão” – quem era realmente o inimigo(?)”. Cadeia para ele.

A pergunta do “Alemão” se estabelece a partir do título; Brasa Bala [(nç) ante]. Uma troca de palavras e o título se converte em Brasa ante Bala. Ambivalência. Para os dois lados “(n)aquela sacanagem de guerrilha” resta a maldição de Brecht: “Infeliz do país que precisa de heróis”.

Há um Narrador, na primeira pessoa que se interpõe entre o Autor e um Narratário (pluralizando) que se interpõe, por sua vez, entre o Narrador e o Leitor. O Narrador – “Eu era um soldado” (como muitos) e o Narratário (vocês jornalistas” (como os outros anteriores).

Há no texto ressonâncias de Guimarães Rosa. Ninguém passa imprudente pela leitura de Grande Sertão: Veredas. A teia e a trama do escritor se estendem ao Pós-Moderno. Bakhtin explica: em cada texto há ‘vozes’ de outros autores que ‘dialogam’.

Não há heróis entre os Atores, como a Narratologia prefere chamar os Personagens. Entre os guerrilheiros aprisionados há “uma loura – pálida” e “um barbudo feio pra caralho”. O Narrador se reflete no Almeida – “Alemão”, no Ibrahim – “Mão Benta”, Antunes e o “sargento” – a autoridade é anônima como o comando. São anti-heróis que desfilam e desafiam pela escritura de Canto.

O narrador sonha “em ser um herói (…) quem sabe ser promovido, chegar a sargento…” – aos olhos da Mãe, apenas citada, mas figura concreta, que o inconsciente do texto revela o desprezo pela mulher com a expressão “loura – pálida” e, uma figura abstrata: Pátria. Não é à toa que troca o fuzil (símbolo fálico) pela vassoura – varrer é uma atividade feminina no âmbito do privado que assume caráter masculino em público. Outra ambivalência. Sonha em varrer “O lixo da Pátria” – a Magna Mater.

Este Narrador só tem uma certeza sintetizada no verbo saber, para ele e o(s) Narratário(s): “Eu sei que vocês sabem de quase tudo que aconteceu lá no Araguaia” O “quase tudo” remete à pergunta do “Alemão”. É, portanto, o avesso do conhecer. Impreciso. O ‘contar’ do Narrador é sempre introduzido por uma pergunta: “vocês vêm me indagar sobre esse assunto?” ou “Entrevistar para quê?” – todas como um eco do “Quem vem lá?” a que “Mão Benta” não responde, por isso encontra a morte. O Narrador também não responde à história quando finaliza com um “Não sei, não sei, sei não”. Três negações, da campanha na selva à morte do heroísmo, morte civil quando deixa o exército e assume um emprego servil e, finalmente, morte da cidadania.

Vale ressaltar que Canto se recusa a regionalizar por regionalizar a ficção, por isso a expressão “à beça” e os termos “tauari” e “muru–muru” não soam artificiais, fazem parte do ‘dialeto’ do Narrador que conta a hi(e)stória, quem escreve é o Narratário. Alquimia da fala para a escrita.

Há ainda a destacar que a narrativa traz um tempo cronológico, “Vinte anos depois” e um tempo fantástico, “o estrondo no meio da noite repercutiu séculos na floresta”. Duas Vertentes que deságuam num escritor que atravessa a ‘maldição’ de ter sido adotado – O Bálsamo – no vestibular.

O autor é docente do Centro de Letras e Artes da UFPA e professor visitante da Rijksuniversiteit te Utrecht (Holanda).

(*) O professor José Arthur Bogéa faleceu em 2005.

Macapá, 13 a 19 de Janeiro de 1996 Folha do Amapá – 15 – VARIEDADES
Jornal Folha do Amapá

BRASA BALANÇANTE – (Um Conto do Tempo da Guerrilha) – Por Fernando Canto

Conto de Fernando Canto

– Vinte anos depois vocês vêm me indagar sobre esse assunto? Coisa morta, sepultada e virada pó…? Já disse, não tive culpa. Eu era um soldado, um pau-mandado naquela guerra. Se o sargento dizia para a gente matar, a gente obedecia, ora bolas! Soldado só tem que obedecer e eu seguia à risca tudo o que ele falava. Eu não queria ser um traidor. Pensava, sinceramente, em ser um herói condecorado e mostrar pra minha mãe as medalhas que poderia ganhar naquela guerra silenciosa. Já pensou? Ser reconhecido por toda a corporação, o orgulho da tropa… Quem sabe ser promovido, chegar a sargento…

Vi na televisão que vocês jornalistas só fazem entrevistas com os sobreviventes torturados, com as supostas vítimas, que pra vocês são os verdadeiros heróis de toda aquela sacanagem de guerrilha. Mas vocês precisavam estar lá para entender o nosso lado. Eu e todos os outros éramos os defensores da pátria, os que não iriam deixar nunca o nosso Brasil ser arrasado por uma corja de comunistas que só queriam entregar o país para a Rússia.

O sargento era um cara duro, mas muito legal. Ele lia muito e nos avisava do perigo que eram os comunistas e os sequestradores de diplomatas estrangeiros. A gente teria que lutar muito se quiséssemos que o Brasil não naufragasse na lama desse regime nefasto. Por isso a gente sempre conversava no acampamento sobre o que fazer quando prendesse um desses traidores safados que se escondiam na floresta.

O Ibrahim era bafento. Dizia que ia matar os comunas bem devagar cortando dedo por dedo, depois os pés, os braços, as mãos, as pernas… até transformá-los em anões e cagar na cara deles. Mas o que ele sabia mesmo era fugir do acampamento para preparar uma bebida feita de álcool que roubava da enfermaria, com raízes e cascas maceradas no mato, escondido do sargento. Preparava tão bem que ganhou o apelido de “Mão Benta”. Como a entrada de cachaça era proibida ele sempre dava um jeito para suprir nossos vícios. Até cigarro tipo tauari ele fazia com folhas secas, trituradas de um arbusto conhecido como vassourinha, abundante no lugar. Já o Gomes dizia que esfolaria os caras ainda vivos, para que eles aprendessem que com a pátria não se tira esses sarros. O Antunes, o mais bravo de nossa guarnição, só falava em meter uma vara no cu do vagabundo até ele gozar de dor. Sei lá se se goza de dor, pra mim dor é dor. E pronto. Diziam lá no 18° BIS que há alguns anos ele havia matado um cara com dezoito facadas e arrancado o olho da vítima só porque ela quis dançar com o xodó dele no salão de dança “Merengue”, que ficava perto do quartel. Ele nem foi preso na época. Pelo que me consta a polícia se aliviou ao saber do assassinato, pois o morto era muito aloprado e não capinava sentado quando era pra matar. Esconderam o caso e tudo ficou por aquilo mesmo. Me disseram que o comandante o protegeu, transferindo ele para o BEC de Santarém.

*****

– Vocês me perguntaram como era a vida lá. Aquilo nem era vida, se era vida era de animal, de burro de carga. Era uma guerra. Só o Almeida “Alemão” teve peito de perguntar pro o sargento quem era realmente o inimigo. Pegou foi uma senhora esculhambação e três dias de cadeia na “jaula” reservada pros filhos-da-puta dos guerrilheiros. A gente sabia que eles eram brasileiros, mas corria o boato que tinha muito cubano e soldado russo dando apoio pra eles, e que a coisa estava fedendo e iria feder muito mais.

Vocês precisavam ver a alegria quando uma patrulha capturou um casal de comunistas numa tapera de caboclo. Serviu para aliviar a tensão dos soldados, principalmente dos recrutas do nosso batalhão que se cagavam de medo com os ruídos do mato. Eu que era veterano, engajado há dois anos, tremia quando ouvia um barulho, imaginem eles. Pois bem, saibam vocês, no meio daquela alegria explodia o nervosismo e o heroísmo egoísta dos homens. O tenente disse que não era para ninguém passar o rádio pro comando porque ele já tinha as ordens. Saiu num jipe com o sargento, o motorista e um cabo. Segundo o motorista eles corriam a cem por uma estrada escrota e empurravam os guerrilheiros algemados. Paravam, punham o fuzil na boca dos otários e diziam: “Fala, filho-de-uma-vaca, onde está o resto dos vagabundos?” Eles não falavam porra nenhuma. Aí então repetiam a dose. Como nada arrancaram dos dois, curraram a garota – uma loura – desfalecida, pela frente e por trás, enquanto o guerrilheiro – um barbudo feio pra caralho – olhava, todo ensanguentado e quebrado.

Depois executaram os dois e levaram os corpos de volta para o acampamento. O soldado motorista me disse que o sargento obrigou ele a comer a garota, senão iria preso. Mais tarde o sargento mandou eu, o Almeida, o Gomes e o Ibrahim jogar os corpos dos cornos num Igapó “pros urubus comerem”. Isso, na boca do sargento era uma ordem, a gente não precisaria enterrá-los. Nós comemoramos à beça essa vitória. Bebemos a batida de álcool do Ibrahim diluída n’ água,