MAMA GUGA – Conto de Fernando Canto que deu nome ao livro (Para Fernando Bedran)

Desde sua primeira prisão por contrabando, meu pai estampava na cara que era um bandido, um contraventor, um fora da lei que ameaçava a economia da região por não pagar impostos. Era convicto dessas coisas, até cínico. Propinava gente grande da Alfândega e fiscais estaduais dissimulados. Para ele, tudo era normal numa época de carestia e desencanto. Ele sabia dos perigos que o rondavam e que a qualquer momento poderiam enquadrá-lo por outros crimes. Por muito tempo fora um ajudante de importadores de mercadorias com uma impetuosa vontade de vencer na vida. Queria dar algo melhor para a família de quatro filhos que moravam com os avós em uma casa na Cidade Velha, em Belém, assim que enviuvou ainda jovem.

Depois que aprendeu a rota marítima e um pouco de patois para se comunicar e comercializar com os contatos de Paramaribo e Caiena, produziu sua independência e se tornou patrão, mesmo à revelia da vontade do seu antigo chefe. Viajou muito. Chegou a ir até a Venezuela comprar objetos de cozinha feitos de prata da Bolívia para revender aos comerciantes de varejo na Cidade das Mangueiras e em São Luís do Maranhão. Trazia famosos perfumes franceses, cortes finos de cetim e seda do oriente, que vendia para uma seleta freguesia de fazendeiros do Marajó e para clientes do society que ainda se julgavam aristocratas. Fazia tudo de uma forma meio escamoteada na loja que montou para o meu avô Salim. Meu avô era um libanês corcunda, um sábio, um conhecedor profundo das coisas do Cosmo Infindo, iniciado há tempos em uma Ordem Mística do Oriente, onde também iniciou meu pai.

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Nossa família foi ficando rica, mas muito visada pela polícia. Meu pai sabia disso e contornava as investigações com boas “gratificações” a policiais corruptos. Não demorou muito ele comprou outra embarcação com um sonar moderno que permitia viajar à noite com maior segurança pela costa, inclusive no tempo das pororocas mais fortes que rebentavam no litoral próximo à boca do rio Araguari, no oceano.

Os federais eram mais bandidos que os próprios bandidos. Espalharam que queriam pegar o terceiro chefão na linha direta do tráfico de mercadorias e não perdoavam quem ao menos ousasse imaginar que estavam torturando pessoas em busca de informações mais precisas. Tudo valia naquele tempo de ditadura militar. Não havia grupos de direitos humanos, e, mesmo se houvesse, ninguém jamais pensaria que essas práticas medievais ainda ocorressem por aqui.

O barco do velho certa vez foi metralhado por um bando de piratas que agiam próximo ao Cabo Orange, quando vinha de Paramaribo com um carregamento de uísque, vinho e máquinas de costura. Morreram quatro tripulantes, e dois deles se jogaram feridos ao mar. Meu pai nunca usou arma e viu, baleado, levarem a carga toda.

Não se sabe bem o porquê, mas deixaram com ele uma negrinha guianesa depois de a terem usado como escrava nas suas rotas criminosas pelo Caribe. Tempos depois, ele viria a se apaixonar, pois com muita paciência e carinho ela conseguiu curá-lo dos ferimentos de bala que o deixaram para sempre com o braço torto. Três dias depois do assalto, uma vigilenga os recolheu bastante debilitados e os conduziu até a cidade de Vigia.

Já recuperado, levou a mulher para casa, em Belém. E por ser viúvo todos aceitaram a estrangeira, mas havia um certo preconceito entre os membros da família, algo velado, que se dissipava com a autoridade do velho. Mais tarde, ele conseguiu financiamento com os chefes do contrabando, comprou um novo barco, juntou tripulação e voltou à ativa.

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Mama Guga parecia rejuvenescer com a viagem. Virou taifeira da embarcação e principal ajudante do meu pai nas operações comerciais com os habitantes das guianas. Falava bem o patois crioulo e o tak taki das fronteiras do território francês e de Suriname. Passavam longe da então Guiana Inglesa, pois lá as lutas pela independência da Inglaterra fizeram o comércio internacional ser impraticável. Muitos grupos de guerrilheiros almejavam o poder e se dividiam em ideologias, estratégias e objetivos, e se matavam uns aos outros. A nova embarcação, agora com o nome de Mama Guga, uma homenagem óbvia, singrava o Atlântico, as Antilhas e o mar do Caribe. Meu pai era só felicidade com a nova mulher. Ele a levava para dançar beguine no hotel Montabô, em Caiena, e bebiam os melhores conhaques franceses.

Certa noite, ela pulou do camarote como saindo de um pesadelo. Chamou meu pai, e se armaram. Estavam fundeados no Porto de Sucre, próximo de Caiena, esperando um carregamento de vinho para o dia seguinte, quando partiriam para o Brasil. Aguardaram e viram os vultos de quatro ratos d’água subirem pelo convés, armados de revólveres e facões. Vinham sorrateiros, com propósito assassino, pois para roubarem as mercadorias tinham que matar os tripulantes e fugir com a embarcação. Havia só a luz de um farolete a querosene a iluminar minimamente a área da proa, onde o marinheiro Zé Raimundo tirava o seu plantão. Iam surpreendê-lo quando Mama Guga acertou com um tiro no pescoço o negro magrinho que parecia liderar o grupo.

Zé Raimundo pulou para o lado e cortou em duas partes a cabeça do outro bandido com seu terçado afiado, enquanto meu pai disparava mais dois tiros para liquidar os outros ratos. Seguiu-se um silêncio… Esconderam os quatro cadáveres no porão e lavaram o sangue do convés. Ao carregarem a carga de vinho, já no dia seguinte, ainda foram cumprimentados pelos tripulantes de outros barcos que ouviram os tiros e calcularam o que ocorrera. Depois jogaram os corpos dos bandidos no mar e navegaram até Belém, não sem antes se esconderem das patrulhas das marinhas francesa e brasileira em pelo menos duas áreas de fiscalização, na foz do Oiapoque e no cabo Norte.

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Meu avô sabia que as viagens estavam ficando cada vez mais perigosas. Chamou meu pai e o avisou. Não era só a marinha e a polícia paraense que ficavam no pé do velho. Surgiam boatos que a polícia federal estava atenta a tudo e que faria operações na costa do Amapá até a fronteira com a Guiana Francesa. Para tanto, já estava equipada com barcos rápidos e radares poderosos. Era imperiosa a fiscalização das 200 milhas marítimas decretada pelos militares, e até corvetas da Marinha de Guerra transitavam na região. Não estavam ali só para prender contrabandistas ou pescadores internacionais nas nossas águas. Algo acontecia, além disso. Meu pai precisava pagar o empréstimo aos seus chefes patrocinadores e tinha que viajar mais vezes. Seu lucro era grande, mas os juros eram muito altos. O perigo era maior ainda.

Esse quadro todo era previsto pelo meu avô Salim. Platonista atento que era às vicissitudes dos seus parentes mais próximos, repetia sempre a máxima do seu mestre: “assim como em cima é embaixo”. E enfatizava que há tempo para semear, tempo para plantar e tempo para colher. Meu pai estava no tempo de colher, ele dizia. Desde a morte de minha mãe, ele esquecera o sentido da reflexão, da meditação, como técnica a ser utilizada em tudo o que desejamos ou temos obrigação de realizar. Perdera a sabedoria e ganhara a esperteza ao meio da ganância e das práticas ilegais e resolvera agir, assim, pelo livre arbítrio, fora da Lei Cósmica. Meu pai estava involuindo da sua divindade, de sua essência. Sabia disso e não ligava. Meu avô pronunciava palavras ao vento…

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— Você está nesse mundo pra viver! – disse o chefe dos federais. Colabora, porra!
— Se tu não falar por bem tu vai pegar muita porrada lá no “Purgatório”! – dizia rindo sarcasticamente o policial, referindo-se a uma tenebrosa câmara de tortura existente nos porões do prédio colonial que abrigava a delegacia.
— Diz logo, porra. Onde é que tá a Mama Guga, aquela salope duma figa? Cadê os terroristas assaltantes de banco? Hem, caralho. Onde vocês deixaram eles.

Meu pai, literalmente de mãos atadas pelas algemas, levantou a cabeça, pediu água. O policial, num gesto rápido, pôs-lhe o cigarro na boca e acendeu um isqueiro de aço, daqueles que têm uma chama alta e são acesos com faíscas de pedra no chumaço molhado de querosene.

— Diz logo, caralho! – e foi levantando devagar o queixo do velho, lhe queimando a barba, e ele pulou para trás urrando de dor e se estatelou sobre a cadeira que caíra com ele.
— Fala logo, turco filho da puta! – gritou outro policial, chutando-lhe a cara sem piedade. – Fala, “Braço de Eletrola”! – gritou o policial se referindo ao defeito no braço do velho, e continuou: Onde escondeste os filhos da puta dos comunistas? Cadê a negra?
— Eu não sou turco, sou libanês… – balbuciava meu pai, sangrando pelos buracos da cabeça.
— Mas tu és bandido, seu contrabandista de uma figa. Onde é que está a Mama, seu macoumê da Guiana?

“Turco não, libanês…”

Aplicaram-lhe tantos golpes covardes que ele desfaleceu.

Acordou amarrado do mesmo jeito. Da testa e do nariz escorria um sangue escuro, quase coagulado. Perguntaram de novo pela Mama Guga. Ele disse:

— Eu vou dizer, mas ela vai rogar uma praga pra vocês que vão ficar vinte anos babando saliva com vontade de consumir o que não podem, seus otários. Eu sou bandido, sim. Sou contrabandista, mas não sou como vocês que acreditam nessa tal revolução de merda. Sai um ladrão do poder, entram centenas. Essa é a regra desde o início dos tempos.

Depois de apanhar mais e de “dar o serviço”, meu pai dizia que só se lembrava das coisas depois de ter sido encontrado por um barco transportador de açaí perto do Ver-o-Peso. Não fosse sua prática de marinheiro-embarcadiço na juventude, jamais teria sobrevivido àquela condição extrema de tortura em que lhe deixaram os policiais, após o terem depositado n’água, na madrugada. Nunca havia posto um cigarro na boca e tinha uma força imensa.

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Anos depois, já com a decretação da Lei da Anistia, meu pai saiu pela primeira vez de casa para tomar sol e andar pelo Porto do Sal à procura de notícias de Mama Guga, pois até então a polícia não deixava de vigiá-lo em sua porta. Inquiriu seus antigos camaradas, marinheiros e ex-tripulantes durante meses, do Porto da Palha ao Ver-o-Peso. Um dia, encontrou com o seu velho amigo Zé Raimundo e descobriu onde sua amada estava. Vibrou de alegria. Ele sabia que ela vivia, mas não podia vir até ele. E nem ele até ela.

Na sua última viagem, foi obrigado pelos chefes do contrabando a levar como passageiros cinco terroristas que fugiram do presídio São José, após terem sido presos por assalto à mão armada em um banco estatal, em Belém. Era o pagamento final de sua dívida. Era pegar ou largar. E ainda tinha um pagamento em ouro a ser acertado no final da viagem. Essa promessa o fez investir num plano ousado. Alugou um pequeno barco de pesca e o mandou na frente com alguns tripulantes e os esquerdistas barbudos, sob o comando de Mama Guga. Viajariam apenas à noite, bem próximo à costa. Uma semana depois, meu pai zarpou de Vigia para as águas do Atlântico rumo à Caiena.

No canal do Maracá, foi avistado por uma corveta da Marinha. Prenderam o barco e a tripulação, mas só ele foi torturado até relatar o plano de viagem.

Ele sabia que sua amada Mama Guga havia deixado os comunistas no Porto de Sucre com êxito, portanto nada mais devia aos mafiosos chefes do contrabando – a essa altura todos mortos. E ela não era mais considerada persona non grata no Brasil.

A sortida loja de tecidos do meu avô se transformou em um ponto comercial alugado. Vivíamos de renda e do salário dos meus irmãos mais velhos. Mas eu fui o escolhido para procurar e trazer Mama Guga até ele. Protestei de início e argumentei que era muito franzino para enfrentar uma aventura e nunca tinha viajado de embarcação, ainda mais pelo mar, inclusive era conhecido no bairro por “filé de Borboleta”. Porém, não convenci o velho. Fui convencido, porque “arranhava” um pouco de francês. Então parti pelo mar.

Na cidade de Oiapoque, me informaram que Mama Guga tinha um pequeno comércio na vila de Tampac, abaixo de Saint-Georges, no rio Oiapoque, uma comunidade habitada por descendentes de africanos chamados saramacás. Aluguei uma catraia e fui até lá. O catraieiro que me serviria de intérprete.

O chefe da vila, conhecido por Capitão Gody, me recebeu com um grande sorriso, como se eu fosse esperado há tempos, e apertou minha mão com força. Ele falava um português tão correto que eu nem precisei mais do intérprete. Sabia que eu procurava Mama Guga e que era enteado dela. Foi um recebimento protocolar. Pediu aos membros de sua corte que dançassem o cacicó em minha homenagem, e eles dançaram e cantaram ao som dos tambores o “Mô kalê lá / Mô kalê lá”, entre goles do tafiá Damme Jeanne, uma cachaça de garrafão feita de milho, típica da Guiana. Ofereceu-me um cálice do genuíno vinho francês Quinquina du Prince e me contou que Mama Guga tivera uma vida trágica. Seus pais foram assassinados, e ela, raptada ainda adolescente por um garimpeiro nas cabeceiras do rio Maropi. Depois foi vendida como escrava a um barco de piratas. Tinha o dom dos xamãs e teria explodido com a força do pensamento os escrotos de um pirata quando ele tentou estuprá-la. Tiveram medo de matá-la e a jogaram no peito do meu pai ferido por tiros, quando roubaram seu barco e a carga.

A notícia que ele me daria em seguida seria mais surpreendente. Ela morrera há três dias. Tinha vivido por anos na vila, onde fora bem recebida porque seus pais eram saramacás. Mas ela sofria de melancolia, com saudade do seu amor do Brasil, o único homem que a valorizara em toda a sua vida, costumava dizer.

Eu nada perguntava ao Capitão Gody. Ele mandou parar o cacicó e me levou a um lugar afastado, sempre com o séquito atrás dele. O ar era perfumado por um cheiro estranho. Havia uma cabana coberta no quintal à beira do rio. O cadáver de Mama Guga jazia sobre um assoalho de paus. Ele disse solenemente:

— Meu filho, quando morre um membro da nossa tribo, construímos um girau da palmeira jussara para colocar o corpo do morto. Embaixo do corpo, pomos uma gamela de madeira bem calafetada do tamanho do corpo e ateamos fogo ao redor. Do cadáver vai escorrendo o suco que era sua vida. Depois que ele fica bem seco, fazemos o enterramento e dançamos ao seu redor, esfregando aquele suco em nossos corpos. Isso nos dá mais vida e melhor bem-estar. Nós herdamos esse costume dos nossos ancestrais africanos – completou o chefe Gody.

Eu assisti ao ritual e me besuntei do óleo de minha madrasta. O Capitão Gody me presenteou com um belo artesanato de madeira feito a canivete e me entregou dois quilos de ouro em pó que Mama Guga havia deixado para o meu pai. Ela tinha certeza de que alguém viria vê-la nem que já fosse morta. O chefe era um homem justo e foi o guardião da fortuna até entregar o que agora pertencia a meu velho. Voltei com medo, mas me senti protegido, porque, além do ouro, trazia um frasco com um pouco de suco de Mama Guga para dar nas mãos dele.

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Quando cheguei a Belém, reuni a família, contei minha aventura floreando detalhes e entreguei a meu pai seus pertences. Depois, ficamos apenas ele, o pai dele, eu e meus irmãos homens na sala. Meu avô me disse compassadamente que meu pai voltara ao misticismo depois de perder tudo e ser torturado pelos policiais da ditadura.

Tinha estudado muito e já meditava e experimentava em laboratório caseiro os símbolos alquímicos, os quatro elementos da natureza, os sete metais, o opus alquímico e suas operações, a busca da Prima-Matéria e outros conteúdos dessa arte e ciência milenar, cujos segredos ainda eram guardados pelos Rosa Cruzes. Nesse momento, ele purgava suas falhas com o Cósmico no seu processo evolutivo, pois havia sucumbido diante da ambição e da ganância, que o tiraram do eixo da harmonia com o Universo.

Enquanto o meu avô explicava, meu pai ajoelhou-se em nossa frente, invocou palavras desconhecidas para nós, seus filhos. Besuntou-se do suco de Mama Guga e salpicou sobre sua cabeça uma pequena quantidade de ouro em pó.

O rosto dele iluminou-se de felicidade quando um fogo fez seu corpo entrar em combustão e o ouro transmutar-se em uma diáfana camada de névoa amarelada. Tentamos correr para salvá-lo, chorando em desespero, mas meu avô nos impediu.

— É só uma ilusão, meus filhos… – disse o velho avô.

Sim, seria uma ilusão, não fosse o fato de Mama Guga estar presente todos os dias em nossas vidas dançando beguine com meu pai, ali na nossa sala. Meu avô Salim fica sentado na poltrona, coça a barba branca e abre um sorriso enfatuado por ter realizado seu trabalho redentor em nossa família.

Eu, Fernando Bedran ( primeiro à esquerda, que inspirou este conto sensacional) e Fernando Canto (o maior escritor vivo do Amapá).

Meu comentário: este genial conto de Fernando Canto foi escrito por conta de várias histórias do amigo Fernando Bedran (tenho a honra de ser amigo dos dois fernandos), que nas mesas de bar. Claro que o autor, além de contextualizar, escreveu o conto com carradas de realismo fantástico e brilhantismo, da mente genial de Fernando Canto. Aí deu nesse escrito sensacional. Porreta!

Causo do carnaval – Sucuriju? Não tem (Por @alcinea)

Eu, Rei Momo dos bloco “Nada me Imprensa”, dos jornalistas do Amapá e o Rei Momo do Carnaval Amapaense, Sucuriju – Foto: Patrick Bitencourt

O pauteiro de uma emissora de televisão chamou o cinegrafista e disse:

– Vai lá no Sambódromo e filma o Sucuriju. Tô precisando dessa imagem pra jogar um flash daqui a pouco no ar.

O cinegrafista pegou a câmera e se mandou pro Sambódromo. Uma hora depois ele voltou avisando que a pauta furou.

– Mas como a pauta furou? Perguntou irritado o pauteiro.

Candidamente o cinegrafista respondeu:

– Procurei em todos os cantos do Sambódromo e não vi nenhuma cobra. Lá

só tinha gente. Muita gente sambando e cantando.Era a maior animação, até o Rei Momo tava lá. Mas cobra não tinha nenhuma. Nem sucuriju, nem jiboia, nem nada.

P.S – Sucuriju é o Rei Momo de Macapá.

Alcinéa Cavalcante

CONTO DE CARNAVAL – Fernando Canto


CONTO DE CARNAVAL

Por Fernando Canto

Naquela noite de orgia no carnaval de setembro, o garanhão Thor se encheu de coragem e comeu o assassino Fred Krugger atrás das cortinas do clube. Deu-lhe uma martelada na cabeça e acabou com a máscara do otário.

Eduardo Luís, o Mãos de Tesoura, que acabara de terminar seu relacionamento com o Homem de Ferro, olhava, deprimido, aquela cena enquanto a Mulher Maravilha dançava com o Homem de Areia a marchinha “A Jardineira” mais bêbeda que um trem descarrilando.

Contos, causos e histórias do Cleomar

Meu amigo Cleomar Almeida é um competente engenheiro. O cara também é a personificação da pavulagem e gentebonisse, presepeiro e boçal como poucos que conheço. Um figura divertido, inteligente, gaiato, espirituoso e de bem com a vida. Dono de célebres frases como “ajeitando, todo mundo se dá bem” e do “ei!” mais conhecido dos botecos da cidade. Quem conhece, sabe. Selecionei alguns de seus relatos na rede social Facebook. Boa leitura:

Luta garganteada

Comparo a luta do Lyoto Machida dessa madrugada a um pé de porrada que me meti certa vez quando moleque, só consegui acertar a primeira, daí pra frente só apanhei, mas apanhava como quem está ganhando, garganteando o tempo todo. Ao final, todo quebrado, ainda avisei ao meu quase algoz: Isso é pra tu aprender a não mexer com que tu não conhece! Ninguém entendeu nada, mas muita gente achou que saí vencedor daquela peleja.

Nortista e frio

Tem felicidade maior do que chegar a noite em casa, ligar a central de ar no 17, se meter debaixo do cobertor mais grosso que tiver e passar a noite inteira entrevado, brigando com o frio? Nortista é um bicho estranho mesmo.

Avaliações anuais

Dando uma avaliada no ano de 2017 e levando em consideração a merda que foi 2016 me veio na mente o refrão da música de Rio Negro e Solimões ” Tá ruim mas tá bão “. E vai melhorar mais ainda.

Em 2018 eu quero mais é perder, perder menos tempo com gente que não vale a pena, perder menos dinheiro com coisas desnecessárias e finalmente, perder uns dez quilos, de preferência sem ter nenhum membro amputado. Bora perder !!!

Brasileiro

Ainda ontem, conversando com dois amigos sobre violência, porte de armas, política… Surge a melhor definição sobre nós.
– Cleomar, brasileiro é doido!!!
Pronto, acabou a discussão.

Bar de corno

Daquelas histórias que só acontecem numa mesa de bar. Dia desses, estávamos eu e um amigo, jogando aquele papo furado, contando mentira, falando mal da vida dos outros e é claro, tomando aquela cerveja bem gelada, quando descem de um carro, cinco cabôcos, com visíveis sinais de embriaguez, como diz um outro amigo meu, e em alto e bom som um deles ao passar por nós grita: É aqui o Empório do Índio, o bar que só dá corno? Eu em resposta à pergunta do nobre cidadão respondi: Sim, inclusive acabou de desembarcar mais uma carrada neste exato momento. Foi um pára pra acertar, o cabra ficou puto, queria brigar. Quem fala o que quer…

Passando bem

Outro dia, assistindo ao noticiário local, vejo o repórter relatando uma tentativa de homicídio, em que a vítima havia sido alvejada por três tiros de arma de fogo mas, segundo o repórter, passava bem. Porra, quem levou três tiros não pode estar passando bem, passando bem está o cara que ganhou 7 milhões na mega sena, passando bem, tá o namorado da Paola Oliveira. Quem levou três tiros e sobreviveu, no máximo, tá levando muita largura.

Mercado

Aí tu sais pra comprar um peixe e chegando no Mercado, dá de cara com umas “mini-aparelhagens” espalhadas pelos boxes, umas tocando hino de igreja, outras pagode e outras aquele brega rasgado, todas com o volume até o “talo”. Acrescente a isso algumas doses de ressaca, a agonia é tanta que o cabôco até esquece o que foi fazer.

Fim dos tempos

Mais uma da série ” Fim dos tempos “. Conversando agora a pouco com um amigo e ele me conta:
– Te contei que meu pai foi assaltado na frente de casa?
– Não, como foi isso?
– Porra, meu pai acorda cedo e com mania de velho, vai varrer as folhas da mangueira em frente de casa, numa dessas, dois malandros de bike, foram pra cima do coroa.
– E aí, o que aconteceu?
– Um dos malacos entrou com ele em casa e fez uma geral, enquanto o outro “reparava” lá na frente. Nessa geral o malandro achou 700 contos.
– E aí?
– Aí que o que tava com meu pai sussurrou no ouvido dele: Não fala pro lá da frente que eu peguei os 700.
Rapá, é ladrão roubando ladrão.
Fim dos tempos mesmo!

Sono e fome

Tenho a certeza de que sono e fome são dois grandes amigos que se juntam pra me sacanear. O sono diz para a fome, vou sair de perto e você pula com os dois pés no peito dele. O golpe é tão certeiro, que já caio dentro da geladeira.

A Pedra Encantada do Guindaste – Conto de Alcinéa Cavalcante

Conto de Alcinéa Cavalcante

Não me pergunte porque aquela pedra, ali no rio Amazonas, bem na frente da cidade de Macapá, é chamada de Pedra do Guindaste. Eu não sei. O que sei é que nela morava uma princesa de olhos claros e cabelos cor de mel. Sei também que em noites de lua nova, a pedra se transformava num imenso navio azul.

Açucena – é este o nome da princesa – foi trazida para Macapá para conhecer seu noivo González, um dos homens mais ricos da região, dono de terras a perder de vista, incontáveis cabeças de gado e minas de ouro. Era culto, elegante e bonito.

Açucena não o amava, mas não se opôs à vontade do rei.

Casaria com González, não tivesse visto certa manhã, um sorriso tão lindo, tão amplo, tão cheio de ternura, que se sentiu abraçada por esse sorriso. E aquele par de olhos? Ah, naqueles olhos brilhava esperança. E em Açucena nasceu a esperança de ser feliz, de amar, de ter um amor para a vida inteira.

Desistiu de González.

O rei e a rainha não aceitaram, afinal tinham prometido a mão da filha ao homem rico e promessa de rei tem que ser cumprida. Além disso, o dono do sorriso que encantou Açucena jamais poderia entrar num palácio, nunca – nem em sonho – poderia fazer parte da família real. Ele era negro, sem estudos e sem posses. Era um escravo que passava o dia inteiro carregando pedras, sob o sol escaldante, para a construção da Fortaleza de São José de Macapá. Trazia no corpo as marcas das chibatas, mas no olhar um brilho diferente, que iluminava a alma e o coração da princesa. Não era proprietário de terras, de gados, de ouro… mas era proprietário de esperanças, versos e ternura. Se descobriram apaixonados um pelo outro. Açucena todos os dias, antes do sol nascer, postava-se à beira do rio, quase ao lado do local onde estava sendo erguida a Fortaleza, para vê-lo passar e ser abraçada por aquele sorriso tão amplo.

Obrigada pelo rei a casar com González, Açucena decidiu fugir. Num final de tarde, quando a primeira estrela surgiu, ela jogou-se no rio e foi nadando, nadando, nadando em direção à Pedra do Guindaste e lá se escondeu da família, do mundo, do luxo, de González e de toda riqueza material.

Os mais antigos contam que todos os dias, antes do sol nascer, uma princesa surgia, como que por encanto, naquela pedra. Mas só era vista por pessoas extremamente apaixonadas. Conta-se também que em noites de lua nova a pedra, como num passe de mágica, se transformava num iluminado navio, mas só olhos cheios de ternura poderiam vê-lo.

Passados anos e anos e anos, um artista português esculpiu uma imagem de São José e colocou-a em cima da Pedra do Guindaste. Açucena sabia que São José era o santo padroeiro de Macapá e começou a rezar e pedir ao santo a graça de viver e ser feliz com seu grande amor.

MEU FILHO VERSICULORUM – Fernando Canto

Por Fernando Canto

Antes de casarmos minha mulher Jeanerena era uma lutadora das causas sociais mais diferentes possíveis. Ela se metia em qualquer protesto e eu a acompanhava nessa luta.

Um dia ela soube que iriam cortar uma secular mangueira da praça principal da nossa cidade, e já me convidou para impedirmos esse crime antiecológico premeditado pela prefeitura.

Na noite anterior ao ato da derrubada da árvore fomos dormir nela. Subimos sorrateiramente pelos seus galhos com a ajuda de uma escada e nos acomodamos em uma forquilha para esperar o dia raiar. De início, formigas e mosquitos ficavam incomodando, mas depois transamos de um jeito muito doido que cansamos e adormecemos.

Acordamos com os bombeiros, a polícia militar e o pessoal da prefeitura que já estavam lá embaixo ainda de madrugada, com ordens para nos tirar de lá na marra antes da imprensa chegar.

Eles nos prenderam e derrubaram a mangueira, alegando que ela poderia tombar a qualquer momento com as fortes chuvas do inverno que já estavam caindo. Mesmo carregada de frutas ela deveria ser sacrificada, pois poderia deixar um enorme prejuízo à população daquele bairro.

Quase sete meses depois nasceu nosso filho primogênito, o Altino Versiculorum, prematuro e com a cabeça esquisita, pequena. Parecia uma cabeça de periquito asa branca, da família dos psitacídeos.

O cara que queria ser dono da Lua (conto de Elton Tavares)

Lua222

Era uma vez (só pra “clichezar” mesmo) um cara que, de tão arrogante, audacioso, impetuoso e imbecil, quis ser o dono da Lua. O maluco se acha o Sol. Há tempos ele a observava e a admirava. Ela sempre teve um brilho diferente. Assim era a Lua, que de tanta velocidade imaginativa, não dormia, e ele nem sabia ainda.

Ele curtia todas as suas faces. Podia ser Lua de São Jorge, de Caetano, Lua Bonita, de Raul Seixas ou somente o “Reflejo de Luna”, do Paco de Lucia. Era realmente fascinante.

Quando a Lua apareceu, ninguém sonhava mais do que eu”, disse o tal Sol. E seguiu a cortejá-la: “Como nunca se mostra o outro lado da Lua, eu desejo viajar no outro lado da sua” ou “O sol veio avisar que de noite ele seria a Lua”. Coisas desse tipo. E conseguiu sua atenção. Parece que ela até gostou.

Ele a via como disse Fernando Canto: “Como a Lua grande, que gasta seu brilho imenso todos os meses sobre o Equador, no meio do mundo”.

Tendo a Lua, como disseram os Paralamas, ele fez Moonlight Serenade (que nem Glenn Miller), mas luar21hoje está mais para Luar do Sertão, de Luiz Gonzaga e The Killing Moon, dos ingleses do Echo And The Bunnymen.

Sim, o homem que se achava o Sol, pisou na Lua e até morou nela por um tempo feliz. Mas ele não leu em um poema da Juçara, que “A Lua não é de ninguém, pertence aos casados, aos namorados, aos arrasados, aos cantores e ao violão”. Só que ela até tinha avisado que, assim como Cecília Meireiles (e ele), tinha fases, como a Lua.

Ele tentou dominá-la e a Lua, que também é aluada, revidou. Nem um dos dois entenderam a mensagem de Bob Marley, na frase “Seja humilde, pois, até o Sol, com toda sua grandeza, se põe e deixa a lua brilhar“.

Sol ainda lembra quando ele e a Lua foram grandes amigos. Às vezes, até no espaço (ou será tempo?), o destino dá um nó(s), mas a lição é que sempre devemos desejar a liberdade a todo custo ou em qualquer Lua.

Agora, ele é como o Astronauta de Mármore, e vê “A Lua como um manto negro”, mas a falta de brilho é só saudade. Se é que se pode dizer “só”. Alguns dizem que o Sol enlouquece bêbado e uiva pra Lua até hoje, mas em silêncio.Lua

Sem vitimismo ou guerra, Sol pensa nisso tudo como explicou o sábio Drummond “Sentimos saudade de certos momentos da nossa vida e de certos momentos de pessoas que passaram por ela”. Eles nunca foram os mesmos, pois vira e mexe, vomitam escritos de quase profundo arrependimento. Sem, coragem, sabotam a si próprios.

Sol vive preso numa fenda no tempo, ancorado num mar de memórias por muitas luas. Mas luta pra zarpar, pois como disse o sabido Nelson Cavaquinho: “Eu só errei quando juntei minh´alma à sua. O Sol não pode viver perto da Lua”. Caramba! Existe vida em Marte?

Elton Tavares

TSUNAMI AMAZÔNICA (Conto de Fernando Canto)

Conto de Fernando Canto

Três dias após a morte de F.C. eu soube da notícia alvissareira: o rio voltava a encher. Devagar, mas voltava. Os habitantes que restavam na cidade já sorriam com grandes esperanças.

Até então ninguém sabia as causas que fizeram o maior rio do mundo em volume d’água se afastar tanto do seu leito natural. Os cientistas se contradiziam, ecologistas acusavam os governos dos países ricos e o povo alimentava superstições e castigos misteriosos de diversas deidades. Mas o certo é que as marés que por aqui chegavam ficavam muito além do trapiche. Tudo acontecera tão rapidamente que os ariscos mergulhões tiveram que virar comida e as andorinhas, tão sinceramente nossas, desapareceram. Quem diria! A praia de mangue da antiga beira-rio parecia um cemitério de pequenas embarcações. Houve emigração em massa e a economia da região despencou. Sobrevivíamos com doações.

A cidade evaporava. Era um deserto em consumição. Suava com o calor assassino. Só melhorou quando F.C. convocou extraordinariamente a Assembleia Legislativa e apresentou Projeto de Lei que invertia o horário de funcionamento de trabalho e de todas as atividades oficiais: todos trabalhariam à noite e descansariam de dia. Naturalmente que tudo fora regulado, inclusive os plantões. Apesar de polêmica, fora a decisão mais sensata, principalmente no que se referia à energia, visto que as cabeceiras dos rios das hidrelétricas estavam secando.

As mudanças climáticas eram rápidas. Ninguém nos explicava nada, as notícias sobre o assunto eram desconexas, fugazes.

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Foi no domingo que eu senti o nó no peito e o pressentimento de algo terrível: liguei o rádio e ouvi que uma onda gigante se aproximava do litoral a uma velocidade crescente; que se separara em duas ao bater na costa oriental da ilha de Bailique. Uma seguia, destruindo as pequenas ilhas do arquipélago e outra deslizava rumo a Caviana. A primeira ganharia mais força e se somaria à pororoca, correndo mais rápida ainda em nossa direção. Já tinha uns cem quilômetros de extensão e vinte metros de altura. Em poucas horas chegaria a nossa vulnerável cidade.

Fomos alertados e preparados pela Defesa Civil e pelos Bombeiros. Quando ela se anunciou, barulhenta e avassaladora, ainda deu para vê-la alta, acima das ilhas do outro lado do rio. Segundo o rádio ela media em torno de sessenta metros de altura. Era um ser estranho vindo guerrear e destruir. Chegou veloz e mortal com seu companheiro vento, rebentando o que era fraco e lavando praças e edifícios.

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Até que as mortes não foram muitas. A maioria acreditou na ciência e nas informações maciçamente veiculadas.

Mas a cidade ficou suja e caótica. Só alguns grupos de estudantes se divertiam colhendo os peixes oceânicos que se debatiam nos lagos formados com a intempérie. Tudo era novidade. Mas já se falava em reconstrução.

O fluxo-refluxo da tsunami fez o rio encher e ficar agitado, cheio de ondas, cheio de vida. Sua água agora é salobra e de tonalidade esverdeada. Disseram-me que só daqui a dez ou vinte anos ele voltará ao que era.

Já dá para ouvir o grito das gaivotas, a silhueta dos mergulhões em formação de flecha e uma nuvem de andorinhas bailando ao pôr-do-sol do equador. Parecem cavalos alados à procura do Olimpo.

A SENHORA W. (Conto de Fernando Canto)

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Conto de Fernando Canto

tfgE6nhA marca registrada da senhora W., a bem dizer o que todos viam nela, era o seu pudor exagerado e sua cara de adolescente com nojo permanente. Em qualquer lugar que estivesse não admitia ninguém falar, nem cientificamente sobre sexo ou se referir aos novos modelos de roupas da moda. Insistissem, ela se retirava do recinto. E sempre encontrava alguma maneira de ridicularizar as pessoas, fofocando ou inventando histórias que pudessem comprometê-las frente aquela pequena sociedade de seu lugar que, aliás, não estava mais tãSalóo pequena assim.

Há tempos, o aparelho de Tevê que o pai lhe dera de presente foi destruído porque um programa que assistia no domingo à tarde mostrava cenas de homens e mulheres em condutas libidinosas, pecaminosas para ela devido a sua formação religiosa e uma carolice incurável. Detestava carnaval, “coisa do diabo”, e nunca mais comprou outro televisor para não perder tempo com besteiras.

obama-encara-brasileira2-reSeus 45 anos, porém, demonstravam um vigor físico e uma certa generosidade que às vezes podia se notar. Mesmo quando se trajava com sobriedade deixava transparecer a mulher que havia por trás daquelas roupas ridículas e fora de moda. E o seu andar miúdo não poderia esconder o balanço meio sensual “daquela bunda”, como disse ao delegado o moleque tarado Fortuno Didhei, de 17 anos, líder de uma gangue do bairro do Igarapé das MulheKearneyres, que tentara possuí-la em uma noite de terça-feira, quando ela voltava da novena de Nossa Senhora do Perpétuo Socorro. Recém-saído de uma casa de detenção, Fortuno já acumulava uma série de crimes nos costados.

– Valei-me, Nossa senhora! Gritara apavorada ao ver o meliante.

Um chute no meio das pernas quase arrancava os testículos do perigoso Fortuno Didhei, que ao prostrar-se na calçada da ruazinha escura, também gritara pela Santa, atraindo a vizinhança e a carolapolícia.

O episódio fizera ela ficar tão ruborizada em seu depoimento na delegacia ao ponto de lhe queimar a face. Apesar da antipatia expressa, foi tratada como heroína pelas carolas da igreja, pois ao chutar no estuprador quase emasculando-o, atribuiu sua força para reagir como um atributo da Santa.download-4

A senhora W. era uma mulher infeliz. O que fazia na igreja e com as pessoas era consequência de um desvio psicológico, que desde que enviuvara a tornara inflexível e fria. Má, quando queria. Casou por pirraça com um comerciante distribuidor de gás oriundo da antiga Guiana Inglesa, muito mais por conveniência e com certa curiosidade para saber o que sentiria em uma cópula. Amor nem pensar. Sofria de prisão de ventre desde os tempos de estudante. Jamais poderia se mostrar mal-educada, ainda mais sendo filha do sargento Grato, o rígido professor de Educação Física de sua escola.

The_Notorious_B_I_G__Rest_In_Peace_*******

Sua sensibilidade mudou depois de ser obrigada pelo pai a se casar com o empresário estrangeiro, o guianês negro e gordo que mal falava português e que de longe se anunciava pelo fato de não tomar banho. Mas feito o acerto convencional e o valor do dote velado, na noite de núpcias o distribuidor de gás, mister Woodhead, se cansou de correr nu atrás dela para consumir o ato e resolveu beber. Bebia, comia e soltava altas flatulências. download-5Na noite seguinte também não conseguiu, e tomou outro porre, seguido de roncos e novos sons noturnos. A semana toda esperou pela boa vontade da esposa medrosa que, por ser virgem e não ter grandes referências em educação sexual, jamais admitiria que um membro daquele tamanho penetrasse em sua intocada flor. No sétimo dia, Woodhead esperou até que ela dormisse para estuprá-la. Ao terminar o ato indigno ele se levantou e ingeriu uma garrafa de uísque e o que tinha no frigobar do quarto, contando vitória. Ainda nu, tombou sobre ela expelindo gases e vômito.

A senhora W. ficou cerca de uma hora para se desvencilhar daquele corpo enorme. imagem21Sangrada, violentada e morta de vergonha, chamou a gerência do hotel aos prantos para que retirassem dali aquele corpo monstruoso e sem vida. Foi uma experiência frustrante. E única, pois só a lembrança do fato lhe dava náuseas.
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Esse escândalo a abalou tanto que passou anos em casa apenas rezando e estudando os livros sagrados da Bíblia. Saía apenas para dar ordens no movimento administrativo e financeiro da distribuidora, apesar de detestar qualquer cheiro de gás. Só depois de muito tempo voltou a frequentar a igreja, ainda que persistisse nela o ódio e a arrogância. images (6)Foi quando quase foi estuprada pelo moleque Fortuno Didhei, que agora andava solto, sexualmente impotente e vingativo pelas vielas do bairro. Mas ela resolveu encarar novas relações sociais e passou a ministrar palestras para noivos, adolescentes e mulheres casadas, com a anuência do vigário, por causa das suas altas contribuições financeiras.

Um dia o dito marginal Fortuno Didhei entrou drogado e bêbado no salão paroquial onde ela ministrava um curso. Foi imediatamente repreendido. Então ele entornou a garrafa de cachaça na boca e, debochado, ofendeu a mulher. Ela o enfrentou, Kearneymas os presentes riram dela e começaram a dançar às gargalhadas em sua volta. Sabendo que ela não gostava, iniciaram uma sessão de ventosidades estrepitosas, arrotos, urinas e vômitos, bebendo a cachaça, fumando pedras e se divertindo com aquelas chulices corporais em cima da mulher moralista, com o intuito de fazê-la sofrer. E tantas foram as flatulências que evoluíram para um festival escatológico inusitado no salão paroquial.images (7)

Enquanto os moleques ensandecidos se lambuzavam naquela bacanal comandados por Fortuno Didhei, a Senhora W., caída ao chão, esbugalhou os olhos de pânico ao ver centenas de pombos, moradores do teto do salão, defecarem sobre todos os que se divertiam ainda mais em cima do seu corpo esfarrapado.

CONVERSA FORA – Miniconto de Fernando Canto

Miniconto de Fernando Canto

Todos os dias, no final da tarde, quando sentavam em frente às suas casas, os vizinhos daquele bairro jogavam conversa fora. E tanto falavam, falavam, que as palavras foram tomando conta das ruas e avolumando em monturos de lixo viciados, pois eram palavras feias, chulas, fesceninas, pornofônicas e grossas como os moradores. Ninguém ali tinha uma palavra amorosa, uma frase doce ou um sussurro carinhoso. Eram palavras de ódio que a pobreza e a riqueza dos homens e mulheres de todas as idades usavam contra si e contra tudo. E tanto foram as conversas despejadas pelas bocas sujas das pessoas que elas também foram se afundando num lodaçal indefinível que a enxurrada de escombros palavrais trouxe, sem que elas percebessem. As palavras precisavam ser lavadas, mas ninguém sabia o que era isso e então todos pereceram no esgoto medonho, onde mora a monstruosa língua viva que se alimenta da comunicação entre os seres humanos.

A noite dos peixes – Conto de Ronaldo Rodrigues

Conto de Ronaldo Rodrigues

A Assembleia Extraordinária convocada pela Grande Ordem dos Peixes não foi atravancada por discursos prolixos ou questões de ordem burocrática. Terminou em poucos minutos, com os Peixes optando por uma firme tomada de decisão frente aos atos praticados pelos Pescadores.

Foi elaborado um manifesto em que os Peixes reclamavam da violação de um antigo pacto firmado pelos ancestrais de Peixes e Pescadores. O pacto celebrava a harmonia entre ambos os lados e determinava a proibição da pesca de filhotes pequenos e de fêmeas grávidas.

Em seu manifesto, os Peixes sugeriam vários caminhos para a conciliação, mas deixavam clara a intenção de invadir a aldeia, caso os Pescadores não fizessem valer os itens do pacto.

Na tarde daquele mesmo dia, o mar levou até a praia o envelope timbrado da Grande Ordem dos Peixes. O Chefe dos Pescadores, obrigado a interromper a sesta para ler o manifesto, ficou com o humor ainda mais azedo.peixes2

O manifesto foi lido entre um bocejo e outro e logo o Chefe dos Pescadores desatou a rir estrepitosamente. As gargalhadas se multiplicavam à medida que os outros Pescadores tomavam conhecimento do teor do manifesto.

Em meio à onda de zombaria, sem conter as gargalhadas, o Chefe dos Pescadores enfiou o manifesto no envelope, escreveu displicentemente que Peixes não escrevem manifestos, e o devolveu ao mar.

**** **** *****

No dia seguinte, os Pescadores voltaram a violar o pacto. Ao retornarem da pescaria, trouxeram em suas redes, entre os Peixes adultos, que era lícito pescar, uma grande quantidade de filhotes pequenos e fêmeas grávidas.

Os Peixes ficaram convencidos de que não adiantaria qualquer esforço para evitar o confronto. Reuniram-se rapidamente, formando um numeroso exército, e conceberam um plchuva-de-peixeano de ataque para aquela noite.

**** **** *****

Na aldeia, os Pescadores faziam uma grande festa, comemorando o sucesso da pescaria, e não perceberam um estranho rumor se elevando pouco a pouco. Os Pescadores só puderam ouvir quando o rumor se transformou num barulho ensurdecedor, que ultrapassou as ondas sonoras lançadas pelos alto-falantes que animavam a festa.

Os Peixes vieram navegando pelos ares e o atrito de seus corpos com o vento era o que produzia aquele barulho, anunciando um trágico desfecho.

Os Peixes continuaram sua marcha, investindo contra tudo e todos, derrubando portas, destroçando paredes, derrubando casas.

Enredados pela violenta tempestade de Peixes, os Pescadores corriam de um lado a outro da aldeia, na vã tentativa de defender suas famílias e propriedades.

Após alguns minutos de ataque, que aos Pescadores pareceram horas, os Peixes voltaram ao mar, deixando na aldeia uma trilha de sangue e destruição, onde se retorciam corpos agonizantes.

**** **** *****

Ainda hoje, decorridos muitos anos, se escuta na aldeia-fantasma o lamento de dor que os Pescadores deixavam escapar, tentando salvar seus filhos pequenos e suas fêmeas grávidas.

Dias Iguais (Conto de Fernando Canto)

Conto de Fernando Canto

1.Caía uma chuva fina e chata. Era a véspera do dia primeiro de janeiro de 2018. Perto da meia-noite eu e meus elegantes parentes fizemos a ceia e desejamos um ano próspero e saudável recíproco, nos cumprimentando e nos abraçando uns aos outros, registrando nossa felicidade em fotos e filmes, mostrando sorrisos lindos em selfies maravilhosos nas redes sociais, até que minha irmã não se conteve e falou sobre a ausência de nossa mãe que havia morrido entalada na ceia de natal com um naco de peru assado. Foi uma choradeira geral que acabou com a festa. Eles se despediram e eu fiquei em casa com a mulher a olhar pela janela de vidro os carros se afastando na chuva.

Ninguém quis esperar as doze badaladas do velho relógio de parede que antigamente encantava os olhos dos meus sobrinhos. Abri o Chandon sem escutar o barulho da rolha estourando, pois lá longe, na frente da cidade, belíssimos fogos de artifício explodiam em cores, desenhando novas estrelas sob um céu escuro e chuvoso. Eu nem reparei no tempo passando.A chuva aumentava de intensidade jogando grossos pingos na vidraça. Bebi a última taça do champanhe e fui dormir.

2. Ao acordar, ainda cedo, chamei Norya para caminharmos como fazíamos todos os dias. O dia amanhecera calorento, mas com indícios que não choveria mais. De fato, o sol surgiu nos dando a luz que a esperança traz nesses momentos ritualísticos de transição para um tempo bom que todos querem. No percurso as pessoas se cumprimentavam desejando sorte, saúde e prosperidade, o que, aliás, é uma coisa que gosto nesse período porque elas mal falam com a gente e nem sequer nos dão um bom dia no resto do ano, mas agora são educadas e comunicativas. Agem com cortesia e educação como se fossem sempre assim. Nessa época muitas delas parecem mesmo felizes, e eu reitero que acho bacana. Estou convicto de que não faço parte da plateia que as aplaudem em suas atuações anuais. E ademais todos vestem suas máscaras para se dar bem. Inclusive eu no meu trabalho, onde tenho que lidar com hipócritas todos os dias.

3. Caminhamos cerca de sete quilômetros em uma hora, como sempre. Falamos do cotidiano, dos filhos que mandamos estudar nos Estados Unidos e que por lá ficaram pelas oportunidades de emprego e segurança, da nossa saudade deles e dos netos, dos nossos trabalhos e da nossa solidão. Às vezes falávamos em viajar, mas sempre aparecia algo que nos fazia adiar o projeto. Era bom falar sobre isso porque já sentíamos o peso da idade e tínhamos que ser sempre companheiros para o que viesse. Eu já tinha uma doença crônica que controlava com remédios, e em Norya foi detectado, mas felizmente depois extirpado um câncer no cérebro, após uma delicada e bem sucedida cirurgia. Mesmo assim ela se submeteu a um doloroso processo terapêutico que a deixou quase irreconhecível por muito tempo.

1. À noite Norya e eu nos vestimos a caráter como no dia anterior e arrumamos a mesa nos preparando para a ceia familiar. Lá fora caía uma chuva fina que parecia não querer parar mais. Antes da meia-noite fizemos a ceia familiar, nos cumprimentamos e registramos nossos momentos particulares. De repente, minha irmã, tão sensível que era, começou a chorar falando o nome de mamãe que há poucos dias havia se engasgado com um pedaço de peru assado em plena ceia de natal.

Consternados pela lembrança da matriarca em sua tragédia, meus parentes foram embora nos deixando tristes. Choravam muito sob a chuva que caía até entrarem em seus carros e tomarem o caminho de suas casas. Eu abri uma garrafa de champanhe e fiquei olhando o céu estrelado das cores dos foguetes que explodiam no céu escuro para as bandas da beira-rio. A chuva engrossara e batia com força nos vidros da janela. Tomei a última taça e fui dormir.

2. De manhã bem cedo acordei Norya e fomos caminhar como sempre o fazíamos. E o sol surgiu trazendo novas esperanças. Os passantes nos cumprimentavam felizes porque era o início de um ano que prometia ser melhor que o anterior. Eu comentava com minha esposa sobre como nossos colegas de caminhada eram corteses neste dia, já que eles nunca nos cumprimentavam, o que me fazia sorrir de contente e dizer a ela que gostava daquilo porque cada um põe a sua máscara no seu dia-a-dia para sobreviver, igualzinho a mim no meu trabalho.

3. Caminhamos como de costume aproximadamente sete quilômetros em uma hora. Falamos de tudo: dos filhos e netos no estrangeiro, da imensa saudade deles, das nossas ocupações profissionais e da nossa força para continuar vivendo sós, sempre colados, afinal estávamos ficando velhos e já havíamos passado por momentos terríveis de doenças graves. E Norya passou por momentos críticos durante o processo de cura de um câncer no cérebro.

Certa noite, quando preparava a ceia da família em casa me dei conta que aquilo vinha se repetindo como uma liturgia todos os dias do ano. E fiz um esforço supremo para lembrar algo que não fosse a nossa vivência dentro dos acontecimentos dessa noite e os do dia seguinte. Não consegui.

Antes dos parentes elegantes chegarem reparei que o relógio que antigamente encantava as crianças da família batia nove horas. E vi que seus ponteiros continuavam girando em sentido horário. Olhei-me no espelho da antiga cristaleira da sala e enxerguei minhas barbas tão brancas quanto a de Papai Noel.

Também reparei que a ausência de Norya e de alguns dos meus parentes era uma constatação inelutável, enrolada como um paradoxo de tempo em minha memória. Era como se fosse um ferro em brasa que me penetrava o peito sem queimar, algo que quer se lembrar, mas encontra um paredão inacessível. Pessoas e carros viravam sombras embaixo da minha janela sob a chuva contumaz e o brilho dos fogos de artifício colorido caía lento no espaço escuro da noite. Eu começava a me embriagar com a última taça de champanhe e já não conseguia dormir.

De manhã bem cedo em um desses dias de chuva fina quando as notícias dos jornais são sempre as mesmas, acordei a sombra de Norya para a caminhada matinal. O sol já se abria e as pessoas se cumprimentavam e nos desejavam saúde e prosperidade, embora não tivessem mais o entusiasmo e os mesmos sorrisos de antes. Ao chegar em casa encontrei o celular da minha mulher em cima do sofá, e ao manuseá-lo vi um calendário do ano de 2015. Certamente ela havia tentado sair desse ritual que nos prendia a um tempo pesado e mórbido que se derramara sobre a vida de todas as pessoas da cidade. Comecei a lembrar dos acontecimentos repetidos e num esforço sem precedentes não bebi mais champanhe e abri a janela de vidro para a chuva entrar em casa até amanhecer o dia.

Foi Norya que me acordou desta vez, não a sua sombra. Caminhamos entre carrancudos passantes e uma chuva torrencial lavou a calçada enquanto o rio Amazonas dançava espocando suas águas no muro de contenção.

Norya me olhava assustada e cúmplice, porque sabia que o ritual que participamos tantas vezes era imprescindível para vivermos. Imperioso era não morrer com nossos históricos apagados pelos cumprimentos, desejos e lembranças num mundo moderno que comprimia uma soturna solidão estampada no rosto dos caminhantes, os mesmos que punham suas máscaras demoníacas nas festas de fim de ano.

À noite vesti meu velho terno branco e Norya o seu melhor vestido. Ninguém veio nos visitar. Jantamos à luz de velas e adormecemos felizes ouvindo o barulho da chuva na vidraça.

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De manhã cedo foi Norya que me acordou e não a sua sombra. Então caminhamos sorrindo entre o vai-e-vem dos passantes, embaixo de um temporal que nos lavou a alma. O ano novo se aproximava novamente. Era a véspera do dia primeiro de janeiro de 2035.

O trombone invisível – Conto de Fernando Canto para Obdias Araújo.

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Conto de Fernando Canto para o poeta Obdias Araújo.

Ainda era muito cedo.

O rapaz de uns vinte e cinco anos vinha no meio da rua tocando um trombone de vara, marchando alegre e sem medo de ser atropelado pelos veículos pesados que se movimentavam para pegar a rodovia JK. Ele soprava e punha a mão na boca do instrumento, ajustando-o. O tipo de música executada se assemelhava a um dobrado, já que seus passos seguiam em perfeita cadência rítmica, como se desfilasse numa parada escolar. Devia puxar o pelotão de uma banda musical que talvez lhe seguisse após a desobstrução da via. De vez em quando olhava para trás, mas sem parar de marchar.trobone1

Dobrei meu caminhão para o acostamento e esperei que passasse por mim. Eu disse:

– Ei, amigo, não estou ouvindo direito essa música.

Ele me olhou meio de esguelha, com certo ar de desprezo e apontou o dedo para a boca do instrumento, lamentando mtrobrone123inha ignorância, querendo dizer que tocava com a surdina, pensei.

Deixei-o passar e o acompanhei pelo retrovisor. Seguia cadencioso no meio da rua esburacada, naquela manhã de abril, sob um céu plástico e chuvoso do equador. Eu já ia embora quando ouvi o som nervoso da buzina de uma carreta atrás de mim e o baque surdo de um corpo caindo ao chão. O moço, seminu, trajava apenas uma cueca branca e rota. Não havia trombone, não havia banda, não havia música.

Os pássaros madrugadores da cidade pousados nos fios de alta tensão da Eletronorte assustaram-se e fugiram desesperados com o som da morte, para descrever no céu as notas de um réquiem ao trombonista atropelado.