Fernando Canto lança seu livro “Mama Guga – Contos da Amazônia”, em Macapá

Doutor Fernando Canto e seu Mama Guga.

O sociólogo, poeta, compositor e escritor Fernando Canto lançará, neste domingo (5), na Praça Floriano Peixoto, o seu livro de contos: Mama Guga. O lançamento faz parte da programação Arte na Praça, em comemoração ao Dia da Cultura. A obra já foi lançada em maio em Belém (PA) na XXI Feira Panamazônica do Livro e em agosto, no município de Oiapoque (AP).

O livro traz 26 contos do tipo fantástico, alguns dos quais já publicados em sites ancorados na capital amapaense. “Mama Guga”, o conto que dá título ao livro, é uma história de ação, de amor e de situações inauditas do auge da ditadura militar, com sequestro, tortura, aventuras e misticismo que ocorrem no litoral do Brasil, na conhecida e tortuosa rota do contrabando com o Platô das Guianas.

Este é o quarto livro de contos de Fernando Canto, autor eclético, que já incursionou em diversos gêneros literários. Como poeta e ficcionista, Canto ganhou inúmeras premiações e é bastante conhecido na região amazônica.

Fernando Canto é um contista e cronista brilhante. Genial mesmo. Ele é um dos meus heróis nesse lance de escrever e muito me honra ser seu amigo. Já tive o prazer de ler o “Mama Guga – Contos da Amazônia”, que me foi presenteado pelo autor da obra e recomendo, pois o livro é muito porreta!

Sucesso ao Doutor Fernando!

Elton Tavares

O AMOLADOR – Conto de Fernando Canto

Conto de Fernando Canto

“Fazia um silêncio de princípio de mundo”.
(Dalcídio Jurandir)

Contam que qualquer desgraça, a menor que fosse, já era esperada pelos trezentos e tantos moradores da Vila Vistosa de Manga Rosa. Há três meses não chovia e a terra rachava tal como os pés dos lavradores. Os moradores viviam acabrunhados pelos cantos e todos eles martelavam uma angústia terrível, embora houvesse quem espichasse um fio de esperança e levasse alguns fiéis a crerem mais no futuro.

Catarino, o amolador, deslizava suavemente o rio na sua ubá com o intuito de passar uns tempos em Manga Rosa, continuando sua peregrinação profissional entre as pequenas comunidades das ilhas, nas quais arregimentara grande prestígio e a consideração dos pescadores, dos comerciantes, dos lavradores e madeireiros. A bordo, sua mulher Renilda apalpava e penteava os cabelos lisos que de longos transpareciam auriluzentes contra o sol da tarde.

Fora um dia desmedido. Nunca se vira um arco tão claro e tão flamejante no céu daquelas paragens onde tanto chovia e tanto verde medrava antigamente sobre os barrancos aluviais. Os dois comenta

ram o tempo da última viagem à vila e a estreiteza do rio e suas margens lamacentas, pois mesmo com a maré elas permaneciam distantes, assim como se o rio se recusasse a dar seu conteúdo àquela gente pobre que dependia exclusivamente de sua passagem por ali.

À medida que remavam vinha a seu encontro um canto, que de murmúrio passava a ser um coro de lamentos. Era um antigo cantochão pronunciado em latim.

Aportaram com dificuldade no barro da beira do rio, puxando a pequena embarcação para a praia, como se tivessem certeza de que a maré subiria.

– É uma ladainha, disse Catarino. – O estranho é que não é tempo de festa do padroeiro, nem Semana Santa.

– Pode ser que alguém tenha morrido…

– É, tem muita cobra nesta ilha.

Subiram o cais do vilarejo banhados pelos últimos raios de luz. Na rua principal havia uma pensão onde conseguiram um quarto de chão batido, meio úmido. Armaram suas redes em escápulas ruidosas, e exaustos da viagem adormeceram sem se importarem com os carapanãs que vibravam as asas num barulho infernal.

Na casa de Maneco Barbosa, o cantador de ladainhas, alguém deu a notícia de que Catarino chegara ao povoado. Os presentes, que tomavam café após a reza, ensaiaram um sorriso. Não que aquilo fosse uma grande informação, mas de qualquer maneira representava um alívio para os produtores locais, pois na região não existia pedra que pudesse amolar terçado, enxada ou qualquer outro objeto cortante.

Amanhã a gente conversa com ele. O amolador de facas pode ser a redenção de nossa vila. Louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo, disse Maneco, com as mãos para o alto.

Para sempre seja louvado, responderam os presentes, olhando para a cumeeira da casa infestada de aranhas.

O dia nasceu seco. E a aparência desértica realçava ainda mais a acidez das coisas vivas da cidadezinha. Um raro vento levou abruptamente as derradeiras folhas da gigantesca e quase secular mangueira que a frente do esquecido lugar tinha como símbolo. As folhas amarelas flutuavam como painas, confundindo-se no ar, fazendo evoluções fortuitas, desenhando letras imaginárias de uma escrita que talvez significasse um pedido de socorro. Tal como aquelas gentes, a árvore descascava, empretecia e enrugava sob a impiedosidade do sol, cujos raios caíam como bólidos de fogo, incessantemente e sem misericórdia. As gentes diziam não acreditar em castigo, mas acreditavam, embora antecipassem visões de desgraça em virtude da falta de material de trabalho e da ausência de chuvas.

O mais impressionante era a indisposição geral de procurar ajuda, mudar-se para outra vila ou se enfiar para rezar na velha capela construída pelos ancestrais. Todos os moradores eram de origem católica, batizados por padres italianos que raramente apareciam ali para rezar uma missa e batizar as crianças.

Contam que certa vez chegou um pastor de uma dessas inumeráveis seitas que grassam no interior e lá tentou se estabelecer. Convocou os moradores para um culto, mas apenas o doido Gonçalo apareceu. Os dois acabaram discutindo, indo às raias da violência, o que obrigou o presbítero a abandonar a vila às pressas.

As circunstâncias naturais e materiais promoviam pensamentos trágicos quanto ao futuro do lugar. Quase tudo o que se conseguia para comer estava no rio retraído pela estiagem. Porém o peixe estava rareando e os pescadores não se atreviam a ir além da curva do Furo do Ninguém. Atribuíam sua panemeira às últimas palavras do pastor expulso pelo doido, quando de certa maneira houve a conivência de todos: “Esta terra há de torrar e este rio será uma estrada de barro seco. Vocês vão viver agruras até a chegada do próximo milênio, tudo porque recusaram a palavra do Senhor”, dissera, ao embarcar em uma noite chuvosa, sob vaias, risos de deboche e chavões do tipo “praga de urubu não mata cristão”.

Porém, esse fato não abalou a maioria dos habitantes. Mesmo acabrunhados com a brusca transformação de seu meio de vida e apoquentados pela incerteza do tempo, consumiam com certa frequência o que ainda restava de cachaça na pensão do Naldo, conversando sobre suas próprias mazelas, tristes e sérios. Nunca riam. Mesmo sob o efeito do álcool.

Sonolento e ainda intrigado com o que vira na véspera, Catarino sentou na rede, balançou-se um pouco, chamou Renilda e resolveu ligar seu inseparável rádio de pilha para sintonizá-lo em uma emissora da capital.

Viu atônito sair primeiro uma, depois três, depois dezenas de cabas peçonhentas do interior do aparelho que estava repleto de uma massa seca e acinzentada. Com paciência e refeito do susto, o amolador o limpou cuidadosamente, mas desistiu de ouvir qualquer programa matinal. Lá fora os carrancudos moradores estavam à sua espera.

Temos o maior prazer de receber o nosso estimado amigo em nossa terra, cumprimentou-o o rezador Maneco, apertando-lhe a mão. – Como vê, estamos satisfeitos com a tua presença. Faz uns quatro anos que nós não apertamos as mãos.

Catarino tentou sorrir, mas desistiu da ideia. Formigas de fogo devoravam seus tornozelos. Ofereceram-lhe uma barraca para morar e instalar sua oficina, gesto que conseguiu agradecer embora agoniado com as ferroadas.

Dia seguinte, sob o comando do cantador de ladainhas, o povo organizou uma fila imensa, munido de suas ferramentas enferrujadas para apreciar o trabalho de Catarino, já devidamente instalado e pedalando o esmeril para afiá-las. Crianças curiosas metiam-se entre os adultos para ouvir o incessante barulho da máquina de amolar e observar com seus olhos brilhosos as faíscas da pedra. Quem tivesse dinheiro e quisesse pagar o trabalho, pagava. As senhoras, deslumbradas com o novo fio das facas, corriam para descascar velhos pedaços de macaxeira armazenados nas despensas. Um dos derradeiros bois do povoado foi sacrificado em nome da coletividade e repartido entre as famílias, com a anuência do proprietário, que o mantinha vivo com palmito moído no pilão. Lavradores recorreram aos depósitos para catar sementes e plantá-las nas roças abandonadas. Jovens e velhos rasparam as barbas e se perfumaram. As mulheres depilaram os sovacos e os pelos das pernas com navalhas afiadas, improvisaram salões de beleza para tirar cutículas e queimaram pulgas e piolhos, locatários dos seus longos cabelos. Alguns homens cortavam lenha e outros penetraram na mata estorricada procurando vestígios de frutas e raízes. Até caçavam para suprir a necessidade alimentar da comunidade.

Naldo, o dono da pensão, convidou a todos para uma festa que queria dar no centro comunitário em homenagem a Catarino e sua mulher, por terem conseguido a união dos moradores e a esperança comum de os mesmos sobreviverem com maior coragem através do trabalho. Até já sorriam. Faltava agora chegar o período chuvoso.

A festa começou com discursos e aplausos, mas infelizmente terminou logo, assim que um rapaz embriagado quis dançar com Creuza, uma das mais bonitas moças do lugar.

Recusado, o bêbado chutou o rádio de pilha que Catarino havia emprestado para o evento, e de dentro dele saíram novamente centenas de cabas coloridas dispostas a picar os convivas. No corre-corre alguém puxou de uma peixeira e acertou o infeliz causador da confusão, que rolou no chão estrebuchando. Dois de seus irmãos, revoltados e armados com canivetes, partiram para cima do agressor e o mataram, fugindo em seguida.

Quando o dia amanheceu, enterraram os mortos em caixões improvisados, sem o tradicional rito de encomendação das almas.

***

Catarino ficou surpreso ao receber aquelas pessoas deformadas, carrancudas e nervosas vindas do cemitério, trazendo objetos para amolar. Cada qual tinha o semblante carregado, agravado pelo inchaço das ferroadas.

Nos dias sequentes os homens nunca mais rasparam as barbas e nem as mulheres se depilaram. Foram ficando cada vez mais feios, sujos, embrutecidos. O amolador constatou que a maioria das ferramentas afiadas retornava a ele diariamente. Alguma coisa além do habitual estava acontecendo.

O vai-e-vem das ferramentas foi fundamental para que Catarino tomasse pé da situação: suas pedras de amolar estavam gastando em excesso, assim como os objetos dos moradores da vila. Facas, serrotes, tesouras, formões, enxadas e foices afinavam dia a dia, enquanto o estoque de esmeril diminuía. Ele e sua mulher notaram que outras coisas também modificavam.

Observaram, por exemplo, que as pessoas envelheciam e entanguiam precocemente, talvez por causa da quentura e da claridade da estiagem. Dava pena ver moças com tantos pés-de-galinha e rapazes de testa e pálpebras encarquilhadas. Velhos há pouco dispostos para o trabalho agora eram lassos, espectros impossibilitados de andar. As crianças pareciam albinos fugindo do sol, e os cães, feridentos, desabavam constantemente em alguma rara sombra, com um palmo de língua para fora.

Tomava conta da vila a desolação. Havia uma irritação permanente e recíproca entre todos, e até as lembranças recentes eram pequenas. Ninguém, nem Maneco Barbosa, conseguia recordar na íntegra a ladainha aprendida havia décadas com os padres italianos. Vegetais que outrora abundavam os arredores enterravam-se no solo poeirento, afundando até o caule. Seus galhos secos ficavam como dando adeus à vida, tal como mãos de afogado no pedido de socorro.

Os alimentos rareavam e o povo padecia de fome inevitável. Só o casal de amoladores tentava compreender a vala que sobrara do rio, lembrando o que lhes contaram sobre as proféticas palavras do pastor expulso do povoado. Na sua simplicidade pensavam eles que talvez tudo aquilo tivesse sua origem na Justiça Divina ou no mínimo fosse de origem política, pois acostumados a andar na região, nunca haviam visto tanta desassistência e tanta miséria. O amolador recordou que antes de ali chegar, em toda a região chovia. E muito, exceto em Manga Rosa que de vistosa nada mais tinha. Aliás, lembrou, nem cobra existia mais naquelas brenhas. Tudo virara alimento para a população faminta.

Decidiram mudar. Num momento de folga calafetaram a ubá que ainda jazia no barro seco da antiga praia e a empurraram para a vala, aquilo que restava do rio. Iriam pela manhã. Quase nada tinham para levar de volta e não havia necessidade de se despedirem.

À meia-noite um vento assobiou entre os galhos das árvores, correu penetrando as casas de pau-a-pique e se alojou no centro do rio. Outro vento desenvolveu o mesmo percurso. E outro. Mais outro…

Renilda foi a primeira a acordar. Chamou o marido no momento em que um clarão vindo do céu quase os cegou quando penetrou pela janela aberta. Três segundos foram o suficiente para toda a população sair à rua após o forte trovão que ensurdeceu a todos. Seguiu-se uma tempestade sem precedentes. Então gritos e orações se misturaram a choros incontroláveis. Choveu por cinco horas e ninguém mais dormiu.

A árvore símbolo e os outros vegetais secos da vila amanheceram com uma profusão imensurável de besouros. Eram tantos que pareciam formar uma espécie de teto sobre o lugarejo. Mesmo assim, os homens estavam mais alegres e muitos se cumprimentavam sem irritação ou desconfiança. E havia sinais de muita, muita chuva por desabar. Eles que se preparassem, pensou o amolador, a água que se aproximava era tanta que poderia matá-los afogados.

Catarino apanhou sua pequena bagagem e caminhou o rio junto a Renilda. Reconsertou a ubá, tirou a água do casco e substituiu o toldo de palha destruído pela chuva.

Ao fim do conserto, partiram devagar, contemplando a Vila Vistosa de Manga Rosa, lugar de coisas inomináveis, palco da miséria exacerbada e de homens endurecidos pelas circunstâncias. Um adeus era muito para quem partia a salvo com os corpos marcados, cansados e gastos como as pedras de esmeril que ainda sobraram.

 

*Este conto de Fernando Canto está publicado no e-book “Os tempos Insanos“.

 

NA TRAVESSIA, DENTRO DA NOITE FEIA – Conto de Fernando Canto

Conto de Fernando Canto

“Sim sinhô, tamos saindo de novo de mais um porto de carga, partindo em busca de um outro no constante vai – e – vem que a nossa vida comanda. Nós aqui que se defenda do destino! Se a gente come ar, água barrenta e jabá com farinha é porque Deus tem querença e nós só temos que obedecer, rezar sempre que puder pra não ter a sorte de peixe na rede do pescador.

“Já é noite velha e fechada por um tempo enegrecido com cara de tempestade. Já é mais uma entre tantas a deslizar nas águas benditas destas paragens que nos servem pro trabalho e pros despachos das coisas que não precisamos mais. É noite fechada, é sim… sem hora, descaminhada, prenha de vento forte e que judia a solidão mais amiúde que um homem saudoso tem…

“Sim sinhô, é duro ter mãos calosas, pé rachado e cicatriz das cargas que bem carrego, desde jito, lhe asseguro, pensando e Ter bem dinheiro pra dar uma casa ao pai na velha Vila Formosa de Bom Jesus do Anaju. Minha vida é o que carrego cada vez que o barco sai, toda vez que o barco chega e toda vez queu me arrependo.

“Saudade não tenho tanta da minha infância, eu agaranto. Sempre fui acostumado com a dureza do trabalho, mesmo ficando aos poucos taludo, entanguido e forte, mas-porém malandro e astuto desde as primeiras pontes, canoas e remos de tábua.

“Tenho visto muita coisa neste mundo encarquilhado, coisa do arco-da-velha e cores desencardidas. Só não vi padre fuder freira nem piramutaba ovada. Mas visage, isso então… Nem lhe conto, pra que não pense o sinhô queu sou desses mentirosos. Desde jito, quero que Deus me cegue… vi mato pegando fogo nas ribanceiras dos rios, gente gritando muito debaixo da chuvarada de bala da jagunçada que vagueia atrás de sangue a mando dos coronéis. Vi muita lepra perversa em forma de home comum aumentando dia-a-dia nos trapiches que aportei, como uma vez na Estrada Nova quando pediram um cigarro pro dono do barco Olavo, da terra de Cametá. O rapaz que nem fumava morreu de treze facadas só porque não tinha pito e nem pôde se arrepender.

“Não senta na minha ilharga gente malina e rude. Eu olho logo de esguelha, desconfiado do besta que procura confusão. Eu tomo minhas cachaças sem ter preferência à marca, todavia, lhe garanto, nunquinha caí de porre.

“Dei serviço em muito barco, já tive muito patrão, faz quase quarenta anos que rolo por cima d’água. Não quis me casar, o sinhô sabe, meu tempo foi pro trabalho, e mesmo eu não tenho casa e a maorparte dos meus parentes já foram encontrar com Cristo na morada celestina, onde só tem convite que foi nesta vida humilde. Assim nunca me arrependo de não ter me amasiado com rapariga festeira nem com mulher assanhada. Umas três já declararam que ficaram prenha deste, pois eu lhe conto, não nego, que também não sou santinho. Só sei que nunca fui pai nem padrinho de menino nos lugares onde parei pra carregar esses trabalhos, descarregar minha gala, trocando o óleo da pomba… Humrum! Molhar o osso, seu menino, é preciso praticar, senão a cabeça endoida, fica bilé, bilé. A gente fica mofino, não dá atenção pras coisas e com calo na mão não presta bater punheta nas folgas. Vara de macho escroto precisa de bem carinho e basta só um pouquinho pra entrar nas perseguidas e se lambuzar de prazer.

“Sim sinhô, tô divagando… Me adesculpe se lhe enjôo com esta conversa fiada. É queu vivo me acercando das coisas do meu redor como desta noite feia. Arrepare que tem lua pra nascer daqui a pouco, minguando, mais ainda grande, que vai ajudar com imenso nossa longa travessia por cima desta baía. Vigie ali rés à mata a chegada de um clarão: é ela empurrando as nuvens pra cair logo uma chuva e o barco seguir em paz. Antes que a chuva venha, se ajunte mais pra dentro deste comando apertado, se aproteja do frio que judia a gente e dos solavancos das ondas que neste vento paresque até banzeiro espumante do catamarã da Enasa. Depois da procela forte vem um pouco de chuvisco e as ondas vão se acamar, daí chega a lua branca e eu ainda posso ver á frente sem precisar de farol. Eu moço já andava em barco que não tinha nem motor, nem bússola ou farolete, daqueles movido a vento, onde a gente se guiava pelos lugares que via. Só conhecendo, velava e se livrava dos troncos arrancados dos barrancos.

“Inda mais… Me lembro que já passei por maus momentos, indizíveis, apelando para a Virgem na hora da morte certa, como daquela vez, paresque numa baía chamada Curralinho, quando o casco do barco abriu ao bater numa jangada de troncos, solta e perdida no negro da escuridão. Dessa vez não teve tempo pra desviar do perigo. Morreram cinco pessoas. Consegui salvar só duas que levei lá pra beira em cima de um camburão de óleo combustível.

“Meu parente, se não é a Virgem no céu, os marítimos se estrepam aqui na terra. Coisa ruim só acontece conosco, gente sofrida do mar. Perdi muitos companheiros que foram pras profundezas destas águas amarelas onde vive boto e Iara, boiúna e cobra Sofia.

“Mas quando já…! O sinhô pode pensar. Não creio nessas conversas. Há de dizer o parente. Mas lhe garanto uma coisa: este rio tem tanta água como ente que judia. Já vi coisas, seu menino, que penso não acreditar, por isso prefiro a morte que me arrepiar de medo quando enfrentasse, ‘sconjuro, gente que não desse mundo.

“Espie só a chuva passando. Agora que só tem lua e um mar calmo pela frente é que vem na minha mente uma figura ‘stimada de um homem sempre presente no meu imparável trabalho.

“Não arrepare se eu falo assim meio ‘stúrdio, mas dentro de mim vem uma dor afogalhada toda vez queu cambo meu pensar pra esse lado. Talvez o sinhô tenha tido algum patrão na vida. Não sei se lhe importa eu soltar minhas mágoas que me atormentam benzinho no fundo da minha alma. Tome um café, me escute e não arrepare essa dor.

“Tordia fiquei macucando… pensando na minha vida, no meu destino de boto que paresque é fazer as coisas e desaparecer nas águas. Já vi que tem parecença com as ondas e com tudo do meu redor. É como se eu fosse mururé dançando n’água, planta que tem flor roxa e folha verde e se assustenta do rio. Vai pra onde a maré bate, mas continua pelo rio até bater numa praia, se dividir ou se somar nos troncos da aningueiras ou na hélice do barco despedaçar de vez.

“Não quero ter descamaradagem com a figura do patrão, porém já sofri bastante vendo ele ficar alegre ao conferir o dinheiro que o nosso trabalho dá. Queria ver eles sem nós. Só com seu barco, só ele navegando por aí, debaixo da tempestade. Tá, cheiroso! Eu ia dizer, vendo a sua cara torta. Te vira, seu porcaria… Eu ia era rir. Hum, ele não teria mais aquele riso indecente cheio de dentes de ouro nem os olhos miudinhos que brilham tal quando conta o lucro que o nosso trabalho dá. Disse ao sinhô queu ‘stimava a figura do patrão, mas ora já penso certo, acho que ele não merece queu pense dessa maneira.

“Muitas vezes ouvi no rádio que o Brasil era gigante, acho que é isso mesmo, devido ter viajado, conhecido muitas terras só aqui na região. Isso me faz pensar nas coisas deste mundão onde tudo é muito grande, mas os homens são sempre pequenos. Ninguém segura essa terra, disseram também no rádio, e largaram ela pruns homens de fala e de corpos estranhos. Era pra gente ir frente que a vida ia melhorar, mas só nós, os que navegam, nunca melhoram na merda desta vida, nem seguro dela tem, ganham salário mínimo, o menor, eu acho sempre, pois não dá nem-nem pra sacanagem nos puteiros de Belém, inda mais se, por exemplo, eu tivesse uma família pra assustentar por aí.

“Sim sinhô, me apustemo de trabalho, só vejo trapiche e cais nas margens que descarrego de um lado e doutro do rio. Tô ficando aporrinhado, tô me sentindo um ladrão querendo roubar as coisas, mas preso porque não roubou. Não digo que matei gente, mas minha vontade é enorme de arrancar os dentes todos do ‘stimado patrão. Égua! Égua! Se aguento tudo isso é porque não tenho estudo nem registro e a carteira da Capitania dos Portos. Não tive oportunidade nem incentivo pra essas coisas do ‘stimado patrão, que ganha nas nossas custas tudo aquilo que queremos pra gente viver um pouquinho sem depender de ninguém.

“Não tenho inveja, agaranto, e quero que me adesculpe se falo assim do patrão. Minha sina está nas águas deste rio que bem conheço, que é meu amigo bacana, mas-porém que é traiçoeiro quando a gente nem espera… Hum. Minha sina está com ele, o rio de toda uma vida, a única coisa viva que mais arrespeito e amo, meu calmante dessas horas de aporrinhação.

“Meu parente, eu falei muito das coisas que tanto vi, como da lua minguante que ora ilumina a nós e da figura ‘stimada do proprietário do barco que a gente navega aqui. Antes de acabar meu turno, antes de ir descansar, quero apenas lhe dizer que a minha vida é assim mesmo, paresque noite vergada, com vento e luar minguando, se acabando para o dia que vem chegando benzinho, trazendo o sol que só engelha o resto da dor da gente”.

As que se chamam Flávia… – Conto de Ronaldo Rodrigues

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Conto de Ronaldo Rodrigues

– Outubro é muito perigoso!

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É preciso segui-la. Sinto isso logo que a vejo na livraria. Está folheando uma revista, sem muita atenção, fixando-se apenas nas fotografias. Parece estar ali com o mesmo propósito que eu, matando o tempo até voltar ao trabalho.

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– Outubro é muito, muito perigoso!

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Ficamos lado a lado, embora a mulher permaneça como se só ela existisse. Tenho a visão no livro que folheio sem qualquer interesse e a atenção totalmente voltada para a mulher. Ela fecha a revista decididamente, olha para o relógio e o percebe parado:

– Sabe as horas, moço? – Pergunta, altivamente.

– Nã… Não! Não… sei… – Gaguejo, respondendo.

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Quem sempre me dizia isso era o Capitão Nemo:

– Tenha muito cuidado, menino! Outubro é muito perigoso!

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Ela deixa a revista na estante e dirige-se à portaria. Confere a hora e acerta o relógio. Sai da livraria e eu continuo olhando aquela mulher, agora através do vidro da vitrine. Ou será que não existe vidro algum? Meu olhar é que fez a parede tornar-se transparente?

Pergunto o motivo do perigo de outubro e ele responde, depois de longo silêncio, os olhos em transe, na direção do mar:
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– É em outubro que começamos a enlouquecer! É em outubro que costumam surgir as sereias!

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Ela atravessa a rua. Saio da livraria, disposto a segui-la, e paro na esquina. Contemplo, então, o espetáculo da rua silenciar-se para a passagem daquela mulher. A paisagem urbana torna-se repentinamente quieta, mas com uma acelerada pulsação interior que começa no asfalto e termina/continua no meu peito.

Ela entra num edifício e eu continuo seguindo seus passos. Ainda não me percebeu e acho que isso não acontecerá nunca. Ela aguarda a chegada do elevador junto a mais três pessoas. Incorporo-me ao grupo e passo a esperar também.

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Todos dizem que não devo dar atenção às palavras do Capitão Nemo. Dizem ser louco tanto o Capitão Nemo quanto quem o escuta. Mas eu digo que não. É preciso buscar o sentido das palavras, principalmente das que nos parecem mais delirantes.

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O elevador chega, nos recolhe e inicia sua lenta subida. As pessoas vão ficando em seus respectivos andares até restar apenas eu e a mulher. Como música de fundo, meus batimentos cardíacos ecoam nas paredes do elevador confundindo-se com a palavra outubro.

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Outubro. Agora compreendo claramente seu perigo. O Capitão Nemo ficou aprisionado em sua louca lucidez, nos destroços do seu navio, enfeitiçado por uma sereia. Eu estou preso neste elevador atraído por uma sereia. Aqui ficarei para sempre, aguardando todos os dias aquela mulher maravilhosamente perturbadora cujo nome conheço apenas a letra inicial (F), que vi uma vez em que ela abriu rapidamente a agenda.
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Todos os dias, quando ela sai do elevador, ainda sem notar minha presença, recordo as palavras do Capitão Nemo, que todos acreditavam serem palavras de um louco:

– É preciso ter muito cuidado com as sereias de outubro. Elas são cruéis e nos enfeitiçam com desejos intocáveis. Principalmente, meu filho, as que se chamam Flávia…

* Este conto foi publicado em 1995, na coletânea Novos Contistas da Amazônia, em Belém, resultado de um concurso promovido pela Universidade Federal do Pará. Tempos depois, o conto inspirou a HQ Outubro, do cartunista Paulo Emmanuel, premiada em dois salões de humor. Isso mostra o quanto este conto é quente.

Macapá já se anunciava para mim, pois o livro trazia contistas que só fui descobrir aqui, como Archibaldo Antunes e Ray Cunha, e apresentação do grande Fernando Canto.
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Gosto muito deste texto, creio que seja um ponto alto da minha carreira de contista, que ofereço agora como homenagem, digamos assim, ao mês de outubro.

Ronaldo Rodrigues

OFICINA GOURMET – Crônica de Marcelo Pereira

Crônica de Marcelo Pereira

Que tempos terríveis estão vivendo os machões! Digo mais: A figura do macho-alfa está praticamente extinta! E quem diria que isso iria começar a acontecer há mais ou menos dez anos…Mas voltando um pouco no tempo, tento lembrar onde esse fenômeno começou.

Lá no início dos anos 2000 (segundo estudos feitos em meu oráculo: o Google) começou a febre gourmet.

Explico: TUDO virou gourmet, a varanda é gourmet, o hot dog, a feijoada – acreditem, até a feijoada – tornou-se do dia pra noite, gourmet. Me perdoem os moderninhos, mas isso é demais.

Saudosos tempos em que íamos à padaria comprar nosso pãozinho careca diretamente com o dono. Tempos bons aqueles! Hoje em dia para ir à mesma padaria você passa por educadas moças que querem, por que querem, que você assine a revista X ou faça uma visita (sem compromisso) ao clube Y. Depois de muito penar você consegue se desvencilhar das contudentes senhoritas e avança rumo ao balcão, esperando encontrar o seu salvador: Seu Manoel, o querido padeiro! Tal grande é a sua surpresa quando percebe que, ao invés do Manuelzinho você encontra uma figura de branco, com gorro e máscara, aparentando que à qualquer momento irá fazer uma cirurgia naquele local. É a maldita febre gourmet!

Ao pedir os pãezinhos para o jovem doutor, mais uma decepção, você recebe o dito cujo acondicionado em uma sacola de papel. Diabos! Onde está aquela saudável tira de papel que o Seu Manoel usava para enrolar os pães? Era maravilhoso o poder isolante daquele pedaço de papel em nossas mãos, íamos felizes em nossas bicicletas levando aquilo, com o risco constante de ser feito vítima dos cachorros da rua, prontos para nos morder e levar o bendito pão de nós…ai que saudade daquela época!

O mesmo acontece no restaurante, na lanchonete, no supermercado, e até o seu melhor amigo começou a aderir à moda, instalando uma varanda gourmet. O traidor diz que foi forçado pela esposa a dar novos ares à casa, mas no fundo você percebe que o Judas traiu mesmo a causa, com gosto.

Cabisbaixo você volta pra casa, pelo menos a velha televisão não vai te decepcionar, ainda tens a oportunidade de ver seu velho seriado, aquele com violência, sangue, pauladas e tiros! Diversão garantida! Porém, para sua lástima, o seriado foi trocado por um novo reality show capitaneado por uma psicóloga chamado “Conte seus problemas”. É de matar, a televisão transformou-se em gourmet também.

Ao raiar do dia, depois de findo o café, você leva seu possante, aquela máquina maravilhosa dos anos 90 que só você ainda tem, motorzão 2.0 bem beberrão, que só consome gasolina (motor flex é coisa gourmet) ao seu mecânico de confiança. Todo machão sabe que o segredo para ter sempre um excelente carro é a mecânica preventiva.

Ao chegar à oficina, um princípio de infarto ocorre! O que é isso? O Pedroca pintou tudo! Tem neon na entrada meu Deus! A oficina parece uma sucursal do Palácio do Alvorada, os mecânicos estão usando macacão, botas e bonezinhos…

Essa traição você não pode aguentar. O último bastião da moral cristã (a oficina de automóveis) foi corrompida. A oficina do Pedroca – que insiste em ser chamado de Pedro Vasconcellos foi violada, agredida pela nova moda.

Antes de ter uma síncope, tenho um vislumbre do futuro: todos dando as mãos, felizes, maravilhados, cães e gatos são agora irmãos, as guerras acabaram, não existe mais dor ou desespero, os últimos machos alfa estão mortos e os malditos Gourmets dominaram o mundo!

“Os patos”, de Rui Barbosa e o Zeca Baleiro

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Diz a lenda que Rui Barbosa, ao chegar em casa, ouviu um barulho estranho vindo do seu quintal. Chegando lá, constatou haver um ladrão tentando levar seus patos de criação. Aproximou-se vagarosamente do indivíduo e, surpreendendo-o ao tentar pular o muro com seus amados patos, disse-lhe:

“- Oh, bucéfalo anácrono! Não o interpelo pelo valor intrínseco dos bípedes palmípedes, mas sim pelo ato vil e sorrateiro de profanares o recôndito da minha habitação, levando meus ovíparos à sorrelfa e à socapa. Se fazes isso por necessidade, transijo; mas se é para zombares da minha elevada prosopopéia de cidadão digno e honrado, dar-te-ei com minha bengala fosfórica bem no alto da tua sinagoga, e o farei com tal ímpeto que te reduzirei à quinquagésima potência que o vulgo denomina nada.”

E o ladrão, confuso, diz:

“- Dotô, eu levo ou deixo os pato?

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Zeca Baleiro, faz essa mesma citação em sua música “Vô Imbolá”, mas num contexto diferente que pode-se aplicar muito bem ao nosso dia-a-dia, principalmente aos bucéfalos anácronos:

“- Como é por ignorância transito, mas se fosse unicamente para menoscabar de minha alta prosopopéia, dar-te-ia um soco no alto da sinagoga que por-te-ia mais raso do que solo pátrio!”

Não lembro onde achei isso, pois faz anos, mas é genial, não?

O trombone invisível – Conto de Fernando Canto para Obdias Araújo.

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Conto de Fernando Canto para o poeta Obdias Araújo.

Ainda era muito cedo.

O rapaz de uns vinte e cinco anos vinha no meio da rua tocando um trombone de vara, marchando alegre e sem medo de ser atropelado pelos veículos pesados que se movimentavam para pegar a rodovia JK. Ele soprava e punha a mão na boca do instrumento, ajustando-o. O tipo de música executada se assemelhava a um dobrado, já que seus passos seguiam em perfeita cadência rítmica, como se desfilasse numa parada escolar. Devia puxar o pelotão de uma banda musical que talvez lhe seguisse após a desobstrução da via. De vez em quando olhava para trás, mas sem parar de marchar.trobone1

Dobrei meu caminhão para o acostamento e esperei que passasse por mim. Eu disse:

– Ei, amigo, não estou ouvindo direito essa música.

Ele me olhou meio de esguelha, com certo ar de desprezo e apontou o dedo para a boca do instrumento, lamentando mtrobrone123inha ignorância, querendo dizer que tocava com a surdina, pensei.

Deixei-o passar e o acompanhei pelo retrovisor. Seguia cadencioso no meio da rua esburacada, naquela manhã de abril, sob um céu plástico e chuvoso do equador. Eu já ia embora quando ouvi o som nervoso da buzina de uma carreta atrás de mim e o baque surdo de um corpo caindo ao chão. O moço, seminu, trajava apenas uma cueca branca e rota. Não havia trombone, não havia banda, não havia música.

Os pássaros madrugadores da cidade pousados nos fios de alta tensão da Eletronorte assustaram-se e fugiram desesperados com o som da morte, para descrever no céu as notas de um réquiem ao trombonista atropelado.

Teresa (em preto e branco) – Tãgaha Soares

 

 
E foi na batata da perna de Teresa que escrevi as minhas primeiras palavras na língua nativa. 

No princípio, ela até gostou, ficou lisonjeada quando lhe disse que eu estava escrevendo um livro nela. Depois, me recusava, porque eu só procurava seu corpo para escrever…
 
O livro já estava pelo sétimo capítulo quando ela me abandonou…
 
Sem ela, perdi o fio do novelo. Passava os dias catatônico diante de uma folha de papel em branco…
 
Experimentei escrever alguma coisa em mim mesmo, mas não era tão bom.
 
Então, fui procurar as putas…

Retratos – Conto de Marcelo Pereira

Ao final de mais um dia de trabalho, chego em um pé-sujo e tento desanuviar às ideias. O pinguim que me atende tem menos dentes do que aquilo que se chama de minimamente necessário. Peço uma geladinha e o sujeito balbucia algo sem sentido.

Vejo a fauna reinante no barzinho. Fauna é um termo bem apropriado, pois os seres ali presentes são dignos de catalogação. O bêbado onipresente está lá com suas garrafas espalhadas embaixo da mesa, ele se encontra naquele estágio de semiconsciência em que as imagens tornam-se turvas, e não se percebe o que é real.

O velho professor está lá também. Está lendo um antigo romancista russo. Suas roupas já viram dias melhores. Dostoiévski tenha pena desse pobre professor. O jovem casal está mais ao fundo do bar, estão discutindo por alguma bobagem própria dos casais na tenra idade. Logo descobrirão que a vida é muito curta para discutir por bobagens. Um Don Juan de araque está em pé assoviando para as meninas que passam apressadamente pela avenida. Que criatura bizarra! Será que o pavão acredita realmente que suas cantadas mal conduzidas e sua plumagem circense podem atrair possíveis vítimas?

A senhora olha com ar de tristeza para os pequenos quadros expostos na lateral do barzinho. Seus cabelos presos, sua face carregada por uma maquiagem superlativa demonstram que na juventude sua vida deve ter sido menos difícil. O que provocou sua queda precoce?

Então vejo Joaquim, meu amigo de infância, e grito: Joaquim! Joaquim! Ei rapaz! Sou eu! Antônio! Meu amigo olha pra mim e não me reconhece. Estou tão velho assim? Ou ele não quis falar comigo? Éramos tão amigos antigamente. Que pena. Os poucos amigos que me restaram, ou morreram ou moram em lugares tão distantes….Ou não me reconhecem mais, e se reconhecem, não me acham merecedor de uma pequena conversa.

O proprietário do bar avisa que o mesmo está para fechar e pede para os clientes pagarem suas contas. Sou forçado a ir, sou forçado a pagar a conta. Passei uma vida inteira sendo forçado a fazer coisas que não queria. A cerveja vai esquentar, o bar vai fechar, um dia o dono do bar, o bêbado, o velho professor, o jovem casal, o pavão, a senhora, Joaquim, eu, iremos morrer e tudo continuará, como se nunca tivéssemos existido. Seremos retratos na estante de alguém. Tudo passa.

A Pedra Encantada do Guindaste – Conto de Alcinéa Cavalcante

Conto de Alcinéa Cavalcante

Não me pergunte porque aquela pedra, ali no rio Amazonas, bem na frente da cidade de Macapá, é chamada de Pedra do Guindaste. Eu não sei. O que sei é que nela morava uma princesa de olhos claros e cabelos cor de mel. Sei também que em noites de lua nova, a pedra se transformava num imenso navio azul.

Açucena – é este o nome da princesa – foi trazida para Macapá para conhecer seu noivo González, um dos homens mais ricos da região, dono de terras a perder de vista, incontáveis cabeças de gado e minas de ouro. Era culto, elegante e bonito.

Açucena não o amava, mas não se opôs à vontade do rei.

Casaria com González, não tivesse visto certa manhã, um sorriso tão lindo, tão amplo, tão cheio de ternura, que se sentiu abraçada por esse sorriso. E aquele par de olhos? Ah, naqueles olhos brilhava esperança. E em Açucena nasceu a esperança de ser feliz, de amar, de ter um amor para a vida inteira.

Desistiu de González.

O rei e a rainha não aceitaram, afinal tinham prometido a mão da filha ao homem rico e promessa de rei tem que ser cumprida. Além disso, o dono do sorriso que encantou Açucena jamais poderia entrar num palácio, nunca – nem em sonho – poderia fazer parte da família real. Ele era negro, sem estudos e sem posses. Era um escravo que passava o dia inteiro carregando pedras, sob o sol escaldante, para a construção da Fortaleza de São José de Macapá. Trazia no corpo as marcas das chibatas, mas no olhar um brilho diferente, que iluminava a alma e o coração da princesa. Não era proprietário de terras, de gados, de ouro… mas era proprietário de esperanças, versos e ternura. Se descobriram apaixonados um pelo outro. Açucena todos os dias, antes do sol nascer, postava-se à beira do rio, quase ao lado do local onde estava sendo erguida a Fortaleza, para vê-lo passar e ser abraçada por aquele sorriso tão amplo.

Obrigada pelo rei a casar com González, Açucena decidiu fugir. Num final de tarde, quando a primeira estrela surgiu, ela jogou-se no rio e foi nadando, nadando, nadando em direção à Pedra do Guindaste e lá se escondeu da família, do mundo, do luxo, de González e de toda riqueza material.

Os mais antigos contam que todos os dias, antes do sol nascer, uma princesa surgia, como que por encanto, naquela pedra. Mas só era vista por pessoas extremamente apaixonadas. Conta-se também que em noites de lua nova a pedra, como num passe de mágica, se transformava num iluminado navio, mas só olhos cheios de ternura poderiam vê-lo.

Passados anos e anos e anos, um artista português esculpiu uma imagem de São José e colocou-a em cima da Pedra do Guindaste. Açucena sabia que São José era o santo padroeiro de Macapá e começou a rezar e pedir ao santo a graça de viver e ser feliz com seu grande amor.

As negras velhas ( Por Fernando Canto )

Conto de Fernando Canto

Caixas do marabaixo retumbam/retumbam em círculos movimentados de pés descalços/negros pés. E saem das línguas vermelhas os gritos guerreiros e as canções improvisadas da guerra que nunca houve. A valentia é substituída pelo insaciável apetite de voar sem asas para mitigar dores ancestrais, enquanto rosas brancas, açucenas e papoulas enfeitam a negra beleza dos cabelos esticados em rolinhos de plástico… E sob os olhares críticos da geração megahair.

As caixas retumbam/retumbam e dobram incansavelmente ao meio de odores/suores/toalhas e saias rodadas que combinam brancas anáguas bordadas de renda.

O Marabaixo prossegue em seu curso no arrasto dos pés pela roda, em cursos passos à frente e um passo cansado atrás.

As velhas do Marabaixo cochicham segredos e riem dos seus casos antigos que ora se sentam nos bancos corridos dispostos pelo salão. É lá que as histórias completam a memória, acertam verdades e crenças e extinguem resquícios de quizílias familiares.

No gesto de encher a colher de caldo e levá-la à boca, na satisfação do gole da batida de gengibre e na algazarra de enfeitar o mastro com galhos de murta, está a poesia do povo e a fortaleza do sangue um dia pisado e magoado por grilhões e calcetas.

O diabo está solto no tempo do Marabaixo. Dizem que quem for podre que se quebre ou que se pegue com o Divino, aquele do Espírito Santo.

O diabo está solto, sim. Mas as negras desdenham dele e gargalham em seus sorrisos falhos, sabendo que o que fazem é bonito, é autêntico e dá uma saudade imensa…

* Publicado no livro EquinoCIO, de 2004.

Fotos encontradas nos blogs Visite o Brsil, Porta Retrato e Amapá da minha Terra

TSUNAMI AMAZÔNICA (Conto de Fernando Canto)

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Foto: Max Renê

Conto de Fernando Canto

Três dias após a morte de F.C. eu soube da notícia alvissareira: o rio voltava a encher. Devagar, mas voltava. Os habitantes que restavam na cidade já sorriam com grandes esperanças.

Até então ninguém sabia as causas que fizeram o maior rio do mundo em volume d’água se afastar tanto do seu leito natural. Os cientistas se contradiziam, ecologistas acusavam os governos dos países ricos e o povo alimentava superstições e castigos misteriosos de diversas deidades. Mas o certo é que as marés que por aqui chegavam ficavam muito além do trapiche. Tudo acontecera tão rapidamente que os ariscos mergulhões tiveram que virar comida e as andorinhas, tão sinceramente nossas, desapareceram. Quem diria! A praia de mangue da antiga beira-rio parecia um cemitério de pequenas embarcações. Houve emigração em massa e a economia da região despencou. Sobrevivíamos com doações.

A cidade evaporava. Era um deserto em consumição. Suava com o calor assassino. Só melhorou quando F.C. convocou extraordinariamente a Assembleia Legislativa e apresentou Projeto de Lei que invertia o horário de funcionamento de trabalho e de todas as atividades oficiais: todos trabalhariam à noite e descansariam de dia. Naturalmente que tudo fora regulado, inclusive os plantões. Apesar de polêmica, fora a decisão mais sensata, principalmente no que se referia à energia, visto que as cabeceiras dos rios das hidrelétricas estavam secando.

As mudanças climáticas eram rápidas. Ninguém nos explicava nada, as notícias sobre o assunto eram desconexas, fugazes.

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Foto: Egry Maia

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Foi no domingo que eu senti o nó no peito e o pressentimento de algo terrível: liguei o rádio e ouvi que uma onda gigante se aproximava do litoral a uma velocidade crescente; que se separara em duas ao bater na costa oriental da ilha de Bailique. Uma seguia, destruindo as pequenas ilhas do arquipélago e outra deslizava rumo a Caviana. A primeira ganharia mais força e se somaria à pororoca, correndo mais rápida ainda em nossa direção. Já tinha uns cem quilômetros de extensão e vinte metros de altura. Em poucas horas chegaria a nossa vulnerável cidade.mcpfim1

Fomos alertados e preparados pela Defesa Civil e pelos Bombeiros. Quando ela se anunciou, barulhenta e avassaladora, ainda deu para vê-la alta, acima das ilhas do outro lado do rio. Segundo o rádio ela media em torno de sessenta metros de altura. Era um ser estranho vindo guerrear e destruir. Chegou veloz e mortal com seu companheiro vento, rebentando o que era fraco e lavando praças e edifícios.

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Até que as mortes não foram muitas. A maioria acreditou na ciência e nas informações maciçamente veiculadas.

Mas a cidade ficou suja e caótica. Só alguns grupos de estudantes se divertiam colhendo os peixes oceânicos que se debatiam nos lagos formados com a intempérie. Tudo era novidade. Mas já se falava em reconstrução.

O fluxo-refluxo da tsunami fez o rio encher e ficar agitado, cheio de ondas, cheio de vida. Sua água agora é salobra e de tonalidade esverdeada. Disseram-me que só daqui a dez ou vinte anos ele voltará ao que era.

Já dá para ouvir o grito das gaivotas, a silhueta dos mergulhões em formação de flecha e uma nuvem de andorinhas bailando ao pôr-do-sol do equador. Parecem cavalos alados à procura do Olimpo.

O pouso do anjo viajante (Conto ´porreta de Fernando Canto)

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Conto de Fernando Canto

Anjo migrador anda silencioso pelo trapiche que ora aporta – barco de sonhos, nave de asas longas. O anjo tem a pele avermelhada como a de um de buriti flutuante ao sabor da maré, e ronda misterioso pela frente da cidade onde pousa. Parece ter medo ou desconfia que ela não o receba. Ele olha, então, o rio, uma grande dádiva de Deus, e sente o vento lhe arrepiar o corpo como um hálito frio da madrugada, uma brisa que levanta seus cabelos aureolados pela luz contraposta da lua minguante, nesta noite onde a viagem parece terminar.

Depois que o dia acende sua fogueira e o rio se prende num alguidar é que se vê o anjo em sua humildade: é velho e está nu. De suas minúsculas asas se soltam antigas penas que pegam penura e depois descem mansamente nas águas. Ele caminha pela ribanceira para se hospedar na primeira casa que encontrar.images (3)

– Bom dia, diz ao homem da primeira casa. – Tenho fome, me arranje o que comer.

– Bom dia nada, seu velho tarado. Vá tratar de se vestir que já-já minha família se acorda e eu não quero que ninguém lhe veja assim.

O anjo se magoa. Ah, nada como um anjo magoado pela malícia e a incompreensão dos homens comuns. Ele chora, abana as asas e voa, para o espanto do homem da primeira casa.

images (1) (1)Ele desce. Limpa as lágrimas. Assua o nariz com as mãos. Não desiste. Bate na segunda casa. Pergunta à dona dela: – A senhora poderia me dar água?

A mulher, ainda sonolenta, despeja-lhe um balde d’água e lhe diz: – Vá tomar banho, miserável. Isso são horas de me acordar?

Ah, ele sofre de novo. E chora e sobe e rola nas nuvens cirros, lamentando a incompreensão dos seres humanos, para o espanto e a confusão que fez nascer na cabeça da mulher da segunda casa.

Mas ele pára e releva tudo. “São apenas seres humanos”, pensa. Vai à terceira casa e uma criança lhe diz: – Entre vovô, deite na rede do papai que eu vou servir um café quentinho pra você.images (2)

A criança conversa como um adulto. Liga a TV, mas não pára de tagarelar. O anjo viajante fica abismado com a precocidade daquela criatura e se envolve em um diálogo onde não cabem tantas palavras e onde os gestos se rompem entre lágrimas retidas e rios de alegrias.

Perto do almoço o anjo sente o odor do peixe em cozimento. Gostosos cheiros de ervas desconhimages (6)ecidas para ele dançam no ar do ambiente. A criança lhe explica tudo, fala os nomes das coisas. Repete a toda hora: – Papai tá pra chegar, fique pro almoço. Ele saiu cedo pra pescar, mas já tá vindo.

Admirado, o anjo decide ir embora antes que o pai da criança chegue, pois não queria ser novamente ser incompreendido pelos adultos. Come a caldeirada de filhote, um manjar inusitado em sua desmemoriada vida eterna. Sai pé-ante-pé, saciado e contente, com as asas revigoradas empurradas pelo vento forte da maré.

Ao chegar lá em cima, começa a crescer tão desmedidamente que chega cobrir o sol. Olha para baixo: uma multidão de curiosos fere as retinas sob o sol. Todos querem ver esse prodígio.

O homem da primeira casa, que lhe negara comida e o escorraçara, a tudo assiste e lhe acena. A mulher que lhe negara água diz a todos os vizinhos que o saciara, mas que era um anjo ingrato. A criança da timages (4)erceira casa – que lhe dera abrigo, água e comida – solta seus cabelos amarelos ao vento e ele então pára no ar, volta ao tamanho inicial e sorri. Faz um sobrevôo e de rasante rapta a criança e a coloca em cima das águas do rio. Ela anda sem medo e chama as pessoas para que a acompanhem. Todos vão a ela, exceto o pai, aflito, que acabara de chegar para o almoço.

O sorriso do anjo é forçado agora. Há de se notar que ele fora arrogante e não queria fazer o que fez. Mas está feito. As águas do rio se revoltam e todos nelas se afundam. Todavia o sol a pino se abre e raios brilhosos conduzem a criança a terra para os braços do seu pai.

Aí o anjo entra em seu barco alado, que agora parece uma bola de fogo, e parte levando em suas asas todos os cheiros, todos os gostos e todas as palavras ditas pela criança. Ouve-se um trovão e uma chuva amazônica desaba sobre a cidade.