A última ceia – Conto de @juliomiragaia

Conto de Júlio Miragaia

Não havia nenhum luxo naquela comemoração. A época de chuva umedecia os caminhos de madeira da ponte onde ficava a humilde casa, das tábuas encharcadas e cada vez mais escuras e enlodadas com o passar dos anos.

Dos três irmãos, apenas João havia conseguido, com suas economias, comprar uma roupinha nova, que não tinha nada de mais.

A ceia também não era o mais refinado dos banquetes, mas era a melhor refeição que poderiam ter naquela noite. Os enfeites, luzes compradas numa importadora e uma pequena árvore de plástico, completavam o ambiente natalino.

O cheiro de comida que vinha da sala e da cozinha se espalhava por toda a casa, fazendo junto com as canções evangélicas que tocavam num aparelho de som, com que aquela noite tivesse qualquer coisa relacionada a um sentimento de agradecimento entre todos os que ali estavam.

No centro da mesa foram colocados dois frangos assados, uma tigela cheia de risoto, um vatapá feito pela avó, dois bolos, um cento de salgadinhos e outro de monteiro lopes com brigadeiro. Uma garrafa de cinco litros de Cantina da Serra era guardada para que os mais velhos bebessem depois da meia-noite.

João, do alto dos seus quatorze anos, planejava passar o reveillón na casa do tio, em Belém, no bairro da Sacramenta. Além de contribuir com duzentos reais com a ceia da família, conseguiu juntar trezentos e oitenta para comprar as passagens para ir de navio de Santana até a capital paraense.

Foram longos meses, subindo e descendo de ônibus vendendo jujubas, amendoins e mentas para alcançar o objetivo. O dinheiro que juntava também ajudava a comprar comida para casa nos dias difíceis.

O pai, pedreiro desempregado, tinha feito bicos, pintando casas e lavando carros para conseguir algum dinheiro para o jantar de natal que fizeram naquela noite.

Havia uma felicidade não parcial, apesar das dificuldades daquela família. Uma felicidade em saber que estavam todos com saúde na casa, depois de um ano tão cansativo e injusto em diversas ocasiões.

Ninguém tinha comprado presente para ninguém. Mas a conversa e as brincadeiras fluíam pela sala, nos dois sofás e ao redor da mesa ainda intocada.

Por volta de onze e quarenta, a energia elétrica foi embora. Menos de dez minutos depois, ouvem-se quatro tiros. João, o terceiro filho da família, que viajaria sozinho pela primeira vez para Belém, depois de trabalhar duro, soltou um misto de gemido, grito e choro da cadeira onde estava sentado até o chão onde caiu. O choro e o grito da mãe e da avó saíram como que sincronizados, atravessando o som dos sapos e dos grilos da ponte.

A energia voltou meia noite em ponto. Os vizinhos se aglomeraram dentro e na frente da casa. João estava entre a mãe e o pai, no chão da sala, o corpo sem vida e as roupas novas ensanguentadas. Foi uma noite em que as horas se arrastaram desgraçadamente e o natal se revestiu de lágrimas e luto.

O dia iniciou com uma chuva tão forte que o lago onde fica a casa começou a transbordar. O vento forte e frio fazia as janelas da casa e o rosto triste de seus moradores tremerem.

Fez-se manhã, tarde e noite de natal e parecia que nunca mais pararia de chover. A ceia permaneceu intocada. A água invadiu o piso de madeira, lavando lentamente o sangue de João. E a vida daquela família, principalmente nas noites de natal, foi encharcada de tristeza e de uma estranha e profunda solidão.

Frases, contos e histórias do Cleomar (Parte II)

Meu amigo Cleomar Almeida é um competente engenheiro. O cara também é a personificação da pavulagem e gentebonisse, presepeiro e boçal como poucos que conheço. Um figura divertido, inteligente, gaiato, espirituoso e de bem com a vida. Dono de célebres frases como “ajeitando, todo mundo se dá bem” e do “ei!” mais conhecido dos botecos da cidade. Quem conhece, sabe. Na mesma linha da PRIMEIRA PUBLICAÇÃO sobre seus papos no Facebook, selecionei alguns de seus relatos na referida rede social. Boa leitura:

“Não vem dar teco no meu açaí, toma o teu que eu tomo o meu”. Pra eu deixar de ser enxirido.

Se eu, Cleomar, pego uma cagada que nem a que o Gilmar Mendes pegou do Ministro Barroso ontem, aproveitava o apagão e mandava avisar: Gente, queimou uns bagulhos aqui em casa e tô tentando arrumar, não poderei ir na repartição hoje. Pense numa lapada. (Em março de 2018, sobre o “mau sentimento).

Como é a vida! Lembro de um episódio nessa lida de engenheiro em que um potencial cliente me chamou pra acompanhar uma obra e que, por ser um serviço simples, ele me pagaria com “o da gasolina”. Na hora fiquei puto da vida, perguntei pra ele se achava que eu tinha cara de motor, virei as costas e saí dali indignado. Se tal proposta fosse feita hoje, nem ele teria condições de me pagar o prometido e nem eu me encheria de frescura em aceitar. (Durante a falta de combustível, em maio de 2018).

Ia comprar o AmapaCap pra ver se diminui essa lisura mas acho que primeiro vou me mudar pra Santana, pense num povo de sorte, só dá eles.

Já tô mordido com essas porcarias de goteiras, pior que só aparece quando tá chovendo. Parece o gás, que só acaba quando a gente tá cozinhando.

São estilo “Walking Dead” os carapanãs da minha casa, só pode. Tu entopes o quarto de veneno e vai caindo um por um, em meia hora já começam a se levantar, só que agora totalmente transformados, possuídos, com ódio no coração, dá pra ver a ira em seus olhos esbugalhados e sedentos de sangue. Coisa do Belzebu mesmo.

Nenhum “Fake news” foi tão devastador quanto o da faca no boneco do Fofão. Tinha até fogueira pra queimar o boneco do capeta. Tédoido!

Coisa boa mesmo é o cara ser desembargador federal, dia que tu acordas de cu sujo, tu bagunças com o domingo da galera toda. (Sobre o habeas corpus concedido ao ex-presidente Lula, pelo desembargador Rogério Favreto, do Tribunal Regional Federal da 4ª Região, no dia 8 de julho de 2018).

Você foi chegando aos poucos, ocupando cada espaço em minha cabeça, quando percebi já era tarde. Sai de mim calvíce da peste, logo eu, que era o Urso do Cabelo Duro.

Fala a verdade, tu tá mais puto por conta das folgas que tu perdeu, no fundo a gente sabia que não ia ganhar porra nenhuma. (Sobre a eliminação do Brasil na Copa do Mundo 2018).

Quer encontrar gente aru, é só ir na fila do caixa eletrônico, fôlego.

No meu entendimento, se o cara fez a comida, ele tá livre de qualquer obrigação com as louças, se eu cozinho, eu não lavo.

Se a vadiagem fosse remunerada, já teria feito uma grana preta, só nesse sábado.

Já tô cansado de tanto descansar, amanhã vou trabalhar de qualquer jeito. Meeeeentheeeera, ainda aguento ficar nessa vadiagem mais uns dez dias. Pra melhorar só faltava uma rede e uma frieira.

Ninguém, eu afirmo ninguém, teve um domingo mais tiricento de que eu. Sai de mim.

Tá decidido, vou votar no Dr Rey, ele tá prometendo que vai deixar todo mundo bonito, bora comigo bando de feio.

O Sanitarista (Conto porreta de Fernando Canto)

Conto de Fernando Canto

Depois de trinta anos ausente, o médico E. E. Spíndola avistou da aeronave o novo aeroporto da sua cidade natal e a placa de aço com os dizeres “Aeroporto Internacional das Ilhas Redondas Alberto Alcolumbre”. O dia estava amanhecendo em Macapá. Ele apanhou um táxi e mostrou o cartão do hotel ao motorista. Falante que só ele, o taxista lhe disse que pegaria a Rua Comandante Barcellos e seguiria pela Avenida General Ivanhoé, onde existira uma velha igreja em homenagem a São José, passaria por trás do Estádio Monumental dos Góes até o Marco Zero “Presidente Sarney”. Informou-lhe que passaria na rotatória da linha do Equador “Janary Nunes”, que atravessaria a Praça dos Capiberibe pela orla da Praia do Camarão no Bafo, e iria para a Cidade Evangélica para poder contornar novamente a orla em direção ao hotel, pois a Rodovia Praiana estava interditada em diversos pontos.

Ouvira no monitor do carro que havia uma greve de professores estaduais a reivindicar 501% de aumento de salários e a aquisição de instrumentos pedagógicos mais modernos para seus alunos. Também fora informado pelas redes sociais que no centro da cidade estudantes universitários e populares preparavam desde o dia anterior uma manifestação “pacífica” contra a falta de emprego e a corrupção. O médico fez uma cara de espanto, mas concordou com o taxista e seguiram. Ao chegarem ao destino, viu que o hotel tinha quase o mesmo nome de antes: “Macapá Hotel Vale do Tumucumaque”, mas que era agora um prédio de dezoito andares.

Era cedo, então tomou o seu café no restaurante e esperou a hora do evento que participaria. Perto das 09h00 adentrou o suntuoso salão de convenções “Ernestina Libório” e, para a surpresa sua, encontrou velhos amigos empaletosados em busca dos mesmos interesses profissionais.

Eram todos médicos sanitaristas preocupados com um surto de varíola que grassara inexplicavelmente na região, uma doença que parecia extinta há mais de cem anos. Realmente era preocupante. Na foz do rio Amazonas uma peste medieval dessas poderia ser muito perigosa para todas as populações que cresceram ao longo do rio e nas ilhas oceânicas, incluindo a do Marajó, agora um estado federativo importante da região.

E.E. Spíndola tomou seu lugar à mesa e foi apresentado pelo mestre de cerimônia aos presentes como grande referência nacional sobre o assunto daquele importante colóquio científico. Na sua conferência lembrou os dias difíceis como estudante vindo do interior do estado e de sua luta para conseguir se formar e crescer como médico e pesquisador. Muitos amapaenses se emocionaram ao ouvir a triste narrativa.

Abordou o assunto com competência, inclusive referindo-se à história local,citando o caso de um surto de varíola ocorrido na década de 1750, quando da fundação da vila que originaria a atual capital do estado. Propôs soluções socioambientais e imunológicas que mais tarde seriam consideradas incoerentes e megalomaníacas pelos mesmos colegas que o ovacionaram de pé quando terminou de falar. Lançou seu novo livro digital sobre o assunto em cerimônia previamente preparada pela editora com quem possuía exclusividade nas vendas e foi cumprimentado pelas autoridades presentes.

Almoçou com o senador Zéfiro Libório, pai do atual governador e seu herdeiro político, após lutas e lutas inglórias contra as oligarquias dos Capiberibe e Góes que se alternavam no poder havia gerações. À noite pegou um superbarco e foi jantar na Ilha dos Caititus, do outro lado do Amazonas. Comeu um prato estranho, mas muito delicioso e, sobretudo muito caro: filhorada ao molho de cupuaçu, uma mistura genética dos peixes filhote e dourada, criada em cativeiro. O prato era preparado com ervas aromáticas, marinado ao vinho e servido com a raríssima polpa de cupuaçu.

E. E. Spíndola foi apresentado a magistrados e juristas da terra que eram clientes contumazes e chiques do restaurante. Estavam acompanhados de lindas e exuberantes mulheres, porém de vez em quando se levantavam para rubricar em I Pad’s processos digitais que os subalternos oficiais de justiça levavam a eles de helicópteros. Pastores, deputados e padres gordos se refestelavam nos pratos principais e nas sobremesas. As elites riam a cada gole de um escocês e entre as baforadas de cubanos. Spíndola chegou a ver uma tentativa de protesto de dezenas de canoeiros ribeirinhos doentes remando e gritando, empunhando lampiões e faixas na escuridão, ato imediatamente dissolvido à bala pelos seguranças locais. A arrogância e o deboche das autoridades presentes causou repugnância no médico. Naquele momento ele percebeu o clima hostil das autoridades e se despediu. Entrou no superbarco, já cancelando pelo celular a visita que faria no dia seguinte às vilas ribeirinhas afetadas pela doença. Decidiu viajar o mais rápido possível para a Europa.

No trajeto veloz observou as luzes de Macapá crescendo ao longe, imaginando o quanto seria bom se as comunidades amazônicas tivessem lugares como aquele restaurante luxuoso que parecia uma redoma protegida do contágio da peste ribeirinha. Pensou em soluções definitivas para a epidemia e devaneou por uns dois minutos.

Próximo ao porto da cidade foi surpreendido por um vergalhão da pororoca que emergiu de repente no meio do rio. Ela veio sutilmente se formando por baixo do canal como uma cobra traiçoeira. Havia migrado nos últimos anos da foz do Araguari devido às alterações geográficas e ecológicas causadas pela instalação de quatro usinas hidrelétricas ao longo do outrora rio do vale dos papagaios.

A onda de arrebentação rompeu como um ser criado pelos deuses, dançarina louca bailando à música do vento, carregando lama e espuma e sedimentos no seu percurso de destruição, sem esquecer de levar em sua primeira vaga o superbarco de passageiros. O médico sanitarista ainda teve calma de espírito ao ver, pela primeira e última vez, antes de se afogar, os jovens surfistas luminosos, de lâmpadas de LED coladas aos corpos, saltarem do nada com suas pranchas de raios coloridos sobre o dorso da grande onda da noite.

Eram anjos montados no macaréu, indo ao encontro das ruínas do forte, um antigo símbolo da cidade.

O assalto no campus Marco Zero – Conto porreta de Fernando Canto

Conto de Fernando Canto

Um ar de tranquilidade pairava na Universidade no entardecer daquela quinta-feira, véspera de feriado. Eu precisava retirar uma grana do caixa eletrônico instalado no prédio da reitoria para poder viajar com a família ao terreno que temos em Ferreira Gomes.

Pensando nisso fiquei na fila aguardando a minha vez, enquanto colegas de trabalho, sorridentes, desejavam bom feriadão uns aos outros.

Ao chegar minha vez fui surpreendido com um objeto frio na nuca antes de colocar o cartão na máquina. Eu me voltei e um sujeito corpulento me empurrou e disse:

– Não me olha, filho da puta. Encosta ali no canto que a gente vai explodir essa porra.

Tive que me deitar no corredor onde a vigilante que minutos antes trocara de turno jazia sobre o balcão de informações com a garganta cortada, ainda em convulsão. Ouvi ruídos e em seguida uma explosão que rebentou toda a máquina. Quatro bandidos apanharam o dinheiro rapidamente e saíram correndo para um carro que os esperava. Atiraram na cabeça do vigilante instalado na guarita do portão de entrada e feriram, atirando a esmo, dois estudantes que chegavam para o turno da noite. Fugiram na direção de Fazendinha pela Rodovia JK, perseguidos pelo carro do Batalhão de Operações Especiais da Polícia Militar que havia sido informada do roubo e das mortes.

Mais tarde, quando depunha na Delegacia de Roubos e Furtos, ainda surdo com o barulho da explosão, soube pelo plantão da TV que na fuga desesperada eles foram atropelados e esmagados por uma carreta da AMCEL carregada de eucalipto, lá em Santana. Os cinco bandidos morreram na hora. Viraram farelo dentro de uma lata. Segundo o repórter, um deles era de Mazagão e os outros vieram do sul do Pará.

Mesmo refeito do susto eu não quis mais ir para o terreno da família. Mas no domingo… No domingo não resisti e fui ao bar do Abreu. Bebi pra caralho e vibrei com a vitória do Flamengo sobre o Vasco, coisa que os assaltantes filhos de uma égua não iriam assistir nem no inferno. Égua! Mas o barulho de cada foguete explodindo lá fora me lembrava da porra do assalto. E o campari no copo era igual ao sangue esvaído da vigilante estrebuchando ao meu lado.

Teresa (em preto e branco) – Tãgaha Soares

 

 
E foi na batata da perna de Teresa que escrevi as minhas primeiras palavras na língua nativa. 

No princípio, ela até gostou, ficou lisonjeada quando lhe disse que eu estava escrevendo um livro nela. Depois, me recusava, porque eu só procurava seu corpo para escrever…
 
O livro já estava pelo sétimo capítulo quando ela me abandonou…
 
Sem ela, perdi o fio do novelo. Passava os dias catatônico diante de uma folha de papel em branco…
 
Experimentei escrever alguma coisa em mim mesmo, mas não era tão bom.
 
Então, fui procurar as putas…

A HORA DA DANAÇÃO – Conto porreta de Fernando Canto

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Conto de Fernando Canto

Depois de vencer sete eleições consecutivas para deputado estadual, o escamoso líder do Partido da Estrela Negra, Maciel Fallabuonna enfim perdeu a disputa eleitoral naquele ano, possivelmente por causa dos inúmeros escândalos de corrupção envolvendo o seu nome.

Maciel tinha uma carreira impressionante pelo carisma que emanava até dos poros, desde que fora eleito como vereador pelo partido do governo nos tempos da ditadura militar. Seguia sempre os princípios de não ser nem oposição nem absolutamente situação, apesar de constantemente mudar de partido, de acordo com suas conveniências e as oportunidades históricas que se avistavam. Exerceu cargos mandantes na mesa diretora, sem se envolver diretamente com as decisões da presidência. Sempre tinha poder. Seus assessores chagavam a quase duzentas pessoas, porque sabia dividir a verba parlamentar de modo que todos ficavam satisfeitos. Somados os cargos de apadrinhados e familiares nos governos o número disparava e o colocava em vantagemimages (2) contra seus pares. Vencia sempre. Assim podia indicar quem quisesse nos governos que se aliava, principalmente na época das eleições ou depois que as águas da política baixavam, quando o poder executivo precisava do seu apoio, por meio de alianças venais veladas, dessas que a imprensa democrática jamais teria condições de descobrir. Sua assessoria era tão eficiente que até o presidente da Assembleia tentou comprar o passe do jornalista responsável pela divulgação das atividades de Maciel. Só tentou, porque Maciel segurou o seu passe com vantagens que só eles sabiam.

Maciel, contudo, tinha uma frustração. Nunca pôde ter filhos. Por ser muito ocupado também não se preocupara em adotar algucpi-pelicanoém ou mesmo pular o muro atrás de mulheres fáceis, que cercavam os poderosos e que notadamente usavam de truques sujos para engravidar de incautos e com isso garantir pensão em troca de silêncio. Nunca, porém Maciel se envolveu em orgias e escândalos sexuais. Mexeu com o jogo do bicho e outras contravenções penais; com o tráfico de drogas e lavagem de dinheiro, mas com mulheres, jamais. Era até respeitado no high society por causa disso. E sua mulher achava o máximo. Mal sabiam as pessoas que fora do Estado ele se metia com travestis em uma época que nem se falava em GLBT e políticas de diversidade de gêneros.

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Foi aí que começou a derrocada do deputado. Boatos começaram a circular e especuladores oposicionistas deflagraram um processo de degradação moral do deputado. Tudo começou mesmo quando um travesti do estado vizinho que migrara para Macapá o reconheceu no noticiário de TV. Foi só um pulo para a boataria deslanchar. Entretanto, a assessoria do deputado conseguiu desmentir tudo e levá-lo novamente à vitória para exercer seu sétimo mandato.

Embora tivesse vencido essa eleição, seria a última que ganharia, pois a dúvida, o preconceito e o machismo da população permaneceriam por mais quatro anos lhe espezinhando a moela, falando sobre seu gosto por homens ”montados” de mulheres. E uma vronaldo_com_travestiez no chão, diziam, o caldo não se junta nem com língua de cão sarnento lambendo e fuçando. Apelidos, ditados populares jocosos e discursos insinuadores fizeram o inferno do legislador, que mesmo ganhando muito dinheiro nos inúmeros processos por calúnia e difamação, não conseguia se desvencilhar das especulações. Ele sofria uma campanha pesada. Um vídeo em que supostamente ele aparecia em ato sexual com um travesti louríssimo foi disseminado na internet e isso concorreu bastante para que perdesse a eleição pela primeira vez, após quase trinta anos de atividade política.

Mágoas deslizaram ao largo de sua boa vontade de sempre fazer projetos de impacto para a melhimages (3)oria do povo do estado que ele tanto amava. ”Um baque no coração”. “Porrada seca”, dizia. E andava triste, consolado apenas pela compreensiva esposa estéril. Chorava também por não ter filhos para continuar sua descendência política, sua “dinastia”, falava. Se a sorte lhe negara isso, a mente invejava seus pares e adversários que já haviam colocado os filhos nas trilhas aparentemente fáceis da política. Todos eram assim: contra o nepotismo, a corrupção e as injustiças sociais, irreverentes, lutadores e ideólogos. Depois se eximiam dos propósitos iniciais, sucumbiam ao dinheiro e se lançavam aos cães do mando dos mais poderosos.

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Aos ccanstock25890860inquenta e três anos, abatido pelos escândalos de corrupção e envolvimento em outras práticas criminosas, Maciel prostrou-se em uma depressão inédita em sua vida ainda jovem e saudável – produto da prática da musculação diária na academia instalada em sua mansão. Rico, mas sem o poder que lhe acompanhara a vida toda, gastou uma chuva de dinheiro para a cura dessa doença contemporânea.

Conseguiu se sair dela depois de longo tratamento e algumas perspectivas de voltar à política, dado o rol de informes que poucos ex-colaboradores lhe passavam pessoalmente, pois detestava ler jornais: uma fobia adquirida no poder quando sua assessoria só lhe passava clipes diários.

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Com o tempo voltou a ler tudo o que via pela frente, até que um dia viu uma notícia diferente: um concurso de melhor velório, em uma grande capital, promovido por uma revista de circulação nacional. Achou estranho, porque nem sabia que era comum postarem fotos de enterro de famosos na internet, de velórios glamorosos de famílias ricas e de personalidades do mundo da política. Era o culto à morte dos não-heróis. O capitalismo achou um outro nicho para driblar a crise e armazenar chuvas de dinheiro. Virou moda. A indústria de maquiagem para cadáveres se desenvolveu rápida e oportuna, assim como os serviços de decoração, floricultura, buffet e arquitetura moderna para túmulos e santuários, que também chegaram download (5)rápidos em sua cidade. A especulação tomou conta dos cemitérios e os ricos chegavam a comprar os pequenos lotes ao redor dos seus para erguerem capelas, templos e campanários climatizados, que chamavam a atenção e faziam a alegria dos frequentadores mórbidos e da rapaziada gótica. A Prefeitura urbanizou os campos santos, contemplando-os com linhas de micro-ônibus e praças de alimentação. Certos lugares tinham a concessão de cobrar ingressos para visitação, tanto era a sofisticação e a diversidade de atrações desse mercado.

download (6)Visitantes andavam de elevadores pelos subsolos onde jaziam os sarcófagos construídos ao estilo faraônico. Viam-se os corpos intatos das personalidades famosas, muitas das quais haviam sido enterradas em rituais patrióticos. Havia túmulos de diversos estilos. Alguns corpos ficavam em esquifes nos patamares um pouco abaixo do obelisco municipal que tinha em todos os cemitérios públicos, monumento obrigatório por Lei. O público era transportado por elevadores panorâmicos, por isso tinham o ingresso mais caro. Também havia a seção museológica dos mortos em acidentes trágicos que recebia vista de milhares de romeiros de todo o Estado. Eles digitavam em tablets ali mesmo vendidos, os agradecimentos pelas graças alcançadas pelas curas de suas doenças, ao mesmo tempo em que desejavam estar expostos juntos a seus santos.

De acordo com as suas religiões as pessoas também pagavam com peças de ouro um minuto de aconchego com as asas eletrônicas e confortáveis de anjos, querubins, serafins, potestades…. Cada categoria tinha um preço.

A noite era o período de maior visitação. Antigos darks e grupos de heavy metal faziam aARGENTINA-CERATI-DEATH-FUNERAL-GPN1RDJPR.1presentações no anfiteatro cantando uma mistura de gospel e protesto contra a vida. As encenações punham a morte de um longo vestido vermelho brilhante descendo ao palco com uma enorme foice de luz. A figura jogava de repente a foice e emergia no meio do público alucinado disparando um fuzil russo automático. Ninguém se amedrontava, pois se sabia que era a hora da morte, a hora da danação.

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Com o barulho do disparo na mente, Maciel saiu do transe, da concentração, meio tonto ainda. Pediu a um colaborador os detalhes do concurso de túmulos. Nada mais lhe restava, senão a morte e um enterro digno de um ex-parlamentar atuante.images (6)

Como o respeito pelos mortos mudava de configuração nestes tempos, ele apostou consigo mesmo que ganharia o concurso, mesmo que para isso tivesse que morrer. Começou a planejar suas exéquias contratando um arquiteto italiano especialista em cemitérios. Sua fortuna acumulada lhe permitia sonhar com o primeiro lugar em todo o Brasil. Bastava-lhe morrer. Antes, porém, escreveria sua biografia, onde a defesa das coisas a ele imputadas seria o foco principal. Morreria, ora se morreria. A vida não lhe interessava mais. Logo ele que nunca tivera tempo de se converter em uma religião porque fora de todas nas suas conveniências políticas em busca de votos. Por isso sabia os rituais.as_mulheres_choradeiras-E

Ao se preparar para a glória definitiva Maciel inventou uma liturgia que era a mistura de vários ritos de encomendação das almas de religiões diferentes. Mandou imprimi-la para que os presentes recitassem desde a transladação do corpo no carro de bombeiros da Assembleia Legislativa ao cemitério, quando os discursos e a pomposidade explodiriam sobre as suas antigas eleitoras previamente bem trajadas com as cores do seu último partido político, e bem pagas para serem carpideiras e mistificadoras da sua obra.Quando-eu-morrer-por-Sponholz1

O ex-deputado escolheu um modelo de se matar que não viesse a agredir ou mutilar seu rosto e estaria barbeado e maquiado conforme suas instruções. No dia marcado e tudo em segredo, sua mulher estranhou um certo entusiasmo, depois da depressão que o atormentava. Terminou descobrindo o plano mórbido. E ameaçou contar tudo à imprensa. Maciel, no entanto, estava irredutível e decidiu morrer de qualquer maneira. Dominou a frágil esposa e a prendeu num quarto.

Seu plano seguia de acordo como que previra, inclusive com a inscrição do seu túmulo no concurso da revista. Partiu para o ato final. Na sua hora da danação os olhos esbugalhados de um doente depressivo, injetados de problemas e de remédios “tarjas pretas”. Estava o deputado mortinho, obstinado no seu desejo de imortalidade em forma de monumento. Feneceria, cleao-cachorro-tumulo-rio-550_thumbonforme imaginou, congelado dentro de um freezer após se dopar com uma overdose de valium.

Seguiram as instruções deixadas, mas o deputado não ganhou sua última eleição.

Mercedes, encontrada e liberta, achou que seria um gesto desnecessário tanta pomposidade para o morto e resolveu economizar aqui na terra, preferindo um túmulo mais barato para garantir o seu futuro, já que a justiça iniciara o resgate dos bens acumulados do marido em seus últimos mandatos.

O RETRATO AZUL – Conto de Fernando Canto

Conto de Fernando Canto

E agora estou aqui, engolindo este silêncio seco, sem saber o que dizer para você.

Por tantas vezes você me acariciou os sonhos e os cabelos e me aparou de quedas vertiginosas, falando em anjos guardiães. Às vezes, em pequenos pedaços de iracúndia você me insultou. – Burro, não é assim, é assado, é grelhado. Eu ouvindo, eu burro. Você me ralhava, dizia até com ponta de aspereza para que eu não me importasse com a perda das coisas, as que considerava tolas. Eu parado ouvia, mas dentro a cachoeira vinha abrupta e profusa. Havia de sentar ou fugir, me rebelando do trato ou a enchente me afogava.

Agora estamos nós dois sem saber o que fazer… Você aí sentado nessa rede com olhos brilhosos de lágrimas, olhando fixo o quadro que lhe demos de presente de aniversário. E você tem vergonha de chorar porque homem não chora, ainda mais um homem como você que sempre foi forte e capaz de transpor os obstáculos e desarmar, sorrindo, tantas armadilhas.

Você tem lembranças e elas são fantasias de nuvens. Você quer concreta a sua lembrança. Ela surge na forma que você quer. Ela vive em sua memória de um jeito estranho, pois o cenho não esconde a projeção e você a sente como se tivesse medo. Mas medo você não tem nem está triste, apenas lembra.

Eu ao seu lado toco em seus cabelos e na sua dor. Você me abraça. Nós, é óbvio, não temos a mesma idade nem a mesma opinião sobre os golpes que o tempo deixa, pois os ventos mudaram para outras pontas da grande rosa e os valores brilham em forma e conteúdo ou, como se diz comumente, qualitativa e quantitativamente. Hoje você vale o brilho que sabe demonstrar com sua esperteza. Hoje os fios do bigode são meros adornos de vaidade e moda. – E não culpe somente as mãos do mundo. Cuspa, se lhe aprouver. Eu vivo a contragosto esses valores e trago em mim a amargura do meu tempo. No entanto, estou aqui junto a você, agora sentindo uma reação esquisita, frente a essa tela.

Minhas lembranças não são mais nítidas que as suas porque o amor que eu sinto é diferente. Você esteve mais perto, então uma imagem lhe traz uma série de outras mais claras, mais tangíveis.

Para mim muita coisa é confusa. Os sentimentos da monocromia em azul saltitam sobre o retrato emoldurado. Consigo ver um tempo que não é meu e me sinto intruso perscrutando o que pertence a seu mundo, me metendo, penetrando no interior de seus sentimentos e elaborando apenas fantasia.

O retrato espelhado em seus olhos mexe com você até a alma. Um doce para mim se sou capaz de adivinhar. Você segura a minha mão com força como se de longe estivessem lhe chamando. Você está em dúvida. Eu respondo. Não quero que você vá. Mas quem sou eu para lhe impedir a vontade se você ama, se você quer ir.

Minha lembrança migra para uma tonalidade tênue e vejo você sentado no pátio de nossa velha casa de madeira conversando com ela sobre as atividades dos filhos, sobre a TV em preto-e-branco que desejam comprar, e especialmente sobre sua situação financeira que não está nada boa, desde que foi obrigado a vender seu comércio pra pagar dívidas contraídas pelo sócio mau-caráter.

Vejo vocês saindo da missa. Uma, duas, mil esperanças a cada domingo. Um almoço farto é imprescindível nesse dia da semana. Você diz orgulhoso:

– Em minha casa nunca faltou comida. E agradece a Deus. E come as delícias que ela fez.

Embora sua risada fosse discreta, os olhos demonstravam a cor do seu pensamento feliz. Havia tristeza, é claro. Ninguém vive sem sentir o gosto dos diferentes venenos que ingere. Porém, há remédio para tudo, isso até hoje você diz. Você pratica e ensina que há antídoto para as agruras; que existem meios e formas para superar qualquer barreira da vida; que não é necessário beber veneno, mas se for inevitável engole-se aos poucos para depois vomitá-lo todo. Então você vomita. Muitas passagens da vida são venenosas e a ação do tempo é emética, aprendo.

Não posso me arriscar a duvidar. Você foi feliz e sofre hoje. Todavia, a sua felicidade acabou no momento em que a paixão incrustou definitivamente, acho, assim como a tinta na parede, como o asfalto no leito da rua, como a cola no papel. Ora, você sabia da durabilidade das coisas porque consertou mil objetos. Sabia que nem tudo é resgatável, gastou horas e sentimentos lidando com minúcias para não esgotar a paciência. Perseverava sempre, até o limite técnico de sua vocação de engenheiro e alma de artesão incomparável. Sim, você sabia que a parede tomba com a violência do temporal, que a tinta escurece e descasca com as intempéries, que o asfalto rompe com o tráfego dos veículos, que a rua desnivela com as erosões, que a cola desgruda com as variações da temperatura, que o papel rasga e amarelece com o manusear constante. Você sabia tudo isso, mas levou tempo para admitir.

Você embala a rede que me roça as pernas. Eu afago seus cabelos brancos com uma ternura de me causar surpresa. Nós sempre fomos amigos, mas havia uma barreira. Talvez a do excesso de respeito, pelo que a aproximação arrefecia. Foi preciso tempo e esta situação para que eu me decidisse amá-lo com toda a força do meu coração, entendo-o agora, dizendo dentro de mim e, se eu quiser, bem alto e retumbante, um Eu Te Amo para impregnar este quarto onde mora a intimidade de sua memória, onde você cultiva sua solidão particular.

Há uma relação inquebrável, uma linha, um foco de luz entre seus olhos e a tela. Nela você penetra aos poucos. Eu deixo, porque a luz é sua, a transcendência é clara. Suas mãos emitem uma aura azul.

Você não percebe que eu desliguei a luz. Você enxuga uma lágrima cadente com a mão esquerda no rosto brônzeo e transmigra com os olhos fixos para dentro da figura tão bem pintada por um artista amigo da família. Com as mãos em seus cabelos acaricio, talvez, a necessidade de seu sonho. Sinto que alimento sua satisfação, embora a sua dor esteja explícita no cenho errado, duro, mas substancialmente alinhado agora. Você não parece ter a idade que tem. Eu observo seu rosto pelas réstias de luz fugidas da sala vizinha, através das frestas das tábuas. Há nele inevitáveis rugas. Mas um sorriso paira em sua boca. Um enigma.

O passado corre no quarto como um rio de volta para a nascente. Recordo suas velhas histórias. Longas e quase inacreditáveis. Histórias amazônicas, histórias que, sabemos, são verdadeiras, pois você nos ensinou que a mentira não é necessária, é sempre uma coisa dispensável. Todas elas traziam a liberdade sonhada nos quintais. Todas abrangiam um mundo particularizado, impenetrável porque aconteceram antes da devastação da floresta, o que tanto o entristece e o preocupa quando assiste aos jornais da televisão. Fogo, antes, só o fátuo – a ilusão. Eu criança e mesmo já adulto absorvia os mistérios dos seringais, as técnicas descobertas por extrema necessidade no meio da selva, e o idolatrava quando contava das farras feitas com seus irmãos, sempre aprontando alguma. Ríamos muito no final dessas histórias.

Um sentimento enorme tomava conta de nossa família. Você encanecia rápido, dizia que não era de preocupação, era genético. Mas eu sabia. Sabia quando você se preocupava, porque depois do almoço, quando mamãe saía para o trabalho, você ficava se embalando numa rede larga, de cor branca, fixando a vista em algum ponto da parede, assim como o faz agora na direção deste quadro. Depois saía sozinho, de bicicleta, ganhando a tarde.

Só você e ela sabiam das dificuldades que nos afligiam. Nós, os filhos, tínhamos o que queríamos e o que pedíamos no limite de nossa pobreza. Nunca reclamamos de nossa infância. Éramos felizes e tentamos até hoje dar um sentido racional a ela, sem, contudo, perdermos o vínculo do encantamento pretérito com a chuva de desencantos que às vezes caía sobre nós. Há um remédio para cada veneno. Lembra? Você não lembra. Está quintessenciado.

Será que erramos com a ideia do presente? Assim você sofre demais, deixando transparecer a debilidade do corpo que balança a rede. Você ainda me abraça e olha o perto/longe. Está lá dentro conversando com ela, caminhando nos paralelepípedos da cidadezinha do interior, de mãos dadas, com seu termo de linho branco, galante e contente, demonstrando o seu amor, inclusive às solteironas invejosas das janelas coloniais. Você sobe a ladeira com um sorriso de homem maduro. Mais alegre, ainda, é ela, a professorinha da Prefeitura Municipal, a desfilar com a graça de seu andar miúdo e um sorriso fulgurante, ajeitando de vez em quando a rosa amarela presa aos cabelos negros. É final da tarde de domingo.

Você a imagina assim, como no retrato. O retrato azul, transposto e ampliado de uma velha foto da década de 40. Minha impressão é que você confunde o real e o imaginário. Permanece o silêncio. Nós dois aqui.

Ah, falta o violão, imagino eu, para que você dê uns acordes harmônicos e cante músicas do seu tempo. Valsas, valsas. Mas o silêncio é seco. É áspero. É doído. Acho então que não estou errado. Seu semblante está feliz, está tocando, está ouvindo músicas. Não há amor sem música. Para ela havia muitas, dessas que entrelaçam e fortalecem uma relação aparentemente ingênua.

De repente você escuta o apito de um navio passando longe. E a convida para viajar, conhecer outras terras, começar a vidinha a dois. O apito do navio transporta o engano do futuro. Você é um aventureiro nato. Não desiste nunca. Mas não impõe. Os dois vão viajando trinta e poucos anos. E gostam. Não enjoam jamais da cara do outro. As brigas que se sucedem são só de vocês. Ai daquele que meter a colher.

Até parece que ela vive. Você devaneando me faz acreditar. Eu acredito. Você me diz: – Eu não estou triste, só lembro.

Lembrar é fato legítimo. É viver o presente com lucidez. E você vive. Apenas viajou.

Paro de afagar sua cabeleireira branca. Você me abraça e não me olha. Sei, no entanto, que está sorrindo, que está feliz. Você levanta, me dá três tapinhas nas costas e vai assuar o nariz no banheiro.

Acendo a luz fluorescente. Olho o retrato mais uma vez. O quarto está repleto de luz. Mamãe está sorrindo na tela com os olhos molhados de ternura.

EDESSA MEDITABUNDO – Conto de Fernando Canto

Conto de Fernando Canto

Solidão.

Há semanas trabalhava intensa e duramente na pesquisa. Tese de doutorado. Haveria de entregá-la no prazo.

A mulher lhe escrevera, mandara encomendas pelo correio nem sabia quando. Não abria e-mail, nem ligava para as redes sociais. Talvez algumas cartas estivessem na portaria. Não. O porteiro lhe teria entregue.

Abriu a lata de atum e o esquentou na frigideira suja, usada mil vezes. O frigir despertou-lhe para alguma coisa. Correu aos livros, consultou-os e escreveu algo num papel sobre a mesa desarrumada que só ele podia entender. Comeu parte da massa compacta com xarope de guaraná diluído em água e, logo após, como se comemorasse, deu um arroto de arrebentar suas próprias entranhas e foi deitar-se nas almofadas espalhadas pelo pequeno apartamento. Ali, há tempos, guardava imemoriais fragmentos de experimentos trazidos do laboratório de sua universidade de origem. Já obtivera bons resultados, estabelecera uma metodologia um tanto quanto complicada para o cruzamento de variáveis. Só ele entendia.

Por ser um voraz usuário do computador vinha comprovando velhas hipóteses até então refutadas pelos seus colegas pesquisadores de todo o país. Uma vitória ali outra acolá, um insigth acordado, uma sacação num sonho. Tudo lhe fascinava. Era um apaixonado pela ciência. Quase nunca dormia porque se ocupava fazendo anotações, lendo e escrevendo como um louco no teclado do seu micro. Mas vencia o tempo a caminho da glória. Ou no mínimo de um salário melhor. Quem sabe obteria mais prestígio dentro da comunidade científica. Era brilhante. Seus colegas haveriam de admirá-lo e de respeitá-lo mais e mais. Com certeza sua tese seria aprovada com louvor pelos sisudos e exigentes doutores da banca examinadora.

Não fumava mais. Pudera. O corpo franzino não aguentaria nem mais um trago. Estava proibido de fumar, beber álcool ou ingerir qualquer droga, mesmo calmantes, analgésicos e vitaminas sem consentimento médico. Seu médico lhe fora enfático: – Ou larga ou não acaba a tese este ano. Deixou o cigarro, mas abusava de tudo. Não se alimentava bem, só comia enlatados, pão dormido, macarrão, quando lhe dava vontade ou quando se lembrava que seres humanos também comem. Adorava porcaria. Daí a dor que sempre sentia no estômago, um sofrimento a mais que o deixava louco de se enrolar pelo chão atrás de algum remédio porventura perdido na bagunça daquele minúsculo apartamento, mas tão cheio de bagulho.

Nessas horas de dor, a lembrança da infância. Brotava a insegurança. Cadê mamãe? Um misto de ternura e desespero. Cadê minha mulher? A solidão doía, a lembrança doía. Ele se recorda, tentando lenificar a dor. Seria entomologista. Ah, seria. Da sua paixão por insetos nasceria um cientista respeitável. Dos seus estudos resultariam proveitos econômicos tão grandes que a História não lhe olvidaria. A Nação lhe seria eternamente grata. Da função dos insetos na natureza tiraria o que de melhor fosse para o desenvolvimento da ciência e, claro, para beneficiar todos os seres humanos. Um idealista. Modesto. Virtuoso. Não precisaria ficar rico com suas descobertas e patentes. Bastaria que lhe financiassem ousados projetos de pesquisas, se possível dentro do país. Por isso estudou Biologia, curso inexpressível numa universidade pública de pequena importância. Por isso, pensava, com seu nome a tiraria do marasmo científico.

********

Atrás de tanta vontade. Porém, um trauma. Ainda estudante – monitor concursado de entomologia – coletava insetos na floresta quando inofensivos percevejos saltaram de um arbusto para sua roupa. Eram insetos coloridos, de uma espécie jamais vista por ele. E pelo que lembrava, nunca a vira catalogada nas enciclopédias de seus professores. – Uma espécie não identificada ainda, pensou, eufórico. E no embaraço da emoção explodindo tentou capturá-los. Eles saltavam para outros arbustos deixando no ar um cheiro tão peculiar que o candidato a cientista hesitou na empreitada da captura. Mas prosseguiu. E ao agitar desastrosamente a folhagem, o odor dos percevejos se espalhou pelo ambiente de tal forma que o ar parecia se solidificar como um enorme bloco de concreto sobre seu corpo, a lhe prender e a lhe impedir de se mover. Na luta desesperada viu escorrer pelas mãos o que seria sua primeira conquista profissional. – Já pensou? Um inseto com o meu nome?

Encontraram-no em uma posição ridícula, estático com uma estátua equestre, no meio do mato. Os olhos arregalados, um fóssil conservado em bloco de gelo. Do jeito que estava, duro, foi levado ao primeiro posto médico pela equipe de alunos que monitorava.

Do acontecimento inopinado adveio-lhe alcunhas abomináveis e um recolhimento de muitos dias. Quase perdia o semestre. Quando conseguiu superar o fato, superou-se a si mesmo. Antigas veleidades viraram obsessão: haveria de ser entomólogo, ainda que lhe chamassem de Múmia de Barata em alusão à Metamorfose de Kafka, e de Edessa Meditabundo, uma espécie de percevejos fedorentos. E que rissem ao cruzarem com ele nos corredores do campus.

Débora, uma caloura, foi a única que o compreendeu. Jamais tocava na história inacreditável. Acabou casando com ele logo após terminar a graduação. Mas ficava lá, em sua cidade, cuidando do filho, morando na casa do sogro. Fez um mestrado medíocre na mesma universidade e nela tornou-se professor depois de um concurso muito disputado.

********

Doía a solidão. Doía, doía.

Ás favas a solidão, as lembranças, a dor. Rompe, de repente, com o pensamento. A decisão é tomada. Vai descer ou acaba pirando. Antes, porém, olha para o PC e o notebook sobre mesinhas, olha as paredes do cubículo… Desenhos, mapas, quadros, tabelas, referências, classificações. Tudo ali, pregado com durex.

Pediculos humanus humanus / Ischioleneho wollastoni / Coleoptera. / Pyridae, Lampyridae / Periplaneta americana / Coleopteros / Homoptera / Cicadidae / Paraponera clavata / Tineola bisselliélla / Fulgora spp. Schistocerca americana / Apis mellisfera / Soolenopsis beminata / deptera. Culicidae / megalopsy lanata / Sinoeca cianea…

E, atrás da porta de entrada, em letras garrafais:

EDESSA MEDITABUNDO

(Percevejo-filho-duma-vagabunda-
Não-é-o-mesmo-que-vejo)
Vou a fundo
Vou a fundo
Para te encontrar
Viro o mundo
Ou não me chamo

EDMUNDO

Ele come, por fim, o resto do atum, bebe mais guaraná, relê seu poema com orgulho, apaga a luz e sai.

No hall do edifício tudo é silêncio. O porteiro dorme sem roncar.

O doutorando agora hesita em abrir a porta que dá para a rua porque lá fora também é só silêncio. E sua solidão novamente toma conta do corpo, fragmenta a alma e corta recônditas memórias, intuindo um assalto do futuro. Há pouca luz no ambiente. O porteiro dorme, a cidade dorme. A cidade está morta. Raios de luz projetam as sombras de um pé de ficus belga do jardim no teto e nas paredes dos edifícios vizinhos. O pé de ficus belga parece fazer um movimento humano nas colunas que sustentam o prédio. Mas é só impressão. Fruto do cansaço, ele pensa. Anda em voltas pelo jardim e então resolve subir. É madrugada, o dia está para nascer. Não vale a pena sair pelas ruas de seu bairro a essa hora.

Na passagem encosta no pé de ficus belga. Ele não percebe, mas sua camisa está cheia de bichinhos coloridos. Entra no elevador, aperta o número 19 e solta devagar, deixando um cheiro podre pairando por todo o condomínio.


Edessa meditabundo abre a janela. Respira com dificuldade porque o ar lhe solidifica o corpo aos poucos. Filigranas de luz empurram cumulusnimbus espessas e amedrontadoras no dia que já nasce apertado.

Lá embaixo o gás carbônico flutua sobre o asfalto.

Desta vez o percevejo não hesita: – Que doa a solidão!

Com esforço estende as asas membranosas. Dá um arroto de despertar a cidade e salta em busca de alimento.

Uma tarde com a Big-Big – Conto marginal de Fernando Canto

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Conto marginal de Fernando Canto

Porra, eu andava puto porque tinha sido demitido da TV que trabalhava porque em uma transmissão ao vivo a Big Big apareceu e pegou no meu pau e eu gritei de dor. Não teve jeito nem chora minha nega. Fui pra rua mesmo por justa causa, falta de ética, descompostura, atentado ao pudor… essas coisas. O féla da pôta do patrão não estava nem aí pros meus argumentos. Não convenci o fresco do judeu insensível. Ele sabia que eu era solteiro e não adiantaria mentir.

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Conheci a dita cuja da Big Big quando eu cobria o Pronto Socorro para um jornal impresso. Ela tinha sido atropelada pela sétima vez. E já estava aleijada. A droga que ela se apaixonou por mim desde que me viu fazendo a reportagem pra televisão, pois me achou bonito e queria que eu a fizesse famosa. Onde eu chegava ela achava um jeito de passar a mão em mim. Até dedada eu levei dela. Ridículo. Logo eu, porra, um jornalista considerado…

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Fudido do jeito que eu estava, com o troco do salário que me deram, pois não tive direito a nada, fui lá na beira-rio tomar uma cerveja. Pensei em almoçar no bar do Nego, mas resolvi só beber e resolvi misturar cachaça com cerveja. Comecei a ficar porre e queria fazer sexo. Não vi nenhuma garota de programa pra afogar o ganso, o Neymar, o Messi e minhas mágoas. Bebi, mas bebi pra caralho. Quando já estava chamando uma coluna do bar de meu bem vi a Big Big caminhando arrastando a perna. Pensei, na minha visão meio truvisca, que ela dançava Marabaixo. Que nada! Ela dançava um reagge e estava linda com sua pele morena.

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Paguei a conta e ainda deixei dez por cento pro garçom Raimundo, que costumava me roubar nas contas quando eu estava por cima da carne do churrasco.

Chamei a linda Big Big e lhe disse sem pudor: – Pega à vontade no meu pau, amor.

Ela ficou me olhaaaando! Não disse nada.71759_461427497243620_567377479_n1

De repente eu caí em mim e vi a Matilde Joaquina com o câmera da emissora que eu trabalhava me filmando, só pra fazer o mal, pois ela havia ocupado meu antigo posto de trabalho. Porra, todo mundo ia saber que eu tinha quase um caso com a Big Big. Quase um caralho. Agora teriam certeza.

Pedi mais um copo cheio de cachaça pro garçom ladrão e segui desolado02253686300-217x300 até as muralhas da Fortaleza de São José de Macapá. Na realidade eu fui me lamentar naqueles muros. Chorei muito. Minhas lágrimas quase amolecerem as pedras da edificação secular.

O dia se punha no oposto do rio Amazonas. E os caminhantes habituais do parque do forte olhavam para mim, me reconheciam e riam. “Drogado”, diziam, “eu até que admirava teu trabalho”. “Safado”… Assim me chamavam.

oloucoFui cambaleando e encontrei um amigo artista plástico literalmente caído na sargeta. Tentei levantá-lo a todo custo, mas não conseguia . Até que senti uns braços fortes me ajudarem. Era a gostosa Big Big que pôs o pintor num lado do ombro e pediu com gestos que eu fizesse o mesmo com o meu. Levamos nosso amigo de cachaça até a prainha que fica entre aquelas falésias da Fortaleza e bebemos o resto da granada de duelo que ele tinha no bolso, e mais duas que ela guardava na calcinha, a gitinha logo. Cantamos e rimos até a lua surgir mais porruda que em qualquer outro lugar, como disse o poeta.

Acordamos com a maré enchendo suavemente, marulhando na areia.

A bacana companheira por fim falou e me revelou que a jornalista que me substituiu pagou a ela pra pegar no meu pau naquela reportagem que fiz ao vivo.

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Nessa altura do campeonato nem esquentei mais. Eu perdoei a Big Big porque ela precisava de dinheiro pra beber e pra dar pros caras dela. Agora, lúcidos que nem uns filhos de uma égua, estamos arquitetando um plano pra invadir o estúdio da TV ao vivo e pegar na buceta daquela jornalista desgraçada. Eu, meu amigo pintor e a minha noiva Big Big. Ora, Ora. Marrapá! Vamos sair na mídia nacional. Ihiihihihihihihih!

*Quando recebi este conto (ao qual gostei bastante), disse para o Fernando: os politicamente corretos cairão de pau na gente por causa deste escrito”. Canto, que é sábio e irreverente, disparou: “os bêbados e loucos fazem parte na nossa paisagem cotidiana da cidade”. É isso aí!

NA TRAVESSIA, DENTRO DA NOITE FEIA – Conto de Fernando Canto

Conto de Fernando Canto

“Sim sinhô, tamos saindo de novo de mais um porto de carga, partindo em busca de um outro no constante vai – e – vem que a nossa vida comanda. Nós aqui que se defenda do destino! Se a gente come ar, água barrenta e jabá com farinha é porque Deus tem querença e nós só temos que obedecer, rezar sempre que puder pra não ter a sorte de peixe na rede do pescador.

“Já é noite velha e fechada por um tempo enegrecido com cara de tempestade. Já é mais uma entre tantas a deslizar nas águas benditas destas paragens que nos servem pro trabalho e pros despachos das coisas que não precisamos mais. É noite fechada, é sim… sem hora, descaminhada, prenha de vento forte e que judia a solidão mais amiúde que um homem saudoso tem…

“Sim sinhô, é duro ter mãos calosas, pé rachado e cicatriz das cargas que bem carrego, desde jito, lhe asseguro, pensando e Ter bem dinheiro pra dar uma casa ao pai na velha Vila Formosa de Bom Jesus do Anaju. Minha vida é o que carrego cada vez que o barco sai, toda vez que o barco chega e toda vez queu me arrependo.

“Saudade não tenho tanta da minha infância, eu agaranto. Sempre fui acostumado com a dureza do trabalho, mesmo ficando aos poucos taludo, entanguido e forte, mas-porém malandro e astuto desde as primeiras pontes, canoas e remos de tábua.

“Tenho visto muita coisa neste mundo encarquilhado, coisa do arco-da-velha e cores desencardidas. Só não vi padre fuder freira nem piramutaba ovada. Mas visage, isso então… Nem lhe conto, pra que não pense o sinhô queu sou desses mentirosos. Desde jito, quero que Deus me cegue… vi mato pegando fogo nas ribanceiras dos rios, gente gritando muito debaixo da chuvarada de bala da jagunçada que vagueia atrás de sangue a mando dos coronéis. Vi muita lepra perversa em forma de home comum aumentando dia-a-dia nos trapiches que aportei, como uma vez na Estrada Nova quando pediram um cigarro pro dono do barco Olavo, da terra de Cametá. O rapaz que nem fumava morreu de treze facadas só porque não tinha pito e nem pôde se arrepender.

“Não senta na minha ilharga gente malina e rude. Eu olho logo de esguelha, desconfiado do besta que procura confusão. Eu tomo minhas cachaças sem ter preferência à marca, todavia, lhe garanto, nunquinha caí de porre.

“Dei serviço em muito barco, já tive muito patrão, faz quase quarenta anos que rolo por cima d’água. Não quis me casar, o sinhô sabe, meu tempo foi pro trabalho, e mesmo eu não tenho casa e a maorparte dos meus parentes já foram encontrar com Cristo na morada celestina, onde só tem convite que foi nesta vida humilde. Assim nunca me arrependo de não ter me amasiado com rapariga festeira nem com mulher assanhada. Umas três já declararam que ficaram prenha deste, pois eu lhe conto, não nego, que também não sou santinho. Só sei que nunca fui pai nem padrinho de menino nos lugares onde parei pra carregar esses trabalhos, descarregar minha gala, trocando o óleo da pomba… Humrum! Molhar o osso, seu menino, é preciso praticar, senão a cabeça endoida, fica bilé, bilé. A gente fica mofino, não dá atenção pras coisas e com calo na mão não presta bater punheta nas folgas. Vara de macho escroto precisa de bem carinho e basta só um pouquinho pra entrar nas perseguidas e se lambuzar de prazer.

“Sim sinhô, tô divagando… Me adesculpe se lhe enjôo com esta conversa fiada. É queu vivo me acercando das coisas do meu redor como desta noite feia. Arrepare que tem lua pra nascer daqui a pouco, minguando, mais ainda grande, que vai ajudar com imenso nossa longa travessia por cima desta baía. Vigie ali rés à mata a chegada de um clarão: é ela empurrando as nuvens pra cair logo uma chuva e o barco seguir em paz. Antes que a chuva venha, se ajunte mais pra dentro deste comando apertado, se aproteja do frio que judia a gente e dos solavancos das ondas que neste vento paresque até banzeiro espumante do catamarã da Enasa. Depois da procela forte vem um pouco de chuvisco e as ondas vão se acamar, daí chega a lua branca e eu ainda posso ver á frente sem precisar de farol. Eu moço já andava em barco que não tinha nem motor, nem bússola ou farolete, daqueles movido a vento, onde a gente se guiava pelos lugares que via. Só conhecendo, velava e se livrava dos troncos arrancados dos barrancos.

“Inda mais… Me lembro que já passei por maus momentos, indizíveis, apelando para a Virgem na hora da morte certa, como daquela vez, paresque numa baía chamada Curralinho, quando o casco do barco abriu ao bater numa jangada de troncos, solta e perdida no negro da escuridão. Dessa vez não teve tempo pra desviar do perigo. Morreram cinco pessoas. Consegui salvar só duas que levei lá pra beira em cima de um camburão de óleo combustível.

“Meu parente, se não é a Virgem no céu, os marítimos se estrepam aqui na terra. Coisa ruim só acontece conosco, gente sofrida do mar. Perdi muitos companheiros que foram pras profundezas destas águas amarelas onde vive boto e Iara, boiúna e cobra Sofia.

“Mas quando já…! O sinhô pode pensar. Não creio nessas conversas. Há de dizer o parente. Mas lhe garanto uma coisa: este rio tem tanta água como ente que judia. Já vi coisas, seu menino, que penso não acreditar, por isso prefiro a morte que me arrepiar de medo quando enfrentasse, ‘sconjuro, gente que não desse mundo.

“Espie só a chuva passando. Agora que só tem lua e um mar calmo pela frente é que vem na minha mente uma figura ‘stimada de um homem sempre presente no meu imparável trabalho.

“Não arrepare se eu falo assim meio ‘stúrdio, mas dentro de mim vem uma dor afogalhada toda vez queu cambo meu pensar pra esse lado. Talvez o sinhô tenha tido algum patrão na vida. Não sei se lhe importa eu soltar minhas mágoas que me atormentam benzinho no fundo da minha alma. Tome um café, me escute e não arrepare essa dor.

“Tordia fiquei macucando… pensando na minha vida, no meu destino de boto que paresque é fazer as coisas e desaparecer nas águas. Já vi que tem parecença com as ondas e com tudo do meu redor. É como se eu fosse mururé dançando n’água, planta que tem flor roxa e folha verde e se assustenta do rio. Vai pra onde a maré bate, mas continua pelo rio até bater numa praia, se dividir ou se somar nos troncos da aningueiras ou na hélice do barco despedaçar de vez.

“Não quero ter descamaradagem com a figura do patrão, porém já sofri bastante vendo ele ficar alegre ao conferir o dinheiro que o nosso trabalho dá. Queria ver eles sem nós. Só com seu barco, só ele navegando por aí, debaixo da tempestade. Tá, cheiroso! Eu ia dizer, vendo a sua cara torta. Te vira, seu porcaria… Eu ia era rir. Hum, ele não teria mais aquele riso indecente cheio de dentes de ouro nem os olhos miudinhos que brilham tal quando conta o lucro que o nosso trabalho dá. Disse ao sinhô queu ‘stimava a figura do patrão, mas ora já penso certo, acho que ele não merece queu pense dessa maneira.

“Muitas vezes ouvi no rádio que o Brasil era gigante, acho que é isso mesmo, devido ter viajado, conhecido muitas terras só aqui na região. Isso me faz pensar nas coisas deste mundão onde tudo é muito grande, mas os homens são sempre pequenos. Ninguém segura essa terra, disseram também no rádio, e largaram ela pruns homens de fala e de corpos estranhos. Era pra gente ir frente que a vida ia melhorar, mas só nós, os que navegam, nunca melhoram na merda desta vida, nem seguro dela tem, ganham salário mínimo, o menor, eu acho sempre, pois não dá nem-nem pra sacanagem nos puteiros de Belém, inda mais se, por exemplo, eu tivesse uma família pra assustentar por aí.

“Sim sinhô, me apustemo de trabalho, só vejo trapiche e cais nas margens que descarrego de um lado e doutro do rio. Tô ficando aporrinhado, tô me sentindo um ladrão querendo roubar as coisas, mas preso porque não roubou. Não digo que matei gente, mas minha vontade é enorme de arrancar os dentes todos do ‘stimado patrão. Égua! Égua! Se aguento tudo isso é porque não tenho estudo nem registro e a carteira da Capitania dos Portos. Não tive oportunidade nem incentivo pra essas coisas do ‘stimado patrão, que ganha nas nossas custas tudo aquilo que queremos pra gente viver um pouquinho sem depender de ninguém.

“Não tenho inveja, agaranto, e quero que me adesculpe se falo assim do patrão. Minha sina está nas águas deste rio que bem conheço, que é meu amigo bacana, mas-porém que é traiçoeiro quando a gente nem espera… Hum. Minha sina está com ele, o rio de toda uma vida, a única coisa viva que mais arrespeito e amo, meu calmante dessas horas de aporrinhação.

“Meu parente, eu falei muito das coisas que tanto vi, como da lua minguante que ora ilumina a nós e da figura ‘stimada do proprietário do barco que a gente navega aqui. Antes de acabar meu turno, antes de ir descansar, quero apenas lhe dizer que a minha vida é assim mesmo, paresque noite vergada, com vento e luar minguando, se acabando para o dia que vem chegando benzinho, trazendo o sol que só engelha o resto da dor da gente”.

De Nazaré (conto de Ronaldo Rodrigues)

De Nazaré estava passando em frente ao bar e os outros estivadores assoviaram alegremente, chamando-o para um trago.

Bom de copo como de trabalho, De Nazaré pensou um pouco e concluiu que um convite feito com tanta sinceridade e alegria não poderia ser recusado.

Deixou a pesada cruz encostada ao lado do bar e abriu os braços para os amigos.

Todos gostavam de ouvir De Nazaré cantar, mas ele só fazia isso quando estava bastante embriagado. Então bebeu, de uma só vez, meia garrafa de pinga.

A bebida explodiu quente nas engrenagens cerebrais e despertou o cantor apaixonado que De Nazaré sonhou ser em sua juventude. Abriu a garganta, libertando o pássaro da voz, e fez com que todos ali esquecessem, por alguns instantes, a miséria quotidiana e a coroa de espinhos que eram obrigados a suportar.

Mais do que uma simples distração, as músicas eram um alívio, acentuado pelo entorpecimento da cachaça. Uma trégua para quem tem que colocar a carga do mundo nas costas e encher os porões dos navios.

Depois de algum tempo de cantoria, De Nazaré resolveu ir embora, continuar seu amargo ofício. Era quatro horas da madrugada e ele tinha que carregar mais algumas dezenas de cruzes antes do amanhecer. Homem de palavra, De Nazaré honra os compromissos e nunca deixou uma entrega por fazer.

Os outros estivadores bem que queriam que De Nazaré continuasse a cantoria, mas sabiam que eles mesmos teriam que se retirar para enfrentar o batente. Voltaram à realidade e se foram, deixando os restos de peixe frito para os cachorros do cais.

Sozinho novamente, De Nazaré sentiu os pingos da chuva que começava a cair. Tomou o último gole e, sob a precária iluminação do poste, recolocou a cruz no ombro e caminhou em direção à ponte de tabuinhas irregulares que levava aos navios ancorados na escuridão.

Ronaldo Rodrigues

CORNUCÓPIA DE DESEJOS – Conto de Fernando Canto

Conto de Fernando Canto

Por querer expressar meu pensamento sobre as coisas em meu idioma, às vezes arrebato o próprio coração em sofridas angustiosidades e dissentimentos infaláveis. Por isso monologo no granito e lavo em água este contraste, esta antagonia de imprescindível falação que ponho em tua trompa de eustáquio para te martelar suavemente a dentro.

É o caso do amor ensolarado que sinto agora, neste mirífico momento. Um assunto ressoante, uma prosa-cornucópia (onde a abundância reina) a refratar-se sem a culpa do inexpressável parlar.

Não vejo como não ensopar-me de enluação neste conto de candura quase irrevelável, posto que o meu amor possa entender-me ou espumar-se para sempre para o inevitável espanto que a declaração enseja. Paresque um salto com vara numa olimpíada de abismos.

Assim eu declaro: a cobra norato, o boitatá e as luzes do fogo-fátuo se expiram na noite cadente. Oh, teus olhos não! Teus olhos ternuram a medida do dia, solfejam histórias e cantam paisagens inescrutáveis para os sonostortos dos mortais. Eu sou o arauto deste cenário-testamento a castigar retumbantemente o couro dos tambores; eu anuncio a sublime compreensão do “amooor” que ecoa em gargalhadas sobre as ondas do Amazonas, aqui na Beira-rio, sob um céu azul intensificado de lilás quando anoitece. Eu declaro ainda: a pedra em sua bruta forma tem dentro de si os elementos primordiais que suprem tua sede de amar. Ora, Balance a pedra e sinta o gutigúti da sua oferenda. Lapide-a, pois ela provém da terra, e então perceberá o calor do fogo da paixão libertadora e o ar morno que movimentará o sangue pelas entranhas.

Num átimo, um áugure qualquer (que são muitos e banais) lerá tua sorte: dirá augúrios, claro. Um áuspice (que estão cada vez mais raros) dirá tua sina no raro voo dos louva-deuses. E te auspiciará de boas-novas e de valores inequívocos.

Ora, dizendo isso afirmo que sou aquele que nem sabe discursar suas dores, inda que saiba do futuro, pois habito o limiar do tempo. Eu sou a timidez em prosa e verso, aluno de poesia, mas prenhe de pecados, porque ingiro virtudes nos bares da noite e não sei segredar projetos inexequíveis. Não sei, juro pueril e ludicamente (mas com toda a sinceridade de uma parlenda) pela fé da mucura, torno a jurar pela fé do guará, torno a repetir pela fé do jabuti, que não sei mentir ao sabor do vento dos ventiladores que me sopram fumaça de charutos cubanos.

Descobri que sei de ti mais do sabes da pedra em teu caminho. Sou teu (adi)vinho incontestável, ad-mirador de tua trajetória. Por isso do alto da minha velada arrogância sei que tu também me amas.

Mas é de ti que quero o conteúdo dessa bilha onde Ianejar – aquele heroi dos índios waiãpi – e seus pareceiros se abrigaram do fogo ardente e do dilúvio. É por ti que generalizo a farsa da criação sem pesadelos cosmogônicos. Eu me agonizo em mistérios. Eu eternizo o meu olhar nessa paixão. E me enleio como as borboletas que viajam ao paraíso pelo buraco sem-fundo do fim da terra.

Por isso eu sei que te amo.

Por isso vago ainda em fluidos imemoriais sempre presentes, antes do esquecimento das vitórias que juntos comemoramos.

Por isso a ternura há de ser o mais farto elemento da imensa cornucópia de desejos que realizamos juntos.

Contículos Alados (rápidos lampejos geniais de Fernando Canto)

TRAVESSIA 2

Para Herbert Emanuel e Joãozinho Gomes

Eu via o mundo invertido quando passava na rua do poeta. Ele acenava do fundo da terra me pedindo um dracma de ouro.

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INSÔNIA

Para Carla Nobre

Sem dormir à noite toda fui cedo à padaria comprar um sonho.

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TRAVESSIA

Para Elton Tavares

Ao atravessar a faixa de pedestre só levantou a mão na hora do impacto.

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RUA DO POETA

Para Paulo Tarso

Cruzava a rua do poeta plantando bananeira para não pisar nem na lembrança.

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O CHOQUE

Para Jorge e Edelwais

Quando as pedras finalmente se encontraram viraram pó.

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PARTO

Para Luli Rojanski e Manoel Bispo

A torneira do jardim pariu seis gatos pingados. Acabara de chover.

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OVERLOOPING

Para Osvaldo Simões e Isnard Lima

O “encosto”, reclinado, frustrou a acrobacia de Mayra no monomotor. O voo foi tiro e queda.

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IMPÉRIO DOS SENTIDOS

Quando assisti “O Império dos Sentidos” a teu lado no Cine Orange, acreditei em definitivo que o ovo cozido é um alimento saudável. Que saudade de tua panela quente!

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ANSIEDADE

O cara é um paciente apressado.

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Foto: Gê Paula

BAIXA TESÃO

A lua iluminava tanto o céu de Macapá que os enamorados da Beira-Rio torciam por um eclipse.