Feliz Aniversário, papai! (Para jamais esquecermos do Zé Penha)

Eu, papai e Clara (sua namorada) em 1997.

No dia de hoje (17), se meu saudoso pai estivesse entre nós, faria 70 anos. Antes eu dizia “se estivesse vivo”, mas ele está, dentro de nós, por isso, ainda é seu aniversário. É difícil definir um modelo de vida, acredito que cada um vive da forma que lhe é aprazível. José Penha Tavares viveu tudo de forma intensa e foi um homem muito feliz. Eu sigo seu exemplo e sou muito feliz.

Meu irmão e papai, em 1996.

O mais legal é que ele nunca fez mal a ninguém, sempre tratou as pessoas com respeito e foi muito amoroso com os seus. Meu irmão costuma dizer que ele nos ensinou o segredo da vida: “ser gente boa” (apesar de alguns gatos pingados não comungarem desta opinião sobre mim).

Nós e o Zé Penha, em dezembro de 1997, no último natal dele conosco.

Quando o bicho pega, falo com ele. Uma espécie de monólogo, mas juro que sinto conforto em lhe contar meus raros problemas. Acredito que papai escuta e, de alguma forma, me ajuda. Devaneio? Não senhores e senhoras, é que aquele cara foi um grande pai, ah se foi. Portanto, deve mexer os pauzinhos lá por cima.

Zé Penha, uma figuraçã! Saudades sempre.

Ele partiu em 1998, faz e fará sempre falta. Sinto saudade todos os dias e penso nele sempre. Nosso amor vem das vidas passadas, atravessou esta e com certeza a próxima. Gostaria de lhe dar um abraço hoje, desejar feliz aniversário e tomar muitas cervas com o Penhão, como costumávamos fazer.

Essa montagem foi uma brincadeira do meu irmão, sobre tomarmos umas com o velho nos dias de hoje.

Republico este texto para o Zé Penha jamais ser esquecido. Não por mim, pelo meu irmão ou os irmãos e mãe dele, que nunca o esquecemos, mas sim pela legião de amigos que ele fez durante sua breve jornada por aqui. Faço minhas as palavras do poema Filtro Solar: “dedique-se a conhecer seus pais. É impossível prever quando eles terão ido embora, de vez”. Saudade, Penhão. Feliz aniversário, papai!

Elton Tavares

Sobre Fernando Canto – Por Renivaldo Costa – @renivaldo_costa

Nosso querido amigo Fernando Canto.

Por Renivaldo Costa

O Fernando Canto é um dos seres humanos mais extraordinários que conheci até hoje. Me permito chamar de “irmão” a poucos amigos. Fernando é um deles. Nos conhecemos há 25 anos, quando ele ainda morava em Belém e desde então estabelecemos uma relação de amizade e apreço. Muito daquilo que escrevo tem forte influência de Fernando. Afinal, cresci lendo seus livros.

Em maio Fernando Canto completou 66 anos, data que nem pudemos comemorar como de praxe em razão da pandemia. Ele nasceu em 29 de maio de 1954 em Óbidos, mesma terra que gerou outros ícones da cultura brasileira como Inglês de Sousa. Suas incursões pela música e literatura são conhecidas pelo Brasil afora, mas creio que o Amapá precisa redescobrir ainda Fernando Canto.

Outro dia, numa conversa com o ex-deputado Antônio Feijão, ouvi o seguinte comentário: “Se tivesse nascido em qualquer outro lugar do mundo, o Fernando Canto seria considerado um legado cultural pelo seu povo. O Amapá precisa olhar mais pelos seus heróis”. De fato. A contribuição dado por Canto ao longo de sua trajetória no Amapá é um legado do qual temos que nos orgulhar. Obras como “O Bálsamo” e “Eqüino Cio” são dignas de premiações internacionais.

Este editor com o Canto. Meu amigo e herói literário.

Ademais, foi somente na gestão de Fernando Canto que a Confraria Tucuju ganhou notoriedade.

Provavelmente uma das maiores contribuições de Fernando Canto à cultura amapaense tenha sido a “marabaixeta”, um marabaixo fora de época que ele idealizou num momento em que esta manifestação passava por momento agônico e corria o sério risco de desaparecer. À época, Fernando sofreu críticas mas hoje – quase 23 anos depois – sua iniciativa pode ser melhor entendida. Hoje proliferam grupos de marabaixo e até já se promoveu um festival dessa manifestação, ideia aliás que nosso sociólogo defendia há mais de 20 anos.

Renivaldo, com Fernando e outros ilustres cidadãos do Laguinho, na “marabaixeta”.

Por fim, encerro esta homenagem relembrando uma história ocorrida com o Fernando Canto e contada pelo saudoso amigo Hélio Pennafort. “Levado por amigos, o Fernando Canto participou de uma animada festança lá para as “blelbas” do furo do Assacu. Conhecendo a rígida disciplina que nesses lugares impera no salão, Fernando, depois de muita excitação, conseguiu aproximar-se de uma brejeira cabocla, triste e solitariamente encostada na desnivelada parede de paxiúba:

A senhorita me permite esta contradança?
– O que ?
– Vamos dançar?
– Num dá. Eu só danço abenetando.

Fernando encabulou. Desencabulou. Novamente convidou. Mas qual… a dama encasquetou: – Já disse, só danço abenetando.

Sociólogo de vastos recursos, imaginou tratar-se de algum passo novo e, quem sabe, poderia adaptar-se a ele no decorrer da contradança. Insistiu: – Mas sim, vamos dançar?

– De novo? Puxa, só danço abenetando.
– Pois eu sei dançar abenetando.
Mas quando?… A Bené num tá.”

Notas sobre Elton Tavares, que gira a roda dessa louca vida – Por Jaci Rocha

 

Por Jaci Rocha

“Eu vou fazer um samba em homenagem
À nata da malandragem
Que conheço de outros carnavais”

Todos os loucos do mundo são diferentes. Porque pensar nisso na data de hoje? Porque é Setembro, e neste dia 14, Elton Tavares gira a roda da vida, em seu Ano-Novo particular. Ele é um dos loucos mais bacanas que conheço.

Elton tem o tipo de loucura singular que deixa a gente feliz por ter gente que ainda seja assim: é pessoa – e sustenta isso – em todas as acepções que a palavra possa conter.

Aficionado por letras e cultura em muitas das suas vertentes, Elton é um jornalista talentoso, com verbos fortes e clareza de comunicação. É um filho, irmão, tio, neto e amigo amoroso, um cara com justeza ímpar e inteligência curiosa, do tipo que não se acomoda.

Ele tem um humor ácido, um olhar cínico, um sorriso de menino e o gênio de lâmpada acesa demais. Para ter qualquer forma de convivência com o Elton, é preciso compreender que sem toda essa intensidade sentimental, simplesmente ele, em sua composição própria como indivíduo, não existiria.

Elton é um viajante. Entre lugares e pessoas, ele segue a vida, entre conhecer espaços e construir o próprio. Aliás, ele é muito próprio (não ‘a-propriado’, próprio mesmo), como poucas pessoas ainda são, nesse mundo que tenta, a todo custo, dissolver personalidades.

Elton é ‘um figura’ de palavra. Desde os textos que escreve às letras de poemas e canções que publica, diariamente. Tudo nele tem som, barulho, sentido, verbo. Por falar em palavras, algumas fazem parte do que o define: Amor, integridade, intensidade, antítese e ambiguidade (tudo no modo máximo, pois não é de metades).

Ele tem flores e sol dentro de si. Aquele calor de ‘ser gente’ que transcende para vida (pois é extremamente calorento), e o perfume de existir, que ele chama de sorte, mas qualquer transeunte desavisado percebe que é essa luz particular, que o guia pelos bons caminhos de nosso amigo Deus.

Ele nasceu no cio da nossa Primavera, brindado pelas marés mais bonitas do Equador, onde os ventos do norte sacodem as mangueiras, derramam flores de ipês e trazem aos filhos deste rio o cheiro adocicado de vida bendita, outra forma de dizer “bênção”.

Certa vez disse para o Elton que o amor é a força mais poderosa que podemos construir. No nosso caso, o Universo ensinou que uma mesma árvore pode florescer de muitas formas, e eu sou grata, porque a gente renasce muitas vezes. Que bom que, nessa mesma vida, pudemos ver isso acontecer!

Elton, que a vida seja sempre para ti esse lugar porreta , cheia de rock e coisas novas pra viver, e que,se em algum momento ela não for, tenha sempre amor, muito amor, para ‘recomeçar’. Que nosso grande amigo Deus possa bendizer teus passos, teus sonhos e o teu caminho e que a FELICIDADE seja sempre tua maior companheira de jornada.

Muito obrigada por ser infinito. Mais uma vez, é dia de te bendizer!

*Jaci Rocha é advogada (uma de minhas duas advogadas). A gente namorou por um tempão e hoje em dia somos grandes amigos.

Hoje é dia de Elton – Parabéns da @telmamiranda (com felicitações da @LorenaadvLorena )

Eu com Lorena Queiroz (esquerda) e Telma Miranda (colada no eu ainda não tão gordo) – Carnaval de 1999.

Elton é o amigo de todas as tribos e de todos os tipos. Boas conversas, sejam rasas ou profundas, de acordo com o círculo, amante de fotos, textos, pessoas, cerveja e da vida.

Quem olha de longe enxerga um cara brabo (e é, se provocado) com ar blasè, mas quem tem a oportunidade de conhecer de perto sabe que por debaixo dessa “brabeza” e pseuda indiferença, ele é só coração.

Digo pseuda indiferença porque o cara é safo! Por mais que não seja “atingido” ou que não se importe com determinado fato, feito ou agente, ele não deixa passar em branco. Ele observa, conjectura e forma sua opinião como todo bom homem das letras que tem senso crítico (e de crítica) afiado.

Filho, irmão, tio, neto, primo e sobrinho amoroso e presente, parceiro e companheiro, daqueles que se declara e não deixa dúvidas de seu afeto. Apaixonado até hoje pelo pai que tenho certeza que o assiste do plano espiritual e se diverte muito, além de sentir orgulho, com certeza. Não tenho dúvidas da paixão pela mãe Lúcia (e seus pratos maravilhosos que apaixonam qualquer pessoa), pelo irmão Emerson, sobrinha Maitê, tia Maria, Vó Peró (essas duas são jóias pra ele) e todos os seus.

Perfeito? Nem de longe. E nem pretende, mas é um cara que todos deveriam ter na vida. Seja pra aprender, seja pra ensinar.

Eu tive e ainda tenho de longe, pois os caminhos de nossas escolhas de vida são assim mesmo, acabam nos fazendo afastar naturalmente pela rotina, trabalho, filhos, vida, mas ele sempre se mostra, sempre está lá e sei que posso contar com ele quando e se precisar.

Gratidão e desejo tudo de melhor pra você em seu novo ciclo.

Parabéns por hoje.

Feliz aniversário.

Telma Miranda

Obs: A Lorena, comigo e Telminha na foto, escreveu o texto abaixo: 

Mais um ano, né!. As vezes eu fico pensando em como é difícil cumprir este protocolo anual de parabenizar pessoas por sobreviverem mais um ano à este mundo. Eu tenho certa dificuldade de fazer isto q fazes com tanta destreza (Já comentei que tu faz as pessoas parecerem muito melhores do que realmente são). Minha dificuldade, de certo, ocorre porque as distâncias aumentam e as histórias minguam, tudo passa a ser apenas ” protocolo”.

É engraçado quando vamos escrever parabenizando alguém q realmente amamos. Eu lembro de ti diariamente, quando leio um livro ou tomo um trago, ou as duas coisas. Tem uma música do Gonzaguinha que estes dias escutei, na hora eu lembrei de ti por um trecho q descreve em ti uma das características mais nobres que tens “Mas se me der a mão, claro, aperto. Se for franco, direto e aberto. Tô contigo amigo e não abro. Vamos ver o Diabo de perto“.

Tu tens uma capacidade infinita de simplesmente ser amigo, e com uma incansável dignidade de realmente honrar o significado da palavra. Como já tinha dito, as histórias minguam e ficam só os protocolos. Com a gente nunca é assim. Todos os anos eu volto aqui e tenho algo a dizer porque sempre tenho muito à lembrar. Eu te amo imensa e eternamente. Toda a felicidade do mundo é pouco e me remete ao mecânico de se desejar à alguém, por isso eu desejo é que continues vivendo do jeito que queres viver.

Desejo à ti a liberdade de viver sempre entre pessoas boas. Desejo muitas noites de conversas fodas. Muitos pratos de mãe pra curar ressaca. Desejo sempre bons amigos e momentos pra lembrar. Felicidade em pequenas doses é o que eu desejo à ti.

Parabéns.

Te amo!

Lorena Queiroz

*Telma Miranda é advogada, ex-namorada e minha amiga há tempos.

**Lorena é advogada e minha prima/irmã a vida toda. 

 

Meu céu – Crônica bem humorada sobre o paraíso de cada um (o deste jornalista, no caso)

Há meses escrevi uma crônica sobre como seria o meu “Inferno”. Hoje vou falar/escrever um pouco de como seria o meu céu. Não sei se baterei na porta do céu como Bob Dylan. Nem se vou achar o lugar igualzinho ao paraíso, como sugeriu o The Cure, mas estou atrás da “Stairway To Heaven” do Led Zeppelin. Só não vale ter “Tears In Heaven”, do Eric Clapton. Mas vamos lá:

Meu céu é em algum lugar além do arco-íris, bem lá no alto. Bom, lá, ao chegar ao meu recanto celestial, eu falaria logo com ELE, sim, Deus ou seja lá qual for o nome dele (God; Dieu; Gott; Adat; Godt; Alah; Dova; Dios; Toos; Shin; Hakk; Amon; Morgan Freeman ou simplesmente “papai do céu”) e minha hora já estaria marcada.

Ah, não seria qualquer deusinho caça-níquéis (ou dízimos) não. Seria o Deus de Spinoza, que como disse Einstein: “se revela por si mesmo na harmonia de tudo o que existe, e não no Deus que se interessa pela sorte e pelas ações dos homens”.

Após este importante papo com o manda chuva do paraíso (tá, quem manda chuva mesmo é o seu assessor, São Pedro, mas eu quis dizer mesmo é do chefão celestial), daria um rolé e encontraria todos os meus amores que já viraram saudade. Ah, como seria sensacional esse reencontro!

Bom, meu céu é todo refrigerado e chove. Chove muito, mas nunca inunda as vielas do paraíso e nem desabriga ninguém por lá. Ah, abaixo dele chove canivetes nos filhos da puta (que não são poucos) que encontrei durante a jornada pré-celestial. Óquei, pode soar meio lunático, mas é o meu céu, porra!

No meu céu não tem papo furado, como no capítulo 22, versículo 15, do livro de Apocalipse. Lá entrarão impuros sim ou seria uma baita hipocrisia EU estar neste céu. No meu céu não toca brega, pagode e sertanejo sem parar, afinal, isso é coisa do inferno. Ah, no meu céu não entra corrupto, pastor explorador, padre pedófilo ou escroques de toda ordem, esses tão lá no meu inferno e eu ainda teria o direito de cobri-los de porrada!

Heaven – Foto: Elton Tavares

No meu céu as pessoas se respeitam, não tentam a todo o momento tirar vantagens do outro. No meu céu, serviços prestados são pagos na hora, chefes são justos e não rola fofoca. Lá não tem puxa-sacos, apadrinhados ou seres infetéticos desse naipe que a gente, infernalmente, convive na terra diariamente.

No meu céu tem churrasco, pizza, sanduba, entre outras comidas deliciosas e que nunca, nunca mesmo, nos engordam (pois é infernal o preconceito fitness). Lá também não sentimos ressaca. No meu céu tem show de rock o tempo todo, com todos os monstros sagrados que já embarcaram no rabo do foguete e a gente curte pela eternidade.

Lá no meu plano celestial não existe a patrulha do politicamente correto, nem gente falsa, invejosa, amarga, e, muito menos, incompetentes. Se tá no céu, se garante, pô!

Não imagino o céu como um grande gramado onde todo mundo usa branco, ou um local anuviado onde anjos tocam trombetas e harpas. Não, o céu, se é que ele existe (pois já que o inferno é aqui, o céu também é) trata-se de um local aprazível para cada visão ímpar de paraíso, de acordo com nossas percepções e escolhas. Bom, chega de ficar com a cabeça nas nuvens. Uma excelente  semana para todos nós!

Foto: Elton Tavares

Eu acho que há muitos céus, um céu para cada um. O meu céu não é igual ao seu. Porque céu é o lugar de reencontro com as coisas que a gente ama e o tempo nos roubou. No céu está guardado tudo aquilo que a memória amou…” – escritor Rubem Alves (que já foi para o céu).

Elton Tavares (que graças à Deus, tem uma sorte dos diabos).

Meu inferno – Crônica infernal, mas bem humorada

Acho que se existir inferno, coisa que duvido muito, cada alma pecadora tem um desses locais de pagamento de dívidas de acordo com suas ojerizas. Nada como no clássico da literatura “A Divina Comédia”, o inferno do escritor italiano Dante Alighieri, que escreveu sobre os nove andares até a casa do “Coisa Ruim”.

Quem nunca imaginou como seria o Inferno? Como seríamos castigados por nossos pecados? Volto a dizer, pra mim o inferno é aqui mesmo. Mas vou pontuar algumas coisas que teriam no meu, se ele está mesmo a minha espera.

Bom, meu inferno deve ser quente. Não tô falando das labaredas eternas com o Coisa Ruim me açoitando pela eternidade. Não. Esse é o inferno mitológico e ampliado da imaginação religiosa. Falo de calor mesmo, tipo Macapá de agosto a dezembro, com quase 40° de temperatura (a sensação térmica sempre ultrapassa isso no couro da gente) e sem ar-condicionado.

Neste inferno, todo mundo é fitness, come coisas saudáveis e é politicamente correto. Meu inferno tem gente falsa, invejosa, amarga, que destila veneno por trás de sorrisos. Ah, meu inferno tem incompetentes, puxa-sacos, gente de costa quente que conta do padrinho que o indicou. E pior, neste inferno sou obrigado a conviver com elas diariamente.

No meu inferno tem gente que atrasa, que me deixa esperando por horas. Ah, lá tem caloteiros e enrolões, daqueles que demoram a pagar serviço prestado por várias razões inventadas.

Neste inferno moldado a mim tem parente pedinchão, “amigo” aproveitador, filas e mais filas para tudo. Tem também muita etiqueta e formalidades hipócritas. E também todo tipo de “ajuda” com segundas intenções. De “boas intenções” o inferno tá cheio.

Neste lugar horrendo só vivo para trabalhar, estou sempre sem dinheiro, sem sexo, sem internet e sem cerveja. Nó máximo Kaiser, aquela cerva infernal de ruim. No meu inferno toca brega, pagode e sertanejo sem parar.

Eu sei, leitor, que devo agora estar lhe aborrecendo. Mas perdoe-me, esta alma é chata e sentimental. Às vezes vivemos infernos mesmo no cotidiano, pois vira e mexe essas coisas aí rolam. Por isso dizem que o inferno é aqui. Ou como explicou o filósofo francês Jean-Paul Sartre, na obra “O Ser e o nada”: o inferno são os outros. É por aí mesmo.

Ainda bem que tenho uma sorte dos diabos e Deus é meu brother, pois consegue me livrar dos perigos destes possíveis infernos cotidianos e nunca fará com que tudo isso descrito acima ocorra por toda a eternidade. No máximo, de vez em quando, para que eu pague meus pecadinhos neste plano (risos).

Esse devaneio deve ser por conta do “inferno astral”, vivido sempre próximo de meu aniversário. Mas volto a dizer, este seria mais ou menos o MEU inferno. Como seria o seu?

Elton Tavares

Que o Bira siga pela luz. Valeu, artilheiro!

Contratado junto ao Remo, Bira fez parte da equipe colorada que conquistou o Brasileirão de forma invicta Juan Carlos Gomez / Agencia RBS

Um dos maiores do futebol amapaense, Ubiratan do Espírito Santo, o popular Bira, subiu hoje. Ele faleceu aos 65 anos, vítima de câncer de fígado. Além de grande artilheiro, ele foi um baita cara porreta.

Bira começou no Esporte Clube Macapá, mas o Fernando Canto disse que eles jogaram juntos no Flamenguinho do Laguinho. Foi campeão de quase tudo que disputou como amador e profissional.

Foto: site do Remo

Bira passou pelo Paysandu, de Belém-PA, mas foi um dos maiores (se não o maior) artilheiro da história do Clube do Remo, também de Belém, e campeão brasileiro invicto com o Internacional de Porto Alegre-RS, em 1979. Ele passou por vários times: Atlético-MG, Juventus-SP, Náutico-PE, Novo Hamburgo-RS, Brasil de Pelotas-RS, Aimoré de São Leopoldo-RS, Tiradentes-PA e encerrou a carreira no Vila Nova, de Castanhal-Pa.

Inter campeão brasileiro 1979 — Foto: Bira Espírito Santo/Arquivo Pessoal

O artilheiro era amigo do meu saudoso pai, Zé Penha. Tem até uma história bacana, de uma das vezes em que ele veio do Sul e fez umas farras legais com papai e com outro amigo nosso, o Augusto Aragão (Nariz). A mãe do Bira foi à casa dos meus avós paternos para que o delegado Espíndola (meu avô que já virou saudade) prendesse um Passat verde zerado que o craque havia acabado de comprar e era a viatura das noitadas. A genitora, com medo de um acidente, fez esse pedido inusitado e foi atendida. O resultado é que o meu pai (goleiro), o Nariz (zagueiro) e o craque seguiram a festejar, de táxi, a vida.

Eu e Bira, em um encontro de trabalho quando ele era administrador do Estádio Zerão, em 2011. Amigo e eterno artilheiro!

Tive o prazer de conviver com o Bira em um período da minha vida, entre 2004 e 2009, e rir bastante dele e com ele, pois o cara era engraçadão, bem-humorado, boa praça e muito gente fina.

Minhas condolências à família e amigos do Bira. Que ele siga pela luz que irradiou por aqui. Valeu, artilheiro!

Elton Tavares

*Fotos: GE/AP – Sites do Remo e Internacional e Jornal do Sul. 

67 anos do Mercado Central: pedras, paneiros e outros objetos marcavam fila às portas do Mercado

Já contei aqui algumas vezes, mas gosto de repetir: minha família é pioneira em Macapá. Eles vieram do Mazagão para o meio-do-mundo na década de 50. Ano passado, tio Pedro Aurélio me contou uma curiosidade do Mercado Central. E como o antigo centro comercial completa 67 anos de existência hoje, 13 de setembro, resolvi republicar este relato.

De acordo com tio Pedro, que nasceu no Mazagão nos anos 50, mas vive em Macapá desde gitinho, “antigamente, os lugares nas filas que se formavam antes da abertura das portas do Mercado Central eram marcados com pedras, paneiros ou qualquer outro objeto“.

E ainda segundo o tio, o mais importante é que esses lugares “eram respeitados”. Hábito este também utilizado nas amassadeiras de açaí, só que neste caso eram usadas panelas (disso eu lembro).

Pedro Aurélio seguiu na lembrança: “naquela época existia fila específica para gestantes. Às vezes, tinha discussões sobre a veracidade de uma gestação; era comum que, durante o bate-boca, a defesa fosse: quer dizer que meu marido não pode me emprenhar? Quem sabe se estou gestante sou eu” (risos).

”Era desse jeito. Antes das seis horas, eu chegava no Mercado Central para comprar vísceras de boi (bucho, mocotó, fígado, coração, etc), mais baratas, porque eram considerados comida de pobre (Já fui isso, também)”.

Hoje em dia o Mercado Central foi revitalizado e tá lindão, o que valoriza a nossa memória, história e cultura. Um espaço tão importante de Macapá merece.

Eu e tio Pedro Aurélio.

Sobre o tio Pedro

Pedro Aurélio sempre tem boas histórias sobre fatos, causos e histórias da Macapá de antigamente. Afinal, o cara já tem mais de 60 carnavais e sua jornada foi toda percorrida na capital amapaense. Nossas conversas – até as sérias – sempre escorregam para boas gargalhadas. Quem tem a sorte de ser amigo dele, sabe do grande coração do cara.

Pedro Aurélio é filho de família pobre, mas trabalhadora. Os pais, ele e os irmãos conseguiram tudo com muito batalho. Dá um orgulho danado das histórias contadas; tantos exemplos de esforço e superação deixados para nós, os sobrinhos, filhos e netos dos Penha Tavares. Ele costuma dizer que os ensinamentos do meu saudoso avô, João Espíndola Tavares, nortearam sua vida. Aliás, assim como eu, seu pai era/é seu herói.

O relato do tio Pedro que, além de irmão mais novo de meu saudoso pai, é um grande amigo meu, retrata como as pessoas se comportavam antigamente, como eram os costumes, a moral, as atitudes. Valores estes que trago em mim.

Foto: Max Renê.

Uma aula de curiosidade que mostra uma dimensão mágica escondida atrás do tempo e das lembranças de quem viveu na antiga Macapá. Uma leve pincelada na rica história dessa cidade, que é o nosso lugar no mundo e um pouco de nós, os Tavares, que nunca fomos ricos, mas herdamos valores como integridade e decência. E isso, queridos leitores, conta paca. E continua contando…

As histórias completam a memória, acertam verdades e crenças” – Fernando Canto.

Elton Tavares, com informações de Pedro Aurélio Penha Tavares (conselheiro substituto do TCE/AP).

Hoje é o Dia Nacional do Assessor de Imprensa – Parabéns pra gente!

Hoje é o Dia Nacional do Assessor de Imprensa. Não encontrei a origem da data, mas tá valendo. Planejar, pensar em pautas originais, ter bons contatos na imprensa e texto bom não é pra qualquer um não. Sou jornalista. Amo essa profissão, apesar de atuar há 11 anos em uma vertente do jornalismo, a assessoria de comunicação ou de imprensa, como nomeiam alguns.

Já trabalhei ou sou amigo de ótimos profissionais desta área. Assessorei secretarias de Estado, dois governadores, um prefeito, dois desembargadores, um Tribunal, um senador e estou há três anos e dois meses na equipe de comunicação do Ministério Público do Amapá. No post original sobre essa data, o autor listou outras coisas, mas o que concordo são essas:

“Ter uma cara de pau elevada à enésima potência.

Festejar a notinha do colunista famosão como se fosse um furo de reportagem.

Viver explicando pro povo de redação que assessor também é jornalista.

Viver explicando pro povo de relações públicas que jornalista também é assessor.

Saber vender seu peixe. Quer levar, não, freguesia? Pauta fresquinha.

Ouvir do assessorado desinteressante o pedido de uma entrevista pro Jô, e pensar “tô fodido”.

Ralar como qualquer jornalista, mas levar fama de vida boa.

Buscar o difícil equilíbrio entre o interesse do assessorado e o do repórter.

Buscar o difícil equilíbrio entre o ego do assessorado e o do repórter.

Responder 20 perguntas por e-mail pra ontem, por favor, e não esquece uma foto em alta resolução, tipo 300 dpi, pode ser?

Lidar com assessorado que não tem a menor noção de como funciona a imprensa.

Organizar coletiva e rezar pra tudo que é santo pra não chover.

Ir a almoços chatérrimos de “fortalecimento de relações”.

É isso aí em cima mesmo. Acreditem, não é tão fácil quanto parece, mas adoro essa profissão. Além de empenho, é preciso sorte e carisma.

Pois não produzimos somente textos, mas conseguimos espaços nos veículos de comunicação (mesmo quando o assunto é desinteressante), apagamos incêndios midiáticos, usamos nossos contatos e amizades para emplacar pautas positivas, elucidar dúvidas, complementar o trabalho dos colegas jornalistas, combater fake news (as malditas potocas com denominação gringa) e defender o assessorado com argumentos e coerência.

Ah, alguns dizem que assessor de comunicação não faz jornalismo. Concordo, é mais um lance de publicidade, no formato jornalístico. Sabe como é, não ouvimos os dois lados (alguns da “imprensa aberta” também não).

Outro problema é a confusão que muitos fazem entre prestar assessoria e trabalhar a comunicação com ‘puxasaquismo’. Já sofri na pele tal crítica, mas a carapuça nunca me coube. Quem me conhece sabe que esse “talento” eu não tenho. Enfim, parabéns pra nós, que matamos um leão por dia, seja por conta do assessorado ou alguns colegas da imprensa (ainda bem que me dou bem com a maioria deles).

Elton Tavares

Fonte: Desilusões Perdidas

*Imagens da fanpage bem humorada “Assessor de imprensa da depressão“.

Hoje é o Dia do Gordo – Meu texto sobre nós (os gordos)!

Arte do amigo Jorge Júnior (o “Sombra”).

Hoje (10) é o Dia do Gordo. Li que o principal objetivo da data é a conscientização sobre a importância de se manter o respeito por aqueles que estão acima do peso, ou mesmo aquelas pessoas que apenas possuem uma estrutura corporal mais avantajada. Como sabemos, a obesidade pode ser prejudicial à saúde. Porém, não significa que a pessoa que apresenta uma constituição física maior tenha necessariamente alguma enfermidade. Afinal, existem pessoas magras que convivem com diversos problemas de saúde, e nem por isso são vistas com desprezo.

Portanto, o Dia do Gordo visa para desconstruir preconceitos, alterar os padrões de beleza estereotipados e combater a gordofobia, que recai principalmente sobre as mulheres.

Sobre o adiposo estado, sou (não estou, estar é temporário) porrudo desde 1998, quando deixei de ser uma garrafa e virei um freezer de cerveja. Costumo dizer que engordei muito, mas fiquei mais esperto. Ainda bem que, para muitos, o feio bonito lhe parece.

Sem qualquer tipo de apologia à obesidade, admiro gordos bem resolvidos. Eu não sou assim, mas também não me esforço como deveria para melhorar minha forma física. Sigo feliz ignorando preconceitos e cobranças. Mas confesso, é duro não poder usar algumas roupas ou bater bola com os amigos (só lembro do Bussunda, humorista gordo que morreu ao jogar uma pelada com amigos, em 2006).

A maioria dos gordos são alvo de piadas ofensivas, o que enche o saco de qualquer um que não é um babaca. Minha autoestima só não é mais abalada pela forma de geladeira por conta da sorte que sempre tive, depois de arredondar, com as mulheres. Disso posso me gabar. Afinal, gordo tem que se garantir!

Ah, uma coisa é fato, gordo só faz gordice. Somos desajeitados, gulosos, calorentos, engraçados, entre outras coisas. Sei que é preciso maneirar, pois a saúde cobra caro. Quem dera diminuir de ultramegagordo para somente gordo, mas isso é um processo dolorido e exige sacrifícios. A não ser que você tenha coragem de encarar uma cirurgia bariátrica, mas mesmo assim existe sofrimento no pós operatório e adaptação à nova vida.

E os apelidos? Já fui chamado de rolha-de-poço, barriga de lama, corpo de pipo, corpo de coxinha, sargento Garcia, entre tantos outros. O que pegou mesmo foi “Godão”. E eu até gosto desse apelido.

Já tive um corpinho bonito, que enterrei embaixo de toneladas de comidas deliciosas, aliadas a zero prática esportiva. Eu adoro quando um gordão ganha de um figura metido a maromba e quando a gordinha gente fina é mais interessante que a rata de academia sem cérebro.

Enfim, feliz Dia do Gordo a todos os que sofrem com a tiração de barato, encaram com bom humor e muitas vezes conseguem ser mais fodas que muitos idiotas magros ou bombados. Viva nós!

Elton Tavares

Paulão do atabaque – Por Humberto Moreira (Contribuição de Fernando Canto)

Por Humberto Moreira

Vez em quando, para não perder o hábito, costumo fazer uma releitura de alguns livros, que guardo com carinho na minha pequena biblioteca. Lá estão livros do meu compadre Fernando Canto, alguns de Milan Kundera, livros sobre jornalismo, Fernando Gabeira, livros sobre a saga de Ernesto Che Guevara e outros mais simples. Como aquele que fala sobre um amigo que partiu a bastante tempo.

Foi numa certa madrugada em que eu acabara de chegar de mais uma apresentação musical. Nariz, o Augusto Wanderley Aragão, ligou pra minha casa informando a morte do Paulão do atabaque. Perdi o sono e passei a rememorar as muitas viagens ao Amapá, junto com o Paulão e o Newton. Os dois a bordo de um Opala Cupê, apelidado de General Lee. Eu geralmente ia no meu carro, para poder retornar quando bem entendesse.

Paulão era daqueles que topava qualquer parada. Num sábado de sol, como este a gente já estava com tudo traçado. Se não desse pra ir à fazendinha, junto com o Zeca Sebastião, podia dar pé na estrada rumo ao Amapá, para uma festa no clube dos pescadores. No outro dia, uma esticada até a cachoeira grande e a volta pra casa no final da tarde.

À certa altura, Paulão foi para o Recife, aperfeiçoar seus conhecimentos de pesca. Na volta começou a transportar pesca para a cooperativa, num caminhão. Quase toda a semana lá ia eu, encarapitado na boléia do caminhão, rumo ao Pracuuba. Era uma viagem sensacional. Vez em quando, uma parada para um banho, ali pelo Tartarugal. Na fase final da concretagem da hidrelétrica do Paredão, havia um pessoal que gostava muito de seresta. Só tinha para a gente. Eu, Nonato Leal, Sebastião e Paulão. Era violão, voz e atabaque a noite inteira.

De repente ficamos desfalcados. Paulão foi embora, deixando um vazio danado. Ainda hoje quando encontro o Newton, a gente se lembra dele. Um cara pra quem tudo sempre estava bem. Pra ele não havia dificuldade, nem tempo ruim.

Ainda hoje quando viajo pela BR-156, principalmente naquele trecho que vai do Tracajatuba ao Tartarugalzinho, lembro do meu amigo, ao volante do caminhão, contando piada desde a hora que a gente saia de Macapá até chegar ao nosso destino. Um sujeito descontraído que sempre esteve de bem com a vida. Como explicar sua morte prematura. Não há explicação. Quem sabe lá em cima estava precisando de um cara bom de atabaque, para fazer parte de um grupo musical da pesada.

Em homenagem ao Paulão do Atabaque, o Grupo Pilão, gravou uma canção que diz (uma pena que não a encontrei no Youtube): “Morre o homem fica a fama no coração de quem ama”(Fernando Canto).

*Publicado no Jornal do Dia
**Contribuição de Fernando Canto.
***Fotos: 1-Tica Lemos, Brenna Paula Tavares e Memorial Amapá; 2, 3 e 4: Blog Porta Retrato.

Os 49 anos do disco “Imagine”

Em 9 de setembro de 1971, há exatos 49 anos, John Lennon lançou “Imagine”. Foi o segundo álbum solo de estúdio do ex-Beatle e gênio da música mundial. Produzido por Phil Spector, o disco é um dos trabalhos mais belos e intimistas do sensacional artista. A produção da música contou com a participação de Yoko Ono e de George Harrison nas guitarras.

A canção homônima ao disco estourou e tornou-se a mais tocada nas rádios da época. E virou o hino da geração hippie, que pregava a paz e o amor nos anos 1970.

John Lennon foi um músico, compositor e cantor brilhante, além de um ativista fervoroso. Um artista original, que fazia questão de expressar o que pensava e sentia, ainda que várias vezes caísse em contradição ou criasse confusão com isso. O cara foi, além de talentosíssimo, muito polêmico.

“Imagine”, a faixa-título, mostra o ativismo político e social de Lennon. O disco foi seu maior e mais importante trabalho solo. Apesar de quase cinco décadas depois de seu lançamento, a música-título segue atual, pois o mundo está necessitado demais de paz e de amor.

Sim, o velho Lennon sabia das coisas.

Em 14 de novembro de 2015, a banda Pearl Jam fez um show no Estádio do Morumbi, em São Paulo. Eu tava lá. O grupo americano homenageou, de uma só vez, os mortos nos atentados terroristas em Paris (FRA), ocorridos na noite anterior ao show, e John Lennon (o falecido Beatle completaria 75 anos em 2015). O Pearl Jam tocou “Imagine” e todos no estádio do Morumbi acenderam seus celulares, pois a luz da esperança nunca apaga. Foi emocionante e lindo!

A vida é o que te acontece enquanto você está ocupado fazendo outros planos” – John Lennon

Fonte: Revistas, filmes, discos, livros, sites, amigos e minha imensa admiração por John Lennon.

Elton Tavares

Sobre Palafitas e a Maré de ser gente – Conto de Jaci Rocha

Foto: Manoel Raimundo Fonseca.

Conto de Jaci Rocha

Era um dia ensolarado, daqueles de doer nos olhos, quando o sol está no ‘cio’, aqui pelo Equador. A beira do rio, à foz da fortaleza, o Amazonas ardia e brilhava, a ponto de encandear o olhar.

Meu pai pescava com meus irmãos, em uma canoa embaixo de uma ponte, que unia as estradas entre Macapá e Santana.

Foto: Floriano Lima

Eu – a pequena que não conseguia parar quieta e em silêncio – fiquei ‘na terra’, brincando com a filha do vizinho, sob o olhar de meu pai. Brincávamos sobre as palafitas que encobriam a superfície, pois em tempo de maré baixa, abaixo das palafitas, o mundo era feito de argila, barro que adquiria um brilho dourado e espelhado. Gostava de contemplar aquele chão.

Foto: Floriano Lima

E nesse contemplar, tudo era belo e descoberta. Um peixinho em uma poça de água que a maré havia ‘deixado’, uma plantinha desconhecida…e foi assim que, por sobre as frestas da palafita, entre bonecas e panelinhas, meu olhar enxergou uma nota de um ‘alto’ valor – ao menos, para minha tenra infância, – repousada sobre o barro.

Foto: Manoel Raimundo Fonseca.

Eram tempos da moeda ‘cruzado’. Empolgada, iniciei uma grande expedição de resgate do ‘pequeno tesouro’. Planejei milimetricamente, fui até o início da palafita e, esgueirando o corpo – absolutamente longe dos olhos de meu pai – mergulhei naquele mar de lama. Peguei a tão sonhada nota e voltei, triunfante e suja até os cabelos.

Foto: Manoel Raimundo Fonseca.

Tomei banho e aguardei o pescador voltar com os frutos dos trabalhos do dia. Ele veio sorridente. Eu estava banhada e de cabelos trançados, balançando a nota, sorridente. A maré do Amazonas começava a subir e um vento brincava com o vestido rosa claro que usava. Eu estava feliz e orgulhosa da ‘conquista’.

Foto: Manoel Raimundo Fonseca.

Aqueles olhos que chegaram brilhando fecharam o tempo. Perguntaram onde encontrei a nota. Respondi que foi embaixo das palafitas. Ele disse: ” E por que você pegou? não é seu. Devolva”. Com a inocência de uma criança de sete anos, corri na direção da palafita e, entre as frestas, ensaiei jogar a nota de volta à lama.

Meu pai, interrompeu o ato e perguntou “Filha, mas foi assim que você pegou?”. Inocentemente (e até bastante empolgada e orgulhosa), contei-lhe os detalhes da grande aventura. Meu pai, na sua sabedoria filosófica, falou: “Agora, tenha o mesmo trabalho para devolver, meu bem”.

Foto: Manoel Raimundo Fonseca.

Entendi o que ele esperava, meio perplexa. Sob um sol que caía aterrorizante, vestida naquele vestido rosa clarinho, vergonhosamente em silêncio, mergulhei novamente por debaixo das palafitas, e vi a maré de perto, chegar e misturar à lama, à beleza do vestido, recém-perdida, ao estranho sentimento de que devia mesmo fazer aquilo. Assim, devolvi a nota, no mesmo exato lugar em que a peguei.

Ao voltar para casa, meu pai explicou o que eu precisava aprender, ao fazer aquilo: Que tudo que você subtrai de alguém, ainda que esta pessoa não saiba ou veja, faz com que você mergulhe na sujeira. E devolver é mergulhar nesta mesma lama, pedir desculpas e retornar, inteira. Tenho certeza que esta foi a minha primeira lição sobre integridade.

Foto: Floriano Lima

Ah! Antes de retornar, tomamos um banho gostoso naquele rio lindo. E lá, fui ensinada a lavar o dia e aperfeiçoar o aprendizado, em um rio limpo e abençoado, com as dádivas de Deus e as coisas todas minhas, que nada poderia comprar: como o riso de meu pai, que algum tempo depois, naquela mesma paisagem, me ensinou a nadar e a andar pelas palafitas da vida com meu próprio tamanho. A descobrir os espaços, com meu coração e sob os próprios pés.

Arroz com alho – Crônica de Pat Andrade

 

Clarice Lispector (déc.1960) – foto: Maureen Bisilliat -Acervo da autora IMS

Crônica de Pat Andrade

Estou fechando minha participação em um Simpósio de Poesia, para o qual fui convidada, ao mesmo tempo em que reviso um texto e preparo arroz.

Enquanto picava o alho, me veio à cabeça a Clarice Lispector. Que cheiro teriam suas mãos quando escreveu seu primeiro conto conhecido, Triunfo, publicado em 1940. Ela tinha 19 anos. Era tímida, mas ousada. Mais do que eu, inclusive.

Agora, o cheiro do arroz temperado se espalha pela casa. Sigo trabalhando diante do computador, respondendo e enviando mensagens.

Um passarinho canta aqui fora, bem pertinho da minha janela. Me pergunto: se eu não fosse poeta, essas coisas passariam despercebidas?

Será que a Dona Maria, mãe de oito filhos – com mais um na barriga – que lava e passa roupa pra fora, cozinha, cuida dos moleques sozinha, acorda às cinco da manhã pra buscar água no poço da vizinha, será que ela ouve esse passarinho? Será que tem arroz pra cozinhar?

Perguntas vãs, com respostas impossíveis sem poesia. Só a crueza de um cotidiano que não é o meu.

Meu gato me olha e se enrosca em minhas pernas – puro interesse: quer comer – e eu paro por aqui, antes que o arroz queime.