Discos que Formaram meu Caráter (Parte 35) – “Lado B Lado A” …O Rappa (1999) – Por Marcelo Guido

Por Marcelo Guido

Muito bem moçada Rocker que nos acompanha nessa linda, longa e salutar viagem muito louca pelas ondas sonoras e discos revolucionários! Diretamente de sua nave, o viajante da música vem trazer mais um grande e indiscutível clássico. Apresento a vocês:

Lado B lado A – terceiro trabalho do Rappa.

Palmas pra ele!

Corria o ano de 1999 e a boa turma d’O Rappa, colhia os bons frutos conquistados com o esplendoroso “Rappa Mundi” (Já falei desse por aqui) e encontravam-se tranquilos já extremamente consolidados como banda de respeito no cenário nacional.

Visto isso, a intenção não seria de relaxamento; pelo contrário, Yuka, Falcão, Lauro, Xandão e Lobato, estavam cada vez mais se esmerando no discurso de ordem e procurando uma evolução musical que talvez nunca tenha sido vista por essas bandas. Não era hora daquele disco experimental que geralmente as bandas fazem para continuar um “tour” eterno falando sempre mais do mesmo.

Os caras preparavam uma surpresa para os fãs da banda; algo que além de ser ouvido, pudesse ser pensado. Nada muito progressivo, para ser chato e não tão difícil nas letras, para não passar batido. Era um disco para se viver, sentir.

Mesmo sendo reconhecidamente uma banda rock, os caras nunca esconderam suas influências ligadas ao Hip Hop, samba e afins; o que para muitos poderia parecer uma heresia, a rapaziada conseguia unificar e assim fazer algo próprio. As letras, magnificamente bem dosadas e falando do cotidiano fantástico do cidadão comum, que vive nas inúmeras comunidades cariocas e, por que não, nos muitos “brasis” que se espalham por todo nosso território.

Eu tinha 19 anos quando tive contato com este disco, e realmente pirei com os grooves e batidas eletrônicas misturadas a baixo, guitarra e bateria – muito bem trabalhados pelos caras. A poesia de Yuka, estava afiada e não teria como dar errado.

O disco é pancada do começo ao fim. Deixando o papo furado, vamos logo ao que interessa e dissecar este disco:

Começamos com uma batida suave que vai para uma porrada sonora em “Tribunal de rua”, uma batida policial intimidante, todos do bairro já conhecem essa lição. “Me Deixa”, estar de bobeira querendo apenas se divertir, deixar de lado o que te oprime. “Cristo e Oxalá”, o encontro de suas entidades positivas, falando a verdade, mostrando que o que salva é realmente a cultura e a fé. “O que sobrou do céu”, o dia-a-dia de quem é realmente excluído, vítima de uma opressão. “Se não avisar o bicho pega”, o sempre ‘Estar ligado’ para não ficar para trás. “Minha Alma (a paz que eu não quero)”, o comodismo, aquilo que não te atinge, não faz parte do teu cotidiano, não te interessa. “Lado B Lado A”, as incertezas diárias, desafios diários, a necessidade de ter o corpo fechado ou ser um guerreiro para poder passar por isso. “Favela”, ode a todas as comunidades, da onde pulsa o sangue e movimenta a cidade, homenagem aos grandes do samba. “O Homem Amarelo”, a ida para o desconhecido, mas central do ‘buzum’ fala outra língua.

“Nó de Fumaça”, a esperteza e sagacidade necessária para sobreviver às dificuldades. “A todas as Comunidades do Engenho Novo”, um samba rock, estilo Jorge Ben, um abraço nas comunidades, onde tem coisa boa e ruim. “Na palma da Mão”, o silêncio constrangedor depois de um tiroteio.

Uma bolacha realmente fantástica, onde crítica social e brasilidade são recorrentes em todas as letras e sons, sem o vitimismo geralmente exacerbado neste tipo de obra.

Medalha de ouro na categoria disco foda.

Este foi o trampo que consolidou Marcelo Yuka como um dos maiores letristas críticos desse país e mostrou o total comprometimento da banda com as causas sociais.

Eleito pela revista Rolling Stone como um dos cem maiores discos de música brasileira.

Um disco ímpar, que rendeu duas obras primas, se formos falar de clipe. Os vídeos de “O que eu sobrou do céu” e “Minha Alma” levaram o Brasil a outro patamar quando o assunto é esse.

Se você não conhece esse este trabalho, não tem gabarito para empunhar a medalha de foda, fique na sua e saia fora.

Por que no TRIBUNAL DE RUA da vida, você não pode dizer ME DEIXA, muito menos esperar por CRISTO E OXALÁ, ou o que vai te restar é somente O QUE SOBROU DO CÉU, meu brother SE NÃO AVISAR O BICHO PEGA, e MINHA ALMA, não é LADO A LADO B da vida, ela é de FAVELA. Sou HOMEM AMARELO dou muito NÓ DE FUMAÇA nas dificuldades da vida e agradeço de coração A TODAS AS COMUNIDADES DO ENGENHO NOVO, tendo levar minha história na PALMA DA MÃO.

Este texto é dedicado a João Moraes, Ramon Lamoso, Fabricio Ofuji, Fábio Evangelista, Gustavo Sousa Cruz, Rodrigo Ramthum, Alex Rodrigues, Eduardo Nicholas e Vinicius Loures. Todos meus irmãos de Brasília.

* Marcelo Guido é Jornalista. Pai da Lanna Guido e do Bento Guido e Maridão da Bia.

Dezembro e a saudade (crônica republicada de Elton Tavares)

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Dezembro é sempre bacana. Lembro dos anos 90, eu e meus velhos amigos de recuperação ou já reprovados, tomando as saideiras do ano no velho Bar Xodó . Quem estudou no saudoso Colégio Amapaense quando o boteco existia lá no canto sabe do que falo.

Diziam que, da velha turma, ninguém “prestaria” pra nada. Afinal, como aquele bando de jovens biriteiros teria futuro? Sim, nós nos divertimos muito, mesmo com todos os sonhos e incertezas daquele momento. Quando não tinha grana para cerva, era rum, vodka ou cachaça. Nós éramos metidos a rebeldes (rebeldia muitas vezes sem sentido, natural de adolescentes).

Tempos de festas de garagem, estilo de vida meio Bukowski e com trilha sonora rock’n’roll, claro! Internet, Rede Social e toda essa modernidade era coisa de cinema. Eu tinha feito curso de datilografia (com o Werlen), estava aprendendo a mexer no MSDOS (programa de computador com tela preta e letras verdes) e tempos de disket. Quem tinha celular era rico e tocava sempre Legião Urbana. 

Bom, apesar de termos tomado cervas pra esta vida e para a próxima nos tempos do Xodó (ainda bebemos bem, mas não como naquela época), cada um seguiu seu caminho da melhor forma.Xodó

Só que eu, meu irmão Emerson (era o mais moleque entre nós) Walbene, Zeca (Edmar, também conhecido como poeta), Frank, Klinger, Negão (Helder), Junhão (Alessandro Rigamont Junior, Venilson, Topo (Josoelson), Rico, Juciram, Boca, Patrick, Sandro, Marruá (Lígia), Adriano (Bago), Índio (Rômulo) e Marcelo nos demos bem, sim!

Também fiz amizade com o Ewerton, Ismênia, Delano, Renato (Atayde ou Punk), Cacu (Elho), Anderson Favaceumagroho, Anderson Miranda, Newton Barata, Rodrigo (Juarez), Adelson, Zagalo, Rizandra, Jéssica, Glauci, entre tantos outros. É, fiz muitas amizades nos anos 90. A maioria delas bem sólidas e que me gabo de perdurarem após mais de 20 anos.

A maioria daquela galera formou e “vingou”. Quem não possui curso superior se garante na profissão que escolheu seguir. Claro que existem alguns que realmente não quiseram porra nenhuma com a vida mesmo. Mas isso é problema deles.xodoAlbino

Sinto saudade da velha turma, daqueles dias incríveis da nossa feliz juventude irresponsável. Mas tudo virou lembrança boa e experiência de vida, pois graças a todas as coisas bacanas e difíceis que passei naquela época, não me tornei um babaca que se norteia somente por teorias de vida. Aprendi muitos valores morais naqueles tempos.

Sim, dezembro chegou e com ele todo esse sentimento legal de fim de ano, de renovação, de esperança. E com este mês vem sempre a saudade dos que já partiram, dos amigos, dos tempos do bom e velho Colégio Amapaense e Xodó. Eu sempre escrevo sobre minhas memórias afetivas e essas estão no fundo do coração. 12400675_1957125681178307_1652223358896026548_n

Afinal, dia desses li a frase: “Saudade: sentimento do que valeu a pena”. E tomar todas aquelas cervas no bar do Albino com os velhos amigos do C.A. Valeu. E como. É isso!

Elton Tavares

*Texto republicado em todo início de dezembro e assim será enquanto eu sentir saudades de uma época mágica. 

DISCUSSÃO DE BAR – Pequenas histórias diárias (parte 2) – Por Marcelo Guido

Por Marcelo Guido

Existem casos que acontecem com a gente que dão sentido à vida. Talvez sem essas estórias, historias e “causos”, a vida perderia um “Q” de graça e – por que não – o próprio sentido.

Isso realmente aconteceu comigo.

Bares da vida são lugares extremamente democráticos, onde sua condição financeira, classe social, escolaridade e outras congruências não fazem a mínima diferença. No bar, todos somos iguais.

Frequentador nato de botecos que sou, costumo interagir com vários tipos de pessoa. Quão divertido é toda essa simbiose de conhecimento inútil, tiradas inesperadas e palavrões. De tudo se aprende. É realmente um ambiente de saber, uma escola para a vida.

A discussão de bar deveria ser alvo de estudo pelas mais importantes universidades e centros mundo, porque em nenhum outro ambiente está concentrada uma gama tão grande de especialistas sobre os mais inimagináveis assuntos correntes.

Encontramos advogados de causas ganhas, engenheiros de obras prontas, historiadores de fofocas, técnicos de futebol, comentaristas de mesa redonda, craques de futebol, cozinheiros fantásticos, conselheiros espirituais; ou seja, uma verdadeira Barsa etílica.

Certa vez, me meti numa discussão em um bar. Assunto corrente: futebol, claro. Especialista que sou no jogo, não iria perder a oportunidade de mostrar ao meu oponente que não seria fácil ganhar a “quisinba”. O negócio estava feio.

Ringue montado, eu inspirado rebatendo todo tipo de argumento, as pessoas em volta vibrando, o tintilar dos copos americanos juntos aos cristais “Cica”, fumaça de cigarro. O oponente ia às cordas e voltava; eu já me divertia com tal situação. Na maior das tranquilidades, sem utilizar de argumentos ou ofensas pessoais (coisa rara em um bar).

Torcedor do Vasco que sou, é muito difícil ganhar discussões futebolísticas com teu time por baixo. Teu conhecimento sobre títulos, partidas memoráveis, artilheiros, história do clube e bons jogadores tem que estar em dia. E estava.

Em um ato impensável resolvi me levantar para consolidar minha vitória. Com o dedo em riste, me posicionei na frente do adversário e o impensável aconteceu.

Minha calça caiu. Putaquepariu! Nunca! Nem em meus piores pesadelos tal coisa tinha acontecido comigo. E todo meu conhecimento futebolístico não foi páreo para uma única frase do meu oponente:

“LEVANTA ESSA TUA CALÇA FILHO DA PUTA”.

Entre gargalhadas aleatórias, no qual tu tens que participar, se não acaba ficando enfurecido com o acontecido, fui derrotado.

Uso roupas quatro números maiores que o meu, desde a adolescência, e meus cintos nunca tinham me traído, até esse dia.

Duas coisas eu aprendi com tal episódio:

Não devemos ter plena confiança em nossos cintos e que ninguém ganha uma discussão com as calças abaixadas.

*Marcelo Guido é Jornalista, Pai da Lanna Guido e do Bento Guido e Maridão da Bia.

Hoje é o Dia do Evangélico

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Hoje, 30 de novembro, é o Dia do Evangélico. A data foi instituída no município de Santana e no estado do Amapá, em 2003 e 2004, respectivamente. Ambas as Leis foram homenagens aos evangélicos amapaenses, que de acordo com a história, formou-se mediante muitas perseguições. Os evangelizadores teriam sido vítimas de vários ataques. De acordo com a história, uma decisão radical do antigo vigário de Macapá, Padre Júlio Maria Lombaerd, ordenou a queima de livros dos protestantes em praça pública, com a ajuda da polícia e convocação da população.

Motivado pelas leis amapaenses, o então presidente do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva, por meio da Lei nº 12.328, de 15 de setembro de 2010, instituiu o Dia Nacional do Evangélico a ser comemorado em 30 de novembro de cada ano.

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De acordo com o G1 Amapá, 28% da população amapaense é evangélica. Cerca de 187 mil protestantes. Ou seja, a cada 10 amapaenses, 3 são da religião cristã.

Òquei!

Então, sou totalmente a favor da liberdade religiosa, ideológica e de expressão. Reconheço o importante trabalho social dos evangélicos, que combatem a pobreza, drogas, prostituição, fome e outros males sociais.

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Porém, sou contra a pregação sem limites de uma meia dúzia e a corrupção de poucos seguidores da referida religião. Neste caso, concordo com a minha amiga Juçara Menezes (jornalista manauara e ex colaboradora deste site): “gente que faz da Bíblia sua procuração para julgar a tudo e a todos”.

Não quero que este texto provoque a discórdia ou promova a intolerância. Só é uma análise sobre atos extremos. Não duvido da fé das pessoas, só não gosto da falta de compreensão dos carregadores de Bíblia para com os que NÃO querem ser evangelizados.
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Gosto do espiritismo. Já a maioria da minha família é católica e alguns são evangélicos. Acredito que todos procuram ser felizes com a religião que lhes parecer mais aprazível. Sou a favor da laicidade, tenho amigo evangélico, umbandista, espírita, messiânico, budista, católico, ateu ou jedi.

São pessoas diversas, diferentes e divergentes quando o assunto é religião. Mas realmente não me importo. Por mim, cada um com a sua devoção. Só não deixo que me digam o que fazer com a minha, pois não faço isso com ninguém e respeito a fé de todos. Acredito em Deus e graças a ELE, tenho uma sorte dos diabos,

Um grande abraço aos irmãos cristãos, sobretudo aos que exercem sua crença e fé com respeito com outras religiões. Parabéns aos evangélicos pelo seu dia!

Elton Tavares

Bar do Redondo – Conto de Luiz Jorge Ferreira

De onde estou posso vê-lo. Cercado de uma meia dúzia de pessoas, as quais eu não reconheço. Esta trajando laranja, cor que me lembra Yellow Submarine. Fala muito gesticula como se apanhasse uma mosca branca no ar. Os outros mais velhos o escutam com atenção.

Olho ao redor e encontro a mesa mais próxima. Puxo a cadeira e sento. Alguém pede um violão. Talvez ele cante Irene. Adoro Irene, penso enquanto aceno ao garçom. Que não encontra o violão. Plagiando a Irene que conheci em Belém do Pará. Das palavras dos gestos e dos planos loucos de democracia plena. No meio da vigilância noturna da polícia política, em meio a Festa de Arraial na Igreja de São Raimundo. Pichando muros.

Igreja Matriz de São Raimundo Nonato, padroeiro do Bairro da Aldeia e a Praça do Centenário. Fotografia do acervo de Edenmar da Costa Machado.

O bar está quase deserto. Afora as pessoas que estão com ele temos um casal sentado perto do palco, um tablado mais alto que o assoalho uns quinze centímetros. Atores. Ela vestida de abelha e ele de rei. Provavelmente o Rei da Escócia. Provavelmente vindos de uma peça.

O pano que cobre a mesa de Caetano tem a figura do Zodíaco. Talvez ele role os dados.

Estalo os dedos para o garçom, um velho conhecido dali mesmo, eu um solicitador frequente de seus serviços.

Chico! Sai um Gim! Chico parece não me escutar. O bar está às moscas. Mas o ar parece pesado. E ainda são duas e meia da manhã. As cerejas que carrego amassadas no bolso da japona espreitam no fundo do copo. O palito espetado, balança como fosse pêndulo, sem Norte.

Arranco a cutícula do dedo mínimo da mão direita. Não ergo a voz receio gritar desafinado e chamar a atenção deles. Batuco os dedos na mesa como um ritmo Caribenho. Eles me olham e sem dar importância voltam aos seus assuntos. Bebem vinho do Porto.

Abro meu livro de Saint Exupéry e finjo ler. Caetano está de safári e sandálias. Amarra os cabelos com um cordão de rastafári. Finjo ler por que logo levanto para ir ao banheiro. E passo bem perto deles. Discutem Joyce. O monólogo. Um dia apenas de setecentas páginas.

Volto, eles já se foram. Vinte anos depois, em 1988, no dia 8 de Agosto. Volto aqui. Só. Com medo da noite. Não da polícia política. Dos assaltadores. O bar cedeu duas metades esquerdas, uma para a cafeteira americana que serve café com hortelã e mostarda e a outra parte para que guardem carrinhos de amendoim e de vendedores ambulantes quer entopem o centro da cidade, com suas guloseimas inúteis.

Sento à mesa descascada que parece eternizar-se ali. Chamaria o Chico, garçom para que me trouxesse um Gim. Mas Chico morreu. Tento estalar os dedos para chamar o que se esforça para entre as mesas muito próximas rápido para chegar aos clientes, mas nada. Os dedos já não emitem som quando os estalo. Tento batucar com eles um som Caribenho, eles se contorcem sem êxito. Sai um som desafinado e sem definição.

O garçom chega e peço um guaraná diet. Puxo o cachecol. Sobra um medo, filho da revolução, e da sua polícia política. Um tremular de mãos agiganta-se. Herança ganha do exílio e das torturas físicas e psicológicas. Tudo tem um leve sabor amargo, distante. Parece que só me contaram. Tudo agora é historia com h minúsculo.

Bebo todo o copo de guaraná com duas pílulas coloridas. Esqueço o ritmo dos dedos. Parece que passo pela mesa. E ainda Joyce e agora outros que nas palavras que abortaram, perpetuaram-se, inclusive ele.

Vou ao banheiro devagar, entro retiro o tampão da sonda e solto a urina politicamente correta. Olho para a sonda alaranjada. Olho no espelho enquanto lavo as mãos. Há um senhor de idade refletido no espelho. Talvez seja ele que se lembre de Irene e não eu.

Vinha aqui para curtir a solidão desde a época do cursinho. Hoje parece que ela nunca deixou de ser minha. Vinte anos depois imagino que este lugar ainda esta lotado. Mas não está. Volto, eles já se foram. Todos se foram. Inclusive Irene de Belém do Pará, a que fingia me namorar encostando-se à parede enquanto pichava. Abaixo a Ditadura.

Eu saio como entrei. Calado. Nem a garoa, me acompanha. Na banca. Há uma manchete no jornal que diz que Fidel Castro foi operado. Está solitário, doente, e muito mal.

Até ele?

Luiz Jorge Ferreira

*Do livro de Contos “Antena de Arame” – 2° Edição 2017 – Rumo Editorial. São Paulo. Brasil.

Pequenas histórias diárias: A BONDADE HUMANA

Por Marcelo Guido

Existem casos que acontecem com a gente que dão sentindo à vida. Talvez sem essas estórias, histórias e “causos”, a vida perderia um “Q” de graça e – por que não dizer – o próprio sentido.

Isso realmente aconteceu comigo.

Corria o ano de 2018. Minha esposa encontrava-se, na época, desconfortável com sua forma. Por mais que dissesse que não via problema, a nega – como carinhosamente costumo chamá-la – andava meio pra baixo. Tomou a decisão de começar a se exercitar, logicamente foi apoiada por mim (quem é marido sabe do que estou falando). Modalidade escolhida: corrida.

Mas não seria uma corrida qualquer, seria MATINAL! Isso mesmo, meus caros leitores: a nega sairia nos primeiros raiares de sol; o cantar do galo seria seu primeiro compromisso, quando a madrugada se despedisse, ela estaria prontamente vestida com roupa colada, meias grossas, uma camisa minha (claro que não vou mostrar o que é meu) e um indefectível rabo de cavalo. Estava pronta a nova etapa da vida.

Um detalhe – e que detalhe! – é que temos um lindo e belo rebento. Por isso precisávamos da colaboração de todos em casa. Escutei a seguinte frase no começo da empreitada “vou começar a correr, e tu vai acordar e FICAR com o Bento”. Quem seria eu pra discordar dela, além de amar muito a nega eu me AMO muito.

Poderia ser pior, a missão poderia ser “vou correr, e tu vai CORRER comigo”, quem me conhece sabe que não sou muito chegado a desgastes.

Eis que a Nega se vai, correndo feliz em busca de seu objetivo e eu pude ficar dormindo feliz em minha cama até que… ele acordou. Sim o Bento, precisamente às seis horas da manhã de um domingo, abriu seus olhos e sua primeira palavra foi “mamadeila”. Acabou meu sossego.

Fazendo a bendita massa para saciar a fome do pequeno, com os olhos repletos de remela e quase fechando me queimei com a água. Vendo meu filho consumir o conteúdo do recipiente com a voracidade de um peregrino imaginei que o mesmo iria encher a pança e voltaria a dormir. Ledo engano.

O “mi hijo” sentiu a falta da presença da mãe, começou um choro infernal – que rapidamente me despertou – e eu tentava acalmar com todo tipo de gracejo, imitava bicho, voz fofa, carregava no colo e nada; o choro tomava conta do ambiente e quem ouvia poderia imaginar a surra que Jesus levou no filme do Mel Gibson (spoiler: ele ressuscita).

Desesperado sem saber o que fazer, ele me deu a dica “papai descer”. Como assim filho, são sete e quinze da manhã – volta o choro. Não tem argumento melhor que um choro no “pé do escuta rock”.

Descemos, meu filho de fralda e chinelinha e uma mamadeira – a segunda da manhã na boca – e eu mais desgrenhado que um urso, a barba arrepiada, sem camisa com um short folgado e descalço. Eu era um misto de Bicho-Papão com poodle maltratado.

Começamos o nosso rolé (isso mesmo, rolê é coisa de paulista).

Primeira parada: Praça da Bandeira, os poucos transeuntes que se arriscavam a estar pelo passeio público naquele momento se assustavam com minha figura. Meu filho com a desenvoltura e disposição de um cão “sajico”, e eu tão disposto quanto uma velha múmia.

Seguimos, atravessamos a rua e eu comecei a imaginar onde iriamos parar se fôssemos adiante na Avenida Iracema Carvão Nunes, felizmente ninguém na rua. E paramos na Praça do Barão.

Aquela areia amarela, pisada, puxando mais para um laranja. Meu filho se encantava . E eu só queria dormir.

Eis que a poucos, uma nobre senhora vem se aproximando de nós e munida de sua bolsa e vestes sóbrias começa a nos indagar: “Pelo amor de Deus, onde vocês passaram a noite?” Continuando sem me dar chance de resposta “essa criança já comeu algo hoje?” “Jesus amado, tome senhor; é pouco mais o senhor pode tomar um café”. Juro, pela felicidade dos meus filhos, que quis me enterrar naquele campo. Expliquei e agradeci do fundo do coração, que não havia a necessidade, eu agradecia muito sua ajuda mas que tinha passado uma noite tranquila em minha casa, que por sinal era ali pertinho. “E a mãe dele, está onde, que não sabe que ele está assim até uma hora dessas?”. Eu olho para a quadra de basquete e vejo minha nega voltando de sua de sua corrida.

Agradeci aquela nobre alma e voltei com meu filho no colo, minha nega suada e eu rindo, por ter sido confundido com um morador de rua.

Existem pessoas no mundo que ainda se preocupam com o próximo. E isso é muito bom.

Outro dia eu conto mais.

*Marcelo Guido é jornalista, pai da Lanna Guido e do Bento Guido. Maridão da Bia.

38 anos do soco de Anselmo Vingador – Um texto para flamenguistas

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Como bom flamenguista, sempre leio, assisto e ouço tudo sobre o Flamengo. Entre os títulos conquistados pela máquina rubro-negra dos anos 80, comandada por Zico, um fato marcou a Libertadores de 1981, conquistada no dia 23 de novembro daquele ano: um soco. Sim, uma porrada desferida por Anselmo, atacante do Flamengo no zagueiro Mario Soto, do clube chileno Cobreloa.

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Vamos por partes. Depois de passar invicto até a final, o Mengão, campeão brasileiro de 1980, decidiu com o torneio com o Cobreloa. No primeiro jogo das finais, realizada no Maraca, o time da casa venceu por 2×1, com dois gols de Zico. Na partida de volta, no Chile, o time do Flamengo apanhou muito dos donos da casa (agressões mesmo), liderados pelo zagueiro Mario Soto (o brabão) e acabaram ganhando o jogo por 1×0.

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Nessa partida, o Mengo ficou desfalcado dos jogadores Lico, com um corte na orelha e Adílio, ferido no olho. Ambos abatidos pelo defensor chileno. Li em algum lugar que ele agredia os jogadores brasileiros com uma pedra no punho fechado, se é fato, não sei dizer. Relatam jornais da época que o próprio Pinochet (um dos enviados de Satanás à Terra), nas tribunas, virou-se para um adepto e disse chocado: “Não está exagerando, o nosso Mario Soto?” Imagine como o cara estava “virado no cavalo do cão”…

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Então rolou a “negra”, uma terceira partida, em campo neutro, realizado há exatos 38 anos, no Estádio Centenário, em Montevidéu, no Uruguai. O Mengão, que tinha infinitamente mais bola, venceu pelo placar de 2×0, com dois gols do Galinho.

Mario Soto, do Cobreloa do Chile, após levar um soco de Anselmo, do Flamengo, na finalíssima da Taça Libertadores da América de futebol. Montevidéu, Uruguai. Publicada na revista Placar, edição 1206, em 1223/11/2001, página 37.

Mas ainda faltava a forra contra Soto, foi aí que, no finalzinho do jogo, o técnico do Mengo, Paulo César Carpeggiani, chamou Anselmo, um jovem atacante de 22 anos, e disse: “ vai lá e dá um soco na cara do Mario Soto”. Anselmo entrou na partida, se aproximou do zagueiro chileno e, na primeira jogada, deu um pau na cara do chileno, que foi a nocaute. O lance causou um porradal, o jogador do Flamengo foi expulso junto com Mario Soto. A decisão logo acabou e o Flamengo virou campeão da América.

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Depois foi só festa. No desembarque do time no Galeão, a delegação se deparou com uma imensa faixa escrito: “Anselmo vingador!” Pronto, Anselmo era tão herói quanto Zico. Mesmo suspenso, o “Vingador” viajou com o time para o Japão, onde o Mengão derrotou o Liverpool e sagrou-se Campeão Mundial Interclube, em 1981.

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Li várias reportagens sobre este fato, mas as duas melhores declarações foram:

Este episódio exprime uma contradição insolúvel do futebol e da vida. Todos nós temos discursos humanistas e politicamente corretos em favor do espírito esportivo e do sentimento cristão. Mas quem sofre uma agressão covarde não esquece. Futebol é arte, balé, xadrez, mas é um jogo viril e abrutalhado em que façanhas como a de Anselmo refletem o alto grau de testosterona e de agressividade primitiva que nos leva a correr atrás da bola. Nosso lado civilizado homenageia aqueles que descartam a vingança física e se contentam com dar o troco na bola e no placar. Mas dentro de cada fã do futebol existe um brutamontes-mirim que não resiste à poesia de um murro bem dado” – Jornalista Braulio Tavares – Jornal da Paraíba.

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Tenho sobre essa porrada uma tese irrefutável – ali, graças a Anselmo, as ditaduras latino-americanas que assombraram o continente durante a Guerra Fria começaram a desabar. O destino do próprio Pinochet foi selado naquele momento. Não é a toa que, em recente pesquisa publicada na Inglaterra, acadêmicos de renome consideraram que as três quedas mais impactantes da história foram a do Império Romano, a do Muro de Berlim e a de Mario Soto na final da Libertadores.” – Luiz Antonio Simas, professor carioca.

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Anselmo Vingador!

Bom, acredito que em certos momentos, extremos claro, um murro vale mais do que mil palavras (risos). Aquele soco lavou o peito de milhões de rubro-negros. Viva o Mengão e o Anselmo Vingador! Há 38 anos, direto do túnel do tempo…E hoje seremos novamente campeões da América. Mengão sempre!!

Elton Tavares – Jornalista e flamenguista em tempo integral (e bom de porrada, rs).  

20 de Novembro Dia da Consciência Negra – Por Marcelo Guido

Por Marcelo Guido

Por que precisamos desse dia?

Criada em 2003, a data nos remete ao passado e tem o intuito de fazer uma reflexão da inserção do negro na sociedade brasileira, escolhido o dia 20 de novembro não à toa , já que é a data atribuída à morte de Zumbí dos Palmares, um dos maiores e históricos lideres negros que já habitou nossa pátria.

Mas por que ainda hoje precisamos refletir se somos no papel um país multirracial, se nosso sangue miscigenado encantou o pai da seleção natural Charles Darwin, se nossa sociedade é tropical, abençoada por Deus e bonita por natureza ?

É amigos, quem nos dera não precisar! Vivemos um verdadeiro “apartheid” não oficial. Isso porque a política nefasta, que por muitos anos foi responsável pela segregação na África do Sul, é aplicada em nosso país na pior forma, a forma oculta.

A necessidade de uma data oficial como essa é para lembrarmos que a cada 100 vítimas de assassinatos no Brasil , 71 são negras, que a extrema maioria de nossa massa carcerária nos presídios é negra, que a maioria das famílias que vivem na miséria no Brasil é negra. Por isso a reflexão.

A dívida que se tem com o povo afrodescendente é mil vezes maior , foram 400 anos de escravidão, marca essa que para poder tirar de nossa história, precisaríamos ser redescobertos.

O Brasil foi um dos últimos países a deixar de ser escravista. Por isso a reflexão. Para mostrar para muitos que politica de cotas raciais, instituída no Brasil apenas em 2014, não trata-se de uma esmola, e sim de uma reparação histórica para com o povo negro. Por isso a reflexão.

Pra lembrar a todos que foi só a partir de 2003, mais exatamente no dia 09 de janeiro, com o advento da lei 10.939, que o currículo escolar brasileiro teve que colocar a temática “Historia da Cultura Afro –Brasileira” para que os alunos pudessem entender o por que do respeito com a cultura Afro.

Só por esses aspectos, o dia da consciência negra já se faz necessário.

Refletir sobre os erros para que nunca mais eles sejam repetidos, para que o jovem negro possa ter orgulho de sua raça, origem e cor. Por mais cabelos naturais e menos alisamentos nas meninas . Que o orgulho negro seja realmente reconhecido.

Precisamos deste dia para saber que ascensão social do negro não é um favor, e sim um direito. Para que as escolas, repartições e universidades sejam sim um espaço de ampla inclusão.

Zumbi vive em cada jovem médico negro, em cada advogado negro em cada ministro negro, em cada professor negro.

Para que intelectuais históricos, como Machado de Assis e Castro Alves possam ser referenciados como realmente foram.

Para que o elevador social que é quase um templo- já diria Jorge Aragão – seja esquecido e realmente fique no passado. Para que Wilson Simonal saia do limbo cultural o qual foi colocado.

Para que máximas como a do grande educador Paulo Freire , reconhecido mundialmente pelos serviços prestados à educação, sejam enterradas de vez: “os negros nascem proibidos de serem inteligentes” .

Para que nossa sociedade seja mais justa e menos hipócrita.

Viva Zumbi, Cartola, Ivone, Jovelina, Mano Brow , Ben Jor, Leci, Serginho Chulapa , D2, Tony Tornado, Tim Maia, Mussum e todos aqueles que um dia lutaram por igualdade, meu máximo respeito.

Um Salve para todos os negros.

*Marcelo Guido é Jornalista, Pai da Lanna e do Bento e maridão da Bia.

Nossos Batuques – Por Fernando Canto

Por Fernando Canto

O batuque é uma parte do conjunto de atos que acontecem em louvor aos santos de Mazagão, Igarapé do lago e Curiaú. Ocorre durante e após as obrigações religiosas de uma vasta programação festiva, na qual os membros dessas comunidades têm grande e ativa participação. Consiste ainda na música e dança próprias, caracterizados pelo ritmo rápido produzido por instrumentos rusticamente confeccionados por artesãos locais.

No Igarapé do Lago, durante a festa de Nossa Senhora da Piedade, são usados tambores como o “cupiúba”, feito da árvore “cupiubeira”. Este tem um metro de comprimento e serve para fazer a marcação rítmica; o “macacaúba”, feito da árvore do mesmo nome e o “cajuna”, o menor deles, usado mais na procissão, preenchem os vazios da marcação do batuque, onde também são utilizados a “taboqueira”, espécie de ganzá feito de “taboca” em cujo interior se põem grãos de milho e sementes de tento, e o “rapador”, confeccionado com bambu, com gomos escavados por fora e tocados com uma vareta. Os pandeiros são feitos de tiras de árvores, couro de animais e fichas de refrigerantes. São utilizados ainda o clarinete, o violão, o cavaquinho e a viola. Quando tocam nos salões, um pedaço de pau chamado “rolete” é posto sob os tambores para que os batuqueiros tenham maior comodidade.

Já no Curiaú o batuque era realizado somente na festa de São Joaquim, padroeiro do lugar, ou em comemorações especiais, porém hoje, devido à diversificação de devotos de outros santos, ocorre diversas vezes ao ano, não necessariamente no só centro comunitário, mas nas casas dos promesseiros. Ali, os dois (ou mais de dois) tambores utilizados têm o nome de “macacos”. São eles, o “amassador” e o “repinique”, feitos da árvore do “macacaueiro”. O primeiro tem a função de marcar e o segundo de dobrar o ritmo. Seus pandeiros (três) são feitos com a madeira do cacaueiro e do couro de carneiro ou de sucuriju. Da mesma forma que no Igarapé do Lago, os batuqueiros do Curiaú tocam seus tambores, sentados neles, que ficam sobre um tarugo de acapu, inclinados, para melhor repercutirem. Do lado de fora do salão, onde ocorre o batuque, fica permanentemente acesa uma fogueira para esquentar e esticar o couro dos tambores e pandeiros.

Durante as festas realizadas em louvor a Nossa Senhora da Piedade, em Mazagão Velho e Ajudante, o batuque é tocado em dois tambores, sendo que um terceiro batuqueiro, sentado no tambor de marcação ou “amassador”, toca com duas baquetas na parte traseira do tambor “repinique”, para incrementar o ritmo. A “taboqueira” e o “rapador” também fazem parte do grupo de instrumentos da percussão do batuque.

Outro ritmo amapaense que muito se assemelha ao batuque de Mazagão Velho, pela forma de ser tocado é o “Zimba”. Esse nome não tem relação com o que diz Mário de Andrade, no seu Dicionário Musical Brasileiro. O musicólogo explica que o nome vem significar o mesmo que “sanza”, um “instrumento de lâminas, percutidas com os polegares, também conhecido como “zimba” e “kibanda” entre os Babunda e os Bakwese (África), classificado nos grupos das marimbas ou m’bichi, por Stephen Clauvert. O zimba, enquanto música e dança folclórica, é praticado na localidade de Cunani, município de Calçoene. Suas músicas e formas de dançar são semelhantes ao Carimbó da costa paraense, uma área geográfica habitada por pescadores tradicionais que se fixaram no litoral do Amapá.

*Fotos surrupiadas dos blogs Som do NorteAmapá, minha amada terra!.

Futebol – Texto porreta de Marcelo Guido

Por Marcelo Guido

A vida marcada em sonhos, glórias e decepções; tudo em 90 minutos.

O que seria do mundo sem futebol? Longe de mim imaginar tal heresia. Nem em meus piores pesadelos posso ter a competência de vislumbrar tal desastre.

Como pode pensar a vida, sem as noites etílicas, ou sem amizades verdadeiras formadas e moldadas em campinhos de terra, ruas com traves de chinelos? Ou aquela emoção inusitada em acordar na segunda-feira, com a moral lá em cima, para uma semana, sabendo que teu time fez por merecer no domingo. Pior acordar, querendo que o fim de semana seja só um amargo devaneio de derrota, quando os Deuses da bola simplesmente te esqueceram na rodada passada? É amigos, isso acontece.

Para quem gosta de futebol, isso é uma constante, os dois lados da mesma moeda. A linha tênue entre o afago caloroso da vitória e o amargo beijo da derrota.

Futebol não é exato, não é chato como matemática, não é nem esporte. Não tem nomenclatura melhor para o popular “esporte” bretão do que jogo. Isso, futebol é jogo.

Jogo esse, em que vinte e duas almas levam a responsabilidade de milhões de sentimentos nas costas. Onde mandinga, superstição, mania, tudo faz a diferença. Futebol faz ateu rezar, e teísta duvidar da própria fé. Sei disso.

O jogo fabrica heróis, personifica talentos, faz vilão e mais que tudo, mexe com os sentimentos mais profundos e realistas do ser. O futebol te transforma em humano.

Na torcida, não tem titulo homérico, graduação, patente ou divindade… Todos são iguais, tirando – claro – aquele típico pé frio, que levará a culpa pela existência na terra em caso de revés clubístico.

Nomeamos sempre nossos heróis, tivemos a Enciclopédia, o Divino, o Galinho, o Mané, o Dinamite. Tivemos também o Baixinho, o Animal, o Príncipe, o Reizinho, o Super, e o maior de todos: o Rei.

O futebol tem lei sim: a de Gerson, que em seu único artigo, inciso, parágrafo e outros badulaques jurídicos possíveis, diz que “quem corre é a bola”

O jogo é uma verdadeira ópera, construída com drama e comédia, feita por Almirantes, Mosqueteiros, Urubus, Sacis, Raposas, Leões, Galos – uma infinidade de personagens, onde o herói se torna vilão (olhem para o Galinho em 86) e o mais improvável coadjuvante tem seu momento único (procurem Gabiru em 2006).

E o torcedor, figura máxima, esse sim, o verdadeiro reflexo festivo, o que dá toda gama de personificação, o toque final do espetáculo. Sem o torcedor não existiria palco. Em um mundo atual onde estádios são renomeados de Arena, este sim o mais prejudicado. Quão é feia uma comemoração sem geral. O mais feroz dos hooligans ingleses pediria para sair em meia hora de RExPA no mangueirão.

O futebol é isso. É marcante. É emoção. E para quem diz que é só um jogo, minhas mais sinceras condolências; vocês não merecem uma nota escrita no livro chamado vida.

*Marcelo Guido é Jornalista, Pai da Lanna e do Bento …Maridão da Bia.

Os 24 anos do álbum “Mellon Collie And The Infinite Sadness”, do Smashing Pumpkins

Parece que foi ontem, mas já faz 24 anos que a banda de rock alternativo norte-americana The Smashing Pumpkins lançou o magnífico álbum “Mellon Collie and the Infinite Sadness” (em 24 de outubro de 1995 pela Virgin Records).

Este é o terceiro disco da carreira do grupo liderado por Billy Corgan (o careca antipático do rock sabe fazer canções que tocam a alma e o coração).

Mellon Collie foi o álbum que definiu a cara do rock há 20 anos. Um clássico instantâneo que provou que a música alternativa poderia ser complexa e ambiciosa.

Billy Corgan se encontrava no auge da sua megalomania criativa e lapidou todas as músicas com muita astúcia; desde sua introdução instrumental até a última música, o disco é arrebatador.

Ele contém muitas canções sensacionais, como a beleza da instrumental Mellon Collie And The Infinite Sadness, a visceralidade de “Zero” e “Bullet with Butterfly Wings”, a saudade dramática de “Thirty-Three”, a inocência de “1979” e a aula de vivência em “Tonight, Tonight”. Isso para citar somente as que gostamos mais.

O disco recebeu, com a canção “Bullet with Butterfly Wings”, o Grammy de 1997. A obra foi eleita como 29º maior álbum de todos os tempos, em 1998, pela Revista Q. Em 2003, a revista Rolling Stones o colocou como um dos 500 melhores discos de todos os tempos, no 487ª lugar.

A Revista Time elegeu Mellon Collie and the Infinite Sadness o melhor álbum de 1995. Não à toa, ele está na lista dos 200 álbuns definitivos no Rock and Roll Hall of Fame.

O disco é eclético dentro do rock, já que possui desde canções bem melodiosas até rock pesado com guitarras sujas e gritos de FUCK YOUUU. É realmente um álbum memorável, com um apelo artístico fantástico (sem falar naquele encarte sensacional).

Em 1995, Kurt Cobain já tinha ido para as estrelas e tudo que surgia de genial era mais uma esperança. No final, sabemos que o Rock nunca morre. Ele adoece, mas sempre volta com tudo.

Até hoje as músicas de Mellon Collie emocionam e transportam no tempo quem tem mais de 40 anos. Sim, nostálgico. Agora é só escutar Tonight, Tonight, onde o velho Corgan canta “acredite em mim” ou 1979 e viajar no tempo.

Elton Tavares e André Mont’Alverne

Roberto Carlos de Santana, meu louco favorito – Crônica porreta de Fernando Canto

beatosalu

Crônica de Fernando Canto

Não sei bem em que jornal eu li sobre um maluco que morava numa praia do Rio de Janeiro, mas quem o deixou comigo foi meu amigo RT na volta de uma viagem à cidade maravilhosa. O texto o descrevia como um homem corpulento, negro e barbudo, que fumava maconha, mas que não incomodava ninguém. Cumprimentava a todos e fazia parte da paisagem urbana de Ipanema. Todo mundo o conhecia no bairro e o autor do artigo falava em uma espécie de reencontro com ele depois de muitos anos que passou fora do Brasil.

Em Macapá conheci algumas dessas pessoas alienadas, praticamente abandonadas por suas famílias. E foi exatamente na minha adolescência, quando era estudante do ginásio. Na saída das aulas os mais velhos instigavam os mais novos a fazerem chacotas com elas e apelidá-las quando passavam em frente ao colégio.

Nunca esqueci a “Onça”, que possivelmente não era louca, mas viciada na cachaça. Qtonho-da-lua-4uando convidada fazia espetáculos sensuais, levantava a saia rodada e dançava Marabaixo, sem se desvencilhar da garrafa de “Pitú’ equilibrava na cabeça, rebolando, para o delírio da turma, que a aplaudia sem parar, rindo e gritando com aquelas vozes de fedelhos em mudança, quase bivocais.

Ainda posso ver o “Cientista” lá pelas bandas do Mercado Central trajando seu paletó azul claro e um calção sujo e descolorido. A barba rala, as feições indígenas e o olhar sereno. Vez por outra procurava alguma coisa embaixo de uma ficha de refrigerante ou em uma pequena poça d’água, como se tivesse perdido algo muito valioso. À vezes anotava (ou fazia que anotava) alguma coisa em um papel de embrulho, daí as 32229-loucos-4-originalpessoas acharem que eram importantes fórmulas de um cientista, vindas em um “insigth”, um estalo de ideia. Eu o vi também trajando o pijama de interno do Hospital Geral, de onde fugia de uma ala reservada aos doentes mentais.

Quase decrépito, mas imponente, calvo e meio gordinho era o famoso “Pororoca”. Para mim é inesquecível a cena que vi dele descendo a ladeira da Eliezer Levy, no bairro do Trem, no sol quente do meio dia, bem embaixinho da linha do equador, quando os raios do sol pareciam rachar os telhados das casas e estalar a piçarra. Lá vinha ele, rindo à toa, descalço, de cueca branca e um imenso couro de jiboia enrolado no peito. Um figuraço!aliceatravesdoespelhofilme.jpg2 (2)

Creio que todos os frequentadores do bar Xodó chegaram a conhecer o “Rubilota”, um senhor de aparência forte, que andava invariavelmente sem camisa, que pedia um cigarro e ia embora. Mas de repente surtava e começava a gritar pornofonias das mais cabeludas possíveis. Quando ficava violento era preciso chamar a polícia, mas com um bom reforço, pois ele era durão.

Quem sempre aparecia pela Beira-Rio era o Zé, cearense e empresário de sucesso, mas que enlouqueceu, dizem, de paixão. Ele me conhecia, e sempre que me via nos bares ia me cumprimentar ou pedir um cigarro. Os garçons tentavam expulsá-lo do ambiente porque andava sujo e com o pijama do hospital, de onde fugia igual ao seu colega “Cientista”. Porém esergiocabeleirau não deixava que o escorraçassem.

Havia um cara que eu conheci ainda sem problemas psiquiátricos. Ele tocava violão e cantava na Praça Veiga Cabral, ali na parada das kombis que faziam linha para Santana. Estudava, salvo engano, no Colégio Comercial do Amapá. Anos depois eu o encontrei pelo centro da cidade cantando sozinho pela rua as músicas seu ídolo: era o Roberto Carlos de Santana.

O pessoal da sacanagem do Xodó chegava a pagar R$1,00 para ele cantar o “Nego Gato” no ouvido de algum freguês desprevenido. O RC de Santana chegava por trás da vítima (normalmente um amigo que não sabia da onda da turma) e dava um berro que até o Rei da Jovem Guarda se espantaria. Cantava “Eu sou o nego gato de arrepiar…” em alto e bom som e em seguida saía correndo com medo da porrada até a intervenção dos gozadores que morriam de rir.0,,22536863,00

Esse era o meu maluco predileto. Não sei por onde ele anda, se morreu como a maioria dos aqui citados, se ainda recebe uma grana para cantar o “Nego Gato” ou se ainda canta acreditando que é o Roberto Carlos, lá em Santana. O interessante é que as pessoas sempre têm uma explicação para a causa da desgraça alheia. Dizem que todos eles tiveram desilusões amorosas, que foram vítimas de traições, e por isso surtaram, e assim viveram e assim alguns morreram. Mas com certeza viveram bem, imersos no seu mundo, sem se importarem com que os “normais” pensassem a seu respeito, sem se indignarem com os acontecimentos inescrupulosos dos políticos indignos, estes sim, os deficientes mentais que precisam ser recolhidos definitivamente da sociedade.

O AÇAÍ DO GROSSO – Por Fernando Canto

Crônica Fernando Canto

Depois que ganhou o status como o quinto produto de maior exportação do Estado, o açaí ficou mais caro e escasso por aqui.

Não é para menos que um conhecido bloco carnavalesco do bairro do Laguinho vem trazendo como enredo a conhecida e desejada delícia regional, em um protesto interessante e engraçado, através de uma marchinha de tirar o fôlego, bem característico do tradicional bloco.

Fruto da Euterpe Oleracea, o açaí = yasa’i em tupi, é “a fruta que chora”, e produz um refresco de coloração arroxeada. É louvado por artistas e poetas em pinturas e músicas regionais de grande sucesso, como o “sabor Açaí” de Joãozinho Gomes e Nilson Chaves. Mas também é tão apreciado pela população que conhecemos pessoas completamente dependentes dele na sua alimentação diária. O Carlitão e o Álvaro, da Banda Placa, como tantos outros, fazem estoque do produto em seus freezers. Na entressafra correm atrás do fruto ainda verde, chamado “açaí parau”. Esgotada essa demanda inicia-se outra, a do sorvete que também é estocado e dura bastante, mas rigidamente controlado em seu consumo, até a chegada da próxima safra. Há pessoas que sofrem quando n

ão tem açaí. Uns chegam a ficar doentes e, doentes mesmo, por excesso de ferro e ausência de outros minerais e proteínas no organismo, continuam com a velha mistura do açaí com camarão, com peixe ou com charque assado.

O saudoso bandolinista mazaganense Amilar Brenha, já velho, com diabetes e pressão alta, mesmo proibido pelo médico de ingerir açaí com o acompanhamento tradicional do camarão, não hesitava em pedir o alimento e ser atendido pelos que tinham pena dele. Dizia que depois da música era o seu maior prazer.

Lembro que há muitos anos, na falta brava do açaí, que era considerado alimento de pobre, alguém estabeleceu “democraticamente” que só se poderia vender um litro por pessoa. Então famílias inteiras levavam suas panelas, chaleiras, caçarolas e garrafas de água para a fila do balcão das amassadeiras. Eram famosas a do seu Ramiro, a do seu Arinho, no Laguinho e a do seu Ituaçu (nome duas vezes grande), na Rua São José.

Por gostar tanto desse vinho, o amapaense produziu inúmeras anedotas sobre ele, de forma satírica e até mesmo cruel. A dúvida do Mundoca, por exemplo, quando disse que não sabia se tomava uma garrafa de cachaça ou um litro de açaí com os cinco reais que tinha em certa tarde de domingo; a irrefletida pergunta do pai que recebera a notícia do atropelamento do filho em frente à batedeira: – E aí, o açaí derramou? E a história da bela namorada de um amigo meu que foi convidada para a ceia familiar do natal. Ela pegou um prato e se serviu de todas as iguarias da época e, para o espanto de todos, após misturar o peru com a lentilha, o filé, o pato no tucupi com maniçoba, vatapá, pimenta e salada, abriu um buraquinho no meio do prato, retirou elegantemente um frasquinho da bolsa e despejou o conteúdo, o açaí, bem no meio da comida para então começar a “remar” com a colher. Assustado com aqueles gestos inusitados para ele, meu amigo acabou terminando o namoro.

Todos nós desenvolvemos certos hábitos culturais que se refletem no nosso comportamento diário, mas é com a alimentação que deixamos ver o quanto somos diferentes uns dos outros. No caso do açaí, o hábito de tomá-lo se confunde: Ora é complemento alimentar usado como vitamínico e energético ora é o próprio alimento que se complementa com o peixe, o charque (jabá), o camarão, etc.

Por isso mesmo o bloco do Laguinho inventou até um personagem para lutar contra a falta do produto regional: um tal de Capitão Roxão, um super-herói, cuja missão é evitar que os estrangeiros levem o nosso açaí e deixem só a “chula” (borra) para os laguinenses. O enredo é uma peça humorística onde os açaílatras (dependentes do açaí) têm a esperança do produto não faltar em suas mesas, mesmo com o preço “pela hora da morte”.

Meu céu – Crônica bem humorada sobre o paraíso de cada um (o deste jornalista, no caso)

Há meses escrevi uma crônica sobre como seria o meu “Inferno”. Hoje vou falar/escrever um pouco de como seria o meu céu. Não sei baterei na porta do céu como Bob Dylan. Nem se vou achar o lugar igualzinho ao paraíso, como sugeriu o The Cure, mas estou atrás da “Stairway To Heaven” do Led Zeppelin. Só não vale ter “Tears In Heaven”, do Eric Clapton. Mas vamos lá:

Meu céu é em algum lugar além do arco-íris, bem lá no alto. Bom, lá, ao chegar ao meu recanto celestial, eu falaria logo com ELE, sim, Deus ou seja lá qual for o nome dele (God; Dieu; Gott; Adat; Godt; Alah; Dova; Dios; Toos; Shin; Hakk; Amon; Morgan Freeman ou simplesmente “papai do céu”) e minha hora já estaria marcada.

Ah, não seria qualquer deusinho caça-níquéis (ou dízimos) não. Seria o Deus de Spinoza, que como disse Einstein: “se revela por si mesmo na harmonia de tudo o que existe, e não no Deus que se interessa pela sorte e pelas ações dos homens”.

Após este importante papo com o manda chuva do paraíso (tá, quem manda chuva mesmo é o seu assessor, São Pedro, mas eu quis dizer mesmo é do chefão celestial), daria um rolé e encontraria todos os meus amores que já viraram saudade. Ah, como seria sensacional esse reencontro!

Bom, meu céu é todo refrigerado e chove. Chove muito, mas nunca inunda as vielas do paraíso e nem desabriga ninguém por lá. Ah, abaixo dele chove canivetes nos filhos da puta (que não são poucos) que encontrei durante a jornada pré-celestial. Óquei, pode soar meio lunático, mas é o meu céu, porra!

No meu céu não tem papo furado, como no capítulo 22, versículo 15, do livro de Apocalipse. Lá entrarão impuros sim ou seria uma baita hipocrisia EU estar neste céu. No meu céu não toca brega, pagode e sertanejo sem parar, afinal, isso é coisa do inferno. Ah, no meu céu não entra corrupto, pastor explorador, padre pedófilo ou escroques de toda ordem, esses tão lá no meu inferno e eu ainda teria o direito de cobri-los de porrada!

Heaven – Foto: Elton Tavares

No meu céu as pessoas se respeitam, não tentam a todo o momento tirar vantagens do outro. No meu céu, serviços prestados são pagos na hora, chefes são justos e não rola fofoca. Lá não tem puxa-sacos, apadrinhados ou seres infetéticos desse naipe que a gente, infernalmente, convive na terra diariamente.

No meu céu tem churrasco, pizza, sanduba, entre outras comidas deliciosas e que nunca, nunca mesmo, nos engordam (pois é infernal o preconceito fitness). Lá também não sentimos ressaca. No meu céu tem show de rock o tempo todo, com todos os monstros sagrados que já embarcaram no rabo do foguete e a gente curte pela eternidade.

Lá no meu plano celestial não existe a patrulha do politicamente correto, nem gente falsa, invejosa, amarga, e, muito menos, incompetentes. Se tá no céu, se garante, pô!

Não imagino o céu como um grande gramado onde todo mundo usa branco, ou um local anuviado onde anjos tocam trombetas e harpas. Não, o céu, se é que ele existe (pois já que o inferno é aqui, o céu também é) trata-se de um local aprazível para cada visão ímpar de paraíso, de acordo com nossas percepções e escolhas. Bom, chega de ficar com a cabeça nas nuvens. Um excelente final de semana para todos nós!

Foto: Elton Tavares

Eu acho que há muitos céus, um céu para cada um. O meu céu não é igual ao seu. Porque céu é o lugar de reencontro com as coisas que a gente ama e o tempo nos roubou. No céu está guardado tudo aquilo que a memória amou…” – escritor Rubem Alves (que já foi para o céu).

Elton Tavares (que graças à Deus, tem uma sorte dos diabos).