Hoje é o Dia de Santo Antônio (o Dia do Amor)

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Hoje é o Dia de Santo Antônio. Somente agora tive tempo de publicar um texto sobre, afinal, temos a Sessão Datas Curiosas neste site.

Também chamado pelos católicos por Santo Antônio de Lisboa ou Santo Antônio de Pádua. De acordo com a história, ele foi inicialmente um frade agostiniano, tendo mais tarde entrado na ordem Franciscana (1220). Nascido em Lisboa no d13450776_10206153164258574_8358576784586467668_nia 15 de agosto entre os anos de 1191 e 1195, ele morreu em Pádua, na Itália, no dia 13 de junho do ano de 1231. Daí a celebração neste dia.

Foi muito conhecido pela sua vida despojada de riquezas, apesar de ter nascido em uma família influente. O seu trabalho com os pobres foi essencial para que fosse rapidamente reconhecido como santo após sua morte.

A canonização de Santo Antônio aconteceu poucos anos após sua morte, e muitos consideram que terá sido uma das canonizações mais rápidas da história.

208010076509598990_BlE1Lsrt_cSanto Antônio é considerado um dos santos mais populares entre os brasileiros e portugueses. No Brasil, Santo Antônio é conhecido por ser o “Santo Casamenteiro”, sendo que o Dia dos Namorados é comemorado no dia 12 de junho no Brasil por ser a véspera do Dia de Santo Antônio. Hoje é que as pessoas que desejam casar ou conseguir um namorado preparam simpatias para Santo Antônio, acompanhadas de orações.

Para a umbanda esto_antonio_exu1 o candomblé, no Brasil, Santo Antônio é sincretizado como Exú, que é um orixá africano, também conhecido como: Exu, Esu, Eshu, Bara, Ibarabo, Legbá, Elegbara, etc. Ou também Ogum, que é o orixá da guerra, capaz de abrir caminhos na vida. Por isso, costuma ser identificado com Santo Antônio, o “santo casamenteiro”.

Exú é o orixá encarregado de ligar o mundo dos espíritos ao mundo material, proteger as fronteiras, as casas, templos, cidades. E também é responsável pelas ligações amorosas, o que faz do dia 13 de junho uma data especial para trabalhos espirituais ligados ao a13453061_1207803865939309_1015662742_omor.Por isso, hoje também é o dia Exú ou Dia do Amor.

Outra denominação para Santo Antônio é Hermes, na Mitologia Grega o Deus da medicina, do comércio e dos ladrões, é também o mensageiro dos deuses.

Dizem que Santo Antônio, quando ainda não era santo, decidiu ajudar duas moças pobres a se casar, não sabia a dor de cabeça que estava criando pra si mesmo. O coitado agora tem que conviver com as ordens pedidos de mulheres que são capazes de qualquer coisa pra acabar com a solteirice. Essa santidade que as moças teimam em deixar de cabeça pra baixo , afogam e até sequestram o Menino Jesus e barganhar o refém por um namorado ou casório.santo

Portanto, hoje é festa junina nas igrejas, terreiros de umbanda e candomblé. Viva a diversidade religiosa e suas denominações sobre divindades e seres encantados, seja Santo Antônio, Hermes ou Exú, meu respeito. Com sua energia e poder, que ele ajude quem ainda não tem um amor . É isso!

Elton Tavares (compilação).
Fontes: Calendar, Tenda Cigana e Raízes Espirituais.

Há 52 anos, The Beatles lançou o antológico álbum Sgt Peppers Lonely Hearts Club Band

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No dia 8 de junho de 1967, há exatos 52 anos, a banda britânica The Bealtes lançou o antológico álbum Sgt Peppers Lonely Hearts Club Band” (A Banda do Clube dos Corações Solitários do Sargento Pimenta). O disco, que vendeu mais de 30 milhões de cópias, é tido como um dos mais importantes da história do Rock and Roll e até mesmo da música.

Os quatro Beatles viviam o final da “Beatlemania e, como sempre, surpreenderam com o mitológico “Sgt. Peppers” . Com Sgt. Peppers , os Beatles se reinventaram, mudaram a música moderna e influenciaram toda uma geração.

A obra arte espetacular é repleta de lendas. Paul não depositou muita confiança no lançamento de um disco não comercial, já que Sgt. Pepper pouco tocaria nas rádios, mas Lennon bateu o pé (graças a Deus) e a banda lançou o álbum com riffs de guitarra elétrica e em formato Hard Rock. O resultado: 4 prêmios Grammy – inclusive o de melhor disco daquele ano – e 11 milhões de cópias vendidas só nos Estados Unidos.

Desde moleque, sempre quis saber quem eram a maioria daquelas pessoas na capa do LP Sgt. Peppers, sem falar nas mensagens subliminares.

“Quando o observa através da perspectiva atual, se vê que ‘Sgt. Pepper’s foi como um ícone. Foi o disco daquela época e provavelmente mudou a forma de gravar, mas não o fizemos de forma consciente”, afirma George Martin, produtor dos álbuns dos Beatles, na autobiografia do grupo, “Antologia”.

“Sgt. Pepper” demorou mais de 700 horas para ser gravado e custou cerca de US$ 75 mil, números inéditos naquela época.

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Foi Paul McCartney quem propôs a seus companheiros que se “transformassem em outro grupo” e sugeriu o nome de “Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band, inspirado nas bandas que surgiam nos Estados Unidos naquela época.

Gravaram a faixa título do álbum, uma canção que começava com o ambiente de um concerto – instrumentos sendo afinados, o barulho do público – e que emendava com “With a little help from my friends”, a segunda faixa do disco.

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Esta foi outra novidade de “Sgt. Pepper”: as canções se sucediam de forma contínua, sem interrupções. A partir da terceira música – a composição de John Lennon “Lucy in the sky with diamonds” -, as faixas deixaram de ter uma ligação temática. “O disco ia transcorrer como uma ópera, mas depois dissemos: ‘Ah, que se dane!'”, declarou Ringo Starr.

“Sgt. Pepper” acabou se tornando um diversificado cardápio de canções, algumas tão afastadas do rock clássico como “Within you without you”, de George Harrison, gravado com um grupo de músicos da Índia e uma pequena orquestra de cordas.

A faixa que dá nome ao álbum volta a tocar numa versão mais rápida quase no fim do disco, que termina com “A day in the life”, uma das parcerias de Lennon e McCartney.

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Para apresentar as canções, os Beatles encomendaram a Peter Blake uma montagem fotográfica na qual os quatro integrantes do grupo aparecem vestidos com uniformes de guerra de cores chamativas e cercados por vários personagens. É a capa mais famosa da história.

Marlon Brando, Marilyn Monroe, Bob Dylan, Edgar Allan Poe, D.H. Lawrence, Karl Marx, Johnny Weismuller, Stan Lauren e Oliver Hardy são algumas das celebridades que acompanhavam os Beatles na fotomontagem, da qual foram eliminados Hitler e Gandhi. A contracapa do álbum foi outro marco: pela primeira vez, as letras das canções apareciam impressas num disco.

Desde então, não deixou de liderar as listas de melhores discos do rock e, quando completa 52 anos, continua sendo uma referência cultural.

Mais informações neste vídeo de 2017, quando o discaço fez 50 anos: 

Fontes: Whiplash; Wikipédia e O Globo .

 

Bob Dylan completa 78 anos hoje. Viva o Mr. Tambourine!! #BobDylan

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Hoje, 24 de maio, um dos figuras mais geniais da música mundial completa 78 anos.

Nascido Robert Allen Zimmerman, no estado de Minnesota (EUA), o compositor, cantor, pintor, ator e escritor norte-americano Bob Dylan chega, também é ganhador do Prêmio Nobel de Literatura 2016.

Autodidata, ainda adolescente, aprendeu a tocar piano e guitarra sozinho. Iniciou a fantástica carreira artística em 1959, em grupos de rock e imitando Little Richard. Com canções de protesto, crítica social, românticas e até religiosas, do folk ao rock, Bob Dylan foi ícone da contracultura nos anos 1960, ativista fervoroso, pacifista e ídolo de qualquer um que admira belas músicas e atitude.

Uma curiosidade: Bob tirou seu “Dylan” do poeta galês Dylan Thomas (1914-1953). Ele costuma dizer que: “Bob Zimmerman soava longo e pesado” e “Bob Dylan era menos sincrético”.

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Não dá pra calcular a magnitude de Dylan, muito menos explicar sua contribuição e influências para a música. São 57 anos de carreira, 65 discos nessa trajetória; aproximadamente 500 canções escritas; mais de 3.400 shows. Seu trabalho é algo quase paranormal. Centenas de livros já foram escritos sobre ele. Por falar nisso, Bob escreveu sua obra literária, intitulada “Tarântula”, com pouco mais de 20 anos. Sem falar que ele pintou quadros, desenhou e atuou.

Difícil explicar um cara desses. Dylan é tido como o maior poeta da história do rock and roll e um dos artistas mais influentes do nosso tempo. Ao longo de sua sensacional história, Bob Influenciou grandes nomes do rock americano e inglês nas décadas de 60 e 70. Em 2004, foi eleito pela renomada revista Rolling Stone o 7º maior cantor de todos os tempos e, pela mesma revista, o 2º melhor artista da música de todos os tempos. Só ficou atrás dos Beatles. Uma de suas principais canções, “Like a Rolling Stone”, foi escolhida como uma das melhores de todos os tempos. Em 2012, Dylan foi condecorado com a Medalha Presidencial da Liberdade pelo presidente dos Estados Unidos Barack Obama. Como já dito, se tudo aí já não fosse o suficiente para muitas vidas, ele foi o ganhador do Prêmio Nobel de Literatura 2016. Tédoidé!

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Desejo uma vida ainda mais longa ao Mr. Tambourine. Que ele nunca encontre outro furacão, que não bata tão cedo na porta do céu e que continue a rolar pedras por pelo menos mais 78 anos. Desta forma, o cara seguirá com sua voz fanhosa, gaita, guitarra e liberdade criativa a nos emocionar.

Muito obrigado e parabéns, Bob Dylan!

Fontes: revistas, sites, papos de bar, programas da MTV e muuuita curiosidade sobre a obra do aniversariante.

Elton Tavares

Há dois anos, morreu Chris Cornell, vocalista das bandas Soundgarden, Temple of the Dog e do Audioslave

Há exatamente dois anos, morreu Chris Cornell, vocalista do Soundgarden, Temple of the Dog e do Audioslave. Seu corpo foi encontrado no banheiro de seu quarto em um hotel de Detroit (EUA). O astro do Rock tinha 52 anos. A família pediu privacidade para trabalhar com os profissionais médicos na determinação da causa do óbito.

Nascido em Seattle (EUA), Chris Cornell foi um dos grandes nomes do movimento grunge no final dos anos 1980 e nos anos 1990. Em 1984, ele formou o Soundgarden ao lado do guitarrista Kim Thyail e do baixista Hiro Yamamoto.

O Soundgarden foi a precursora das bandas do grunge. Eles abriram o caminho para Nirvana, Pearl Jam e Alice in Chains – ao ser a primeira do gênero a assinar com uma grande gravadora, selando contrato com a A&M em 1988. Em seis álbuns, mais notavelmente Badmotorfinger, de 1991, e Superunknown, de 1994, o Soundgarden foi uma das bandas de rock mais influentes dos últimos 25 anos, com “Spoonman,” “Outshined,” “Rusty Cage” e “Black Hole Sun” como hits cravados na história do gênero.

Em 1990, Cornell iniciou o projeto Temple of the Dog, um supergrupo formado por ele, Stone Gossard e Jeff Ament, ambos ex-integrantes do Mother Love Bone, Mike McCready, Matt Cameron e Eddie Vedder. O propósito da iniciativa era fazer um tributo a Andrew Wood, que era amigo de Cornell e vocalista do Malfunkshun e do Mother Love Bone. A banda lançou um único disco, autointitulado, em 1991 pela A&M.

Após término do Soundgarden, Cornell se juntou aos integrantes do Rage Against the Machine Tom Morello, Tim Commerford e Brad Wilk para formar o Audioslave. Em, 2007 Cornell deixou o supergrupo para se concentrar na carreira solo, antes de reunir o Soundgarden em 2010. Recentemente, ele promoveu reuniões de Audioslave e Temple of the Dog e ainda lançou um disco solo, Higher Truth, em 2015.

Cornell foi um excelente frontman em todas as bandas que participou. Entre outras coisas, ele era conhecido também pela canção “You Know My Name”, a música tema de 007 – Cassino Royale, de 2006.

O músico lidou com vício em drogas e álcool durante muitos anos, chegando a se internar em uma clínica de reabilitação em 2013. Em 2012, ele e a esposa, Vicky, criaram a Chris & Vicky Cornell Foundation para trabalhar com crianças em situações vulneráveis. A ação foi baseada na experiência pessoal dos dois na tenra idade.

Meu comentário: Chris Cornell era um dos meus vocalistas favoritos. Um cara de imenso talento, atormentado pela sua loucura. Alguns de nós não consegue se conter, era o caso do fantástico cantor. Cheio de atitude, ele ajudou a deixar os anos 90 mais felizes para toda uma geração de fãs de Rock.  Valeu, Cris!

*Com informações da revista Rolling Stones

O RETRATO AZUL – Conto de Fernando Canto sobre sua mãe

Conto de Fernando Canto

E agora estou aqui, engolindo este silêncio seco, sem saber o que dizer para você.

Por tantas vezes você me acariciou os sonhos e os cabelos e me aparou de quedas vertiginosas, falando em anjos guardiães. Às vezes, em pequenos pedaços de iracúndia você me insultou. – Burro, não é assim, é assado, é grelhado. Eu ouvindo, eu burro. Você me ralhava, dizia até com ponta de aspereza para que eu não me importasse com a perda das coisas, as que considerava tolas. Eu parado ouvia, mas dentro a cachoeira vinha abrupta e profusa. Havia de sentar ou fugir, me rebelando do trato ou a enchente me afogava.

Agora estamos nós dois sem saber o que fazer… Você aí sentado nessa rede com olhos brilhosos de lágrimas, olhando fixo o quadro que lhe demos de presente de aniversário. E você tem vergonha de chorar porque homem não chora, ainda mais um homem como você que sempre foi forte e capaz de transpor os obstáculos e desarmar, sorrindo, tantas armadilhas.

Você tem lembranças e elas são fantasias de nuvens. Você quer concreta a sua lembrança. Ela surge na forma que você quer. Ela vive em sua memória de um jeito estranho, pois o cenho não esconde a projeção e você a sente como se tivesse medo. Mas medo você não tem nem está triste, apenas lembra.

Eu ao seu lado toco em seus cabelos e na sua dor. Você me abraça. Nós, é óbvio, não temos a mesma idade nem a mesma opinião sobre os golpes que o tempo deixa, pois os ventos mudaram para outras pontas da grande rosa e os valores brilham em forma e conteúdo ou, como se diz comumente, qualitativa e quantitativamente. Hoje você vale o brilho que sabe demonstrar com sua esperteza. Hoje os fios do bigode são meros adornos de vaidade e moda. – E não culpe somente as mãos do mundo. Cuspa, se lhe aprouver. Eu vivo a contragosto esses valores e trago em mim a amargura do meu tempo. No entanto, estou aqui junto a você, agora sentindo uma reação esquisita, frente a essa tela.

Minhas lembranças não são mais nítidas que as suas porque o amor que eu sinto é diferente. Você esteve mais perto, então uma imagem lhe traz uma série de outras mais claras, mais tangíveis.

Para mim muita coisa é confusa. Os sentimentos da monocromia em azul saltitam sobre o retrato emoldurado. Consigo ver um tempo que não é meu e me sinto intruso perscrutando o que pertence a seu mundo, me metendo, penetrando no interior de seus sentimentos e elaborando apenas fantasia.

O retrato espelhado em seus olhos mexe com você até a alma. Um doce para mim se sou capaz de adivinhar. Você segura a minha mão com força como se de longe estivessem lhe chamando. Você está em dúvida. Eu respondo. Não quero que você vá. Mas quem sou eu para lhe impedir a vontade se você ama, se você quer ir.

Minha lembrança migra para uma tonalidade tênue e vejo você sentado no pátio de nossa velha casa de madeira conversando com ela sobre as atividades dos filhos, sobre a TV em preto-e-branco que desejam comprar, e especialmente sobre sua situação financeira que não está nada boa, desde que foi obrigado a vender seu comércio pra pagar dívidas contraídas pelo sócio mau-caráter.

Vejo vocês saindo da missa. Uma, duas, mil esperanças a cada domingo. Um almoço farto é imprescindível nesse dia da semana. Você diz orgulhoso:

– Em minha casa nunca faltou comida. E agradece a Deus. E come as delícias que ela fez.

Embora sua risada fosse discreta, os olhos demonstravam a cor do seu pensamento feliz. Havia tristeza, é claro. Ninguém vive sem sentir o gosto dos diferentes venenos que ingere. Porém, há remédio para tudo, isso até hoje você diz. Você pratica e ensina que há antídoto para as agruras; que existem meios e formas para superar qualquer barreira da vida; que não é necessário beber veneno, mas se for inevitável engole-se aos poucos para depois vomitá-lo todo. Então você vomita. Muitas passagens da vida são venenosas e a ação do tempo é emética, aprendo.

Não posso me arriscar a duvidar. Você foi feliz e sofre hoje. Todavia, a sua felicidade acabou no momento em que a paixão incrustou definitivamente, acho, assim como a tinta na parede, como o asfalto no leito da rua, como a cola no papel. Ora, você sabia da durabilidade das coisas porque consertou mil objetos. Sabia que nem tudo é resgatável, gastou horas e sentimentos lidando com minúcias para não esgotar a paciência. Perseverava sempre, até o limite técnico de sua vocação de engenheiro e alma de artesão incomparável. Sim, você sabia que a parede tomba com a violência do temporal, que a tinta escurece e descasca com as intempéries, que o asfalto rompe com o tráfego dos veículos, que a rua desnivela com as erosões, que a cola desgruda com as variações da temperatura, que o papel rasga e amarelece com o manusear constante. Você sabia tudo isso, mas levou tempo para admitir.

Você embala a rede que me roça as pernas. Eu afago seus cabelos brancos com uma ternura de me causar surpresa. Nós sempre fomos amigos, mas havia uma barreira. Talvez a do excesso de respeito, pelo que a aproximação arrefecia. Foi preciso tempo e esta situação para que eu me decidisse amá-lo com toda a força do meu coração, entendo-o agora, dizendo dentro de mim e, se eu quiser, bem alto e retumbante, um Eu Te Amo para impregnar este quarto onde mora a intimidade de sua memória, onde você cultiva sua solidão particular.

Há uma relação inquebrável, uma linha, um foco de luz entre seus olhos e a tela. Nela você penetra aos poucos. Eu deixo, porque a luz é sua, a transcendência é clara. Suas mãos emitem uma aura azul.

Você não percebe que eu desliguei a luz. Você enxuga uma lágrima cadente com a mão esquerda no rosto brônzeo e transmigra com os olhos fixos para dentro da figura tão bem pintada por um artista amigo da família. Com as mãos em seus cabelos acaricio, talvez, a necessidade de seu sonho. Sinto que alimento sua satisfação, embora a sua dor esteja explícita no cenho errado, duro, mas substancialmente alinhado agora. Você não parece ter a idade que tem. Eu observo seu rosto pelas réstias de luz fugidas da sala vizinha, através das frestas das tábuas. Há nele inevitáveis rugas. Mas um sorriso paira em sua boca. Um enigma.

O passado corre no quarto como um rio de volta para a nascente. Recordo suas velhas histórias. Longas e quase inacreditáveis. Histórias amazônicas, histórias que, sabemos, são verdadeiras, pois você nos ensinou que a mentira não é necessária, é sempre uma coisa dispensável. Todas elas traziam a liberdade sonhada nos quintais. Todas abrangiam um mundo particularizado, impenetrável porque aconteceram antes da devastação da floresta, o que tanto o entristece e o preocupa quando assiste aos jornais da televisão. Fogo, antes, só o fátuo – a ilusão. Eu criança e mesmo já adulto absorvia os mistérios dos seringais, as técnicas descobertas por extrema necessidade no meio da selva, e o idolatrava quando contava das farras feitas com seus irmãos, sempre aprontando alguma. Ríamos muito no final dessas histórias.

Um sentimento enorme tomava conta de nossa família. Você encanecia rápido, dizia que não era de preocupação, era genético. Mas eu sabia. Sabia quando você se preocupava, porque depois do almoço, quando mamãe saía para o trabalho, você ficava se embalando numa rede larga, de cor branca, fixando a vista em algum ponto da parede, assim como o faz agora na direção deste quadro. Depois saía sozinho, de bicicleta, ganhando a tarde.

Só você e ela sabiam das dificuldades que nos afligiam. Nós, os filhos, tínhamos o que queríamos e o que pedíamos no limite de nossa pobreza. Nunca reclamamos de nossa infância. Éramos felizes e tentamos até hoje dar um sentido racional a ela, sem, contudo, perdermos o vínculo do encantamento pretérito com a chuva de desencantos que às vezes caía sobre nós. Há um remédio para cada veneno. Lembra? Você não lembra. Está quintessenciado.

Será que erramos com a ideia do presente? Assim você sofre demais, deixando transparecer a debilidade do corpo que balança a rede. Você ainda me abraça e olha o perto/longe. Está lá dentro conversando com ela, caminhando nos paralelepípedos da cidadezinha do interior, de mãos dadas, com seu termo de linho branco, galante e contente, demonstrando o seu amor, inclusive às solteironas invejosas das janelas coloniais. Você sobe a ladeira com um sorriso de homem maduro. Mais alegre, ainda, é ela, a professorinha da Prefeitura Municipal, a desfilar com a graça de seu andar miúdo e um sorriso fulgurante, ajeitando de vez em quando a rosa amarela presa aos cabelos negros. É final da tarde de domingo.

Você a imagina assim, como no retrato. O retrato azul, transposto e ampliado de uma velha foto da década de 40. Minha impressão é que você confunde o real e o imaginário. Permanece o silêncio. Nós dois aqui.

Ah, falta o violão, imagino eu, para que você dê uns acordes harmônicos e cante músicas do seu tempo. Valsas, valsas. Mas o silêncio é seco. É áspero. É doído. Acho então que não estou errado. Seu semblante está feliz, está tocando, está ouvindo músicas. Não há amor sem música. Para ela havia muitas, dessas que entrelaçam e fortalecem uma relação aparentemente ingênua.

De repente você escuta o apito de um navio passando longe. E a convida para viajar, conhecer outras terras, começar a vidinha a dois. O apito do navio transporta o engano do futuro. Você é um aventureiro nato. Não desiste nunca. Mas não impõe. Os dois vão viajando trinta e poucos anos. E gostam. Não enjoam jamais da cara do outro. As brigas que se sucedem são só de vocês. Ai daquele que meter a colher.

Até parece que ela vive. Você devaneando me faz acreditar. Eu acredito. Você me diz: – Eu não estou triste, só lembro.

Lembrar é fato legítimo. É viver o presente com lucidez. E você vive. Apenas viajou.

Paro de afagar sua cabeleireira branca. Você me abraça e não me olha. Sei, no entanto, que está sorrindo, que está feliz. Você levanta, me dá três tapinhas nas costas e vai assuar o nariz no banheiro.

Acendo a luz fluorescente. Olho o retrato mais uma vez. O quarto está repleto de luz. Mamãe está sorrindo na tela com os olhos molhados de ternura.

Há seis anos: trampo e pororoca no Araguari, uma aventura no Rio encantado

Há seis anos e 10 dias, viajamos, eu e a fotografa Márcia do Carmo, juntamente com uma equipe de técnicos da Prefeitura Municipal de Macapá (PMM) para as localidades do Igarapé Novo e Bom Amigo. Essas duas comunidades, apesar de fazerem parte do território da capital do Amapá, ficam isoladas, localizadas no Rio Araguari.

A expedição foi denominada “Pororoca Solidária”, pois consistiu em ações sociais da PMM, em parceria com um grupo de surfistas da onda (fenômeno natural) homônima a missão nas referidas localidades. Duas embarcações fazem parte da ação, um barco de madeira de porte mediano e uma balsa, onde os surfistas nos seguem.

O barco, nomeado “Renascer I”, partiu para a foz do baixo Rio Araguari com 13 pessoas, sendo três homens na a tripulação (comandante Celso e os embarcadiços “Farinha” e “Botinho”) e a equipe da PMM (eu, Márcia, Gláucia, Renata, Sandro, Diléia, Adélia, Galma, Roberta e Débora) – pessoal gente boa, com quem dividimos trampo, andanças por quilômetros em pura lama, comida, água, picadas de mosquito, entre outras coisas.

A viagem de ida foi um pouco tensa, por conta de um estranho nevoeiro que surgiu às 4h da manhã da quarta-feira, 24 de abril. O piloto me disse que nunca tinha visto algo parecido e a visibilidade estava comprometida. Como se já não bastasse, a profundidade, cerca de 23m, não permitiu que o comandante ancorasse o barco, o que nos fez seguir – com velocidade mínima – totalmente cegos, pelo Rio Amazonas (por onde navegamos antes de chegar ao Rio Araguari). Mas correu tudo bem.

Eu e Márcia fizemos fotos lindas. As imagens vão desde a alvorada no Rio Araguari aos guarás (pássaros da região). As noites foram longas, muitos mosquitos. Haja repelente! Foi osso!

Fomos até a comunidade de Igarapé Novo. Andamos cerca de 1,5 km (distância para ir e o mesmo para voltar ao barco) com lama até o joelho até chegar às casas dos ribeirinhos onde distribuímos alimentos e fizemos o recadastramento deles no programa Federal “Bolsa Família”. Além disso, cruzamos com a TV Amapá (Globo local), que também cobriram a ação social da sexta-feira, na comunidade Bom Amigo. O dia foi proveitoso!

Após as missões de trabalho, a ansiedade de ver a Pororoca tomou conta da maioria de nós.

Na manhã de sábado, pela primeira vez na vida, vi e vivi a Pororoca. A grande onda dos rios da Amazônia. Foi muito melhor que eu imaginava. Eu, a fotógrafa Márcia do Carmo e três colegas esperamos a onda na “curva da onça”, local onde a Pororoca arrebentou sobre nós. O fenômeno nos atingiu e logo alagou a enseada onde estávamos. Aliás, ficamos em um local bem de frente para a onda. Foi sensacional!

No domingo, fomos novamente acompanhar a Pororoca, mas agora, de cima da lancha “voadeira”. Ficamos muito perto da grande onda. Pena que eu e Márcia fomos em embarcações diferentes. A que eu estava deu problema no motor e logo mudei para a lancha pilotada pelo prático Riley.

Já a que a Márcia estava, encalhou e foi pega pela onda. Graças a Deus ninguém se machucou. A adrenalina de estar na crista da Pororoca, mesmo em uma lancha, é incrível! As fotos falam mais que palavras.

Nosso retorno à Macapá ocorreu após o almoço de domingo. Todos extasiados pela visão e sacodes da Pororoca. A viagem de volta não foi tão tranquila, pois a maré estava revolta, mas chegamos bem.

A expedição foi uma experiência de vida inexplicável e única, que adorei ter vivenciado. Aprendi muito naqueles oito dias. Tudo bem que nem tudo foi como eu pensava nesta viagem. Mas nossa missão foi cumprida.

Obrigado a todos que viveram esses momentos comigo, pois foi demais paid’égua e inesquecível. Saio dessa odisseia maravilhado com a beleza da região, com a Pororoca e peculiaridades do Araguari que como cantou Amadeu Cavalcante: é um rio encantado! É exatamente isso!

Parafraseando outro poeta, Gonzaguinha disse: “o movimento da vida não deixa que a vida seja sempre igual”. É isso! Modéstia à parte, monotonia é algo que não está incluso na minha rotina de jornalista. A partir de hoje, já estou ansioso pela próxima aventura que a vida me reserva. Bom resto de semana pra todos nós!

Elton Tavares

*Republicado por motivos de saudades dessas coisas. 

Belchior e a Música das Esferas – Por Fernando Canto (dois anos sem o poeta)

Musico Belchior em 1977.

O cantor e compositor Belchior morreu há dois anos (quando soubemos, pois na verdade ele foi para as estrelas no dia 29 de abril de 2017), em Santa Cruz do Rio Grande do Sul, aos 70 anos.  Naquela manhã, acordei com a triste notícia de seu desencanto. Sempre fui seu fã, mas há alguns anos, me tornei mais ainda por conta da convivência com uma das pessoas que mais idolatravam o artista. E hoje o “tempo andou mexendo com a gente, sim”.

Poeta brilhante, artista louco, compositor fantástico, entre tantas outras coisas sensacionais que Belchior foi e é, dificilmente eu conseguiria descrever a importância dele para a música e cultura brasileira. Mas o Fernando conseguiu. Fica aqui nossa homenagem com essa crônica do Canto:

Belchior e a Música das Esferas – Por Fernando Canto

Por Fernando Canto

“Deixando a profundidade de lado” eu sempre fui fã desse cara cearense, que hoje faz 70 anos. Assisti pela primeira vez a um show dele no Projeto Pixinguinha, no Centro de Convenções João de Azevedo Picanço, em 1984. Ele cantou seus sucessos “Como Nossos Pais” e “As Paralelas” ao lado de Zizi Possi, outra cantora que também admiro muito. O que me chamou atenção no seu visual eram as meias coloridas, a cabeleira e o vasto bigode, que parecia ter vindo de uma nave da Tropicália. Aliás, a “roupa colorida” era tida como elemento constituinte da corporalidade do ethos tropicalista.

Passaram-se alguns anos, ainda na mesma década, ele tocou no final de um festival universitário da canção no ginásio de esportes Avertino Ramos. Cantava no palco. Eu estava lá na arquibancada. Um sujeito que estava do meu lado gritava para ele, pedindo atenção. De repente jogou uma lata de cerveja na direção do palco que atingiu o cantor. Antes dos seguranças chegarem para expulsá-lo perguntei-lhe por que fizera aquilo. O cara chorava e dizia: – Eu sou fã dele, queria apenas que ele me ouvisse. Queria que ele tocasse “A Palo Seco” ou “Rapaz Latino Americano” e, mas ele não me ouviu. E gritava: – Desculpa, desculpa. Eu não queria fazer isso…, enquanto era arrastado para fora. Logo a seguir o cantor ilustrava o ambiente reverberador do ginásio com a música solicitada pelo fã compulsivo – quase um psicopata – e cruel:

“Eu sou apenas um rapaz latino-americano/ sem dinheiro no banco/ sem parentes importantes/e vindo do interior/ POR FAVOR NÃO SAQUE A ARMA/ NO SALOON, EU SOU APENAS O CANTOR. / MAS DEPOIS DE CANTAR/ VOCÊ AINDA QUISER ME ATIRAR/ MATE-ME LOGO, À TARDE, ÀS TRÊS/ Que à noite eu tenho um compromisso e não posso faltar/ Por causa de vocês”.

Depois do seu episódico desaparecimento há quase três anos, quando especulações sobre sua vida emergiram de forma negativa, só podemos perguntar “Onde está Wally?”, no meio dessa multidão insensível. Onde está Belchior? O cara que sabia sobre a descoberta pitagórica da Música das Esferas, da harmonia dos planetas no cosmo, tanto que fez questão de usar trecho do poema “Via Láctea” do parnasiano Olavo Bilac (“Ouvir estrelas? Ora direis, Certo”). O cara-cabeça do “Pessoal do Ceará” que compunha com Fagner e revolucionou a MPB.

Sete décadas. Cabalísticamente sete para um cara que tinha “25 (2+5=7) anos de sonho e de sangue/ E de América do Sul”. Que trazia sua identificação nordestina presa ao dorso do seu cavalo que eram as embarcações pesqueiras de velas do Mucuripe, canção dele e de Fagner. Esse mesmo cara que transitava entre o sonho e a realidade de uma forma surpreendente, pois essa trajetória não tem suas âncoras presas ao real, tal como pensamos. Ele que escreveu “Se você vier me perguntar por onde andei/ No tempo que você sonhava”, e sua realidade respondia: “De olhos abertos lhe direi/ Amigo eu me desesperava” (A palo seco); ele que falava num sonho que “viver é melhor que sonhar” e respondia no mesmo verso sua realidade que “Viver é melhor que sonhar” (Como nossos pais). Todo indica um paradoxo, em que o dono do discurso parece estar perturbado e que quer fazer saber que “sons, palavras são navalhas”.

Não sei por onde anda esse rapaz de 70 anos. Queria vê-lo agora aqui, em um palco montado na praia de Iracema, desafiando o tradicional, para me encantar com o seu diferenciado e inédito canto nordestino, mostrando novamente ao Brasil o resultado positivo de seu desafio, que se constituiu em fazer algo mais significante para a beleza da música popular brasileira. E sem o preconceito regional que carregava.

O artista mirava seu próprio devir, pois “era alegre como um rio […] MAS VEIO O TEMPO NEGRO E, À FORÇA, FEZ COMIGO/ O MAL QUE A FORÇA SEMPRE FAZ. / Não sou feliz, mas não sou mudo:/ Hoje eu canto muito mais” (Galos, noites e quintais). A ele me refiro pelo seu percurso de anunciador de um discurso nostálgico, que louvo por dizer assim, coisas que ficaram na memória: “GENTE DE MINHA RUA/ COMO EU ANDEI DISTANTE/ QUANDO EU DESAPARECI/ Ela arranjou um amante/ Minha normalista linda/ Ainda sou estudante/ Da vida que eu quero dar…” (Tudo outra vez).

Não sei por ande anda esse rapaz de 70 anos, “Mas parece que foi ontem/ Minha mocidade/ Com diploma de sofrer/ De outra Universidade…”. Parabéns, Belchior, estou ouvindo mais uma vez a tua música das esferas. Não faria igual ao jovem fã do ginásio de esportes de Macapá. Eu te jogaria flores e não uma lata de cerveja, pois cerveja a gente bebe com prazer só para escutar teu som inesquecível.

*Escrito por Fernando Canto em outubro de 2016, quando o amigo e também poeta, fazia seu Doutorado em Fortaleza (CE).

Muito obrigado por suas alucinações. Você exercitou bem o lance de “paixão morando na filosofia”, amou e mudou as coisas em muitos de nós, seus fãs. Valeu, Belchior!

NEM LÍNGUA DE CACHORRO AJUNTA – Crônica de Fernando Canto ( e recado pros manés de plantão)

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Crônica de Fernando Canto

As más línguas, quando querem, destroem qualquer situação, pessoa ou relação aparentemente estável. Já vi coisas se transformarem da noite para o dia em verdade absoluta, bastando para isso uma pequena interrogação irônica ou uma afirmação leviana, por um balançar de cabeça de pessoas consideradas sérias.

Em muitas dessas situações inventadas está escondida a verdadeira intenção do difamador, que lança seus “diabinhos” e deixa que eles corram como rastilho aceso em direção à banana de dinamite. Daí, os pedaços voam e se esmiúçam cada vez mais na cabeça dos ingênuos que se convencem dos fafofoca1tos e espalham a falsa notícia, para a satisfação do interessado. A estratégia do caluniador conta sempre com o apoio das “rádios cipós” que se ancoram pelos corredores das repartições públicas, pelas esquinas e bares. Elas são fontes secundárias de informações pelo princípio empírico e popular de que “onde há fumaça há fogo”, e, aliás, aproveitada com muita competência por apressados comunicadores locais, nem um pouco interessados em checarem a “notícia” plantada.

Muitas vezes, e sem querer, somos atores nesse processo, que é da natureza humana, uma vez que vivemos em grupo, nos comunicamos por diversos meios e temos interesses comuns e particulares. levianoTemos desejos e conflitos políticos e portamos uma conduta psicológica calcada em personalidades próprias e bem diferentes uma das outras. Talvez por isso nem nos damos conta que ao recebermos uma mensagem, seja de onde e de quem vier, nos tornamos personagens que vão beneficiar ou maltratar alguém ou alguma coisa.

Os políticos, de modo geral, se valem desses expedientes quando querem salvaguardar seus interesses, mormente na hora que os argumentos se esgotam. 1355812829Já descrevi aqui neste espaço invenções articuladas com o propósito de inverter o jogo das eleições. Lembro que ouvi pessoas sérias afirmarem ter visto o marido de certa candidata a prefeita sangrando no Pronto Socorro, por causa de um tiro dado pelo irmão do candidato que venceria as eleições. Lembro ainda que em outra eleição deu no rádio que o candidato mais velho a prefeito da capital havia falecido. O boato crescera tão rápido logo pela manhã que um batalhão de repórteres saíra à cata do suposto morto. Quando ele se manifestou nas rádios já era tarde. Seus eleitores não queriam “perder o voto” e já haviam votado em outros candidatos. Esses são apenas pequenos episódios que envolvem boatos e fofocas no meio político, onde um criativo mundo se articula diariamente em permanente conflito na busca da estabilidade e poderes.facefofoca

A calúnia, a difamação e a injúria são crimes previstos em lei. São palavras diferentes para ações legais muito semelhantes que tiram o sono dos “bocudos” quando têm de pagar indenizações na justiça a alguém a quem ofenderam moralmente de forma leviana e irresponsável. São elementos do controle social necessários à estabilidade da sociedade, dada à variabilidade e às diferenças das influências ambientes.cachorro_calor[6]Nosso comportamento é motivado pelas necessidades psicológicas herdadas e pelos anseios sociais adquiridos. Somos induzidos a agir por isso e conforme nossas necessidades, ambições e interesses de ordem pessoal. Daí, também, advém os desvios de conduta, os excessos temperamentais e a ausência de educação e controle que fazem as pessoas disseminarem suas opiniões ofensivas à dignidade de alguém. A Lei serve para controlar e punir esses crimes. Mas, uma vez feito o estrago, difícil é a reparação. Segundo o seu Jurandir, do Bailique: “Depois que o caldo cai no chão nem língua de cachorro ajunta”.

* Crônica de novembro de 2007 e publicada no livro Adoradores do Sol, de 2010.

Poema de agora: A Maiakovski. Poeta Russo – Luiz Jorge Ferreira

A Maiakovski. Poeta Russo

Um dia eles nem chegam!
Já estão escondidos nas sombras que nos acompanham, por todos os lugares.
E nós não vimos, nem sentimos seus cheiros podres, nem sentimos suas mãos nos pescoços.

Simplesmente porque ainda fazem isto só com os outros.

Certo dia em que estamos comprando ovos da Páscoa.
Eles entregam armas aos moleques sem cor dos aglomerados.
Mas com medo neste momento levantamos do sofá, e desligamos a Televisão para não saber mais disto.

Uma noite eleito por nós mesmos, eles se reúnem, e criam facilidades para o domínio.
Empilham placas na rua,
para que indefesos andemos a mercê dos sádicos.

Criam leis para retirar nossas armas, e facilitam a liberdade dos ladrões, e assassinos.

Mas como o domínio ainda nos permite ir a praia – Não protestamos.

Certo dia acordamos com eles em nossas casas, em nossas mesas, em nossas camas, em nossas almas.

Nesse dia, sentiremos seus cheiros podres, seus dentes podres, seus gestos bruscos, e seus torniquetes no pescoços.

Seremos proibidos de ir a praia, caminhar sob o sol, e inocentemente tomar sorvete.

Ansiosos vamos procurar reunir todos para criar uma saída.

Mas então! – Todos serão ninguém, e eternamente!
Será muito tarde.

Luiz Jorge Ferreira

* Do livro Tybum.

Hoje é o Dia do Goleiro – meu saudoso foi/é o meu goleiro preferido

No Brasil, em 26 de abril é comemorado como o Dia do Goleiro. A data foi criada há quase 40 anos para fazer uma homenagem para aqueles atletas que por muitas vezes não tem o reconhecimento devido do seu trabalho. A ideia foi do tenente Raul Carlesso e do capitão Reginaldo Pontes Bielinski, que eram professores da Escola de Educação Física do Exércitopapaifutebo do Rio de Janeiro, e começou a ser comemorada a partir da metade dos anos 70, segundo relata Paulo Guilherme, jornalista que escreveu o livro “Goleiros – Heróis e anti-heróis da camisa 1”.

Como eu já disse aqui, por diversas vezes, amo futebol. Goleiro é posição maldita do esporte bretão (chamado assim por ter sido inventado na Grã-Bretanha). Meu saudoso e maravilhoso pai, José Penha Tavares, era goleiro. Posso afirmar, sem paixão (talvez com um pouquinho dela), que ele foi muito bom.

Papai agarrou pelos times amapaenses (quando o futebol aqui era amador) do São José e Ypiranga Clube. Também foi amigo de um monte de conhecidos boleiros locais. Infelizmente, meu amigo Leonai Garcia (que também já virou saudade), esqueceu-se dele no seu livro “Bola da Seringa”.tumblr_static_9eba61d4970b4b3f53a3b42882880ef8

Quando moleque, acompanhei papai em centenas de peladas. Torcia e sofria quando ele levava gols, principalmente quando falhava. Aprendi a admirar goleiros com ele. Lembro bem de expressões como: “Olha essa ponte!”, “Que defesa, catou legal!” ou algo assim, bons tempos aqueles.

Bem que tentei jogar em todas as posições, inclusive o gol (sempre era o último a ser escolhido), mas nunca consegui me destacar pela bola, mesmo antes de engordar. Não sei se as crianças de hoje ainda escolhem o pior dos meninos (ou meninas) para agarrar, aquilo é burling (risos). Digo isso com conhecimento de causa.

Goleiro-Barbosa-254x300Quando me refiro ao goleiro como “posição é maldita”, falo de uma série de injustiças que vi goleiros sofrerem ao longo dos meus 42 anos, mas uma é mais marcante, a crucificação do arqueiro Barbosa, da seleção de 1950. Há alguns anos, assisti a um documentário sobre a derrota para o Uruguai na final daquele mundial. Aquele homem foi estigmatizado até o fim de sua vida.

Em 2010, durante uma entrevista, Zico (não preciso dizer quem é, né?) declarou que o Barbosa, no fim da vida, disse a ele: “desculpe, mas gostei de ver você perder aquele pênalti em 1986, pelo menos me esqueceram um pouquinho”. Imaginem como o velho goleiro sofria pela falha de 1950? É a maldição do goleiro.

Vi grandes goleiros jogarem. Raçudos e classudos, voadores, pegadores de pênaltis. Foram tantos que é difícil enumerar, mas lembro bem do Buffon, Gilmar, Taffarel, Raul, Dida, entre tantos outros arqueiros que nos encantaram com a segurança debaixo da trave. Mas para mim, meu pai foi o melhor de todos eles.

Este texto é uma homenagem aos goleiros profissionais e peladeiros, que se machucam em saltos destemidos, levam chutes meteóricos, além de divididas violentas. Em especial ao meu pai, meu goleiro preferido para sempre. Amo-te, Zé Penha. Um beijo pra ti, aí nas estrelas!

Elton Tavares

Hoje é o Dia Mundial da Terra (data para reflexão sobre o nosso lar no Universo)

Hoje é o Dia Mundial da Terra. A data foi criada em 1970, pelo senador norte-americano Gaylord Nelson que resolveu realizar um protesto contra a poluição da Terra, depois de verificar as consequências do desastre petrolífero de Santa Barbara, na Califórnia, ocorrido em 1969.

Desde então, no dia 22 de abril, milhões de cidadãos em todo o mundo manifestam o seu compromisso na preservação do ambiente e da sustentabilidade da Terra. Neste dia de cariz educativo escrevem-se frases e poemas sobre a importância do planeta Terra nas escolas, entre outras atividades.

É possível juntar-se a atividades existentes, criar eventos próprios, doar dinheiro, ou tomar simples atos como plantar uma árvore ou separar o lixo, por exemplo. Para o ano de 2017, o tema das atividades é “Instrução ambiental e climática” (Environmental and Climate Literacy).

O Dia Mundial da Terra conta já com mais de mil milhões de atos realizados em prol do ambiente ao longo da história. É o maior dia do ano para o planeta Terra, desejando que todos os habitantes do mundo realizem algum ato que o proteja. Este ato será uma espécie de semente para regar durante o resto do ano.

Nesta data são debatidos temas como aumento da temperatura global da Terra; extinção de espécies animais; aumento do nível dos oceanos; escassez de água potável; maior número de catástrofes naturais, como tempestades, secas e ondas de calor.

Há muitos anos, quando eu era ignorante sobre a importância do assunto, jogava lixo nas florestas, no Rio Amazonas ou em qualquer lugar inapropriado. É essencial que tenhamos sensibilidade, educação e consciência sobre a preservação do nosso lar no Universo. O mundo está morrendo, aos poucos, mas está. E a fragilidade do nosso planeta precisa ser explicada para podermos adiar a extinção dele e, consequentemente, a nossa.

Senhor cure a nossa vida, para que possamos proteger o mundo e não o depredemos, semeando beleza e não poluição e destruição” – Papa Francisco.

Elton Tavares
Fonte: Calendar 

Como o contato com a natureza ajuda os wajãpi a defender sua terra ancestral – Via @natgeobrasil

Homens trabalham com tratores na rodovia Perimetral Norte, que cruza a terra dos wajãpis. Os impactos do possível asfaltamento da estrada – como a proliferação de madeireiros – já preocupam a população indígena da área. Foto: Victor Moriyama

Por Felipe Milanez

A floresta debruça-se sobre vales e montanhas a perder de vista, entrecortada por rios caudalosos, tortuosos, encachoeirados. É uma Amazônia idílica, que fascinou os primeiros exploradores e agora deslumbra naturalistas e ambientalistas – é, no entanto, apenas uma das dimensões da vida no território do povo Wajãpi. Entre os rios Oiapoque, Jari e Araguari, no Amapá, no sopé das serras junto do Parque Nacional das Montanhas do Tumucumaque, esses indígenas entendem viver no “centro do mundo”, segundo a sua origem e o lugar em que se estabeleceram. Os wajãpis creem ter uma missão: cuidar das matas, do subsolo e do céu para que todos os outros seres possam igualmente conviver neste planeta.

A floresta delimita o universo ancestral dos wajãpis. E eles estavam felizes em seus mundos natural e espiritual, dançando para o herói mítico Janejarã não destruir a humanidade, quando começou a se espalhar pelos rádios a notícia perturbadora: o fantasma da mineração voltava a assombrar. Um decreto assinado pelo presidente Michel Temer, em agosto de 2017, permitiria a abertura de áreas adjacentes ao território deles para que grandes empresas pudessem explorar legalmente cobre e outros minérios – ou, como dizem os wajãpis, “desequilibrar o mundo”, provocando a destruição da mata e da vida. A memória trágica de epidemias espalhadas por garimpeiros nos anos 1970 e 80 estava de volta.

Uma wajãpi banha seu bebê ao lado dos panos típicos que secam. O tecido vermelho, tingido de urucum, é uma marca do povo indígena. Foto: Victor Moriyama.

Na teoria, o que o governo federal fez foi abolir a Reserva Nacional do Cobre e Associados (Renca), criada pelos militares em 1984. Mais de 30 anos depois, a reserva, de 46 500 quilômetros quadrados – o tamanho de uma Dinamarca –, nunca recebeu grandes grupos mineradores, mas os wajãpis, ainda assim, têm traumas por causa de invasões passadas de garimpeiros clandestinos. “A mineração não vem sozinha. No passado, veio garimpeiro, e com eles muita doença”, diz o professor e cineasta Kasiripina, um líder intelectual dos wajãpis. “O sarampo quase acabou com a nossa população.”

A Renca, entre o Amapá e o Pará, foi criada para reservar minérios para exploração futura. O efeito ao longo do tempo, contudo, foi inverso. Na prática, a luta indígena e ambientalista nos anos seguintes à ditadura consolidou no interior da Renca um mosaico de unidades de conservação, capazes de, até agora, garantir o equilíbrio do ambiente: o Parque Nacional das Montanhas do Tumucumaque, as Florestas Estaduais do Paru e do Amapá, a Reserva Biológica de Maicuru, a Estação Ecológica do Jari, a Reserva Extrativista do Rio Cajari, a Reserva de Desenvolvimento Sustentável do Rio Iratapuru e as Terras Indígenas Waiãpi e do Rio Paru d’Este.

Filhos do cacique Piriri, os irmãos Apã e Japaita são responsáveis pela caça e pela pesca do grupo de 15 pessoas da aldeia Mukuru. Foto: Victor Moriyama.

No ano passado, agredidos por uma canetada, os wajãpis recorreram às forças de seu mundo espiritual – que, para eles, não está separado das bases materiais de subsistência – para reagir. Uma mobilização articulou amplos setores da sociedade em defesa da Amazônia. Não era apenas a floresta: nas imagens que circularam em favor do mosaico de áreas protegidas, havia a presença de indígenas vestidos com saias vermelhas, de cabelos longos e com brilhantes discursos a favor da relação entre a sociedade e a natureza.

“A mineração destrói a terra e a água”, reclama Kasiripina. “Não queremos isso. Nós cuidamos do rio e da floresta.” Nada mais justo: a luta veio de um povo que não suja a água, não constrói barragem e não destrói a mata para viver.

A aldeia Aramirã é o ponto central de encontro das 93 aldeias espalhadas por todo o território indígena. O lugar conta com placas de energia solar, posto de saúde, centro comunitário e escola. Foto: Victor Moriyama.

Para compreender esse fenômeno de resistência, é preciso olhar para a história recente dos wajãpis – ou seja, como eles conseguiram se fortalecer nas últimas décadas, conhecer o mundo dos brancos, construir instrumentos legais de luta, reconquistar e reviver em seu território. Também é importante a perspectiva multidimensional do conhecimento wajãpi, que explica o mundo de forma bem mais ampla que o conhecimento científico ocidentalizado.

A historiografia diz que os wajãpis estavam no Rio Xingu, na margem sul do Rio Amazonas, provavelmente migrando desde o litoral brasileiro após as guerras de conquista contra portugueses, quando foram aldeados por jesuítas. Então atravessaram o rio e, depois, se refugiaram entre os vales e as montanhas da chamada Calha Norte do Amazonas. Viveram em paz, espalhados em pequenos grupos, sem histórico de conflitos violentos, até a ditadura no Brasil decidir ocupar a Amazônia nos anos 1970.

O cacique Seremeté trata madeira para fazer fogo em uma margem do Rio Kerekuru. Os peixes são defumados durante horas na fogueira. O preparo é conhecido como peixe moqueado, uma especialidade dos povos ribeirinhos da Amazônia. Foto: Victor Moriyama.

Contatados, em 1973, pela Fundação Nacional do Índio (Funai), em meio aos trabalhos de abertura da BR-210, a Perimetral Norte, os wajãpis enfrentaram o avanço violento das frentes de expansão. Com a abertura da floresta pelos tratores, vieram caçadores, garimpeiros e madeireiros. E também missionários evangélicos.

Responsável pelo contato com os wajãpis, em 1973, o sertanista Fiorello Parisi conta que foi guiado por garimpeiros até as aldeias. “Chegamos seguindo os rastros dos índios. Naquele tempo, o conceito da Funai era o de estabelecer contato com grupos isolados. Depois é que se viu o estrago que essa estratégia causa”, recorda o sertanista, nascido na Itália e radicado no Pará. “Eu levei na expedição um dos garimpeiros que já tinham invadido a aldeia deles. E os wajãpis não eram hostis. Não faziam a ligação entre as pessoas de fora e as doenças que transmitem.” Quando Parisi tentou expulsar os garimpeiros, nos anos seguintes, foi vítima de uma tentativa de homicídio: levou cinco tiros, em uma emboscada em Macapá, e sobreviveu por milagre.

Os índios caçam uma cotia que atravessava o Rio Mukuru já mordida pelas piranhas. Caça e pesca são as principais fontes de alimentação do grupo. Foto: Victor Moriyama.

Após quase desaparecerem nos anos pós-contato, os wajãpis começaram a se posicionar contra a ideia de desenvolvimento como algo linear. Para os seus líderes, cresceu nos últimos anos, com o atual governo brasileiro, a tendência de que a floresta deva abrir espaço à agropecuária e à mineração. “Nossa preocupação é com as próximas gerações. E não é um problema para os povos indígenas, mas para o mundo”, diz o professor Viseni, que ensina nas escolas das aldeias.

Percebendo que o “centro do mundo” estava, cada vez mais, cercado, os wajãpis passaram a buscar alianças e a treinar pessoas não indígenas para reconhecer o mundo como eles. Nessa batalha pela sobrevivência, utilizaram a sua melhor arma: o conhecimento adquirido.

Uma wajãpi banha seu bebê ao lado dos panos típicos que secam. O tecido vermelho, tingido de urucum, é uma marca do povo indígena. Foto: Victor Moriyama.

Anos depois do contato, os indígenas passaram a treinar uma antropóloga belga para lutar como sua aliada, Dominique Tilkin Gallois, que se tornou professora de antropologia na Universidade de São Paulo. “Minhas pesquisas seguiam o caminho que eles precisavam”, diz Gallois. Inicialmente, ela trabalhou o território e a história, a mobilidade e a forma de vida – informações que vieram a embasar o laudo da demarcação da terra indígena, uma luta de 16 anos para garantir a integridade territorial. Aos poucos, os wajãpis a levaram a trabalhar sobre cura e xamanismo para, então, pesquisar temas da educação e o desafio de implantar escolas nas aldeias.

A aliança com a antropóloga foi parte da estratégia de conhecer os não indígenas, ensiná-los a respeitar a floresta e criar novas redes de apoio. Juntamente com o Instituto de Pesquisa e Formação Indígena (Iepé), fundado por Gallois e colegas da USP, os wajãpis conseguiram proteger a arte kusiwa, o sistema de representação gráfico nas suas pinturas corporais. A arte kusiwa foi o primeiro bem imaterial a ser considerado Patrimônio Cultural do Brasil pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) – em 2008, seria reconhecida como Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade pela Unesco.

Ainda em uma batalha por reconhecimento no espaço da política institucional, com o apoio da Rede de Cooperação Amazônica (RCA) e da Fundação Rainforest da Noruega, através do Iepé, os wajãpis elaboraram o primeiro Protocolo de Consulta e Consentimento de um Povo Indígena no Brasil, seguindo a Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho, ratificada pelo Brasil em 2004. A partir de então, os indígenas conquistaram o direito de serem informados e consultados sobre projetos econômicos que afetem suas vidas e seus territórios – um direito fundamental, que visa estabelecer um novo modelo de diálogo com o Estado.

Um morador da Reserva de Desenvolvimento Sustentável do Rio Iratapuru toma banho no Rio Jari com seu papagaio. Vizinhos da Terra Indígena Waiãpi, os moradores da RDS se tornaram aliados dos indígenas no combate e fiscalização do território contra a ameaça de garimpeiros. Foto: Victor Moriyama

No documento, os wajãpis pedem que o governo escute suas preocupações sobre o que “pode afetar diretamente a nossa vida, os lugares importantes da história de criação do mundo, a vida dos animais, os rios, os peixes e a floresta”. “Eles têm que chegar a acordos internos de como é que tomam decisões coletivas e dão legitimidade a essas decisões. E também decidir quem pode falar por eles”, diz Luis Donisete Grupioni, antropólogo que auxiliou os wajãpis no processo.

Os wajãpis, hoje, estão divididos em três associações: o Conselho das Aldeias Wajãpi (Apina), a Associação dos Povos Indígenas Wajãpi do Triângulo do Amapari (Apiwata) e a Associação Wajãpi Terra, Ambiente e Cultura (Awatac). Segundo explicam no documento, “não existe cacique-geral de todos os wajãpis. Cada grupo familiar tem um chefe, e um chefe não manda no outro chefe”. Portanto, sustentam, nenhum chefe representa todos, as coisas externas que os afetam devem ser conversadas pelo conjunto dos representantes. Foi por isso, também, que ficaram tão irritados com a decisão do governo federal de extinguir a Renca sem consultá-los.

A batalha da Renca foi parcialmente vencida: o decreto de extinção da reserva foi revogado, tempos depois, por causa da grande mobilização. Mas o fantasma ainda assusta em tempos de incertezas políticas no país. Os wajãpis insistem: estão preparados para resistir com sabedoria.

Hoje, os indígenas não deixam entrar garimpeiros na floresta protegida, assim como fazem rondas de fiscalização do parque nacional com agentes florestais. E conseguiram acesso à universidade, em Macapá – assim, aprendem com a sabedoria dos mais velhos nas aldeias ao mesmo tempo que acessam livros, filmes e tecnologias da pedagogia moderna. Por outro lado, enfrentam a onda crescente de evangelização, e contraditórias políticas de inclusão que incentivam o deslocamento para as cidades próximas.

O cacique Piriri fuma seu charuto enquanto outros wajãpis celebram com cantos tradicionais. Nessas festas, eles costumam consumir caxiri, uma bebida típica com forte teor alcóolico preparada da fermentação da mandioca.Foto: Victor Moriyama

Viseni, que é estudante da licenciatura intercultural indígena na Universidade Federal do Amapá, conta que o seu povo “não é de ficar no mesmo lugar, por mais que 20, 30 anos. Por isso a gente não acaba com os recursos naturais”. Nas andanças dos wajãpis por seu território, assentados em pequenas comunidades, o conceito de bem viver é pleno de simplicidade: ter boa saúde, alimentação, preservar a cultura tradicional. “Isso, para nós, é viver bem.”

Trafegando entre outras dimensões da existência, os wajãpis enxergam a mata ancestral como um ser vivo, uma extensão de suas vidas. “A terra também sente dor”, conta Kasiripina. “A nossa vida é com o espírito da floresta. É lá que está a nossa alma”, completa Viseni.

Na crise que se instaurou na hipótese de uma nova área de mineração na Amazônia, em 2017, novos ambientalistas entraram em cena. Elegantemente trajando saias vermelhas, com o dorso despido e pintado de urucum, cabelos longos, gestos suaves, vozes quase nunca ouvidas por poucos dominarem o português, sem portar armas, mas sempre unidos, os wajãpis emergiram como intelectuais da floresta que se insurgiram contra a ameaça da destruição.

Fonte: National Geographic Brasil

O dia que encontrei Lemmy (Essa semana fez 8 anos).

Essa semana, na última segunda-feira (15), completou oito anos que encontrei Ian “Lemmy” Kilmister, cantor inglês fundador, vocalista, baixista e líder da banda inglesa de heavy metal Motörhead (com 40 anos de carreira). O cara, que morreu em 28 de dezembro de 2015 (vítima de câncer) é um ícone do Rock and Roll e uma lenda da música mundial. Ele tinha 70 anos.

Esqueci de publicar ontem, mas por tudo que Lemmy fez e representa, republico hoje o texto do dia que o encontrei.

Eu e Lemmy – São Paulo – 2011 – Foto: Emerson Tavares

O dia que encontrei Lemmy 

Aeroporto de Congonhas (SP), aproximadamente 17h do dia 15 de abril de 2011. Eu, meu irmão Emerson Tavares e minha cunhada Andresa Ferreira tomávamos uns chopps enquanto esperávamos a hora de embarcar de volta ao Norte, eles para Belém (PA) e eu para a minha amada Macapá.

Estávamos perto da entrada do saguão do Terminal, aí entra aquela figura de preto, chapéu de Caubói, bigodão e cara amarrada. Era Lemmy, líder do Motorhead. Não perdemos tempo, pedi para bater uma foto com a lenda do rock, ele me olhou com desdém, mas parou de andar para o click do meu irmão.

Mesmo com a pouca simpatia do astro, fiquei feliz, pois não é todo dia que um jornalista de Macapá encontra um ícone do “roquenrou” mundial. Para quem não saca, aí embaixo tem informações sobre Lemmy, colhidas pelo ex-colaborador deste site, André Mont’alverne. Leiam:

Lemmy era o avô do heavy metal. Lemmy era o padrinho do thrash metal. Lemmy, mesmo britânico, era a síntese do rock’n’roll de Los Angeles. Lemmy foi roadie de Jimi Hendrix e teve um filho com uma groupie que perdeu a virgindade com John Lennon. Lemmy era fã de Beatles, de Little Richards e de Elvis Presley. Lemmy é uma lenda.  Lemmy é Lemmy. É inexplicável.

Bem, pensando com um pouco mais de racionalidade, talvez não seja tão “inexplicável” assim o verdadeiro fascínio que a figura de Ian “Lemmy” Kilmister exerce em qualquer pessoa que ame o rock and roll. E quando escrevo “qualquer pessoa”, não estou sendo bondosamente genérico, mas afirmando categoricamente que não há um ser humano roqueiro sequer que:

a) não tenha o devido respeito e paixão pelo Motörhead; b) que não considere “Lemmy” como uma espécie de divindade. No fundo, é fácil e difícil – e desconcertante – ao mesmo tempo entender porque a figura de Lemmy suscita reverência. Para isto, é preciso deixar de lado os pudores politicamente corretos e encarar a verdade: no fundo, bem lá no fundo, todos nós queremos ser como Lemmy. Buscamos obter o mesmo grau de respeito que a sua figura e suas palavras causam nas pessoas. Buscamos causar a mesma sensação que Lemmy propicia quando entra em qualquer ambiente, que é um silêncio que chega a ser ensurdecedor. Buscamos envelhecer como Lemmy, que foi dono de seu próprio nariz e sem a menor intenção de agradar a quem quer que seja.

Com seu inseparável chapéu preto, roupas de coloração idem e as inacreditáveis botas brancas, Lemmy é uma versão roqueira e real do cowboy sem nome eternizado por Clint Eastwood no cinema. Para os adolescentes, ele é um personagem de histórias em quadrinhos – ou videogame, se preferir – que ganhou vida. E se o Motörhead existiu por 40 anos, é porque Lemmy comandou as coisas da maneira que leva a sua vida: integridade em relação a tudo aquilo em que acredita.

Com certeza, os lobos uivaram para o homem que morreu em 2015, mas a lenda será eterna. O “Ás de Espada” teve uma vida longa, feliz e gloriosa. A ele, minhas homenagens. Valeu, Lemmy!!

Elton Tavares

Ilha de calor – Por @rebeccabraga

Belém – PA – Foto: Elton Tavares

Por Rebecca Braga

Era por volta das 10 da manhã quando cheguei em casa. Um gole longo de água. Subi as escadas até o andar superior enquanto tirava a roupa e largava em cima da cama.

– Como é quente esta cidade. – Falo pra mim mesma.

Sempre achei que Belém fosse mais quente que Macapá. Deve ser porque, quando criança, ouvi alguém dizer que:

– Belém é uma ilha de calor.
-Ilha de calor?
– Sim. Sabe quando o ar quente fica dentro da cidade? Deve ser por causa dos prédios…
– Ah, entendi. Deve ser mesmo.

Pesquisei o que é uma ilha de calor. Não é E-XA-TA-MEN-TE isso, mas quase. Então serve, por enquanto.

Macapá – AP – Foto: Elton Tavares

Quando me perguntam se Belém é mais quente que Macapá, sempre digo que tenho essa impressão, mas que deve ser porque eu me acostumei em morar numa cidade que tem uma orla por onde se pode andar de um lado a outro da cidade vendo o Rio Amazonas, não uma paisagem, mas um elemento que não se pode ignorar. O vento, o som, o cheiro. Tudo que vem dele habita os dias.

Em Belém, a orla tem portos prédios lojas aos montes. E num lugar ou outro você vê a sombra de um Guamá no fundo e nesse ou naquele lugar é possível sentar à beira do rio. Sinto falta do passeio de carro olhando o rio que quando seca vai longe da margem e deixa nu um chão de areia e lama, com cheiro úmido de água doce e esgoto.

Rio Amazonas – Macapá – Foto: Floriano Lima

Não se trata de ser um melhor que outro. Trata-se de que são diferentes, e me despertam diferentemente.

Também acho Belém mais úmido. E isso acho por causa dos três dias que a roupa leva pra secar, se não chover e ela secar e molhar várias vezes, até perder o cheiro de cachorro molhado, como diria… não lembro exatamente quem.

Foi minha mãe que me chamou atenção pra isso. Sinto saudades de minha mãe. Ela sempre tem um cheiro fresco de pele recém lavada. Sinto falta do som que os passos dela fazem.

Belém é uma cidade violenta. Não preciso dos dados pra dizer, mas você pode conferir.

Andando na rua tenho medo de assalto, mas em certo período do ano tenho mais medo de manga. Sim, de uma manga cair na minha cabeça. Acho que uma manga pode matar alguém, ou fazer um bom estrago.

Ver-o-Peso – Belém (PA) – Foto: Luiz Braga

A rua onde moro tem casarões antigos. É a parte velha da cidade. Se eu caminhar pra minha esquerda, até o fim, chego no rio, e no Ver-o-peso. Lá o cheiro é forte de patchuli, maniva e cocô de galinha. Mas não só isso. Cheira a peixe frito, açaí do grosso, farinha baguda. Fala-se alto, é preciso se ouvir entre as bicicletas com alto falantes que tocam os bregas clássicos e vendem pendrives com centenas de flashbacks. – Só os melhores, freguesa!

Se eu andar pra direita chego ao antigo presídio da cidade. Lá tem loja pra turista, um polo joalheiro e um museu que guarda objetos que os presos usavam pra seviciar os desafetos. Senti um profundo mal estar nesse lugar. Também tem uma capela linda. Deve ser de São José. Curiosamente, padroeiro de Macapá.

Curioso mesmo é que esse texto nasceu não para comparar Belém com Macapá, o que acho tedioso quando me pedem pra fazer. Mas porque acordei de um cochilo inapropriado nessa manhã. Molhada de suor e pensei que Belém era muito quente, e muito úmida, como uma vagina excitada. Ou como várias vaginas excitadas. De tamanhos e formas diferentes. Pingando. Crescendo. Pulsando em gozo frenético e violento. Minha Belém é uma vagina excitada.