Hoje é o Dia do Evangélico

Hoje, 30 de novembro, é o Dia do Evangélico. A data foi instituída no município de Santana e no estado do Amapá, em 2003 e 2004, respectivamente. Ambas as Leis foram homenagens aos evangélicos amapaenses, que de acordo com a história, formou-se mediante muitas perseguições. Os evangelizadores teriam sido vítimas de vários ataques.

De acordo com a história, uma decisão radical do antigo vigário de Macapá, Padre Júlio Maria Lombaerd, ordenou a queima de livros dos protestantes em praça pública, com a ajuda da polícia e convocação da população.

Motivado pelas leis amapaenses, o então presidente do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva, por meio da Lei nº 12.328, de 15 de setembro de 2010, instituiu o Dia Nacional do Evangélico a ser comemorado em 30 de novembro de cada ano.

De acordo com o G1 Amapá, 28% da população amapaense é evangélica. Cerca de 187 mil protestantes. Ou seja, a cada 10 amapaenses, 3 são da religião cristã.

Então, sou totalmente a favor da liberdade religiosa, ideológica e de expressão. Reconheço o importante trabalho social dos evangélicos, que combatem a pobreza, drogas, prostituição, fome e outros males sociais. Porém, sou contra a pregação sem limites de uma meia dúzia e a corrupção de alguns poucos seguidores da referida religião.

Gosto do espiritismo. Já a maioria da minha família é católica e alguns são evangélicos. Acredito que todos procuram ser felizes com a religião que lhes parecer mais aprazível. Sou a favor da laicidade, tenho amigo evangélico, umbandista, espírita, messiânico, budista, católico, ateu ou jedi. Por mim, cada um com a sua devoção e respeito a fé de todos. Acredito em Deus e graças a ELE, tenho uma sorte dos diabos,

Um grande abraço aos irmãos cristãos, sobretudo aos que exercem sua crença e fé com respeito com outras religiões. Em especial os amigos Tanha Silva e José Seixas, ambos exemplos de como é ser um cristão, de fato. Parabéns aos evangélicos pelo seu dia!

Elton Tavares

Resenha do livro “O Senhor das Moscas”, de Willian Golding – (Por Lorena Queiroz – @LorenaadvLorena)

Por Lorena Queiroz

A natureza humana é extremamente complexa e curiosa. O que seria a matriz que nos segura enquanto sociedade? A Democracia? As regras e leis? Os costumes? Analisando a história da humanidade, nos deparamos com guerras, disputas, entre outros episódios, que trazem a reflexão do quanto já subjugamos, ou fomos subjugados, durante séculos. O que nos faz bons ou maus? Somos um produto do meio, sendo esta condição definidora de nosso caráter? Nascemos bons e somos corrompidos pelo meio? Ou nós somos seres maus que precisam de Leis como um freio para nossos desejos mais infestos?

Foi toda essa reflexão que me trouxe Willian Golding, em Senhor das Moscas. O autor da obra, que viu os horrores da Segunda Guerra Mundial – acredito eu – estava vivendo o confronto que faz o homem desacreditar da humanidade.

Golding, em sua obra, narra a história de garotos, entre seis e doze anos, que ficam isolados em uma ilha deserta após um acidente aéreo. A obra não dá muitos detalhes sobre a vida dos meninos fora da ilha. A única coisa que sabemos é que são evacuados da Inglaterra. Acredito que eram os evacuados da Segunda Guerra. Quando Londres foi bombardeada, crianças foram evacuadas para outras localidades mais seguras. Mas isso é uma suposição minha. Não fica claro no livro. Eram ingleses, e o orgulho inglês aparece em vários momentos quando os garotos buscam por motivação .

Ralf e Porquinho são as primeiras personagens a aparecer. Encontram uma concha que é tocada por Ralf, fazendo assim, os garotos que ainda estavam espalhados pela ilha, se agruparem. Logo os garotos começam a surgir. Entre eles, Jack, que surge com um grupo de garotos que logo se auto denominam, caçadores. Os meninos estabelecem que precisam de um líder, e que isso consistirá em regras. Uma das regras mais importantes estabelecidas por Ralf é que uma fogueira teria que estar constantemente acesa, para que um possível resgate pudesse vir até eles. Porquinho era a voz da razão em meio à imaturidade daqueles garotos, mas ninguém o levava a sério, simplesmente, pelas suas características físicas.

Os garotos enxergavam a ilha como algo mágico; todas as fantasias e aventuras que qualquer garoto deseja teriam se realizado. “A Ilha é nossa”, diz Ralf, em sua primeira visão. Mas logo isso mudaria. Ocorre que as divisões de tarefas começam a gerar conflitos, pois Jack e seu grupo de caçadores tinham a fixação na caça. “Precisamos de carne”, dizia Jack, quando interpelado por Ralf, em relação às tarefas que eram de sua responsabilidade. Jack havia despertado em si e nos demais meninos o prazer pela caça. A humanidade caça desde os primórdios, está embutido em nossa natureza. Mas até onde isto é justificável? Caçar para alimento e sustento ou caçar pelo prazer de subjugar o mais fraco? Estaria embutido em nosso DNA, algo animalesco que desencadeia o prazer em matar? Duas palavras: caça esportiva.

Dentro deste emaranhado, se inicia uma disputa pelo poder entre Jack e Ralf. Os meninos – agora antagonistas – representam características em nossa sociedade. A fragilidade da Democracia mediante a sedução da tirania. O senhor das moscas – ou, simplesmente, Belzebu – é a representação do mal que existe no âmago dos seres humanos. Algo que aparece o tempo todo nos mais variados formatos. No fim das contas, a única verdade, é que sim, somos animais.

* Lorena Queiroz é advogada, amante de Literatura e devoradora compulsiva de livros.

Mosaico de Ravena – O Amor, O Cego e O Espelho – Via @giandanton

O início dos anos 1990 foram dourados para o rock paraense. Nessa época surgiram várias ótimas bandas nos mais variados estilos e Belém chegou a ter um festival que apresentava 24 horas de rock só com bandas locais. Entre todas as bandas, Mosaico de Ravena sempre
se destacava por fazer um som inovador, que não conhecia limites. E eles eram muito bons de shows. Lembro de um desses que começava com um casal dançando tango e a banda aparecia atrás deles, o vocalista saindo de um caixão. A galera ia ao delírio.

A música abaixo é do primeiro e, acho, único álbum. É interessante por discutir como o amor foi transformado em mercadoria numa sociedade consumista.

O amor, o cego e o espelho

Os leões de chácara encheram o amor
de porrada e jogaram na calçada
ensangüentada calçada
A televisão mostrou o amor num
lindo comercial de bronzeador
A polícia meteu o amor nas grades
por suspeita de vadiagem
Os políticos meteram amor num livro
e o povo linchou o amor
E o amor brotou no meio do asfalto
e a escondido se multiplicou
Mateus foi na butique quando quis
amar e saiu de lá com um lindo amor de seda javanesa
Mariana comprou um carro por amor e
mostrou pras amigas seu amor azul-metálito
Márcia falou de amor com o filho e
de como o amor poderia dar status
Mário andava sempre com muito amor
na carteira
E Mônica se apaixonou pelo rádio
gravador
E o amor brotou no meio do asfalto
e a escondido se multiplicou

Fonte: Ideias Jeca-Tatu

Mais vida, menos grana – Crônica de Elton Tavares

Noite dessas, ao conversar com amigos e dizer que não guardo um vintém do que ganho com o meu suado trabalho, eles ficaram assombrados. Disseram que é loucura, que ‘issos’ e ‘aquilos’, especialmente sobre reservas econômicas para possíveis emergências. Eu disse que prefiro mais vida e menos grana.

Não, não é que eu não goste de dinheiro. Claro que gosto, mas tudo que ganho, no batalho e sempre honestamente, é repassado para custos operacionais e caseiros. O restante é gasto e muito bem gasto em vida. E não sobra nadica de nada para acumular.

Além da minha incorrigível falta de perspicácia financeira, nunca ganhei somas consideráveis com meus trampos, seja este site, na assessoria ou escritos (sim, vivo literalmente de palavras). Mas o que entrou no meu bolso, apesar de eu não conhecer essa tal de economia, jamais foi desperdiçado.

Eu bebo e não é pouco. Como da mesma forma. Gosto de viagens e dos momentos em que fiz um monte de merdas legais com os meus brothers. Isso tudo custa caro. Em nem todo o dinheiro do mundo poderia comprar aqueles dias de volta. Ou seja, mais vida, menos grana.

Quando não usei minha grana pra curtir a vida com amigos, ajudei pessoas. E essa é a melhor forma de torrar os trocados. Como disparou outro gordo louco no passado: “não quero dinheiro, eu só quero amar”. Grande Tim!

Falando em citações (amo usar frases de ídolos), uma vez o Belchior disse: “e no escritório em que eu trabalho e fico rico, quanto mais eu multiplico, diminui o meu amor“, na canção “Paralelas”. Boto fé nisso.

Algumas pessoas que conheci no passado, amigos e até familiares, após se estribarem, ficaram um tanto pavulagem demais e com suas vidas muito menos divertidas.

E isso me recorda o bom e velho Johnny Cash, que certa vez pontuou: “às vezes eu sou duas pessoas. Johnny é o legal. O dinheiro causa todos os problemas. Eles lutam”.

Ou os Paralamas do Sucesso, na canção “Busca a vida”: “…Ele ganhou dinheiro, ele assinou contratos, e comprou um terno e trocou o carro. E desaprendeu a caminhar no céu …e foi o princípio do fim!“.

Aos que desaprenderam o caminho, deixo a canção-poema : “Desejo que você ganhe dinheiro, pois é preciso viver também. E que você diga a ele pelo menos uma vez quem é mesmo o dono de quem“.

No meu caso, sigo dando mais valor em viver do que em poupar para um futuro incerto. Menos grana, mais vida, meus amigos.

É isso!

Elton Tavares

F L I P – Conto de Luiz Jorge Ferreira

Conto de Luiz Jorge Ferreira

Flip… meu idoso cão, meu peralta cão… sobe as escadas na velocidade da luz, dividida por um bilionésimo de segundo.

Branco, pequeno, resmungão, ansioso, e afobado, dentro dos limites das suas artroses, parece comigo.

Veio cobrar a ausência dos sacos de lixo que revira quando eu o ponho para brincar na garagem, de onde sai todo sujo, de lixo orgânico que separo dos papéis, plásticos e demais sobras.

Resmunga na linguagem dos cães, refuga, remarca o seu território urinando aos quatro cantos da sala, que transformei em espaço mais importante da casa…

TV… Computador… Rádio… Pilha de Papéis Escritos a Mão, ou impressos, livros terminados e não publicados, monte de meias, cartas importantes e sombras desfiguradas pelos anos, que às vezes puxam a cauda do Flip, e ele reage grunindo em Dó Maior.

Mas hoje ele está emputecido, porque prevendo chuva a Noroeste, segundo o homem da meteorologia, vai chover metade do céu em Osasco.

Ele fica proibido de brincar na garagem.

Isso tudo eu explico para ele, que me olha e mexe as orelhas como se achasse um saco o lixo ser abandonado a sua sorte dentro de um caminhão que o tritura sem piedade.

Ele, Flip, não… o puxa delicadamente pelos buracos que faz no saco, e os empilha conforme o odor que espalham.

Um técnico em repartir podres.

Desce furioso, ouviu o som dos lixeiros, gritando pela rua, se aproximando, quanto mais perto, mais forte ele percebe o ruído da roda dianteira do lado da direita do caminhão, azedo ruído, é a roda que mais raspa de encontro com a calçada desnivelada em frente a nossa casa.

Pula no portão fechado, os lixeiros não temem, estão acostumados com o brabo Dog.

Às vezes lhe atiram pedaços de pão, que ele ignora, e passa dias urinando nele, para apodrecê-lo mais rapidamente, acho eu.

Hoje… não…

Vê os sacos de plástico escuro saírem do seu ângulo de visão, o cheiro, não, este fica com ele…

Até que eu o leve para o banho quinzenal no Pet Shop, duas quadras adiante.

O Bar é uma Antena Social – crônica porreta de Fernando Canto

Caricatura do artista plástico Wagner Ribeiro

Crônica porreta de Fernando Canto

Cansados estamos de saber que o bar é um espaço democrático, principalmente se é popular, aberto. No entanto é o lugar onde as ideologias emergem até com fundamentalismo. É um mundo em que os fatos ali ocorridos e as histórias contadas também são objetos de exposição de valores, de ocultação de defeitos e de promoção e marketing pessoal, demandados pelas incertezas do futuro, pelo processo político e pelas contingências da história.

Bar Xodó – bebi muito aí.

Logicamente também é um espaço de festa e de lazer; local onde as emoções se eriçam e se cruzam, onde notícias quentinhas esclarecem novos conhecimentos; amores secretos são aprofundados ou descobertos e por isso geram descontroles emocionais e físicos entre pessoas que até então nunca podíamos pensar tão valentes ou covardes. No bar as emoções se revelam em paradoxos inusitados.

Antigo Bar do Abreu da Avenida Fab – Foto: O Canto da Amazônia

Talvez por isso, e nesta crônica despretensiosa, eu possa entrar no mundo do bar para dizer o quanto ele é, também, um gueto disfarçado, às vezes uma roda violenta de preconceitos, que envolve quase todos os integrantes dessas assembleias ocasionais. O bar, antes de ser um balcão onde as pessoas ficam em pé ou sentadas em bancos altos consumindo bebidas alcoólicas, é também uma unidade de medida de pressão, segundo o Aurélio. O interesse pelo bar tem um condicionamento sociológico que vai além da mera vontade de tomar uma cerveja gelada, ou de querer ficar só por alguns momentos, ou mesmo se envolver em assuntos antagônicos aos problemas sentidos para não ter que cair na real.

Cada qual sabe a casca que tem para aguentar o que ronda cada cabeça pensante e a sua sentença sarcástica, pois inúmeros são os que ali vão para somente consumir o inconsumível, ou seja, a paz que o outro carrega. Os chatos, de certa forma dão vida ao bar.

Canto, Emerson, eu, Sal e Sônia – Bar da Maria – 2018

A família dos chatos é grande, tradicional, seus membros estão em todas as partes; muitos são perdulários e só demonstram humildade quando perdem tudo no jogo ou quando têm suas contas confiscadas por ordem judicial. Mas esses são os que conseguiram se ascender na escala social à custa do dinheiro público. Mesmo depois que são soltos da cadeia continuam chatos e arrogantes. Existem os chatos desmemoriados: aqueles que contam as mesmas piadas, mas sempre se esquecem dos finais, assim mesmo só eles riem da sua própria graça. Os chatos pedintes são os mais comuns. Revelam-se humílimos, franciscanos ao extremo e matam a mãe para acertar em cheio no alvo da comiseração alheia. Ao contrário desses existem os chatos barulhentos, que no jogo de futebol, na televisão, gritam tanto que cospem no copo de todo mundo num raio de três metros. E haja perdigoto na cerveja dos torcedores contrários. É claro que se podem identificar muitos desses elementos e até classificá-los, o que para tanto peço ajuda dos companheiros que não se autorrotulam nesse metier. Quem sabe não façamos um tratado sobre esse bloco afamado e muito peculiar, cujos elementos também são conhecidos cientificamente como insetos anopluros da família dos pediculídeos, os famosos Phthirius pubis (L.), que vivem no mundo inteiro sugando as pessoas.

Carnaval do Abreu da Fab, em 2016. Foto: arquivo pessoal de Elton Tavares

Desde muito tempo frequento bares e neles tenho encontrado pessoas de todos os tipos: políticos, beberrões inveterados, jogadores de futebol, profissionais liberais, padres, estudantes, gente de preferências sexuais diversificadas, funcionários públicos, poetas, jornalistas então… No bar há excelentes contadores de piadas e cantadores da noite com suas alegres vaidades. Mas também há os professores de Deus, que do alto de suas sapiências enojam, mas recebem os olhares irônicos dos mais humildes que acham que eles “só querem ser o que a folhinha não marca”.

Eu, Fernando Bedran e Fernando Canto – Mestres em boemia produtiva (papo bom demais)

O bar pode dar condições para o diagnóstico de uma sociedade. É uma antena extremamente poderosa e propícia para captar preferências individuais e coletivas. Pode ver! Pelo meu lado, faço minhas observações e bebo. E vice-versa. Malograda alguma companhia, só penso no ditado do Paulinho Piloto: “passarinho que acompanha morcego dorme de cabeça pra baixo”.

(Do livro “Adoradores do Sol”, de Fernando Canto. Scortecci, S. Paulo, 2010).

Resenha do livro “O sol é para todos”, de Happer Lee – (Por Lorena Queiroz – @LorenaadvLorena)

Por Lorena Queiroz

Não tem como você não refletir sobre o mundo quando escuta o título “O sol é para todos”. A não ser que você seja um sujeito muito alheio, você não consegue ignorar o significado do que este título diz. Esse foi o título dado a esta obra que é um clássico da literatura mundial, e que, apesar de impactante, eu discordo que seria a tradução de título mais fiel. Pois se tem uma coisa que eu entendi, é que, o sol não é para todos.

O livro se passa em plena depressão na década de 30 em Maycomb, uma cidade fictícia no sul do Alabama. Tudo nos é contado através dos olhos de Jean Louise Finch, a Scout. Ela e seu irmão, Jem, desfrutam da infância juntos. Cuidados por Calpúrnia, uma empregada preta que já estava neste lar antes deles nascerem.Eram arteiros mas com inteligência superior a de outras crianças. Tudo lhes tinha sido ensinado pelo pai. Tendo essa a superioridade intelectual incomodado a professora de Scout, que ao perceber que a menina já sabia ler, ordena-lhe que o pai pare de lhe ensinar “errado”. O pai era Atticus Finch, um advogado de personalidade cativante e justo, que assume a defesa de um preto acusado de estuprar uma mulher branca.O racismo é um dos temas centrais do livro. Atticus compra uma briga com sua comunidade. O que não é surpresa quando lembramos que nesta época ocorria a segregação racial nos EUA, e era o Alabama.

Ocorre que a narrativa não limita -se as questões raciais, e sim, abrange as diferenças como um todo. Desde o vizinho que Scout, Jem e seu amigo de férias, Dill, atazanavam com uma curiosidade infantil e mórbida, pelo fato do mencionado vizinho nunca sair de casa.

Atticus assume a causa mesmo sabendo que estava perdida. Assume o risco e a hostilidade de uma cidade porque acredita na inocência daquele homem, e alguém teria que fazer isso.

A beleza do livro, na minha opinião, está na visão que a criança têm sobre as diferenças. As crianças que são os seres mais brutalmente sinceros com suas reações e julgamentos, mas que ainda não foram corrompidas pelo resto da sociedade. Julgar despido das amarras que a sociedade e os costumes nos impõe é coisa que fica para os inocentes e os corajosos. E nada melhor do que a frase de Charles Lamb encontrada ao abrir o livro: “Os advogados, suponho, um dia foram crianças “.

* Lorena Queiroz é advogada, amante de Literatura e devoradora compulsiva de livros.

Apagão agrava situação de reserva de animais silvestres no Amapá

Paulo Amorim, diretor da Revecom – Foto: João Marcos Rosa

A Reserva Particular do Patrimônio Natural (RPPN) – Revecom, em Santana, no Amapá, que abriga quase 300 animais silvestres resgatados, tenta se recuperar dos prejuízos decorrentes do apagão que atingiu 13 das 16 cidades do estado, após incêndio em uma subestação de energia na capital, Macapá.

Com a falta de energia elétrica, mais de 100 quilos de proteína animal e quase 200 quilos de vegetais processados que estavam armazenados foram perdidos. Segundo Paulo Amorim, pediatra hoje aposentado, que cria e administra a reserva desde 1998, o volume de carne perdido seria suficiente para alimentar os animais carnívoros por mais de uma semana. Já as frutas e legumes durariam um pouco menos.

Foto: Amapá EcoCamping

“Tivemos um prejuízo terrível. Depois, ainda tivemos que enfrentar problema do dia a dia. Passamos a fazer compras diárias, pois não havia como guardar os alimentos. E é preciso muito alimento, o que representa gastar entre R$ 300 e R$ 400 por dia”, disse Amorim à Agência Brasil.

“Só uma anta come cerca de 30 quilos de comida por dia. Um gavião-real come o equivalente à metade de galinha por dia. O gato mourisco [ou jaguarundi] consome 800 gramas de carne por dia, e por aí vai”, acrescentou. Ele disse que há tempos se tornou um “pedinte profissional” para conseguir o dinheiro necessário à manutenção do local.

A Revecom possui 171 mil metros quadrados de área tombados como unidade de conservação.

Idealmente, a unidade de conservação exigiria gastos da ordem de R$ 35 mil mensais. No entanto, segundo Amorim, o local funciona com déficit de cerca de R$ 16 mil mensais.

Com a visitação pública suspensa desde março deste ano, devido à pandemia da covid-19, a situação se agravou, e os gestores passaram a contar apenas com o dinheiro repassado pela prefeitura de Santana, por meio de um convênio, e com os patrocínios de duas empresas privadas, além das contribuições esporádicas de apoiadores do projeto. A equipe, que já contou com 12 colaboradores, hoje está reduzida a apenas quatro funcionários.

Para fazer frente aos gastos inesperados causados pelo apagão, a reserva conta com a colaboração financeira de pessoas que se mobilizaram pelas redes sociais.

Foto: Arquivo Revecom

“Fizemos uma vaquinha [arrecadação de recursos] local; mas para fazer as compras tivemos que retirar os recursos que estavam reservados para os encargos sociais. Felizmente, a ONG Razões para Acreditar, fez uma nova vaquinha e conseguimos recursos.”

Até a tarde de hoje, a proposta de financiamento coletivo já tinha recebido R$ 41,7 mil dos R$ 50 mil estabelecidos como meta. Uma conta foi aberta no Banco do Brasil para receber doações.

“Graças à união dos colaboradores e a uma doação de quase 200 quilos de alimentos que a prefeitura de Macapá nos fez, não chegou a faltar comida para os bichos. Quem sofreu foram os empregados, cujos salários nós acabamos atrasando. E nós, que tivemos que nos virar”, afirmou.

“Desde ontem não falta luz, mas, ainda assim, continuamos em regime de alerta. E ainda estamos reparando os problemas decorrentes da oscilação [de energia], como o sistema de vigilância”, revelou Amorim, explicando que a área precisa de monitoramento constante.

Foto: Michel Ende

“Há sempre o risco de entrarem na área para capturar e matar animais. Já mataram a cacetadas um veado que chegou a ser considerado o menor da espécie no Brasil. Também mataram três dos seis porcos-do-mato, e tentaram matar a anta em duas ocasiões. Então, como se não bastassem todas as outras dificuldades, ainda temos que lidar com essa barra pesada”, disse Amorim.

Fonte: A Gazeta

Site De Rocha completa 11 anos no ar

Parece que foi ontem, mas já faz 11 anos. O ano de 2009 foi bem legal, mas as duas coisas que mais gostei nele foram o show do Radiohead e a criação do blog De Rocha.

Incentivado por uma ex-namorada, comecei escrever na página virtual. Foi no dia 15 de novembro, há exatos 11 verões e um dia.

A gíria “De Rocha” nomeia este site porque nós, grande parte dos nortistas amapaenses e paraenses, a usamos quando queremos passar credibilidade sobre determinado assunto.

Na página, sempre publiquei fotografias, notícias, músicas, poesias, futebol, crônicas, contos, gifs, informes sobre fatos, eventos, pessoas públicas, bandas, arte, muita arte, e assuntos de interesse da população.

A promoção da cultura, em todas as suas vertentes, sempre foi o principal objetivo do De Rocha, além de expor meus pontos de vista, críticas leves e pesadas ou elogios amenos e exagerados aos que merecem. Foram tantos artistas, músicos, bandas, incontáveis eventos. Também publiquei textos do trampo por onde passei como assessor de comunicação. Além disso, falei muito da minha amada e preciosíssima família. E isso tudo misturando blá-blá-blá abobrístico, pois a vida sem humor é horrível.

Apesar da “internet soviética”, como diz o amigo jornalista Régis Sanches (ex-colaborador deste site), dos acusadores, fiscais e críticos, o De Rocha virou sucesso. Confesso que, quando comecei a escrever, nem imaginava que minha página virtual seria tão bem aceita. Isso aqui abriu portais, portas, janelas, gavetas e até alçapões em minha vida (risos).

Sei que rolou muito atrevimento, ironia, polêmicas, sarcasmo, verdades doloridas de se ler, alfinetadas, acidez e até bobagens de minha parte. Mas também rolou tanta homenagem, tanto amor real, tanta coisa legal. Claro que cometi alguns erros, não poderia ser de outro jeito. Mas tudo é aprendizado. Me arrependo de ter magoado algumas pessoas. De verdade!

Por aqui passaram vários colaboradores. Alguns deles nem são mais meus amigos, mas sou grato pelas contribuições. Cada um teve papel importante na formação deste espaço. Também agradeço aos parceiros que continuam por aqui. Em especial aos amigos Fernando Canto, Ronaldo Rodrigues, Jaci Rocha, Patrícia Andrade, Alcinéa Cavalcante, Luiz Jorge, Marcelo Guido e Marcelle Nunes, além do velho e saudoso Tãgaha Luz (In memoriam). Ah, os caras que fazem a manutenção do boteco: Rômulo Ramos e Laerte Diniz. Obrigado, meninas e caras.

O blog morreu há seis anos, quando foi criada esta página eletrônica (dados do antigo endereço foram migrados para cá). Passado todo esse tempo, mantenho-me como comecei: jornalista, assessor de comunicação, compulsivo por atualizações da página, cronista, crítico, ex-blogueiro e editor de um site ético sem rabo preso com ninguém (apesar de muita gente confundir o espaço dado a amigos assessores com favorecimento).

Tenho a ousadia de usar as palavras do escritor Caio Fernando Abreu: “acho que fiz tudo do jeito melhor, meio torto, talvez, mas tenho tentado da maneira mais bonita que sei”. Uma eterna luta do bem contra o mal dentro de mim, mas com 99% de vitórias da luz.

Ah, desculpem os palavrões em alguns textos, mas isso também é liberdade de expressão.

Muitas das crônicas de minha autoria foram reunidas em um livro, o “Crônicas De Rocha – Sobre Bençãos e Canalhices Diárias”, lançado em setembro passado (à venda na Public Livraria ao preço de R$ 30,00 ou comigo. Contato: 96-99147-4038).

Aqui a bola sempre foi minha. Você pode discordar, mas é isso o que penso e ponto. Com essa frase, agradei a maioria. Meu muito obrigado a vocês, senhores e senhoras que compõem o leitorado do De Rocha, sejam admiradores, críticos e detonadores (que de certa forma também são admiradores). Sigamos aplaudindo, criticando, discordando e incentivando as boas práticas. Valeu!

Elton Tavares

Frases, contos e histórias do Cleomar (V Edição Especial Coronavírus, Política e Apagão)

Tenho dito aqui – desde fevereiro de 2018 – que meu amigo Cleomar Almeida é cômico no Facebook (e na vida). Ele, que é um competente engenheiro, é também a pavulagem, gentebonisse, presepada e boçalidade em pessoa, como poucos que conheço. Um maluco divertido, inteligente, gaiato, espirituoso e de bem com a vida. Dono de célebres frases como “ajeitando, todo mundo se dá bem” e do “ei!” mais conhecido dos botecos da cidade, além de inventor do “PRI” (Plano de Recuperação da Imagem), quando você tá queimado. Quem conhece, sabe.

Em 2020, assim como a primeira, de março passado, a segunda de maio, a terceira em junho, a quarta em agosto, segue a V Edição Especial Coronavírus (agora com campanha política e apagão), cheia de disparos virtuais do nosso pávulo e hilário amigo sobre situações vividas e legendadas por ele mesmo. Boa leitura (e risos):

Arroz caro

A única certeza em aniversário na casa de pobre é o risoto, nessa caristía, a gente fica como?

Não vem de garfo

Tu pedes aquele combo de sushi, na esperança de que a falta de habilidade da moçada com os “pauzinhos” amenize o desespero na hora de comer, quando tu te espantas, tá todo mundo de garfo. Oh raiva!!

Máquina de lavar

Aqui em casa é assim, se vc esqueceu algum documento no bolso da calça, procure na máquina de lavar, se esqueceu cartão do banco, pen drive, chaves, procure na máquina de lavar. Agora se vc esqueceu algum trocado no bolso, te despede dele meu amigo, já era! Vou trocar essa máquina, ela tá de malandragem pra cima de mim!

Planos frustrados

Fiz tantos planos pra essa semana. Não ganhar no Amapacap jogou todos eles na merda.

Carne e risco de infarto

Aí tu vais cedo no mercado, escolhe aquela paulista bonita, capa de gordura certinha e pede pra patroa fazer um assado de panela ao estilo Ana Maria Braga. Trabalha a manhã toda pensando na gostosura que aquilo vai ficar. Na hora do almoço a decepção, na panela, a carne que vc comprou não existe mais, está limpa, sem um grama de gordura, sem brilho. A explicação: A carne tava muito gorda, tirei a gordura, vc vai acabar infartando. Vou sim, se tiver umas três raivas dessa na semana, com certeza eu infarto.

Calor

Hoje em Macapá a temperatura a tarde era de 39 graus, a sensação térmica era de que o capeta tinha tomado posse de tudo.

Pira

Tem dois dias que tô com uma coceira na palma da mão, minha mulher diz que é dinheiro, eu digo que vou no Dr. Palheta amanhã, acho que é pira mesmo.

Racismo

Só pra vocês ficarem espertos, tem uns preto aí, que tem raiva de preto, tipo aquele preto do DiCaprio no filme Django.

Linguajar

Nortista, quando fica nervoso e não sabe o que falar, manda logo um “eiiiita”.

Vacina

Eu tô parece a vacina de Oxford esse mês, achei que ia arrebentar e já me apareceu um monte de problema.

Sobre tomar ou não a vacina, se vcs não quiserem é até melhor. Menos gente pra vacinar, chega mais rápido pra mim.

Dinheiro e felicidade

Não posso perder o Globo Repórter de hoje, o tema: Menos dinheiro, mais felicidade ! Menos dinheiro eu já tenho…

Tratamento

Homem se apaixona sim pela forma que é tratado. Experimenta tratar que nem um fdp pra ver se a gente não gama.

Balanço do ano

Tivesse eu vinte cus, poucos seriam pra tomar neles em 2020.

Aporrinhação

Aqui em casa não existe esse negócio de “sem aporrinhação”. Aqui a gente resolve as coisas com aporrinhação, e muita.

Apagão

Precisou de um apagão pra tu perceberes que o cara da vendinha do bairro, o dono do posto de combustível, o do grande supermercado e até a dona do salão de beleza, estão cagando pra tua agonia.

Alguém sabe me dizer se a história de “Os humilhados serão exaltados” vale pra amapaense, ou também estamos fora da promoção?

Maior prejudicado fui eu, que perdi 5 kg de tamuatá nessa frescura de ficar sem energia.

Beleza

Se tivessem me falado que essa eleição ia ser na base da belezura, teria me candidatado. Garanto que não ia ser o fona.

Política

Se o Guaracy prometer que vai cuidar da cidade, com o mesmo carinho que cuida dessas sobrancelhas, meu voto tá garantido.

Só a nível de esclarecimento, o debate entre os candidatos à PMM ficou pra depois das eleições? É isso mesmo?

Ninguém lembra do Pastor Everaldo do PSC, aí tu falas: Aquele que peidou! Na hora todo mundo se lembra.

Tem uns candidatos que são até bem mais ou menos, aí tu vais ver os apoiadores, foooolêgo! Dá vontade até de rasgar o título de eleitor.

Auto-conhecimento

Quando vejo as merdas que eu postava a cinco anos, penso que eu era retardado. Quando vejo as que posto hoje, tenho certeza.

As perdas que nos fazem voltar a vida – Crônica de Darcilene Araújo

Image credits: Dreamstime

Crônica de Darcilene Araújo

A vida é o grande presente. Nascer, trilhar a jornada que nos foi permitida e voltar para a casa.

A cada um é concedido o dom da vida. De ter um lar e uma família, onde desenvolva sua personalidade, amadureça seus aprendizados e compartilhe o melhor de si.

Habitamos um corpo físico para retomar os aprendizados conquistados e seguir adiante.

Da nossa jornada sabemos nós e mais ninguém. Somos afobados. Queremos logo fazer 15, 18, 21 anos. Quando fazemos 30 se quer voltar.

Sempre estamos esperando o futuro, quando ele está ali, bem na nossa frente disfarçado de presente.

Quantas coisas deixamos de fazer porque o futuro não chegou.

Sempre estamos querendo algo mais, que nem sabemos o quê.

PHOTOGRAPH: TIM PLATT/GETTY IMAGES

Nunca perdemos tantas pessoas próximas com quem compartilhamos sonhos, desejos, amores, propósitos ou um simples olhar .

Hoje olhei para a foto de alguém que cumpriu a sua jornada e que partiu do corpo que acolheu a sua alma e o mundo parou …. pra nos lembrar que o nosso melhor futuro é o presente.

Que Deus, O Grande Arquiteto do Universo, O Criador, O Grande Espirito, A Inteligência Suprema, seja qual for a fé, que revele a força interior de quem ficou pra viver o luto e manter as lembranças boas de quem partiu.

*Darcilene Araújo é assistente social e coach.. 

OITO DIAS DE CALOR E ESCURIDÃO – Por Dulcivânia Freitas – @DulcivaniaF

“A panela de pressão explodiu”, conta jornalista sobre o apagão no Amapá e a desigualdade no acesso aos serviços – Dulcivânia Freitas estuda à luz de luminária de emergência – Foto: Ricardo Costa/acervo pessoal Dulcivânia Freitas

Por Dulcivânia Freitas

Numa Macapá ainda às escuras, a jornalista Dulcivânia Freitas relata o desespero dos primeiros dias sem energia nem água durante o apagão no Amapá. O transformador na subestação de energia que abastece pelo menos 13 das 16 cidades do estado foi atingido por um raio e explodiu. Escrito a pedido da piauí, este diário revela a consciência da desigualdade social flagrante, pois a energia e água vão voltando, mas não para todos. Enquanto faz doações para ajudar quem ainda está às escuras, ela relata os dias de perplexidade com a demora para resolver o problema em meio ao calor amazônico, com temperatura que beirou os 30°C e umidade variando de 60% a 92%, o que causa “suplício, corpo e cabelo melecados, sensação de colapso mental em adultos, crianças gritando”. “A panela de pressão explodiu.”

Terça-feira, 3 de novembro

O amanhecer de céu nublado foi uma surpresa que havia dois meses não acontecia em Macapá. Depois de quase quinze anos vivendo na capital do estado do Amapá – extremo Norte do Brasil – entendi as nuvens como prenúncio da chegada das chuvas do inverno Amazônico, estação particular da região. Só que antecipado, porque é comum as fortes chuvas caírem na Amazônia a partir de dezembro. Na rotina de 30°C em média o ano inteiro – sensação de 40°C entre junho e agosto – e com 90% de umidade relativa do ar, um certo conforto térmico se instaurou. Mas, no fim da tarde, começou uma tempestade de raios, trovões e relâmpagos – cenário pronto para os amapaenses se prepararem para interrupção de energia e da conexão de internet, como é de praxe quando esses eventos acontecem. Por volta das 21 horas, a energia caiu. Nos grupos de WhatsApp se espalharam rumores de que a cidade inteira estava no breu, depois os municípios vizinhos.

Depois da meia-noite nos convencemos de que a agonia do calor duraria uma noite, não mais que uma noite. Meu filho, um pequeno tucuju de 9 anos de idade, dormiu tranquilo sob o calor equatorial. Tucuju, nome de uma nação indígena já dizimada, é um adjetivo para quem nasce por aqui, na margem esquerda do Rio Amazonas. Atravessamos a noite com “sono picotado”, besuntados de repelentes anticarapanãs e zanzando de um cômodo para o outro. Por volta das 2h30, banho para aplacar o suadouro e a pele molhada de suor melecada. Após o banho, cheguei à conclusão de que seria melhor não me secar. Na madrugada, novos estrondos e clarões, e imaginei as trombetas do apocalipse na sequência. Naqueles instantes também me pus a pensar nas aflições dos bebezinhos, obesos, idosos, doentes de catapora, e nos animais domésticos que tanto sofrem com esses episódios.

Quarta-feira, 4 de novembro

Veio a confirmação oficial: a interrupção de energia atingira 14 dos 16 municípios do estado. Depois esse dado foi ajustado, eram 13 municípios. Só Oiapoque, no extremo Norte, e Laranjal do Jari e Vitória do Jari, no extremo Sul (estes dois separados do território paraense pelo Rio Jari), por terem um sistema de geração independente, atendido por outra rede. Só consegui dormir por volta das 6 horas, com o dia claro. Dormi até às 9 horas. No meio da manhã, as operadoras de internet móvel conseguiram abrir sinal por uma hora, e conseguimos dar sinal de vida nos grupos de trabalho e de parentes, e também buscar pistas mais concretas e atualizadas sobre o ocorrido. Adiei diversas atividades programadas na agenda do teletrabalho – regime que estou cumprindo desde março e que deve ir até 15 de janeiro de 2021 por causa da pandemia da Covid-19. No Twitter, onde sigo as principais fontes de informação da cidade, comunicadores, técnicos de governos, artistas, gestores, professores, pesquisadores, entre tretas e debates, já estava visível que continuávamos vagando pela escuridão, inclusive da informação. Também fiz meu desabafo: falta de energia, calor infernal, sinfonia de mosquitos ao ouvido e sem energia a noite inteira. Não há previsão para normalizar totalmente a energia no estado. Vejo avisos soltos nas redes, do tipo “estamos sem o sistema interligado (Sistema Interligado Nacional – SIN) pois o transformador que explodiu ficava na subestação operada pela empresa privada que não tem outro pra repor no momento”. A Companhia de Eletricidade do Estado do Amapá (CEA), distribuidora de energia elétrica, anunciou que os hospitais teriam prioridade de normalização do abastecimento, e conforme a Eletronorte fosse aumentando a geração de energia na Hidrelétrica Ferreira Gomes (localizada no município homônimo a 138 km de Macapá), iria progressivamente normalizando a distribuição para as demais unidades consumidoras.

Quinta-feira, 5 de novembro

Com o foco na falta de energia, só aí me dei conta de que estamos em plena pandemia do novo coronavírus, com aumento exponencial de casos positivos em Macapá no último mês. Eu não cogitava buscar bicos de tomadas em shoppings para reabastecer os celulares. O fornecimento de água encanada ficou dramático até para quem dispõe de alternativa para obter água potável, pois o sistema da companhia estadual depende de energia elétrica para funcionar. “Não dá pra ligar a bomba porque não temos energia, estamos puxando água do poço no braço”, contou uma amiga.

Saímos e, pela janela do carro, o Centro da cidade parecia viver aquelas cenas de filme: filas imensas nos postos de combustíveis, pessoas comprando até dez garrafões de água de uma só vez, outras com malas e mochilas no píer de saída na frente da cidade com destino à cidade de Afuá (Pará). Por outro lado, amigos falavam da disponibilidade de energia via gerador para as áreas de condomínios, o que já nos dava sinais da desigualdade de condições para a população enfrentar o mesmo problema. Algumas pessoas tinham água armazenada em caixas d’água para suprir mais dois dias com parcimônia, como era nosso caso. A Prefeitura de Macapá decretou calamidade pública por trinta dias e começou a abastecer parte da população sem acesso a água potável por meio de carros-pipa.

Sexta-feira, 6 de novembro

Além do caos no fornecimento de energia, água, telefonia, combustíveis, gelo, remédios e alimentos, com unidades hospitalares em grave crise, o setor bancário começa a entrar em colapso. Várias agências estipularam filas exclusivas para saques. Alguns bancos tiveram que suspender o atendimento, mantendo somente os caixas eletrônicos 24 horas. Os supermercados começaram a restringir a venda de três garrafões de água por pessoa.

Nas redes surgiram as hashtags #SOSAmapa e #ApagãonoAmapá, com depoimentos de moradores e arrecadação de donativos. Vergonha e humilhação tornam-se expressões e sentimentos recorrentes da população amapaense. A Eletronorte publica nota informando que não é responsável pela subestação que pegou fogo. A empresa privada responsável no momento pela operação da Subestação Macapá é a Linhas de Macapá Transmissora de Energia (LMTE), operada pela Geminy Energy.

Em nota lacônica, o Tribunal Regional Eleitoral do Amapá (TRE-AP) confirma as eleições para o próximo dia 15 de novembro, com garantia de baterias para as urnas eletrônicas. Sem nota de solidariedade.

Sábado, 7 de novembro

A companhia de energia prometeu uma tabela com o planejamento do rodízio de fornecimento de energia. Às 23 horas, não havia sido divulgado. A rede de solidariedade se intensificou, com doação de alimentos e água potável, e colaboro como posso. O Amapá se tornou estado com a Constituição de 1988, antes era Território Federal, e até 1943 fazia parte do Pará. Amapaenses e paraenses dividem raízes próximas e familiares. Neste primeiro dia de restabelecimento de pouco mais de 60% do fornecimento de energia, a população começa a se inteirar, via redes sociais, da dimensão da estrutura de geração de energia elétrica no Amapá, onde há quatro Usinas Hidrelétricas que, segundo relatórios recentes do ONS, continuam produzindo energia para o SIN: três delas no município de Ferreira Gomes, e uma em Laranjal do Jari. O estado possui apenas duas subestações, a de Macapá, que pegou fogo, e outra em Laranjal do Jari, município na divisa com o Pará.

Domingo, 8 de novembro

Mesmo com rodízio, temos algumas horas de energia. Ligamos ar condicionado e ventilador e já ouço relatos de boas horas de sono. Eletricidade e água vão voltando. Mas não para todos. O Amapá tem quase 70% da população concentrada nos municípios de Macapá, Santana e Mazagão (Região Metropolitana de Macapá). Os demais padecem com a dificuldade de comunicação. No início da tarde, a CEA divulgou a aguardada tabela de racionamento, mas logo percebeu-se que o cronograma não estava sendo seguido. Um grupo ficará sem energia justamente das 0 às 6 horas, ou seja, não poderia dormir por causa do calor. Há protestos nas redes e sugestões para reformular o cronograma do racionamento. A qualidade da energia distribuída no Amapá é rotineiramente instável mesmo nas maiores cidades, com perdas ou danificação constante de aparelhos eletrodomésticos e materiais eletroeletrônicos. Há regiões no interior atendidas somente durante quatro horas diárias de luz geradas a partir da queima de óleo diesel. Nas comunidades do arquipélago do Bailique (no município de Macapá, a 12 horas de barco da capital), onde moram cerca de mil famílias, a população padece até trinta dias sem energia elétrica. Na capital, moradores interditaram as ruas de bairros – alguns da área central da cidade – que continuavam sem abastecimento de energia e água, e também um trecho da orla banhada pelo Rio Amazonas.

Segunda-feira, 9 de janeiro

Primeira noite de sono tranquilo, com o ar condicionado ligado. Em meio à crise energética sem precedentes, temos a sorte de contar com o retorno de energia e outros serviços. Optei por não ser indiferente. Participo da campanha de doações. Começo este diário. Descrever a experiência de viver o apagão do Amapá traz momentos difíceis, mas sei que há muitas pessoas em pior situação. Enquanto escrevo, a luz acaba e só volta à meia-noite. Só então consigo dormir.

Terça-feira, 10 de janeiro

Oito dias depois do apagão, o fornecimento de energia não está normalizado, e, em muitas casas, o sofrimento continua. Num estado onde a temperatura média é de 27°C, chegando a 36°C nos meses mais quentes, e a umidade pode superar os 80%, a impossibilidade de ligar um ventilador que seja significa suplício, corpo e cabelo molhados, sensação de colapso mental em adultos, crianças gritando de calor. Desde domingo, moradores reagem com protestos e interdição de ruas. Comerciantes relatam furtos e perda de equipamentos. A panela de pressão explodiu. O TSE ratifica a eleição, pois acredita na previsão de que o fornecimento estará regularizado 100% até domingo, mas mandará 1.200 baterias sobressalentes para as urnas eletrônicas. Espero que o apagão, de algum modo, ajude a descortinar a escuridão e a exclusão em que vivem boa parte dos amapaenses.

DULCIVÂNIA FREITAS
Analista de comunicação da Embrapa/AP, mestranda em ciências da comunicação/estudos jornalísticos na Universidade Fernando Pessoa, no Porto (Portugal).

Fonte: Revista Piauí.

A vitória de Biden é a vitória da democracia. Trump vira um fantasma eleitoral. Mas o trumpismo, não duvidem, está vivo

Vejam essas manchetes históricas, disponíveis nos sites dos principais jornais americanos.
Não é preciso que você saiba inglês para entendê-las.
Basta que você entenda o seguinte: Acabou. Acabou para Trump.
Pronto.
Joe Biden, do Partido Democrata, acaba de ter sua eleição para presidente dos Estados Unidos confirmada, neste sábado (07), depois de projeções que apontam sua vitória no estado da Pensilvânia.
Esse feito conquistado por Biden tem um significado histórico e determinante: o de elevar-se como um freio de contenção – e esperamos que seja assim – na guinada extremista, à direita, pela qual várias democracias, inclusive a nossa, no Brasil, têm enveredado.
Esse extremismo já ensejou a criação de um termo recente – e da moda -, déficit democrático ou recesso democrático, um e outro querendo dizer, em português de Portugal, apenas isto: a utilização, por autocratas declarados ou meio enrustidos, de mecanismos legítimos oferecidos pela democracia para miná-la, fragilizá-la, desfigurá-la, estuprá-la sem parar, até que a transformem numa ditadura. Com todos os requintes de uma ditadura.
Joe Biden era o melhor dos candidatos para derrotar Trump?
Não.
Mas, nas circunstâncias – em que era preciso alguém com um discurso mais moderado para derrotar um lunático -, Biden era, sim, o melhor candidato.
Esperemos para ver como se conduz.
Até porque, como sabemos, Trump é agora um fantasma eleitoral.
Mas o trumpismo está aí, vivíssimo.
Estão aí os 74.478.345 de votos atribuídos a Biden até o momento.
Mas também estão aí os 70.329.970 atribuídos a Trump.
Para mim, já é assustador que dez pessoas votem num elemento como Donald Trump.
Vocês imaginem então o que é ver mais de 70 milhões pessoas terem votado nele, comungando de suas ideias malucas, mentirosas, racistas, xenófobas, misóginas, homofóbicas, supremacistas, excludentes, desconectadas da realidade.
Mas enfrentar o trumpismo é pra depois.
No momento, é celebrar essa vitória, literalmente, como uma vitória da democracia.
E Trump?
No momento, diz-se, está jogando golfe.
Tomara que resista em sair da Casa Branca, em janeiro do próximo.
Se recusar-se, será tirado à força, escoltado pelo Exército, como previsto nas leis americanas.
E se for retirado sob escolta, e além disse metido numa camisa de força, muito melhor.

Fonte: Espaço Aberto.

Apagão afeta 14 dos 16 municípios do Amapá e compromete serviços de saúde e comunicação – Égua-moleque-tu-é-doido!

Fogo em subestação — Foto que cirlulou em grupos de WhatsApp de jornalistas.

Quatorze dos 16 municípios do Amapá, incluindo a capital Macapá, continuam sem energia elétrica desde o incêndio que atingiu uma subestação localizada na Zona Norte da capital, por volta de 20h30 de terça-feira (3). Apenas Oiapoque, no extremo Norte, e Laranjal do Jari, no extremo Sul, têm eletricidade, pois são atendidas por outro sistema.

De acordo com a Companhia de Eletricidade do Amapá (CEA), não há previsão para o restabelecimento do serviço.

Por volta de 9h, alguns bairros da Zona Sul da capital tiveram o fornecimento restabelecido, porém com oscilações, entre eles, Universidade, Zerão e Jardim Marco Zero.

“Um problema na linha de transmissão do Sistema Interligado Nacional causou a interrupção do fornecimento de energia no Estado. A ONS [Operador Nacional do Sistema] está investigando as causas do problema. O serviço foi restabelecido em algumas regiões nesta manhã, mas ainda não há previsão de normalização”, disse a companhia em nota, às 9h48 desta quarta-feira.

Por volta de 14h30, a ONS se manifestou sobre o caso, também em nota, confirmando o incidente, que causou desligamento automático de das linhas de transmissão Laranjal/Macapá C1 e C2 e das usinas hidrelétricas Coaracy Nunes e Ferreira Gomes.

Local que pegou foto – Foto: arquivo pessoal

“Hoje, às 06h09, foi iniciada a recomposição parcial das cargas da usina hidrelétrica Coaracy Nunes. O ONS está coordenando os agentes envolvidos e acompanhando a situação para que haja o mais rápido restabelecimento possível do fornecimento de energia na região”, informou, sem dar prazo.

O Centro Integrado de Operações em Defesa Social (Ciodes) informou que recebeu registros de duas pessoas atingidas por raios, que ocorrem em grande intensidade desde a madrugada. Os casos estão sendo apurados.

Apagão na Maternidade Mãe Luzia, a única da rede publica do Amapá — Foto: Victor Vidigal/G1

Hospitais

Os principais hospitais do estado, entre eles o Hospital das Clínicas (HC) e o de Emergências (HE), estão sendo alimentados com geradores à óleo diesel.

A única maternidade pública do estado, no Centro de Macapá, chegou a ficar sem energia. De acordo com informações de funcionários, são 18 bebês internados na Unidade de Terapia Intensiva (UTI) neonatal.

As unidades hospitalares também estão sem água. O governo estadual informou que está fazendo a captação em poços para garantir o abastecimento a pacientes, acompanhantes e corpo médico.

O HE, principal pronto-socorro da capital, precisou interromper cirurgias porque ficou momentaneamente sem óleo diesel para os geradores.

Fila posto de combustível de Macapá — Foto: Victor Vidigal/G1

Comércio e serviços

Donos de estabelecimentos comerciais reclamam de prejuízos, principalmente com a dificuldade para acondicionar alimentos perecíveis.

Farmácias e lojas que operam com sistemas ligados a internet, estão com os atendimentos comprometidos. Postos de combustível, que ainda seguem funcionando em Macapá, estão com filas.

Os sites oficiais vinculados ao governo do Amapá estão fora do ar desde o início da manhã. Alguns bairros de Macapá também estão sem o fornecimento de água.

Comunicação

O incêndio também pode ter provocado falhas na comunicação por telefone fixo, móvel e internet, que estão limitadas e com pouco acesso desde o sinistro.

A Rede Amazônica entrou em contato com as empresas de telefonia que atuam no estado:

Vivo informou através de nota que conta com geradores próprios em alguns pontos no estado para manter sua rede em funcionamento e que aguarda pelo restabelecimento da energia para normalizar todos os serviços.

Tim disse que alguns clientes podem estar com dificuldades na utilização dos serviços de voz e dados, e que técnicos da companhia trabalham para normalizar a prestação dos serviços o mais brevemente possível.

Fogo sob chuvas

A falta de energia foi combinada com as fortes chuvas que atingem diversas cidades do estado desde a noite de terça, com alagamentos e alta incidência de raios e trovões.

As chamas altas em meio à chuva chamaram atenção de quem passou pelo local. Em nota, a CEA informou que investiga as causas do problema e o que foi destruído pelo fogo. O Corpo de Bombeiros foi acionado e conteve as chamas.

Fonte: G1 Amapá