Hoje é o Dia do Gordo – Meu texto/relato bem humorado sobre nós, os gordos

Hoje (10) é o Dia do Gordo. Li que o principal objetivo da data é a conscientização sobre a importância de se manter o respeito por aqueles que estão acima do peso, ou mesmo aquelas pessoas que apenas possuem uma estrutura corporal mais avantajada. Como sabemos, a obesidade pode ser prejudicial à saúde. Porém, não significa que a pessoa que apresenta uma constituição física maior tenha necessariamente alguma enfermidade. Afinal, existem pessoas magras que convivem com diversos problemas de saúde, e nem por isso são vistas com desprezo.

Portanto, o Dia do Gordo visa desconstruir preconceitos, alterar os padrões de beleza estereotipados e combater a gordofobia, que recai principalmente sobre as mulheres.

Sobre o adiposo estado, sou (não estou, estar é temporário) porrudo desde 1998, quando deixei de ser uma garrafa e virei um freezer de cerveja. Costumo dizer que engordei muito, mas fiquei mais esperto. Ainda bem que, para muitos, o feio bonito lhe parece.

Sem qualquer tipo de apologia à obesidade, admiro gordos bem resolvidos. Eu não sou assim, mas também não me esforço como deveria para melhorar minha forma física. Sigo feliz ignorando preconceitos e cobranças. Mas confesso, é duro não poder usar algumas roupas ou bater bola com os amigos (só lembro do Bussunda, humorista gordo que morreu ao jogar uma pelada com amigos, em 2006).

A maioria dos gordos são alvo de piadas ofensivas, o que enche o saco de qualquer um que não é um babaca. Minha autoestima só não é mais abalada pela forma de geladeira por conta da sorte que sempre tive, depois de arredondar, com as mulheres. Disso posso me gabar. Afinal, gordo tem que se garantir!

Ah, uma coisa é fato, gordo só faz gordice. Somos desajeitados, gulosos, calorentos, engraçados, entre outras coisas. Sei que é preciso maneirar, pois a saúde cobra caro. Quem dera diminuir de ultramegagordo para somente gordo, mas isso é um processo dolorido e exige sacrifícios. A não ser que você tenha coragem de encarar uma cirurgia bariátrica, mas mesmo assim existe sofrimento no pós operatório e adaptação à nova vida.

E os apelidos? Já fui chamado de rolha-de-poço, barriga de lama, corpo de pipo, corpo de coxinha, sargento Garcia, entre tantos outros. O que pegou mesmo foi “Godão”. E eu até gosto desse apelido.

Já tive um corpinho bonito, que enterrei embaixo de toneladas de comidas deliciosas, aliadas a zero prática esportiva. Eu adoro quando um gordão ganha de um figura metido a maromba e quando a gordinha gente fina é mais interessante que a rata de academia sem cérebro.

Enfim, feliz Dia do Gordo a todos os que sofrem com a tiração de barato, encaram com bom humor e muitas vezes conseguem ser mais fodas que muitos idiotas magros ou bombados. Viva nós!

Elton Tavares

*OBS: por conta da saúde, esse ano decidi me submeter a uma cirurgia bariátrica, pois passei da conta. Se não fosse para voltar a ser saudável, seguiria gordo de boas.

Sessão Datas Curiosas: Hoje é o Dia do Sexo!!!

Esse pessoal inventa cada coisa, inclusive dias comemorativos, se é que se pode chamá-los assim. E este site possui uma sessão “datas curiosas”. Bom, hoje (6) é o Dia do Sexo. A origem da data, comemorada desde 2008, se deu por meio de uma campanha de marketing da empresa de preservativos Olla.

De acordo com a peça publicitária, “faltava um dia em homenagem a aquilo que deu origem a tudo”. Ah, como o dia 6 de setembro lembra uma posição sexual das mais conhecidas, os engenhosos publicitários aproveitaram o 6/9=69 (risos).

Para o sexo não existe dia ou hora certa. Claro que cada um de nós possui suas próprias preferências sobre horários e circunstâncias. Vale lembrar que todas as formas de amar e de amor merecem respeito sempre.

De qualquer modo, uma data oficial ou não, simplesmente falar não é o melhor jeito de honrar e celebrar. Bom mesmo é praticar o que todo mundo gosta. Portanto, mandem ver, seja com parceiro fixo ou do jeito que lhe faz feliz.

Se você não tem como aproveitar o dia (ou a noite) dessa inusitada e prazerosa data, estás fudido (a) mesmo.

Portanto, mandem ver e gozem a segunda-feira, literalmente!

Elton Tavares

*Só uma coisinha, essa sessão de Datas Curiosas deste site incomoda alguns, que chegaram a reclamar de tais registros. Ainda bem que todo dia é dia de alguma profissão, atividade ou brincadeira. Desse jeito, dá pra elogiar os familiares e amigos, além de postar coisas bem humoradas. Acreditem, tem gente que não gosta. Mas são somente os amarguinhos que encontramos pela vida.

Ele voltou, o cronista voltou novamente – Crônica de retorno do Ronaldo Rodrigues (tomara)

Crônica de Ronaldo Rodrigues

Já faz algum tempo que não venho por aqui. O dono da casa já deve ter esquecido ou desistido de mim. Ele nem cobrou mais a minha visita, nunca mais me fez lembrar que minha presença reforça os alicerces desta casa. Ou será que só eu pensei isso, num momento de falta de modéstia?

Em todo caso, escrevi este bilhete me desculpando pela longa ausência. Vou deixar aqui no pátio e sair devagarinho. Vai que ele está zangado com minha falta de notícias. Ou se ajustou à ausência e cancelou o contrato, ainda que o nosso contrato seja não verbal, mais baseado em afeto do que em cobrança, disciplina, prazo etc.

Espero que me desculpe e, nem se importando com o vasto tempo corrido, ele coloque este singelo bilhete no mural digital que tem na internet.

A minha ausência já foi explicada (entressafra de ideias, muito trampo rolando, falta de tempo etc.), mas nem ele nem eu ficamos satisfeitos com essas pausas prolongadas. Quem escreve sempre encontra, inventa, descola um tempo de escrever algo fora das exigências profissionais de quem vive de criar textos.

Pois bem, Elton. Aí está o meu bilhete junto com um abraço e um P. S.: vou manter a periodicidade. Desta vez é pra valer (rsrsrsrs).

Obrigado por continuar acreditando e me dando este espaço. Valeu! E abre logo essa cerva!

Reunindo artistas amapaense e muito humor, live celebra os 30 anos da dupla Os Cabuçus

A dupla Os Cabuçus surgiu em 1991 e conquistou o público do Amapá com a irreverência de seus personagens, dois ribeirinhos nascidos na região Norte, com o jeito de falar do caboclo da Amazônia.

Juntos, os “Cabuçus” protagonizavam um programa de rádio transmitido diariamente de 17h às 19h, além de peças teatrais e o programa de televisão “Os Cabuçus na TV”. Para comemorar essas três décadas de humor dedicado ao povo nortista, no dia 31 de agosto, às 20h, uma live no Youtube vai reunir oito artistas amapaenses que tiveram grande participação na carreira musical dos humoristas.

Além de canções autorais da dupla de humoristas, Finéias Nelluty, Enrico Di Micelli, Suellem Braga, Zé Miguel, Osmar Junior, Ramon Frazelli, Amadeu Cavalcante e Nivito Guedes também farão interpretações ao longo da transmissão, que promete ter 3 horas de duração.

Nós precisamos comemorar a história que Os Cabuçus têm com o nosso povo ribeirinho, o povo da Amazônia. Vamos fazer uma grande festa, reunir amigos e levar para os fãs e a quem nunca viu um show nosso um pouco de diversão e alegria nesses tempos difíceis que passamos”, contou Nilson Borges, que dá vida ao personagem Vardico.

Toda estrutura planejada para a transmissão ao vivo é inédita no Amapá. Gravada em estúdio, com gruas, imagem HD, som digital e transmissão simultânea em tv e rádios em vários municípios do Amapá e Pará – cobrindo Marapanim, Castanhal, Vigia, São Caetano de Odivelas, São João da Ponta e Terra Alta.

Para acompanhar toda a transmissão, se inscreve no canal no Youtube da dupla em www.youtube.com/c/OsCabuçus.

A dupla

Com início da vida artística no rádio, a dupla esteve no ar em emissoras do Pará e Amapá, gravaram quatro CDs autorais, iniciaram um programa de TV em 2008 e, no ano seguinte, estrearam no teatro. Os Cabuçus lançaram também revistas em quadrinhos com histórias roteirizadas pela dupla. A publicação foi a primeira revista em quadrinhos de humor regional da Amazônia.

Pádua, que interpretava o Lurdico, morreu em 17 de Julho de 2014, vítima de um infarto na casa onde morava com a família, em Macapá.

Um novo membro chegou e ainda em 2014, o irmão de Pádua, Natanael Borges, deu vida ao Cidico, um caricato caboclo amazônida inocente e bobalhão. Assim, a dupla deu continuidade a vida artísticas com shows, peças teatrais e em 2019 iniciou um novo programa de TV, resgatando quadros icônicos dos humoristas, tudo isso sem nunca abandonar o rádio, carro-chefe dos personagens.

Assessoria de comunicação

Quem é o cantor? – Crônica de Ronaldo Rodrigues

Ilustração de Ronaldo Rony

Crônica de Ronaldo Rodrigues

Ele gostava de cantar. Era apaixonado pela arte do canto. A arte do canto é que não dava a mínima para ele. A arte do canto o deixava no canto. Não gostava nada daquele aspirante a cantor, cujos únicos talentos eram a persistência e a cara de pau.

Seus amigos o evitavam para não serem obrigados a escutar aquele repertório surrado e pessimamente cantado. Mas ele insistia. Cantava e depois perguntava:

– Vocês acham que essa música foi bem executada?

Como ele não poupava os amigos, estes também não o poupavam:

– Gostamos muitíssimo. Principalmente da parte em que acabou. Achamos que a música foi mesmo executada, sem dó nem piedade. E se não tivesses parado de executá-la, o executado serias tu.
– Tudo bem, pessoal. Não se pode agradar a todo mundo.
– Mas desagradar a todo mundo pode. E tu consegues!

Ele não ligava para as críticas. Na verdade, ligava sim. Achava que as críticas tinham o poder de elevar a sua vontade de se consagrar na música. Pensava que as opiniões, mesmo as menos favoráveis, faziam um cantor amadurecer a sua arte. Novamente, os amigos opinavam:
– A tua arte já está amadurecida, quase para cair. Aliás, já apodreceu!

Fugindo à regra, essa crítica o abalou. Ele resolveu pedir a opinião materna:

– A senhora acha que eu sou um artista chato?
– Claro que não! Tu és só chato, não artista!

Sua mãe se arrependeu de ser tão direta e tentou consolá-lo:

– Fica triste não, filho! Ainda irás fazer muito sucesso. O Oscar Niemeyer começou a carreira assim.
– Oscar Niemeyer? Mas ele era arquiteto!
– Pois é. Ele tentou a música, viu que não tinha nada a ver, foi para a arquitetura e arrebentou!

Mesmo com todo esse incentivo, ele se inscreveu no The Voice Brasil. Assistiu a várias edições anteriores do programa e achou que dava para ganhar no grito:

– Eu só vejo o pessoal gritando lá. Basta gritar que eu levo, pelo menos, o terceiro lugar ou um contrato com alguma gravadora.

Realmente, ele estava certo. A gritaria tomou conta. Ele entrou no ritmo e gritou também. Mas se ele queria levar alguma coisa do programa, levou: muita vaia.

Nas canjas dos bares, ele marcava presença, sempre suportando o sarro dos amigos:

– Leva Chão de Giz?
– Levo!
– Então leva pra bem longe que ninguém aguenta mais!

– Leva Canção da Despedida?
– Levo!
– Mas é a canção da tua despedida!

– Leva Manu Chao?
– Levo!
– Então, mano, tchau!

E as gargalhadas não paravam. Os amigos entoavam trechos de músicas para que ele se tocasse:

– “Apesar de você…”.
– “A noite vai ser boooaa…”.

A gota d’água (não, não me refiro à música Gota d’Água, do Chico Buarque) foi numa noite dessas. Ele subiu ao palco para mais uma canja e disse o que muitos cantores de bar dizem:

– Vocês têm algum pedido a fazer?
Uma voz de bêbado gritou lá do fundo:
– Sim! Coloca um vinil pra rolar!

Desistiu de uma vez por todas. Sacou que já tem muita gente que não canta nada brilhando nas paradas de sucesso e fazendo carreira. Atualmente, ele se dedica a cantar garotas, repetindo o mesmo sucesso que fazia na música.

O Navio dos Cabeludos e a Educação pelo Medo – Crônica porreta de Fernando Canto

Crônica do sociólogo Fernando Canto

O medo de fazer algo errado e ser punido controlava a ação de qualquer moleque da minha idade.

Os mais velhos comentavam com veemência sobre uma tal Ilha de Cutijuba, no Pará, para onde levavam os jovens transgressores das leis, falando misérias sobre ela. Diziam ser um presídio de onde era impossível fugir por causa dos tubarões e pirararas que viviam ao seu redor, perto do oceano; um lugar quase inacessível, que para viver era preciso lavrar a terra na chuva e no sol para produzir seu próprio alimento; uma prisão ao ar livre na qual poucos sobrevivam cumprindo suas penas. Em suma: um inferno.

O controle social bem articulado, posto nas nossas cabeças pelo medo, povoava nossas vidas desde a infância. Para cada situação sempre existia uma história que evitava o fazer errado. Era a educação pelo medo. Até hoje quando vejo uma sandália virada providencio logo que ela fique na posição de calçar, pois me ensinaram a acreditar na superstição de que minha mãe morreria se a sandália não estivesse de cabeça para cima. Espertos esses adultos! Eles inventaram uma forma de fazer as crianças não bagunçarem os espaços da casa e também de não castigá-las com surras e outra correções violentas. Certa vez um dos meus filhos, ainda criança, viu o irmão chutar uma sandália que ficou de cabeça para baixo num canto da sala. Imediatamente ele disse: – A mamãe vai morrer, eu não tô nem aí, eu não tô nem aí! E saiu se isentando da culpa da (im)provável “morte” de sua mãe, causada pela sandália virada.

Situações como essa aprendemos em todos os lugares, seja em casa, na rua ou na escola, onde nossas relações sociais se ampliam e solidificam. E assim a gente vai se educando, variando os conhecimentos, resistindo ou não às novidades, segundo os contextos históricos, sociais, culturais e políticos que se apresentam. Mas dificilmente essas superstições e abusões sairão de nossas memórias, embora entendê-las, hoje, signifique dar boas risadas, porque todas as representações simbólicas produzidas pela consciência coletiva ou individual expressam visões de mundo e de sociedade. É uma visão política de realidade porque as ideologias estão ligadas à compreensão da cultura, que por sua vez é uma percepção ligada às diferenças entre os homens. O controle implícito no gesto de “ajeitar” a sandália é uma experiência de poder.

Bem próximo, na continuação da educação pelo medo, lembro da expressão “- O Navio dos Cabeludos vem te buscar.”, uma forma de coação social e familiar para os que não gostavam de cortar os cabelos, principalmente no tempo da Jovem Guarda, quando era moda usar os cabelos compridos, mesmo se arriscando a ser chamado de “bicha”. Não sei de onde veio a dita expressão, mas desde a Guerra do Paraguai, passando pela Revolução dos Cabanos e pela Segunda Guerra Mundial, muitos jovens se escondiam no mato com medo dos “Pega-pega”, navios que passavam nos rios da Amazônia para alistá-los compulsoriamente e remetê-los aos campos de batalha.

A invenção dessa “pedagogia” não raro ainda se estabelece em muitos lares urbanos e rurais da Amazônia. E funciona com as crianças, porque todas têm medo. Nenhuma delas quer perder a mãe por causa da sandália virada. Ninguém quer viajar a força num desses Navios dos Cabeludos que sempre aparecem na frente da cidade para uma viagem sem destino e sem volta.

A Santa Inquisição do Fofão – Crônica de Elton Tavares (ilustrada por Ronaldo Rony)

Lembro-me bem, no início dos anos 90, do pânico em Macapá causado por um boato “satânico”. Espalhou-se que teria uma adaga ou punhal dentro do boneco do personagem Fofão, por conta de um suposto pacto demoníaco com o “Coisa Ruim”, feito pelo criador do personagem.

Iniciou-se uma caça, sem precedentes, aos brinquedos.

Uma espécie de “Santa Inquisição”.

De certa forma, parte da população embarcou na nova lenda “modinha” e os fofões foram trucidados por conta de um mero boato.

Meu irmão e eu vitimamos alguns fofões que pertenciam às nossas primas (prima sempre tinha Fofão, boneca da Xuxa ou Barbie). Na época, muitos diziam que ouviram do vizinho do “fulano”, que uma pessoa tinha sido assassinada por um dos então apavorantes bochechudos de brinquedo.

O Fofão tinha uma cara enrugada, era tosco, usava uma roupa parecida com a do Chucky (o Brinquedo Assassino), e dentro ainda tinha uma haste (punhal) de plástico, que era usado para manter o seu pescoço em pé.

Realmente os fatos estavam contra ele.

Houve até queima dos portadores do mal, em praça pública. Sim! Naquela praça que ficava em frente ao cemitério São José, que hoje abriga a Catedral, homônima ao espaço reservado aos que já passaram desta para melhor.

Na verdade, comprovou-se que o fato não passou de um golpe de marketing, pois muita gente comprou só para conferir e, em seguida, destruir o brinquedo. Coisas como o lance das músicas da Xuxa que, como se falou na mesma época, se tocadas ao contrário, continham mensagens do diabo.

Hilário!

Foi muito divertido, confesso. Ateei fogo em vários fofões, e foi muito melhor do que a época junina. A maioria dos moleques adorou e grande parte das meninas chorou a partida daquele tão querido brinquedo.

Concordo com o dramaturgo inglês, William Shakespeare, quando disse: “Há mais coisas entre o céu e a terra do que explica a nossa vã filosofia”, mas não neste caso. Porém, o episódio do Fofão foi uma histeria generalizada entre a molecada e virou mais uma piada verídica da nossa linda juventude, uma espécie de Santa Inquisição dos brinquedos.

Elton Tavares

Meu inferno – Crônica infernal, mas bem humorada, de Elton Tavares – Ilustrada por Ronaldo Rony

Acho que se existir inferno, coisa que duvido muito, cada alma pecadora tem um desses locais de pagamento de dívidas de acordo com suas ojerizas. Nada como no clássico da literatura “A Divina Comédia”, o inferno do escritor italiano Dante Alighieri, que escreveu sobre os nove andares até a casa do “Coisa Ruim”.

Quem nunca imaginou como seria o Inferno? Como seríamos castigados por nossos pecados? Volto a dizer, pra mim o inferno é aqui mesmo. Mas vou pontuar algumas coisas que teriam no meu, se ele está mesmo a minha espera.

Bom, meu inferno deve ser quente. Não tô falando das labaredas eternas com o Coisa Ruim me açoitando pela eternidade. Não. Esse é o inferno mitológico e ampliado da imaginação religiosa. Falo de calor mesmo, tipo Macapá de agosto a dezembro, com quase 40° de temperatura (a sensação térmica sempre ultrapassa isso no couro da gente) e sem ar-condicionado.

Neste inferno, todo mundo é fitness, come coisas saudáveis e é politicamente correto. Meu inferno tem gente falsa, invejosa, amarga, que destila veneno por trás de sorrisos. Ah, meu inferno tem incompetentes, puxa-sacos, gente de costa quente que conta do padrinho que o indicou. E pior, neste inferno sou obrigado a conviver com elas diariamente.

No meu inferno tem gente que atrasa, que me deixa esperando por horas. Ah, lá tem caloteiros e enrolões, daqueles que demoram a pagar serviço prestado por várias razões inventadas.

Neste inferno moldado a mim tem parente pedinchão, “amigo” aproveitador, filas e mais filas para tudo. Tem também muita etiqueta e formalidades hipócritas. E também todo tipo de “ajuda” com segundas intenções. De “boas intenções” o inferno tá cheio.

Neste lugar horrendo só vivo para trabalhar, estou sempre sem dinheiro, sem sexo, sem internet e sem cerveja. Nó máximo Kaiser, aquela cerva infernal de ruim. No meu inferno toca brega, pagode e sertanejo sem parar.

Eu sei, leitor, que devo agora estar lhe aborrecendo. Mas perdoe-me, esta alma é chata e sentimental. Às vezes vivemos infernos mesmo no cotidiano, pois vira e mexe essas coisas aí rolam. Por isso dizem que o inferno é aqui. Ou como explicou o filósofo francês Jean-Paul Sartre, na obra “O Ser e o nada”: o inferno são os outros. É por aí mesmo.

Ainda bem que tenho uma sorte dos diabos e Deus é meu brother, pois consegue me livrar dos perigos destes possíveis infernos cotidianos e nunca fará com que tudo isso descrito acima ocorra por toda a eternidade. No máximo, de vez em quando, para que eu pague meus pecadinhos neste plano (risos).

Esse devaneio deve ser por conta do “inferno astral”, vivido sempre próximo de meu aniversário. Mas volto a dizer, este seria mais ou menos o MEU inferno. Como seria o seu?

Elton Tavares

*Do livro “Crônicas de Rocha – Sobre Bênçãos e Canalhices Diárias”, de minha autoria, lançado em setembro de 2020.

Pequena crônica raivosa – (Ronaldo Rodrigues)

Crônica de Ronaldo Rodrigues

Gostaria agora de escrever uma crônica raivosa. Lá vai:

E nos metem pelas gargantas e neurônios adentro essa enxurrada de novidades que ainda serão velharias nos futuros museus dos futuros milênios.

Celebridades opacas, que jamais se aproximarão de mínima originalidade, cansam nossa já triste beleza e enchem o saco do nosso feed (ui, ui, ui, eu também uso esse tipo de palavreado…).

E haja influencer mostrando como é maravilhosa a sua medíocre vida, como seus amigos são desinteressantes, como são fúteis suas mais sérias preocupações, como suas mansões causam bocejo e cansaço. E correm para conferir a fatura dos likes.

A quintessência do universo virtual, famosos dos guetos culturais mais estreitos do mundo exibem seus sorrisos de acrílico, dirigidos aos seus fãs/tietes, hoje conhecidos pela inquietante denominação de “seguidores”.

Close no olhar blasé dos pets de famosos ex-bbb sei lá do quê embalados em seus modelitos de seda, adquiridos no último rolê em Paris, suspirando de tédio e arrogância.

Diante de termos como “cringe”, bate uma saudade dos termos “brega”, “cafona”, até o não nosso “demodê”, e vem a certeza de que, num passado nem tão remoto, éramos muito mais chiques. E já sabíamos disso.

Ufa! Desabafei! Já tô de boa!

Conheci um cara chamado Hollyland – Crônica de Mayara La-Rocque

Eu e Holly – Bar da Euda – 2014

Adoro retratar figuras, aliás, já postei este texto aqui três vezes. O escrito é da minha amiga Mayara La-Rocque. Ela descreve, com perfeição, um velho brother nosso, o Hollyland. O Holly, como o chamo, é um maluco da velha guarda. Não vou negar, já fiquei puto com ele em algumas ocasiões (risos), mas é o tipo de pessoa que você não consegue ficar bolado por muito tempo. Existem algumas curiosidades sobre o sacana, ninguém sabe ao certo o seu nome ou idade e ele não conta. Claro, adoramos aquele cara. Aí está o texto:

Conheci um cara chamado Hollyland.

Crônica de Mayara La-Rocque

Nos conhecemos andando pelas ruas e estradas, pelos caminhos de pedras e terra. Nos debatemos no vazio das horas, em conversas infindas, cerveja e pôr-do-sol. Ele era um cara de muito papo. Tinha a prosa na ponta da língua. Tagarelava à toa, tagarelava com o tempo.

Hollyland era uma figura que nunca se preocupava com suas vestimentas; ora usava calças jeans e camisas de botão, ora bermudas e camiseta; as vezes, as peças eram todas de uma cor só, ou então, de várias cores ao mesmo tempo. Era um cara descombinado. Mas, desajeitosamente, tinha seu próprio jeito de andar; um andar que titubeava pelos bares das esquinas. Usava a barba por assim fazer e dizia que esse era o charme para o seu sorriso – assim barbudo, seus dentes realçavam mais e seu riso delineava todo o seu rosto.

Apesar de não se importar muito com a aparência, curiosamente, se preocupava com seus sapatos. Estes sim, lhe diriam seu caminho, e até quando continuar andando. Falava pra mim, que seu caminho era um vastidão de terra e por isso seus sapatos deveriam estar destituídos de buracos, para que não possibilitasse a poeira de entrar. Deveriam estar flacidamente confortáveis para que, no trajeto, não machucasse seus pés por entre as pedras.

Hollyland dizia que no início de seu riso, também haveria esse mesmo deserto, no qual se plantariam flores e se emanariam extensões de florestas verdes, verdes, imensamente verdes… Nessas florestas sempre haveria sombras para o seu descanso. Seus pés sempre foram o sustento de tudo. Os sapatos, o sustento de seu sustento. E o sorriso, a essência desse sustento – a essência da manutenção da vida.

Ele seguia quase sempre debaixo do sol, suando a testa, procurando algo pra fazer, ou simplesmente um barato para curtir. Gostava de um bom papo e quando falava era quase sem pausa, e emitia de quando em quando, um gaguejado. Mas, mesmo assim, parece que nunca perdia a fala. Até que um dia, o vi falar, vagarosamente, sobre o amor. Sua voz pesava tanto quanto os intervalos entre as palavras, e sua boca fechada, deixava um silêncio denso, torto, grosso, espesso… sim, Hollyland também falava de amor. Fazia metáforas. Sentia o amor como uma doença encravada no peito. Não se podia arrancar, não se podia arrancar… nem os remédios podiam curar.

Mas seguia assim, descombinadamente dançando, fazendo motejos com os braços, mexendo para cima e para baixo, e com seus dedos indicadores que apontavam sua própria direção. Com a barba mal feita, malandrosamente rindo, carregava o motriz para que continuasse seguindo em frente. Tinha em mente que enquanto continuasse andando, continuaria sonhando com as flores, com as florestas verdes, verdes, sempre verdes. Sonhando com a sombra, enfim, para o seu descanso.

*Holly, há muitos anos, deixou de andar na contra-mão, como diria Raulzito, se tornou um cara religioso e casou. Ele tá feliz e eu feliz por ele. Abraços, Mayara e Hollyland. Saudades!!

O dia em que consertei a bagunça – Crônica porreta de Ronaldo Rodrigues

Crônica de Ronaldo Rodrigues

Muito bem! Posso dar por encerrado o trabalho e descansar eternamente. Afinal, eu mereço. Criar o mundo, com tudo o que tem nele, cada detalhe, foi uma tarefa muito difícil. Não fosse eu o Todo-Poderoso creio que jamais teria conseguido sem consumir pelo menos uns cinco séculos. Levei apenas seis dias e vou já inventar o sétimo dia, o do meu divino descanso. A natureza e todas as suas criaturas estão aí, prontas para dar início a uma história de perfeita sincronização entre tempo e espaço, o equilíbrio exato entre rios, florestas, animais, o ar mais puro que fui capaz de criar, a movimentação do universo, a sequência perfeita das estações do ano… Creio que nada mais falta no meu paraíso.

Mas espera um pouco. Que tal eu dar um toque final? Criar um ser que possa compreender, fiscalizar e preservar a minha obra, livrá-la de todo o mal que, apesar do meu cuidado em criar o mundo, possa ter me escapado. Isso mesmo! Bem pensado! Vou criar esse ser, também um animal, que seja superior em inteligência aos outros animais. Será um tipo de gerente deste mundo, que foi criado com tanto zelo e carinho. Vou chamar este ser de homem e, como sei que ele não se contentará em ser o único de sua espécie, criarei sua companheira, a mulher. Era só o que faltava, ainda bem que lembrei.

Criei os dois, vi que tudo estava bem e parti para meu justo descanso. Mas esse descanso não durou quase nada. Foi só o tempo de os dois seres mais inteligentes começarem a fazer das suas. Primeiro, comeram do fruto do qual tanto alertei para que mantivessem distância. Foi a primeira desobediência que cometeram e isso foi só o começo de uma sequência de erros que continua até hoje. Resultado: o paraíso que criei virou um inferno. O ar puro que existia está misturado a gases poluentes, as florestas estão queimando, os animais morrendo e os rios secando. Os seres que acreditei serem os mais inteligentes se revelaram mesquinhos, egoístas e os mais ignorantes, pois são os únicos que põem em risco sua própria existência e a do planeta inteiro.

Falha minha. Por que não deixei do jeito que estava? Por que tive a ideia, no último momento, de criar mais essa espécie? A que eu acreditei que iria conviver com as outras espécies na maior calma e com todo o respeito. Aí eu poderia ficar tranquilo no meu descanso. Mas isso não ficará assim, pois já tenho a solução!

Pronto! Voltei àquele sexto dia da criação e poderia, simplesmente, riscar esse item da minha lista, deletar a existência dos seres humanos. Mas não serei cruel, como muitos deles se mostraram no decorrer da história. Vou apagar sua faculdade de pensar e eles ficarão observando os outros animais, como muitos desses animais são mais emotivos, mais íntegros e muito mais racionais do que os seres humanos. Agora, eles serão estagiários, observadores das outras existências, para que possam, em algum momento, ganhar elevação, grandeza, bondade. Só assim haverá uma esperança de que a vida na terra tenha equilíbrio e que se faça a luz!

Agora, sim! Vou tranquilo para o meu descanso.

NO AVIÃO PARA BELÉM – Crônica de Ronaldo Rodrigues

Crônica de Ronaldo Rodrigues

Estou a bordo do avião, indo para Belém. Nessa ocasião, sempre trago papel e caneta para anotar as impressões de viagem. Pois cá estão:

– O nome do comandante: Alexandre Braille. Claro que minha imaginação não perderia a chance de ver um piloto cego, tateando os controles.

– Sinto um sacolejar leve no avião. Turbulência, normal. Mas vejo que o avião ainda não decolou. Aí é preocupante.

– Zona de turbulência: uma aeromoça linda acaba de invadir meu espaço aéreo.

– As aeromoças, que hoje são chamadas de comissárias de bordo (perdeu a poesia), passam para lá e para cá, esbanjando aquela sensualidade indiferente à libido dos passageiros. Minha fantasia: me trancar no banheiro com uma dessas aeromoças e cair nas nuvens.

– Viajar de avião me faz descobrir superstições que ficam por muitos anos guardadas e só aparecem neste momento. Exemplo: descruzar as pernas quando o avião está decolando. Nesses momentos é preciso contar com todas as forças.

– Belém fica a pouco tempo de Macapá. Viagem curta. Não dá tempo nem de sentir medo.

– E lá vêm as instruções de como proceder em caso de acidente. Que acidente? Eu nem estava pensando em acidente! Socoooooooorro!

– Hora do lanche: peço Coca-Cola, mas, bem enfaticamente, peço que não se coloque gelo. A Coca-Cola sem gelo diminui o poder devastador do meu arroto. Meu arroto, em sua potência máxima, seria prejudicial à pressurização do avião.

– Viajar de avião, um objeto mais pesado que o ar. Vejo as caras dos passageiros simulando tranquilidade e penso na banalidade do absurdo, a simplicidade de correr o risco. Sei lá.

Consegui pousar em paz. A distância de Macapá a Belém parece diminuir cada vez mais. Estou em Santa Maria das Mangueiras. Marambaia me espera. Cuité, Buscapé, Mauro Vaz, Universidade, Praça da República, Theatro da Paz, estou aqui. Vamos à farra. Em breve, mando outro relato. Boas férias pra mim.

Sharlot Sandin gira a roda da vida. Parabéns, Japa. Te amo! Feliz aniversário!! – @SharlotSandim!

O jornalismo me proporcionou incontáveis coisas sensacionais. Entre tantas maravilhas, me deu amigos/irmãos. Entre esse pequeno grupo de afetos do meu coração, está Sharlot Sandin, a Japa linda e louca. Uma das pessoas que mais me faz bem quando estamos juntos é uma broda que gosto de ter por perto. Hoje, no décimo sexto dia de junho, ela gira a roda da vida e lhe rendo homenagens, pois ela é uma baita mulher!

Sharlot é mãe do Mateus, filha da dona Sônia, jornalista e assessora de comunicação das Prefeitura de Pedra Branca do Amapari (ofício que ela desempenha com dedicação e competência). Conheci a Japa em 2008. De lá pra cá, fomos chegados, colegas de trampo, amigos e, há anos, somos irmãos de vida. Ela é das pessoas com quem posso contar, seja para trabalho, resolver problemas pessoais ou rirmos em uma mesa de bar com nossos amigos loucos.

Sempre digo que ir trampar em Pedra Branca foi um divisor de águas na carreira da Sharlot. Ela era uma boa assessora de comunicação, mas se tornou senhora do seu ofício, com visão estratégica e diálogo porreta com a imprensa. Dá um orgulho danado ver a evolução profissional da japinha. Tenho a honra de ser seu amigo dessa pessoa que, além disso, é tem um grande coração.

Além de profissional, Sharlot Sandin é uma mulher fantástica. Sabem aquelas pessoas que quando você lembra ou olha na cara, já dá vontade de rir de tanta presepada e histórias acumuladas durante uma vida feliz junto dela? Pois é, é a Japa.

Hoje ela faz aniversário, mas o além de Sharlot, quem ganha somos nós, pois ela faz a nossa felicidade, pois temos o privilégio de ser amigos de uma pessoa tão porreta. E falo por mim e pela nossa turma mesmo, pois ela isso é quase uma unanimidade no nosso meio.

Sharlot é inteligente, honesta, safa, malandra, palhaça, batalhadora, presepeira e uma mulher bonita. E não é só por conta desse rostinho porreta, mas sim pelas atitudes e caráter. Com ela, já ri, chorei e colecionei momentos maravilhosos dessa vida.

Sharlot nunca fez NADA que desabone sua conduta como minha amiga. Sempre me apoiou e ficou ao meu lado. E tento ser para ela, pelo menos 70%, esse amigo que a querida é para mim. A gente se ama e é recíproco!

Com a cabeça e o coração loucos, Sharlot é absurdamente de bem com a vida. Ela aproveita tudo que a vida lhe apresenta de forma paid’égua, com todas as cores, sabores e ligas que, quando vividas, geram memória afetiva. Sei bem, pois em muitas dessas vezes, tô com ela. Essa mulher deixa tudo mais leve com seu humor debochado e ilumina a caminhada.

A Japa completa 36 anos hoje. Foda que estamos longe dela, por conta da pandemia que nos priva da presença de nossos afetos, mas estou feliz pelo ano novo de Sharlot, pois eu a amo. Na verdade, quem tem a sorte de ser seu amigo a ama.

Japa , que teu novo ciclo seja ainda mais porreta. Que tu continues esse mulher paid’égua e que sigas pisando forte em busca da felicidade. Tenho muita sorte da tua existência orbitar a minha. Saúde e sucesso sempre. Te amo! Meus parabéns pelo teu dia e feliz aniversário!

Elton Tavares

Sexo, mentiras e videotapes – Crônica porreta e cinematográfica de Ronaldo Rodrigues

Crônica cinematográfica de Ronaldo Rodrigues

Diretamente de Paris, Texas, o repórter Borat relata uma trama macabra: O mágico de Oz matou a excêntrica família de Antonia e foi ao cinema. Tudo por um punhado de dólares, que teve o sol por testemunha.

Pegou o taxi driver que conduzia Miss Daisy, atravessou as vinhas da ira, além da linha vermelha. Entrou no cinema Paradiso e viu os Piratas do Caribe invadindo a Fortaleza. Convidou o exterminador do futuro pra tomar um drink no inferno. Sentindo-se um náufrago, saiu em direção ao aeroporto, de volta para o futuro, sonhando com a ilha do tesouro.

Entrou no Bagdá Café e comeu tomates verdes fritos, que estavam como água para chocolate. Do nada, surgiu King Kong deixando todo mundo em pânico. Ouviu alguém gritar: Corra, Lola, corra para os embalos de sábado à noite. Nisso, passou correndo uma multidão. Seriam as invasões bárbaras? Ou o grande motim?

Eram todos os homens do presidente e o povo contra Larry Flint. Cansado de tantos filmes, voltou à casa do lago, onde Harry Potter tinha instalado sua fantástica fábrica de chocolate. À beira do abismo e à queima-roupa, fez ao poderoso chefão a pergunta que não quer calar: Quem vai ficar com Mary?