Amanhã será o dia – Crônica de Ronaldo Rodrigues

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Crônica de Ronaldo Rodrigues

Enterro meus dias nesta pequena cidade. A cidade tem duas ruas. Numa rua fica a minha casa. Só ela. Na outra rua, duas casas e a igreja. Tem sempre uma igreja onde se juntam duas casas e algumas pessoas. É a marca de Deus? Não, é a marca dos homens. Eles assinalam seu lugar no mundo, mesmo um lugar como este, de três casas apenas.

Passo meus dias a olhar a rota do sol no céu. Já li que é o deus Apolo quem comanda o carro do sol nesse trajeto. Acho essa história legal. Vou lê-la para meu filho, quando ele vier. Primeiro preciso encontrar uma mulher para acasalar. Para isso, terei que sair da cidade, ir para outras cidades, onde haja mais casas, mais ruas, mais possibilidades de encontro.

Passo os dias a pensar que posso fazer tudo isso que descrevi acima, que posso largar tudo aqui e ir embora. Há o consolo de que o tudo aqui é o outro nome do nada. Não tenho amigos que sintam minha falta. Não tenho também coragem para empreender a retirada. E nem precisaria de tanta coragem. Muitos já arrumaram suas malas e partiram. Muitos não tinham roupas para encher as malas. Partiram com a roupa do corpo, roupa que já quase não existia. Ninguém voltou. Ou se deram bem nas cidades que encontraram ou morreram no caminho.

Amanhã eu levantarei desta velha cadeira para ir embora. Amanhã será um dia de mudança, de tomada de decisão. Amanhã começarei uma nova existência. Amanhã a vida vai começar a sorrir pra mim. Amanhã talvez eu consiga. Amanhã talvez eu desista.

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