Dia da Luta Antimanicomial – Por Janisse Carvalho


Pelo que lutamos é o que dá sentido a nossa vida!

 
Ao me graduar em psicologia em 1996 não tinha muita noção das coisas, e nem acredito que hoje a tenho por completo (risos) – com certeza estou em busca de; mas o fato é que quando estamos no processo de graduação os fenômenos que estudamos não estão muito claros. Assim foi comigo quando iniciei meu estágio num hospital psiquiátrico no Pará. Lá a única certeza que tinha é que aquele tipo de “tratamento” não era legal e alguma coisa precisava ser feita para transformar a realidade da vida das pessoas que viviam literalmente abandonadas, assim como também com relação a suas famílias e com os trabalhadores que lá perdiam sua saúde.

 

Foi então que dei o starte  para encontrar uma solução. Não tardou, conheci o Movimento da Luta Antimanicomial brasileiro e por conseguinte o movimento de reforma psiquiátrica italiana. Aos poucos os princípios que me moviam e movem até hoje nessas lutas, foi tomando conta de mim, de meus pensamentos, de meus juízos de valor. Mexeu com todas as minhas certezas naturalizadas e bem acomodadas em discursos que mais tarde qualifiquei de preconceituosos ou superficiais. Lemas como respeito às diferenças, tolerância, compaixão, diversidade, consciência crítica, humanidade me transformaram. Pra mim, para melhor.
 
Hoje, continuo mergulhando nestes e em outros conceitos, como política, democracia, direitos de cidadania e emancipação humana. E nesse mergulho a realidade se revela e me faz afirmar que aquilo pelo que lutamos nessa vida, dá sentido a ela (vida).

 

O dia 18 de maio é um dia emblemático em que comemoramos o dia da luta antimanicomial, e, como toda data comemorativa, se fazem reflexões sobre temas que ainda permeiam essa questão. Alguns podem se perguntar: “mais pra que uma data pra comemorar esse tipo de coisa? Tem alguma coisa para comemorar nesse campo?” Em primeiro lugar, na minha opinião, uma data comemorativa, como dia das mães, dia da mulher, dia dos pais, etc, serve para da uma pausa no cotidiano de afazeres que cada vez se intensifica; serve para suspender nosso movimento de reprodução e darmos espaço para movimento de produção de ideias, criticas, reflexões, criações de possibilidades para transformar o mundo (Eu, idealista?! Imagina! Rs). Em segundo, temos muito o que comemorar nesse campo sim.
 
A aprovação da Lei 10.216/2001 foi só mais um passo concretizado rumo a uma sociedade mais democrática e fortalecida politicamente. Hoje convivo com pessoas que ainda vivem em situação de sofrimento e que precisam de acompanhamento psicossocial, mas que suas existências ganharam um sentido quando foram chamadas a participar da nossa “maravilhosa” vida em sociedade, sem serem internadas, segregadas e estigmatizadas (este ultimo ainda é um processo em desconstrução). É obvio que ainda tempos desafios enormes para enfrentar, como a falta de assistência, inoperância dos governos, desvio de verbas publicas, privatização da saúde pública, e problemas mais estruturais como desemprego, desigualdade social e exploração capitalista da força de trabalho.

 

Mas mesmo assim, isso não nos impede de dizer que estamos no caminho mais acertado, pelo menos dadas as condicionantes históricas e salvaguardado o fato de que somos sujeitos fazendo a história, transformando vidas, inclusive a nossa!
 
Por uma sociedade sem manicômios!
 
Por uma sociedade que estimule a consciência critica e nos faça mais humanos.
 
Janisse Carvalho, psicóloga e militante Antimanicomial

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