Encontros e Desencontros – Sofia Coppola

 

 
Já no início de ‘Encontros e Desencontros’, vemos o personagem de Bill Murray acordar, no carro que o leva ao hotel, confuso e cansado de viagem, na cacofonia que irá dominar sua relação com a cidade de Tóquio. Luzes brilhantes que piscam em gigantes letreiros luminosos, sons de fliperamas que transbordam dos ambientes e das ruas, pessoas conversando numa língua incompreensível mesmo quando tentam se comunicar em inglês.
 
Trata-se de uma história sobre a angústia. Tanto a angústia de não saber que rumo tomar, como pode-se ver em Charlotte, (Scarlett Johansson),que é uma jovem mulher que acompanha o marido depois de se formar na faculdade, quanto a angústia de uma vida em que não se pode mais mudar, que é a vida de Bob Harris (Bill Murray), ator decadente que viaja para fazer propaganda de whiskey e vive uma situação familiar desgastada com a mulher e filhos.
 
Vemos que o encontro dos dois será inevitável, já que ambos se sentem inadequados ao ambiente que os circunda. Charlotte tenta criar distrações durante o dia, para passar o tempo enquanto seu marido trabalha. Para isso, busca aulas de ikebana, visita templos e passeia sem rumo pela cidade. Já Bob passa o dia cumprindo uma agenda de trabalho que inclui sessões de fotos e entrevistas. Por não se adaptarem ao fuso horário local, o bar do hotel acaba por ser o local de encontro das madrugadas insones.
 
Apesar de ser o segundo longa-metragem de Sofia Coppola, podemos identificar algumas questões que estão presentes em seu longa anterior (Virgens Suicidas) e que, posteriormente, acabam por serem vistas como marca registrada da cineasta. Suas personagens principais geralmente são jovens mulheres passam por algum tipo de crise que muda o rumo de suas vidas ou dos que estão ao seu redor. A beleza das cenas, com uma fotografia que privilegia a captação da luz ambiente (influência dos cineastas da década de 70, principalmente Stanley Kubrick) e também uma predominância de uma paleta de cores frias, com inserção de pontos de luz de cores quentes, cria um clima ‘pálido’ em seus filmes e pode ser visto, principalmente, nas cenas em que Charlotte passeia pelas ruas ou nos bate-papos do bar do hotel.
 
Outro ponto é a onipresença das janelas, em que os personagens olham através delas, como se fosse um grande anteparo que evita o contato direto e os protege do mundo, presente em todos os filmes de Sofia. O filme se desenvolve em pequenos detalhes, em que os planos escolhidos pela diretora nos apresentam o jogo de erotismo entre os personagens. Assim, quando ela escolhe mostrar os pés de Bob Harris depois do alarme de incêndio, percebemos que Charlotte ri, porque percebe o quão inusitado é aquele romance idealizado por ela. Ou mesmo na cena do karaokê, em que eles cantam um para o outro, numa troca de olhares intensa que resume, de certa forma, toda a aventura vivenciada naquela noite.
 
A cena inicial em que é enfocada parte das costas e do quadril de Charlotte, com uma calcinha transparente e um suéter em cores ‘candy’ é uma ode a todas as Vênus pintadas na história da arte, principalmente as de Velázquez e Ingrés que são apresentadas de costas. Charlotte também aparece muitas vezes olhando pela janela de seu quarto de hotel, a cidade lá embaixo, e a câmera focaliza primeiramente seus pés e depois abre o plano. A sedução, tanto do espectador quanto de Bob estão nesses detalhes. Bob, por sua vez, parecerá másculo em poucas cenas. Na beira da piscina, enquanto observa as senhoras numa aula de hidroginástica, a câmera está num plongé que destaca a musculatura definida de seu braço, sem pegar o seu tórax que denunciaria sua idade.

No decorrer do filme, percebemos que o encontro deles é necessário para a continuidade da vida de cada um, já que vão compartilhar suas escolhas e frustrações que os levaram até ali. Vão partilhar o tédio e as incompreensões vividas em conjunto durante um curto período de tempo, que, no entanto, vão significar muito e operarão mudanças em suas vidas. Sofia nos faz refletir sobre um esvaziamento de sentido da vida cotidiana, do distanciamento e a intolerância com o outro das grandes cidades e de como deixamos a vida passar sem interferir muito em seu rumo. E nisso, a cena final é emblemática, fugindo totalmente do que se poderia esperar de um filme que transita entre o drama e a comédia. Sem soluções fáceis, o filme nos deixa ver como mudanças inesperadas podem ser bem-vindas.
 
Cristiana Nogueira

 

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