O Jardim das Flores Humanas

                                                    Por Raoni Holanda
Raoni Holanda, jornalista, blogueiro, compositor e vocalista da banda Godzilla. Além de um grande amigo meu – Foto: Camila Karina.
Era um Jardim feito de pessoas. Eram pessoas feitas de flores. Eram flores que formavam um imenso Jardim. Se você um dia disser que este Jardim existe, cortarão sua língua e arrancarão seus dedos. Se você um dia encontrar este Jardim, ficará louco. Mas se você não acreditar todos os dias na existência do Jardim, seu corpo murchará e sua alma definhará em pó.

Eu, quando ainda era jovem e ainda possuia coração pulsante, encontrei este Jardim e por ele caminhei, sentindo os pequenos corpos apetalados contorcendo-se e quebrando-se sob meus pés, soltando gritos de dor que para mim não passavam de doces sussurros.

Caminhei calmamente, pé ante pé, fumando um charuto novo, derrubando as cinzas recém queimadas sob os pequenos homens feitos de flores (ou flores feitas de homens, mas você já entendeu…). Após meia hora de caminhada pelo Jardim, sentei-me, o sol se punha, alaranjado aos fins da vista: rosa-vermelho-estático-pitoresco. Nos últimos minutos do entardecer as flores humanas tornaram-se rijas, ergueram seus rostos aos céus e cantaram, cada uma das centenas de milhares de flores, uma música diferente e incompreensível, que, misteriosamente, uniam-se e formavam uma única canção, cantada no idioma esquecido.

Confesso que tentei cantar junto às flores do Jardim; compreendi o que sua canção dizia, e você, se estivesse lá, talvez também compreendesse: falava sobre o tempo, só e simplesmente o tempo; mas tornei-me mudo, nenhum som saiu de minha boca.

Dez minutos se passaram e a canção acabou, o sol havia sumido, as flores fecharam-se e dormiram e o jardim ficou pálido e sombrio.

Acendi outro charuto e retornei, pisoteando as flores com ainda mais força. Cheguei até o enorme portão cinza, voltei-me e cuspi, enciumado, nas flores mais próximas. Fui embora. Desejei esquecer o pequeno caminho de terra que me levou até lá, próximo a árvore oca na densa floresta atrás da Vila, exatamente como no mapa de minha avó. Desejei esquecer o enorme portão e o olhar curioso de todas as pequenas flores humanas em seu Jardim esquecido. E esqueci. Esqueço-me cada dia um pouco mais. Mas tornei-me mudo para sempre.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *