Projeto fomenta cultura do marabaixo e batuque, no Amapá

Por Paula Monteiro, do Portal Amazônia

O marabaixo é uma das heranças culturais deixadas pelos escravos que chegavam ao Amapá nos navios negreiros da África. A manifestação reúne dança, música e cortejo que resultam em uma riqueza sonora e visual que pulsa nas veias das comunidades quilombolas do Estado, assim como o batuque. A força da tradição deu origem ao projeto ‘Banzeiro do Brilho-de-Fogo’ que vai dar a oportunidade de pessoas de todas as idades a criar os instrumentos de batuque e marabaixo, como tocá-los e confeccionar adereços relativos à expressão histórica.

O projeto ‘Banzeiro do Brilho-de-Fogo’ será dividido em etapas. A primeira delas corresponde às oficinas que acontecem nos meses de maio e de junho deste ano, aos sábados e domingos, no Centro Cultural Raízes do Bolão no Curiaú (a oito quilômetros da capital). As aulas serão gratuitas e ministradas por músicos e artesãos reconhecidos na cultura popular do segmento. “A ideia é aproximar a população amapaense da sua própria história. As oficinas são abertas para o público em geral, sem distinção. Nossa expectativa é capacitar 150 músicos, além de alcançar outros distritos da capital”, informou o diretor musical do projeto, Alan Gomes.

O instrutor Paulo Bolão, de 53 anos, faz parte do grupo que ensinará os segredos do marabaixo e do batuque nas oficinas. Desde os sete anos, ‘Bolão’ respira a cultura afrodescendente. Apesar do samba ter entrado em sua vida (ele chegou a ser diretor da escola de samba Boêmios do Laguinho), é no marabaixo que se sente mais ‘vivo’. O instrutor também integra o ‘Grupo Raízes do Bolão’, que representou o Amapá na edição 2013 do ‘Sonora Brasil’; projeto nacional que realiza intercâmbio cultural com grupos tradicionais de música popular de diferentes regiões do país. “Devemos lutar por nossa cultura e jamais perder a nossa identidade”, disse.

O jovem Diego Bolão, de 18 anos, é um bom exemplo da força do marabaixo e do batuque que transcende gerações. De aprendiz a professor, ele também será um dos instrutores do ‘Banzeiro do Brilho-de-Fogo’. Ainda pequeno, aos cinco anos de vida, ele já ensaiava os primeiros passos na música e arriscava tocar as ‘caixas de marabaixo’; instrumento de percussão. “Eu tentava copiar meu pai, tios e avô. Hoje, sei tocar todos os instrumentos de percussão e ensino nas escolas e nas comunidades envolvidas com a manifestação”, disse orgulhoso.

Na segunda etapa do projeto, as oficinas acontecerão nos meses de agosto e setembro deste ano, também aos fins de semana. A etapa seguinte corresponde aos ensaios fechados para pôr em prática o aprendizado e praticar nos ensaios abertos, onde os músicos irão percorrer as principais ruas da capital em grandes apresentações. Os ensaios abertos serão, ainda, intercalados com shows musicais de artistas regionais. O percurso e as datas serão definidos pela coordenação do projeto.

Sobre as oficinas

As oficinas estão abertas para quem quiser aprender a tocar e fabricar instrumentos musicais do marabaixo e batuque e fazer artesanato dos acessórios relacionados à manifestação cultural. As oficinas são gratuitas e acontecem aos fins de semana pela manhã. As inscrições serão realizadas no Centro Cultural Raízes do Bolão no Curiaú. Serão ofertadas 150 vagas, ao todo.

Instrumentos ecologicamente corretos

No marabaixo e batuque as músicas são reproduzidas a partir de tambores e outros instrumentos feitos com madeira. Para as oficinas, os instrumentos como ‘caixas de marabaixo’ e tambores, serão confeccionados a partir de caixotes usados para transportar alimentos encontrados normalmente em feiras e supermercados. O alumínio, necessário em alguns equipamentos, será reutilizado a partir de latões de tinta, por exemplo. Quem quiser fazer doações desses materiais, basta ir até o Centro Cultural Raízes do Bolão, no Curiaú.

Como surgiu a ideia do projeto ‘Banzeiro do Brilho de Fogo’?

Inspirado no ‘Arraial da Pavulagem’, no Pará, que leva para as ruas músicas e características regionais, como o boi e o carimbo estilizado, o ‘Banzeiro do Brilho de Fogo’ visa valorizar e divulgar a cultura do marabaixo e do batuque. O Beija-flor-brilho-de-fogo (Topaza pella), pássaro de beleza exuberante encontrado nas florestas, foi escolhido como símbolo do projeto.

Neste primeiro ano do projeto, a Prefeitura de Macapá apoia a atividade, mas a intenção é torná-lo independente nas próximas edições.

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