Sangue – Conto de Ronaldo Rodrigues

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Conto de Ronaldo Rodrigues

O céu amanheceu sangrando. Isto não é uma força de expressão, um floreio literário, um reforço da imaginação. O céu amanheceu sangrando mesmo. A chuva de sangue banhava a cidade. As autoridades competentes estavam perplexas. Pelo menos, era o que parecia. As autoridades competentes estavam sempre fingindo dar importância às calamidades pelas quais passava a população. Esta, sim, estava perplexa mesmo. Afinal, era ela que sofria as consequências da falta de planejamento das autoridades competentes. A população estava a ponto de ser tragada por aquela tempestade de sangue.

Subi ao topo do edifício mais alto, junto com uma pequena multidão. Pequenas multidões ocupavam todos os edifícios. Grandes multidões já haviam sucumbido ao dilúvio de sangue. Eu fazia força para acordar, já que acreditava que aquilo não passava de um pesadelo.

A chuva aumentou mais ainda. Agora não eram mais gotas, eram cortinas de sangue se derramando sobre nós. Fiquei buscando na memória o aviso de que aquilo iria acontecer. Sempre fui muito ligado na previsão do tempo, não por me interessar pelo clima, pancadas de chuva, umidade relativa do ar, essas coisas. Eu era apaixonado pelas moças que apresentavam a previsão do tempo nos telejornais. Vai ver até que alguma moça do tempo anunciou aquele temporal de sangue e eu não prestei atenção, já que estava muito concentrado olhando para sua boca, seus seios, seus quadris.

Agora eu estava ali, com o rio de sangue subindo vertiginosamente, já atingindo a cobertura do edifício. As pessoas ao meu lado gritavam desesperadas. De repente, uma senhora olhou para mim como seu fosse o Salvador. Devia ser por causa dos meus cabelos compridos e minha barba. Ela devia acreditar que eu era Jesus e implorou para que eu fizesse alguma coisa. Muita gente acredita que Jesus é um super-herói e pode resolver qualquer parada. E eu fiz alguma coisa. Me joguei do edifício naquilo que já era um oceano de sangue.

Depois da minha morte, minha alma ficou perambulando pela cidade, talvez tentando entender tudo aquilo. Olhei pela janela e vi uma televisão ligada e uma moça do tempo falando daquela chuva de sangue. Logo em seguida, entrou a imagem de uma autoridade competente dizendo para que ninguém se preocupasse. A previsão da chuva de sangue tinha sido um engano. Não havia motivo para alarme.

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