Sonho?

Conto de Ronaldo Rodrigues

Foi um sonho. Nesse sonho ela amou e se feriu. Feriu seu sábado. Que sangrou até o pôr-do-sol. No sonho estava só, em meio à multidão. Que nem do lado de cá. Acordou com o orvalho antigo, sempre novo, que lavava o rosto da floresta. Percorreu os quilômetros que a separavam do vinhedo. Gritou no desfiladeiro cor-de-rosa de seus desejos ocultos. E se atirou no rio de pedras preciosas recolhidas ao acaso. Mergulhou para dentro de outro sonho, onde amou. Amou e se feriu. E foi num sábado.

O sonho era este, assim desordenado, onde as palavras apareciam nos muros, por sobre a hera, à medida que ela os olhava. E diziam coisas assim: o velho tateia na escuridão e encontra, enfim, a porta. O velho abre a porta e vê a menina nua deitada na cama, olhando o teto. Apesar da visão perturbadora, o velho mantém-se calmo. A menina ali, linda e nua, olha as estrelas pelos buracos do telhado.

O velho fecha a porta e a menina desvia o olhar para ele. O velho se despe e parte lentamente em direção à menina. A menina levanta-se da cama, enquanto o velho se deita. A menina veste a roupa do velho, que fica parado, deitado na cama, olhando as estrelas através dos buracos do telhado. A menina sai, tranca a porta e vai embora. No bar, encontra os amigos e passa a relatar mais uma captura.

Assim era o sonho, onde ela amou e se feriu. Sem saber que era sábado.

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