Vem aí o São Joaquim do Curiaú – Por Fernando Canto

MARABAIXO CURIAU 1220

Por Fernando Canto

O Amapá é pródigo em festas de santos. Só em Mazagão o ciclo santoral abrange 17. Mas é a partir de julho que as mais tradicionais ocorrem, à exceção do Marabaixo que é vinculado à festa católica de Pentecostes, 50 dias depois da Páscoa. Entre elas está a bela e pouco difundida festa de São Joaquim do Curiaú.

Localizado na zona norte de Macapá, o Curiaú se destaca pela beleza cênica de seus campos e lagos e pela tradição mantida por seus habitantes. Seus valores culturais até hoje permanecem e são diariamente praticados pelos mais velhos através da medicina caseira e do recontar dos mitos e lendas que nasceram e se amalgamaram com a religiosidade de origem católica. Justamente aí é que os rituais se estabelecem bem originais, talvez como no passado, porque os agentes sacramentais dos ritos são pessoas da própria comunidade, respeitadíssimas devido à idade e a sabedoria que possuem.

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Nesse contexto, a festividade de São Joaquim emerge como a mais importante de todas as outras do lugar, pois ele é o santo padroeiro da comunidade. Sua realização se dá nos meados de agosto, quando os moradores se mobilizam para externar sua devoção por meio de uma programação que traz em si um sistema comum das festas populares da Amazônia, com procissões, missas, festeiros previamente escolhidos e bailes dançantes.

O diferencial de possuir as ladainhas cantadas em latim, que lembram o antigo Cantochão, um tipo de música “essencialmente monocórdica e com ritmo orientado pela articulação do texto”, no dizer de Mário de Andrade, confere às comemorações em honra a São Joaquim um espetáculo à parte, pois emerge de tempos imemoriais e proporciona a valorização dos saberes ancestrais. A festa traz ainda as Folias cantadas em louvor ao santo pelo grupo de foliões que as acompanham com violas, cavaquinhos, sinos e uma percussão caracterizada por instrumentos fabricados pelos próprios músicos.

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Depois dessas demonstrações de fé é que começam os preparativos para o Batuque, com o esquentar do couro dos pandeiros e dos tambores, também chamados “macacos”, porque são feitos do tronco escavado da árvore chamada macacaueiro. Sentados sobre os tambores, os ritmistas iniciam as músicas que são cantadas por um solista de voz firme e afinada. Os dançarinos respondem em coro e circulam o grupo de músicos no centro do salão. Dançam arrastando os pés, evoluindo sobre si mesmos, num percurso contrário ao do ponteiro do relógio, como se fizessem uma viagem cantando contra o tempo e lutando pela liberdade de seus antepassados.

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Nos dias de festa o Batuque rompe silêncios e atravessa a noite, enquanto os rostos suados, as gargantas roucas e as mãos quase sangrando pelo amassar e pelo repenicar dos tambores, parecem não querer parar. Nesse momento, junto ao sol raiando, possivelmente esteja contida a força e o amor dos que fazem o Curiaú ser um lugar de beleza e de tradição das coisas amapaenses.

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