13 anos da morte do meu pai

                                                                                               Por Elton Tavares

            Painel de fotos do meu pai – Acervo familiar – Clique na imagem para melhor vê-la melhor.
Há 13 anos, em uma manhã de segunda-feira cinzenta, no Hospital São Camilo, morreu José Penha Tavares, o meu pai. O meu herói. Filho de João Espíndola Tavares e Perolina Penha Tavares. Nasceu no município de Mazagão, de onde veio o casal. Era o primogênito de cinco filhos. Ele começou a trabalhar aos 14 anos, aos 20 foi morar em Belém (PA), sempre conseguiu administrar diversão e responsa, com alguns vacilos é claro, mas quem não os comete? Na verdade, papai nunca se prendeu ao dinheiro, nunca foi ambicioso. Mas isso não diminui o grande homem que ele foi.

Em 1975, casou-se com minha mãe, Maria Lúcia, com quem teve dois filhos, eu e Emerson. Costumava me chamar de “Zôque” ou “Zokê”, não sei ao certo como se escreve, mas a pronúncia era esta (algo relacionado à um comercial de motos Suzuki, que eu, quando pequeno, achava engraçado).

O velho não foi um marido perfeito, era boêmio como eu e um tanto “namorador”, motivo que o levou se divorciar de minha mãe, em 1992. Li no jornal da Companhia de Eletricidade do Amapá (CEA), onde ele trabalhava, após o seu falecimento: “Feliz, brincalhão, sempre educado e querido por todos. Tinha a pavulagem de só querer menina bonita a seu lado, seja em casa ou entre amigos, mas quem se atreve à culpá-lo por este extremo defeito?”

Zé Penha pode não ter sido um marido exemplar, mas certamente foi um grande pai. Cansou de fazer “das tripas coração” para os filhos terem uma boa educação, as melhores roupas ou os bons brinquedos. Quando nos tornamos adolescentes, nos mostrou que deveríamos viver o lado bom da vida, sacar o melhor das pessoas, dizia que todos temos defeitos e virtudes, mas que devíamos aprender a dividir tais peculiaridades.

Penha não gostava de se envolver em política, achava o jogo sujo demais. Ele gostava mesmo era de viver, viver tudo ao mesmo tempo. Família, amigos, noitadas, era um “bom vivant” nato. Tinha amigos em todas as classes sociais, a pessoa poderia ser rica ou pobre, inteligente ou idiota, branca ou preto, mulher ou homem, hétero ou homo, não importava, ele tratava os outros com respeito. Era um cara extraordinário.

Esportista, foi goleiro amador dos clubes São José e Ypiranga, dos times do Banco da Amazônia (BASA) e Companhia de eletricidade do Amapá (CEA) e tantos outros, das incontáveis peladas.

Atravessamos tempestades juntos, o divórcio, as mortes do Itacimar Simões, seu melhor amigo e do seu pai, João Espíndola, com muito apoio mútuo. Sempre com uma relação de amizade extrema, ele nos ensinou a valorizar a vida, vivê-la intensamente sem nos preocuparmos com coisas menores a não ser com as pessoas que amamos. Sempre amigo, presente, amoroso, atencioso e brincalhão.

Não é correto rotular ou condenar a conduta e o estilo de vida das pessoas, cada um é único em sua essência. Papai tinha uma maneira de viver contrária às proibições e regras que regem o convívio social, mas conseguia o equilíbrio, mantinha uma postura de respeito e solidariedade para com os demais. Uma pessoa diferenciada em meio a uma sociedade repleta de ganância, ódio e frustração.

Certa vez, em uma festa, após eu sair na porrada com um cara, um homem aparentando uns 40 anos, disse-me : “Você é filho do Penha né? E eu: “Sim”. Ele : “Então faça como seu pai, ele sabia entrar e sair de qualquer local”. Verdade, eu era chegado numa porrada, mas meu velho era da paz, era bom, um diplomata, o cara que não tinha desafetos, meu herói imperfeito, aquele cara era foda! Com ele, aprendi muito sobre cultura, comportamento, filosofia de vida, aprendi que para ser bom, não era necessário ser religioso. “Se você não pode ajudar, não atrapalhe, não faço mal a ninguém” – Dizia ele.

Acredito que quem vive rápido e intensamente, acaba indo embora cedo. Ele não costumava cuidar muito da própria saúde, o câncer de pulmão (papai era fumante desde os 13 anos) o matou, em poucos meses, da descoberta ao “embarque para Cayenne ”, como ele mesmo brincava.

Serei eternamente grato a todos que ajudaram de alguma forma naqueles dias difíceis, com destaque para Clara Santos, sua namorada, que segurou a onda até o fim. E, é claro, minha família. Sempre que a saudade bate mais forte, eu converso com ele. As pessoas morrem, mas elas nunca morrem em nossos corações.

José Penha Tavares foi muito mais de que pai, foi um grande amigo. Nosso amor vem das vidas passadas, atravessou esta e com certeza a próxima. Ele costumava dizer: “Elton, se eu lhe aviso sobre os perigos da vida, é porque já aconteceu comigo ou vi acontecer com alguém”. A ele, dedico este texto, minha profunda gratidão e amor eterno.

Obs: Texto republicado e assim será enquanto eu sentir saudade.
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