Bullying – tamanho não é documento…

Por Ademir Pedrosa

Havia na rua onde eu morava um molecão que aterrorizava o bairro inteiro. Aliás, o aumentativo do nome cabia-lhe como uma luva, o moleque era o cão em forma de gente. Não havia um que já não tivesse levado uma surra dele. Menos eu. Eu era o mais mirrado da turma, e todas as vezes que ele insurgia contra a gente, eu me borrava de medo, mas sempre escapava ileso, muito mais por sorte do que por habilidade. 

Certo dia, eu brincava na calçada da rua quando surgiu do nada o valentão. E não ficava um, mas eventualmente ele conseguia agarrar um pobre coitado. Espavorido, eu corria que nem o papa-léguas, mas desta vez a sorte não estava do meu lado. O chinelo me escapou do pé, e voltei pra pegá-lo, quando ele me alcançou primeiro. 

Ele me agarrou pelas axilas e me ergueu no alto, de frente do seu rosto. Chacoalhou-me feito um boneco desengonçado. Como eu estava gripado, tossi; e soltei um espirro impertinente, que lhe cuspi o rosto. Incontinenti, eu aproveitei a deixa para cuspir-lhe outra vez, dessa vez dissimulado, na manha. 

Ele me pôs de volta ao chão, e disse: olha só, seu pirralho, o que tu fizeste! Roguei-lhe perdão. Ele disse: seu merdinha, tu não aguenta um cascudo, tenho pena de ti. Pensei que fosse me surrar, mas teve piedade. De fato, eu não aguentaria sequer um beliscão.

Ele se despiu da camisa para limpar a meleca do rosto – foi forçado usar da própria roupa, pois eu trajava somente um simples calção de chita, o que evidentemente impedia de servir-lhe de toalha. Quando ficou nu da cintura pra cima, pude verificar que o moleque era mesmo forte como um pitbull. 

Seu bíceps avantajado era como de um atleta adulto. Aproximei-me, e perguntei se eu podia tocá-lo, ele assentiu com a cabeça, e eu dei três pancadas com as costas da mão em punho em seu tórax. Uma muralha, disse-lhe. Ele espraiou um sorriso incoercível. 

Daí passou a se exibir, e exultava da rigidez dos músculos. Ele saltitava, socava o ar numa sequência frenética de golpes. Sacudia os ombros, e balançava a cabeça, como um pêndulo; e erguia o punho, vitorioso. Jactava-se, como se estivesse num ringue, e acabado de derrubar um pugilista imaginário. 

Resolvi desafiá-lo. Está vendo aquele tronco? Duvido se tens coragem de dar uma bicuda nele. Era um tronco chamuscado que jazia na calçada. Ele não contou história, desferiu um chute certeiro que o pé, descalço, foi alojar-se no oco do tronco. Foi um sacrifício pra tirá-lo dali, e quando conseguiu se desvencilhar, o pé pingava sangue. Ao se recompor, disse: isso só dói em mariquinhas… 

Era chegada a hora do golpe de misericórdia. E eu desdenhava da força dele, dizia que sua valentia era igual de qualquer um. Então eu desafiei. Queria ver se ele fazia que nem o “Cabeça de Aço”, lutador de telequete da tevê que derrotava seus adversários usando só a cabeça. Cada cabeçada era um nocaute. 

Havia ali um resto de muro, ruína de um casarão abandonado. Desafiei se era capaz de dar uma cabeçada no muro. Mexi com seu brio. Provoquei-o: du-vi-de-o-dó! No mesmo instante ele tomou impulso, soltou um berro assustador, e deu uma brutal cabeçada no muro. Ouviu-se um barulho surdo e oco. Parte do muro tombou para trás, e ele sucumbiu como um fardo insustentável, desfalecido. Soergueu-se cambaleante, mas já estava nocauteado de pé. Nascera-lhe na testa um galo deste tamanho… 

Quando li O Barril de Amontillado, de Allan Poe, eu compreendi que não vale nada de nadas uma vingança se o vingador não fizer com que aquele que o ofendeu compreenda que é ele quem se vinga. Daí eu tive o capricho de mostrar que era eu quem tinha lhe abatido, levado à lona – posto que eu não tivesse lhe tocado um dedo sequer.

Cheguei bem juntinho dele, e disse sussurrando: eu te quebrei o pé e a cabeça, e ainda te cuspi a cara; não te metes comigo que tu não aguentas. E saí dali sem olhar para trás, cheio de bossalidade e feliz à beça com minha traquinagem…

Postscriptum – Se você não tem a destreza de usar os dentes e as unhas, experimenta usar os neurônios. É tiro e queda, especialmente se o tico e o teco do adversário pensa que é o caralho de asa.

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