O ADVÉRBIO É UM TERMO ACESSÓRIO! (crônica de Ricardo Pereira)

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Não tenho medo da dor. Não tenho medo do sofrimento. Já tive. Hoje aprendi a encará-los de outra maneira. Aprendi que tudo tem começo, e, se tem começo, vai ter fim. O problema, de fato, consiste em saber administrar o advérbio de tempo. Administrar a ansiedade, a própria dor e a incomensurável pena que sentimos de nós mesmos.

Isso não vem de hoje. O homem sempre teve dor, sempre sofreu, e fez questão de demonstrar isso falando, cantando, chorando, brigando, gritando, enfim… desabafando todo seu sentimento. Basta ler as cantigas medievais para se dar conta disso. Minha professora de literatura portuguesa, na universidade, disse certa vez uma coisa interessante sobre o tema dessas cantigas: “Observem que os autores dessas obras não cantam dores que fazem parte apenas do universo do homem medieval, mas do universo do próprio homem, incluindo-se aí as dores do homem contemporâneo”.images

Ela sabia o que dizia. As dores são as mesmas, as causas também. O que muda são os atores, o ambiente e… o advérbio de tempo! Fora isso é tudo igual. O homem em sua essência não muda.

Por seu caráter egocêntrico, o homem tende a voltar-se sempre para o próprio umbigo e minimizar a dor alheia. A sua sempre é maior, mais dorida. É compreensível então que a autocomiseração aflore nos momentos em que sofremos. Às vezes ela – a autocomiseração – é justificável. Eu até a entendo, entretanto, não gosto dela. Parece-me uma fraqueza ridícula e uma tentativa de chamar a atenção dos outros para si (principalmente do pivô da dor). Digo isso sem o orgulho besta de quem se diz imune à dor. Eu não lhe sou imune, eu a sinto, mas não a temo. Antes, convivo com ela. Deixo-a ter o seu momento para que ela saiba que eu também terei images (2)o meu, quando a abandonarei e novamente iniciarei minha busca. Talvez por novas dores, não sei. Mas tudo na vida é ciclo: há o início, o meio e o fim.

Temor, desconfiança e medo são sentimentos próprios do homem. Não devemos fugir deles, e nem enfrentá-los, mas compreendê-los, aceitá-los. Talvez assim entendamos melhor que ele, o medo, e ela, a dor, não são tão maus assim. São naturais, como diria Alberto Caeiro (muito embora ele não achasse tão natural pensar).images (4)

Uma frase – não sei se é mesmo minha, ou se ouvi nalgum lugar, mas que me acompanha desde muito tempo – sintetiza: “Não tenha medo de sentir medo”. Costumo lembrá-la quando inicio um relacionamento. Nessa hora, é engraçado, a maioria das pessoas se questiona: “Será que vai durar?”, “E se eu sofrer?”, “Acho que não vai dar certo!”. Eu não me questiono. Às favas com o advérbio, tanto o temporal quanto o condicional! Minha preocupação maior é em “ler” a pessoa que está comigo, aprender com ela, absorver e ensinar lições. Isso é o que me interessa. Isso é o que me motiva conhecer pessoas, envolver-me com elas. Por fim, parafraseando o “Boca do Inferno” eu digo: – Isso é o que é. O que importa. Quem diz outra coisa é besta!

Ricardo Pereira (professor e líder da banda Manoblues), 30/05/99.

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