O Infiltrado

Alô, alô, recado rápido: tenho passado os últimos dias infiltrado em rodas femininas tentando entender as mulheres. Rá, rá, dirão vocês, com escárnio. Desista, é impossível entender as mulheres. Para um homem, pelo menos. Os últimos 20 anos passados junto a uma belíssima e especial – única pra mim – representante da espécie não me ajudaram muito. Posso dizer que continuo na estaca zero. Ora, que bobagem, todo homem razoavelmente instruído e com um mínimo de sensibilidade e bom senso sabe que mulheres não podem ser compreendidas, apenas amadas.

Ok, já entendi, e tenho a frase como lema há anos. Mas o que isso significa, exatamente? Não sei. Tenho escutado mulheres conversando. Como os homens quando estão juntos, elas só falam bobagens entre si. Bobagens da mais alta e reveladora importância, diga-se de passagem. Numa das conversas – regada a vinho branco, mulheres adoram vinho branco, desde que bem seco – percebi que as mulheres, mesmo quando mentem, estão dizendo a verdade. Sério. É uma das coisas que aprendi nos últimos dias, infiltrado em rodas femininas.

Entendi também que elas adoram contradições. Por exemplo, uma delas, quando soube que estava sendo traída pelo marido, idealizou a punição e o perdão em escalas avassaladoras e indivisíveis. Era uma estratégia para obter o marido de volta: a punição mais severa desaguou no mais olímpico dos perdões. Estão casados novamente, depois de um período em que ele, mandado pra fora de casa, comeu o pão que o diabo (ou seria a diaba?) amassou.

Outras contradições: a mulher mais resignada é a que fomenta a mais venenosa vingança. Agora, que estou entre elas, parece fácil entender isso. Outra descoberta: mulheres que traem abominam o corno manso. Essa me surpreendeu. Foi a revelação de uma delas, já na segunda garrafa do Chablis, revoltada com o marido, a quem traía, por tê-la recebido com flores em casa, quando ela voltava de um encontro com o amante. E eu que pensava que o corno manso oferecia à mulher que o trai o conforto da anuência e da compreensão. Como a dizer: “olha, eu não sou como os outros homens, machistas e incompreensivos, que não toleram uma traição. Eu te entendo, vai nessa, estou numa boa, vou fingir que nem estou sacando nada…”.

Ah, pobre do corno manso. Isso não quer dizer que elas, as mulheres, ao traírem, esperam levar porradas na cara. Não, nada disso. Nunca! Elas querem uma reação que contenha firmeza, indignação, compreensão, cavalheirismo e, acima de tudo – sempre – atenção. Uma dica final – e essa me foi revelada por uma mulher muito jovem, mas que parece ter uns 80 anos de experiência de vida: ao se interessar por uma mulher o pretendente não deve demonstrar interesse excessivo – sem porém deixar de demonstrá-lo – pois as mulheres, lembrem-se, adoram contradições. Preciso desligar agora, retomo contato assim que possível. Difícil é lidar com a ressaca do vinho branco, no dia seguinte. Abraços do Infiltrado.

Tony Bellotto

 

Fonte: Farofa

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