QUEM É BOB DYLAN?

Por Marcelo Nova
24 de maio e Bob Dylan faz setenta anos. Como é possível?
Conheci Bob quando ouvi Like a Rolling Stone no rádio da casa da minha tia Dayse em 1965. Ele tinha vinte e quatro anos e eu quatorze. De 1965 até 2011 numa velocidade que nem Michael Schumacher nas suas melhores voltas conseguiria superar, encontro-me fuçando papéis antigos e logo me deparo com um texto que escrevi sobre Dylan em 1997 e penso que continua válido:
Fazendo o check-out às 4:30 da manhã, caído num sofá de napa num lobby de hotel vagabundo, numa cidade no meio do nada, vejo Natalie, um pequeno anjo magro, aproximadamente 14 anos, rosto talhado e os olhos incisivos, que ao invés de dormir na presumível segurança e conforto do seu lar, mente para os pais a fim de estar na companhia de integrantes de uma banda de rock and roll. Ao ver meu CD Infidelsnas minhas mãos, ela dispara: “Marceleza, quem é Bob Dylan?”. Imediatamente alguém grita: “Todos pro ônibus!”. E eu tenho tempo apenas para dizer: “É o melhor, o melhor de todos…”. Já esparramado na poltrona, ligo o walkman e coloco meus óculos escuros para poder ver melhor o nascer-do-sol. E quando ele surge terrível, cego e indiferente como somente os deuses sabem ser, a pergunta ainda reverbera e se multiplica nos meus ouvidos. Quem é Bob Dylan? O que ele fez? O que estará fazendo agora?
Penso na enorme dimensão do seu trabalho, assim como na inequívoca qualidade (a quantidade não seria tão significativa, se não fosse impregnada de tanto talento).
Centenas de livros já foram escritos sobre ele, que também escreveu o seu Tarantula, aos 23 anos. Fez filmes, desenhos e pinturas, alguns exibidos em público, outros ainda não. Mas acima de tudo estão as apresentações ao vivo. Dylan e seu “torrencial fluxo de trabalho” (a expressão é de Roland Penrose, referindo-se a Picasso) têm através dos anos deixado o público impactado e atônito. Lembro-me de duas apresentações realizadas em agosto de 1991 no Palace, em São Paulo, quando ele foi massacrado por críticos que não conseguiam identificar exatamente quais canções ele desfiava, alterando melodias e cuspindo palavras. Agindo assim, Dylan tirou-lhes o ponto de referência e expôs-lhes verdadeiras, porém incomuns, facetas da arte.
A música, o ritmo e o drama que envolvem uma performance se desenvolvem num momento específico no tempo. É apresentada do ponto de vista do artista, para ser compartilhada no mesmo instante em que é criada. Mas os críticos, acostumados com artistas menores cuja única preocupação é agradar a qualquer preço – mesmo que isso signifique padronizar e banalizar seus próprios trabalhos – não souberam como classificar Bob Dylan. Imersos há muito tempo no oceano da mediocridade, esqueceram que a arte que não destrói o convencional, que não contesta o que a maioria acredita e não nos sugere outras hipóteses de vida, é apenas melodrama ou mero exercício de boas intenções. Sem tentar estabelecer contato com o público que não fosse através da reinterpretação da sua própria obra, Dylan não dirigiu sua palavra nos intervalos das canções, nem esboçou estímulos físicos, tais como gestos ou mesmo palmas para conseguir a tão almejada interação artista-platéia. No final da apresentação, disse apenas: “Merci, merci…”. E as luzes se apagaram enquanto ele voltava para o escuro dos bastidores.
Quem é esse Man In TheLong Black Coat, garoto que fugiu de casa aos 18 anos Like a Rolling Stone? O primeiro punk, aquele que inseriu não apenas vigor poético, mas densidade emocional e guitarras elétricas na folkmusic dos anos 60.
O pacifista inquisidor, cujas respostas ainda hoje são sopradas pelo vento. O soldado que desejou a morte dos MastersOfWar. O cristão que bateu na porta do céu e foi perdoado por Jesus num SlowTrainComing. O errante HandyDandy ainda hoje em busca de dignidade sob o sol vermelho.
O mesmo sol que queimava meu rosto através da janela do ônibus e que me trazia a lembrança da pergunta da pequena Natalie. Quem é Bob Dylan? Como posso lhe dar uma resposta exata, Natalie, se ele nem mesmo se chama Bob Dylan… Nesse momento, uma canção chamada “I and I” vem até meus ouvidos, via walkman: “Eu já fiz sapatos para todos, inclusive para você e no entanto continuo descalço”.
Pedras que rolam não criam limo. Mr. Bob Dylan 70 anos hoje. Que ele continue rolando por aí.

E viva o Rock And Roll!!
Compartilhe isso!

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

*