Super-homem – Conto de Luiz Jorge Ferreira

Conto de Luiz Jorge Ferreira

Eu vi o Super-Homem. Estive mesmo com ele em Macapá, quando por ocasião da fundação da Cooperativa dos Catadores de Material Reciclável. Cooperativa esta que incluía catadores de jornal, papelão, garrafas de vidro, garrafas de plástico, kryptonitas, latinhas de refrigerantes, cervejas e afins.

Estava muito calor na sede da cooperativa – CMRCA – quando ele chegou. Confesso que refrescou o local. Não que o Super-Homem fosse gay. Isto, nem pensar! Até por que alguns meses depois dos cinco dias que ele permaneceu em Macapá, nasceram na cidade muitas crianças, e entre elas muitas que costumam amarrar capas vermelhas no pescoço e sair correndo pelas ruas e quintais, querendo voar. Parece instinto, DNA, coisa que o valha.

D.Faustina mesmo, diz ter visto seu neto menorzinho flutuar na laje em direção a uma pipa com sucesso. E sua filha, por acaso, era arrumadeira de hotel.

Mas voltando à entrada do Super-Homem no recinto da CMRCA: -Sou testemunha de que refrescou o local, e não foi só isto, ele perfumou. Depois soube que viera sobrevoando os Alpes, e trouxera no corpo a fragrância de uma rara flor que só nasce e cresce por lá, a mais de 2.600 metros, segundo explicação dada pelo Alípio Banhos, responsável pela agência de venda de passagens da única empresa aérea na cidade, e que entendia de vôos.

A chegada do Super-Homem pousando, até melhor dizendo… brecando, pois eu mesmo vi quando ele entrou, com um ruído semelhante ao frear súbito de carros em grande velocidade, cantando os pneus, quero dizer… sapatos, que eu mesmo vi, tinham os bicos congelados e a região do calcanhar em brasa. E como mais tarde explicou o Alípio Banhos…artificialmente ele invertera a direção das correntes de ar quente e frio para provocar a desaceleração, como um Ciclone, o que provocou o esfriamento do local.

O que conta é que o Super-Homem cortou a fita inaugural. Cortou não é bem o termo… arrebentou-a. E não fez discurso. Saiu logo depois, com o braço no ombro do governador que foi com ele até o hotel, andando, pois a autoridade recusara-se terminantemente a voar com o ilustre convidado.

O homem de aço pareceu-me bem disposto. Confesso que, como médico do hospital local, torci um pouco para que adoecesse, resfriasse, coisa leve, para que eu pudesse examina-lo, ausculta-lo, realizar um eletrocardiograma, nunca pensando em Raio-X. Receitar-lhe coisas caseiras como um chá de alho e trezentas mg de aspirina.

Jamais pensaria em mandar aplicar-lhe uma Benzetacyl. Que agulha, meu Deus, que agulha furaria seus músculos de aço?

De forma que soube mais tarde que nem banheiro ele havia usado. Comera um líquido feito com mel e jabuticabas. Deitara de uniforme mesmo. No parapeito da janela do apartamento do décimo quinto andar do hotel em que estava e recebeu muitas descargas.

Era uma das noites em que coincidentemente desabou uma destas rápidas tempestades tropicais.

E nem seu Souza. Hoje (09 de outubro de 2004), eu soube que ele morreu. Será que resfriou mesmo como eu temia, ao mudar tão rapidamente de uma temperatura de um dia frio de inverno, na cidade de Nova York, para o calor escaldante de Macapá?

Não me perdoo por não ter ido até o hotel com a minha maleta de primeiros socorros, tomado o elevador e, ignorando toda a minha timidez, chegar até a frente do apartamento em que ele estava hospedado, ter batido palmas suavemente e chamado: Senhor Super-Homem… Senhor Super-Homem… com certeza ele, ouvindo muito vem, viria até a porta aonde calmamente eu aguardava que ele abrisse, mas por certo já teria me visto com seu olhar de Raio-X. Ao abri-la eu me apresentaria um pouco gago pela emoção e atordoado pelo embaraço:

“Boa noite, Mister Senhor Super-Homem… Sou seu fã e sou o médico da cidade. Vim saber como o senhor está passando. O senhor está bem? O senhor precisa de meus cuidados? Está febril. Está resfriado. Posso medir-lhe a pressão? Posso contar-lhe o pulso? Está pálido. Está tonto. Está Zorro… Oh, oh… Desculpe. Embaralhei os heróis.

*Livro de Contos Antena de Arame – Rumo Editorial (II Edição) – 2016

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