Yes, queremos bananas (uma bicuda na cara do racismo)

Por Gustavo Poli 

Daqui a 45 dias, a Copa do Mundo vai começar no Brasil. Brasil é aquele país da América Latina onde os estádios demoram a ficar prontos, em que quase tudo fica mais caro do que o previsto, onde lutamos contra a corrupção há 500 anos… mas em que ninguém é branco. Ou não deveria ser. Ninguém é preto – ou não deveria ser. Ninguém é azul, amarelo, verde ou vermelho. Temos todas as cores. Ou deveríamos ter.

E hoje… todos nos chamamos Daniel Alves. Todos temos pele mulata, olhos claros e cabelo pixaim. Todos nascemos na Bahia – com sangue negro, branco e índio a correr pelas veias. E todos comemos a banana metafórica lançada no chão.

Essa banana é o Brasil viajando no tempo e no espaço. Comer o racismo e metaforicamente descomê-lo com a melhor das ironias – é esse o Brasil moleque, o Brasil bailarino – capaz de driblar num espaço de guardanapo, de sambar na cara do velho mundo, capaz de superfaturar estádios, metrôs e refinarias, de produzir mensalões e mensalinhos… mas incapaz… ou quase sempre incapaz de aceitar a intolerância.

A intolerância nos agride mais que a corrupção. No Brasil se fala português com açúcar – escreveu Eça de Queiroz. Somos dóceis, somos ternos – e preferimos ser. Nossos pecados são disfarçados – e é bom que assim seja. Desprezamos o alcagüete mais do que o criminoso. Precisamos de leis para impedir que existam elevadores sociais e de serviço – mas não admitimos a humilhação pública. Não admitimos o lançamento de banana.

Podemos ser a PM subindo o morro, podemos ser o tráfico atirando pra baixo… mas, quase sempre, somos o beijinho no ombro, a mão que afaga aqui e afana ali – mas não a que apedreja.

Vamos comer essa banana como Oswald de Andrade. Comê-la, digeri-la e transformá-la. Hoje somos todos macacos. Eu, você, o Neymar, o político, a presidente, o ministro, o empresário, o trabalhador, o senhor, a senhora, o presidiário, o ator, o ladrão, o policial, o bombeiro, o deputado de direita, o vereador de esquerda, o padeiro, o gari, o motorista, o preto, o branco, o azul, o cor-de-rosa.

Somos todos hélios de la peña – temos olhos azuis e pele negra. Somos todos marcos palmeira, mestiços de olhos castanhos e cabelo enrolado Somos todos preta gil, tais araújo, lázaro ramos. Somos todos giovanna antonelli, fernandas lima, tammy gretchen. A pele que nos habita ou a pele que habitamos não tem paradoxo.

Yes, Braguinha, nós temos banana. E hoje, o que importa é pegar essa banana no chão. E comê-la em vez de lançá-la de volta. É nesse pequeno momento em que dá pra acreditar naquela musiquinha de arquibancada – sou brasileiro… com muito orgulho… com muito amor. Porque é o humor que nos separa – é a alegria que nos permite encarar tudo-isso-que-aí-sempre-esteve. 
Daqui a 45 dias, o mundo vem ao Brasil – que por causa de um monte de pretos e brancos e índios e mestiços chegou a 2014 como o país do futebol. Do futebol, do samba, da caipirinha, de praias lindíssimas e políticos nem tão belos… da corrupção, dos conchavos e doleiros e KKKKs.

E é esse nosso dilema. Com muito orgulho, com muito amor, o brasileiro segue sendo o narciso às avessas, capaz de cuspir em sua própria imagem com propriedade e de se entender com outro brasileiro em apenas uma frase:

– Brasil, né?

É – Brasil… terra onde em se plantando… tudo dá – menos intolerância. De todas as vilezas do mundo, o preconceito é aquele tipo de inimigo fácil de identificar e difícil de derrotar. O rei mais conhecido deste mundo é preto, atende por Édson e nasceu em Minas Gerais. É no altar dele que deposito meu voto e digo aos lançadores de banana:

Mandem mais.

Mandem mais banana.

Mandem que a gente mata no peito e transforma em bananaço. Numa bem-humorada e coletiva banana para todos aqueles que acreditam nessa bobagem de que cor da pele faz diferença.

Em suma – esta república federativa das bananas orgulhosamente agradece. E orgulhosamente reconhece: sim – essa terra tem mil problemas. Mas alguma coisa – alguma coisa a gente tem pra ensinar pra vocês – e não é futebol.

Muito obrigado pela lembrança. Bem-vindos ao Brasil.


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