A decisão do voto (textaço de Fernando Canto)

Por Fernando Canto


Ao apertar o último botão na urna eletrônica o eleitor deverá ter passado por um processo de escolha eleitoral iniciado há muito tempo. Falo aqui do eleitor consciente, aquele que juntou aspectos pontuais nesse caminho, após seus sentidos absorverem a conjuntura atual, o processo eleitoral e as campanhas, com suas propagandas, informações, atividades políticas e conversas descontraídas no seu círculo social. 

Mas nesse meio termo outras situações encontradas na realidade política se inserem na vida social, desde as mais torpes propostas de compra de votos às projeções de candidatos “heróis” fabricados pela mídia; desde as emoções causadas pelas promessas inevitáveis à busca de uma linha que conduza a um plano de governo sério, não-descartável enquanto projeto.

Por ser o eleitor perfeitamente influenciado pelo meio que vive, as atitudes que determinam suas escolhas são psicológicas, pois produzem situações que o levam a ter suas preferências, talvez não sem antes gerar em si algum tipo de conflito, dadas as opções do voto. No caso amapaense esse aspecto se exacerba devido a população ser pequena, a proximidade dos candidatos com a família, o meio e as relações sociais.

Diferentemente do Brasil, onde a maioria dos eleitores costuma definir seu voto a partir da imagem que têm do candidato, na América o elemento central e causador decisivo do voto é a identificação partidária, “traduzida como compromisso forte e que influencia a maneira de os eleitores olharem o mundo político”. Segundo a famosa Escola de Michigan (Universidade de Michigan, EUA), “a identificação partidária seria uma atitude complexa pela qual o eleitor se considera ligado a um partido, simpatizando com ele e disposto a colaborar com o voto”. 

O brasileiro, de acordo com Marcelo Galli, define o voto na dimensão do imaginário, ou seja, naquele que corresponde as suas expectativas, daquele que acha que não o decepcionará, partindo do pensamento “dos males, o menor”. Mas a avaliação geral dos políticos em nosso país mostra que o eleitor os considera como embromadores, oportunistas, ambiciosos, espertos, despreocupados com o bem comum, e corruptos. O político ideal teria como característica positiva, por ordem de importância, o seguinte: a honestidade, o trabalhar pelo povo e a competência. A ideologia do candidato, nessa avaliação, é minimamente citada.


Por ser a imagem um fator fundamental para a escolha do voto, os marqueteiros não hesitam em projetar candidaturas com imagens irreais dos indivíduos. E tratam de “vendê-las” como salvadores da pátria que resolverão todos os problemas do Estado e outros mais, pois há quem compre a imagem como um produto de consumo.

Não acho impressionante a avaliação feita por pesquisadores e cientistas políticos sobre o eleitor e o político ideal, mas respeito. E creio que os tempos e os costumes se encarregarão de mudar para melhor a face e a personalidade daqueles que ambicionam servir o povo, governando-o. A ideologia, que há pouco tempo penetrava como água nos meandros da política brasileira é pouco citada, e isso se deve certamente às decepções que o eleitor vem tendo seguidamente junto aos que colocou no poder. No entanto a cada eleição realizada o perfil do eleitor parece melhorar. O Trabalho árduo dos tribunais eleitorais em fazer cumprir a lei vem inibindo as artimanhas e toda sorte de abusos e coações de candidatos que fazem do eleitor apenas um indivíduo anônimo e não um cidadão que com o peso de seu voto pode mudar o rumo da sua vida, do seu Estado e de seu país.

(*) Publicado em 03.10.2010, no Jornal do Dia

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