Johnny e eu – Crônica de Lulih Rojanski

 

Crônica de Lulih Rojanski

Cansei da vida ao lado de Johnny Depp. Estou decidida a abandoná-lo. Sentirei falta de passar seus ternos risca de giz, de escovar seus chapéus, de lhe dar banho quando acorda triste porque Tim Burton não telefona há dias. Terei saudade de quando me arrebata em pleno canteiro de samambaias, implorando que o chame de Don Juan de Marco. Mas não posso mais suportar suas crises de identidade, as ocasiões em que exige carnes sangrentas à mesa do almoço, rum na hora do chá, em que sai à rua com os cabelos desgrenhados e uns terríveis olhos contornados de preto, dizendo: agora tragam-me o horizonte! Nestes dias, se não o chamo de Jack Sparrow, ele não atende. É um excêntrico galante, dizem, com simpatia, os bajuladores. É um exibicionista ordinário, penso, convicta. Mas lhe sou grata por nunca ter acordado com crise de mãos de tesoura.

Não fiz segredo de que como Chapeleiro Maluco ele está a cara do Elijah Wood, e desde este episódio, resolveu me dar o troco, como se eu fosse a culpada. Comprou um Corcel 74, azul piscina, equipado com potente equipamento de som, que anda exibindo de porta-malas aberto na frente dos bares onde estão meus amigos. Compreendo sua estratégia, mas respeito mais a minha. Digo-lhe: Você só me faz vergonha, Johnny Depp… e ele esquece a raiva, vai dormir vingado, brando como um menino.

Hoje atravessou o dia desejando matar o gato de Cheschire, de quem morre de inveja. Diz que não pode mais tolerar o sorriso do felino, e mal percebe que não posso mais tolerar seus desmandos. Jamais lhe darei a chance de me dizer primeiro: Nós dois nunca teríamos dado certo, mas receio que o abandono atrapalhe a 50ª contemplação de sua própria figura em Alice no País das Maravilhas. Antes isso, porém, do que amanhecer qualquer dia como uma noiva cadáver.

*Crônica do livro Pérolas ao Sol

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