O MAMELUCO – Conto de Luiz Jorge Ferreira

O Cenário

Paredes de reboco manchado.
Fios dependurados , talvez de antena de TV, talvez fiação de um rádio antigo, fora de uso.
Um pano esfiapado servindo de porta para a saída dos fundos.
Um caco de espelho preso por dois pregos na parede.
Uma mesa tosca, sobre a qual meia dúzia de copos sujos de nada.


Uma geladeira de meio metro sobre meia dúzia de tijolos, com porta fechada com o auxílio de um tamborete.
Um fedor de suor que por ficar difícil explicar no Cenário, contrapõe-se então muitos frasco vazios de desodorantes espalhados, e alguns largados sobre a caveira da cama que jaz no fundo do espaço- cozinha-quarto, sobre o qual repousa um gato colorido de marrom e branco.

O personagem é Álvaro, na verdade, Seu Álvaro, oriundo do interior do Amapá, na verdade um povoado dito Calçoene, criado por proscritos, ingleses, franceses, holandeses, e brasileiros.
Moreno, rosto sulcado pelo sol, muitos anos a cata de peixes, Castanha do Pará, plantas medicinais, para contrabandear para a Europa, em meio as caixas com as cobras venenosas, e outras espécies peçonhentas.

Daí as cicatrizes no braço, e as marcas de cortes para salvar sua vida, ferindo a faca o local e criando uma falsa hemorragia para que chupando com a boca cheia de tabaco mascado, o filete misto de sangue e veneno,diminua sua ação mortal, mas sobrevivido taí em pé, encorpado, puxando da perna direita, e o andar marcando no chão da terra ribeirinha, sempre úmida ou molhada, um orifício de pouca profundidade, onde depois de algum tempo, a plantado pela própria perna postiça, germinará cânhamo.

Mameluco.
Subindo o rio de canoa, por diversas vezes, desembarcara da embarcação, e fizera mira na direção dos gritos.
Algum desafeto destes que deixará sangrando nos povoados, nos cabarés, nas desavenças. Apelidaram-no de Mameluco.


Fora ao mundo, agora seu mundo era este espaço entre estas quatro paredes que nada mais eram do que a lateral de duas casas abandonadas, e a traseira de um outro barraco, e a portinhola que o pano velho e encardido, definia a fronteira, com o mundo lá fora.

Cacoentes que cultiva…o olhar fixo em quem consigo fala, um tique de enfiar a unha do polegar entre os dentes da frente, e a Mantra de repetir aleatoriamente em Nagô, a oração de São Jorge, que aprenderá com os capuchinhos, em Angola.

Os outros personagens, estão espalhados em seus retratos, e recortes de Jornal que colecionou ao longo do tempo, e das viagens.

As vezes o gato deita e se espreguiça sobre eles, então ele o espanta, imitando com um assovio entre os dentes, o silvo de uma jararaca, o que faz com que Jirau, este é o nome do gato, em homenagem ao lugar onde foi encontrado, no garimpo do Jari, debaixo de um Jirau.
Jirau…este jirau como todos os jiraus era um lavatório feito de madeira, próximo a um curso d’água para que a água usada na lavagem da louça usada escorra sem ficar empoçada perto da casa para não se atrair mosquitos e pernilongos.  Ver os retratos, e os recortes… Da o gancho para que fatos sejam relembrados.


Quando vai remexer neste seu tesouro… Ele põe o espelho, em um ângulo que possa ver refletido na porta clara da geladeira, suas costas, onde guarda uma cicatriz, resultado de várias brigas e açoites dados como castigo para quem como ele fazia arruaças, arrumava brigas, e não temia o Corpo Policial, encarregado da ordem.
Cicatriz de aproximadamente 12 centímetros, descendo do ombro direito, para o meio da costa, sem atravessar o limite do meio.


Fora semelhante a um Escorpião, depois de uma queda do dorso de um novilho, se assemelhará, a uma lagartixa, mais tarde depois que sofrerá uma queimadura com querosene de barca em Barcarena, assemelhou-se a um puraqué, e com a insistência do Jirau o arranhando quando deitado de bruços, na sesta da tarde, sagrada para ele…


Um Morcego.
Porque mora ali…
Onde é este ali.
O que quer alcançar com todas as adversidades que sente lhe obstruir a estrada em sua vida.

Nada…

Por nada chegou a este lugar quando a extração de bauxita estava no auge…
E a lucratividade movia uma engrenagem de luxo e fartura, o que fazia dos aventureiros que como ele ali chegaram, abastados e novos ricos.


Nas ruínas onde morava existirá um Hotel Cassino.
Aquele pedaço de pano roto servindo de porta, fora o lençol de uma das Suítes Presidenciais, houvera duas.
E o cinzeiro ali sobre a tosca mesa, e a caixa com bailarina servindo de escora ao pedaço espelho, um adorno ao lado do quadro de dependurar chaves dos apartamentos, no saguão.
Lá fora o saguão, abrigava os morcegos, que vez por outra em rasantes pelo quarto, se espantavam com o seu as suas costas.

Mameluco.
Circula pelas ruínas, e flerta com as coisas que viu, e enamorado com as estrelas da Broadway seminuas nos recortes de jornal, e cantarola canções do meio do ano, marchas de carnaval, todo o tema de Carruagens de fogo…assovia em Mi menor.
Não há álcool.
Mas se embriaga.
Com raízes e beberagens, e quando faz sobe no palco agora um monte de ferragens e canta e dança como um Fred Astaire, desviando se de cipós e ramos tombados.

A noite quando sai a lua, alvoraçam os habitantes da tatuagem, e o incomodam muito, por isso está sempre com o corpo dolorido, pelas noites mal dormidas, e o sono assustado pelo alvoroço das figuras no dorso, todas em uma só, a dependerem da posição, em que a luz da lua, única ali incide

Segundo ato. Toca ‘Belém é Bíblica’ de Milton Hatoum/ e Gandi…cantada por Gandi.
Descem as cortinas, explodem os aplausos. 12 anos encenando o mesmo espetáculo, muitas vezes automaticamente, a dizer as falas, como se fosse ele o narrador, enquanto o personagem permanece calado.

Ele vai até o camarim, apanha a escova de cabo longo, entra no banheiro, e esfrega a maquiagem feita pelo maquiador, e vê escorrer pelo ralo uma profusão de cores, criando um arco-íris líquido que se esvai até ficar só a espuma perfumada do sabonete líquido.

Sobre a cadeira, o gato de feltro, caco de espelho, o punhado de jornais, empilhados e presos, e a barba mal feita aplicada a esmo, sobre a calça de brim desfiada em ambas as pernas, e o radinho, descascado com produtos químicos, aos pés da cadeira o pano que serve de porta , e num último gesto ele arranca e sai.

Londres esta esfumaçada, ele anda a esmo por Leicester Square, e ao seu lado passam dezenas de pessoas cobrindo pescoço e meio rosto, com a aba de seus sobretudos, se transformam em figuras a semelhança dos extras em filmes de Jack O estripador, o que chega a lhe assustar quando olha-o nos rostos e não descobre luz em seus olhos, mete a mão nos bolsos como a procurar, cigarros, isqueiro, canivete, encontra moedas, que usa para por na maquina e retirar algumas gomas de mascar.

De onde esta já pode avistar o prédio onde mora, um antigo deposito de livros, cujo o interior é dividido por ele usando os próprios livros ali deixados pelo Espolio que dividiu as propriedades após a morte de Sir Herald Finn. Dividiu entre velhos cães, anciões solitários, e artistas de teatro e cinema para quem a fama foi só uma palavra encontrada nos textos decorados.


Cartazes dependurados na frente das fachadas de Cinemas, trazem as fotos de Marylin Monroe, o perfil do Zorro, o torax de Tarzan…apressa os passos porque o frio começa a incomodar, caminha e esmigalha a bagana de um cigarro Turco no bolso direito da calça.


Anda o mais rápido que pode, sessenta e três anos, estatura mediana, dependente de Vodka e Gim, pensa no sanduíche de salame feito de manha que debaixo de dois pratos de alumínio emborcados um sobre o outro, espantara a fome que lhe roe as entranhas.

Nada mais no seu testamento, ali imaginado…Um ator sem nada. A não ser textos a decorar. Volta de súbito, vai ate a porta já as escuras do derradeiro Cinema localizado um pouco antes que a avenida se extinga, e cospe no rosto de Marylin Monroe, pega do chão um toco de cigarro fumado e risca com o carvão restante na ponta.


Deus salve a Rainha. Urina sobre o Cartaz.Escrevendo em inglês…com o jato fino e fraco interrompido por dor ardida, a todo o momento…Queen Save… Mameluco.
06.36 hora de Greenwich…pula de encontro ao solo, na mão cheia de ingressos devolvidos de espetáculos antigos fadados ao fracasso.

De manhã mais tarde… nos jornais criticas elogiando seu desempenho por doze anos com a fenomenal peça O Mameluco. Adaptada para a língua inglesa pelo não menos premiado Sir Herald Finn… ate que cai a tarde, a noite e Londres fica esfumaçada demais, ate para os gatos de feltro aguardando o sinal para ficar imóvel sobre o sofá descascado.

* Do livro “O Chalé” – Scortecci Editora – 2018.

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