Poema de agora: Ataranto – (@cantigadeninar)

Ataranto

possuo estas mãos
um tanto quanto desajeitadas
que sequer sabem dar conta
das tarefas domésticas diárias

lavo a louça respingando em toda a cozinha
demoro duas horas só para cortar os temperos
minha motricidade — nada fina —
[não por falta de esmero
apresenta uma caligrafia apenas legível
o suficiente para impor ao quadro branco
[e às turmas
uma letra minimamente entendível

estas mãos te tinham:
com semelhante ausência de habilidade
me atrapalhava em desabotoar teu sutiã
e tentar amar-te era sinônimo de risadas
das quais agora sou órfã

então eu me concentrava
[desengonçada
em trançar entre os dedos
cada centímetro de teus cabelos
e esperando diante da porta
me permitia ser convidada
pra dentro de tua morada
e apreciava tua pequena morte
antes de ires embora

estas mesmas mãos
hoje encontram-se vazias
minha pele? embrutecida…
e contrariando o ditado popular
não há nenhum pássaro a voar

Lara Utzig

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