Poema de agora: Capa de Sol – Luiz Jorge Ferreira

Capa de Sol

Caminho para a escada desnivelada que leva para Vizeu.
Ando com uma fome esquisita…
Desejo escamas translúcidas…em molho azul de Jazz.
Quero dançar com a minha sombra…mas os Equinócios…que eu atiro pela janela…dançam atras de mim, imitando-me.
Sou um pedaço de mim mesmo, que se fragmentou …sob uma tempestade de neve, que criei com algodão molhado.

Entro no Mercado de Peixe para tagarelar com os Urubus…
Como demoro a entender os que piam em Morse.
Os que falam de Jabuticabas.
Os que falam de pisadas barulhentas nos degraus do Sul.

“O Mercado de Peixe, Marseille” – Raoul Dufy – óleo sobre tela – 1904

Demoro a entender o psiu das Ostras como Papagaios, imitando o mar.
Demoro a entender o estalo dos lados diferentes do coração, embalando o jorro de sangue para os pulmões.
É lá que paira teu cheiro abrigado dos outros perfumes nas minhas fossas nasais.
Por amar o mar, o frio que a morte dá, a estranheza do passado,
é que acaricio o cacho do meu cabelo incrustado no pingente, imitando ouro.

Não saio de mim, não brigo comigo, não me rasgo.
Meus olhos me acham fantástico.
Mas sou cego…
Em silêncio engulo as decimais…
Não quero mais, quero ser os segundos de uma vida plena.
Quero ir para Atenas…
E ser um do Triunvirato em Roma.
Quero por passas molhadas de saliva, na boca de Messalina.
E viajar com asas de Ícaro até a Galileia, e molhar com minhas lágrimas as cicatrizes dos passos de Cristo, seja ele de que cor for.

Não desafino Tchaikovsky.
Nem gargalho Bocage.
Sou ágil o bastante para ficar sessenta anos parado adiante do mesmo lugar.
Não danço na chuva, mas ela me invade sorrateiramente.
Apodrece o que sonho…
Ensopa minhas lembranças…
E em meu testamento, tempestades de vento…
escrevem…nada nas páginas…nada sobre nada…e o que sobrenada …
Ele para o nada empurra.
Em uma cruel brincadeira de esquecer-me.

Pichado no muro detrás do Asilo….
Está escrito…não se mutile…não descasque…não se invada.
Descasco a pele em movimentos de Bailarina e a deposito em forma de Espantalho na calçada para espantar os cães.

Não dançarei com a minha sombra…engordou.
Nem voarei ao Mar Morto.
Prefiro a ausência de tudo dentro de um Camafeu.
Mas estalando os dedos franzinos…danço sozinho, em mim ponho um pano esfarrapado de linho, que finjo ser asas.
Rodopio…hirto.
Morrer por morrer…no ultimo ato.
A mim basta o colorido das palmas…
Muito pior é sentir dor no calos dos pés.

Luiz Jorge Ferreira

*Osasco (SP) – 10.02.2021

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    Como sempre, Luiz nos traz uma crônica-poética ou uma poesia em forma de crônica.
    Cada verso ou cada frase, nos remete a uma reflexão sobre a vida. Estou ainda refletindo sobre “Não dançarei com a minha sombra…” e “Não saio de mim, não brigo comigo, não me rasgo”. A mim me parece que Luiz, depois de uma fuga viajando no seu tempo interior, retorna à realidade diante da possibilidade da dor de um calo no pé! Ler Luiz, sempre é ser chamado a refletir sobre a existência!

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