Poema de agora: Marca D’água – Luiz Jorge Ferreira

Marca D’água

Cadê todos os estranhos.
Feitos de carne ou esculpidos no pano podre da angústia.
Os idênticos, que eu como um Deus falso, semeei entre punhados de adeus,que colecionei ao longo dos Julhos.

Cadê os forasteiros.
Todos sem rumo e sem ânimo, que eu chamei de estranhos.
Todos como eu, que sendo um profeta sem voz, preguei entre as tempestades de silêncio, pragas contra os tempos, e prometi um caminhar a terra do desgosto, agitando estandartes colossais.

Cadê os apaixonados por aventuras, encriquilhados nos sofás.
Com seus pés, finos, sem calos, que nunca de si saíram.
Esses como eu, que como domador de cavalos alados, os pus a apacentar tempestades na tela dos Cinemas.

Cadê eu mesmo, cadê a mim, onde jaz os abraços que empilhei na varanda, frente ao Poente, para distribuir como arroz, em Cirandas, aos Curios e Pintassilgos.

Cadê…eu.
Arrasto o que penso ser restos de uma vida em um caminhar incerto.
Que é bem capaz que termine, por onde nem comecei.

Luiz Jorge Ferreira

*Osasco (SP) – Manhã Chuvosa de 19.11.2020.

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