POSE – UM CEGO – Conto de Luiz Jorge Ferreira

POSE – UM CEGO

Um cego olhando de longe o horizonte me viu. Eu estava com um casal de andorinhas nas mãos. Quase neste instante, choveu. Uma chuva suja. Minha casa ficou toda molhada encolheu. Pedi a um homem que eu conhecia de nome, mas não lembrava de onde, que fotografasse de frente e de perfil meus retratos infantis dentro do quarto de dormir que eu via dali sob a pata traseira de um cachorro. Ele preferiu ficar com o osso do animal e fugiu.

Defronte onde estávamos, um sol enorme queimava o chão. Acendia baganas de cigarro e espantava os passarinhos para o céu. O cego veio se aproximando. Cantava ele um canto nordestino meio baião, que nem falava de seca nem de chuva inundante, mas falava de cores e tons, de cheiro e sons, de sorrisos e gargalhadas. “- Dê-me a máquina fotográfica. Quer fotografar com arte seus retratos de menino?” Pressentiu que afirmei sim com a cabeça. As andorinhas subiram na minha cabeça. Pretendia proteger-me da chuva, fazer um ninho ou alçar vôo. O cego, com a máquina na mão, se pôs e me mandou fazer pose.

A chuva cavou um buraco que engoliu a casa, a rua, a cidade, os pontos cardeais, duas festas de aniversário, o galope de um cavalo e eu. As andorinhas nunca chegaram ao céu. O cego está lá até hoje esperando. Pensa que ainda eu faço pose.

Luiz Jorge Ferreira

* Além de contista, Luiz Jorge Ferreira é poeta, escritor e médico amapaense que reside em São Paulo e também é vice-presidente da Sociedade Brasileira de Médicos Escritores (Sobrames).

 


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