Resenha do livro “ O jogo da amarelinha”, de Julio Cortázar – (Por Lorena Queiroz – @LorenaadvLorena)

Por Lorena Queiroz

Primeiramente aviso ao leitor que nunca me chegou nada de descrição tão difícil como esta obra. Você tem que se despir de todas as regras que conhece do que entendemos como romance e a própria literatura. No jogo da amarelinha Cortázar rasga com muita inteligência suas vestes literárias e te joga neste mundo. Trata-se de um clássico da literatura hispano-americana publicada em 1963 e escrita pelo argentino Julio Cortázar.

O autor apresenta opções para a leitura do livro que se divide em duas partes: os capítulos prescindíveis e imprescindíveis. O leitor pode optar pela leitura dos capítulos imprescindíveis e ler do capítulo 1 ao 56. Ou opta por seguir o esquema proposto pelo autor, onde lerá combinando capítulos prescindíveis e imprescindíveis. Fiz a leitura das duas formas e na terceira leitura fiz minha própria amarelinha. É importante esclarecer que cada leitor retirará do livro sua própria estória, mas não no formato início, meio e fim. Você encontrará inícios, meios e fins, e acima de tudo e a depender de você, muitos e muitos meios. Portanto, agora, o livro que eu li:

O tema central do livro é Horácio Oliveira, um intelectual argentino que se auto exilou em Paris devido a situação política da Argentina na época. A vida de Horácio Oliveira divide-se em dois momentos entre Paris e Argentina. Em Paris ele vive um romance com Lucía, uma uruguaia que mostra-se como contraponto à Oliveira, a quem ele apelidou de Maga e por quem ele seguirá procurando. Horácio faz parte do Clube da serpente, um grupo de intelectuais no exílio também em Paris. Horácio vive em meio a este clube onde discutem música, literatura, metafísica e, onde também, viviam menosprezando Maga. Horácio tem uma relação de encontros e desencontros com Maga. Ele está sempre preocupado com seus dramas e questionamentos pessoais, enquanto Maga estava preocupada em viver. O que percebi que gera bastante inveja parte de Oliveira. De volta à Argentina, Oliveira continua sua procura por Maga e se envolve em um triângulo amoroso com Talita e Traveler.

Como já disse, é um livro de muitos meios onde encontramos nos capítulos prescindíveis, complementos, trechos de escritos de Morelli, um autor fictício que crítica e comenta o jogo que você lê. Segundo Davi Arrigucci Jr., o autor de O Escorpião Encalacrado, onde ele faz um estudo sobre Cortázar, o autor tinha uma paixão por Jazz e a música é uma influência dentro no universo ficcional de Cortázar. Um homem que encarou a literatura como uma forma de se arriscar, tal como um músico que leva a improvisação até que ela se esgote. Cortázar dizia que gostaria de escrever textos como tomadas de Jazz, o exercício do artista diante da linguagem musical em seus extremos. Ele não se limita a apenas contar uma trama, ele acredita que sem a participação do leitor não há obra. Você se debruça na discussão de textos e concebe sua própria estória. O professor Arrigucci diz que a idéia é de que o leitor passe de um mero consumidor e se torne um consumador, aquele que vai em busca de um céu a partir do inferno, empurrando sempre uma pedra no rumo do desejo. E assim é A Amarelinha, a busca onde a pedra depende de fatores diversos para que se alcance o céu, por mais habilidades que você tenha em atirar uma pedrinha, sempre conte com o vento.

Ao fim do livro você encontra cartas enviadas por Cortázar à amigos, onde ele conta sua experiência naquela escrita. Uma das cartas que ele enviou à Paco Porruá, esclareceu minhas certezas no seguinte trecho: “…para mim não é tão importante que você tenha achado o livro bom -ainda que isso tenha uma enorme importância pra mim, sem dúvida; o que realmente conta é que você tenha ficado tão desconcertado, tão “remexido”, tão desvairado e tão a beira do limite como está o pobre do Oliveira, como eu, quando me pegava aos socos com Oliveira em cada capítulo do livro. “

Meu conselho é que leiam Cortázar, mas não se engane, em determinado momento você vai sentir que ele está lhe pregando uma peça. Então jogue com ele, descubra Cortázar e, acima de tudo, deixe ele acabar de fumar

* Lorena Queiroz é advogada, amante de literatura, devoradora compulsiva de livros e crítica literária oficial deste site.

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    Muito boa…está autora tem intimidade com a habilidade
    de circunscrever em uma analise feita para ser compreendida por quem a lê, e aguçar sua curiosidade pelo texto completo no livro…e o consegue.
    Aplausos …pulando Amarelinha!

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