Retratos – Conto de Marcelo Pereira

Ao final de mais um dia de trabalho, chego em um pé-sujo e tento desanuviar às ideias. O pinguim que me atende tem menos dentes do que aquilo que se chama de minimamente necessário. Peço uma geladinha e o sujeito balbucia algo sem sentido.

Vejo a fauna reinante no barzinho. Fauna é um termo bem apropriado, pois os seres ali presentes são dignos de catalogação. O bêbado onipresente está lá com suas garrafas espalhadas embaixo da mesa, ele se encontra naquele estágio de semiconsciência em que as imagens tornam-se turvas, e não se percebe o que é real.

O velho professor está lá também. Está lendo um antigo romancista russo. Suas roupas já viram dias melhores. Dostoiévski tenha pena desse pobre professor. O jovem casal está mais ao fundo do bar, estão discutindo por alguma bobagem própria dos casais na tenra idade. Logo descobrirão que a vida é muito curta para discutir por bobagens. Um Don Juan de araque está em pé assoviando para as meninas que passam apressadamente pela avenida. Que criatura bizarra! Será que o pavão acredita realmente que suas cantadas mal conduzidas e sua plumagem circense podem atrair possíveis vítimas?

A senhora olha com ar de tristeza para os pequenos quadros expostos na lateral do barzinho. Seus cabelos presos, sua face carregada por uma maquiagem superlativa demonstram que na juventude sua vida deve ter sido menos difícil. O que provocou sua queda precoce?

Então vejo Joaquim, meu amigo de infância, e grito: Joaquim! Joaquim! Ei rapaz! Sou eu! Antônio! Meu amigo olha pra mim e não me reconhece. Estou tão velho assim? Ou ele não quis falar comigo? Éramos tão amigos antigamente. Que pena. Os poucos amigos que me restaram, ou morreram ou moram em lugares tão distantes….Ou não me reconhecem mais, e se reconhecem, não me acham merecedor de uma pequena conversa.

O proprietário do bar avisa que o mesmo está para fechar e pede para os clientes pagarem suas contas. Sou forçado a ir, sou forçado a pagar a conta. Passei uma vida inteira sendo forçado a fazer coisas que não queria. A cerveja vai esquentar, o bar vai fechar, um dia o dono do bar, o bêbado, o velho professor, o jovem casal, o pavão, a senhora, Joaquim, eu, iremos morrer e tudo continuará, como se nunca tivéssemos existido. Seremos retratos na estante de alguém. Tudo passa.

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