VÊNUS À LUZ DO DIA – Por Fernando Canto

Por Fernando Canto

Certa vez em Fortaleza, em agosto de 1994, atentei para um texto de um professor de História da Universidade Estadual do Ceará, publicado no jornal “O Povo” em que ele narrava uma passagem de Claude Levy-Strauss, antropólogo, pai do estruturalismo, que acabou de fazer recentemente um século de vida.

O texto do pensador iniciava dizendo que “Parecia que havia uma determinada tribo que conseguia ver o planeta Vênus à luz do dia (…). Pus o problema a astrônomos profissionais; eles disseram que efetivamente nós não o conseguiríamos, mas que atendendo à quantidade de luz emitida pelo planeta durante o dia, não é inconcebível que algumas pessoas o possam detectar. Mais tarde consultei velhos tratados de navegação pertencentes à nossa própria civilização, e tudo indica que os marinheiros desse tempo eram perfeitamente capazes de ver o planeta à luz do dia. Provavelmente nós seríamos capazes de o ver se tivéssemos a vista treinada”.

Foto encontrada no site scielo.br

Nem a propósito, quando adolescente conheci um senhor no bairro do Laguinho que me dissera em uma conversa informal, que quem vê uma estrela de dia será feliz. Com efeito, a conversa iniciara por aí, numa tarde chuvosa, nublada e de muito vento, na casa do seu Sinval, na subida da ladeira da São José, quando esperava o Zeca, seu filho, e a chuva passar para irmos encontrar com a nossa turma. Anos depois me lembrei disso e escrevi um pequeno conto em que a personagem vê uma estrela nessas circunstâncias, mas em seguida morre atropelado olhando para o céu.

E é nesse olhar para o céu que vejo a preocupação das Universidades locais e mesmo de certas faculdades em trazer à tona e discutir, promover e valorizar o autor local, incentivando a produção neste vasto mundo amazônico que temos em volta, pois que estamos sujeitos a criar como nunca, com nossas experiências adquiridas do cotidiano e da história, com seus fantasmas e personagens, com suas paisagens e ambientações tão características da nossa gente, da nossa cultura e dos nossos mitos.

É verdade que não temos mercado editorial para leitores dos diversos processos seletivos, estudantes que normalmente não compram livros de literatura produzida em nossa terra porque não têm dinheiro, hábito de ler e principalmente pelo preconceito de que não há qualidade, uma coisa certamente repetida por quem tinha interesse em reduzir a nada o que aqui se produzia. Mas é verdade também que não há até hoje uma política cultural oficial que incentive a nossa literatura, na produção e na divulgação. Quem conhece Alcy Araújo, Ivo Torres, Álvaro da Cunha, Isnard Brandão de Lima Filho, Hélio Pennafort. Quem são os autores novos?

Eventualmente ainda encontro pessoas raivosas e frustradas que criticam sem ler a obra de ilustres escritores, sem que saibam separar o que eles são e o que representa para nós o seu talento literário. “Saraminda” de José Sarney, por exemplo, uma obra gigantesca que se passa no Amapá no século XIX mereceu de Levy-Strauss o seguinte comentário: “Li Saraminda e quanto amei esse belo livro. Depois dos pescadores do Nordeste José Sarney faz reviver os faiscadores de ouro de Caiena e do Amapá com a mesma sensibilidade aguda à realidade etnográfica permeada por um poderoso lirismo. Sarney reconstitui ao mesmo tempo um episódio esquecido, mas saborosamente pitoresco das relações da França com o Brasil”. Diz o autor de “O Cru e o Cozido”.

Para nós fica a lição do antropólogo de que “se tivéssemos a vista treinada” poderíamos ver mais longe, enxergar além do horizonte que a visão alcança e seríamos mais atentos para o que a consciência nos pede para ver e principalmente para penetrar na interpretação de um bom texto ou nos mais recônditos segredos que a vida abriga.

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    De verdade…Fernando coloca em evidência a dificuldade de formar novos leitores…talvez tão difícil como para os não treinados ver estrelas a todo os momentos …como por exemplo…enxergar Vênus a luz do dia.

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