A força das águas e os bares do Araxá – Crônica porreta de Fernando Canto

Por Fernando Canto

As águas têm uma importância tão grande para a nossa região que certa vez, há alguns anos antes das mortes causadas pela violência dos tsunamis na Ásia, em 2004, imaginei, numa condição extremada, alagamentos catastróficos em Macapá causados por ondas gigantescas num futuro próximo. Como o texto foi publicado num livro meu, me perguntaram se eu tinha informações científicas sobre essa possibilidade. Claro que tudo era ficção. Mas a pororoca e as águas grandes do nosso inverno nunca deixaram de atemorizar os ribeirinhos e ameaçar suas frágeis moradias, principalmente nos lugares sujeitos às influências das marés.

Por causa da força das águas que iniciam neste período e que chegaram a destruir partes do muro de arrimo em alguns pontos da orla macapaense e dos estragos causados na antiga praia do Aturiá, fui verificar in loco a situação e fiquei assustado. No Jandiá, próximo do antigo Bar do Maguila enormes blocos de concreto do muro foram arrebentados pelas águas, as pedras dos gabiões de sustentação jazem na lama do mangue, fato que não permite a presença de banhistas, a não ser na maré baixa, apesar de que na maré alta também tem uns malucos que se machucam ao serem jogados no muro. O mesmo ocorre na área do Araxá, um dos lugares mais românticos e mais bonitos de se passear da orla. Ali já existiu praia. Até o início da década de 1980 o Araxá e a Vacaria do Barbosa eram pontos freqüentados por famílias, que não podendo se deslocar para Fazendinha, nelas faziam seus piqueniques aos domingos. A rapaziada se concentrava para tocar ao violão os últimos sucessos da Jovem Guarda, tendo ao redor a o riso feliz das fãs, enquanto a criançada corria na areia da enseada. Isso mesmo, na areia da praia, onde deitavam plácidas ondas que traziam sementes e mistérios do outro lado do rio-mar. Árvores enormes como as samaumeiras, soltavam suas painas no ar e sombreavam o ambiente para os primeiros namoros dos adolescentes, inundando suas mentes de poesia e o corpo de desejo.

Mas o Araxá sempre foi um belo local de concentração de banhistas, boêmios e bares. Um deles, talvez o mais famoso daquela época fosse o “Bang Bar”, nome por sinal muito sugestivo. Um outro era a “Casa da Música Popular Brasileira”, que vez por outra oferecia aos clientes belos shows de música dançante com cantores regionais. O grupo “Café com Leite”, levava samba e música romântica nas vozes de Zenaide, Sobral e Maria Tavares, acompanhados por Chico Cara de Cachorro, Zé Crioulo, Jaci, Ricardo, Fifita e Pelé. O grupo fazia muito sucesso e sempre estava lá às sextas-feiras à noite e nas tardes de domingo. No Bang Bar às vezes surgia um quiproquó para fazer jus ao nome do estabelecimento: era quando macho que era macho se escondia das balas em qualquer mesa de madeira que lhe servisse de escudo protetor. Algum tempo depois surgiu um bar de nome engraçado, situado no início da Eliezer Levy, um tal de “Xiri Molhado”, onde o pessoal ia tomar a saideira. Até quem vinha de Fazendinha encostava para um último gole porque também rolava um pagode e dava muita “cocota”, no dizer da época. Na orla do Igarapé das Mulheres, perto da feira do Pescado também existiu um bar muito perigoso, onde os frequentadores jogavam sinuca e bebiam muito. Mas eles tinham uma regra infelizmente não muito obedecida que era a não-provocação. Só caboclo corajoso frequentava e ganhava dinheiro no jogo no tal de “Cutuca Morte”.

Lembranças à parte, quando as águas do verão e as do inverno não atingiam tanto a cidade, porque não havia muro de arrimo e nem muito aterro nas baixadas e ressacas esses problemas não existiam. Mas a cidade precisou se modernizar e resolveram começar pelo saneamento. O planejamento dos antigos governos visava deixar Macapá com uma bela frente e com um traçado que permitisse o alongamento das vias sem o entrave das áreas alagáveis. Então milhares de toneladas de aterro foram depositados nesses lugares para compactar e dar lugar no futuro aos quase oito quilômetros de orla asfaltada que temos hoje em Macapá. Lutar, entretanto, com a fúria do rio Amazonas é lutar praticamente em vão, porque ele só é igual a si mesmo. Mesmo assim, ora a vitória é da terra ora é da água, essa mesma água que dá e tira a vida. No fim vence o homem e sua tecnologia.

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    Lida a Crônica, e olhada as fotos, e analisada a luta entre o rio de águas turvas, e o derredor, patrocinado por carradas de terra para limitar suas incursões até a cidade…
    Fica o ribeirinho, este é o vencedor…e Fernando, discreta bem porque é um deles.

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    Crônica Maravilhosa dessa figura que tanto quero bem. A natureza nos dá tudo,mas assim como nós,precisa de amor,carinho,zelo….e o homem infelizmente desaprendeu esses adjetivo.
    Assim como na minha terra,minha Fortaleza,tem esse mar banhado pelo Atlântico, maravilhoso e o homem com toda sua insignificância empata o percurso natural de suas águas,e a Natureza se revolta e pede passagem.Assim acontece em nossa querida Macapá, banhanda pelo rio Amazonas.
    Parabéns meu amigo Fernando ,mais um vez pela sua Crônica.
    Aqui em Fortaleza estão de braço aberto pra recebê-la,lo

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