Ana Cristina César, a Ana C.


Tenho uma folha branca / e limpa à minha espera: / mudo convite / tenho uma cama branca / e limpa à minha espera: / mudo convite / tenho uma vida branca / e limpa à minha espera”

Trajando sandálias chinesas, cabelo punk, carregando um diploma de mestrado em arte e um livro editado em Londres, Ana Cristina César chegou ao Brasil em plena década de 70, para marcar definitivamente a história da poesia contemporânea nacional. Ana C., como gostava de assinar, distinguiu-se por sua voz despudoradamente feminina e por ter criado uma obra poética nova, resultante de uma mistura de ficção e confissão.

Nascida no dia 2 de junho de 1952, no Rio de Janeiro, criou-se entre Niterói, Copacabana e os jardins do colégio Bennet. Aos sete anos, publicou seus primeiros poemas no jornal Tribuna da Imprensa. Em 1968, passou um ano em Londres e realizou muitas viagens pelo mundo. Voltou para o Brasil transformada e formou-se em Literatura na PUC-RJ, onde mais tarde deu aulas.

Para sobreviver, fez muitas traduções, escreveu para revistas e jornais alternativos – que seriam o berço dos melhores jornalistas e ilustradores de hoje – e lançou seus livros por editoras independentes. “O Beijo”, um desses jornais alternativos, foi reconhecido em sua época como um dos mais interessantes veículos da contracultura carioca, da década de 70.


Em 1978, após finalizar um Mestrado de Comunicação na UERJ, foi mais vez para Londres, onde obteve, com distinção, o título de Master of Arts em teoria e prática literária. Ao retornar ao Brasil, fixou residência no Baixo Gávea e começou a trabalhar com jornalismo e televisão. Em novembro de 1982, pela primeira vez, ela publicou seus versos por uma grande editora: “A Teus Pés”, editado pela Brasiliense.

O livro reunia seus escritos que já eram conhecidos através de jornais (como a Folha de São Paulo), revistas e livros de tiragem limitada. O lançamento de “A Teus Pés” foi saudado pela crítica, que começou a ver Ana C. como um dos mais promissores talentos poéticos da poesia marginal carioca da geração de 70, o que as pessoas que a conheciam já sabiam.


No texto seguinte, a poeta nos ensina sobre si mesma e sobre a sua arte: “Era noite e uma luva de angústia me afagava o pescoço. Composições escolares rodopiavam, todas as que eu lera e escrevera e ainda uma multidão herdada de mamãe. Era noite e uma luva de angústia… Era inverno e a mulher sozinha… Escureciam as esquinas e o vento uivando… Saí com júbilo escolar nas pernas, frases bem compostas de pornografia pura, meninas de saiote que zumbiam nas escadas íngremes. Galguei a ladeira com caretas, antecipando o frio e os sons eróticos povoando a sala esfumaçada”.

Com todo esse sentimento, a poeta criou “Samba-canção”, uma de suas mais belas poesias sobre o ser feminino contemporâneo: “Tantos poemas que perdi. Tantos que ouvi, de graça, pelo telefone – taí, eu fiz tudo pra você gostar, fui mulher vulgar, meia-bruxa, meia-fera, risinho modernista arranhando na garganta, malandra, bicha, bem viada, vândala, talvez maquiavélica, e um dia emburrei-me, vali-me de mesuras (era comércio, avara, embora um pouco burra, porque inteligente me punha logo rubra, ou ao contrário, cara pálida que desconhece o próprio cor-de-rosa, e tantas fiz, talvez querendo a glória, a outra cena à luz de spots, talvez apenas teu carinho, mas tantas, tantas fiz...”

Ana Cristina César demitiu o verso e a própria vida numa tarde de sábado, dia 29 de outubro de 1983. Tinha 31 anos quando se suicidou, se jogando pela janela de seu apartamento. Quarenta minutos antes de sua morte, Ana C. conversou pelo telefone com o poeta Armando Freitas Filho. O poeta, logo depois que recebeu a notícia da morte, soube que havia uma carta destinada a ele. Nela, havia brincadeiras, digressões sobre a poesia e a vida, histórias de namoros falidos ou mal começados, comentários ácidos sobre tudo e todos em uma só trama, que fez com que Armando Freitas Filho a definisse da seguinte maneira: “Ana Cristina foi uma ventania em câmara lenta que passou na minha vida”.

Ana C. foi a própria encarnação da modernidade. Soube ser feminina sem ser feminista, sem estar ideologicamente presa a nada. Talvez por isso, tenha morrido cedo, fazendo sobre nossa terra uma passagem permanente. O lugar que ocupa como poeta é na linha do horizonte – virtual e veloz. Seu verso, que pertenceu à vertente cultivada da geração que apareceu em 70, é, hoje, a pedra fundamental de toda a poesia que se quer nova.

Depois de sua morte, Heloísa Buarque de Holanda e Armando Freitas Filho se encarregaram de editar a correspondência da poetisa. Nessa obra, mais do que um mero relato das experiências vividas pela artista, é possível reconhecermos o seu desejo de superar o circunstancial por meio do artifício literário. Intitulado “Correspondência Incompleta”, é composto pelas cartas da jovem poeta carioca endereçadas às suas professoras Clara Alvim, Heloisa Buarque de Hollanda, Cecilia Londres e à amiga Ana Candida Perez, entre 1976 e 1980.

A maneira apaixonada como relevava a sua vida às amigas, rouba a cena nestas correspondências. É uma obra maravilhosa, onde é possível perceber a personalidade de uma das mais sensíveis escritoras da literatura contemporânea. Ana C. transformou a mulher em texto, o corpo feminino em prosa e a vida em arte. Em suas palavras: “A ponto de partir, já sei que nossos olhos sorriam para sempre na distância. Parece pouco? Chão de sal grosso, e ouro que se racha. A ponto de partir, já sei que nossos olhos sorriem na distância. Lentes escuríssimas sob os pilotis.

Após sua morte, a reunião de seus escritos inéditos deu origem a três obras, organizadas por Armando Freitas Filho: “Inéditos e dispersos” (prosa e poesia), de 1985, “Escritos da Inglaterra” (ensaios e textos sobre a tradução e literatura), de 1988, e “Escritos no Rio” (artigos, textos acadêmicos e depoimentos), de 1993.

Mário Prata disse que “as pessoas não ficavam amigas de Ana. As pessoas simplesmente se apaixonavam por ela”. E Armando Freitas Filho: “Ana Cristina encarava a modernidade. Talvez por isso tenha morrido cedo – pura passagem permanente – muitas asas e um desdém pelo que poderia ser raiz. O lugar que ocupa é linha do horizonte – virtual e veloz.

Seu verso, que pertence à vertente cultivada da geração que apareceu em 70, é, hoje, pedra de toque para toda poesia que se quer nova; com seus motivos e matizes estilizados que se deixam acompanhar, ao fundo, por uma brusca e inusitada melodia que parece ter sido feita pela mistura de cristais, heavy metal e tafetá.

A obra é breve, um cinema essencial, e depressa. Morria de sede no meio de tanta seda. Nunca nos esquecemos de sua paixão acesa e seca. O que mais queima: a pedra de gelo ou o ferro em brasa? Vulcão de neve. Ela não foi – ela fica – como uma fera.

Texto: Marina Várzea, escritora e jornalista.

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