CONSTELAÇÃO BORDADA NO PEITO – Conto de Isabela Lima

Conto de Isabela Lima

Mamãe prepara mingau de macaxeira com leite. Sorri enquanto me conta do arroz queimado no almoço. A panela ficou com o fundo da cor-da-noite-na-amazônia. Mamãe não está com raiva. Ela ri. Faz tanto tempo que a vejo raivosa pela casa. Mas hoje, por algum evento cósmico, ela ri. Meus olhos marejam enquanto rio também. Marejam, marejam me levando pra um tempo onde a única coisa que corria era o rio lá pelas bandas do Guajará, no Pará.

Eu não fazia ideia do tempo do relógio, mas sei que quando o sol estivesse quase baixando já era aproximadamente cinco da tarde, a mãe dizia. Íamos de galera, os primos todos, pra pular no rio e brincar de “pira-mãe” ou fazer acrobacias na água. Certa vez, um vento medonho preencheu a paisagem e o céu mudou de azul pra cinza num segundo. Uns trovões se aproximavam e eu olhava do meio da ponte o horizonte. Um primo mais velho se aproximou contando que se eu batesse repetidas vezes, bem forte, os braços, era capaz de voar. Disse ainda: “mas tu tens que acreditar com força pra poder acontecer”. E saiu. Prontamente fechei os olhos e bati forte os braços em movimento de passarinho. O vento chacoalhava os cabelos e o corpo envergava feito o ingazeiro. Fiquei ali por um bom tempo, num devir-pássaro, até que uma voz familiar gritou: “— sai dessa chuva, menina! Daqui a pouco tu apanha uma doença e eu quero ver”.

O vento soprava a noite mais pra perto. No interior da casa o meu peito, agora, ardia junto ao fogão à lenha. A mãe com a tia assavam enormes tucunarés e amassavam a bacaba, enquanto as filhas mais crescidas arrumavam a mesa com a toalha de flor, farinha torrada, pratos e talheres. A pequena lamparina evitava que engolíssemos espinhas. Pronto! O pequeno milagre da vida acontecia.

Insurge os dezembros entre as memórias. As mesmas lamparinas com seus foguinhos-bailarinos iluminando as trilhas no mato e de repente estávamos na capela celebrando o nascimento do menino Jesus. Aos poucos, barcos e canoas atracavam no porto. Pelo barulho do motor já se sabia quem vinha adiante: é o compadre Dico com a Maria. Chegavam sempre anunciando aquilo que mais me fascina na vida: o renascimento e a partilha. É natal. Sim! Natal no meio do nada. E eu queria dizer que o nada muito me interessa já que as estrelas e vaga-lumes ainda piscam bonito pra caramba dentro do meu peito.

Distraidamente as lembranças chegam rompendo muros, embalando a enorme fotografia pendurada do lado de dentro. Consigo ouvir de relance ainda, lá fora, os rituais de pesca dos botos sob a luz da lua. Na cabeceira da ponte as histórias de visagens arregalavam olhos, enquanto um medinho vinha vindo até se agasalhar no colo de alguém. Ninho. Tela a céu aberto. Cheiro de tempo entranhado. Ou qualquer outra palavra-ponte que permita o fluxo dos instantes.

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