O SOCIALISTA DE FERREIRA GOMES – Por Fernando Canto

Por Fernando Canto

As visitas pastorais do 1º Bispo Prelado de Santarém, Monsenhor Frederico Costa, realizadas no início do século XIX, contemplaram várias localidades do atual estado do Amapá, que naquela época ainda não haviam sido desmembradas do Pará, e que eram pertencentes àquela circunscrição eclesiástica, uma área territorial gigantesca, que ia do rio Xingu ao Amazonas e do Mato Grosso às Guianas.

O Monsenhor visitou vários locais, inclusive Amapá, Oiapoque, Cunani, Bailique e outras paragens, passando por muitos perigos e percalços. Ele considerava a situação religiosa do Amapá gravíssima e pretendia observar a situação reinante em busca de soluções, dentro das suas possibilidades. E assim foi que no dia 22 de outubro de 1905 “alcançou a antiga colônia denominada Ferreira Gomes, localizada próxima da primeira cachoeira do rio Araguari. Embora não estivesse sendo esperado, a população o recebeu com muita alegria, ficando hospedado em casa dos irmãos Deocleciano e Coriguasil Matos, que eram os principais do lugar” (Santos, João, in Monsenhor Frederico Costa, 1º Prelado de Santarém. CEC, Belém, 1978).

Segundo o cronista acima citado, D. Frederico gostou muito do lugar, principalmente pela sua localização alta que oferecia uma vista bonita. Ali ele encontrou uma capela “trabalhada com gosto por um artista português, que o prelado veio a conhecer na residência do Sr. Alcebíades, onde também estava construindo outro templo”. Chegou a encontrar um velho de nome Venâncio, que segundo os cálculos feitos por ele, possuía a idade de 110 anos.

Ao escurecer do dia 25 de outubro D. Frederico partiu com destino ao barracão chamado “Duas Irmãs”, cujo proprietário era um tal capitão Eugênio Campos, que segundo o bispo “foi um companheiro de longos anos de D. Antonio de Macedo Costa”, considerado o apóstolo da Amazônia. Nessa viagem o prelado teve a oportunidade de saber muitos fatos que até então desconhecia sobre o grande bispo. No barracão “Duas Irmãs” passou três dias na “agradável companhia do capitão Eugênio”.

Mas só em carta datada de 24 março de 1906 é que ele faz interessante referência a esse capitão, escrevendo: “podemos afirmar que o Capitão Eugênio Campos foi sempre um cristão sincero, embora, levado pelo seu gênio fogoso e por companheiros, tenha escrito ou pronunciado discursos em favor do socialismo. Assim como também podemos afirmar que é falsa a história de uma bomba de dinamite que se lhe atribui”. Em seguida, convicto a inocência do capitão, conclui seu testemunho: “(O capitão) habituado desde a infância a viver no mundo e arrastado por mais de uma vez pelos turbilhões da vida, voluntariamente se desterrou, procurando agora o silêncio das florestas e nos encantos da vida rústica o esquecimento completo de antigas lutas”.

Quem teria sido esse socialista arrependido? Quem seria esse proprietário de terras e extrativista, possivelmente pecuarista, dada a vocação local para essa atividade? Por que se refugiou na floresta sem mais preconizar a propriedade coletiva dos meios de produção e a organização de uma sociedade sem classes? Ora, em 1905 havia poucos militantes da esquerda operária no Brasil, quase todos imigrantes europeus, na maioria, italianos e portugueses. Teria sido, então, esse ex-socialista um imigrante português que haveria comprado uma patente e se estabelecido no interior do Amapá em busca do “silêncio das florestas e dos encantos da vida rústica”? E onde foi que explodiu a tal bomba de dinamite? Com a palavra os pesquisadores da História do Amapá.

* Publicado no Jornal do Dia, em junho de 2007 e no blog Canto da Amazônia, em 2009.

  • Instigante…Mais um episódio na história do Estado do Amapá…onde por sua riqueza cultural, e a extensão territorial, nem sempre se encontra os finalmente, com facilidade.

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