Poema de agora: BALADA DA DIVINA TRAGÉDIA – Ori Fonseca

Ilustração: Jornal da Educadora.

BALADA DA DIVINA TRAGÉDIA

Ó mar, de pele e olhos azuis,
Recebe a chuva de meu pranto,
Que não te pese como cruz
Como a mim pesa tanto, tanto.
O sal, que em ti tanto reluz,
Dos olhos meus transborda e mina
Por meus irmãos frágeis e nus
Que cantam prece em cada esquina.

Esse abandono só produz
Humilhação e desencanto,
Que o abandonado se reduz
A um nada frio jogado ao canto.
E o nada assim se reproduz,
Erva insistente que germina
Na contramão, em contraluz,
No fértil chão de cada esquina.

Ratos, baratas, urubus
Fazem festins de horror, enquanto
Humanos passam nus e crus
E se comungam pelo espanto
De ver que a sorte que os conduz
É teia tensa, é rede fina,
Um labirinto à meia-luz
De compra e venda em cada esquina.

O Inferno, em Dante, não traduz,
Nem a Tragédia mais Divina
Pode expressar os ais e uis
Da dor que escorre em cada esquina.

Ori Fonseca

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