Poema de agora: PARTICIPAÇÃO – Alcy Araújo (comentado por Fernando Canto)

Este poema do Alcy Araújo Cavalcante reflete a luta entre a poesia e a “carne magoada” da contemporaneidade. O poeta se faz de paladino para tentar amenizar as práticas do ódio encontradas na exploração de riquezas por toda a humanidade, tendo como ponto de partida suas aventuras fictícias em vários lugares do planeta que dialetizam as relações da mais valia, onde o esforço humano dos mais pobres para o trabalho promove a riqueza dos poucos que os espoliam. Ele vem somar com todos os explorados e desesperados no rumor que cresce à petição da liberdade em oposição aos que tombaram na luta contra a fome e a injustiça. O poeta defende o povo sofrido e, aliás, essa é a condição ampla da poesia: não se conformar “em viver de joelhos”. Ele realça que seu poema não se omitiu do seu tempo nem das agruras do seu contexto pelas quais passou e que foi a voz forte a conclamar aos sofredores a não permanecerem no silêncio, pois assim Deus não os escuta.

“Participação” é um poema escrito na década de 1960. É moderno e atual para estes tempos em que o autoritarismo e a imbecialidade dos governantes promovem o ódio, o medo e a morte (FERNANDO CANTO).

PARTICIPAÇÃO

Estou convosco
Vim unir meu grito de protesto
No suor dos que suaram
Nos campos e nas fábrica

Aqui estou
Para juntar minha boca
Às vossas bocas no clamor pelo pão
Sancionar com esse rumor que vai crescendo
A petição da liberdade

Estou convosco
Para unir meu sangue ao sangue
Dos que tombaram
Na luta contra a fome e a injustiça
Foram vilipendiados em sua glória
De mártires
de heróis

vim de longe
percorrendo desesperos
das docas agitadas de Hamburgo
das plantações de banana da Guatemala
dos seringais quentes do Haiti

vim do cais angustiado de Belém
dos poços de petróleo do Kuwait
das minas de salitre do Chile

Passei fome nos arrozais da China
Nos canaviais de Cuba
Entre as vacas sagradas da Índia
Ouvindo músicas de jazz no Harlem

Afundei nas estepes geladas russas
Morri ontem no canal da Mancha
E hoje no de Suez
Tombei nas margens do Reno
E nas areias do Saara

Lutando pela vossa liberdade
Pelo vosso direito de dizer
E de amar

Estou convosco
Voluntariamente aumento o efetivo
Dos que não se conformam
Em viver de joelhos
Morrendo sufocando lágrimas
Nas frentes de batalha
Nas prisões
Para dar à criança recém-parida
O riso negado a vossos pais
O pão que falta as vossas mesas
Meu filho e o filho do meu filho
Saberão que o meu poema não se omitiu
Quando vossas vozes fenderam o silêncio
E ecoaram inutilmente nos ouvidos de Deus.

Alcy Araújo

 

*Contribuição de Fernando Canto. 

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    Poema escrito em meados do século passado, infelizmente o mundo não mudou, quem dera tivéssemos mais e mais vozes clamando por humanidade.

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    Caramba! Esse poema é de arrepiar e reaparece em momento preciso, pra que reflitemos sobre o momento atual, de triste retrocesso e tenhamos mais coragem e força para resistir aos desmandos liberalistas.
    Meus aplausos e abraço amazônico ao porta-camarada, Zoth

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    Excelente!
    Parabéns Alcy pelo brilhante trabalho.
    Continue nos alegrando com suas canções e voz.
    Abraços,
    Argentino

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