Poema de agora: Poente N° XX – Luiz Jorge Ferreira

Poente na Fazendinha, Distrito de Macapá (AP) – Foto: Jaci Rocha

Poente N° XX

O único que sentia saudades era o cão.
Por esse motivo perambulava com o único osso que tinha consigo, uma hora para debaixo da escada,outra hora para debaixo da sua sombra, que fazia fronteira com a sombra do Maracujazeiro, onde um zangado Zangão, insistia em deflorar a lua.

Por si só a noite e o sono nem insistiam em tomar-lhe o osso, nem insistiam em procurar a saudade, no meio da gente estática na fotografia dependurada na parede descascada.

Fortaleza de São José de Macapá – Foto: Manoel Raimundo Fonseca

Os dias andavam céleres, aos tropeções, fugiam da chuva azul, pintada na vidraça .
O cão a tudo via, com seu olhar embaçado , de velho cão.
O poeta queria fugir da rima sentada no livro de Gonçalves Dias.
Queria entrar de pés descalços nos lagos lânguidos do Amapá.
Queria lamber os lábios sujos de sereno…
Queria ser um pequeno carrapicho, para se agarrar ao tempo infinitamente reciclando o estar ali.
Mas só o cão tinha o osso, que fora vida.
E toda a saudade que o passar da vida cria…
ele a lambia com sofreguidão…
Mas não sabia.

Luiz Jorge Ferreira

*Osasco …21.01.2021

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *