Um grande passo para o mercado audiovisual amapaense

O diretor do telefilme, Marcus Oliveira, afirma que a obra é a oportunidade do amapaense se reconhecer nas telas. Foto: Arquivo Super Panc Me

Por Jamily Canuto e Mônica Peixoto

Em 2016, a Agência Nacional de Cinema (Ancine) realizou uma chamada pública para que produções audiovisuais de todo país pudessem concorrer ao Fundo Setorial Audiovisual (FSA), um dos recursos mais importantes do país nesta área. A partir desta chamada, o Governo do Estado do Amapá teve iniciativa de realizar uma parceria com a Ancine, buscando incentivar o cinema amapaense e fomentar a economia local gerando empregos por meio de produções audiovisuais. Assim, foi lançado em 2017 o Primeiro Edital de Audiovisual do Amapá. Doze projetos foram selecionados para serem patrocinados. O valor destinado ao edital foi três milhões de reais. Do total, um milhão foi investido pela Secretaria de Estado e Cultura (Secult) e dois milhões, pela Ancine.

Duas das exigências que constavam no edital era que 90% da produção fosse locada no Amapá e que 80% da equipe contratada fosse amapaense, residente no estado por no mínimo, um ano. Desta maneira, o projeto cumpriria o objetivo de gerar emprego no Amapá.

Ana Vidigal, gerente do Núcleo de Produção Digital (NPD)

Para Ana Vidigal, gerente do Núcleo de Produção Digital (NPD), regente do edital, esta iniciativa “dobra uma esquina transformadora, que possibilitou o realizador olhar o audiovisual como um mercado, como um setor da economia”. Ela explica que esta é a primeira vez em que o desenvolvedor de audiovisual, no Amapá, tem um recurso no banco que garanta a produção de sua obra, incluindo o Microempreendedor Individual (MEI).

“Nós temos o fundo setorial, temos uma agência, um mercado. Além disso, somos uma área da cultura que mais agrega. Você não faz um filme sem pensar na costureira, no cozinheiro, no músico, entre outros profissionais”, ressalta Vidigal.

Um dos projetos selecionados foi o Super Panc Me, um telefilme (filme para televisão) de ficção, com direção e roteiro do cineasta Marcus Oliveira, proposto pela Castanha Filmes. Para o diretor, “a experiência de realizar uma ficção na cidade com possibilidade de estrutura é uma bênção: é a possibilidade de colaborar para a construção cultural do nosso povo”.

Ele salienta que seu filme faz parte da primeira geração de obras ficcionais de uma indústria cultural que gera emprego e distribuição de renda, além de representatividade da cultura amapaense. “É o momento do amapaense se reenxergar nas telas, se reconhecer e se ressignificar. De vislumbrar outras possibilidades de realidade a partir do que se vive aqui no Estado. E esse momento só é possível graças ao histórico de produção voluntária, amadora, apaixonada e de resistência dos últimos anos”, declara Marcus Oliveira. Ana Vidigal lembra que desde quando se mudou para Macapá, há dezoito anos, os profissionais do audiovisual buscam o desenvolvimento do setor.

A gerente do NPD esclarece que dos doze projetos selecionados no edital, nove foram financiados com o valor de um milhão de reais disponibilizado pelo Estado e que tiveram o recurso depositado em conta bancária. Todos estes filmes enquadram-se em telefilmes e/ou curtas-metragens. A partir do pagamento, as produções teriam doze meses para serem concluídas. O telefilme de ficção Super Panc Me, teve as últimas gravações finalizadas em abril deste ano. Os outros três filmes, que são longa-metragens, dividiram os dois milhões de reais disponibilizados pela Ancine.

Sobre a produção Super Panc Me e a importância do tema abordado

O telefilme é uma releitura do documentário Super Size Me, dirigido por Morgan Spurlock (2004). Na trama original, o personagem principal é o próprio diretor, que registra em vídeo trinta dias da sua vida comendo apenas comidas de fast food da rede McDonald’s. Ele mostra todas as transformações pelas quais seu corpo passa consequentes da rotina alimentar, desde as mudanças no peso, até a constante sensação de exaustão.

Em Super Panc Me, uma garota decide fazer um documentário sobre sua rotina alimentar assim como Spurlock. Mas invés de McDonald’s, ela passa a se alimentar de Plantas Alimentícias Não-Convencionais (Panc). A expressão Panc foi assinalada pelo botânico, professor e pesquisador Valdely Ferreira Kinupp em sua tese de doutorado em fitotecnia (técnica de estudo das plantas) pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).

Panc é o acrograma para Plantas Alimentícias Não-Convencionais, que são plantas de potencial alimentício, mas pouco conhecidas pela maioria das pessoas. Algumas já estão prontas para consumo, outras necessitam de um processo de cozimento. De acordo com Kinupp, muitas plantas/ervas espontâneas, as chamadas “daninhas” ou “inços”, são alimentícias, porém estão em desuso por grande parte da população, consumidas geralmente em pequenas regiões e cultivadas em escalas domésticas por produtores que conhecem sua funcionalidade.

Em 2014, o pesquisador Valdely Ferreira lançou o livro “Plantas alimentícias não-convencionais (PANC) no Brasil: guia de identificação, aspectos nutricionais e receitas ilustradas”. Na obra são listadas mais de 300 espécies de plantas comestíveis. Em Macapá já foram cadastradas mais de 30 espécies, entre elas a “Maria Pretinha”, uma planta com uma frutinha roxa, que é a parte comestível. Outros exemplos são a papoula vermelha e a própria Vitória-régia que contém fruto alimentício.

Enquanto Morgan Spurlock quis fazer uma crítica aos hábitos alimentares de sua geração, que ingeria excessivamente comida de fast food, reflexo da falta de tempo para aguardar o preparo de pratos mais balanceados, Marcus Oliveira quis trazer à tona a discussão sobre outras maneiras de se alimentar.

“O projeto partiu de pesquisas que faço sobre formas alternativas de alimentação e identificação botânica. Juntei a prática audiovisual e a necessidade de se discutir soberania alimentar nos territórios urbanos da Amazônia para elaborar o filme. A ideia surgiu num período em que estava assistindo muitos documentários sobre consciência alimentar, como Cowspiracy, What the Health, O veneno está sobre a Mesa, Food Mais”, explica Marcus.

A soberania alimentar conceitua-se no direito das sociedades de escolher o que produzir, como produzir e para quem produzir. É o direito dos povos de produzir seu próprio alimento, de definir políticas próprias de produção sustentável, distribuição e consumo de alimentos, garantindo alimentação à toda população, tendo em vista suas prosódias culturas e diversidades.

Em contraponto ao conceito de soberania alimentar, temos a segurança alimentar que consiste no direito da população ao acesso habitual e perdurável a alimentos de boa qualidade e em quantidades suficientes, sem comprometer qualquer outra necessidade básica. Além disso, deve-se basear em práticas alimentares saudáveis, respeitar as diversidades culturais e manter ambientes ambientais, sociais, culturais e econômicos sustentáveis.

A soberania alimentar é uma proposta alternativa de produção e consumo, visando estabelecer que se esses meios estão sob “domínio” do povo, não devem subordinar-se a vontades governamentais ou de empresas privadas. Já a segurança alimentar defende o modelo de produção e consumo, e o define como fundamental para garantir a segurança alimentar e nutricional a quem ingere, produz e distribui o alimento, além de garantir segurança e respeitar o meio ambiente, de onde são retirados os alimentos.

O diretor da obra ressalta que embora o centro irradiador do filme sejam as Panc, tema que diariamente ganha a devida importância, por se tratar de soberania alimentar em um país que vem perdendo acesso a alimentação de qualidade, “o filme também trata de realização audiovisual, conexão com a natureza, relações pessoais, ocupação e violência urbana, comportamentos abusivos, assuntos que podem contribuir para discussões sobre os contextos sociais que vivenciamos em Macapá e na Amazônia brasileira”.

Produzindo em Macapá…

Todas as cenas do telefilme foram gravadas no Estado. Na capital Macapá, os bairros Renascer, Trem, Marabaixo 2, Baixada Pará, Centro, Perpétuo Socorro e Santa Rita viraram cenário da história. Além da Área de Preservação Ambiental (APA) da Fazendinha e o Raízes do Bolão, no bairro Curiaú. Uma loja de confecções e o centro de Santana também foram parte das filmagens.

A seleção dos integrantes do filme também priorizou a escolha de profissionais locais. Para a seleção dos atores, foi realizada uma chamada pública por meio das redes sociais, além de convites diretos a atores e aspirantes. De acordo com informações da produção, mais de 70 pessoas se inscreveram, 32 pessoas realizaram o teste e o elenco foi fechado com 16 atores e atrizes, com 4 pessoas compondo o elenco principal.

Depois de selecionados, os artistas participaram de uma dinâmica em grupo, que aconteceu no espaço externo do Museu Sacaca. Após a dinâmica, cada um passou por um teste gravado individual. Ao final desse período, o diretor Marcus Oliveira juntamente com a equipe de produção, escolheram cada personagem baseado nos currículos, nos testes e nas entrevistas.

Ariane da Silva Pereira, ou apenas Hary Silva (nome artístico), interpreta a protagonista do telefilme. A atriz de 18 anos, revela que ficou sabendo do teste de elenco pelas redes sociais, mas não se encaixava no perfil procurado, já que pediam uma jovem entre 20 e 22 anos e ela só tinha 17 na época. Porém, depois recebeu um convite do próprio diretor e acabou conquistando a vaga, e interpreta a personagem Gabriela Iana, carinhosamente apelidada de “Gaia”.

Hary Silva é atriz há sete anos e em 2018 se formou em Técnica em Produção Audiovisual. Ela já participou de outras produções, mas que não foram concluídas. Esse foi o seu primeiro trabalho como protagonista, e ela garante ter sido um sonho realizado, especialmente por se tratar de uma produção regional. “O interesse de participar de qualquer produção aqui no Estado enche os olhos de qualquer ator local. Comigo não foi diferente. Além de tudo, eu amo minha profissão, tenho maior prazer em ser atriz, oportunidade de trabalhos assim, não podem ser desperdiçadas”.

A atriz ainda ressalta a importante mensagem que o filme traz em seu enredo, sobre uma alimentação mais saudável. “A importância do filme é ímpar, é visível. Ele vem realmente para conscientizar a gente sobre novas formas de alimentação. As PANCs são plantas alimentícias não convencionais, e ele quer mostrar para a gente que há alimento no nosso quintal, na rua… O filme passa uma realidade que nos traz mais saúde”.

A estreia de Super Panc Me está prevista para julho deste ano, na Tv Cultura do Pará. O edital exigia que ao apresentar a documentação para concorrer ao FSA, os grupos de audiovisual deveriam entregar também o comprovante de licenciamento para exibição em canal de televisão. Porém, o Estado foi quem articulou a licença junto da Tv Cultura. “Por ser o primeiro edital, nós percebemos que os nossos realizadores ainda não têm essa expertise, nunca vivenciaram esse processo de licenciamento de uma obra. É importante pontuar que a Tv Cultura licenciou cem por cento das obras. É muito difícil um estado conseguir isso”, explica Vidigal.

A Secult, junto do NPD e do Museu da Imagem e do Som (MIS) está organizando uma grande festa de lançamento das nove obras financiadas com o recurso do Governo do Estado, prevista para 29 de junho.

Fonte: Revista Digital Tajá

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