18 de Maio: Dia Nacional da Luta Antimanicomial – Por Janisse Carvalho

Por Janisse Carvalho

Quando uma luta se torna um cotidiano de práxis e libertação!

O dia 18 de maio é o dia em que comemoramos o Dia Nacional da Luta Antimanicomial, a luta contra os manicômios, uma luta em que queremos destruir, descontruir, colocar a baixo todo e qualquer modelo de asilamento, exclusão e isolamento. É uma luta em que acredita-se na pratica da liberdade, do cuidar em liberdade, do respeito às diferenças pela premissa da igualdade: que a loucura é condição humana e portanto todos nós estamos sujeitos a uma vivencia intensa ou aproximada com ela.

A loucura é tudo aquilo que não conseguimos definir (uns até tentam, mas sinceramente, não convencem!). Por isso ela ora faz sofrer, ora faz libertar. A fronteira entre um e outro é tênue, eu diria quase que imperceptível. Daí a necessidade de aprendermos a lidar com ela.

Em nossa sociedade aprendemos a nos distanciar de tudo o que desconhecemos. Nos distanciamos nos afastando fisicamente, negando, isolando, racionalizando. A mente esquece mas o corpo lembra! Nos acomodamos em padrões, em relações sem sentido, em trabalhos adoecedores, em diversões que viciam. Nos isolamos. Temos medo de expressar sentimentos, nos fechamos, não nos permitimos. Mantemos coisas e ideias pois mudar é sempre mais difícil! Mudar com fundamento digo. Por isso, nos tornamos conservadores.

Por não entrar em contato com o que desconhecemos, nos distanciamos de nós mesmos!

Nesse movimento de estranhamento, rotulamos, estigmatizamos, preconceituamos. Reduzimos pessoas, sentimentos e pensamentos a termos, palavras, nomes, siglas, partidos. Partimos!

Produzimos soluções “deus ex machina”, imediatistas, reacionárias do tipo “vamos liberar as armas pois os bandidos nos matam” (mesmo pregando o amor de Cristo e pedindo perdão aos domingos!), “vamos pagar menos às mulheres pois elas engravidam” (já que trabalho em casa não é trabalho!), “bandido bom é bandido morto” (já que sou o exemplo de retidão e cidadão de bem!) e por ai vai…

Nos comportamos como seres sem intelecto. Automaticamente, mecanicamente, reacionariamente!

A função do intelecto nos dá a noção de tempo e espaço que, em tese, é o que nos faz mais evoluídos do que os outros animais… não sei não! Ela deveria nos colocar em posição de atores e não de reagentes. Foi assim que a luta antimanicomial começou a fazer parte do meu cotidiano: me provocando a pensar.

Estou longe de ser a pessoa mais consciente no mundo. Nem sei se isso um dia acontecerá. Só sei dizer que não sou mais aquela Janisse de 1993, quando comecei a estagiar num hospital psiquiátrico de Belém (PA).

Nesses anos em que o lema da sociedade sem manicômios penetrou na minha alma, por meio do meu intelecto, me fez construir uma prática espiritual cotidiana da reflexão (quase chata!) e isso mexeu com meus preconceitos, feriu meu ego, tornou o inconsciente em mim tão presente quanto o consciente. Minha vista mais límpida, meus alerta interior gritante como um choro de bebe. Comecei numa reflexão de fora para dentro. Hoje a grande mudança que vejo, é um olhar de dentro pra fora.

Quando temos algo pelo qual lutar, algo que nos faz transcender a nós mesmo, algo que amplia nossos horizontes, somos capazes de olhar pra nós mesmo! (Ou pelo menos deveria ser assim!)

Quando lutamos por algo, nos indignamos ao ponto de explodir. Nem sempre é a melhor saída eu sei… meu amigos conhecem as minhas explosões! (Perdão por isso!)

Mas quando lutamos por esse algo maior, compreendemos que a vida é muito mais do que só adquirir bens, muito mais do seguir preceitos religiosos, muito mais do que competir, muito mais do que ser fiel a uma teoria acadêmica. Transpomos as fronteiras sem relativiza-las: entre o bem e mal, moral e imoral, entre teoria e prática, material e espiritual. Entendemos as conexões, pois as vemos, as sentimos, as vivemos dentro de nós!

A luta antimanicomial foi uma luta que me transformou. Ou melhor, iniciou algo dentro de mim o qual eu vivo intensamente hoje.

A luta antimanicomial não diz respeito só às reformas no campo da saúde mental, na política ou nos serviços e práticas clinicas. A luta antimanicomial diz respeito a uma revolução silenciosa que acontece dentro de nós, isto é, quando nos permitimos a isso, quando usufruímos inteiramente do dispositivo do intelecto, quando percebemos, mesmo sem como saber dizer, que a unidade do universo habita em nós!

A luta antimanicomial é a luta dos negros, das mulheres, das crianças e adolescentes, dos índios, a luta dos oprimidos. Mas é também a luta dos que se sentem vazios, solitários, infelizes. É a luta dos que, mesmo vivendo e reproduzindo o que a sociedade prega, desconfiam, se incomodam, percebem que há algo de podre no reino. Cuja a miséria humana, não só a material, fede.

Mas que ao mesmo tempo conseguem ver que também há algo de belo no reino e contraditoriamente, acreditam no ser humano!

Entender que a luta antimanicomial, ou qualquer outra luta pela dignidade e solidariedade entre humanos e não humanos, se dá no cotidiano e nos faz ficar sempre alerta para os manicômios que construímos, ou deixamos construírem, dentro de nós! Só com essa ciência, digo com-ciência, caminharemos para a congruência da teoria posta em prática!

Viva a luta antimanicomial!

Viva a luta pela liberdade de ser quem somos!

*Janisse Carvalho, psicóloga, professora universitária e militante antimanicomial.

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