A LIRA LIGEIRA DO SÍLVIO LEOPOLDO – Crônica de Fernando Canto

Poetas Silvio Leopoldo e Fernando Canto – Foto: blog da Sônia Canto

Crônica de Fernando Canto

Com a morte de Sílvio Leopoldo, o Amapá perde mais um dos seus melhores poetas. A notícia chegou fulminante através do amigo Mário Corrêa em pleno sábado, 13 de outubro, dentro de um supermercado do Laguinho, bairro cantado aos quatro ventos pelo compositor que tinha verdadeira adoração pela Escola de Samba da Nação Negra, a Boêmios do Laguinho.

Eu havia escrito aqui neste espaço que já não achava mais tão difícil falar em morte, sobretudo a de meus amigos, que foram como garças voando “com as penas que Deus lhes deu”, no dizer do ladrão de marabaixo lá de Mazagão. Portanto não posso deixar de comentar sobre um dos mais talentosos poetas com quem convivi em Macapá e depois em Belém.

Conheci o Silvio através de Manoel Sobral, em 1971, no III Festival Amapaense da Canção, quando ele conquistou o terceiro lugar com a música “Cantiga”, interpretada por Graça Pennafort. Mas Sílvio Leopoldo já tinha uma história: foi o idealizador e realizador do I FAC, em 1968, e bem antes publicara o opúsculo “Primeiras Poesias”, aos 14 anos de idade. Precoce como compositor e poeta Sílvio era uma promessa excepcional. Aos 17 publicou “Velas do meu Mar”, que teve duas edições. Chegou a estudar no Colégio Pedro II, no Rio de Janeiro, e fez o curso de Biblioteconomia na UFPA, onde também iniciou o curso de Direito, que logo abandonou. Em 1975, a pedido do Sobral, fiz os arranjos e acompanhei duas músicas de sua autoria, “Problemática” e “Água Benta”, que ganharam o primeiro e o segundo lugar, respectivamente, no V FAC, em detrimento até da música “Geofobia”, de minha autoria e de Jorge Monteiro, que daria início à formação do Grupo Musical Pilão. Nesse ano Sobral foi o Melhor Intérprete.

No decorrer de sua carreira recebeu várias premiações na área da música e da poesia e em 1977 publicou o livro “Lira ligeira”, quando morava na cidade de Altamira, no Pará. Figura em algumas antologias e muitas de suas composições foram gravadas por cantores regionais, inclusive por Manoel Sobral e pelo Grupo Pilão, como as músicas ”Zanga dos Rios” e “Saga”, única que chegamos a fazer em parceria. Em 1990 saiu editado pelo Governo do Estado do Amapá o livro “Era uma Vez Num Fundo de Gaveta”, no qual reuniu poemas novos e outros já publicados. Em Belém fui convidado por ele para fazer a apresentação de sua obra no lançamento na biblioteca da Embrapa, onde trabalhava. Houve show do Pedrinho Cavalero e muitos canapés, do jeito que ele gostava.

Na última terça-feira, 09 de outubro ele lançou seu último livro “Evocação de Ajuruteua”.

Dos seus poemas destaco “Evocação de Macapá”, uma espécie de passeio ao seu tempo de adolescência, e “Acorda João”, poema social muito bem elaborado. E é do fundo da gaveta, no poema “Holocausto II, Pesadelo”, que o poeta tira os versos: “Todos os meus amigos partiram (…)./ Levaram consigo a terrível dúvida/ E o pálido receio. Levaram consigo a resignação/ Predestinada dos profetas./ Ainda ontem estavam comigo.” Depois ele arremata num aniquilamento radical que “Todos os meus amigos partiram…/ Nunca mais os vi, nunca mais. Ouvi dizer que em algum lugar a terra se abriu/ com o sangue quente dos meus amigos./ Ouvi dizer que meus amigos/ Não tiveram nenhuma chance,/ e que na hora inexata da morte/ Ainda falavam da Grécia”.

Leva, poeta, a tal resignação predestinada dos profetas, encontrada ao lume da leitura de Alcy, Cordeiro e Álvaro, na rebeldia de Isnard, Raimundevandro e Saulo, no cromatismo de Azarias, Aluísio e Arthur, e de tantos que se foram, como bem disseste, e que choraram pelas suas sinas de “Alimentar esperanças/ Entre as dores e os desenganos”.

(*) Jornal do Dia. Out/2007

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