Como nos tornamos tão falhos – Crônica de Marcelo Guido – @Guidohardcore

Crônica de Marcelo Guido
Uma reflexão crítica inspirada em ‘A Ordem do Discurso’, obra que fundamentou minha monografia, sobre política, linguagem e poder no Brasil recente.
No meio de uma das maiores crises da história recente, o Brasil entrou em um período que, olhando em retrospecto, levanta uma pergunta incômoda, como chegamos até aqui?
Sob o comando de Jair Bolsonaro, o país viveu não só uma crise política, mas um verdadeiro apagão de referências , onde fatos passaram a disputar espaço com opiniões e a verdade virou quase uma questão de torcida.

Na prática, o que se viu, e que virou manchete atrás de manchete, foi um governo que adotou como estratégia recorrente o desgaste da confiança pública. Ciência, universidades, imprensa e instituições foram colocadas sob suspeita. Em entrevistas, discursos oficiais e postagens nas redes, criou-se uma narrativa de que esses espaços não eram confiáveis, mas sim parte de um suposto sistema que precisava ser combatido. Foi um movimento contínuo, quase uma “linha editorial” do poder: desacreditar para substituir.
Durante a pandemia, esse processo ficou ainda mais evidente. Enquanto o país enfrentava um cenário crítico, com hospitais lotados e números alarmantes de mortes, o discurso oficial frequentemente colocava em dúvida orientações básicas da ciência. Vacinas foram questionadas, medidas de proteção foram ridicularizadas e especialistas foram desautorizados em rede nacional. O que deveria ser uma comunicação clara virou um campo de ruído constante.

Nos bastidores, pesquisadores e profissionais de saúde tentavam manter o debate técnico. Mas, no noticiário e principalmente nas redes sociais, o que ganhava força era outra narrativa. E aqui entra um ponto central, essa estratégia não funcionaria sem adesão. E houve adesão. Uma parcela significativa da população comprou essas ideias como verdades, reproduzindo discursos, compartilhando desinformação e reforçando a desconfiança nas instituições.
Esse fenômeno não aconteceu por acaso. Ele dialoga diretamente com o que Michel Foucault analisa em A Ordem do Discurso. Para o autor, o discurso é sempre atravessado por relações de poder. Não basta dizer algo, é preciso criar as condições para que aquilo seja aceito como verdade. E foi exatamente isso que se viu, uma verdadeira disputa direta pela definição do que era real.
Ao desacreditar a ciência e as instituições públicas, abriu-se espaço para uma nova “verdade”, construída a partir de crenças, ideologia e identificação política.

Criou-se uma lógica em que o especialista passou a ser visto com desconfiança, enquanto figuras públicas, mesmo sem embasamento técnico, ganhavam credibilidade. Foi uma inversão perigosa, um verdadeiro “curto-circuito” na forma como a sociedade valida o conhecimento.
No jargão jornalístico, dá para dizer que houve uma mudança no “enquadramento” da realidade. O foco deixou de ser o fato em si e passou a ser a narrativa sobre o fato. E, quando a narrativa é repetida à exaustão, o chamado “efeito eco”, ela ganha força, se espalha e acaba sendo naturalizada.

Outro elemento que ajudou a consolidar esse cenário foi a divisão constante entre “nós” e “eles”. De um lado, os que “acreditam”; do outro, os que “mentem”. Essa simplificação extrema facilitou a adesão, porque transforma questões complexas em escolhas simples. E, quando tudo vira lado, a verdade perde espaço.
A chamada “vontade de verdade”, conceito central em Foucault, aparece aqui de forma distorcida. Não se trata mais de buscar o que é verdadeiro com base em evidências, mas de defender aquilo que reforça uma identidade ou posição política.
E isso ajuda a explicar por que tantas pessoas passaram a rejeitar informações confiáveis, não era sobre dados, era sobre pertencimento.
Enquanto isso, o discurso do próprio Jair Bolsonaro funcionava como referência central. Suas falas eram replicadas em larga escala, criando um efeito cascata. No rádio, na TV, nos grupos de mensagem, nas redes sociais ,a mensagem se espalhava, muitas vezes sem questionamento. Era a construção de uma realidade paralela, sustentada pela repetição.

O resultado desse processo foi um país dividido, confuso e mais vulnerável à desinformação. A confiança nas instituições foi abalada, o debate público se deteriorou e consensos básicos, como a importância da vacinação, foram colocados em xeque. O prejuízo não foi só político, mas social.
No cenário internacional, esse comportamento também se conectou a outras lideranças e movimentos, como o de Donald Trump, reforçando uma espécie de alinhamento ideológico global baseado em desconfiança institucional e discurso polarizado.
No fim das contas, o que esse período escancara é que o discurso tem poder real. Ele molda decisões, influencia comportamentos e redefine o que uma sociedade aceita como verdade. E, quando esse discurso é usado para desacreditar ciência, enfraquecer instituições e dividir a população, os efeitos são profundos e duradouros.

A pergunta que fica, como nos tornamos tão falhos ? Talvez tenha uma resposta incômoda:
Porque, em algum momento, deixamos de questionar. Porque aceitamos narrativas prontas ou seja porque trocamos o rigor dos fatos pelo conforto das crenças.
E, como mostra a história recente, quando isso acontece, o preço é alto e a conta chega para todos.
Dedico esse texto para meus amigos Gustaveira e Marlon Coutinho , que ainda sofrem cognitivamente.
