Lavagemdelouçaterapia – Crônica de Ronaldo Rodrigues

Crônica de Ronaldo Rodrigues
Ontem, de madrugada, acordei às 5h30. Me levantei da cama, abri a porta do quarto e me dirigi à cozinha. No caminho, ia pensando: “Tomara que ninguém tenha lavado a louça. Eu preciso lavar louça agora, em plena madrugada”.
Cheguei à cozinha e constatei, maravilhado:
– As pessoas que moram comigo são muito legais! Deixaram toda a louça! E só pra mim! Que bom!
Imediatamente me lancei a lavar a louça, aquela montanha de copos, talheres, xícaras, pratos, conchas, panelas… Eu me deleitava lavando pacientemente louça por louça. Aquelas louças eram meus instrumentos, meus utensílios, minhas ferramentas que me ajudavam no meu alimentar.
Eu penso muito quando estou lavando louça. Me vem tanta coisa na cabeça que, quando acabo de lavar, fico achando que nem era tanta louça assim.
Certa vez fiquei brabo porque não me deixaram lavar a louça de um almoço do qual eu era o convidado especial.
– Não tem cabimento! – disseram. – Vieste aqui para ser homenageado, não para lavar louça!
Se eles soubessem que a homenagem é justamente essa: lavar a louça, limpar a sujeira do mundo. Essa é a honra. A não ser que isso seja uma grande bobagem da minha parte. Acredito que não. E seria muito bom que todo mundo tivesse, e curtisse, seu momento de lavar a louça.
Já enxugar louça não me atrai muito, não me convidem para isso. Muito menos me impunham isso. Lavar, eu encaro de boa. Até panela de pressão, que é um pouquinho complicada, eu lavo brincando, cantarolando.
Lavando a louça perdoo até a música ruim que vem do vizinho ao lado e ignoro completamente o jogo de futebol que o locutor narra aos berros no aparelho de som do vizinho do outro lado.
Lavando a louça imagino soluções para o mundo e este tempo tão conturbado. Uma vez cheguei a um raciocínio bem legal sobre essa coisa de ser feliz, de viver uma existência que não atrapalhe outras existências. Como ser uma pessoa melhor, pra mim mesmo e pra humanidade.
Lavando louça me perco no tempo. Ele passa tranquilo, maneiro, sereno… Ih! Eu acabava de constatar uma coisa: as louças já estavam todas limpas e guardadas no escorredor. Para completar o ritual, lavei a pia, passei uma vassoura na cozinha e fui dormir, ainda era madrugada.
Fui dormir para acordar e ir viver outras ações, frequentar outros ambientes, interagir com outros seres humanos, até que o tempo role – tudo a seu tempo, ele é que sabe – e chegue o momento de mais uma lavagem de louça.
