O DITADO – Conto de Luiz Jorge Ferreira

Conto de Luiz Jorge Ferreira

Minha tia morreu jovem aos oitenta anos de um parto prematuro. Minha mãe morreu velha aos 16. Eu sobrevivi até hoje. Sobrevivi, porque Deus adoeceu e não viu que eu me escondia debaixo deste assoalho de tábuas podres onde eu moro. Eu e meus três cavalos: Açaí, Bacaba e Tucumã. São três belos cavalos garanhões, fogosos e brabos.

As proximidades do outono, Bacaba pariu um potro albino que eu chamei de Tucuxi. Uma anciã, que jogava búzios, disse-me que ele era filho de boto. Um velho Saci Pererê, que vinha lavar a ferida da perna no córrego, onde lavo os meus cavalos, disse-me ser ele filho de seu próprio pai. Um índio da tribo dos Tumucumaque, que eu conheci salgando peixe-boi no Porto de Santana, disse que ele era fruto dos sêmens trazidos pelas correntes marinhas, oriundos das noitadas dos marinheiros de Ulisses, que o engravidara assim como acontecera com Helena. O fato é que me afeiçoei tremendamente ao potro Tucuxi e ele a mim. Com a chegada do desmatamento e a transformação da floresta em pastagens, Tucuxi começou a se afastar e procurar ser aceito pelos bandos de cavalos que pastavam do outro lado do córrego, agora um rio de águas amareladas.

O clima começou a mudar e as noites foram ficando mais longas. O córrego onde eu lavava Açaí, Bacaba e Tucumã salgou-se. Um mateiro, cego de um olho, disse que isso tinha sido feito por um índio que salgava peixe-boi. O soldado, que patrulhava a fronteira entre o Amapá e a Guiana Inglesa, disse que foi o azougue. E um regatão, vendedor de perfume francês de duas cores e chita colorida transparente, disse que foi o Tsunami em Macacoari.

O fato é que com a transformação da água doce em água salgada, Açaí, Bacaba e Tucumã envelheceram, perderam os dentes, os pêlos, racharam as patas e encolheram as pernas traseiras. Em vez de relinchar apenas miavam. Tucuxi parecia uma canoa. Ficava flutuando como uma toiça branca pela extensão do córrego, agora um pequeno rio-mar.

Toda à noite de lua cheia, eu saia um pouco debaixo do jirau de tábuas podres e olhava para o firmamento. Como não via os olhos de Deus procurando-me, ia ao rio e lavava-me sob a intensa dor provocada pelo sal das águas na minha carne avermelhada e nas feridas aberta nos meus pés. Eu já estava criando cascos. Descobri olhando os rastros que eu deixava na lama da margem. Em mim, também, nasciam asas. Isto eu descobri pela grande quantidade de penas no rio. Estava translúcido, de pele muito alva, resultado do enorme tempo que vivia debaixo do jirau de tábuas podres. Escondido dos olhos de Deus.

Tucuxi ficava horas comigo. Eram dois albinos tomando banho despreocupadamente. Talvez pai e filho. Talvez anjos caídos. Talvez cavalos. Deus quando me encontrou morreu. Fiquei órfão. A lavadeira que batia as roupas esfarrapadas de encontro às pedras porosas do rio, disse para eu rezar. A bota que expelia óvulos debaixo da folha do mururé, para que o sol os fecundasse, disse para eu beber Andiroba. A brisa que acariciava o dorso das Cobras e Poraquês deu-me de costas. A prostituta, que se dependura na beirada dos barcos para vender-se em poucos minutos, ficou com pena de mim e deu-me um Curumim que, hoje, é: – Quem escreve o que falo.

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