O NOVO DILÚVIO – Conto de Mauro Guilherme

Conto de Mauro Guilherme

O meu nome é Fausto e não Noé, mas sou o único sobrevivente do segundo dilúvio do mundo. Ninguém veio me avisar que a haveria um dilúvio, mas sonhei que haveria, e acreditei. Sendo mais verdadeiro, nas primeiras trintas vezes que sonhei, achei que era para jogar no bicho, mas como nunca ganhava, tive que mudar a minha interpretação do sonho.

Não tive que construir arca nenhuma, porque como sou pescador, já possuía o meu próprio barco. Não é um barco grande como a arca de Noé, mas para mim dava. Como sou solteiro, não trouxe mulher, nem filhos para a minha viagem. Como no meu sonho ninguém mandava eu trazer animais, viajo sozinho.

A única coisa que meu deu trabalho foi ter que comprar alimentos e muitas outras coisas para a minha viagem de quarenta dias e quarenta noites. Eu sou pescador, mas não iria passar todo esse tempo só comendo peixe, até porque eu não sabia se ainda haveria peixe depois do dilúvio. O tempo pode ter passado, mas Deus continua com a mesma matemática dos quarenta.

Choveu muito, e tudo alagou. A minha cidade virou um rio gigantesco. Então eu fui navegando e vivendo como podia. Mas agora parou de chover. Se deu os quarenta dias previstos, não sei, isso é com Deus. Eu não fiquei contando os dias da minha navegação. Eu fui naquela da música do Paulinho da Viola: “Faça como um velho marinheiro/Que durante o nevoeiro/Leva o barco devagar”.

Fui levando o barco com toda a perícia que o tempo me deu, porque a chuva era forte, não era garoa, e porque as águas do rio ficaram turbulentas por muito tempo. Eu não sei por que eu fui escolhido para sobreviver ao segundo dilúvio, mas certamente o fato de eu ser marinheiro contou. Quem não soubesse navegar, iria afundar na primeira onda.

A chuva parou faz dez dias, e desde então procuro terra firme, como fez Noé. Só não tenho um pássaro para mandar por aí a procura de pedaço de folha ou graveto, a fim de saber se já existe terra em lugar. Antes eu estava mais tranquilo, mais toda carne acabou, e agora só como o que pesco.

Por outro lado, quando estava chovendo eu ficava sempre ocupado em pilotar o barco, para que ele não afundasse. Mas depois da tempestade veio a bonança, e ponha bonança nisso. Por isso fiquei sem ter muito o que fazer. Agora é tudo como aquela música do Martinho da Vila, que Deus o tenha: “É devagar/ É devagar/ É devagar é devagar devagarinho…

O que é que estou vendo ali!? É terra firme, graças a Deus! O senhor ouviu as minhas preces! É só maneira de falar porque não sou muito de reza, e não rezei para encontrar terra firme. Direciono o meu barco para aquele oásis no deserto. É também só maneira de falar também, porque água aqui é o que não falta. O que faltava era terra firme.

Cheguei na ilha, porque agora toda terra firme tem que ser uma ilha. Vejo que a ilha tem árvores, e árvores frutíferas. É um local belíssimo, onde a areia da praia é branca como a areia da praia de mar. Passo a explorar a ilha e vejo que existem pequenos animais, por isso caço logo um com o meu arpão para o jantar.

De repente, deparo-me com uma cabana. Aí a coisa ficou complicada na minha cabeça. Entro na cabana, mas não encontro ninguém lá. Só que é uma cabana que tem cama grande, mesa, uma cadeira, utensílios de barro ou madeira. Até forno de barro existe. Logo, alguém mora aqui. Preparo a minha janta e devoro a carne com o tamanho da fome de vários dias só comendo peixe. Estou muito cansado da longa viagem de barco. Por isso deito na cama e durmo.

Acordo no outro dia, e parece que estou no paraíso quando vejo uma mulher nua deitada ao meu lado. Mulher nua e linda. Levanto-me devagar e, como homem da casa, saio para caçar. Mato outro animal. Subo nas árvores para colher frutas também. Sou recebido pela mulher nua com abraços, beijos e carinho. Ela não disse nada, embora eu lhe fizesse muitas perguntas. Só fez sorrir para mim. Eu olho para o alto e digo: Obrigado, meu Deus, por atender as minhas preces! Dessa vez é verdade. Foi o único pedido que fiz para Deus durante a viagem: Que encontrasse uma mulher.

Durante os primeiros trinta dias fui vivendo aquela vida maravilhosa, com uma mulher que não conhecia e que não dizia nada. Para mim estaria tudo bem, se não fosse o fato da nossa união nunca se consumar. Ela era de uma santa ingenuidade. Foi então que tive uma ideia. Saí pela floresta e voltei com uma maça. Dei para ela. Foi tiro e queda. Ela começou a falar no mesmo instante. Também começou a me olhar diferente.

Eu estava enlouquecido de amor, e ela também. Assim, nos conhecemos biblicamente. Aquele mulher não poderia ser da terra, deveria ser do céu. Depois ela me disse que se chamava Eva, e eu lhe disse que me chamava Fausto. Seu semblante mudou. Ele perdeu o sorriso, deu-me um tapa no rosto e me chamou de cafajeste. Ela estava esperando alguém com o nome de Adão.

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