Tcherere tchê tchê / Tchereretchê / Tchê, tchê, tchê – Cachê da Prefeitura, mas só critico a Rouanet

Eu não conhecia, não sabia quem era Gusttavo (com dois tês mesmo) Lima.

Podem me chamar de idiota, mas confesso que não o conhecia. Isso até uns dez dias atrás.

Quando vi esse nome citado numa profusão de manchetes envolvendo dinheiro público, cheguei a pensar que o personagem fosse um antigo jogador do glorioso Combatentes, aquele time que despontou aqui em Belém até o início dos anos 1970. Mas logo concluí que o Combatentes nunca teve nenhum Gusttavo Lima em seu plantel. Então, tratei de conhecer quem é essa celebridade de quem tanto falam.

O cara é fera mesmo. Antes de mais nada, é bolsonarista (Heil, Führer!).

Cantor, compositor, produtor e arranjador, ele também é multi-instrumentista. Toca tudo, menos banjo. O resto, ele traça tudo. Também vi que num dos seus shows recentes, em Londres, vários jogadores do Chelsea estiveram na plateia. Inclusive o zagueiro Thiago Silva.

Aí, continuei a conhecer melhor Gusttavo Lima e deparei-me com um de seus maiores sucessos. Chama-se Balada. É uma composição de singeleza e profundidade comoventes. Só tem três estrofes – portanto, só duas a mais, por exemplo, que o Parabéns pra você.

A música, que você pode ver no vídeo acima, se é que já não a viu há muito tempo, resume-se a isto:

Eu já lavei o meu carro, regulei o som / Já tá tudo preparado, vem que o brega é bom / Menina fica a vontade, entre e faça a festa / Me liga mais tarde, vou adorar, vamos nessa.

Gata, me liga, mais tarde tem balada / Quero curtir com você na madrugada / Dançar, pular que hoje vai rolar

O tchê tcherere tchê tchê / Tcherere tchê tchê / Tcherere tchê tchê / Tchereretchê / Tchê, tchê, tchê / Gusttavo Lima e você.

Pronto. Acabou a música. É só isso mesmo!

Assim, numa interpretação livre, digamos assim, Tchê tcherere tchê tchê / Tcherere tchê tchê pode ser tudo. Como também pode não ser coisa nenhuma.

Tipo assim: pode ser uma noite de prazeres inenarráveis com a gata que ligou. Como também podem ser imoralidades indescritíveis feitas com o dinheiro público. Fica a critério do entendendor descobrir o sentido do Tchê tcherere tchê tchê / Tcherere tchê tchê / Tcherere tchê tchê / Tchereretchê / Tchê, tchê, tchê.

E na real?

Na real, o Ministério Público de Roraima apura o pagamento de um cachê de R$ 800 mil a Gusttavo Lima para um show no município de São Luiz. Considerando a população do município, de 8.232 pessoas, cada cidadão estaria pagando cerca de R$ 97 pelo show.

Na real, a Prefeitura de Conceição do Mato Dentro (MG) resolveu cancelar um show de Gusttavo Lima, que custaria aos cofres da cidade o valor de R$ 1,2 milhão. O contrato previa que a prefeitura pagasse a hospedagem de 40 pessoas da equipe do cantor “no melhor hotel da região” e se responsabilizasse com os gastos diários de alimentação, fixados em R$ 4 mil. Além disso, o executivo deveria fornecer o transporte do local para o artista, músicos, técnicos e produção.

Na real, vejam só, o deputado e pré-candidato à Presidência da República André Janones (Avante) destinou uma emenda de R$ 7 milhões ao município de Ituiutaba (MG). Desse valor, R$ 1,9 milhão será destinado à feira agropecuária do município. Entre os vários shows agendados, estava um de Gusttavo Lima.

Tem mais.

Na real, Zé Neto, também bolsonarista que faz uma dupla sertaneja com Cristiano (também cheguei a pensar que fosse uma velha dupla de área que jogou no extinto Júlio César, mas não era), disse o seguinte, há umas duas semanas, durante show no Mato Grosso:

“Estamos aqui em Sorriso, no Mato Grosso, um dos estados que sustentaram o Brasil durante a pandemia. Nós somos artistas e não dependemos de Lei Rouanet, nosso cachê quem paga é o povo. A gente não precisa fazer tatuagem no ‘toba’ para mostrar se a gente está bem ou não. A gente simplesmente vem aqui e canta e o Brasil inteiro canta com a gente”.

A referência à “tatuagem no ‘toba'” foi uma provocação à cantora Anitta.

Pós é.

Zé Neto tem razão. “Nosso cachê quem paga é o povo”.

Que o diga Gusttavo Lima.

Tchê tcherere tchê tchê / Tcherere tchê tchê / Tcherere tchê tchê / Cachê da Prefeitura, mas só critica a Rouanet.

Fonte: Espaço Aberto.

  • Pois, é Elton. E isso sempre ocorreu sob nossos narizes. Cadê a fiscalização dos gastos (de interesses) públicos?

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