Como diz a filósofa minha mãe – Crônica de Elton Tavares

Crônica de Elton Tavares
Existem pessoas que carregam o peso de quase nunca proferir uma palavra de sabedoria. Outras, como Maria Lúcia, ou Lucinha, minha mãe e filósofa de vida, parecem ter nascido com uma bússola moral e discernimento cirúrgico. Seus 72 anos não foram em vão; pelo contrário, ela é a personificação de experiências e, cada expressão, um livro de adágios. Um exemplo clássico é o “Te fia”, que já impediu muitas desventuras. Quando ela dispara essa sentença, é como um sinal de alerta pisca em neon: “Cuidado, há perigo na esquina!”. Essa expressão peculiar que serve de mantra. Que aliás já me salvou de encrencas e dores de cabeça.
Lucinha, com sua firmeza de caráter, nunca foi adepta de meias palavras. Quando algo não lhe agrada, não há espaço para dúvidas: “GUÁ!” explode de seus lábios com a precisão cirúrgica. Essa interjeição, que poderia muito bem ser acompanhada de um balão de exclamação, traduz reprovação pura e simples. Se fosse pintora, minha mãe seria uma expressionista, com o retrato das emoções em cores fortes e traços decididos.
Para as situações mais absurdas, aquelas que desafiam a lógica ou o bom senso, Lucinha recorre ao seu clássico “Rum, hum, hum”. É um comentário que resume uma análise crítica, um julgamento e um leve toque de sarcasmo. É o jeito dela de dizer que certas atitudes estão além do seu entendimento, ou melhor, da sua paciência. Isso, claro, sem precisar levantar a voz ou se alongar em explicações; afinal, o essencial é invisível aos olhos, mas não aos ouvidos treinados na sabedoria materna. Três sílabas que resumem um julgamento, uma crítica fina, um toque de ironia.

E quando ela diz que alguém encobre o outro, pois “acuvita” (alcovita). Ou seja, é alcoviteira ou alcoviteiro de mexerica. Uma figura sonsa, leva e traz. Não, mamãe não é dada a encobrir as falhas alheias, Lucinha não hesita em chamar a pessoa de “acuviteira”. Ah, quando ela quer dizer para olharmos discretamente para alguém que chegou, fala:” tira um fino”.
Como é uma cozinheira de mão cheia, Lucinha diz que comida ruim é feita no “tiêbei”, que quer dizer refeição preparada de qualquer jeito, malfeita, daquele jeito preguiçoso de quem não se importa com o resultado. E “tira um fino”, quando ela enfatiza que é preciso prestar atenção em algo ou em alguém. Tipo, olhar precisamente.
E quando algo não merece sua atenção, ela desdenha, com a calma de quem já viu muito: “Só o meu fraco”. Nessa frase, há um mundo de experiência, uma recusa clara de se envolver com as trivialidades. Não há tempo a perder com ninharias, e minha mãe, sábia, protege-se com sua franqueza, que pode até faltar em delicadeza, mas nunca em verdade. Isso serve como um escudo contra convites indesejados ou tarefas tediosas.

E o “Espia”, quando algo lhe enche os olhos ou alguém aparece muito pavulagem (metido a besta). Dou risada. ”Tá amuado. A cara tá que parece um terçado” é o jeito certeiro e simples de Maria Lúcia descrever alguém emburrado, fechado no seu próprio mundo de irritação. Um retrato fiel de quem se fecha e não quer conversa, reflete a rispidez de quem não está de bom humor.
Minha mãe é uma fortaleza de sinceridade. Ensinou-nos a escolher, a tomar as rédeas de nossas vidas. Cada uma de suas lições, ainda que envolta em uma casca de rigidez, é recheada de cuidado e amor. Sua honestidade pode ser contundente, mas é sempre movida por um desejo de nos proteger das agruras do mundo.
Ela segue a me guiar com suas frases, cada uma como um verso de um poema cotidiano. Com Maria Lúcia, nossa filósofa particular, a vida é um mosaico de conselhos, risadas e, claro, os ocasionais “GUÁ!”, “Rum, hum, hum” e “Te fia”, entre os outros ditados. E isso, meus amigos, é um privilégio raro e precioso que poucos têm. Não existe mãe igual. É isso!
