O brilho do Vaga-lume e a inveja ( @soniacanto )

Por Sônia Canto


Uma leitora inveterada, na ânsia de absorver mais e mais conhecimento, acumula livros, revistas e jornais, um calhamaço de papel, que dada a exiguidade do espaço, é primordial, pelo menos uma vez por ano, reservar um tempo para selecionar aquilo que vale a pena guardar e o que pode ser descartado.

É exatamente nesse momento que me encontro. Olhando velhos jornais, velhas revistas, relendo artigos. É muito difícil precisar quando aquele artigo interessante vai ser necessário, ou determinar se aquela notícia lida um ano depois passou a se constituir um fato histórico e aquele jornal deixa de ser apenas um periódico para se transformar num documento de valor para a História.

Metódica que sou, reservo pelo menos uma hora do meu dia para essa tarefa. Ao final deste período invariavelmente a pilha a ser preservada é sempre maior que a que selecionei para ser descartada.

Numa dessas vezes um texto me chamou a atenção: é de autoria de Daniel C. Luz e foi publicado em agosto de 2005 na revista Qualimetria, uma publicação da FAAP, Fundação Armando Álvares Penteado e discorre sobre a inveja.

Um dos sete pecados capitais, a inveja nunca incomoda o pecador, já que ninguém assume o fato de ser invejoso.

Desde a antiguidade a literatura é farta em ponderar sobre os malefícios da inveja. No artigo citado o autor nos fala da fábula de Esopo, quando um avarento e um invejoso, vizinhos um do outro, foram à presença de Júpiter, em seu oráculo fazer pedidos. O deus resolveu dar em dobro tudo o que lhe fosse pedido, esclarecendo, porém, que daria em dobro ao vizinho o que fosse concedido a um e a outro. O avarento pediu uma sala cheia de ouro, e conformou-se quando seu vizinho também foi agraciado. Já o invejoso pediu a Júpiter que lhe furasse o olho direito. Seu desejo foi realizado e seu vizinho avarento ficou cego dos dois olhos.

Como detectar a inveja? Olhe a seu redor. Pessoas bem sucedidas, seja no trabalho, na vida pública ou na vida pessoal são alvos dos invejosos. O invejoso geralmente perde grande parte de sua vida vivendo a vida de outros. Não percebe que aprimorar seus talentos é uma forma mais prazerosa de relacionar-se com seus semelhantes.


Deixo, agora, esta historinha abaixo para refletir. Era uma vez uma cobra que começou a perseguir um vaga-lume que só vivia para brilhar. Ele fugia rápido da feroz predadora e a cobra nem pensava em desistir. Fugia um dia e ela não desistia, dois dias e nada… No terceiro dia, já sem forças, o vaga-lume parou e disse à cobra: – Posso lhe fazer três perguntas? Ela disse:Não costumo abrir esse precedente, mas já que vou te comer mesmo, pode perguntar… – Pertenço a sua cadeia alimentar? –Não. – Fiz alguma coisa para você? – Não. – Então porque é que você quer me comer? A cobra respondeu: – Porque não suporto ver você brilhar…


Quantas pessoas não suportam o sucesso dos outros. Se, por exemplo, vêem uma casa nova, bem construída, nunca pensam no sacrifício de seus donos. Não só pensam como verbalizam que ela foi feita com dinheiro roubado. Se uma pessoa alcança o sucesso profissional, os invejosos buscam sempre uma forma de denegrir a imagem dela. Jamais agem de forma proativa.

Encerro aqui esta prosa com o último parágrafo de Daniel Luz: “A pessoa invejosa é uma pessoa doente que não suporta a si mesma, não suporta a sua imagem e somente consegue se olhar através do espelho do sucesso alheio”. Agora, que tal fazer um exame de consciência e expurgar esse pecado capital de você?” 

NA COPA DO BAR DO ABREU (*)

Por Isnard Lima

Entre os bares famosos de Macapá, desde o Elite Bar até o Gatto Azul, há de estar em primeiro escalão, o Bar do Abreu.

Vamos caminhar no tempo. Era noite ainda e adentrava num bar recém-inaugurado, na fronteira do Laguinho em um antigo açougue que pertencera ao Rodrigo. Estava acompanhado do poeta Alcy Araújo, que me avisava – esse bar vai ficar na história dos boêmios da cidade, Isnard. E ficou, mesmo. Isso foi em 1982. Era verão, dia 04 de agosto. Faz 20 anos. É o mais antigo, até agora. Naturalmente não se pode afirmar quanto tempo pode durar um bar.

Depende da época, frequentadores, da história, de uma série de fatores um tanto alcoolados, que não se fixam na pátina do tempo nem no verde-limo dos mármores.

O dono era um senhor de cabelos grisalhos – o Abreu, de Soure. O nome do bar foi idéia do jornalista Hélio Pennafor, já transitado. Nele entram e saem gerações de boêmios de todas as épocas e classes. Este que agora existe na FAB é o sexto. Passou por três bairros – Laguinho, Trem e Centro. É simples. Não lembra um Pub de Londres ou uma cantina de Nápoles, nem uma cervejaria de Berlim. É brasileiro e nele se toma cachaça, vinho, cerveja preta. Frequentam-no pessoas de todos os tipos sociais – estudantes, operários, jogadores de futebol, arrivistas, funcionários públicos, aposentados ou não, profissionais liberais e mulheres independentes.

Bar e restaurante bem simples, com comida sadia para todos os bolsos. Ambiente tranquilo, onde se paquera, namora, trata de negócios, políticas, futebol, artes, etc.

Em 1995, em dezembro, ao sair meu livro Malabar Azul do prelo do Rurap, o Abreu estava no Trem. Mas ao ambiente faltava o espírito inquieto e boêmio do Laguinho. O Abreu é cosmopolita. Abre até a madrugada, conforme o movimento. As garçonetes variam – quatro à noite, uma de dia. Prato simples – peixe, feijão com arroz, piracuru, carne grelhada, etc.

Freguesia cativa como poucas no Norte e Brasil. Há um grupo seleto e antigo de fregueses. Do compositor Fernando Canto à patota de turistas que se arrisca de vez em quando. Pessoas acima de 40 anos, tranquilas que esperam da Mira o tira-gosto do dia, enquanto chegam jornalistas, repórteres, escritores e poetas. Sempre tenho o meu pratinho feito. E meu crédito em pé. Ronaldo e Marquinho assumiram o comando, agora que o Abreu aposentou e foi descansar. Mas deverá estar presente no dia 04 de agosto, na festa maior do mais famoso dos bares desta terra dos tucujus, que bebiam bacaba. Um bar para ficar no coração de todo boêmio deste Estado equatorial. Não se sabe até quando. Talvez o poeta Isnard Lima ainda esteja por aqui quando ele um dia fechar e formos beber no Paraíso.

(*) Publicado no Diário do Amapá, edição de 22 de maio de 2002.

CABA NO BICO (Fernando Canto)

Por Fernando Canto

Certa vez, no sítio de um amigo nas terras quilombolas do Curralinho, acompanhei a professora Raquel fazendo um dos mais difíceis pratos da gastronomia nordestina: a buchada de bode. Foram aproximadamente quatro horas de trabalho até a refeição deliciosa esperada por todos os que ali se encontravam, num sábado ensolarado.

Nessa feitura entre o tempo e o desejo angustiado da água na boca a professora assobiava uma antiga modinha do cancioneiro popular. Então veio o comentário infeliz: “ah uma caba nesse bico”. Ela redarguiu com toda a calma: “por que quando a gente assobia sempre dizem isso”? E completou: “eu assobio porque estou feliz”. E continuou seu trabalho, deixando o interlocutor perplexo com a resposta.

Assobiar porque se está num estado de felicidade… Que frase mais bonita, solta em uma época em que é cada vez mais raro encontrar alguém assobiando na rua ou silvando por aí sem incomodar as pessoas. Assobiar não é tão somente soltar um som agudo, exprimir irritação vaiando algo ou alguém, mas a expressão pura da alma ao manifestar a alegria. A mata assobia, o rio assobia, a natureza lança com o vento sibilante sua forma manifesta de nos avisar sobre alguma coisa que vem.

A cultura amazônica deixa na figura fantástica da Matintaperera a inesquecível marca de um assobio que incutia o medo às criancinhas, através de uma melodia simples plenamente associada a essa lenda. Até hoje lembro a melodia que minha mãe assobiava para chamar a Matinta, que era uma velha fumante de cachimbo e que exigia tabaco dos que se arriscavam na floresta densa.

Lendas à parte, o desejo do outro de transformar a alegria do assobio em dor labial, posto que a caba (do Tupi kawa) é um vespídeo temível (um marimbondo de peçonha forte, que tem uma ferroada de fazer inchar a pele de qualquer cristão), é uma reprimida vontade que vem à tona quando a alegria do assobiador se manifesta. É impressionante como as pessoas dificilmente evitam dizer ou pensar a frase infeliz. Não é que eu pense que isso seja apenas uma ação ou um pensamento sádico, mas parece que o propósito – inconsciente ou não – é atrapalhar a felicidade do outro ao desejar uma grande dor causada pela ferroada do inseto. É uma coisa que já está calcificada em nossa memória coletiva, como se quiséssemos também ser felizes e não pudéssemos por pura incompetência ou inveja; como se quiséssemos também a própria dor transferida num processo amargo e masoquista, um castigo desejado pelos nossos mais recônditos pecados cometidos e acumulados pela vida. “Ah uma caba nesse bico” também exprime a uma espécie de rancor contra o inseto que apenas se defende naturalmente se provocado. Já vi casos de moleques que esperavam pessoas passarem perto do ninho de caba para atirarem pedras com baladeiras; li relatos de igrejas e casas que se incendiaram durante a queima de ninhos e conheci vítimas da peçonha da caba tatu. Disseram-me que a dor é terrível. Imaginemos então o ferrão de uma caba de igreja na boca de alguém. E o inchaço seguido. Possivelmente uma pessoa alérgica morreria em algum lugar sem assistência médica como a maioria dos lugares dessa Amazônia imensa.

A simples resposta da professora Raquel ensina a lição do calar-se diante de uma poética expressão de felicidade. Remete, sobretudo, para a necessidade de penetrar a fundo nesse arcabouço de preconceitos que herdamos coletivamente em nosso inconsciente. E nos faz refletir que o assobio é um estado de espírito que poucos alcançam quando seus bicos soltam melodias para encantar o mundo. Experimente assobiar uma música e seja feliz nesta páscoa.

O incrível e o inacreditável, por Luis Fernando Veríssimo


“Incrível” e “inacreditável” querem dizer a mesma coisa — e não querem. “Incrível” é elogio. Você acha incrível o que é difícil de acreditar de tão bom. Já inacreditável é o que você se recusa a acreditar de tão nefasto, nefário e nefando — a linha média do Execrável Futebol Clube.

Incrível é qualquer demonstração de um talento superior, seja o daquela moça por quem ninguém dá nada e abre a boca e canta como um anjo, o do mirrado reserva que entra em campo e sai driblando tudo, inclusive a bandeirinha do córner, o do mágico que tira moedas do nariz e transforma lenços em pombas brancas, o do escritor que torneia frases como se as esculpisse.

Inacreditável seria o Jair Bolsonaro na presidência da Comissão de Direitos Humanos da Câmara em substituição ao Feliciano, uma ilustração viva da frase “ir de mal a pior”.

Incrível é a graça da neta que sai dançando ao som da Bachiana nº 5 do Villa-Lobos como se não tivesse só cinco anos, é o ator que nos toca e a atriz que nos faz rir ou chorar só com um jeito da boca, é o quadro que encanta e o pôr de sol que enleva.

Inacreditável é, depois de dois mil anos de civilização cristã, existir gente que ama seus filhos e seus cachorros e se emociona com a novela e mesmo assim defende o vigilantismo brutal, como se fazer justiça fosse enfrentar a barbárie com a barbárie, e salvar uma sociedade fosse embrutecê-la até a autodestruição.

Incrível, realmente incrível, é o brasileiro que leva uma vida decente mesmo que tudo à sua volta o chame para o desespero e a desforra.

Inacreditável é que a reação mais forte à vinda de médicos estrangeiros para suprir a falta de atendimento no interior do Brasil, e a exploração da questão dos cubanos insatisfeitos para sabotar o programa, venha justamente de associações médicas.

Incrível é um solo do Yamandu.

Luis Fernando Veríssimo é escritor.


O homem curvo

Fernando Canto

Meus olhos infantis ainda enxergam o homem sentado na ponta do trapiche; a trouxa ao lado e a calça escura balançando ao vento. Sua silhueta lembra um soldado descansando da campanha e o jeito magro e curvo parece mostrar mais lassidão, assim como um cavalo magro e velho pastando em campo infértil.

Há três dias aquele homem está sentado no mesmo lugar como se estivesse pescando sem linha, sem caniço ou anzol na maré seca de ondas ralas. Isso é motivo de preocupação. Mas a minha preocupação infantil é jogar meu futebol na praia lamacenta da frente da cidade. Não consigo, porém, me concentrar. A bola é chutada para dentro do rio que já vem enchendo. É lateral. Vou pegá-la adiante e vejo o homem mais perto. Ele está lá. Impassível. É uma estátua viva. “Joga a bola G.”, meus amigos gritam. Eu deixo a pelada de praia, me visto, apanho os jornais que me restam para vender e resolvo ir onde o homem está.

Um sol de equinócio racha meus cabelos escorridos e o solado dos meus pés acostumados que são a andar descalços sobre a enorme ponte de madeira. Ando quase 500 metros, encontrando pessoas e vou vendendo jornais. Ainda bem que o vento espanta esse sol abrasador. Barco chega, barco parte, ancora, aporta e descarrega. E o homem lá. Seu modo esquisito de se comportar dá a impressão que compartilha um segredo com as águas ondeantes do rio, pois elas chegam e varam os pilares do ancorandouro associando uma música estranha aos meus ouvidos.

Aproximo hesitante do homem curvo e ele não dá a mínima. Nem diz, como os outros adultos “Sai daí menino, é perigoso ficar na beira do trapiche”. Ofereço-lhe o último exemplar do jornal e ele fala “Não sei ler”. Mas eu respondo “Eu leio pro senhor”. “Não precisa, ele diz, eu sei de tudo o que se passou aí atrás, por isso estou aqui olhando as águas.”

Sento ao lado dele e fico horas jogando conversa fora. Parece que agora sei tudo sobre ele e entendo porque ele está ali há tanto tempo sem dormir, sem se alimentar e sem fazer as necessidades fisiológicas. Compreendo sua sede de olhar o rio que vem e que vai, assim como se apresenta o destino no meu entendimento de menino trabalhador. No calor da empatia lhe pergunto tudo. Ele me diz que só não pode dizer o que traz na sua trouxa. Fico aflito, mas ele me conforta, passando as mãos nos meus cabelos.

A manhã passa e um dia inteiro fica no passado. Eu ainda estou ao lado do homem contemplando o rio e os pássaros que flecham com seus voos o céu do poente e da nascente. Não sei quantos dias já se passaram. Sei apenas que num certo momento, na hora em que nascem os raios de sol, ele me fita e diz: “Vou embora. Mas vou deixar minha trouxa aqui neste trapiche. Por favor não abra. Adeus”.

Como se suas pernas fossem de pau, compridas, iguais às dos palhaços do Circo Garcia, ele levanta e segue para dentro do rio até desaparecer no canal.

Lembro que chorei muito. Ao chegar em casa a febre inevitável do encantamento me fez delirar por tantos dias que quase fui internado no Hospital Geral. Mas nada como um chá de ervas e outros esforços familiares para eu ficar bom. Até benzeção e banho de cheiro me ajudaram na retirada do quebranto.

Ao olhar, hoje, o rio e as ondas se quebrarem no trapiche, na emoção de pisar no baluarte de Nossa Senhora da Conceição, sobre a Fortaleza de São José de Macapá, não vejo mais a silhueta do homem curvo. Mas tenho a ligeira impressão que ele ainda está lá. Não sumiu no canal. Todavia, creio que se ele não estiver, está a sua trouxa de sarrapilha encostada num pau de amarração dos barcos. E nela, intuo, reside algo bom, tão bom quanto a esperança que precisa ser guardada numa trouxa qualquer, sob pena de homens e crianças perderem o encantamento que mora no barro e emerge sempre do fundo do rio.

Publicado no livro “Trapiche – Ancoradouro de Sonhos”. Edição comemorativa à reconstrução do Trapiche Eliezer Levy. Org. Márcia Corrêa. Desenho de Manoel Bispo.

Crônica do amor reencontrado (Por Régis Sanches)


Como a Fênix, o Anjo GalaHell sacudiu a poeira e levantou. Havia dez meses estava entorpecido. Desde a quarta-feira de cinzas de 2013. Agora, com a euforia do Ano Novo ao seu redor, ele pensou:

– De que me valeu todos os tragos de vodka com Tampico? Qual foi o resultado prático das noites mal dormidas? E as madrugadas solitárias? Sem beijos, sem afagos… sem amigos…Apenas sobrevivendo no Inferno…

Pensando bem, estava na hora de ligar o “pause”.

Desta vez, não seria uma parada técnica. Como na Fórmula 1, para trocar pneus ou repor a gota de gasolina. O cálculo, agora, economizar tempo. Porque há vidas em jogo…

O flash back foi inevitável. O turbilhão de imagens apareceu na tela de sua memória em milionésimos de segundos.

Eram fotogramas de um sujeito dormindo pelas calçadas, as roupas sujas, como uma formiga no formigueiro. E todos os dias, após a ressaca moral, uma voz lhe dizia:

– Quando você vai para com isso???
– já chega, você não acha?
– Você não é mais um menino….
– Você pode beber sua cachaça, mas não beba o seu juízo…

Assim, aos 52 anos, o Anjo GalaHell descobriu que não é eterno. Embora, tenha levado uma vida errante. Esbanjando saúde, talento e energia por um razoável tempo. 

Era o bastante para sentir na alma que nada acontece por acaso. Na passagem do ano mais dramático de sua breve existência, enfim, uma luz no fim do túnel. 

Foi naquele abraço de Final e Ano, que GalaHell ouviu a frase definitiva:

– Desejo apenas sabedoria para você em 2014!!! Cuide-se… 

Do fundo do último suspiro, de 2013, um sussurro ecoou:

 – Não há limite para a loucura humana. Talvez, você siga atrás do odor da cachaça, da vokda, whiskey e seus derivativos, porque não consegue viver sem uma dor latente. Veja, você tinha tudo ao seu alcance. Emprego, a mulher dos sonhos e uma criança para amparar e transmitir os seus conhecimentos. Mas jogou tudo para o alto em troca de transes passageiros.

GalaHell pegou um papel em branco e rabiscou um poema. Era um rascunho, apenas. Mas tinha as cores do vinho tinto de sangue.A mente foi clareando. As palavras cada vez mais nítidas, sinceras. E pensou: “Mentiras, nunca mais!”.

No limiar do renascimento, GaleHell desfocou a visão interior para a violência. Pensou em Júlio Natan, cuja vida foi abreviada aos 15 anos em pleno Festival Quebra Mar.

Rebuscou na memória a imagem de sua filha, Bebel. E ligou o “pause”. Chega de transe. É hora de viver o aqui e agora. Sem neurose, sem psicose, com uma dose exagerada de sabedoria. Nunca é demais reconhecer os próprios erros.

Neste exato momento estou pensando em cada acorde, em cada solo de guitarra do show “Para Sempre Rock and Roll“. Sei que o tempo é o senhor da razão. E que o tempo não para. Por isso, tenho uma certeza:

Todo amor perdido pode ser encontrado. Nem que seja sob a forma de um Anjo GalaHell, renascido das cinzas de uma quarta-feira de Carnaval.

Feliz 2014!!!

Régis Sanches – Jornalista, ex colaborador deste blog e guitarrista. 

*Meu comentário: Beck, estou torcendo por você!

Tempos de natal (texto legal da @MarileiaMaciel )


E foi mais um natal com todas as tradições, e com ele, um clima que só temos em dezembro, mesmo nos raros dias do ano em que as nuvens escuras tomam o lugar do sol dilacerante, mas não e mesma coisa. Tempo da chuva imprevisível, de sair com roupa de verão e cair uma tempestade, ou o contrário. Tempo de manga, quando podemos andar nos bairros mais tradicionais de Macapá e espocar frutinhas verdes no chão, correr o risco de uma madura cair na cabeça, e ver os vendedores com as varas cutucando as árvores. 

Lembro dos antigos natais, quando o dinheiro era pouco pra ganhar todos os presentes e papai noel marcava presença grudado na parede, em papel laminado, com barba de algodão e estáticos olhos azuis. Era costume criar um porco no quintal, alimentá-lo com restos de refeições e na véspera de Cristo nascer, ter que tampar os ouvidos para não ouvir os gritos do bicho na hora do abate. Depois só víamos o suíno quando era pelado e mais tarde na ceia, com o corpo dourado e a cabeça servindo de tira-gosto, quando o vinho subia para a cabeça. Nada se perdia do coitado.

Nos dezembros antigos, era quando se tirava das caixas as embalagens que só víamos com fartura em dezembro. O leite moça, as cerejas e as compotas há tempos compradas e alvo de cobiças da molecada por meses. Por isso que existem comidas que só têm sentido no natal, nos outros meses come-se, mas não tem o mesmo gosto da infância, sem a chuva, as luzes, e os cheiros da época. Comer panetone ou peru recheado em junho, é como tomar mingau de milho em dezembro, ou ver papai noel em agosto. Uva-passa, frutas cristalizadas, nozes, só têm significado em época natalina, nas outras, só pra tentar matar a saudade, mas o gosto que deixa na boca é de papelão.

Antes em Macapá, as lojas que vendiam pisca-pisca e outros enfeites natalinos eram poucas, e não tinha muita opção. Então papai, que amava o natal, esperava seu fornecedor chegar da Zona Franca de Manaus para despejar em nosso pátio as centenas de quinquilharias importadas que ficariam pendurados até Dia de Reis. Da árvore de natal à guirlanda, tudo vinha do Amazonas, o resto a gente fazia em casa, mesmo. Era o tempo em que se entregava cartões de natal, e as árvores ficavam cheias deles pendurados. “Feliz natal e próspero ano novo, da família tal”, “Boas festas”, diziam.

No Laguinho, dezembro é esperado com ansiedade. O mês começa com a ressaca do Encontro dos Tambores, uma pausa para arrumar as casas e disputar, sem que haja concurso, pra ver quem enfeita mais e melhor a fachada, do mais humilde ao mais remunerado.  Esperamos com ansiedade para ver como vai fluir a imaginação de alguns moradores ao decorar a casa, e enxergamos, com reflexo nos olhos, as centenas de luzes cadenciadas. Alguns exageram e iluminam até o contador de água e a casa do cachorro. Mas não há limite para o único mês em que a cabeça não está preocupada com conta de energia.     

Alguns moradores mudaram do bairro, e outros ocupam as casas, mas a magia do bairro permanece. Mesmo com a General Rondon  tomada de comércios, continua o clima de quando moravam famílias nascidas aqui, e nas esquinas ainda acontecem os  encontros bebemorativos, relembrando histórias e moradores, com as intermináveis e inesquecíveis  piadas do Miguelão, Pururuca, Bomba-D’água, Rato, Sacaca, e toda sorte de moradores destinados a nascer ali, na beirada do Poço-do-Mato. É o tempo mais esperado porque tem a festa do Banco da Amizade, quando os moradores que moram longe fazem uma visita, e as divergências políticas, de carnaval e futebol acabam, e o que vale por aqui é confraternizar e esperar chegar o carnaval, pro ano poder começar.   

Mariléia Maciel

*Só vi o texto hoje no meu e-mail e gostei muito, por isso ele foi publicado atrasado. 

Fausto e a alma do bom jornalista

Fausto Matias, jornalista e blogueiro. Sua página, sobre cidadania, ética e um mundo menos injusto, traz informações exclusivas, denúncias, análises sérias. Um blog independente. Sem rabo preso com ninguém.

Cansados da imprensa tradicional deste País? Venham para o blog do Fausto, escreve aos leitores.

A audiência cresce lentamente. Embora tenha um público fiel, Fausto não é um blogueiro famosão. Adoraria alcançar mais gente, influenciar mais mentes.

E ganhar algum dinheiro com o blog.

Fausto tem contas a pagar. E tem uma ex-mulher para sustentar. E ex-mulher é sempre muito cara. E Fausto jamais acabará numa delegacia por causa de uma pensão, porque essa não é a conduta de um cidadão de bem.

No meio de um turbilhão financeiro, Fausto recebe um telefonema do senhor Mefistófeles Alcântara, dono de um portal. Ele elogia Fausto, sua credibilidade. Faz uma proposta: abrigar o blog em seu portal. Mais visibilidade e, principalmente, um salário.

O meu diferencial é ser independente, senhor Mefistófeles.

Mas quem disse que você perderá sua independência? Será tudo como antes. Teremos anunciantes em sua página, mas só anunciantes do bem, que não farão interferência no seu trabalho. E você ganhará dinheiro. Não há mal em ganhar dinheiro.

Fausto, lembrando-se da pensão da ex-mulher, aceita a proposta.

A audiência cresce cinco vezes, 20 vezes, 50 vezes. O pensamento de Fausto ganha relevância. Ele recebe dois prêmios e, o melhor, não perde sua liberdade. Troca o carro velho por um zero, menos poluente. Um carro do bem. Financia uma casinha.

Fausto é muito grato ao novo patrão.

Mas o senhor Mefistófeles só parece bonzinho. É danado e tinhoso. Começa, então, a cobrar a conta. Exige que Fausto publique uma notícia favorável a um amigo, acusado de promover trabalho escravo em empresas de seu grupo, no Pará.

Me desculpe, senhor Mefistófeles, mas esse sujeito é picareta. Como falar bem dele?

Mas é esse picareta que paga suas contas. Ou você acreditou nessa história de só anunciantes do bem? Velho e ainda ingênuo?

E a minha liberdade?

Não tá satisfeito com o salário e a fama? A vida é feita de trocas, meu caro.

Fausto se recusa a escrever a matéria positiva. Perde o emprego, perde o status, perde até o direito sobre o nome do blog que criou. Perde seu carro do bem.

Mas Fausto não perde o principal: a sua alma.

Complexo de vira-lata

Por Anderson Araújo

A palavra saiu de casa chutando lata, sem nenhum trocado no bolso.

Pensava no rango, a palavra. A fome doía, o cinto apertava.

Nada no bolso ou nas mãos. Sem lenço, sem documento.

E com mais dois ou três chutes na lata, pensou-se barata.

Rima difusa, abstrata.

Como não era dia doce de poesia, seguiu pensando à dura prosa.

Viu-se barata. Horrorosa.

Horrorosamente, barata.

Não das que sobrevivem à hecatombe nuclear e fazem as mulheres subir pelas paredes, pelas cadeiras, longe do chão.

Era barata pelo preço, quase nada, coitada.

Parou defronte da vitrine do grande magazine e se olhou: rota.

Para não confundir com o caminho, preferiu um advérbio e um adjetivo para melhor qualificação: mal ajambrada.

Pelo menos, a sonoridade era mais bonita.

Ajeitou a gola, suspendeu a calça, passou a mão nos cabelos.

Nada.

Continuava chinfrim, sem valor de mercado.

Deu um duro danado para se enquadrar num estrangeirismo.

Quem sabe assim parava num letreiro de salão de beleza, num neon de casa noturna e até na fachada de um condomínio chique, se tirasse a sorte grande.

Realinhou aqui, misturou ali, pintou a juba de loiro, deu uma bicuda numa vogal e pronto.

Mas a mexida não funcionou muito bem, o tiro saiu pela culatra e ela quase cai em desuso e perde o benefício sagrado do dicionário, um dos últimos recursos dos vocábulos à beira do sumiço fatal.

Cabisbaixa, entrou no shopping para espairecer, sem se dar conta de que ali o valor venal de tudo estava mais ainda medido, mais na cara de todo mundo.

A luz amena, o ar refrigerado, as moças bonitas, porém, deram uma aliviada na tensão.

Viu nas lojas os primos números, estrelas do lugar. Observou os letreiros enormes, bem empregados, chamando atenção dos fregueses. Irmãos que deram certo.

Passou por livrarias e encontrou suas semelhantes bem sucedidas, morando em livros bons, muito requisitadas por estudantes, doutores, rapazes e moças delicadas com óculos de aro grosso.

Valiam uma nota, passeavam por aí embaixo de sovacos perfumados, descansavam em estantes de design moderno com direito a anti-mofo.

Além da inveja, veio o estalo: sozinha não conseguiria nada.

Era preciso se unir. Criar um grupo. Uma associação. Um sindicato. Um partido. Um exército caso fosse preciso.

Decidida, saiu à rua, postou-se em tamborete na maior praça da cidade e iniciou um discurso histórico.

Logo, logo, outras palavras de mesmo naipe pararam para ouvir a defesa eloquente da união de todas as palavras que se sentiam menosprezadas e estavam em situação precária.

Palavras baratas, uni-vos.

Uma multidão vernacular de valores semânticos diversos embarcou na ideia e sem demora deram as mãos para formar frases, períodos, parágrafos e, mais adiante, dissertações, artigos, crônicas, contos, o escambau.

As mais audazes enveredaram para a poesia marginal só para chocar. Outras para a concreta para não serem entendidas nem incomodadas.

As mais afoitas correram para a novela.

As radicais se abrigaram em romances massudos, enormes, enfadonhos.

As elitistas preferiram as enciclopédias, os textos científicos e os manuais de vinho.

Fez-se a revolução, como estava escrito nas estrelas.

A palavra barata, a primeira e idealizadora de todo o rebuliço, foi declarada heroína nacional, condecorada com medalhas e festeja pela imprensa progressista e os badalados da cidade.

Viveu tempos de glória. Acabou o perrengue. Nem sinal da dureza de outrora.

Hoje, cansada de guerra, dentro de um e-book de autoajuda de R$ 2,90, ela olha as ruínas do seu apogeu, entre orgulhosa e incrédula e, embora totalmente impossibilitada pelo asilo tecnológico que lhe coube, ainda sonha.

Não mais com a luta contra opressão das palavras da elite.

Almeja, de coração, descansar num velho sebo empoeirado e jogar conversa fora com o pessoal das antigas, aqueles que ainda se cumprimentam cordiais quando se cruzam por aí e ainda escrevem farmácia com Ph.

“Os patos”, de Rui Barbosa – por Zeca Baleiro


Diz a lenda que Rui Barbosa, ao chegar em casa, ouviu um barulho estranho vindo do seu quintal. Chegando lá, constatou haver um ladrão tentando levar seus patos de criação. Aproximou-se vagarosamente do indivíduo e, surpreendendo-o ao tentar pular o muro com seus amados patos, disse-lhe:

“- Oh, bucéfalo anácrono! Não o interpelo pelo valor intrínseco dos bípedes palmípedes, mas sim pelo ato vil e sorrateiro de profanares o recôndito da minha habitação, levando meus ovíparos à sorrelfa e à socapa. Se fazes isso por necessidade, transijo; mas se é para zombares da minha elevada prosopopéia de cidadão digno e honrado, dar-te-ei com minha bengala fosfórica bem no alto da tua sinagoga, e o farei com tal ímpeto que te reduzirei à qüinquagésima potência que o vulgo denomina nada.”

E o ladrão, confuso, diz:

“- Dotô, eu levo ou deixo os pato?

Zeca Baleiro, faz essa mesma citação em sua música “Vô Imbolá”, mas num contexto diferente que pode-se aplicar muito bem ao nosso dia-a-dia, principalmente aos bucéfalos anácronos:

“- Como é por ignorância transito, mas se fosse unicamente para menoscabar de minha alta prosopopéia, dar-te-ia um soco no alto da sinagoga que por-te-ia mais raso do que solo pátrio!”

Pisar na pedra era pisar na mãe (Crônica de Fernando Canto)

Por Fernando Canto


Para uma sociedade como a nossa que até há pouco tempo não sofria os males da violência exacerbada, é assustador o que se vê e o que se ouve diariamente na imprensa. De um lado os acidentes e as mortes no trânsito nos deixam boquiabertos pela freqüência de eventos desastrosos nas ruas e, de outro, pela desenfreada vontade das gangues em promover a violência, principalmente nos subúrbios de Macapá e Santana. Não fosse a precisão das estatísticas bolerianas, pouco se saberia dessas atrozes notícias que deixam em cheque os setores de segurança e a população em alerta. A importância da divulgação desses fatos hediondos permite que as pessoas se isolem mais ou que pelo menos procurem formas de se proteger, de preservar suas famílias, até mesmo contra ataques de cães ferozes.


Poder ir à praça e levar as crianças já não é mais uma simples e cotidiana atividade livre de lazer, mas um jeito desconfiado de passear, dada as inesperadas ações de facínoras que roubam bicicletas de crianças à força e as deixam frustradas, traumatizadas. Muitos desses crimes se dão a luz do dia e às vezes com a presença ostensiva de policiais.

Não é excepcional percebermos movimentações estranhas em grandes eventos, como as comemorações de Natal e início de ano, shows de artistas famosos e no carnaval. As gangues já vêm para esses locais com o intuito assassino da vingança de alguma pendência grupal ou parental para um acerto de contas, como eu mesmo presenciei no desfile da Banda há alguns anos. Cada fato desses deve ter se desdobrado em outros assassinatos por vingança pela gangue rival. O assassino, oriundo desses grupos suburbanos, terá o seu momento de “glória” e de admiração pelos seus pares. Uma “glória”, diríamos, inglória e infecunda, de liderança negativa e fútil, que nada contribui para a sociedade, até ele ir parar no “hotel” do governo, como diz o Bolero em suas crônicas policiais, ou servir de pasto para urubu num matagal das redondezas.

Há inúmeras teorias para a explicação da violência. Uma teoria psicológica argumenta que os jovens se tornam delinqüentes por causa do trabalho dos pais, pois quando estes têm empregos nos quais podem ser demitidos arbitrariamente, eles transmitem este sentimento de arbitrariedade aos filhos que se tornam, então, alienados e criminosos. Alguns estudiosos sugerem que a pobreza leva à criminalidade para obter as necessidades básicas da vida. Só que esse argumento, segundo Marvin Harris, não explica por que as taxas de criminalidade são mais baixas na Índia que no Brasil nem por que as taxas são tão altas nos Estados Unidos, onde 40% dos negros urbanos morrem antes de atingir 25 anos. Pesquisas sociológicas atuais demonstram que fatores econômicos como escassez de recursos e desigualdade são importantes na explicação da agressividade humana. Mas poucas pesquisas examinam todos os fatores diferentes, como os que levam ao crime violento, para especificar a importância relativa a cada um. Os estudos feitos até há pouco tempo, de acordo com Werner, mostram que um fator muito citado, a pobreza, não parece levar necessariamente à violência.

Por aqui já se foi o tempo, segundo o pessoal do Laguinho, em que uma disputa era resolvida no muque, no braço. Não havia esse negócio de terçado, peixeira ou arma de fogo. Às vezes tudo começava na inocente e salutar brincadeira promovida pelos “encrenqueiros” de pisar ou jogar longe uma pedra que significava a “mãe” dos disputantes. E assim a porrada “comia”, a energia diminuía e o rancor se dissipava. 

(Crônica extraída do livro “”Adoradores do Sol – Novo Textuário do Meio do Mundo”, Scortecci, S. Paulo, 2010).

Das brincadeiras com copo (@MarileiaMaciel )

Por Mariléia Maciel

Entre as inúmeras curiosidades da infância, uma matei na adolescência, mas confesso que a bisbilhotice me deixou noites com os olhos acesos e a consciência incomodada. Sempre quis ter certeza se de fato os fantasmas das histórias e filmes existiam e se os espíritos que não iam nem pro céu nem pro inferno, podiam vagar entre nós. A chance de tirar as dúvidas apareceu quando eu, ao ler uma revista de adolescente, encontrei a carta de uma leitora contando suas experiências com um copo que chamava espíritos. Era o que faltava pra eu resolver a questão, e de quebra, ainda saber coisas de meninices.

Reuni as vizinhas da rua e propus seguirmos a receita citada com detalhes na publicação Carinho, elas, claro, movidas pela mesma curiosidade, aceitaram. Era simples: pedaços de papel em círculo com as letras do alfabeto, dois papéis com as palavras SIM e NÃO, um copo vazio virado pra baixo, orações, concentração e lá vinha um espírito andar no círculo e responder nossas enormes preocupações de garotas namoradeiras e estudantes, vida tão despreocupada que o mais importante era chegar domingos com as missas e tertúlias.

A maioria de nós estudava de tarde, então a experiência começou em uma manhã, após papai sair pro trabalho e mamãe para as compras diárias no Santa Teresa e Cobal. Seguimos as orientações e pronto, começou a sessão em que o medo era destruído pela curiosidade. “Tem alguém aí?”. E o copo se mexeu e enchemos o pobre do espírito de perguntas. “Vou namorar com fulano?”, “cicrano me ama?”, “vou passar em matemática?”, “papai vai descobrir que namoro?”. E passamos o tempo atrás de resposta cruciais para a nação, até que deu a hora possível da mamãe voltar pra casa e encerramos a sessão.

Não demorou a notícia correu e o minúsculo grupo que cabia no quarto que eu dividia com minha irmã ficou pequeno, e fomos obrigadas a brincar com os espíritos em outros espaços maiores e onde os pais não se importavam, inclusive alguns até participavam. Fascinadas com a descoberta, todos os dias tinha reunião e éramos muito solicitadas. Cada dia tinha uma novidade. “Sabia que o espírito disse que a vizinha vai ficar grávida?”. “O pai da colega está traindo a mãe, o copo disse que sim”. E algumas de nós não fazia nada sem antes consultar os espíritos que tudo sabiam.

Foi no auge da farra que nosso canal de comunicação direta com o além acabou. Como acontecia todo dia, esperamos, em agonia, mamãe sair. Das venezianas e janelas das casas da rua, olhos à espreita aguardavam que ela subisse a ladeira para que povoassem meu quarto. Os papeizinhos, bastante amassados por causa do uso constante, mais uma vez foi para o centro do círculo junto com o copo, e a sessão começou. Mas aconteceu um imprevisto, e mamãe resolveu voltar antes, e concentradas que estávamos, não ouvimos o portão.

Fomos pegas pelo susto quando a maçaneta do quarto girou e foi moleca pulando pra cima das camas, querendo se esconder no guarda-roupa, enquanto eu e minha irmã só pensávamos no que dizer pra mamãe e onde esconder tudo. Mamãe batendo na porta e nós, naqueles segundos em que temos que tomar decisões, empurramos os papéis e o copo pra baixo do guarda-roupa e, com o coração na mão e uma resposta na ponta da língua, abrimos a porta. Entre bom dia, dona Maria e desculpas esfarrapadas, todas saíram pálidas de casa e ficamos, eu e minha irmã, respondendo as perguntas da mamãe. Não lembro o que dissemos, só sei que ela não acreditou. Óbvio.

Passaram dias, semanas, talvez dois meses não deixávamos a empregada limpar o quarto, fazíamos nós mesmas sem mexer embaixo do guarda-roupa pra não sermos descobertas. Dois medos, da mamãe descobrir a verdade, e de saber que o espírito que foi jogado pra baixo do móvel ainda estava no quarto. Rezava pra que ele fosse embora e jurava nunca mais fazer aquilo. Em um sábado, dia de faxina, reunimos coragem, e entre as teias de aranha acumuladas puxamos com cuidado o copo pra que ele não virar quando passasse nas emendas das lajotas. Montamos a círculo de alfabeto, colocamos o copo no centro com nosso dedo em cima. Concentração.

“Tem alguém aí?”. Contra nossos pensamentos mais positivos e com a certeza de que nossos pedidos aos céus não foram aceitos, nem as promessas levadas em consideração, vimos o copo preguiçosamente se arrastar no chão procurando o SIM! O quê? Quer dizer que o espírito que era nosso oráculo e depois motivo de temor, ficou todo aquele tempo nos fazendo companhia no quarto escutando e vendo o que fazíamos? Foi então que caiu a ficha: preferível morrer de curiosidade, que de susto por mexer com quem tá quieto.

Cidadã Luci: “Camarão da região ou do Maranhão?”

Por Mariléia Maciel 

Tia Luci foi o que podemos chamar de “A Cidadã”, aquela que habita a cidade, exerce seus direitos, vive e ama seu povo. Ela foi assim. Nasceu quando a cidade se organizava ao redor da Igreja de São José e as rodas de marabaixo eram a única diversão pros negros de Macapá. Cresceu rodando a saia e com o sorriso carinhoso que ficaria até o final em seu rosto. Nunca tirou da cabeça os sons de caixas e ladrões de marabaixo, a mesma cabeça em que amarrou o lenço, e se profissionalizou no que seria seu ganha-pão. Junto com dona Nenê e Tia Bebé, formou o trio das tacacazeiras mais prestigiadas da cidade.

Casou com outro pioneiro, seu Zequinha Eletricista, mas não sentiu as dores do parto. Exerceu a maternidade criando as três sobrinhas deixadas pela irmã falecida, como se tivessem saído de dentro dela. Amava seu pedaço de chão, e mesmo quando o centro pedia mais espaços pras lojas, Tia Luci não se rendeu, nem vendeu a casa, que continuou espremida entre prédios e empresas. O amor pela cidade não deixou que saísse de seu reduto, os arredores do Largo dos Inocentes. Também não perdia a missa na igreja do santo padroeiro, São José. Foi no centro, em frente à praça Veiga Cabral, que fixou seu lugar de trabalho e nos fazia salivar só de imaginar o gosto do seu tacacá, do mingau de banana e de tapioca.

– “Pouca goma ou na medida, freguês?”

– “Camarão da região ou do maranhão?”

Contava espetacularmente as histórias, porque foi testemunha ocular das mudanças e andar lento da cidade. A memória preservada permitia que comparasse o atual com o passado, falava da Macapá antiga e de seus moradores, com quem conviveu, falava também de como as coisas estavam mudando do dia pra noite. Nenhum governador ou prefeito cumpriu um mandato sem ter abraçado, tomado bênção ou dançado com Tia Luci. Conheceu todos, mas nunca se valeu do prestígio para ter benefícios pessoais. Viu seus ilustres filhos crescerem da janela de sua casa, ou nos passeios pela cidade, que nunca se furtou de fazer. Acompanhou seu tempo.

Nem mesmo quando a costa se curvou à escoliose, e a bengala se tornou acessório obrigatório, deixou de estar presente em sua maior paixão, que eram as rodas de marabaixo. Quando menos se esperava, ela aparecia nas festas do Divino Espírito Santo e da Santíssima Trindade. Se vestia a rigor, saia florida, camisa branca, flor no cabelo, toalha no ombro, perfumada e sorrindo. Dançava apoiada na bengala, rodava com os jovens, e quando cansava, sentava em uma cadeira que algum cavalheiro já havia preparado para esta dama especial. Cansava, mas sempre juntava fôlego pra viver sua cidade e seu povo. Bebeu da mesma água de Tia Biló, dona Gertrudes, Dica do Congó e mestre Pavão, que, entre os afazeres da casa, família, trabalho e religião, encontraram tempo para valorizar nossa tradição, ensinar aos mais moços e priorizaram não permitir, jamais, que nossa cultura fosse perdida.
Tia Luci aproveitava tanta coisa boa da vida, que não tinha tempo de pensar em morte, e descobriu tarde demais os tumores que se alastravam. Viveu seus últimos dias com a certeza de que a vida tem um fim aqui neste mundo, mas sua luta para que a memória de seus antepassados não fosse desrespeitada, nos ensinou que as pessoas só morrem quando são esquecidas e eles jamais sairão de nossas mentes, porque estão enraizadas em nossa história. Tia Luci está em cada canto da cidade, onde houver Marabaixo, onde houver tradição. A perseverança dela e de outros negros pioneiros do Amapá valeu a pena, eles estarão nos livros e nas memórias, e não haverá lei, nem governo, que façam com que suas conquistas e histórias de vidas se percam no tempo. A cidadã Lucinda Araújo Tavares, a Tia Luci, foi uma dessas guerreiras, que morreu com alma jovem e a sabedoria da idade. Nos deixou como herança a lição de que é preciso lutar pelo que é nosso,valorizar as tradições, e despertar nos jovens o amor pela cidade.

Na despedida, pessoas de todas as idades, cores e raças, autoridades, populares e anônimos, marabaixo, fogos, flores e cantos. Na recepção no infinito, com certeza mais barulho feito por Sacaca, Mestre Julião, Raimundo Ladislau, Mestre Pavão, Dona Vadoca, Dica do Congó e outros.  “Eu vou embora já peguei minha bandeira, já vou embora, já cumpri minha missão…”.

Na Baleia (crônica do meu amigo Ronaldo Rodrigues)


Acordei naquele dia ainda bêbado. Demorei a perceber que estava dentro da baleia. Estômago de baleia, vocês sabem, é muito pequeno, parece um apartamento japonês. Então eu estava meio espremido no meio do monte de plâncton que tinha sido a última refeição da baleia. Pensei por alguns momentos sobre como sair dali. Mas depois, como a preguiça pós-bebedeira era quase maior que a baleia, me deixei ficar naquele remanso. 

Aí pensei nas figuras que já estiveram dentro de uma baleia. Pinóquio e Gepetto estiveram dentro da baleia Monstro. Jonas esteve por três dias dentro de um peixe imenso que a Bíblia não diz que é baleia, mas eu digo. Se bem que baleia não é peixe, é mamífero. 

Sou teimoso nessas coisas: se baleia vive no mar então é peixe. Aí vocês podem dizer: esponja vive no mar e não é peixe. Eu respondo que esponja vive é no supermercado antes de parar na pia de alguma dona de casa. Mas isso é bobagem de minha parte. 

Devo estar perturbado pelo fato de me encontrar dentro de uma baleia. Tento lembrar de como, bêbado, vim parar aqui. Aos poucos vou montando o cenário. Agora já consigo colocar alguns personagens neste cenário. 

São meus amigos, que bebiam comigo na noite anterior. Onde será que eles estão agora? No estômago de outra baleia? Devem estar se divertindo, os safados! Agora me lembro. Estávamos num navio celebrando a primeira viagem desse navio. Lembro perfeitamente agora de alguém discursando sobre a impossibilidade de aquele navio naufragar. O que acabou de entrar pela boca da baleia? Uma folha de jornal. Vejamos o que diz esse jornal. 

Ah! Agora tudo faz sentido. É isso mesmo! Vejam, senhores, a manchete do jornal: “Hic! Hic! Hic! Titanic vai a pique”. Bingo! Lembrei de tudo! Estávamos na viagem inaugural do Titanic. Sentimos o impacto de uma colisão, pessoas correndo desesperadas e nós só bebendo. 

Vejo que sobrevivi, talvez graças ao meu estado de embriaguez, que atraiu esta baleia alcoólatra, que me engoliu como uma dose de uísque e me livrou de morrer afogado. Dos males, o melhor. Vou ficar por aqui mesmo dentro desta baleia. Quem sabe daqui a pouco ela engole a Kate Winslet. Saúde! Ui minha cabeça!

Ronaldo Rodrigues