URDIDURA (ENIGMA AMAPÁ) – @fernando__canto

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Por Fernando Canto

Des/vendar tua terra, teus sonhos, Amapá. Des/vendar teus olhos, teus textos não escritos. Des/velar tua alma circunscrita sobre um rio de prantos que se espraia para a foz e lava sortilégios no oceano.

O teu estado é o de ausente nas necessidades. Essas que emergem quando o tempo lento das tuas tardes flana no teu dorso como a vida descaindo à chuva nos barrancos e re/velam teus segredos: a construção de pedra ainda esmaecida na paisagem e o ofício de viver uma inócua pedagogia da espera.

Desgarrar das guelras, relatar os mistérios das entranhas, desfibrar as teias, manusear teares para fabricar tecidos de ouro e aço e de cores rutilantes como as mãos habilidosas de Penélope até a volta do herói na hora exata.

Quando és só tu és nada, Amapá. Nada te adianta se ao calor não refrigeres e se ao frio não acenderes a teus filhos. O fogo do amor e da paixão que de ti tantos esperam.

Quando és só equinócio, Amapá, parece não temeres o jogo equidistante dos solstícios nem a força das vozes nos quadrantes onde estão os mitos, a fé e os gritos vindos lá do fundo da floresta em busca de respostas que as saciem.

Tu só sentirás a ruptura ao ouvir a voz gestante das ciências e o anseio ainda latente no clamor de homens e mulheres sem os receios dos silêncios obscuros, sem o medo de arder velhas memórias, sem a escória a deformar os teus caminhos e os passos do teu povo em agonia.

Terás, assim, a urdidura do algodão e da lã por aqueles que te tocam com ternura do meio-dia à meia-noite em tempo de contrários, até que as sombras sejam luzes transparentes para que surjas radiante após a cerração.

Mas dobrarás, decerto, as pontas da Rosa dos Ventos para o coração, num círculo de luz: Um gesto a agradecer eternamente.

Verás, então, que desvendar-se é pôr o lume sobre a mente, é libertar-se já do que te oprime, é trazer o mar de volta para os Andes, é revolver a vida em ondas inquietas de um novo rio que surge para sempre

O Velho das Latas

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Por Fernando Canto

Aquelas barbas espessas no rosto do homem, brancas, brancas, se esvoaçavam com o vento da Beira-rio. Eram barbas longas que chamavam a atenção de qualquer um, mas que logo, logo, provocavam uma sensação de desprezo pela figura. As pessoas nas mesas ao meu redor comentavam sobre ela e após constatarem que era um mendigo se desinteressavam.

Que era um velho o dono das barbas parecia óbvio. Jamais vira aquela pessoa na praça e creio que ninguém a conhecia também. Era um ser estranho. Não fossem as barbas longas diria que era um ancião indígena há muito tempo expulso da vida selvagem e degradado na cidade. Talvez tivesse vindo lá do sul do Pará ou do Maranhão, onde se vê tanto índio mendigando, bêbados, pelas rodoviárias

Acompanhei seus gestos. De vez em quando ele apanhava uma lata de alumínio do chão, ajeitava-a e pisava nela com força, até achatá-la. Depois a punha num saco que carregava às costas e ia e vinha embalando seu cansaço. Calculei que ele se aproximara dos quiosques no finzinho da tarde quando os frequentadores dos bares surgiam para suas confabulações habituais. Certa hora ele se aproximou de uma mesa onde estava um casal bebendo cervejas em lata. Muitas delas já haviam sido consumidas e, amontoadas, tomavam a forma de pirâmide. Ele chegou devagar e pediu as latas vazias com os olhos. O rapaz o encarou e jogou uma lata no chão. O velho abaixou-se para pegá-la, mas o rapaz o empurrou sobre umas cadeiras de plástico, rindo de um jeito antipático e covarde. A moça que acompanhava o valentão repreendeu-lhe nervosamente, pagou a conta e foi embora na frente. Tentei ajudar o velho a se levantar, mas ele se desvencilhou de mim, atravessou a pista e sumiu.

A lua minguante surgiu como um imenso olho de cachorro dentro de uma nuvem negra e a maré subia, subia, arrebentando o muro de arrimo, o último anteparo de uma enchente ameaçadora. O vento intenso parecia orquestrar o bailado das águas, vigoroso e circular, provocando frio. Eu não duvidei que naquele momento e naquele pedacinho da cidade a natureza estava conspirando contra mim. Havia muitas luzes em toda parte, e eu estava ali ensimesmado, viajando em desilusões e lembranças amargas, esperando um tempo novo para mim. Sentia-me como uma roupa lavada e posta para secar no varal em dias de inesperados chuviscos.

De repente tomei um susto ao erguer os olhos. O velho surgiu na minha frente me encarando como se eu lhe devesse alguma coisa. Tinha o olhar severo e desafiador. Intrigado, pedi que sentasse e resolvi lhe encarar do mesmo jeito. Seu semblante foi mudando devagar até que sorriu. Então pude ver que seus dentes eram de uma brancura inquietante, mas ele tentava mesmo era falar com os olhos, numa comunicação inusitada que surpreendentemente eu compreendia. E foi “falando, falando em silêncio”. Pelos seus olhos dizia dos fenômenos das marés e dos ventos como um mestre em Geografia; falou do céu e das constelações como um velho astrônomo egípcio; dos homens como um santo e do coração como um deus que abre todas as portas para o amor. Enquanto “falava”, percebi que manuseava uma lata de alumínio com movimentos suaves, assim como quem modela uma peça de argila. E após tantas viagens imaginadas, que quase fizeram esquecer minha tristeza, o estranho homem se despediu e foi caminhando com sua sabedoria em direção à fortaleza de Macapá.

Ficou em mim uma momentânea sensação de felicidade e a boca seca de vento e vinho. Mas logo voltaria aquele estado de amargura, de ter o coração fechado e um gosto de desamor e de abandono. Meus olhos apenas contemplavam o infinito. Foi então que ouvi o espocar de fogos de artifício e caí na realidade. Sobre a mesa estava uma chave retorcida feita de lata. Olhei ao redor, as mesas vazias. Um casal de garçons me acenava sorridente. Pensei no velho das latas, apertei a chave com força e uma sensação de paz abriu em meu coração para nunca mais se fechar para o amor. Olhei novamente em volta. O relógio do trapiche marcava meia-noite. Era natal e as luzes piscavam como meus olhos cheios de marés lançantes.

U CONTADÔ DI ISTÓRIAS (conto de Ricardo Pereira)

Derna u tempu d’eu moçu, ou mió, derna u tempu d’eu mininu, quanu cambava vorteandu pulas picada alêa, inhambadu a percurá bubuia di cacimba pra matá a sêdi di meus irirmão menó, já discunfiava di minha sina.
 
Sabia lá si era dom ou castigu – sei lá. Só sabia qui sabia cumu ninguém contá das disventura, das aligria, das dô i das isperança di meu pôvu.
 
Não, nunca tive istudu di dotô. U pocu qui sei tragu da lida, di minhas andança pulu mundu afora i dus exempru di meu pai, qui nossu Sinhô, dus altu di sua sabiduria, carregô cunsigu pra passiá nas bramura du céu. Pur issu, peçu pru sinhô qui num si avexi si pur acausu minha inguinorança atrapaiá us intendimentu du meu dizê. Si u Justu ansim mi primiti, dô tentu im meu ofíçu i contu du sacrifíçu i das pinura qui muitu cristão carrega inté vortá pru pó.
 
Inquantu falava i u sinhô mi oiava butanu butuca ni mim, fui mi alembranu dum cabra: Terençu da Viola.
 
Cidadão trabaiadô, prestimosu, meia-légua di hômi, forti cumu us marruá qui nós aperségui pulus campu nas lida du dia. Mas ninguém dizia… Cu’a fala mansa, us óio gatiádu, inspirava cunfiança i bem-querênça im todu mundu. Pur uns tempu cambô nestas banda, ali prus ladu du Buqueirão, ancima das Ribeira, u sinhô conhéci? Pois intão, cum tantus pridicádu assucedia qui a muierada si alvuroçava toda só pur ovi falá nu nômi du cabra.
 
Quanu Terençu, adispôs dus seus quifazê, é claru, puxava da viola pra mó di tirá umas nota … Vixi! Aí tudu disandava di veiz. Era um disassussegu só. Dava inté gostu di si vê. Qué dizê, in nós, qui num era donu di muierada nin’uma. Pru quê quem era, seu moçu, num achava graça, não!
 
É certu, intão, qui a piãozada num via cum bons óio essi regalu du violeru i das assanhada, mais ninguém si mitia a besta cum êli, não. Cumu já dissi, u hômi era duma fortura qui só vendu. Ninguém si alterava. Mermu Totonhu, u brigão da vila, qui si dizia imbeiçadu pur Nézinha. Quanu sôbi qui a morena tava inrabichada pelu violeru, fez cara di “nem ti ligu” e largô di mão u amô qui sintia pur ela i agora anda atráis di otra frô. 
 
U pobrema du tocadô foi tê arreparadu im quem num divia: Das Dô. Ah, sim, é verdadi qui nunca tentô nada, mas ficava aguniadu quanu ela tava pur pertu. Uma veiz segredô issu prum parceiru di prosa na Botica di seu Zé.
 
Im vistido di xita, ninguém ficava mais graciosa qui Das Dô. Eta muié linda: cabelu nas cintura, pretu, cubrinu um pescoçu branquinhu, cherosu… Issu sem falá nus óio. Ah, us óio di Das Dô, perdição – um jeitu di oiá sem oiá, di querê sem querê… Uma veiz, seu Zé, aqueli um da Botica, hômi lidu, informadu, disse qui paricia tão bunitu quantu us óio di uma tar di Capitu qui eli viu nus livru i qui seu maridu, um tar di Bentinho, chamava di dissimulada. Num sei quem é essa Capitu, nem essi Bentinhu, muitu menu u qui qué dizê a palavra ‘dissimulada’, mais si us óio dela forem tar i quar us di Das Dô, humm, devi di sê linda a danada!
 
Assucedi, seu manu, qui Das Dô tinha um donu. Pulo menu era ansim qui Zé-das-Venta pensava. I di tantu si achá donu, arreparava nim tudu dela. Vigiava tudu: seu andá, seu visti, seu falá i seu oiá… Aí danou-si. Si a fogaciosa num dava pista di ôtru jeitu, seus óio contava tudu. Apesá da disfarçatez, era só arrepará: tava cum oiá di muié apaixonada, aqueli mermu oiá qui êli pudia jurá, qui ela um dia lançô pra êli.
 
Zé-das-Venta, u tar qui si achava dônu da ditosa, pur tê si casadu cum ela, era cabra danadu di sigurá; quem relava nessi tinhosu curria mais riliadu qui gabiru-du-banhadu quanu grela us óio im onça-marruá. Arri, qui u bichu era brabu: num tinha seguna veiz quem cum êli purfiava nessas incruziada cerrada dessi mundo di meu Deus, nossu Sinhô!
 
I quanu u distemperadu discunfiô qui tinha arguma coisa errada, cumeçô a cunzinhá um prano pra mó di pegá us dois. Ela, sua branquinha, i u cabra, qui êli num sabia quem era, mas discunfiava… Certa veiz, êli si alembrava bem, oviu um pau-d’água falandu qui u tocadô si aguniava todu quanu ficava pertu di uma muié casada da vila… É claru, só pudia tá falandu di Das Dô o miserento…
 
Si eu lhi dissé, esse um, qui Zé-das-Venta num tinha medu da reação di Terençu, taria lhi mintindu, e issu é coisa qui num façu – quanu a ‘Da Cara Feia’ vié mi buscá, taí um pecado qui num mi leva prus discampadu du Demu… Pois bem, intonces u inciumadu tinha cagáçu sim, sinhô. Mas seu orgulhu i ódiu era inté maió qui eli mermu.
 
Divia di sê um sárbadu, seu mininu, umas oitu da noiti. A alumiadora já cumpria sua função lá nu céu, aclarianu tudus us caminhu, picadas i trechus aleius. Era di si gostá di si sinti u chêru frescôsu dus eucaliptu qui a brisa trazia di lá das várzi du Buqueirão. Ainda mais qui u chêru si ajuntava cum u prefume das frô dus piquiazêru qui si ábri nessa épuca du anu. Essas árvori inda sirvia di abrigu pruns tantu casal di namuradu qui pra lá ia apruveitá u iscurinhu pra mó di namorá.
 
Distoava dessi clima di harmunia, a disarmunia du coração di Zé-das-Venta, qui atucaiadu isperava u disinrolá dus acuntecimentu. Uma lambedeira na cintura, uma faísca nus óio i iscuridão na alma. Us pensamentu passandu alopradu na cabeça impampada di suó, i uma voz zumbindu nus ovidu: mata êlis, us dois!
 
Pra u sinhô num si perdê nu qui digu, eu contu u qui levô Zé-das-Venta a issu.
 
Pur vorta das uma da tardi, dessi mermu dia, deu di aparecê arrudianu u sítiu di Zé um mulequi, querenu falá cum Das Dô. Quanu essa uma viu u mulequi, disimbestô pulus caminhu i parô êli na portêra. Cunversaru um pocu. Zé-das-Venta mirava di longi, mais u suficienti pra apercebê u bilheti qui u porqueira du catarrentu intregava pra sua muié.
 
Quanu ela vortô, contô priucupada qui cumadri Zefa quiria falá mais ela um particulá, só qui num pudia dexá u velhu Bastião suzinhu, pur issu preguntava si Das Dô num pudia dá um pulu lá à noitinha. Das Dô dizia issu si inroscandu nu maridu, sabedora qui era qui pôcus hômi arresésti um pididu chorosu de muié – principarmenti quanu acumpanhadu du carinhu certu…. U sinhô mi intendi, né? Ela sabia qui Zé chiava mais sempri concordava cum ela, fazendu suas vontadi. Dessa veiz eli concordô mais num foi cunvencidu. Disfarçanu qui pricisava acunferi u restu das boiada, pois u patrão tinha pididu, saiu à cata du garotu.
 
Umas alevantada i uns cascudo fizéru u mulequi abri u bicu: Das Dô havéra di si incontrá cum arguém lá pertu da várzi du Buqueirão, imbáxu du piquiazêru mais maió du lugá. Zé-das-Venta só num sôbi cum quem pruquê u mazelentu du garotu jurô di pé juntu qui tinha arrecebidu u papé iscrivinhádu das mão da filha mais moça di dona Zefa, a Jacira, sem qui essa uma disséssi di quem era u bilheti. Num pricisô nem di a alcuvitêra tê faladu, êli sabia: só pudia sê du fio-duma-égua du violêru du Demu.
 
Pois intão, pur essi mutivu é qui Zé-das-Venta tava lá di butuca, prontu pru bóti. Mais mermu cum u clarão da lua u inciumadu tinha difircudadi di inxergá, já qui todu u ódio du mundu morava nu seus óio i nu seu coração.
 
Foi quanu, seu mininu, Zé viu sua muié nu caminhu cumu qui percurandu arguém. Sua frô, sua perdição. Cumu pôdi fazê issu cum eli, qui só lhi deu amô i fazia tudas suas vontadi? Já ia saí correnu pra pegá a disnaturada, quanu trupicô nu seu ódio i si estabacô nu chão. Nu qui alevantou as vista, adespois di si alimpá, já num viu mais Das Dô. Cadê u diabu da inganadora? Adondi si meteu? Uns quinze minuto adespois é qui cunseguiu avistá entre uns casal qui lá tava namorandu, pertu du piquiazêru mais maió, o disavergonhadu du violeru dus infernu, agarradu num vurtu di muié: a sua! Só pudia sê ela, seu amô, sua frô, sua perdição!
 
Sem contá cunversa pulô qui nem curiscu pra riba di Terenço, qui num tevi tempu di si desviar da pexeira. Mermu feridu, u violeru – cumu eu tinha dito – era cabra forti i mermu sem intendê direitu u qui acontecia, sacô mais qui dipressa di sua lambedeira i partiu pra riba di Zé-das-Venta. Nessas artura, tudu mundu correu pra vê o qui tava assucedendu i viram quanu us dois marruá caíru nu chão, rolandu ribanceira abaixo. Uma gritaria dus diabo sirvia di música pra peleja dus dois. Num demorô muito dois gritu medonhu suaram mais artu qui todus us otru gritu. Era dus dois. Tendu a alumiadora e us casal pur testemunha, us dois briguentu caíru, um pra cada ladu. Impampadus di suó i sangui. Ninguém si atrevia a chegá pertu delis. Só uma muié, a qui tava agarrada cum u violêru, gritandu cumu uma sireni, correu até lá. 
 
Quanu apercebeu qui us dois tava sem vida, si agarrô disisperada nu corpu marrudo di Terençu, chorandu cum toda força di seu peitu di menina moça: era Jacira, filha mais moça di cumadri Zefa, qui gritandu pra lua perguntava pru mó di quê aquilo havéra di tê acunticidu. Jacira, chorandu muitu, dizia qui tava di namoricu cum u tocadô fazia nem trêis dia i aproveitandu qui sua amiga Das Dô tinha marcado di si incontrá cum seu amanti secretu ali, marcô também cum u violeru, seu premeru i únicu amô.
 
Nessa merma hora, já distanti muitas léguas dali, Das Dô si acunchegava nus braçu di seu Zé, aqueli um da botica, qui tinha lhi prumetidu qui na premera oportunidadi largava tudo qui tinha e carregava cum ela da vila pra morá mais eli na cidade grandi, pois uma muié cumu ela, cum aquelis óio di Capitu, miricia um futuru mais mió.
 
Ricardo Pereira – Músico, professor e cronista. 

O Sapo que come ração de cachorro (crônica de Marcelo Guido)


Corria o ano de 2013, que até aquela data era mais um ano normal em minha vida. Estava eu, Marcelo Guido, lá, com meus áureos 33 anos, recém-chegado do show do The Cure (que fez a vida voltar a ter algum sentindo). Enfim tudo indo tranquilo.

Um choque, como se um ônibus de dois andares (daqueles vermelhos ingleses) tivesse batido em mim. E nesse caso não foi nada honroso. Me separei. Sim, as histórias de amor eterno, que todos pensam em ser pra sempre teve um final.

Sai naquela noite, tão sombria quanto “Love Will Tear Us Apart” do Joy Division e caminhei toda Avenida Fab (quem é daqui sabe quanto é longa), a procura de alguém para conversar e  contar meu drama familiar.

Quem poderia me salvar.  Às vezes precisamos de um tapa na cara ou um empurrão para cairmos na real e percebermos que coisas como aquilo tudo não é fim do mundo. Mas quem encararia tal missão? Talvez um amigo, um irmão, um cachorro sei lá.

Sem saber para onde ir, fui atrás de um amigo, que é meu primo, tecnicamente meu irmão. Talvez ele, por ser da mesma idade que eu e saber de tudo que se passava em meu matrimonio (não por ser confidente, por que isso é meio veadagem) mas por ser da mesma época, idade e sons, talvez ele estivesse acordado. Naquela hora.

Cheguei a sua residência, o chamei contei toda situação. Sério, eu precisava falar. Olhando-me com aquela cara, que só os mais  canalhas personagens  de Nelson Rodrigues poderiam ter, escutei de meu primo André Montalverne:

“Cara, não sei oque te dizer, mas tu já viu um sapo comendo ração de cachorro??”

Respondi:“Não!”

Eis que este individuo abre uma porta dentro de sua casa e estava lá: o famigerado anfíbio literalmente rangando a ração do cachorro (que não era Foster).

Bem nutrido e satisfeito, sinceramente esperei que aquele batráquio saísse com uma cartola e uma bengala cantado “ Hello my baby, hello my honey, hello my ragtime, summertime gal…” como aquele clássico desenho. Merda não aconteceu.

Duas coisas que aprendi nessa noite: Nada é tão bom que não possa ruir e que ninguém cria sapos melhor que André Montalverne.

Ah, e fomos ao Bar.

Marcelo Guido é pai da Lanna e gosta mais de Rock, cerveja, churrasco e cigarros do que de pessoas.

Minha maravilhosa família e nossas reuniões incríveis…

 
Já dizia o tal Leon Tolstói: “A verdadeira felicidade está na própria casa, entre as alegrias da família”. Em 1976, numa tarde quente de setembro, nasci. Graças a Deus, em um clã honrado, honesto e recheado de gente porreta.
Quem me conhece sabe, não possuo um comportamento politicamente correto, mas tem duas coisas que são primordiais para mim: a minha família e o meu trabalho.
Os “Penha Tavares” (meu clã paterno) são uma das famílias tradicionais de Macapá. Meus avós foram pioneiros na capital amapaense e tals. Tem tanta gente bem sucedida no nosso grupo familiar e há tanto respeito mútuo que me orgulho de descender deles (claro que eu e meu irmão Emerson também herdamos paideguices da mamãe).
No último domingo (12), durante o almoço de Círio, nos reunimos. Fui com minha mãe, Lúcia, a casa da avó Peró. Lá nos juntamos à vovó, meus tios, tias e primos. É um monte de gente inteligente, alegre, a maioria bem humorada e de alto astral (é só não pisarem no calo, pois conosco, é um quilo certo. E bem pesado!).
O mais legal é que essas reuniões colorem nossas vidas. Nelas, nem todo muito bebe e nem todo mundo samba, mas consertamos o mundo, reinventamos a vida, conversamos sobre assuntos diversos, até inusitados.  Além de muita memória afetiva (lembranças bacanas do vovô e papai, que já viraram saudade), brincadeiras, boa comida, ótima música e, é claro, cerveja pra caramba!
Outra coisa bacana é que, lá o papo é sincero e sem hierarquia. Nos posicionamos sobre o contexto atual do país, Amapá, mundo e nosso micromundo. Não somos “bonzinhos”, mas tentamos ser justos. Até brincamos com nossas imperfeições.

Me orgulho de nortear minha vida pelos princípios aprendidos com minha mãe, pai, tios tias e avós paternos. Garanto que, apesar das maluquices que cometo, preservo a retidão do meu caráter, a exemplo dessas pessoas, fundamentais na minha vida.

Meu falecido pai, Zé Penha (meu super-herói absoluto!), primogênito do vô João disse-me uma vez: “é preciso dizer que você ama as pessoas em vida, pois depois que elas partem, já era”. Assim fazemos a cada encontro desses. É sempre emocionante!
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E olha que falamos de tudo. Desde temas tidos como polêmicos em muitas rodas como política, orientação sexual, religião, futebol. E outros bem inspiradores, como literatura, cinema, além de bobagens legais.
Bom, é assim. Seguimos com amor mútuo. Ah, não só no Círio, mas sempre. A gente se junta, se ama e é feliz! Bom resto de terça-feira e semana pra todos nós. Principalmente, para minha família.
 
Elton Tavares

*Tema sugerido pelo tio Paulo, pois o meu blog também é assunto nos nossos felizes encontros. 

Quem morre vai pra Caiena (*)

Crônica de Fernando Canto

 

Dizem que depois que alguém “leva o farelo”, “bate as botas” ou “foi para a cidade dos pés-juntos” só tem um destino: Caiena.
 
Apesar de ter indagado várias pessoas sobre essa afirmação (que muita gente leva a sério), ninguém, ninguém mesmo soube me dizer o porquê. Nem o Paulinho Piloto que já foi lá tantas vezes ousou sequer inventar uma resposta.
 
Há, entretanto, uma versão um pouco aceitável, que é a de quem vai para lá nunca volta. É antiga: nossos emigrantes se mandavam para trabalhar na construção civil da base espacial de Kourou, se davam bem por lá e nunca mais retornavam. Uns ficavam e faziam suas carreiras como trabalhadores esforçados, e com o compromisso de apenas mandarem umas valiosas notas de franco para a família (na época não existia a união europeia e nem o euro). Outros, por não gostarem muito do pesado, acabavam ficando nas mãos dos gendarmes e consequentemente amargando uma pena nas prisões má afamadas do lugar, tipo Ilha do Diabo (que diga o seu Plancantã, pai do Waldir do Calçadão).

A maioria dos brasileiros que vai para lá vai se arriscando. São inúmeros os relatos dos que se aventuraram como clandestinos e acabaram ficando pelo meio do caminho. Perto de casa, quando criança, ouvia notícias de vizinhos que morreram afogados nas travessias do rio Oiapoque, em naufrágios de pequenas e frágeis embarcações. Todos eles eram muito pobres e tinham essa ideia fixa de ter um bom emprego e voltar com uma pequena fortuna para se restabelecer em Macapá. Lembro que uma dessas pessoas foi a Maria Lúcia, irmã da saudosa Maria Piçarra. A notícia de sua morte deixou consternados os moradores do Morro do Sapo, no Laguinho, mesmo assim, isso não inibiu o desejo de outros se aventurarem na mesma rota.

 

O engraçado é que Caiena é uma cidade aparentemente bonita, não tem problemas graves de trânsito e seu centro histórico é agradável aos olhos dos turistas, como a Place des Palmistes, o mercado de frutas, a área comercial, o porto e os prédios administrativos. Nada ali indica que é um inferno, ainda que como qualquer cidade cosmopolita tenha lá seus problemas sociais.
 
Mas se Caiena é a estação final de quem morre em Macapá, por que os caienenses não acham que quem morre lá vem para cá? Talvez o inferno daqui seja mais certo. Ninguém quer padecer depois da vida no Brasil, muito menos aqui em Macapá. Então parece ser mais cômodo “dar um jeitinho” brasileiro para ser condômino do paraíso de Caiena (com possibilidade de ser eleito síndico, comprando voto ou não) do que ficar com a alma vagando aqui, mesmo que o corpo esteja enterrado lá no “Barcelão”.

 

A expressão ”foi pra Caiena” ou “viajou pra Caiena”, é uma metonímia e um eufemismo, que serve para suavizar a rudeza da morte indesejável dos amigos e conhecidos. Mas como não tem jeito para ela nós vamos inventando maneiras de driblá-la, e esta certamente é uma delas, afinal a morte representa o fim absoluto de qualquer coisa que existe de positivo, e simboliza tudo o que é perecível e destrutível da existência.
 
Mas se “ir pra Caiena” é morrer, é bom também lembrar que a morte significa libertar-se das preocupações e penas e que ela abre o acesso ao reino do espírito. Dizem que a morte suscita a necessidade de ir mais longe, pois ela é a condição para o progresso e para a vida.
 
Certa vez, lá em Caiena, participando de um desses festivais culturais, o Bomba D’água reconheceu um gari que varria a praça do centro da cidade. Era o Maiambuco, um amapaense que tinha saído de Macapá para a Guiana Francesa há mais de trinta anos e que ninguém mais sabia dele. Bomba D’água, também conhecido por Joaquim, chamou o Pavão, apontou com o dedo e disse: – Olha o Maiambuco lá! O Pavão ficou tremendo e meio amarelo de medo, quase não acreditando, mas exclamou: – É mesmo, Bomba. É por isso que dizem que quem morre vem pra Caiena. Égua, vamo embora daqui.
 
(*) Publicado no Jornal do Dia. 2007.

Abriu, não troca mais. (crônica do amigo @idanielsa em homenagem aos 100 anos do Palmeiras)


Havia chegado o grande dia. Finalmente compraria seu primeiro time de futebol de botão.

Subiu em sua bicicleta e se dirigiu ao pequeno estabelecimento comercial, onde, tradicionalmente, se vendia de tudo um pouco. A distância a percorrer era razoavelmente grande para uma criança com pouco menos de dez anos.

Apesar da pouca idade, ele já se declarava torcedor do Flamengo, só que o time de futebol de botão que encheu seus olhos foi o do Palmeiras, com aquele verde forte e imponente. A década de 80 foi um período com grandes conquistas do rubro-negro carioca no futebol nacional e internacional, sendo previsível que crianças em todo o país passassem a simpatizar e torcer por ele. Mas o garoto, desconhecendo o longo período sem conquistas que o clube paulista enfrentava, escolheu o alvi-verde palestrino* como seu primeiro time de futebol de botão.

Voltou para casa todo orgulhoso pela compra, ansioso para estreá-lo mostrando ao irmão mais velho, ao tio quase da idade do irmão, aos primos e aos amigos da vizinhança. Agora poderia brincar sem ter que pedir emprestado deles.

Quando abriu a embalagem, uma surpresa nada agradável. As peças estavam todas retorcidas… tudo empenado. Talvez por ter sido exposto ao calor excessivo do meio do mundo**, o material plástico não suportou e entortou. Ou o defeito poderia ser da fabricação, não havia como descobrir. O certo é que todos disseram pro garoto voltar lá para trocar, e foi o que ele fez.

No estabelecimento comercial, com o brinquedo em mãos, pediu que fosse trocado por outro em perfeitas condições de uso, mas ouviu do comerciante, com um ligeiro sorriso na boca, uma frase que marcaria sua infância:

_ Abriu, não troca mais.

Um abatimento profundo tomou conta daquela criança, que voltava para casa em sua bicicleta deixando pelo caminho não só as marcas dos pneus, mas também as marcas da sua tristeza infindável, com as lágrimas que pingavam no chão.

“Crônica autobiográfica que escrevi em 2009, em meu antigo blog “anônimo”, que hoje dedico ao centenário da Sociedade Esportiva Palmeiras” – Ivan Daniel Amanajás

* Palestra Itália foi o primeiro nome do Palmeiras.
** A cidade é cortada pela Linha do Equador.

Obs: Eu, o dono do blog, sou flamenguista graças a Deus. Mas o texto é legal e o cara é brother. Parabéns a ele e ao seu time. 

O Dia que o Godão morreu (crônica escrita há exatamente 1 ano – Por @hccintia )

Por Cíntia Souza


O nó na garganta deixou meu o corpo mole. Acordei de luto. A tristeza é algo que enfraquece de dentro pra fora, sem te dar chance de reagir. “Foi de repente”, “Eu falei com ele ontem”, “Disseram que foi o coração… Mas também, mano!”, “É! A boemia tem preço”.

Meu amigo morreu.  Meu parceiro morreu e a gente nunca viajou junto, digo, ao menos não para outros lugares. Por isso não quero ficar com as lembranças, muito menos pirar com aquela lista de tudo o que não fizemos ou me punir por não saber aproveitar melhor o nosso tempo. Só a ideia me irrita. Tá certo! Tenho problemas com a morte. Invejo kardecistas. Eles são tão serenos na hora da passagem. Eu acho que eles fingem. 

Godão, Godão, se você estivesse aqui com certeza iria tirar um barato. O povo chorando, contando histórias, rindo, contando histórias e chorando. Interessante, todos têm algo para contar. E agora, como eu vou saber qual parte dessa biografia é real? Vai virar lenda, hein. É melhor deixar quieto. 


Além dos amados, da família firme e forte, será que você imaginaria que fulano viria até aqui? Beltrano também veio! Vixe… foram muitos encontros e desencontros. Eu queria que você pudesse ver isso. Tenho certeza que já imaginou o próprio funeral. Afinal, quem nunca?

Não faz muito tempo, talvez haja dois ou três meses, você postou algo sobre a sua rotina no trabalho e eu comentei citando a letra de uma música que a gente curte: “Eu desejo que você ganhe dinheiro, pois é preciso viver também. E que você diga a ele, pelo menos uma vez, quem é mesmo o dono de quem”, e você emendou, “Eu te desejo muitos amigos, mas que em um você possa confiar”.

Sobre essa coisa da morte repentina, sabe o que mais revolta? A gente nunca foi do tipo que compartilha frases de Caio Fernando Abreu no facebook. A gente vivia na vera. E como vivia. Éramos Carpe Diem total! E, não sei se pelo fato de sermos jornalistas, mas fazíamos questão de registrar tudo. Tinha quem nos considerasse exibicionistas. Comédia! É injustiça tirar a vida daqueles que tentam aproveitá-la ao máximo. É isso o que revolta! E nós sabíamos aproveitar a vida como poucos.

Não sei por que conjuguei o verbo no passado. Afinal tudo isso foi apenas um sonho. Acordei fraca, com sede e com aquela aflição entranhada na alma. Passei a manhã pensando se aquele sonho teria algum sentindo, um significado especifico. Não encontrei nada até agora. Mas, ainda durante a manhã falei contigo in box, e te fiz me prometer que não vais morrer. Você jurou. 

O fato é que as pessoas morrem. Para quê, né?! Mas acontece. E sempre foi assim desde o começo. Dizem que teve um cara que foi e voltou, rasgou o véu, desceu a mansão dos mortos, mas depois ninguém nunca mais o viu. Há quem espere seu retorno. 

Daí eu fico pensando se há uma solução para isso. Mas não sei se queria ver alguém retornar do lado de lá… Creio na cruz!

A jornalista Cíntia Souza é uma querida amiga deste blogueiro. Ela escreveu essa crônica após eu pensar que ia levar o farelo, depois de um mal estar súbito, em 2013. 

Quando a eleição acaba amor e amizade

Por Xico Sá

Até que a eleição nos separe, como diria o Amigo da Onça, o grande personagem de Péricles (na ilustração acima para os mais jovens).

Até que a eleição complique geral os relacionamentos. Seja no amor ou seja na amizade, começa a temporada de relações estremecidas por causa dessa velha invenção grega, a política.

Inevitável algum tipo de rusga quando o tempo fecha no botequim, no almoço de domingo na casa da sogra e principalmente nas redes sociais –essa imensa Boca Maldita virtual, só para lembrar o clássico local onde Curitiba discute as mais relevantes questões da humanidade, incluindo as mordidas do vampiro.

Até o começo dos anos 90, quando as coisas eram mais definidas entre esquerda e direita, dificilmente se formaria, entre os mais politizados, um casal de um(a) petista, por exemplo, com um(a) malufista.

Com a suruba eleitoral de hoje, como definiu o alcaide do Rio, as coisas mudaram muito. Óbvio que não é fácil encontrar um matrimônio entre um(a) jovem do PSOL e um(a) tucano(a).

O barraco ideológico até a apuração será inevitável. Não sei se isso é de tudo ruim. É democrático o embate, o conflito de ideias. Desde que não se bote a mãe no meio, como previsto já na Grécia Antiga.

Tem gente que tem paciência para a discussão; tem gente que não tolera. Óbvio:  se a amizade for firme mesmo, os laços de ternura irão estremecer mas resistirão às urnas.

Relacionamentos apenas virtuais, bem, esses serão destruídos em massa. A chacina já começou faz tempo

Não há manual para sair ileso. Se a Copa já foi politizada ao extremo, quando nego chegou a confundir CBF com órgão público, imagina na eleição, infinitamente mais passional e inflamável.

O arranca-rabo será ao melhor estilo Beco do Cotovelo, a tribuna pública de discussões filosóficas de Sobral (CE). Não foi à toa que ali mesmo, em 1919, a equipe de Albert Einstein comprovou, diante de uma eclipse do sol, a Teoria da Relatividade.

O pau vai cantar. O nível vai ser mais abaixado que mecânico de skate.

E você, leitor(a), já adotou um critério para usar nas redes sociais? Vai limar do seu círculo de relacionamento os amigos da onça?

Mesmo um pacífico anarquista-cristão da linha Tolstói, naturalmente contra o voto burguês, deve perder a paciência em algum momento.

Enfim, em que casos, você acha que é inevitável estragar uma amizade por causa das eleições?

O Bar é uma Antena Social (crônica de Fernando Canto)

Por Fernando Canto

Cansados estamos de saber que o bar é um espaço democrático, principalmente se é popular, aberto. No entanto é o lugar onde as ideologias emergem até com fundamentalismo. É um mundo em que os fatos ali ocorridos e as histórias contadas também são objetos de exposição de valores, de ocultação de defeitos e de promoção e marketing pessoal, demandados pelas incertezas do futuro, pelo processo político e pelas contingências da história. Logicamente também é um espaço de festa e de lazer; local onde as emoções se eriçam e se cruzam, onde notícias quentinhas esclarecem novos conhecimentos; amores secretos são aprofundados ou descobertos e por isso geram descontroles emocionais e físicos entre pessoas que até então nunca podíamos pensar tão valentes ou covardes. No bar as emoções se revelam em paradoxos inusitados.

Talvez por isso, e nesta crônica despretensiosa, eu possa entrar no mundo do bar para dizer o quanto ele é, também, um gueto disfarçado, às vezes uma roda violenta de preconceitos, que envolve quase todos os integrantes dessas assembleias ocasionais. O bar, antes de ser um balcão onde as pessoas ficam em pé ou sentadas em bancos altos consumindo bebidas alcoólicas, é também uma unidade de medida de pressão, segundo o Aurélio. O interesse pelo bar tem um condicionamento sociológico que vai além da mera vontade de tomar uma cerveja gelada, ou de querer ficar só por alguns momentos, ou mesmo se envolver em assuntos antagônicos aos problemas sentidos para não ter que cair na real. 

Cada qual sabe a casca que tem para aguentar o que ronda cada cabeça pensante e a sua sentença sarcástica, pois inúmeros são os que ali vão para somente consumir o inconsumível, ou seja, a paz que o outro carrega. Os chatos, de certa forma dão vida ao bar.

A família dos chatos é grande, tradicional, seus membros estão em todas as partes; muitos são perdulários e só demonstram humildade quando perdem tudo no jogo ou quando têm suas contas confiscadas por ordem judicial. Mas esses são os que conseguiram se ascender na escala social à custa do dinheiro público. Mesmo depois que são soltos da cadeia continuam chatos e arrogantes. Existem os chatos desmemoriados: aqueles que contam as mesmas piadas, mas sempre se esquecem dos finais, assim mesmo só eles riem da sua própria graça. Os chatos pedintes são os mais comuns. Revelam-se humílimos, franciscanos ao extremo e matam a mãe para acertar em cheio no alvo da comiseração alheia. Ao contrário desses existem os chatos barulhentos, que no jogo de futebol, na televisão, gritam tanto que cospem no copo de todo mundo num raio de três metros. E haja perdigoto na cerveja dos torcedores contrários. É claro que se podem identificar muitos desses elementos e até classificá-los, o que para tanto peço ajuda dos companheiros que não se autorrotulam nesse metier. Quem sabe não façamos um tratado sobre esse bloco afamado e muito peculiar, cujos elementos também são conhecidos cientificamente como insetos anopluros da família dos pediculídeos, os famosos Phthirius pubis (L.), que vivem no mundo inteiro sugando as pessoas.

Desde muito tempo frequento bares e neles tenho encontrado pessoas de todos os tipos: políticos, beberrões inveterados, jogadores de futebol, profissionais liberais, padres, estudantes, gente de preferências sexuais diversificadas, funcionários públicos, poetas, jornalistas então… No bar há excelentes contadores de piadas e cantadores da noite com suas alegres vaidades. Mas também há os professores de Deus, que do alto de suas sapiências enojam, mas recebem os olhares irônicos dos mais humildes que acham que eles “só querem ser o que a folhinha não marca”.

O bar pode dar condições para o diagnóstico de uma sociedade. É uma antena extremamente poderosa e propícia para captar preferências individuais e coletivas. Pode ver! Pelo meu lado, faço minhas observações e bebo. E vice-versa. Malograda alguma companhia, só penso no ditado do Paulinho Piloto: “passarinho que acompanha morcego dorme de cabeça pra baixo”. 

(Do livro “Adoradores do Sol”, de Fernando Canto. Scortecci, S. Paulo, 2010).

Esquizofrenia do Amor

Por Fabrício Carpinejar

Não sei o que é mais perturbador: aquele que se sente incomodado e discute a todo momento ou o que atravessa a tempestade verbal sem nenhuma alteração de humor.

Já fui os dois, mas ainda arco com a indecisão sobre qual tipo ajuda mais o amor. Não tenho a resposta, até porque resposta nem sempre é solução.

Qual o perfil mais agradável: o que debate sem parar ou aquele que não debate nunca? O que chora nos primeiros minutos de distância ou o que não chora jamais? O que se desespera nas divergências ou quem vira as costas, bate a porta e foge de qualquer conversa séria? O que se mostra muito interessado em tudo o que se vive dentro do casamento, corrige os problemas na hora, sofre horrores para se fazer entender ou o que despreza os aborrecimento diários, não alimenta a fogueira das palavras e larga discussões com a confiança intacta, como se nada tivesse acontecido?

Não venha concluir que é o meio-termo, o meio-termo não é uma realidade amorosa.

Gostaria de entender qual dos extremos tem mais sucesso na resolução dos conflitos. Sobram pontos positivos e negativos para ambas as partes.

O primeiro ama escandalosamente, sofre com as oscilações do cotidiano, só que também não deixa os desentendimentos naturais esfriarem. Pode gerar rupturas pelo cansaço.

O segundo facilita a mudança de estado de espírito, só que parece gélido e imperturbável, subestima as dificuldades da companhia e corre o risco de criar um perigoso distanciamento na relação.

O primeiro tem a virtude da sinceridade, porém estraga a noite com sua ansiedade. Briga e não consegue realizar coisa alguma até firmar as pazes. Não dorme, não come, mergulha no mal-estar profundo. Apresenta beiço, raiva, contrariedade e vai se aquietar apenas com carinhos, abraços redentores e pedidos espalhafatosos de desculpa. É sincero, porém passional.

O segundo tem uma leveza maravilhosa e também irritante. Recém quebraram os pratos e conversa com absoluta desmemória, como se estivesse acordando naquele momento. Ao mesmo tempo em que evita dramas desnecessários, também não permite a intimidade da raiva e da catarse. A sensação é de que os gritos e as discordâncias entraram por um ouvido e saíram pelo outro. Você está inchada do choro e ele já está vendo sua série predileta e rindo loucamente.

É uma dúvida insaciável, a mesma que atinge nossa reação diante do ciúme: se preferimos estar acompanhados do preocupado que não oferece um minuto de trégua ou de um indiferente, que nem nos olha?

Cada vez mais reconheço que no amor não existe o melhor, mas o menos pior.

As costas que suportam o mundo não suportaram covardia

Crônica / Matheus Pichonelli

Na coletiva de imprensa da véspera da estreia na Copa do Mundo, um repórter desafiou Neymar a fazer uma pergunta ao chefe, Luiz Felipe Scolari.

-Eu jogo amanhã, professor?, perguntou o camisa 10, provocando não um riso, mas uma gargalhada no treinador e nos jornalistas que acompanhavam a entrevista.

A pergunta era quase um drible característico: tão improvável quanto absurdo. Que ele jogaria estava claro desde que vestiu pela primeira vez a camisa da seleção brasileira, em um amistoso contra a seleção dos EUA, em 2010, ainda sob o comando de Mano Menezes. Desde então, a equipe se resumia a uma frase: era ele e mais dez. Ele e mais dez contra a rapa.

O drible de Neymar na coletiva era o drible em uma armadilha. O que todos queriam saber, dentro e fora daquela sala de imprensa, era se ele, a partir do dia seguinte, suportaria todo o peso do mundo em suas costas. Durante cinco partidas ele suportou. Nem sempre com brilho, mas suportou: foram quatro gols, um pênalti derradeiro contra o Chile, e duas assistências, uma delas no duelo das quartas, quando fez a bola atravessar, oblíqua e dissimulada, a área colombiana até chegar aos pés do capitão Thiago Silva.

Àquela altura já imaginávamos como seria o duelo com os alemães, na semi: o Brasil, um time entre médio e esforçado, contra uma equipe tão fria e previsível quanto mortal (um amigo costuma dizer: “nada contra a seleção alemã, mas eu prefiro futebol”). Mas os anfitriões tinham um trunfo, ele vestia a camisa 10 e era o único dos 22 em campo capaz de desembaralhar um castelo de cartas construído na base da ciência, da técnica e da aplicação.

Triste ironia: as costas que suportaram o mundo não suportaram a covardia, uma entre tantas sofridas desde que pisou em campo como profissional. Dessa vez, a joelhada do lateral Camilo Zuñiga, aos 40 minutos do segundo tempo de um jogo quase ganho, doeu mais. Não a dor física, a menor das dores, ainda que imensa. Mas a dor de ser içado, com um gancho de guindaste, do próprio espetáculo: uma Copa, em casa, no auge da forma técnica e física.

O Brasil que se chocou ao ver a fratura da tíbia de Anderson Silva, a rótula exposta de Ronaldo Fenômeno e a batida fatal de Ayrton Senna assistia, assim, ao seu principal jogador na década deixar o estádio a caminho do hospital na maca, aos prantos, com um lenço no rosto como um sudário. Não, não precisávamos de um outro mártir, não a essa altura do campeonato. Porque, no fundo, sabemos: não há lição na perda se não a dor, e esta não deixa legados. Mas se há didatismo em toda tristeza é que no esporte, como na vida, não são os músculos e o desejo que moldam o destino, mas as rasteiras. As rasteiras e suas variações: uma joelhada nas costas, um pênalti cavado, uma mordida no rival, um carrinho criminoso. O arsenal entra na lista das habilidades humanas, e tudo o que é humano é imponderável.

No mundo ideal, o futebol seria só futebol, um intervalo lúdico de uma rotina ordinária. Na vida real o esporte é mais que isso: é a rotina ordinária em retrato instantâneo. A rotina ordinária e suas contradições. Nele reconhecemos a beleza, como o consolo de David Luiz sobre James Rodríguez ao fim do jogo. Mas reconhecemos também nossas misérias.

Dentro de campo é possível identificar em tempo real a potencialidade destruidora da nossa preguiça, da nossa mesquinharia, da nossa covardia, da nossa pequenez, da nossa arrogância, da nossa presunção. No esporte, como na vida, ensinam apenas que o importante é vencer. E que não há superação sem conquistas. Por causa dessa lógica, muitos foram limados do esporte, e da vida, sem ter a chance da redenção. Neymar é jovem, vai ser reerguer, vai disputar outras Copas e pode levantar a taça ainda este ano. Mas será sempre, e a partir de agora, a imagem, carregada na maca, de um tempo projetado por Carlos Drummond de Andrade: o tempo em que as mãos tecem apenas o rude trabalho, e o coração está seco – por mais que chorem, eu diria, porque choram de aflição e medo. Justo ele, que suportou o peso do mundo sobre os ombros.

Neymar não é só vítima do absurdo: é vítima de um risco calculado, a estratégia que ensina obediência tática pela imprudência física. Uma imprudência modelada na preleção: se for para perder o jogo, é melhor não perder a viagem. Zuñiga obedeceu às ordens, como os rivais brasileiros, e suas botinadas não menos imprudentes, ao longo de toda a Copa.

A fratura na terceira vértebra lombar tirou Neymar da Copa, e tirou do mundo a oportunidade de assistir, na próxima terça-feira, ao duelo mais nítido entre a razão e o improviso, entre a matemática e a falta de juízo. Não só: tirou o mundo das costas de Neymar e o distribuiu aos outros jogadores da equipe. Nem o mais pessimista dos torcedores imaginaria um roteiro tão cruel, mas do absurdo pode nascer a redenção. Agora não é mais Neymar e mais dez. É Neymar e mais onze. O mundo agora, diria Drummond, não pesa mais que a mão de uma criança.

Complexo vira-latas (Nelson Rodrigues) – Sobre a Seleção Brasileira de 2014


Já não terá passado a hora de lembrarem-se os convocados de Felipão que são os únicos pentacampeões do mundo?

Não será conveniente lembrá-los que o futebol brasileiro pode ganhar o hexa não por essa bobagem de peso de camisa – que não existe -, mas porque dispõe de jogadores em condições de conquistar o título, muito embora o time esteja jogando aquém do necessário?

Então leiam Nelson.

E vamos deixar de lado o complexo de vira-latas.

Complexo vira-latas

Hoje vou fazer do escrete o meu numeroso personagem da semana. Os jogadores já partiram e o Brasil vacila entre o pessimismo mais obtuso e a esperança mais frenética. Nas esquinas, nos botecos, por toda parte, há quem esbraveje: “O Brasil não vai nem se classificar!”. E, aqui, eu pergunto:

— Não será esta atitude negativa o disfarce de um otimismo inconfesso e envergonhado?

Eis a verdade, amigos: — desde 50 que o nosso futebol tem pudor de acreditar em si mesmo. A derrota frente aos uruguaios, na última batalha, ainda faz sofrer, na cara e na alma, qualquer brasileiro. Foi uma humilhação nacional que nada, absolutamente nada, pode curar. Dizem que tudo passa, mas eu vos digo: menos a dor-de-cotovelo que nos ficou dos 2 x 1. E custa crer que um escore tão pequeno possa causar uma dor tão grande. O tempo passou em vão sobre a derrota. Dir-se-ia que foi ontem, e não há oito anos, que, aos berros, Obdulio arrancou, de nós, o título. Eu disse “arrancou” como poderia dizer: “extraiu” de nós o título como se fosse um dente.

E hoje, se negamos o escrete de 58, não tenhamos dúvida: — é ainda a frustração de 50 que funciona. Gostaríamos talvez de acreditar na seleção. Mas o que nos trava é o seguinte: — o pânico de uma nova e irremediável desilusão. E guardamos, para nós mesmos, qualquer esperança. Só imagino uma coisa: — se o Brasil vence na Suécia, se volta campeão do mundo! Ah, a fé que escondemos, a fé que negamos, rebentaria todas as comportas e 60 milhões de brasileiros iam acabar no hospício.

Mas vejamos: — o escrete brasileiro tem, realmente, possibilidades concretas? Eu poderia responder, simplesmente, “não”. Mas eis a verdade:

— eu acredito no brasileiro, e pior do que isso: — sou de um patriotismo inatual e agressivo, digno de um granadeiro bigodudo. Tenho visto joga dores de outros países, inclusive os ex-fabulosos húngaros, que apanharam, aqui, do aspirante-enxertado do Flamengo. Pois bem: — não vi ninguém que se comparasse aos nossos. Fala-se num Puskas. Eu contra-argumento com um Ademir, um Didi, um Leônidas, um Jair, um Zizinho.

A pura, a santa verdade é a seguinte: — qualquer jogador brasileiro, quando se desamarra de suas inibições e se põe em estado de graça, é algo de único em matéria de fantasia, de improvisação, de invenção. Em suma:

— temos dons em excesso. E só uma coisa nos atrapalha e, por vezes, invalida as nossas qualidades. Quero aludir ao que eu poderia chamar de “com plexo de vira-latas”. Estou a imaginar o espanto do leitor: — “O que vem a ser isso?” Eu explico.

Por “complexo de vira-latas” entendo eu a inferioridade em que o brasileiro se coloca, voluntariamente, em face do resto do mundo. Isto em todos os setores e, sobretudo, no futebol. Dizer que nós nos julgamos “os maiores” é uma cínica inverdade. Em Wembley, por que perdemos? Por que, diante do quadro inglês, louro e sardento, a equipe brasileira ganiu de humildade. Jamais foi tão evidente e, eu diria mesmo, espetacular o nosso vira-latismo. Na já citada vergonha de 50, éramos superiores aos adversários. Além disso, levávamos a vantagem do empate. Pois bem: — e perdemos da maneira mais abjeta. Por um motivo muito simples: — porque Obdulio nos tratou a pontapés, como se vira-latas fôssemos.

Eu vos digo: — o problema do escrete não é mais de futebol, nem de técnica, nem de tática. Absolutamente. É um problema de fé em si mesmo.

O brasileiro precisa se convencer de que não é um vira-latas e que tem futebol para dar e vender, lá na Suécia. Uma vez que ele se convença disso, ponham-no para correr em campo e ele precisará de dez para segurar, como o chinês da anedota.

Insisto: — para o escrete, ser ou não ser vira-latas, eis a questão.

Nelson Rodrigues

O tempo de uma fotografia (Rubem Braga)


Foto de 1985. Eu, o único moleque de bermuda, estou de joelhos. Escola Santa Bartolomea Capitânio.

Não era nem ontem, e nós éramos um rostinho inocente posando para um retrato escolar. Olhinhos apertados, espertos, ávidos por ver a vida crescer. Crescemos nós. Já no mundo adulto, aquela foto da escola perdeu-se em alguma caixa parda que guarda fotografias do tempo em que elas eram reveladas. Eram aguardadas no suspense de seu conteúdo. Havia prazer em esperar. Fala-se disso:

_ As fotos ficaram boas? _ Vem aqui em casa pra ver!. Diálogos dos século passado. 

O mundo adulto, hoje, é cheio de pressa. Nem bem viveu-se algo, e esse algo já foi postado em alguma rede. Desfruta de uns segundos de visibilidade, para depois perder-se, em memórias cibernéticas. 

Será que as crianças de hoje ainda tiram fotos do tipo grupinho escolar? Todas as carinhas reunidas, professora do lado, e um fotógrafo gorducho mandando fazer xis.Não há muito tempo para esperas e aguardos.

 Hoje, é tudo para hoje. Será que no meio de tanta aceleração, dá tempo de se perguntar onde estarão aqueles meninos e meninas do nosso retrato escolar? Caminhos que nos engolem enquanto tentamos acrescentar alguns minutos à mais nas nossas horas corridas, e lá se foram os nossos primeiros melhores amigos.

Rubem Braga